sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Desemprego: dilema do século XXI

Eu acho que vai ter uma época que vamos ter que aceitar que o desemprego como fato consolidado. Não teremos mais espaço para realocar milhares de pessoas no mercado de trabalho e nisso fica a pergunta: O que faremos?
A proposta revolucionária visivelmente não encontra mais respaldo como tinha no século passado, o mundo está se deteriorando rapidamente por consequência do modelo de reprodução do capital que ao mesmo tempo que não distribui riquezas, inibe as novas gerações em terem posições garantidas no mercado de trabalho. O aquecimento global e a deterioração do nosso meio-ambiente são fatos consolidados. Vamos admitir que as pessoas realmente não tenham mais oportunidade, mesmo com vários diplomas e especializações, porque cada vez mais os robôs entrarão em cena, ou vamos usar a tecnologia para criar um sistema de isonomia social em que todos os membros da nossa sociedade terão direito a três refeições ao dia, educação de qualidade, habitação e aos recursos básicos de subsistência? Já é possível fazer algo assim, temos safras recordes todos os anos, temos superávit na construção civil, crescimento na produção industrial a partir da automatização. Mas se aceitarmos isso, temos que ver que o neoliberalismo e a acumulação de riquezas com alta concentração de capitais necessariamente vai ter que parar. Se o sistema capitalista quer ainda sobreviver por mais outro século, então, é hora de se reinventar. A questão é: como? Pois bem, tendo em vista que nos próximos anos, entre dez a vinte anos, a participação de robôs e computadores será significativa, inclusive substituindo profissões consolidadas, como advogados, psicólogos, operários da construção civil, médicos, taxistas, comerciantes. Tudo isso será substituído por consultórias jurídicas feitas por softwares de inteligencia artificial, que irão ser capazes de interpretar o sistema de leis, inteligências artificiais que passarão a fazer consultória e aconselhamento psicológico, robôs que irão fazer construções baseados em projetos feitos sobre o computador, montando tijolos e placas de concreto assim como se monta automóveis.


Nem para plantar precisasse mais de mão humana


         Robôs cirurgiões que irão fazer incisões com nanotecnologia e muitas vezes com raios laser em células cancerosas ou mesmo realizando partos. Automóveis autônomos, identificadores de tendência e softwares formadores de opinião que passarão a exercer o trabalho de comerciantes e catapultaram o comércio eletrônico. Todas essas são tendências e o que será  feito dessas profissões?


Não será mais necessário um motorista do Uber pra te levar pra casa, o carro te leva sozinho

Balconistas realmente serão substituídos por funcionários autômatos, assim como faxineiras, garis ou mesmo policiais. As guerras serão cibernéticas, envolvendo bolsas de valores, mortes virtuais e aparelhos eletrônicos sendo destruídos. A verdade é que nesse novo panorama até a nossa moeda se tornou virtual, podemos fazer transações de crédito em segundos e todo o lastro que temos hoje com o dólar poderá ser agora indexado numa nova moeda, o bitcoin.




Escrevo isso em 2017 numa economia estagnada e com problemas sérios de concentração econômica, os bolsões de pobreza estão ressurgindo e as gerações mais jovens não estão conseguindo se reinserir no mercado de trabalho, ao contrário das gerações anteriores que tinham mais oportunidades de acumular capital através da especialização, ter um futuro profissional e uma carreira, o que constatamos no século XXI é que nenhum diploma realmente garante um emprego exatamente pelo caráter fluído da especialização, cada vez mais as pessoas são obrigadas a fazer cursos específicos em áreas cada vez mais complexas e sendo menos remuneradas do que antes. A única exceção é a indústria tecnológica. Teremos que admitir uma hora que não haverá mais emprego como antes, repartições públicas poderão ficar obtusas, assim como a prestação de serviços, a indústria e o setor primário. Esses dois já substituíram boa parte dos seus empregados por máquinas, inclusive hoje já existem colheitadeiras autônomas que não precisam sequer de condutor para colher as safras recordes. O mesmo para as indústrias, sobretudo a automobilística que usa agora robôs para montar componentes, indexar os blocos dos motores, soldar chapas de aço e montar até mesmo pára-brisas.


Construção civil a partir de robôs já  é realidade


Assim como o robô cirurgião


A impressora 3D vai acabar com o trabalho manual dentro de dez anos, isso é um fato, não será mais necessário você sair para comprar uma panela ou mesmo um prato para a sua casa, basta ter o software, ter o modelo de uma panela ou um prato e mandar a impressora produzir. Simples assim. É nisso que entra tudo isso.


Uma das impressoras 3D fez o molde de um motor de combustão interna

       O maior capital do século XXI não será o dinheiro e sim o conhecimento. 

          Isso já é uma tendência do século XX, quem tinha conhecimento sempre tinha maiores oportunidades para acumular dinheiro e também conseguir postos de trabalho avançados, mas agora, eis a diferença. O dinheiro virtualmente não irá existir na sua forma de valor de trabalho-braçal, ou mais leigo, tempo de trabalho desempenhado por um trabalhador para fazer um produto, tudo agora dependerá apenas do conhecimento para fazer o produto.


            Se formos ao pé da letra, o software necessita de um desenvolvimento, um cálculo matemático preciso, horas de trabalho, desenvolvimento de tecnologia de informação e tudo mais. Para você produzir a panela na sua casa, você vai precisar do software na sua impressora 3D. Assim como nos apps do seu celular, você é obrigado a pagar por um determinado produto para usufrui-lo (exemplo, você paga para jogar Angry Birds), e assim a empresa ganha dinheiro, se mantem e gera lucro.


              Como será feito quando não tivermos empregos suficientes para todos? Quando não tivermos mais médicos, policiais, dentistas, garis ou taxistas?


Policiais robô já são realidade

   Temos duas opções: 


         Primeira, aumentar os bolsões de pobreza com a maior parte da humanidade recebendo ajuda do Estado enquanto toda a cadeia de produção e reprodução das riquezas alimenta uma casta cada vez mais diminuta de pessoas, que terão acesso a todos os serviços, todos os bens e à ponta da tecnologia, usufruindo de alimentação saudável de ponta e água potável. (Cenário perverso e mais provável).


        Segunda, iniciar uma sociedade onde todas as funções de trabalho serão feitas por máquinas,  ou uma "escravidão" dos robôs, em favor do bem-estar da humanidade, em que todos os materiais e compostos serão feitos por robôs, desde a colheita dos alimentos, a extração dos recursos naturais, produção de produtos de consumo, construção de casas e automóveis. Isso seria a democratização plena dos meios de produção, todo mundo teria em tese acesso a uma educação de qualidade, alimentação digna, habitação, teria acesso a meios tecnológicos com variações de niveis sociais. Ou seja, uma sociedade ancorada na tecnologia. Mas qual seria a  moeda dessa sociedade? 


         Nos dois casos fica a pergunta: Qual a moeda desse sistema?

         No primeiro caso, senão houver emprego para todos a moeda será restrita, apenas  a elite terá acesso ao dinheiro tendo em vista que as necessidades básicas da população não serão supridas e não haverá consumo. Ou seja, crise, fome e revoltas sociais (a não ser que tenha um controle sistemático das mídias sociais, que já existe, e se caia no terreno do paternalismo, com o Estado dando pensões para todos sobreviverem em condições mínimas enquanto a elite sobrevive sendo beneficiada por toda a cadeia produtiva).


            Segundo caso, o capital será intelectual. Explico: Únicas limitações de uma economia alicerçada por robôs, embora exista a Inteligência Artificial, é necessária ainda a presença de um ser humano para pensar, realizar os cálculos, inventar. Nisso temos uma coisa séria, precisa-se do trabalho intelectual humano para se desenvolver softwares e máquinas.



                 Não só isso, robôs não produzem cultura. Cultura é uma coisa que só existe em seres humanos.



               Eis as duas únicas coisas que robôs não podem fazer e que é exclusivo a seres humanos: Um robô precisa do exemplo de um ser humano para exercer um trabalho manual, seja uma tela, uma música ou mesmo uma partida de xadrez: exemplifico Bob Fischer contra um computador (Bob Fischer perdeu a segunda partida, mas o computador só pode vencer porque alguém colocou na programação as regras de uma partida de xadrez).
Bob Fisher contra um computador
  Nós conferimos valor à nossa própria inteligencia e a nossa própria cultura e numa economia onde as pessoas não exercem um trabalho mais braçal, elas serão obrigadas a exercer um trabalho intelectual. O maior capital da nossa nova sociedade é a inteligencia.

             De toda forma, no primeiro caso, a elite também será a elite intelectual e não exclusivamente financeira, e eis o problema: Essa elite investe maciçamente na pauperização da educação regular, corta os incentivos da educação pública, segrega e fecha os espaços para que as pessoas possam se especializar ao mesmo tempo em que cria distrações para as massas com mídias sociais, Instagram, tabloides e exploração da imagem de celebridades. Eis o que acontece, os ricos não apenas estão ficando mais ricos, os pobres estão ficando mais burros justamente porque não percebem que está se criando um fosso intelectual.

            

            É apocalíptico o que irei falar, mas é possível que as diferenças sociais possam se  tornar diferenças biológicas. Não no sentido racial, mas no sentido biológico. Os ricos poderão ter acesso à medicina de ponta, com a nanotecnologia ao seu favor, uso da biomedicina para impedir doenças congênitas, usar inclusive a medicina para promover a melhoria da sua capacidade neurológica e ficarem ainda mais inteligentes. Sem contar que pessoas que ingerem alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, costumam ser mais saudáveis e mais inteligentes ao mesmo tempo.
Nanotecnologia usada para o tratamento do câncer


Se o cenário apocalíptico se concretizar, os pobres além de não conseguirem ter acesso ao melhor tratamento, morrerão mais cedo, terão a capacidade neurológica prejudicada primeiramente porque não terão uma educação de qualidade, segundo porque a sua alimentação deficiente, e munida de agrotóxicos poderá levar a um retardo mental que poderá se alastrar para outras gerações. Então nesses dois casos, o que é inevitável? O Estado. Eis a questão, o Estado desaparecerá ou não? Eu acredito que não, o Estado é mais que necessário para manter as disparidades sociais, ele é um regulador de tensões. Mas eis que numa sociedade do primeiro caso, o Estado será obrigado a distribuir alimentos de baixa qualidade, instituir uma ajuda financeira maciça para impedir que os bolsões de riqueza façam com que leve à extinção na forma do genocídio programado em uma parte que não terá acesso a alimentos, nem a dinheiro, moradia ou saúde de qualidade. Segundo caso, se o Estado existir, ele será o garantidor de educação de qualidade e saúde para todos os seus cidadãos. Eu não estou falando que no segundo caso não existirá classes sociais, de fato existirão, mas o Estado iria eliminar boa parte da desigualdade social garantindo educação de qualidade e saúde, alimentação dignas e moradia para que todos os seus cidadãos possam investir em suas próprias concepções, seja serem desenvolvedores de tecnologia ou desenvolvedores de cultura. Na sociedade do século XXI a tecnologia e a cultura estarão diretamente interligadas e eis que fica dois apontamentos: O conservadorismo sempre gerará fracasso. Explico, um modelo que favorecer a plataforma conservadora que acredita que todos podem ter emprego nos moldes clássicos e que a tecnologia não irá impedir isso, é simplesmente acreditar que a máquina a vapor não substituiu o trabalho manual na era vitoriana. O conservadorismo se aplicado só irá favorecer o primeiro modelo de brutal estratificação social, um modelo em que toda a cadeia produtiva será feita por robôs, grande parte da sociedade estará à margem em completo desemprego, enquanto a elite terá acesso ao melhor da alimentação, da saúde e da educação, tornando diferenças sociais em biológicas. O segundo apontamento é que o capital não existirá mais como antes. Então as Bolsas de Valores, os bancos, e todas as estruturas de capital artificial uma hora inevitavelmente irão acabar e serão substituídas por algo muito simples: Capital intelectual. Duas coisas podem acontecer e que podem mudar o modelo: Primeiro: Corrida Espacial, nesse caso, imigração. Os bolsões de pobreza terão inevitavelmente que procurar outros caminhos para a sobrevivência, nesse caso, a população da Terra, mais pobre, terá que procurar outros planetas para sobreviver, nisso plantar, desenvolver outras sociedades e culturas a partir disso tudo. É plausível, eu diria que a Corrida Espacial sempre foi a nossa aposta mais confiável nesse panorama geral.

Dez maneiras dos humanos colonizarem o Espaço

Segundo: Genocídio. Esse o lado mais triste de tudo. O lado em que os bolsões de pobreza irão se somar e as elites intelectuais irão usar a tecnologia para promover a morte de populações inteiras, seja pela fome, seja pelo desemprego, seja pela ausência de apoio médico de qualidade, ou pior ainda, usar a tecnologia a seu favor para matar seres humanos. Nesse caso, usar máquinas para o extermínio sistemático ou a propagação de doenças. É o panorama mais triste de todos e que mostraria o lado perverso que o ser humano sempre teve desde o seu nascimento como espécie. O desemprego é algo inevitável nos próximos 10, 20 anos. A corrida espacial pelo curso pode ocorrer entre 2040-2050 se realmente tiver a proposta de colonização. Mas se não, se nós não aceitarmos que é realmente necessário usarmos a tecnologia a favor de toda a espécie humana e promover a isonomia das classes sociais, dando o mínimo para que esse bolsão de pessoas possa se desenvolver, o único apontamento que teremos é que no final do século teremos um futuro perverso tal como o descrito por Black Mirror e outras distopias futuristas; O tempo-trabalho não será mais o nosso motor e agente econômico das nossas interações sociais, ao invés disso, a humanidade precisará reinventar o seu sistema produtivo ao mesmo tempo que produz em larga escala coisas como alimentos e produtos, terá que se adaptar à distribuição disso numa sociedade que conviverá com o desemprego como um fato consolidado. As soluções podem mudar, o panorama também, mas seja como for, podemos aproveitar a tecnologia ao nosso favor ou simplesmente usá-la para reforçar ainda mais a desigualdade social. Desde o neolítico até hoje, duvido que tenhamos passado por um desafio tão grande para a nossa sociedade como agora.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Sobre a minha depressão

      Esse tema é recorrente a muitas pessoas, mas infelizmente é uma doença crônica que me acompanha desde os meus 16 anos.  A depressão começou em estágios, primeiro foi através do bulling de forma surda, depois foi com o sistemático silêncio que havia da minha família sobre esse tema e foi se agravando com o passar dos anos.

      Não convém culpar alguém por isso, mas nos últimos meses eu venho tendo uma depressão muito intensa intercalada com estresse pós-traumático. Recorrentemente eu tenho ideias suicidas e isso volta e meia vem a tona como nas minhas três tentativas anteriores. A primeira foi com 16 anos, sobrecarregado pelo estresse e a ansiedade, eu convivi muito tempo em silêncio enquanto me sentia humilhado pelos meus colegas, eu tentei me jogar do alto de uma escadaria. Felizmente não deu certo.

       Essa tentativa de suicídio fracassada me deu a chance de viver novos sete outros anos, conhecer novos amigos, ter novos  amores, fazer um curso universitário que eu gostava, ter um carro e pensar em ter um futuro. Infelizmente no meio desse caminho, a solidão veio me acompanhando e eu não conseguia me expressar por vergonha ou inibição própria. A relação com meus pais tornou-se cada vez mais complicada, dentre cobranças e atritos. Meu primeiro namoro foi completamente inviabilizado por causa disso.

        O resultado foi a minha segunda tentativa de suicídio, agora com antidepressivos. 

    
        Desde então a minha base de apoio se tornou meus amigos e sempre busquei viver alheio à minha família. A morte do meu avô pelo câncer me impactou de forma muito profunda e com essa marca eu cheguei a pensar na minha própria existência, esses temas nunca puderam ser discutidos com meu pai infelizmente, que nunca entendeu, ou nunca se esforçou em compreender porque eu queria me matar. O quadro de profunda infelicidade foi se aprofundando com os anos e a medida que eu envelhecia eu deixava de ter a ambição de seguir os meus próprios sonhos.

       Quando eu desejei ir para Rússia, diziam que eu não era capaz, que eu não devia ficar longe da família e muitas vezes fizeram chantagem emocional comigo. Eu desisti de ser historiador no momento que eu vi que eu não tinha mais ânimo para estudar, sobrecarregado pela universidade, pressionado de todos os lados, eu me senti cada vez mais solitário e desisti dos meus sonhos.

       A minha inserção no mercado de trabalho se deu porque eu não queria passar fome, comecei a trabalhar como representante comercial e sim, recebi um bom dinheiro, tive momentos ruins, tive momentos bons, mas realmente não me sentia realizado e diante das cobranças do dia a dia eu costumava duvidar se eu tinha capacidade para levar aquilo à frente.

       Os erros foram aparecendo e cada vez eu me sentia mais inibido de procurar outras ocupações, quando eu terminei a universidade, eu não sabia o que seria da minha vida dali para frente. Trabalhei e tentei seguir em frente, cogitei várias vezes fazer um mestrado, eu desisti, e toda nova desistência eu via colegas passarem à frente e seguirem o seu futuro. Abracei como pude minha ocupação, ela poderia me dar o dinheiro necessário para ser independente e sair da casa dos meus pais, onde não me sentia a vontade.

        Nesse meio tempo, eu conheci a pessoa que me fez mudar de opinião e acreditar que eu podia conquistar o mundo, o nome dela era Giovana, ela era uma transexual. Foi o primeiro namoro sério que eu tive com uma pessoa transgênero e devo dizer que foi um desafio gostoso, eu a amei até o último dos nossos dias e sinto por não ter sido suficiente para ela. Ela tentou entender minha depressão antes de me julgar e quando as coisas ficaram impraticáveis em casa, por conta do preconceito, ela me deu um teto e fomos morar juntos.

         Eu abandonei meu emprego e decidi que devia seguir em frente, às vezes me faltava coragem, outras a inércia me consumia. Minha família não me apoiou nas minhas escolhas e nos momentos mais difíceis, eu me vi sozinho com Giovana. Ela me amou e me respeitou, ela errou também, mas foi uma mulher exemplar e nisso serei eternamente grato.

         Quando passamos pelo estupro, bem foi uma época complicada, nosso relacionamento começou a ter problemas e eu mesmo não consegui lidar direito com toda essa carga pesada. Sofremos bastante, principalmente ela, e tivemos que fazer escolhas, a escolha que tinhamos concordado foi nos mudarmos de cidade e fomos para São Paulo.

         São Paulo foi um desastre, além de eu não ter conseguido emprego, meu sonho de prestar o mestrado na USP naufragou, ela não conseguiu se manter e eu sobrecarregando todo esse peso, bem as coisas não deram certo. Passamos fome, fomos humilhados, dormimos na rua. Eu sempre pensei se era justo com nós dois, duas pessoas apaixonadas, passarmos por tantas provações.

          Por um milagre voltamos a Brasília, e bem, as coisas não melhoraram quanto imaginamos. Nosso relacionamento tinha se desgastado e o amor que tínhamos um pelo outro aos poucos se apagava, eu sentia isso. Eu também fui culpado. Ela tinha entrado em depressão, eu também. Ficamos reféns do destino e isso foi um erro.

          Giovana sofreu um sequestro nos últimos meses em que estivemos juntos, eu fiquei em pânico, achei que ela estivesse morta, chorei como nunca enquanto procurava ter notícia através das amigas e de conhecidos. Ela foi maltratada, humilhada, foi drogada e tiraram toda dignidade que um ser humano poderia ter. Ela era uma pessoa boa.

          O fim foi realmente triste e isso me trouxe certa revolta, certo incompreendimento e certa tristeza. Duas pessoas que sonhavam e se amavam tiveram que se afastar, eu fui me sinto responsável em parte por isso porque não tive energia para lutar e procurar um emprego qualquer, mesmo que fosse o mais ínfimo que fosse. Eu sou o culpado por não ter conseguido protegê-la.

          Separados, eu fui obrigado a recomeçar na casa dos meus pais, nessa altura eu já tinha feito minha terceira tentativa de suicídio, cortei meus pulsos numa banheira (até hoje eu tenho as marcas). Minha família disse que eu podia ficar o tempo que precisasse para me recuperar e conseguir voltar a ficar saudável. Minhas dívidas foram quitadas e bem, eu tentei recomeçar.

          Volta e meia eu lembrava das coisas ruins que aconteceram e começava a ter crises de choro do nada. A depressão voltou com força no último mês e eu não senti mais vontade de sair da cama. Numa dessas, eu fui agredido. Fui chamado de vagabundo, imprestável, sanguessuga. Eu que me sentia incapaz, não reagi, estou com lábios inchados até hoje por causa dos socos contra o meu rosto.

          Eu sei que fiz o melhor que eu pude, eu sei que tentei protegê-la e tentei retribuir o amor que tinha por ela, uma coisa que poucas pessoas entendem. Nesses últimos dias eu fiquei preso na ideia de que o suícidio seria minha redenção, eu me isolei de todas pessoas ao meu redor, fiquei longe dos meus amigos e decidi que devia lidar com isso. Setembro Amarelo é só uma data comemorativa, poucas pessoas aparecem para te ajudar quando você realmente está mal. Uma dessas pessoas foi Gerson, um dos meus melhores amigos, que me fez repensar a minha vida de algumas formas, outra foi o Rômulo que me fez acreditar que eu tenho um futuro fazendo o que eu gosto.


         Desde então, tem três dias, três dias apenas, que eu voltei a escrever, coisa que não faço há um bom tempo e comecei a redigir um novo livro. Não sei se irá para frente, mas é mais uma tentativa. Não consigo digerir certas coisas, o estupro e o sequestro foram coisas realmente traumáticas das quais só o tempo me ajudará a esquecer, mas eu sei que eu tentei ser uma pessoa boa e tentei ajudar o próximo, mesmo que ninguém compreenda o que signifique mais isso. Muito menos pessoas que me criaram e que me agrediram. 

         A isso tudo eu prometo, eu seguirei em frente. Eu te amo Giovana, obrigado Gerson, obrigado a todos meus amigos e obrigado a minha mãe e à minha irmã por terem ficado comigo. O futuro é um enigma, mas todo dia será uma luta daqui em diante.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A batina e a fé

            O Brasil foi moldado a partir do catolicismo, mas como um país supostamente laico se tornou tão religioso nos últimos tempos?


            Historicamente, a colonização portuguesa associada com a doutrinação jesuítica formulou o catolicismo brasileiro, todo o sistema educacional escolástico é baseado nessa doutrina religiosa e até hoje temos reminiscências disso em nossa cultura. Eu não vou me dedicar à herança cultural do catolicismo nesse texto, mas vou falar da transformação de uma sociedade laica e predominantemente católica em uma sociedade neopentecostal à caminho de se tornar teocrática. Como isso começou?

         O protestantismo no Brasil é antigo, mas sempre foi uma doutrina marginal. Inicialmente o contato das populações locais com a fé protestante se deu durante as tentativas de invasão do território brasileiro no período colonial, sendo que o calvinismo huguenote apareceu pela primeira vez no Brasil em 1557 sob ordens do próprio João Calvino para a propagação da fé nos trópicos. Com a expulsão dos franceses por Mem de Sá, os protestantes do Rio de Janeiro acabaram sendo enforcados ou expulsos do Brasil.

          Contudo, o flerte com o protestantismo não se findou. Em 1630, os holandeses acabaram trazendo suas próprias igrejas protestantes para Recife, e embora existisse um coexistência pacífica das religiões por intermédio do governo de Maurício de Nassau, o final disso foi o mesmo das populações judaicas de Recife. Com a tomada de Recife e Olinda pelos portugueses, os judeus e protestantes foram obrigados a imigrar e acabaram caindo na América do Norte, fundando o assentamento de Nova Amsterdam (Hoje Nova Iorque).

           O protestantismo ficou na marginalidade até 1808, quando a corte imperial portuguesa aporta no Rio de Janeiro, nesse contexto, os britânicos, aliados dos portugueses, passaram a ter o direito de exercer a sua fé em terras brasileiras e construir suas próprias igrejas e cemitérios (separados das instituições católicas, evidentemente).


          Com o advento do Brasil Imperial e a explosão de vários grupos religiosos, as novas agremiações religiosas americanas acabaram chegando ao Brasil, seja os metodistas, presbitarianos e batistas. Os anglicanos já tinham a sua fé assegurada devido ao Tratado de Comércio e Navegação assinado por Dom João VI, e os luteranos tinham sua fé respeitada devido a crescente imigração alemã no Sul do Brasil.


         Com o advento do movimento missionário, os protestantes começaram a criar instituições educacionais no Brasil, sendo a mais famosa delas o Colégio e depois a Faculdade Mackenzie. As missões missionárias basicamente tinham por fim evangelizar os índios, fazer papel de assistência social às populações do interior do Brasil e tinha inclusive uma ideia de alfabetização bastante forte.


         Com a criação do estado laico na Primeira República, o monopólio do catolicismo na sociedade brasileira foi rompido. De fato, as uniões e os batismos realizados por outras religiões também passaram a ser reconhecidos pelo estado, embora ainda fosse necessário o registro civil.

         As ações missionárias intensificaram-se sobretudo na Amazônia e no Nordeste. Contudo, na década de 1950 é que realmente o pentecostalismo ganha força sobre as outras vertentes religiosas. Em vias de fato, o pentecostalismo e o neopentecostalismo são fenômenos recentes, e a sua proposta de teologia da prosperidade tem a ver sobretudo com a era dourada que os Estados Unidos assistiram depois da Segunda Guerra Mundial.


        Por essa doutrina, o sucesso material era uma prova não apenas do trabalho individual, mas principalmente da fé. Deus concederia aos mais fiéis objetos materiais, casas, empregos e automóveis para aqueles que realmente fizessem sacrifícios  pela religião e pela fé. Aqueles que não conseguiam ter sucesso financeiro ou profissional, então, por essa lógica, não estavam realmente no caminho divino e eram menos religiosos dos que conseguiram conquistar os seus sonhos.


       É uma doutrina essencialmente capitalista de que a fé é o motor do sucesso individual. No Brasil, esse movimento ganhou força sobretudo em 1964, quando as organizações religiosas protestantes norte-americanas textualmente apoiaram o golpe militar.


       O neopentecostalismo cresceu no Brasil na década de 70 e 80 nas comunidades mais pobres, em consonância com o aumento da desigualdade social e o advento  da fome sistemática no Nordeste. As pessoas da periferia, muitas delas ignoradas pelo regime militar  e pelos direitos básicos de saúde e educação, tinham na fé o elemento de soltura de suas insatisfações e seus receios. O neopentecostalismo prometia uma coisa diferente do catolicismo, e de sua vertente mais ativa, a Teologia da Libertação: aqueles que rezassem muito, fossem religiosos, pagassem o dízimo, poderiam ser salvos no "Reino de Deus", poderiam ser agraciados com um emprego, uma casa, ou automóvel. Poderiam curar as próprias doenças ou mesmo conseguirem ascender socialmente.


       Nessa crescente exploração da pobreza  e da fé, o neopentecostalismo saía na frente do catolicismo, tendo em vista que a doutrina católica sempre pregou o desapego material e o sofrimento como elementos de fé, inclusive o catolicismo pregava o compartilhamento das riquezas enquanto o neopentecostalismo prega justamente o contrário, a individualização da fé e das riquezas. Não existe caridade no neopentecostalismo, cada um reza por si, e doa para conseguir um lugar privilegiado na vontade divina.


      Com essa explosão religiosa, João Paulo II observava o número de fiéis católicos brasileiros diminuírem constantemente, e isso era um dos alvos de preocupação do Vaticano. A perda de terreno na América Latina ameaçaria o futuro da própria Igreja. Não a toa que o Papa visitou o Brasil três vezes e usou de todo o seu capital político e popularidade para cativar as multidões.


      Entretanto, o neopentecostalismo tinha uma ferramenta que a Igreja Católica não soube usar: a mídia. Exatamente isso que fez o neopentecostalismo crescer, o uso maciço da televisão e do rádio como ferramenta para a propagação  da fé. Os rituais teatrais do descarrego e as sessões de fogo sagrado passavam a conquistar os elementos mais impressionáveis com todo o simbolismo que provavelmente foi retirado das religiões de matriz africana.


       De fato, a organização de igrejas com capital político para comprarem um programa de TV, e depois um canal, como a Rede Record, fizeram explodir a popularidade da fé entre os mais pobres e a classe média em ascensão. O surto de crescimento econômico iniciado pelo Plano Real fez com que a qualidade do brasileiro palatinamente crescesse e a consolidação do Bolsa Família e da política de valorização do salário mínimo deram a impressão ao trabalhador normal que as coisas realmente estavam ficando melhores.

       Esse trabalhador muitas vezes associava o seu sucesso e o seu progresso financeiro à fé, e isso é um elemento relevante. Com o crescimento do número de fiéis, também cresceu o capital financeiro dessas organizações, (que não são taxadas,  inclusive não pagam impostos sobre lucros ou impostos sobre o terreno que ocupam). Com esse capital financeiro, era inevitável, houve o enriquecimento dos criadores que criaram verdadeiros impérios a la Rockefeller.


       Hoje, as igrejas são uma das modalidades de negócio com maior retorno financeiro existentes no Brasil. Não são taxadas e vivem a partir de doações. As  igrejas podem estar associadas a capitais de investimentos, manter sob seu controle empresas de comunicação, bancos e o mais importante disso tudo, Partidos Políticos.


        A laicidade brasileira nunca foi plena, mas a existência de um partido cristão com candidatos filiados às três maiores igrejas do país é um dos maiores obstáculos a um sistema democrático. Infelizmente, questões como o aborto, investimentos em pesquisa com células tronco, ou mesmo o direito ao casamento de LGBTs são travadas por uma bancada evangélica que é apoiada por uma parcela significativa da população.

      Notoriamente, membros da bancada evangélica são acusados em denúncias de corrupção, mas atrás de si possuem uma legião de fiéis que defendem suas atitudes, mesmo quixotescas, em nome da fé. É notório ainda observar que nesse panorama, as organizações religiosas foram ativas da deposição de uma presidente eleita democraticamente, e hoje fazem papel de polícia moral contra os grupos que discordam de sua doutrina proselitista.


      De toda forma, a fé tece um manto sobre a realidade e instaura hoje uma ditadura do pensamento que advoga que a única verdade está alicerçada no "amor a Cristo", evidentemente isso não é amor, quando pensamos no número de ataques contra templos de religiões africanas, no cerceamento do direito de escolha para as pessoas LGBT e na negação do aborto para casos de estupro. Sem falar, a violação de uma cláusula pétrea da Constituição, a laicidade do ensino. Agora será ofertado o ensino religioso nas escolas públicas.

      Ainda temos que destacar outros pontos absurdos, como a proposta que circulou no Congresso Nacional do perdão das dívidas para Igrejas e associações religiosas. A exploração da fé é um processo recente e que vem dando lucros imediatos, mas dilapida por completo a democracia brasileira. Nessa nova teocracia onde os tolos comandam os cegos, a batina e a fé serão as únicas bandeiras de um Brasil carcomido por sua própria história.

Entre coturnos e fardas


         Quando que o Exército Brasileiro passou a ser uma força política no Brasil?


        Em Maldita Guerra, do professor Francisco Doratioto, a Guerra do Paraguai é a consolidação do que se tornaria o Brasil. O conflito que durou seis anos e consolidou uma aliança entre três países vizinhos contra a ditadura de Solano Lopez auxiliou na formação de um exército profissional e moderno para o país que aos poucos se caminhava para o término da escravidão e para o processo de modernização estrutural e industrial que se observou no início do século XX.

General Osório comandando as tropas brasileiras na Batalha de Tuiuti. Osório era o comandante militar mais popular no período imperial e o seu envolvimento com o Partido Liberal o fazia ser bem-quisto pelos setores urbanos e liberais do Rio de Janeiro.


      O Brasil era um país agrário, com forte ligação religiosa, dependente da exportação de insumos agrícolas e conservava o seu poder na figura do benevolente e popular imperador Dom Pedro II, o Magnânimo. Ao contrário do que se imagina, a monarquia era bastante popular até o último ano do império, mas o que aconteceu foi justamente um desastre do ponto de vista institucional.


      O Brasil foi invadido em 1864, quando as forças paraguaias  tomaram Bonito e Corumbá, no atual Mato Grosso e iniciaram uma segunda coluna em direção ao Rio Grande do Sul. As tropas de Solano Lopez tinham a seu dispor armas modernas e o maior exército moderno da região, o Brasil, embora excedesse a população de todos os países do Cone Sul, era desproporcionalmente habitado, com a população se concentrando no litoral, e tinha forças armadas aquém da sua real necessidade.


      O Exército Brasileiro era pequeno, utilizava armas arcaicas, da época da Guerra da Cisplatina (1824) e tinha problemas sérios na cadeia de comando. Todo o prestígio ficava em torno à Guarda Nacional, tropas formadas normalmente por civis e membros da elite local que basicamente ficavam nas regiões onde eles foram recrutados e não tinham constante treinamento, sendo apenas alistados em situações esporádicas, para conter revoltas e às vezes correr atrás de escravos que fugiam. Hoje, o equivalente da Guarda Nacional é incrivelmente, ironia ou não, a Força Nacional, um braço policial à disposição do poder executivo que pode ser empregado em situações de descontrole em uma ou em algumas unidades da União.


       Enquanto os paraguaios continuavam avançando, passando pelo interior das províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes, em direção ao Rio Grande do Sul, ficou mais do que evidente que a Guarda Nacional era tecnicamente inútil. O Brasil teve que iniciar uma campanha de alistamento de soldados a partir do zero, formar homens, importar armas, e instaurar novos regimentos. Assim nasceram os Voluntários da Pátria, a primeira tentativa de soldados-cidadão do Brasil.

      O imperador Pedro II foi o primeiro Voluntário da Pátria, e muitos dos primeiros alistados realmente foram às fileiras do Exército de livre espontânea vontade. Com o tempo, esse quadro se inverteu, sobretudo quando Uruguaiana foi tomada e os paraguaios impuseram ao Brasil enormes derrotas e a Maldita Guerra parecia não ter fim em conflitos cada vez mais sangrentos. Tendo isso visto, o Império passou a exercer o alistamento compulsório para manter o contingente das tropas imperiais, e para burlarem o alistamento, as elites agrárias obrigavam os escravos a entrarem no Exército no lugar de seus senhores.

Pedro II, o primeiro Voluntário da Pátria da História

     O Exército Brasileiro nasceu racialmente misto e das camadas mais pobres. A guerra foi brutal e os brasileiros tiveram que se modernizar, inclusive para manusear o armamento novo que vinha da França e da Bélgica. Muitos brasileiros foram em direção ao exterior, para serem treinados, inclusive a oficialidade subalterna, onde tiveram contato com as ideias positivistas.
Soldados brasileiros na Guerra do Paraguai


     O positivismo tinha pilares a Ordem como meio de criar uma sociedade progressista e industrial, onde tudo seria construído de maneira orgânica, através de um senso de disciplina de todas as camadas sociais poderia-se obter o progresso, sem espaço de discussões ou manifestações próprias de uma democracia. Por esse sistema, as formas tradicionistas de poder eram tidas como obsoletas, e a monarquia era sobretudo tida como algo arcaico a ser combatido. Nos quartéis surgiu um republicanismo autoritário e profundamente nacionalista.

      As tropas de Pedro II derrotaram Solano Lopez na Batalha de Lomas Valentinas, e do exército paraguaio só restaram frangalhos, o Brasil  estava a um passo de tomar Assunção,capital paraguaia. Quando os militares brasileiros tomaram assunção, eles instituíram um governo militar sob o comando do Duque de Caxias e depois do Conde D'Eu.

      Sob lei marcial, as tropas brasileiras cometeram alguns atos de insubordinação e pilhagens (nada diferente do que os paraguaios fizeram em Uruguaiana), e a guerra ainda não tinha acabado, as tropas de Solano estavam no interior exercendo atividades de guerrilha.

Conde D'Eu e oficiais do Exército Brasileiro no Paraguai


      O Brasil acabou instituindo um novo governo paraguaio, aboliu a escravidão no país, algo  feito quase vinte anos antes que no Brasil, e colocou um aliado no poder, Cirilo Acosta. A caçada à Lopez acabou na Batalha de Cerro Corá, onde as tropas imperiais cercaram as  últimas forças de Solano Lopez e ele,  ferido, no meio da batalha foi abatido pelo cabo Chico Diabo, que acabou o degolando quando o general recusou a se render.


      A Guerra do Paraguai se arrastou muito mais do que deveria, os brasileiros sofreram com várias doenças, fome, gangrena e frio. Foram assolados pela beri-beri, por epidemias sucessivas de febre amarela e disenteria. A recusa do governo imperial em dar a guerra encerrada até a rendição de Solano Lopez foi um dos motivos do conflito ter se prolongado tanto, e com os gastos, o governo imperial entrou em crise financeira.

         Os militares descontentes culpavam o comando do Conde D'Eu, genro do imperador, e exigiam por reformas na cadeia de estrutura do Exército, inclusive pedindo sua modernização como força regular de defesa. E os militares eram a estrela em ascensão depois da Guerra do Paraguai.


        Quando a Monarquia iniciou o ano de 1870, o Império tinha uma dívida externa correspondente a dez anos do seu orçamento público, e nesses dezoito anos finais, o governo ficou pagando os empréstimos com bastante dificuldade, tendo inclusive problemas com o fluxo de caixa. Muitos projetos do Império tiveram que ser abandonados simplesmente porque não havia dinheiro para pagar.


       Nesse meio tempo tinha o problema da escravidão, que o governo imperial, mas sobretudo o Senado Imperial, empurrava com a barriga. O maior obstáculo para o fim da escravidão foi o poder legislativo (conservador até hoje), desde 1831, com a Lei Eusébio de Queiroz se discutia o fim da escravidão e o  abolicionismo ficou cada vez mais forte nas incipientes elites intelectuais e nas  populações da cidade. Era uma vergonha o Brasil ser o último país a abolir a escravidão na América.


      O Governo Imperial teve que tomar atitudes por pressão externa, sobretudo da Inglaterra, as primeiras medidas, a Lei dos Sexagenários e a Lei do Ventre Livre trouxeram muita insatisfação não só no Senado Imperial, mas também na própria Casa Imperial, a própria Princesa Isabel tinha sido inicialmente contra. O republicanismo passou a ser uma teoria política cada vez mais forte nos meios urbanos, sobretudo nas profissões liberais e nos meios intelectuais da época.

      A Terceira República Francesa exercia um certo fascínio como meio de organização política avançada da época e os meios militares ditos "progressistas" desejavam um Estado ordeiro e constitucional aos moldes positivistas.

     A questão é que o Brasil tinha tido flertes com o republicanismo desde a Inconfidência Mineira e a Confederação do Equador, até mesmo  o período regencial por muitos historiadores pode ser encarado como um ensaio de governo republicano, a experiência do  federalismo norte-americano juntamente com a ocorrência de repúblicas oligarcas em toda a América Latina seduziam cada vez mais as elites agrárias descontentes com o governo federal e que desejavam o poder.

      O que foi feito em 15 de novembro de 1889 foi um acordo entre duas vertentes republicanistas que destituíram o poder tradicional  e legítimo de Dom Pedro II, sem qualquer respaldo do povo brasileiro, a República nasceu de um golpe. Os militares assumiram o poder e não seguiram o acordo de partilhá-lo com os cafeicultores de São Paulo e com as elites intelectuais que apoiaram abertamente a deposição de Dom Pedro II. É o início do primeiro período ditatorial do Brasil.

Deodoro da Fonseca e Rui Barbosa sendo consagrados pela República


      O militarismo do Exército Brasileiro instaurou uma Ditadura chamada conveniente de República das Espadas, onde o primeiro governante, Deodoro da Fonseca (que era amigo pessoal de Sua Majestade Pedro II e um usurpador do poder legítimo) inicialmente dava mostras que iria aceitar uma nova Constituição (o Brasil tinha constituição no período imperial e era uma das mais modernas dentre as monarquias), haveria eleições em 1891 e o Congresso teria autonomia.
A República nasceu de um Golpe


     A verdade não foi essa, Deodoro e o Congresso rotineiramente se desentendiam, Deodoro não aceitava se submeter à autoridade das elites locais e para piorar o plano econômico de seu Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, foi um desastre (ele não era economista pra início de conversa, só sabia falar bonito). A tentativa de reduzir o rombo das contas públicas e incentivar a industrialização emitindo papel moeda sem ter capital no Tesouro para dar lastro apenas fez nascer uma hiperinflação que se tornou a maior crise financeira do Brasil até 1929.

       O governo de Deodoro, em si, foi um desastre e no ápice dos seus desentendimentos com o Congresso, sobretudo em relação à Constituição de 1891, a qual previa eleições imediatas e Deodoro queria manter o seu mandato como presidente interino. Diante da recusa do Congresso, Deodoro ordena destacamentos de artilharia e cavalaria cercarem o Congresso, os senadores estavam realizando a eleição indireta para decidir o  presidente do Brasil, e diante da evidente ameaça elegeram Deodoro Fonseca e Floriano Peixoto.

     Deodoro, com o fechamento do Congresso, acabou perdendo todo o apoio popular e corria a ameaça de sofrer um golpe do próprio vice.  Sem ter opções, e completamente desacreditado pela opinião pública, ele acabou renunciando em favor do vice, Floriano Peixoto.


      O governo de Floriano Peixoto foi pior ainda, além de ter governado em estado de sítio, o Brasil enfrentou duas revoltas sérias, a Revolta Federalista e a Revolta da Armada, que chegou a ameaçar o Rio de Janeiro inclusive, tendo bombardeio da cidade por causa da recusa de Floriano em liberar os direitos civis.

O governo  de Floriano Peixoto foi um verdadeiro desastre

       O governo militar foi logo substituído pela sucessão oligárquica da República Velha e a consequente política Café com leite, tendo a alternância presidencial entre paulistas e mineiros. Após a República Espada só um militar seria eleito presidente da República, Hermes da Fonseca, sobrinho de ninguém menos que Deodoro da Fonseca.

       Já num panorama diferente, o fluminense Hermes da Fonseca foi eleito em eleições disputadas, das quais, ele conseguiu ser eleito com apoio de personagens políticos de prestígio. O governo Hermes da Fonseca enfrentou problemas, como a Revolta da Chibata e também foi obrigado a renegociar a dívida externa brasileira que tinha se tornado insolvente. Verdade seja dita, foi até certo ponto um governo estável comparado aos outros governos.

      O problema disso tudo é que em todo período da Primeira República, as Forças Armadas interferiram diretamente na política nacional, seja com manifestos, revoltas, e motins, nenhum dos governantes desde Artur Bernades conseguiu governar sem precisar se utilizar do estado de sítio. Em 1922, a Revolta dos 18 do forte exibiu o clamor dos quartéis e da baixa oficialidade por mudanças na conjuntura nacional

      Em 1924, a Força Pública de São Paulo e estacamentos do Exército se amotinaram contra o governo paulista, e juntamente com as forças armadas do Rio Grande do Sul iniciaram o ciclo de revoltas do tenentismo, chegando ao ponto máximo da Coluna Prestes.
Lideranças tenentistas em comboio ferroviário

      O governo brasileiro caminhou na corda bamba de 1922 até 1930, com o crescente temor que os militares pudessem dar um golpe e instaurar uma ditadura. O pleito de 1930 foi o ponto mais delicado desse processo quando a política do café com leite ruiu e a aliança entre São Paulo e Minas desabou.


       Os tenentistas, sedentos por derrubar Washington Luís, juntamente com o Partido Democrático Paulista, as elites mineiras e gaúchas se uniram e deram um golpe, ou melhor a "Revolução de 30", colocando Getúlio Vargas no poder.

Getúlio chega ao poder de coturno e farda, ele só sairia depois de 15 anos da Presidência

       Os militares ficaram por 15 anos como atores principais na política nacional na Era Vargas, com inclusive tendo Góis Monteiro, um notório simpatizante do nazismo, no gabinete do governo de Getúlio. Eles apoiaram o Estado Novo e a cassação dos direitos civis de comunistas e membros de esquerda, e muitas vezes argumentavam com Getúlio se o Brasil devia ou não ficar neutro na Segunda Guerra.

       Verdade seja dita, os anos 30 foram o ápice do militarismo brasileiro e Getúlio entendia isso muito bem, não a toa que seu governo era inspirado no fascismo italiano (por predileções próprias e por pressões também dos líderes tenentistas).


       Entretanto, a entrada do Brasil na Segunda Guerra foi o ponto de ruptura. Pela primeira vez as Forças Armadas se envolviam seriamente num conflito armado na Europa, e pela democracia inclusive, um Exército mal-preparado e mal armado como era a FEB do General Dutra, se tornou uma força profissional democrática de soldados-cidadãos.

Primeira Guerra memeal: A Cobra está fumando


       Esse intercâmbio de ideias entre os soldados brasileiros e americanos moldou um movimento dentro dos coturnos e nas fardas pelo fim da ditadura brasileira e o início da democratização. Getúlio compreendeu isso e anunciou que no final do ano de 1945 ele iria reinstaurar as eleições. Era tarde, Getúlio sofreu um golpe dos mesmos militares que ele mandou pra a Itália.

     Em 1946 foi promulgada uma nova constituição, liberal e democrática, que inclusive legalizava pela primeira vez o PCB. A corrida presidencial estava ocupada por duas figuras militares de prestígio, General Gaspar Dutra, líder da Força Expedicionária Brasileira, herói de guerra e reconhecidamente uma figura de prestígio junto à diplomacia americana, e Brigadeiro Eduardo Gomes (daí vem o nome do doce brigadeiro, o quitute que era feito para financiar a campanha do oficial da Força Aérea).



Eduardo Gomes
      Eduardo Gomes era tenaz opositor de Getúlio Vargas, tendo sido o criador da Força Aérea Brasileira (FAB), ele foi uma das lideranças tenentistas que acabaram se associando com a direita brasileira e levaram à derrocada do governo getulista. Getúlio, mestre da arte política, apoiou tacitamente Dutra, que acabou sendo eleito em 1946.


      O governo Dutra foi um dos piores governos da História do Brasil, sendo apenas comparável ao governo de Floriano Peixoto, Fernando Collor, Sarney e  o governo Dilma-Temer. O Brasil, pela primeira vez na história, tinha um câmbio valorizado e era credor das potências europeias que lutaram na Segunda Guerra Mundial.






    O ufanismo brasileiro estava nas alturas (assim como no final da Era Lula), o Brasil era reconhecido pelos Estados Unidos como um país parceiro e foi membro fundador da ONU. O Brasil iria sediar a próxima Copa do Mundo (1950) e estava evidente que a herança da industrialização de Vargas estava dando frutos.

     Entretanto, Dutra não soube aproveitar o momento-chave, a janela de oportunidade que poderia ter definido o rumo do Brasil, pelo contrário, as reservas cambiais brasileiras acumuladas na época estavam na maior parte indexadas em libras-esterlinas (que se desvalorizaram depois do final da guerra) e em ouro, com a conferência de Bretton Wood, o padrão ouro-dólar seria adotado e todo ouro que circulado no mundo deveria ser convertível em dólares.
Dutra recebendo a medalha do menino de pior governo da História do Brasil


      Como a oferta de dólares era justamente escassa, o dinheiro inteiro acumulado não servia pra nada. Dutra teve a ideia de comprar as ferrovias inglesas com as reservas cambiais restantes, e como abatimento de dívidas. Nem preciso dizer que as ferrovias ficaram inúteis depois que a indústria automobilística chegou ao Brasil na época do JK.

      O Plano SALTE, seu plano de recuperação e desenvolvimentismo econômico, depois que as reservas cambiais brasileiras se exauriram e o câmbio se desvalorizou frente ao dólar, baseou-se na Saúde, Alimentação, Transporte e Energia. Dutra criou a primeira rodovia do Brasil, que hoje é batizada em seu nome, que liga Rio a São Paulo, proibiu os cassinos e construiu hidrelétricas no Rio São Francisco.


       Seu governo só foi isso, desvalorização do cruzeiro, o fim das reservas cambiais, e quando as coisas deram errado, partiu pro desenvolvimentismo e fez a rodovia Dutra. Nem preciso dizer que nas eleições de 1951, Getúlio voltou com uma vitória massacrante contra (de novo) Eduardo Gomes.

       Os militares não engoliram seco a volta do velhinho, o mesmo Getúlio que eles depuseram seis anos antes, principalmente Eduardo Gomes, notório desafeto político de Getúlio. O jornalista Carlos Lacerda conseguia arrebatar os ouvidos de milhares de cidadãos fluminenses e paulistas com os seus discursos na Rádio Nacional e na TV Tupi, denunciando o governo de ser corrupto e inepto, sobretudo de exercer um monte de irregularidades nos processos licitatórios para grande obras.


"Será que dá pra acertar o Lacerda aqui do Catete?"


        Quando houve o atentado contra Lacerda em 1954, na Rua Toneleiros, era justamente um oficial da Força Aérea, a mesma de Eduardo Gomes, que estava fazendo a escolta do jornalista. O oficial foi morto na troca de tiros e Lacerda saiu com o pé machucado (dizem as más línguas que ele atirou de propósito no próprio pé).


"Nunca imaginei que uma unha encravada pudesse doer tanto"

       O caso tomou uma enorme repercussão política na época, com de novo, Carlos Lacerda, querendo a cabeça de Getúlio e exigindo a renúncia do presidente da República na TV Tupi. O fato é que as elites brasileiras já estavam engasgadas com Getúlio por causa da legislação trabalhista, a CLT, o aumento de 100%  do salário mínimo que o Ministro do Trabalho, João Goulart, deu para os trabalhadores para compensar as perdas com a inflação, e sobretudo a estatização do petróleo brasileiro, com a Petrobrás.

     Quando mais se esmiuçava o fato, mais ia se comprovando o envolvimento de gente do Palácio do Catete no atentado, até que uma das denúncias apontavam o mandante como sendo Gregório Fortunado, guarda costas pessoal de Getúlio. Foi merda no ventilador.

     A Força Aérea exigiu a apuração do caso, o Congresso e o Exército exigiram o afastamento definitivo de Getúlio. O  Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, soltou na imprensa um comentário que Getúlio iria se afastar (e em caráter definitivo), tudo isso foi piorando a situação de Getúlio. Em 1954, o fim foi único, Getúlio vagou pelo Palácio do Catete como um morto-vivo, sem responder ninguém.

      Ele vestia um robe de seda listrado e levava no bolso um revólver com cabo de madrepérola, presente de Franklin Roosevelt.  Getúlio se trancou no seu quarto, e deixou na mesa de canto uma cópia do bilhete de suicídio (a outra foi entregue para João Goulart no Rio Grande do Sul), e atirou contra o próprio peito.

      O suicídio de Getúlio evitou um novo golpe militar.



      Mas não deixou as eleições de 1955 calmas. O vice-presidente Café Filho dizia-se incapacitado por problemas de saúde e se ausentou da presidência por uns quatro meses, a presidência exercida por Carlos Luz não admitia a ideia que tivessem eleições em 1955 justamente para não dar a chance de algum associado de Getúlio fosse eleito.

    De fato, o Brasil já passou por uma bagunça institucional antes e ninguém lembra hoje de Café Filho (nem se lembrará de Michel Temer), a questão que o candidato na disputa eleitoral era Juscelino Kubitschek, o então governador de Minas Gerais.


"Vou com meu fusquinha direto pra Brasília. Não, pera"

   As  eleições de 1955 foram boicotadas pelo próprio governo e quando JK foi eleito, o presidente Café Filho milagrosamente apareceu renascido das cinzas e disse que estava apto pra governar (ou seja, iria embaçar toda a eleição). Henrique Teixeira Lott, general do Exército Brasileiro, se levantou contra a insegurança jurídica que circulava em torno da posse de JK e garantiu que o resultado das eleições seria respeitado e garantiu a posse de JK. Colocou as tropas na rua para garantir a manutenção da ordem e JK foi empossado presidente no Catete.

   Lott é uma exceção de um padrão que se observou em todo o período republicano, ele foi o único general que realmente defendeu a legalidade e garantiu o resultado das eleições de forma democrática (outro exemplo foi o general Miguel Costa na década de 30). De toda forma, Lott foi tratado como herói nacional e defensor da legalidade, sendo reconhecido como verdadeiro patriota (e foi justo inclusive).

Lott forçando um sorriso meio sem graça

   Em 1960, Lott concorreu à presidência com ninguém menos que Jânio Quadros. Sem apoio de Juscelino e com uma propaganda sem apelo popular, Lott, o último militar legalista, acabou sendo derrotado. O resultado poderia talvez ter sido diferente, caso Lott tivesse sido eleito, a existência de um militar nacionalista e constitucionalista poderia ter impedido os militares brasileiros terem derrubado um governo democrático em 1964.

    A bagunça foi evidente, em 1961, Jânio Quadros irrita os setores tradicionais brasileiros com a sua política irreverente e acaba renunciando depois de oito meses. Para piorar as coisas, o seu vice-presidente, João Goulart (ex-ministro do Trabalho de Getúlio) realizava na época visita na China maoísta. O resultado foi terrível, os militares não aceitaram Jango assumir a presidência com a suspeita dele ser comunista e querer instaurar uma república sindicalista.

     A solução encontrada pelo PSD e pela UDN foi um acordo, Jango assumiria a presidência, mas o Brasil seria parlamentarista. Isso quer dizer, teve um golpe parlamentar para que Jango não tivesse plenos poderes e o Congresso pudesse legislar sobre ele. Tancredo Neves foi o primeiro primeiro-ministro do Brasil republicano.

      Só que isso não estava dando certo, cada gabinete acabava durando no máximo três meses e o governo entrou em um vazio institucional, o PTB, liderado por Brizola, conseguiu o retorno do presidencialismo a duras penas. Os militares não engoliram bem o fato de Jango ter plenos poderes agora.

    O discurso da Sé foi a gota d'água, Jango com a sua proposta de reforma agrária cutucou a onça com vara curta e o resultado foram os setores militares se associando com o capital industrial, os partidos conservadores, a direita católica e o setor agrário. Com a ajuda da diplomacia americana, aconteceu o golpe, o general Mourão Filho deslocou seus destacamentos de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro. Jango saiu da cidade e foi pra Brasília, vendo que não teria apoio parlamentar e que o resultado seria um banho de sangue foi pro Rio Grande do Sul.

    Sem que ninguém soubesse onde estava o presidente, o presidente da  Câmara em sessão especial declarou vaga a presidência da República, e com esse vazio de poder, estava aberto o caminho para os militares.

"Jango, você foi desrespeitoso. Você nem me convidou pra sua casa tomar um café e vem me pedir ajuda"

    Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e Figueiredo. O Brasil teve cinco ditadores, cada um à sua maneira. Castelo Branco enganou a todos dizendo que iria ter eleições em 1965, mas ele acabou caçando os mandatos políticos e estendendo o seu governo ainda mais que o esperado. Instituiu um ajuste fiscal (igual ao do Temer), congelou os salários mínimos e aumentou a concentração de renda. Costa e Silva caçou todos os direitos políticos e o habeas corpus com o AI-5, iniciou o período linha-dura, consagrado com torturas, prisões arbitrárias e exílio na era Medici.


      A detente só começou quando o governo Carter começou a condenar as violações dos direitos humanos na América Latina e Geisel prometeu a abertura, lenta, gradual e segura. O Brasil amargou 21 anos sem ter direito ao voto, sem ter liberdade de imprensa, tendo prisões arbitrárias e violações aos direitos de índios, lgbts, trabalhadores sindicalizados e artistas.


      Os coturnos e fardas só saíram do Palácio do Planalto numa eleição indireta, e infelizmente, tivemos que amargar ainda outro presidente impopular, José Sarney.


      Desde então, o que vem sendo feito das Forças Armadas?


      Penso que as Forças Armadas retiraram-se do palco político por outras questões. A Ditadura Militar criou atritos e insubordinações dentro da própria tropa, com grupos e facções brigando entre si pelo poder, o que minou até a estabilidade das Forças Armadas brasileiras, os militares continuaram defendendo os seus interesses sim dentro do Congresso, tendo inclusive ex-oficiais seus defendendo o aumento salarial, a renovação do contingente, etc. Um desses é Jair Bolsonaro.


     As tropas militares hoje tem a tarefa de defender a Amazônia legal contra incursões estrangeiras e de grupo narco-traficantes, envolveram-se nas missões de paz do Haiti ( de forma até exemplar), mas o problema é que justamente as Forças Armadas, que tinham se desvencilhado da política, estão retornando.


      Com a Comissão da Verdade, que apurou os excessos e os crimes da Ditadura Militar, inclusive de oficiais da ativa, os militares tiveram um atrito muito grande contra as investigações do Governo Dilma. Com isso, associada a crescente popularidade da direita radical e a extrema-direita, o impeachment do governo Dilma e ação deliberada de setores políticos reconhecidamente corruptos na política, a sensação de vazio institucional está levando à ideia que o retorno da Ditadura iria trazer normalidade ao Brasil.


      Enganam-se porém, os militares foram os atores políticos nos eventos mais conturbados que o país sobreviveu, deram golpes, apoiaram ditaduras e foram responsáveis por eventos autoritários que não devem ser esquecidos. Não estou defendendo o ódio contra as Forças Armadas, mas existem elementos dentro dos quadros militares que querem se aproveitar da insegurança jurídica, de um governo corrupto impopular como o governo Temer, para assumirem de vez o poder e instituir um projeto de governo conservador, autoritário, cristão e contra as minorias.


     O problema que as fardas e os coturnos não são a solução para um país democrático e qualquer iniciativa de intervenção pode terminar em desastre. Observamos estarrecidos o modo como estão desenrolando os conflitos nas ocupações dos morros do Rio, com a morte de cidadãos inocentes num novo capítulo da guerra contra o tráfico.

     Mas o mais grave é a ascensão de um líder da extrema direita, Jair Bolsonaro, jingoísta, contra os direitos das minorias, à favor do porte das armas, de um governo autoritário, fazendo defesa de reconhecidos torturadores do período militar. Bolsonaro representa uma ala existente na sociedade brasileira que vê com bons olhos a destruição da democracia e a perpetuação do poder do totalitarismo.

      A declaração do general Hamilton Mourão é pior ainda, ela atesta que se não forem resolvidas pelo poder judiciário as denúncias de corrupção, as Forças Armadas poderão intervir e consolidar talvez outro governo de exceção. O problema que desde a Constituição de 1988 é proibido que oficiais da ativa emitam opiniões políticas publicamente e o comandante do Exército, general Villas Boas limitou-se apenas a um leve comentário e não puniu o oficial por indisciplina (como seria feito em qualquer lugar do mundo).


    Enquanto o governo afunda num mar de lama, maior a popularidade das Forças Armadas e é cada vez mais crescente o número de brasileiros que querem o retorno dos militares no poder.. Se isso acontecer, entraremos em mais um novo ciclo de autoritarismo e barbaridade. O Brasil realmente não é feito para amadores, um país com enorme potencial sempre será refém de seu próprio passado,




 

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...