segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Estudo sobre o seriado El Chavo del Ocho







        Pois o Chaves é o nosso Sherlock Holmes...





Espere, eu posso explicar. Através do método dedutivo tive a seguinte impressão cognitiva: O seriado mexicano da década de 1970, El Chavo del Ocho, representa uma visão sobre a sociedade latino-americana da época e também a de hoje, de tal modo que exemplifica a questão sociológica que permeia toda a sociedade latino-americana por meio de clichês e imagens caricaturizadas sobre  vários segmentos sociais.





O Chaves é uma criação do ator e diretor Roberto Gómez Bolaños que foi ao ar na Televisa Mexicana em 1971, não se sabe se por intermédio da força política e familiar que ancorava Bolaños de alguma forma (afinal de contas Gustavo Díaz Ordaz Bolaños foi presidente do México de 1964 a 1970 e por alguma coincidência ou não, era tio do criador do Chaves) o seriado começou a ser rodado pela Televisa e teve ampla receptividade pelo público, não só no México como em outros países da América Latina.


Chaves foi considerado por muitos como um “programa idiota” e “imbecializante” que gerava a alienação do público ao fornecer um enredo simples, de diálogos de fácil entendimento, piadas estanques de teor político e que levava ao riso fácil, mas o seriado em si é uma crônica social. Pelos personagens mesmo temos uma observação das características de algumas situações sociais que ocorriam na América Latina:



A começar por Dona Florinda,  ou como ela preferia se intitular  Florinda Corcuera y Villalpando, viúva de Matalascallando; Dona Florinda é a encarnação da classe média empobrecida e decadente que se mantém orgulhosa mesmo com a sua situação financeira estar debilitada, não só pela questão da inflação (num certo episódio a própria Dona Florinda se vê sem dinheiro), como também de sua dependência aos benefícios do governo, no caso a pensão de morte de seu marido, Matalascallando. Matalascallando era marinheiro da Marinha Mercante, aparentemente que morreu num desastre marítimo no caminho, deixando Florinda a ver navios junto com o seu filho pequeno.



Dona Florinda é a encarnação de uma mulher latino-americana submissa ao marido e profundamente dependente aos dogmas sociais, que vê sua existência ser tomada por um desastre pessoal o qual não consegue se recuperar, e por tal desastre pessoal, Dona Florinda, em uma análise psicológica, fecha-se em seu mundo do qual acredita que sua antissociabilidade e mau-humor são resultado de uma superioridade social desta para com os seus vizinhos.


        Ela se assegura sobre velhos parâmetros de comportamento, não só seu romantismo, como parâmetros sociais de uma antiga sociedade de corte que não existe mais e  no seu espírito de arrogância, ela não ver problemas em subjugar e humilhar a figura do Seu Madruga que é mais humilde e injustiçada. De tal modo, Dona Florinda ao esbofetear o Seu Madruga tem na simples ação de agredi-lo um fio-terra de toda a pressão social que ela reside em conservar sobre si própria e exige sobre os outros.


       Sua inação por muito tempo é traduzida pelo desejo de encontrar um novo amor, nesse caso, o professor Girafales, em todo caso, essa inação é superada quando Florinda vê que a situação financeira está ruim e começa a trabalhar; Primeiramente, abre uma parceria com Seu Madruga que resulta em fracasso no negócio de churros, posteriormente, ela abre um restaurante.



         O caráter superprotecionista que ela carrega sobre o filho faz com que ele seja um menino mimado que perdeu o senso de realidade, que não consegue conviver com as outras crianças da forma esperada e que sempre recorra ao choro para resolver seus problemas. Quico é a encarnação de uma infância roubada pela frustração dos pais; Arrogante, manipulador e invejoso, Quico é o lado mais devasso da própria infância que não se recente de humilhar Chaves e as outras crianças com seus brinquedos de último tipo e seus comentários pejorativos sobre sua condição social.



A vestimenta do Quico é uma homenagem póstuma ao seu pai falecido, de modo que Dona Florinda maqueia a identidade de seu filho com essa construção sobre seu vestuário e comportamento, de modo que Quico não tem uma personalidade própria, e procura nos seus amigos um desejo de se encontrar e identificar como ser humano. Nisso procura também no Professor Girafales, namorado de sua mãe, uma figura paterna que nunca teve.








Professor Girafales é a encarnação do profissional idealista e compromissado com o seu serviço, nisso Bolaños valoriza (de modo um tanto correto) o papel do professor como transformador de uma sociedade. Legalista, pragmático e cavalheiresco antes de todo, Girafales é o herói romântico da América Latina que a “tiraria das vias de seu subdesenvolvimento”. Utilizando de uma boa oratória e inteligência, Girafales consegue conquistar Dona Florinda com o seu amor sincero, embora romanesco demais, tanto que quando os dois se encontram é inevitável tocar a  abertura de Casablanca. Seu aspecto romanesco é uma observação da cultura comum a vários países hispano-americanos de haver um aspecto meio romântico em sua sociedade; contudo, Girafales também é ciumento e chegou a marcar um duelo com o uso de espadas contra Seu Madruga por Dona Florinda.



        Seu Madruga é a encarnação do homem latino-americano desempregado e um pouco sem perspectivas, que não tem muita instrução e que para o teor ideológico (até do seriado) é um vagabundo profissional. Madruga tem uma vida sofrida a qual não pode se desvencilhar, perdera a mulher cedo no parto de sua única filha, Chiquinha, a quem ele gosta muito, e teve que abrir mão do mercado profissional para cuidar da filha. Embora tenha aberto mão do mercado de trabalho desde os quinze anos, Seu Madruga é uma definição de malandro que é um tanto incomum, ele sofre em ser malandro, ele não é da boemia. Ele é o malandro que virou pai, que as vezes tenta fazer algumas artimanhas (como conseguir os dólares do Seu Barriga via Chaves através de um álbum de figurinhas), outras  com bicos, como carregar lenha, ser sapateiro, barbeiro ou caixeiro viajante. Seu Madruga é um deslocado social.



Sendo  um deslocado social, ele é humilhado constantemente pelo ímpeto raivoso de Dona Florinda que o vê como um traste humano e constantemente assolado pelas insistentes visitas de Seu Barriga, dono da vila. Seu Madruga foge, foge de seus problemas correndo, se escondendo e fumando. Foge da dondoca envelhecida que é Dona Clotilde e foge do emprego que um dia nunca vai ter. Seu Madruga está fadado a pobreza enquanto continuar fugindo de seus problemas, para a obra do Bolaños;

       Seu Madruga é um homem justo antes de tudo e bondoso às vezes, de tal forma que ninguém consegue odiá-lo totalmente, mas ele não é tratado muitas vezes com dignidade. Apenas o professor Girafales o trata como se fosse realmente um ser humano, Seu Barriga tem um sentimento de pena quando fala com Seu Madruga e Dona Florinda, de repulsa;


       Chiquinha, sua filha, é uma menina que ainda está descobrindo a sua vida, e uma paixonite pelo Chaves, ela se vê meio diminuída por suas condições econômicas mais baixas que as de Quico e Nhonhô, bem como não se adequar aos valores de beleza estabelecidos. Constantemente pede dinheiro a seu pai como forma de se equiparar aos amigos mais ricos, embora nunca tenha resposta. A isso ela chora, chora por ser pobre, chora por não ser como as outras crianças. Chiquinha às vezes desconta as suas frustrações no pobre Chaves.


         É conveniente analisar também outras figuras que se mesclam com Seu Madruga, como Dona Clotilde e Seu Barriga.


       Clotilde, apelidada carinhosamente de Bruxa do 71, é a definição do que viria a ser o vocábulo machista “ficou para titia”, outrora deveria ter tido uma beleza comum e rotineira, mas com o passar dos anos, como a própria dona Clotilde não foi se casando, ela acabou passando da idade socialmente aceita para o casamento. Na falta de pretendentes, ela vive uma vida solitária com o seu cachorrinho Satanás. A imagem de bruxa foi posta pelas crianças pelo seu aspecto físico e Clotilde se recente muito disso, de tal forma que ela vê o Seu Madruga como sua última oportunidade de não viver até o fim dos seus dias sozinha. Clotilde é de família abastada, tendo uma irmã morando na França, e realizando muitas viagens, mas sua idade a impede que viva sozinha numa casa, de modo que ela prefere viver em companhia à vizinhança da vila.



       Seu Barriga é a encarnação do estereótipo do burguês tradicional: Gordo, sempre de terno preocupado com os seus negócios. Vive preocupado com a vila que ele mantém e os aluguéis a serem pagos. Barriga é a definição da burguesia latino-americana dissociada de um espírito capitalista tradicional: Seu Barriga não é um investidor que aplica seu dinheiro em outros negócios que lhe darão lucro, Zenón Barriga y Pesado é o  antigo homem de negócios que tem no regular repasse dos dividendos do aluguel de sua vila um meio de garantir a renda. Assim, Seu Barriga depende do Seu Madruga.
"Pague o aluguel"
"Não é comigo que é pra acertar é com ele"



          Seu Barriga hostiliza Seu Madruga, por ele não pagar em dia e sempre o ameaça deixar no olho da rua. Mas ele precisa do seu Madruga. Não só pela definição econômica de que sem ele, não tem outro meio de receber o aluguel, mas existencial até, pois Seu Barriga vê um pouco de humanidade ao encontrar Madruga, com toda a sua pobreza e miséria, e Barriga precisa sentir empatia por Madruga para manter sua identidade como homem, por isso normalmente ele acaba cedendo as pressões e permitindo que Madruga lhe deva 14 meses de aluguel. Seu Barriga é a definição de uma burguesia latino-americana, que hostiliza o pobre, o ameaça, mas depende diretamente de sua exploração para se manter.



             Contudo, há um elemento no Chavo del Ocho não considerado; Seu Barriga é um homem caridoso também, o que mostra a ideia de caridade que é importante na cultura política e social latino-americana e isso combina com a própria noção de Cristandade, não só porque Seu Barriga sempre deixa Madruga ficar com o lote, por “caridade”, como também realiza eventos na vila, faz doações às crianças e convida seus inquilinos para uma festa de Natal. Zenon  não é uma pessoa estritamente ruim ou odiosa no sentido sincero do termo, esse é um caráter um pouco romantizado do homem de negócios que Bolaños tentou inserir.


          Esse homem de negócios que raramente convive com o filho e se recente por isso; Nhonhõ é uma criança solitária que apesar de todo o sucesso material do pai, abriria mão de tudo isso por um pouco mais de afeto. Esconde suas frustrações na comida, de modo que sofre de sobrepeso. Por esse fato é humilhado pelas outras crianças e se sente só; Nhonhõ é uma criança deprimida que tenta nos amigos um motivo para se ver como criança; Não é arrogante como o Quico, tenta ser o mais simples possível com os colegas e foca nos estudos toda a sua atenção, já que não recebe qualquer forma de atenção e afeto em casa.



            Nhonhõ é a definição da infância reprimida dos filhos da classe média e que não é saneada devido à falta de atenção dos próprios pais.




            Na mão justamente oposta está Chaves, Chaves del Ocho, o menino que não se chama Chaves. Órfão, Chaves foi encontrado na vila ainda pequeno com uma trouxa de roupas nas costas, foi adotado pelo Seu Madruga de certa forma como um filho, embora Chaves nunca pudesse viver com Madruga devido as poucas condições materiais desse. Todo mundo acredita que ele more num barril, mas na verdade é o seu cantinho secreto, onde ele se esconde todos os dias dos problemas da vida. A infância retirada pela pobreza, o estigma da fome e de uma vida sem pais; Chaves tem problemas de aprendizado em decorrência da fome, e sofre muito por causa de suas condições sociais frente as outras crianças. A resposta que ele encontra: A violência. Violência contra aqueles que riem da sua pobreza, de seu déficit de aprendizado, que brincam e fazem joça de sua fome e que não tratam Chaves como uma criança normal;



Chaves é desastrado e as vezes bate em Seu Barriga sem querer que briga com o garoto, mas deixa tudo de lado, pois quer se esquecer da pobreza do garotinho; Barriga se omite quando não ajuda o pequeno garotinho, Seu Madruga é a figura mais próxima de Chaves a uma figura paterna, enquanto o rapazinho não possui nenhuma referencia como mãe. O professor Girafales é a figura que mais se apieda do pobre garotinho e às vezes o trata como um filho, um filho que nunca teve. Uma criança em que ele teria a franca vontade de ajudar, mas como simples professor não teria a oportunidade.

          Chaves a despeito de tudo tenta continuar a ser uma criança, brinca de fazer castelos com latas vazias, de aviõezinhos de papel, brinca de ser cavaleiro com uma vassoura. Chaves é a criança que não quer deixar de ser criança, é a criança de todos nós.



           Existem elementos não abordados na minha análise que outros poderão apontar, mas eu acredito que o Chaves seja o nosso Sherlock Holmes. Pois ele investiga a natureza do crime que continua até hoje em todo o continente ibero-americano, a natureza da infância roubada pela pobreza;



          O método indutivo desmascara de alguma forma o sentimento de amalgama que se criou junto a uma identidade de grande América Latina. As veias abertas se escancaram, em todo caso, Chaves ainda é caricatural e  mensagem do seriado não é mesmo por em debate a questão social na América Latina. Acredito que essa não era a pretensão de Bolaños (alguns chegam até a acreditar que a concepção política de Bolaños seja de direita, principalmente por causa de seu tio), mas querendo ou não ela surge e é conveniente refletir sobre tudo isso.  


"Foi sem querer, querendo"

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Solitude saudadina



   

       

        Sinto saudades dos nossos dias
        De euforia diamantina
        Dos nossos gestos convexos
        E dos nossos olhares perdidos

        A solitude desse dia
       corrompe minha mente
       Enche o meu estômago de licor amargo
       Estar só é estar triste

      Nada me convence do contrário
      Nada me diz que isso
      Esse sentimento solitário
      Traz-me temperança

   
      Tudo que tenho esperança
      É que a palavra que ecoa pela janela
      Toque seu corpo mais uma vez
      Tal como toca minha alma

      Saudade é não encontrar um livro perdido
      É esperar um ente desaparecido
      Saudade é ser convencido
      De que tudo está perdido

      Saudade é esperar a primavera
      Sabendo que é outono
      Saudade é acreditar no pouco
      E duvidar do todo

      Saudade é ouvir a chuva
      Olhar a janela da sala
      Esperando o calor do corpo
      De quem se ama

      Saudade é o que eu sinto
      Cada vez que te encontro
      E imagino o quão duro é viver sem você
      Saudade é esperar o que nunca se foi

      Saudade é um jardim de cerejeiras no outono
      Saudade é uma pequena flor
      Que se convence que é germinal


                            Saudade é o que eu sinto quando estou sozinho

(;

Amar é estado de espírito
Nunca de reflexão
Mas de completa insanidade

Amor é loucura
Pois quando se ama
Não se espera nada em troca

Quem pede amor
Não ama de verdade
Pois amor é sentimento
E sentimento não é algo que se pede

Sentimento tamanho é o amor
Tanto que temos vergonha de falar dele
Ficar é ficar, beijar é beijar
Mas só amar é amar

Não sei descrever o que é amor
Não sei dizer o que sinto quando amo
Um aperto junto ao peito,
Um embrulho no estômago

Uma hecatombe emocional
É sentir o sabor dos teus beijos
O calor de teus abraços
A maciez de sua pele

Ser escritor talvez seja nada
Pois ninguém saiba
Como descrever o amor

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Noite a dois

       A lua tecia um olhar preguiçoso na agradável noite que teimava em prosseguir um tanto nublada.
       Sobre a grama, no alto de uma colina, um casal de namorados se divertia entre numerosos beijos e abraços; O mais engraçado é que a moça tinha um olhar distante, um olhar para o alto buscando na lua o espelho de sua própria alma.
         Certa altura ela olhou com afeto para o namorado e os dois se entreolharam, sem dizer nada entre si —  Era um silêncio taciturno ligado apenas por toques e alguns beijos demorados; De repente o silêncio se findou:
      

        —  Ah! Que bem que tu me trazes, você não sabe o quanto.
      Sentindo a mesma coisa, mas tendo a noção que ela tinha roubado suas palavras com os beijos cada vez mais molhados, o rapaz apenas pode responder:
      

      — Sim, eu sei. Esse bem eu também sinto
      —  E a lua está só nos olhando.
      — Ela está a admirar a grandeza que somos nós dois.
      Os dois sorriram-se e se beijaram mais um pouco. Aquela noite brincou de sussurrar novas luas e novos ventos que no burburinho da escuridão repentina os abraços e as carícias se consolidaram mais entre os toques e os olhares; A noite progrediu silenciosa até o silêncio ser rompido com os sussurros e os poucos gemidos do amor apaixonado.

       Não muitos momentos são tão emblemáticos quanto esse e não posso me esquecer em nada desses momentos que permeiam as fronteiras da memória.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outubro

      No outono as folhas caem...

      Bem devagar
      Devagar
      Devagarinho
      Divagar
      Sobre o Minho


       No outono as pétalas caem...
       Mas na primavera não
       Elas crescem e brincam
       De exalar cores e odores
       De apaixonar muitos amores


       Na primavera começa a chover
       No outono o frio é de encolher
       Os cabelos e o rosto
       Pois é outubro

       Outubro de todas as cores
       E amores
       A terra está verde
       E deixa a gente contente

        O céu está limpo
        Sem o torvelinho escuro
        Verdelinho da terra do Carnaval

         Que prosa capital
         Meu amor me espera
         Nesse longo vendaval
         Que é exasperar sincera
         Mais um beijo carnal

         Amor é outubro
         Outubro é amor
         Mouro mudo só
         É couro turvo mor
       
         As letras se embolam
         Os acordes acordam
         E mais um beijo
         É tudo que desejo

         Outubro chegou
          E junto com ele
          O meu amor

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

"A gente viaja pela poesia"

        Estavam os dois sentados lado a lado, sob a égide da sombra da cúpula máxima do estonteante museu, sob o sol que se despedia do Planalto Central. Desejando apenas mais abraços e mais e mais beijos, que tão elegantemente tracejavam seus corpos. Pois sim, estavam sentados.

       Certa altura ficaram taciturnos quando um semblante excêntrico e andar meio desvairado gritou para os dois que teimaram a responder com os olhos. Lembram até hoje o que ele disse:

      —  Vocês querem chá?

      Era óbvio que não era um chá de saquinho Mate-Leão que se vende no supermercado, que precisa ser jogado na água quente para formar a infusão que fica saborosa com um pouco de açúcar, limão e mel. Não, não era isso, pensou o rapaz; Mas a moça, sorriu sem compreender, olhou para o namorado que desconfiava daquilo e disse:

     — Chá!? Que chá?

    —  Chá... 

     O rapaz meio que se arrependeu com o esse adendo deixado pela moça, teria que ouvir um monólogo agora que no final de tarde não estava interessado de ouvir. Mas que coisa mais enfadonha não? Ver o camarada sentar ao seu lado regojizando o seu mal hálito enquanto coloca um tablete diminuto de cânhamo na sua perna direita e diz as propriedades de um subproduto pseudo-fitoterápico extraído das folhas de uma planta nativa da América do Sul. 

     Sentiu pois repulsa daquele pedaço de cânhamo posto sobre o tecido de sua calça, sentiu um nojo ao se lembrar que aquelas coisas eram carregadas no meio do mais profundo carrinho de esterco  tratado com a amônia que usamos para limpar nossas casas e que para chegar ali, muito sangue deve ter sido derramado por causa daquele singelo tablete de madeira ignóbil.

    Pois não tinha uma resposta pronta para aquilo, a tarde vinha sendo boa, mas não tinha gostado daquela parte:


     — Isso, meus amigos, nos leva a viajar. Vocês estão interessados? — Disse sorridente e um tanto alucinado o vendedor.

     Antes que pudesse dar uma resposta, que sairia da sua bílis certamente, e cortaria o seu semblante de aço. A moça pacientemente, sem mudar o tom de sua voz, olhou para o namorado, e disse calmamente ao vendedor:


     — Moço, a gente só viaja na poesia.

    "Moço, a gente só viaja na poesia". Essa foi a resposta do dia, confuso, o homem desapareceu sobre o pano o último pedaço de cânhamo que guardava consigo e vendeu para outro  casal que também descansava sobre a cúpula do entardecer na capítal.

     — Vamos sair daqui? — Sugeriu o rapaz.
     — Pois sim.

     E os dois se beijaram ali mesmo. "É por isso que eu gosto dela, ela sempre tem uma resposta na ponta da língua. Além de bonita, inteligente e muito simpática. Ainda é poetisa, em forma de verso e dona da rima e da boa poesia". Sorriram-se os dois, ela perguntou curiosa porque ele estavam tão sorridente a olhar para ela, e ele disse: 

      — Nada... — "Apenas você me faz feliz".


     E saíram sobre o crepúsculo do entardecer daquele dia. Cada vez mais apaixonados e cada vez mais felizes, cada um consigo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Rokossovsky

“Na Rússia, eles dizem que eu sou um Polaco, na Polônia, eles me chamam de russo" [1] 
(Rokossovsky sobre si mesmo)
“Eu não tenho nenhum Suvorov, mas Rokossovsky é o meu Bagration “(Stálin)
“Rokossovsky era uma figura imponente, alto, muito bonito e bem vestido, eu entendia que ele era solteiro e era muito admirado por senhoras.” (General Bernard Montgomery)


           Um dos mais emblemáticos generais da União Soviética, tido como um excelente cavalariano de aspecto afável e bastante diplomático, Konstantin Konstantinovich Rokossovsky talvez tenha sido uma das maiores personalidades da Grande Guerra Patriótica (Segunda Guerra Mundial). Nascido no subúrbio de Varsóvia em 21 de dezembro de 1894, Rokossovky descendia de um tronco da baixa nobreza polonesa que desapareceu através dos anos, com a tradição profundamente enraizada num espírito cavalariano, chega ser surpreendente que Ksawery Wojciech Rokossowski, seu pai, tenha se tornado um oficial de ferrovia enquanto sua mãe era professora.

Rokossovsky em foto
        Contudo, Rokossovsky fica órfão aos 14 anos, e se vê obrigado a procurar emprego na Varsóvia que se desenvolvia na época. Primeiramente ele é um estivador numa fábrica, depois a isso trabalha na construção civil como pedreiro aprendiz, cuja atribuição, especula-se tenha sido responsável pela construção de uma ponte em Varsóvia, a ponte Poniatowski.

       Mas é fato que a vida de Rokossovsky não se traduzia pela facilidade, mas pelo seu poder de adaptação. Rokossovsky também traduziu sua capacidade de adaptação ao integrar o Exército Imperial durante a Primeira Guerra Mundial, embora especula-se que ele tenha se envolvido voluntariamente no Regimento de Dragões Kargopol por um deleite nacionalista para ver a Polônia como nação independente  ou no mínimo mais autônoma.


      O fato é que embora Rokossovsky tenha tido uma ficha impecável, recebendo até uma premiação da Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, ele observou de perto o movimento que se iniciava no Front de Guerra, e em 1917, ele acaba integrando  as fileiras do Exército Vermelho;
          De novembro de 1917 a  fevereiro 1918, integrou a unidade de cavalaria Kargopolsky da Guarda Vermelha como Assistente de Chefe de destacamento, participando na repressão de revoltas contra-revolucionárias na região de Vologda, Bóia, Galich e Soligalich. De fevereiro a julho 1918 tomou parte na supressão aos anarquistas de Makno na região de Kharkov, Ucrânia. 

          Em julho de 1918, como membro integrante da mesma unidade partiu para Ecaterimburgo onde participou nas batalhas contra os guardas brancos e os tchecos, ficando lá assentado até agosto de 1918, quando ele é feito comandante do 1° Esquadrão do regimento de cavalaria Volodarski nos Urais.
          Em 07 de março de 1919 juntou-se ao Partido Comunista, possuindo o cartão número  239.

      Rokossovsky integrou a força de Tukhachevsky na guerra contra a Polônia em 1921-22, e observou sua carreira crescer cada vez mais. Em 1923 casou-se com Julia Petrovna Barmina, com quem teve uma filha.
       Em setembro de 1924 a agosto de 1925, toma contato com personalidades como Iemerenko e Zhukov, de quem se tornou amigo, embora constantemente tivessem seus atritos. Participou como instrutor de cavalaria na Mongólia, em Ulaan Bator, sendo instrutor na Academia Frünze, onde ele leu os trabalhos de Tukhachevsky.
Файл:ККУКС002.jpg
Rokossovsky é o quinto da esquerda para direita na segunda fileira. Nessa foto ele está acompanhado de outros oficiais do Exército Vermelho, incluindo Georgy Zhukov, o primeiro em pé, à direita

        

        Em 1935 foi promovido a coronel, comandando o Quinto Corpo de Cavalaria em Pskov. Mas não conseguiu escapar dos expurgos, foi preso em 1938 acusado de ser agente de espionagem polonês, e sendo torturado e mandado para o Gulag. Voltaria à ativa apenas em 1940 quando Stálin ao perceber o modo que se aproximava a guerra decidiu reabilitar alguns oficiais que foram pegos nos Expurgos.

       Stálin ao encontrar Konstantin Rokossovsky numa reunião, talvez percebendo que Rokossovsky estava sem suas unhas, chegou a perguntar se ele havia sido torturado:

   
  "Sim, camarada Stálin"
 "Há sabujos demais nesse país", suspirou Stálin.
             Com o advento da guerra, Rokossovsky se tornou um dos mais importantes generais da União Soviética. Responsável pela brigada de blindados durante a Batalha de Moscou, bem como as árduas operações em Stalingrado, Kursk e na Bielorrússia
Rokossovsky liderando o 16° Exército de Blindados na Batalha de Moscou
Rokossovsky no Front de Moscou


     Rokossovsky também foi responsável pelo polêmico papel dos soviéticos durante a Batalha de Varsóvia, quando os polacos dos Armia Krajowa  se levantaram contra o domínio nazista na cidade e foram praticamente massacrados pelo Wermarcht e a SS, mesmo tendo um apoio desesperado de aviões ingleses e americanos em recursos e armamentos.







                                          Atuação de Rokossovsky na Defesa de Moscou

         Mas isso não é uma biografia esquemática, de Rokossovsky; Em verdade, Rokossovsky foi mais do que um general, ele era uma pessoa afável que sabia tratar os seus subordinados, entendia bem os fundamentos das técnicas de blindados como Blitzkrieg, valorizava os soldados bem mais que Zhukov, tentando minimizar as perdas em guerra; A questão que se abateu em Varsóvia foi que o levante do Armia Krajowa surgiu antes da chegada dos soviéticos para se contrapor à chegada dos soviéticos, era um grito desesperado de alguns setores da sociedade polonesa que via a chegada dos russos como algo ruim; Rokossovsky não podia cruzar o Vístula com seus homens cansados pela marcha com o alto custo de vidas humanas para o Exército Vermelho, isso ele próprio escrevera nos relatórios oficiais, quando questionado posteriormente;


Konstantin Rokossovsky and other officers inspected captured German equipment, Russia, 10 Dec 1941
Rokossovsky, segundo à esquerda, junto com demais oficiais soviéticos inspecionando o equipamento alemão capturado em 10 de dezembro de 1941, na Batalha de Moscou

       Entretanto, Rokossovsky soube bem se manter humilde diante as galhardias da vitória. Enquanto Zhukov tomava os louros como o "Conquistador de Berlim" o que foi visto de forma desagradável pelo Vojd, que interpretou isso como algo que ofuscava a sua fama e como um bonapartismo; Rokossovsky, apesar da honra em ter presidido a Parada da Vitória de 1945, manteve-se cauteloso com a vitória. Aceitou o pedido de Molotov e outros líderes do Partido para que voltasse à Polônia, como um novo organizador do Estado Polonês, comunista agora. E isso ele fez e foi muito mal visto na historiografia por isso, visto pelos poloneses como um capacho dos russos, Rokossovsky podia ser Ministro da Defesa Polonês (tal como Zhukov posteriormente foi com Krushiov, pela URSS), mas mesmo o seu alto escalão não podia esconder os ódios nutridos por alguns poloneses sobre sua figura.

       Especula-se que Rokossovsky foi insensível ao Levante de Varsóvia de 1944, que foi conivente com a matança de compatriotas pelos nazistas; mas isso chega a ser até um pouco criminosos, o Exército Vermelho não tinha condições de avançar sem grandes baixas. Em todo caso, devido a pressões internas, principalmente depois do ano de 1956, quando Gomulka assumiu o PC Polonês e destituiu o stalinista Bierut do cargo de Secretário Geral do Partido Comunista Polonês; Rokossovsky se opôs a isso e caiu em desgraça, e acabou voltando para a União Soviética onde veio a morrer no ano de 1968.
Rokossovky planejando as operações do Front, circa 1943


Rokossovsky atendendo uma ligação sobre o Front, próximo a ele está o General Koniev








         
Rokossovsky discutindo estratégias na Batalha de Stalingrado, circa 1942-3
Image
Entrevista ao general Von Paulus, após a rendição alemã em Stalingrado, Rokossovsky é o primeiro da esquerda




Raro momento de descanso durante os anos de guerra, Rokossovsky dormindo no carro




Rokossovsky coordenando a Parada da Vitória




Rokossovsky chegando a Varsóvia em 1949 para auxiliar a construção do novo estado comunista polonês
Rokossovsky no final da vida refletindo sobre suas operações na guerra





Marcha Militar "Rokossovsky" escrita por Semion Tchernetsky em homenagem a Rokossovsky




[1]  BIAŁKOWSKI, Wiesław."Rokossowski - How Much of a Pole? .

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Perdi

           Perdi meu bloquinho de anotações. Perdi meu bloquinho com suas reflexões, eu perdi; Perdi meu companheiro de todas as ocasiões, amigo de todas as horas, com minha letra trêmula e os meus horários cortados. Perdi meu bloquinho com o telefone da minha namorada, com minhas liras apaixonadas; Não sei onde perdi, será me abraçando mais uma vez a você ou será que perdi nesse gramado após aquele acidente de trânsito?

         Perdi no caminho para casa? Não acredito que perdi, meu bloquinho, estimado bloquinho; Meu velho e bom amigo de todos os dias, perdi em tudo que eu queria; Tudo que eu queria que era escrever mais uma vez, mas perdi no meio do caminho, logo o meu bloquinho? Eu não vou superar aquilo, mas que merda! Meu bloco de notas, com as minhas anotações e dilemas, largado em algum canto, alguém achará que é uma carteira, e quererá levá-lo, mas quando perceber que é só papel o jogará no lixo. Malditos.

      Conheci minha namorada talvez por causa daquele bloquinho; Maldição, nem tive tempo em guardá-lo direito, meu bloquinho. Estou com uma dúvida existencial, ser ou não ser, onde será que andam as folhas de seu papel? Eu não sei, te perdi na aula? Claro que não, isso não seria possível, mas eu não lembro onde eu possa ter te deixado. Será que eu peguei o bloco e quis mostrar para alguém. Pera, eu quis, eu ia escrever alguma coisa, mas esqueci. Esqueci de novo, já não bastassem as mil vezes que esqueço meus óculos e agora esqueci meu bloco de notas! Idiota! Pathétique.

      O outono se adensa. Onde estará você, bloquinho. Onde você estará? Jogado em mais algum canto? É apenas um bloco de notas, não merece ser tratado desse jeito; Vão jogá-lo no lixo com certeza, com todas as minhas emoções e reflexões, desde Marx até Hegel, até os versos apaixonados que eu escrevi quando estava frustrado. Igual aconteceu com os óculos de meu pai, relíquias de trinta anos atrás que despencaram do alto pelo esgoto da Universidade, levando a linda história de como meus pais se conheceram; Minha mãe que trabalhava na ótica, meu pai que era só um comprador. Isso não era algo que eu gostaria de perder, mas perdi.

      Perdi tantas coisas nesses tempos, por estar tão esquecido, mas não esqueço que mais do que isso, perdi minha tristeza; Principalmente quando estou junto de você, taí uma coisa boa que eu perdi, minha timidez. Bom, sou apenas mais um objeto achado, e você me achou no meio do nada, engraçado não; Numa fila do ônibus, numa conversa no banco, comentários e sorrisos. Um piquenique na grama, e beijos. Doces beijos. FOCO. Cadê o nosso foco?  Não faz falta quando estou com você.

     Perdi meu caderninho em algum lugar, claro que vou comprar outro, mas foi com esse caderninho que eu peguei o seu telefone e nos conhecemos; Espera, não peguei o seu telefone, peguei o seu nome no Facebook. Bom agora me senti menos culpado, mas foi naquele caderninho que mostrei como se usa uma caneta tinteiro.

      Pô, perdi parte de mim quando perdi aquele bloquinho, mas ganhei mais de mim quando passei a conhecer você; Com minhas minúcias e as suas também. Com meus versos falhados e nossos beijos apaixonados, nossos abraços e os seus sorrisos; Meus olhares pidões e seus olhos sempre tão amáveis que conquistam cada vez mais o meu coração. Não, não perdi, ganhei. Parando pra pensar, mais alguém para conversar.  Alguém para sentir e amar, isso um simples papel não pode expressar.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

"Bobos da corte do coração"

        São tantas coisas que acabo esquecendo com o tempo, mas não esqueço o importante, o quanto eu esperei esse momento. Nós dois, sentados à moda antiga num piquenique sobre um céu nublado comendo maçãs enquanto as formigas levam aos poucos a  goiabada. Toca ao fundo Vinícius de Morais, num cântico entoado de maneira tão sincera que nem me lembrava de seus versos que acabaram de ser declamados por sua ofegante voz.

        Não é engraçado o modo como eu gaguejei e disse que embora eu não te conhecêssemos há muito tempo, eu estava começando a gostar de você? E você de mim. Nossa, como sou nervoso, você tomou atitude e me beijou e não paramos mais. Declamamos poesia à imagem do espelho d'agua por onde passava a ponte, você sorriu pra mim e disse:

       "Somos tão bobos. Nós dois. Nós somos bobos da corte do coração"

       Corte do coração. Hahahaha. Foi divertido na hora, mais divertido do que na hora em que corremos para roubar a sombra de outro casal, ou quando o grito vindo das árvores pelas guitarras (sic) anunciava todo o nosso amor. Ficamos sorrindo um para outro como bobos, e nos beijamos tanto que perdemos dois ônibus mas isso não descreve o que eu realmente sinto ao declamar as palavras.

       Disse que o amor é um termo que não traduz nossas vontades e que deveria apenas ser sentido. Que o seu sorriso era meigo, seu olhar singelo e seu rosto era belo. Rimei tantas vezes que esqueci que  você era uma flor que não precisava exalar um perfume, que deixava ao vento suas pétalas tocarem minha boca, e que seduzia-me apenas com um forte olhar. Estranho, baixei tão fácil a guarda.


       Somos tão bobos, você e eu, que nem vimos a exposição direito, brincamos de nos aninhar no playground, perto do escorregador. Cortamos a goiabada com a força de nossos cartões, pois não tínhamos talheres e sorrimos um do outro, enquanto nos beijamos com o gosto de biscoito de chocolate na boca. E os arrepios que eu senti quando você mordeu minha nuca e você quando a orelha foi oriçada. Foi engraçado o modo como corremos na chuva, eu fiquei abraçado a você, e o modo como tentamos inutilmente nos beijar no ônibus que nos sacudia cada vez mais alto.

       Nada é eterno, mas eu não esquecerei tais memórias nem tão fácil. Pois nós dois somos realmente bobos, e se eu posso escolher, quero ser bobo junto a você.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...