sábado, 17 de março de 2012

Na rua (conto do blogueiro)

      Caminha pela calçada, suja e pueril, a jovem criancinha inocente no fim da noite daquele triste dia... As ruas desertas, as pessoas que passam apressam-se em chegar em casa, quando se esquecem de olhar para aquela pequena criatura.

       Era tudo triste, todos passavam com pressa naquele dia, e Juliana não tivera o que comer naquele dia, na verdade tivera, mas as crianças maiores logo trataram de roubar.

      Juliana não conhecia seus pais, sequer sabia quem são, afinal de contas não era prudente uma criança ficar com pais viciados... Desde pequeninha aquela pequena criatura de olhos remelentos, cabelos encaracolados negros, que lhe davam o apelido de "Bombril", e feições chorosas, vivia em abrigos... Volta e meia escapava, fugia para bem longe, nos arredores da cidade, onde, a menina se lembrava de seu velho avô, o caseiro de um linda fazenda.

       O velho Joaquim Sintra, português de nome, pobre de sobrenome, tinha um sotaque engraçado, falava com a língua e fedia a cigarro. O velhinho andava encurvado, cantando ao ensolarado um rito decorado:


Lisboa já tem sol, mas cheira a lua,  
Quando nasce a madrugada sorrateira 
E o primeiro elétrico da rua 
Faz coro c'oa chinela da Ribeira. 

Se chove, cheira a terra prometida, 
Procissões têm cheiro a rosmaninho.  
Na tasca da viela mais escondida, 
Cheira a iscas (com elas) e a vinho

Lisboa cheira aos cafés do Rossio, 
E o fado cheira sempre a solidão, 
Cheira a castanha assada, se está frio, 
Cheira a fruta madura, quando é Verão. 
Nos lábios tem o cheiro dum sorriso, 
Manjerico tem o cheiro de cantigas, 
E os rapazes perdem o juízo 
Quando lhes dá o cheiro a raparigas. 

            Seu avô sabia perfeitamente cantar o fado, o qual decorara desde criança, quando ainda morava com sua família em Viana do Castelo.

          O velho sabia como ninguém que não ia durar muito e planejava agora mandar sua netinha para sua querida terra para viver com suas tias... Trabalhava, trabalhava, capinava, arava, cuidava da fazenda ao Senador, que de quem nada sabia e de quem muito ouvira.

          O velho Joaquim sabia que o Senador não prestava, afinal de contas, não é um senador que pode comprar cem alqueires no meio do nada por bel prazer, mas o velho sabia que com isso não devia mexer.

          — Escute, minha netinha um dia você irá para Lisboa viver na vila onde seu avô nasceu, perto de Sintra, saberá minha pequenina como viver ao Tejo, crescer à sombra do mar e festejar no entardecer, pois lá é Portugal, lá é nossa gente. Escreva minha netinha quando um dia chegar lá, enquanto o seu velho avô fica cá.

             Tudo teria dado certo se não fosse o sádico destino conspirando outra vez, Joaquim caiu doente na fazenda, dizia-se ser dengue, ou algo assim, uma daquelas doenças de trópicos ditas “inevitáveis”. Era a segunda vez que Joaquim ficava acamado por causa daquele maldito mosquito a quem chamava, oportunamente, de “ferrolho”.

           Joaquim suava, regava-se em vômitos e náuseas, um português não era feito para aquilo, embora Joaquim amasse as vastas terras de Minas Gerais, ele amaldiçoava o dia em que deixaram os mosquitos proliferarem.

         A pequena Juliana ortodoxamente ficava todos os dias ao lado do seu avô doente e enfraquecido, aquela pequena criatura de cinco aninhos, de olhos arregalados e  feições inocentes observava seu avô afundar-se mais e mais na cama.

        No leito, quase morrendo, Joaquim ouviu o padre lhe benzer:

          “Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, você renuncia a todos os seus pecados, Joaquim Sintra?”
            — Sim, eu renuncio.
            O senador, a primeira vez em que Juliana via aquele senhor, aparecera de relance naquela cabana de capataz, sem demonstrar a mínima emoção. O senador era uma pessoa fria, calculista, que não se importava com os outros, tinha uma reconhecível barba à la Stálin, meio grisalha agora, cabelos penteados para trás, presos por brilhantina, e olhos reconhecidamente de raposa... E pensar que foi jornalista, agora era um articulador do País e dono de metade de um Estado da Federação.

             — Joaquim, você descuidou da fazenda? Como pôde fazer isso? Agora a fazenda é foco de mosquito da dengue, e tudo por quê? Porque você descuidou das suas obrigações!

              Isso, em pensar, que o próprio senador era conhecido por desviar verbas da saúde para seus “fins próprios partidários” e que era um tenaz aproveitador do próprio governo em Brasília.
             — Desculpe, senhor senador, isso não vai voltar a acontecer.
             — Claro que não vai voltar a acontecer porque você está despedido! Pegue as suas coisas e saia imediatamente.
            — Mas senhor Ney, eu fiz tudo que o senhor mandou, eu tenho cumprido rigorosamente durante todos esses anos todas as suas ordens sem reclamar. Senhor, eu não posso sair nesse estado, eu ainda tenho uma netinha para cuidar.
               O senhor Ney olhou a pequena criancinha que o olhava assustada e com pavor, e indiferente disse: “Isso não é problema meu! Cuide-se! Eu tenho mais que fazer!”


                E o senador saiu da cabana do caseiro... O padre, ainda muito novo, entretia-se a recitar alguns versos inúteis em Latim enquanto lançava um vapor sobre o corpo fragilizado do português.
            — Obrigado, caro frei, sou feliz de partir assim, ungido. Eu gostaria que o senhor fizesse um último favor a mim.
            — Qual, meu caro?
            — Que levasse à minha filha uma carta, dizendo que estou enviando Juliana para Lisboa agora mesmo.
             — Mas e sua neta?
             — O senhor poderia levá-la ao aeroporto? Eis aqui a cartinha para a viagem, as tias dela sabem de tudo em Portugal.
              — Sim, senhor, eu farei isso.
              Mas o padre não o fez, o religioso ao invés de fazer o que agora o finado ancião pedira, tomara para si o dinheiro da passagem (na verdade disse que ia para a Igreja e para o senhor, mas gastou tudo em cachaça), não enviou nenhuma carta à mãe da menina e de quebra, ainda no caminho, tentou molestar a menina, que conseguiu fugir com muito assombro do padre pedófilo.

            Agora, com oito anos, com muito medo de tudo e de todos, a menininha vivia naquela cidadezinha sem muito com que se viver, fugia volta e meia dos “canas”, policiais corruptos que sempre se davam ao trabalho de bater nela por diversão; Aqueles dias estavam sendo difíceis, agora que não haviam muito mais comida para se comer.

            Eis que uma senhora tinha aparecido para ajudá-la, ela sempre ajudava na medida do possível, dando água, comida, roupa... Era uma velhinha muito amigável, que se solidarizara pela pequena garotinha branca de olhos azuis e cabelos encaracolados, mas agora, até mesmo a velhinha estava tendo problemas financeiros.

           Choviam caminhoneiros na estrada que se diziam “interessados em ajudar”, mas todas as crianças de rua sabem que não devem se meter com esses brutamontes de boleia tão prestativos assim e Juliana fazia de tudo para escapar deles.

           Juliana estava magra, bem abaixo do peso, quando muito podia comer alguma coisa, devorava com rapidez, mas a fome sempre voltava mais forte. Fazia dois dias que não comia, e a pouca gordura que tinha na barriga desaparecera com o frio da noite anterior.

            — Hey, menininha, o que faz aí na rua? Não tem medo do escuro? — Ouve-se uma voz feminina em meio à desértica rua.
            Uma jovem moça, de vinte anos julgo eu, de rosto apresentável, olhos esverdeados, cabelo rubro como o vinho do Douro, e sotaque da velha São Paulo, aparecera diante a luz fraca de um poste. Juliana tinha problemas para ler, mas conseguira com muita dificuldade decifrar as palavras na camiseta da moça:

              “ONG Rua Nunca Mais”

           — Pequenininha, o que faz aqui sozinha na rua? Não tem medo de que possam lhe fazer mal?
           — Quem é a senhora? O que quer?
           — Eu só quero conversar — A jovem moça aproximou-se calmamente da pequenina com um objeto circular na mão envolto numa sacola, a pequena criatura continuava sem entender o que se passava.
           A jovem, um daqueles tipos angelicais e bondosos que não encontramos todos os dias, sentou-se do lado da criancinha e percebendo que estava sendo fitada por uma curiosidade quase irracional, começou a dizer:
            — Meu nome é Diana, sou da ONG Rua Nunca Mais, uma instituição que se propõem a retirar as crianças das ruas e dar-lhes um pouco de segurança e conforto.
            — É cana?
            — Não, eu não sou cana. Por quê?
            — Eu não gosto de canas, eles batem muito forte na gente, nas pessoas que não têm nada, ontem mesmo deixaram um menino chorando na rua de baixo.
            — Que coisa horrível!
            — Eles batem só por bater.
            — Isso é revoltante! Eles não podem bater nas crianças assim!
           A menininha olhou com afeto aquela jovem senhorita, toda limpa, bem cuidada, ela queria ser como ela, talvez não hoje, mas um dia queria ser como ela, falar palavras bonitas, aprender a ler e escrever.
              — Você comeu hoje?
              — Não, hoje não deu, mas a gente se vira como pode.
          A moça percebendo que a menina estava realmente pálida e fraca retirou da sacola plástica um marmita e um garfo de plástico e entregou à menininha:
          — Tome! É pra você.
          — Pra mim? Obrigado, moça.
          Juliana abriu com força a tampa do isopor que isolava a marmita, e em seguida revelou o seu conteúdo: arroz, feijão, um pouco de bife, batatas fritas e salada. Não era muito, mas dava para sobreviver.
        — Devagar, pequeninha, devagar.
          Juliana devorou com pressa desmesurada o prato de comida, a moça sorria satisfeita com tudo aquilo.
         — Do que você está rindo, moça?
         — De você, pequeninha. O tanto que você come, parece que não come há dias!
         — Eu estou com muita fome.
         — Qual é o seu nome, menininha?
         — Juliana.
         — Juliana, você tem família?
         — Eu tinha, meu pai e minha mãe, eu não sei deles, meu avô dizia que os dois eram imrestáveis, imprestáveis, algo assim. Eu vivia com meu vozinho Quim, mas ele morreu.
         — Que triste! Aí você caiu na rua?
         — Foi, meu vozinho disse pra um homem, um padre, para me levar para minhas tias, mas o homem me quis fazer mal aí fugi.
         Diana compreendeu a situação, era por isso que não gostava de padres.
        — Juliana, você tem onde dormir?
        — Você está na minha caminha.
        A jovem olhou aquela parte na marquise de um edifício, naquela rua afastada junto a  um beco, era um lugar perigoso e inóspito para uma criança, além do fato, de que a caminha era nada mais que o concreto da calçada revestido por um caixa de papelão quebrada.
          — Me diga, Juliana, você gostaria de dormir num lugar com comida, luz, água e crianças para brincar?
          — Crianças?
          — Sim, e toda a comida que puder comer.
         — Comida?
         — Isso mesmo, você gostaria?
         — Sim, sim.
        — Como eu disse, eu trabalho numa instituição para crianças e...
        Juliana começou a prestar maior atenção nas palavras da moça, num dado momento a pequeninha pegou o seu cobertor surrado, sua latinha de pedras e começou a seguir a jovem senhora pelas ruas gélidas da cidade; Juliana ganhou o dia.

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