sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O mundo não é feito de rosas

           O mundo é feito de preconceitos. Feito de idiotas que acham serem úteis seus comentários carregados de preconceitos, seus olhares canibalizados de idiotas inúteis e que se acham inteligentes o suficiente para defenderem bandeiras fracassadas, tanto na direita quanto na esquerda. O mundo carregado de idiotice é uma coisa que independe de partidos políticos, crenças e mesmo de nacionalidade.

          Quando os sírios chegam à Europa pedindo um pedaço de comida e uma roupa de frio, são os húngaros que fecham as portas. São os gregos que deixam as crianças morrerem na praia e são os ingleses e franceses a primeiro torcerem o nariz à humanidade. Os mesmo ingleses e franceses que por anos dominaram a região como se fosse um parque de diversões.

          Hoje esses idiotas acham ter o direito de advogar uma identidade nacional num mundo globalizado como forma relevante de união nacional, quando na verdade, tudo o que eles fazem é baseado no ódio dos demais.


         Foi assim que os americanos elegeram Trump, no alto da sua estupidez, elegeram um representante do backside novaiorquino, investidor multimilionário que defende o setor empresarial, sonegador confesso de centenas de milhares de dólares em impostos, para fazer a "America great again". Como se fosse possível voltar à década de 50. Foram os racistas e xenofobicos do Sul, foram os trabalhadores desiludidos do cinturão da sucata do nordeste americano e os pais de família de classe média que elegeram o Trump.


       Não, não defendo a Clinton... Pelo contrário, ela representava apenas a continuidade causticante de um governo morno Obama, e seria apenas um estilo de governar de continuidade dos lobistas de Washington.


      Mas o mundo respirou fundo quando descobriu sua estupidez.


      Essas mesmas pessoas estúpidas acham que as redes sociais as tornaram mais inteligentes, que postar a sua vida pessoal no Snapchat ou no Twitter as fizeram mais amadas e que o Facebook se tornou um oráculo de discussões. Meus pensamentos são centrados em uma base muito simples, se você reproduz um conhecimento sem dissecá-lo, você é apenas um papagaio.

      De toda forma, o mundo não é feito de rosas. O mundo é feito de preconceitos, feitos de preconceitos entre os próprios irmãos de uma mesma comunidade, feito do ódio entre gêneros e nações. O ódio ao diferente e na aceitação do novo.

      Sobretudo agora, eu sei que o mundo que me prometeram desapareceu e apenas uma triste lembrança é o que sustenta a convicção de que tudo vai melhorar. No final, o mundo é um grande Black Mirror.

A plutocracia brasileira

      A plutocracia dominou por completo as esperanças de um futuro melhor após essa  época de adversidades, o golpe parlamentar orquestrado pelo Congresso Nacional convenceu a todos nós que a camarilha de políticos liderados pelo PMDB apenas deseja apropriar-se do Estado para seus fins mercantis-financeiros.

     O Estado foi vendido de propósito depois de uma série de irresponsabilidades e assassinatos legais contra a ordem institucional. Renego completamente a presença de um poder judiciário, considerando agora que a justiça é parcial e cega quando conveniente. O Supremo Tribunal esconde bandidos de toga, o Congresso Nacional, bandidos de terno e Temer representa o mundo carcomido do passado. É um governo sem governabilidade, um balcão de negócios de centenas de bandidos que ganham fortunas enquanto cortam a aposentadoria do trabalhador brasileiro.

      Congelaram as despesas do país ao mesmo tempo que aumentaram seus próprios salários, condenaram o futuro de milhares de jovens, homens e mulheres, aos interesses dessa geração envelhecida de ladrões. Hoje eu não tenho mais esperanças em qualquer fim democrático num sistema falido e corrupto, onde as instituições representam uma grande fazenda da qual nós somos a senzala. O Brasil não é um país do futuro, é um país que foi feito no presente. A questão é: Aceitaremos que roubem ainda mais dos nossos sonhos ou lutaremos contra isso?


      Meu desencantamento com o marxismo-leninismo passou no momento que eu vi que a última pessoa viva da Guerra Fria morreu, matando por final o século XX. A morte de Fidel Castro me foi didática de como as pessoas podem ser ao mesmo tempo controversas e amadas ao mesmo tempo. De toda forma, é mais legítimo um poder instituído pelas armas nos ideais revolucionários de justiça social do que um estado apropriado por uma corja de bandidos.

     Hoje me reafirmo como  socialista, e mais do que socialista, hoje renovo meu compromisso de lutar por uma sociedade justa e igualitária. Mesmo que seja somente eu a tomar essa bandeira, o meu grau de indignação não me permite que os algozes de nossa juventude sejam felizes em seu roubo perpétuo de nossas esperanças. Quem rouba merenda de crianças, a insulina dos hospitais merece realmente ser extirpado completamente da nossa sociedade.



    O Estado é o maior vilão porque ele não pensa e raciocina, ele apenas toma e serve aos interesses de grupos e agentes econômicos bastante definidos. Estou mais do que convencido de que a democracia é o câncer que instituiu a vontade de poucos sobre a maioria. Socialista ou não, escolha conscientemente, e esse país que queremos?


     FIM AO MICHEL TEMER! FIM AO GOVERNO ILEGÍTIMO DOS ASSASSINOS DE CRIANÇAS! ELEIÇÕES DIRETAS OU NADA! O Estado Brasileiro morreu no momento que as maldades começaram a massacrar o seu próprio povo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Uma estrada

       Sempre que ficar perdido, pegue a estrada. Jogue-se para longe e conheça um lugar distante, com sei lá, o Goiás. No Goiás que encontrei meu amor escondido sobre as árvores retorcidas do Cerrado, comi galinha caipira e senti o gosto do arroz com pequi.


      Estive em suas águas cristalinas, visitei seus bosques e deixei tudo para o alto quando estourei um cartão de crédito de brincadeira. Bebi cerveja quente, ouvi música ruim e amei intensamente todos os dias. Foi no Goiás que me perdi de novo


      Andei a 160 km numa BR, matutei, briguei, comi tilápia frita a despeito de odiar peixe e fui inconsequente... Até porque não valia a pena ser aristocrático com a pompa artificial de um bom brasiliense. E vivi até quando não pude, explorei o Itiquira, banhei-me em suas águas, e vi a cachoeira.


Encontrei o meu amor nesse caminho perdido e desejei estar perdido até onde pudesse. Mas não, não pude, pois a vida real sempre nos prende para longe da fantasia. E a fantasia é desejar partir de novo para onde não deveria ser encontrado. Te odeio Brasília, com seus pilotis de concreto, com suas pessoas toscas e mesquinhas, suas tesourinhas que cortam pessoas, seus eixos sem nexo e seus apartamentos minúsculos e sem graça.

Odeio você, tal como odeio os seus políticos, os seus funcionários públicos com os seus carros importados de prestações para serem pagas daqui vinte gerações, seus garotos de academia que fumam maconha no Pontão e prostituem meninas de cabeça vazia. Odeio você tal como odeio seus velhos necrófilos que roubam a juventude dos poucos que querem viver, dos seus concurseiros aos seus policiais ignorantes e de seus universitários que se enojam com mesquinharias.

Odeio pensar que toda essa gente que morreu construindo uma cidade no meio do nada teve a coragem de desistir e se acomodar numa cidade tão frívola e tão interiorana que não merecia ser chamada de capital. Odeio por completo seus jornalistas, prostitutos intelectuais, seus mestres e doutores de diplomas.


Odeio seu pastel queimado da Rodoviária feito com óleo diesel, os seus bares caros sem graça, seus pontos turísticos de concreto e a arquitetura mal-feita de Niemeyer. Odeio ademais pensar que nasci nesse inferno que faz o deserto de agosto quando não tem um pingo de água, quando temos um governador de merda que rouba cada vez mais a esperança de nossos sonhos e dos sensacionalistas que iludem os pobres coitados nas igrejas da periferia.

Odeio os que se fazem de coitados pedindo dinheiro na Rodoviária, odeio os pobres coitados que pedem garrafas de vinho nos restaurantes ou os ignorantes advogados que se acham senhores da razão quando são primeiros a corromper a constituição.


Pois que digam o que digam, odeio essa prisão chamada Planalto Central. E odeio nunca estar com forças para fugir disso, pois a chave da minha sela se perdeu no riacho do Itiquira.

Soneto às duas da tarde


O motor de um motor V8 tintila enquanto seus quatro cilindros debatem-se numa mecânica precisa de quatro tempos. A combustão da gasolina iniciada em cadeia pela vela conduz força que é transmitida pela diferencial de forma harmônica sobre as rodas através de um preciso sistema de distribuição.


A ventoinha ventila com a água do radiador todo o sistema em movimento enquanto o seu condutor aperta o acelerador ou pisa eufórico na embreagem, o câmbio e a caixa de marcha trabalham incansavelmente enquanto a bateria faz girar todo o sistema de som do automóvel e o sistema de ar condicionado acaba gotejando na pista um pouco de água, deixando um rasto surdo na pista.


O óleo do cárter deveria ser trocado depois de quase 15 000 quilometros rodados, mas pelo contrário, o dono sequer se importa com meros detalhes, e fura os sinais vermelhos para levar a pequena criança para a escola a tempo. Negligente, fala às vezes no celular, às vezes arruma o vidro e brinca com a criança. Detalhes...

O trânsito é lento, a criança se atrasa. Mesmo assim, esfria a cabeça, a menina o abraça e diz que o ama: "Entregue isso para ela"

Ela entrega um desenho e um anel. Sim, nada mais do que isso.  Mesmo estressado, ele se ajoelha diante daquela criatura e diz: "Isso é seu. Não devia fazer isso"

"Eu quero, entregue para ela. Ela te ama"


Ele a abraça e a beija na bochecha. A criança era mais sábia do que ele que tinha o triplo de sua idade. "Obrigado, você é a minha filhinha. Obrigado por tudo".

Às vezes os adultos sabem como funcionam mecanismos complicados como injeção eletrônica ou funcionamento de um motor de combustão, mas apenas as crianças têm a sensibilidade de nos lembrar que ainda devemos amar esse mundo.  As crianças são mais sábias que seus próprios pais.

Caixinha de música



Toda vez antes de dormir, ela sentava-se junto à cama, beijava a fumaça do cigarro e tirava o sutiã que a apertava. Ela olhava com olhos cansados para o vazio numa vista frívola de um apartamento no terceiro andar de um hotel. A mobília do seu quarto era antiga, de mogno pesado, sem muita graça e com um ar condicionado que fazia um tremendo barulho.

Uma orquídea cor-de-rosa namorava de maneira psicodélica uma garrafa de vinho francês pela metade. O computador carregava pela metade, ela se deitava na cama de lençóis brancos, finos como a seda, olhava para o teto com a lâmpada pendente e chorava.

Chorava porque dizia-se ser mais forte do que os outros e sempre se lembrava de ser melhor que os outros. Ela ignorava as várias ofensas que o mundo lhe impunha. Ela regojitava sua raiva ouvindo música e postando textos longos no Facebook, vez em quando ia num bar e se embriagava até não poder mais. Festas e mais festas, fumava sempre um cigarro para passar o tempo, até o que o empo passava mais rápido na intensidade de um soco.

Vez em quando dormia sem comer, vez em quando desistia de chorar, vez em quando guardava suas mágoas num cofre bem profundo. Não tinha mais o apoio da mãe, e o pai nunca foi grande coisa, amava a irmã e às vezes duvidava de si mesma.

Ela sofria calada, bebia sem se enganar e tentava deixar tudo o que sentia de lado. Sonhava morar na Toscana, sonhava viver e se apaixonar. Mas mais do que isso, sonhava em ser respeitada. Vez por outro ignorava um insulto ali ou aqui, vez por outra achava que tinha parcela de culpa. Mas não ignorava o fato como o grito surdo de um mundo cheio de barreiras fazia seu coração tremelicar.

Toda noite tinha medo de ser morta ou apedrejada como os israelitas faziam com os infiéis. Todo dia saía na rua e se tornava centro das atenções, não apenas por ser bonita com o seu cabelo louro de leão, mas porque um mundo feito de bonecos de plástico não aceitava pessoas de carne e osso.

Padrões de beleza e estética a moldavam, a torciam e a maltratavam, até que por fim, tudo o que tinha era uma garrafa de vinho barato e uma caixinha de música. Poderia ela ser uma bailarina, um violinista, física ou psicóloga, mas a vida não lhe resolveu essa sorte. Pelo contrário, vivia confinada naquele apartamento minúsculo sem qualquer expressão ou qualquer quadro que se destacasse e quanto menos tinha sossego, maior era a sua aflição.

Ela se sentia só, sentia seus ossos cansados, seu corpo cadente de carinho e um sorriso fraco no rosto, enganava-se muitas vezes. Perdia por vezes a vontade de ser feliz, até que num desses dias perdeu a chama de um cigarro.

Foi quando como um cometa que caía sobre a noite, cadente e pulsante ela encontrou-se no arrebatamento do que poderia ser chamado o amor. O que pode ser uma surpresa para uma menina com 24 anos corridos, mas às vezes tudo o que desejamos só acontece quando menos esperamos. Irritado, o coração se lacera e corrói o seu estomago, o seu fôlego se esvai.

Exasperada, ela corre de medo ao encontro do seu destino e decide viver só mais um pouco. O namorado era um zero a esquerda, com saldo negativo no banco, um carro mequetrefe, falava engraçado e não tinha qualquer tipo de expressão. Ela ainda assim o amou até onde pode, mesmo ele sendo um retardado que a machucava por completo. Por vezes eles discutiam, eles se machucavam e normalmente era culpa dele mesmo. Ela tinha paciência.

Paciência de tal forma que em todos os deslizes ela tinha decidido perdoar. Fosse porque tivesse algum afeto por ele, ou algum afeto por si; de toda forma, ela olhava para o celular, perdia tempo no Facebook e esperava ter um futuro.

Esse mundo não foi feito para sonhos, ela se lembrava disso; E por fim, numa das suas autosabotagens, seu namorado saiu com suas coisas: levou a orquídea consigo e um pouco do amor próprio. Ela ficou na varanda fumando em silêncio, não sei se chorou ou se ficou no marasmo da solidão.

Apenas foi para a cama e dormiu. Cigarro na boca e a caixinha de música com uma bailarina dançando no eixo da corda ao sol de Lago dos Cisnes. Ela ficou quieta e sonhou, teve pesadelos, sofreu com seu pai alcoólatra, com a sua mãe dependente de um casamento fracassado, de sua irmã que não via há um ano. E sofreu por não estar mais perto, e sorriu justamente por estar a frente.


O cigarro apagou, algo tinha se apagado também. Era a luz ou a chama que conduz tudo o que somos? Não sei o que dizer, só sei que eu sou o namorado canalha e ela é um anjo dentre nós reles mortais.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Perdi

Perdi a caneta
Uma pequena caneta
E com ela perdi o meu respeito
Por tudo que a despeito
Perdi sem muito jeito
O afeto que tinha por você


Perdi o confeito
Perdi o seu beijo
Perdi a chance
De ter ficado no convento


Devia ter ficado calado
Não devia ter apaixonado
Devia por namorado
Mas tudo isso é passado

Perdi o amor
Perdi a dor
Perdi a rima
Perdi e perdi


Perdi você
Perdi de novo você
Perdi a chance
De ter dito
Que te amava

Perdi o calor de seus olhos
Perdi o sabor de sua boca
Perdi o odor de sua nuca
Te perdi numa piscada
E logo perdi a esperança

Te perdi
Não quero te encontrar
Te perdi
E hoje vendi o que sentia
Para um mascate por metade de um terno
E meia fatia de queijo bolorento
Meu amor não vale mais do que o vento
E o meu poema não tem traço violento


Adeus... E adeus, Perdi a perca e a apaixonei a perdição.
Adeus, adeus, coração.

sábado, 7 de maio de 2016

Tique

          Acordei pontualmente às 7h32 da manhã de quarta. Engraxei os meus sapatos com a graxa Nugget, cor madeira. Passei o brilho e arrumei o cadarço do meu sapato de couro. Arrumei minha cama, fui ao banheiro escovar os meus dentes e tomei banho. Me arrumei e tomei café, estava perfumado e pronto para o mundo. 

          Saí e fui trabalhar, peguei um engarrafamento, cheguei atrasado. Pouco importa, fiz o que deveria ser feito, visitei os clientes e passei o dia todo conversando sem entusiasmo, mas ainda distribuindo sorrisos falsos. O sorriso é a máscara de um sofredor.  Meio-dia, almocei sozinho como de costume e escolho sushi... Odeio peixe, mas aprendi a gostar de sushi, quando pego o hashi, meu telefone toca. Quem poderia ser?

        Ninguém, era ninguém. A operadora de telefone me incomodando de novo. 12h12, você estava online. Desligo o telefone de raiva. Vou comer ainda mais mal-humorado do que de costume,  você ria quando eu ficava sem humor. Devia ser realmente engraçado.

       Decido que não vou pensar em mais nada e a tarde deve ser minha. Vou a biblioteca e leio um livro, o Medo à Liberdade, e me sinto feliz com as primeiras páginas, o telefone toca. Não é você... 16h16, vou para fora e converso com outra pessoa, quando percebo marco de sair. Ótimo. Melhor assim.


       Volto para casa, tomo um banho e saio. Tique. São 19h19, estou atrasado. Corro imediatamente as escadas e esqueço o perfume, subo novamente. Escovo os dentes apressados e ajeito meu cabelo bagunçado. Pressa, é um encontro.

       Aviso pelo Whatsapp que vou atrasar e pelo Waze procuro uma rota. Rápido, coloco na rádio Verde-Oliva, toca a Voz do Brasil. Inferno! Coloco um jazz para tocar, melhor assim, Miles Davis para animar.


        Corri e cheguei tarde, 20 horas. A pessoa com que marquei estava estressada, lia o Facebook e não deu a mínima importância. Comemos juntos um prato árabe, um falafel que não era falafel e uma esfirra que não era esfirra. Comida horrível! Não sei como as pessoas gostam disso. Conversamos e ela ficou animada, queria ir ao cinema e fomos assistir Sicário. 

        Sessão cheia, sem graça e motivação. Sicário é um excelente filme, mas a companhia não. Saio sem qualquer entusiasmo, mas me ofereço a levá-la em casa... Ela me beija e tique... 23h23.


         Taque. Quando chegamos em sua casa, ela me convida para subir em sua casa; Um apartamento apertado numa parte do centro, ficamos juntos mas ela não sai do whatsapp. Burocraticamente nos beijamos, mas ela estava sem saliva na boca. Ela se despe sem cerimônia e meio sem entusiasmo, se deita na cama de costas, me dispo calmamente e tiro meus sapatos engraxados.

        Dou-lhe uma massagem, beijo seu corpo, mordo seus ombros. Como você me ensinou, ela finge gemer, o celular continua na cama. Fito aquele aparelho com vergonha. Roço meu corpo com o dela, beijo-a de lado, ela continua parada. Seus olhos estão distantes, parece cansada. Beijos e beijos sem entusiasmo.

       Fizemos amor burocrático, daqueles que os casados costumam fazer, o celular continua a tocar Selena Gomes quando terminamos. Um sexo sem ser sexo, que não satisfez nenhum dos dois. Foi então que me ofereço a sair da casa, totalmente desconfortável.

         "Acho que seria melhor". Ela responde "Você que sabe"

        Constrangido, fecho meus olhos enquanto abotoo as minhas calças. Foi ali que pensei em você, o que estava fazendo ali. Coloco os meus sapatos, abotoo minha camisa, ela continua no Facebook.


        Me viro e fico pálido. O que foi aquilo? 

        Me levanto, ela se veste sem entusiasmo e me leva para a cozinha.

       "Não quer tomar banho?"

       "Não, vou pra casa. Me desculpe"


        00h00. Tique taque, minha cabeça bate como as teclas dessa máquina de escrever.

       

Insônia

       Não quero mais escrever sobre você, mas a minha memória insiste em te pintar sorrindo quando estou de olhos fechados. Acordo suado, abro a janela e penso em acender um cigarro, mas como parei com o fumo, olho para o lado e vejo o poste luz apagado;

      Não existem estrelas no céu, e ainda meio agoniado, puxo uma camiseta amarrotada do cesto de roupa suja, saio de casa para não te ver. Vou ao  Subway e só consigo pensar em você. Senti sua falta às 02h20 da madrugada e foi quando pensei em desistir de tudo. Comia um sanduíche de peito de peru e bebia um refrigerante quente. Estava sem sono.

      Peguei o meu carro e andei pela cidade, estava procurando por você; Você já tinha partido, meus olhos estavam alertas. Estava escuro e enxergava melhor que durante o dia. Pensei que havia desistido de te amar, mas meu coração agoniado, agora batia fraco. Sem querer, desviei o volante e subi no meio-fio, quando dei por mim quase acerto o poste.

      Não havia ninguém, felizmente, ainda assim, eu senti sua falta para julgar o meu erro. Antes ontem do que hoje, quero te esquecer mas não te encontro para me dizer aquelas infelicidades que me disse pelo Whatsapp. Você me deixou sem sonhos e hoje tenho que sepultar aquela pessoa que costumava ser.

     Que ódio de mim mesmo por ainda pensar por você, 03h03 da madrugada, o celular acaba a bateria. Você estava numa balada de sábado enquanto eu de pijamas chorava num estacionamento vazio perto do lago.

     Você provavelmente já saía com outro homem que iria dormir na sua cama, aquela cama que fizemos amor tantas vezes e onde eu disse que te amava. Satisfeita, você me mandou embora. Sangue frio.

      Dormi naquela noite no mesmo lugar que foi o nosso primeiro encontro como namorados. Aquele shopping, dormi no estacionamento olhando para o lado, dormi inquieto, passando frio e olhando para o nada. Desisti de você, você me deixou sozinho para desbravar esse mundo, saindo com outros homens e se machucando sem se conhecer.

       Hoje você está numa praia do Rio de Janeiro, aproveitando o sol e nadando de biquíni, sem se lembrar o quanto que eu gostava de você. Foram as piores semanas que eu já tive, as semanas que reaprendi a gostar de mim mesmo quando você partiu,  dando desculpas prontas e  dizendo que não me desejava. Seja franca, se eu  fosse rico tudo seria diferente. Você não se aventuraria por aí, não massacraria meu coração e não fingiria não gostar de mim, mas eu não sou.

      Quando cheguei em casa, a enxaqueca me toma, me barbeio e vou dormir.  Para que? Por quê? Minha cabeça  gira, acordo chorando ainda pior do que quando dormi. Foi tolice imaginar que seria especial, mais tolice ainda foi ter acreditado que você me amava.

      São 10h10 quando recebo  visitas sem entusiasmo e saio de casa de novo,  vou à padaria comprar pães e saio sem um único trocado. A cabeça fica baixa, um cachorro desvia de mim, o  ônibus passa por mim puxando todo o vento e sol aparece forte. Meu estado é deplorável.

     Tomo café, o pão amanhecido com manteiga  não desce. As visitas são intragáveis e acabo indo tomar banho... Nós tomamos banho  juntos, você se lembra? Olha a  minha vergonha não encontrar você me entregando a toalha. Pedi para te esquecer de novo e me arrumei.


      Saí no domingo e fui correr o kart, esse era o  meu único presente  de aniversário. Uma corrida em L com um kart de 40cvs, o que seria de nós  se tudo fosse diferente?

      Cheguei em sétimo, na última curva bati o carro.  Fui desclassificado.


      Amanhã seria segunda-feira, e por sinal, meu aniversário. Será  que você lembraria ao menos disso? Provavelmente não, deixei o capacete e fui com a bataclava até o meu carro. Você gostava de correr na chuva  igual o Senna e dirigia melhor do  que eu.  Liguei o rádio, era nossa música.


      Fui para casa sem falar uma só  palavra...  E assim fiquei. Hoje esqueça que eu existi, não fomos mais do  que estranhos. Eu te amo, mas não gosto mais de  você.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fotografia

      Fotografia é a escrita feita diante da luz, é o traço compilado no feixe de uma câmara escuro que registra uma fração da realidade. A máquina de fotografia não é isenta de falhas ou de erros no obturador, assim como o seu ator não deixa de ser um artista. Todos representamos quando pousamos numa fotografia, seja tentando parecer mais belos ou mais imponentes. A fotografia é a marca de um artificialismo realista, que nos engana ao pensar ser concreto, mas quando na realidade é subjetivo.


    O registro de imagem é um elemento de sobreposição da realidade que passa do passado para a prosperidade como registro da própria história falada. Sem querer caímos no erro do realismo, e acreditamos que o que está registrado numa foto é realmente a comprovação da realidade. Aí que entra a montagem e enquadramento, dois elementos que podem ser feitos de maneira inocente ou não. Quando não é feito de maneira inocente é para reforçar ideologias ou ideias, na pseudocientificidade desta arte.

     Me admira o ofício do fotógrafo tanto quanto o do pintor ou do cineasta... Eles criam realidades a  partir do que observam empiricamente como o mundo. Uma alma delicada e uma percepção resoluta, concisa, torna a fotografia um ofício excepcional. Seja a fotografia que guardamos de nossos avós, seja a fotografia da timeline do Facebook ou de um antigo amor. O ofício da fotografia é também o ofício da recordação, recordar para viver. Por isso temos sempre que nos autoafirmar em fotografias.

    Em todo caso, somos infelizes os que amam a fotografia mas ela não nos aprecia na forma desejada. Ela é uma capa, um espelho e uma máscara. Ela nunca realmente compreende o ofício de nossas emoções, dos nossos pensamentos e dos nossos traços, ela apenas quer ressaltar uma forma sem conteúdo tornada hegemônica: Ver para crer, a episteme da autópsia.

      Como um médico ou um detetive procuram detalhes nos fatos, e nos indícios, quem analisa uma fotografia procura noções cognitivas de tentar compreender que aquilo é um fato concreto. Um paradigma do passado, seja uma fotografia de 1872 da Guerra do Paraguai, seja uma fotografia de criança na festa de 4 anos de idade, ou uma fotografia chamuscada e em preto e branco de uma pessoa desconhecida. Tentamos observar os fatos nos detalhes.

       Pessoalmente eu sou cético com a fotografia e apaixonado pela montagem, por isso que sinto o cinema como uma arte mais honesta que a fotografia.  O cinema tem proposta de entreter e divertir, mas também tem a proposta de ser uma arte, apesar de sua cientificidade e teoria (tão decomposta por Griffith  e Eisenstein), ela não se sujeita a tentar mostrar a realidade como ela é, mas como a realidade poderia ser.

       Apesar dessas considerações, o meio termo entre ciência e arte se encontra de forma ímpar na fotografia, assim como na arquitetura e na música:

      Essas três artes exploram de formas diferentes os campos das ciências aplicadas e da matemática, seja o ângulo de refração de uma lente que refrata uma luz, seja o cálculo de um seno utilizado para fazer uma abobada de Igreja ou uma equação matemática complicada sobre as ondas friccionadas da corda de um violão. 

     A ciência e a arte devem se unir sem se deformarem, a isso acredito que está a maior função do saber humano, congregar as forças do universo de forma pessoal e sutil para que as suas emoções não devam ser suprimidas pela realidade dos números. Por isso, fotografia deve ser respeitada como uma arte científica e uma ciência artística, na mesma proporção, feita com afeto e amor como tudo na vida deve ser feito.

    

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Equador



Linha imaginária que divide o coração em dois
Que divide nossas vidas em duas palavras:
Vida e morte.
No ar frio da madrugada, olho o espelho embaçado
Cortar o meu rosto como se fosse navalha

Os poemas são vazios, o mundo que é belo
Elegante e esbelto, nunca fica ultrapassado
Boa sorte a esse triste coração que não sossega

As árvores são poemas que a terra escreve para o céu
Nós a derrubamos e as transformamos em papel
Para registrar todos os nosso vazios na manhã gelada.

Café, caneta e papel. Eu te desenho nas letras tortas
Em duas estrofes e quatro versos. Imagino o inverso
A melancolia me toma enquanto vejo o seu sorriso
E desisto...

Rasgo o papel e vejo a linha imaginária
Que nos separa décadas no futuro
E metros no presente.

Eu te amo, admirável mundo novo

Que tantas novidades nos trazes.

sábado, 23 de abril de 2016

Numismática

      Não é  segredo que nos últimos anos venho acumulado algumas antiguidades, seja máquinas de escrever, livros antigos, canetas e outros artefatos, mas gostaria de compartilhar uma paixão que surgiu repentinamente esses tempos e que vem sendo avassaladora. 

       Ultimamente tenho me dedicado à numismática, uma ciência antiga que determinava o estudo dos detalhes e do acabamento de moedas, um ramo análogo á arqueologia, o estudo das moedas determina a representação pictórica de uma sociedade e sua representação simbólica de construção identitária. 

         Foi a partir da numismática que aprendemos tanto sobre os fenícios, os povos do Oriente Médio na Antiguidade e sobre a Idade Média. Minha paixão em colecionar moedas é ainda primitiva, em todo caso, mas gostaria de compartilhar algumas moedas latino-americanas que adquiri nesses últimos tempos.


Moeda comemorativa a Bernardo D'Higgins, 1975. República do Chile

        Essa moeda curiosamente tem a fabricação no último ano de mandato de Salvador Allende, antes de ter sido deposto por Augusto Pinochet no dia 11 de setembro num golpe televisionado para todo o mundo. O resgate de Bernardo D'Higgins curiosamente reforçava uma lembrança da Guerra do Pacífico e do caráter nacional chileno que parecia estar sendo dinamitado naqueles tempos pela atividade golpista orquestrada (hoje sabemos) pela CIA.


República de Chile, 100 pesos, 1992 
      Essa moeda de 1992 é feita em comemoração ao descobrimento da América, e mostra a suntuosidade que os últimos anos do regime de Pinochet gostaria de demonstrar, mesmo com a desvalorização da economia chilena imposta a cabo com anuância do neoliberalismo da época. Essa moeda demonstra que a despeito de serem os últimos anos da ditadura, o regime de Pinochet desejava ainda manter o caráter simbólico de construção nacional.
Moeda de 1 peso da República Argentina, 1959
        Essa moeda de 1 peso da República Argentina de 1959 tem uma história curiosa, em uma gravura simples, mas ainda assim icônica que representava o centenário da independência. Essa moeda representa a República Argentina após a Exposição de Buenos Aires que comemorava a formação da Confederação Argentina, feita por Perón em 1954.

       Perón foi derrubado em 1955, mas o seu legado nacionalista perdurou e se manteve na cunha das moedas, no governo da União Cívica Radical, com a estabilização eleitoral de Frondizi. Após um período conturbado após o golpe de Perón, a produção de moedas seguiu esse formato até 1962, quando novas séries de moedas passaram a ser produzidas em comemoração ao centenário da unificação argentina no projeto mitrista.



Moeda comemorativa ao General Artigas, República Oriental do Uruguai, 1965

         Essa é a minha favorita, embora esteja mais deteriorada. A moeda sofre um processo de oxidação ocasionado pelo contato do níquel com o cobre e o estanho, levando a uma perda de sua coloração. A lasca demonstra a falta de cuidado que tinham por essas moedas na época, embora fosse uma moeda comemorativa do bicentenário de nascimento do General Artigas, herói e fundador da República Oriental do Uruguai.

         O Uruguai em 1965 era um bastião da legalidade e da democracia na América Latina e um refúgio contra as ditaduras que nasciam no Cone Sul. Até hoje esse legado, a despeito da triste ditadura que se prolongou naquele país na década de 70, manteve o caráter progressista das  constituições uruguaias até hoje, tal como o sonho de Artigas por liberdade.

A outra metade

A outra metade

Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”

(Camilo Castelo Branco)

Trem Noturno para Lisboa (filme)



         Nesses tempos difíceis, tenho passado muito tempo dentro de casa, sobretudo assistindo filmes e lendo notícias. Dei um tempo da literatura por tempo indeterminado e sobretudo da escrita, mas não foi algo proposital.

         Nesses últimos dias acompanhei com aflição os lançamentos da Netflix e encontrei esse filme. Elegante, singelo e metafísico. Ando com preconceito com o cinema contemporâneo mas a ideia me convenceu do contrário. Trem Noturno para Lisboa é um filme que fala sobre o passado, o legado no presente e nos convence de que a vida tem questões intermináveis através dos anos.

        Como toda adaptação de livro, o filme, baseado no romance de Pascal Mercier, possui uma introdução impactante:

        Raymond  Gregorius é um professor do segundo grau em Berna, na Suíça. Separado, vive uma vida solitária e melancólica até que tem a sua vida revirada quando encontra uma jovem que ameaça se jogar de uma ponte. O choque que Gregorius tem no momento em que vê a moça tentando o  suícidio faz ele largar seus papéis e se meter numa aventura sobre o seu próprio conhecimento. Após salvá-la, ele acaba acidentalmente ficando com o seu casaco e procura entregá-lo, até que encontra um livro de um poeta português perseguido pelo regime salazarista.

        Indelicado, mas curioso, Gregorius acaba lendo o livro e se simpatizando com o autor, até que decide de súbito entrar numa viagem para Lisboa para conhecer o mundo de Amadeu, seu passado no liceu católico, sua relação familiar, sua profissão como médico e sua militância contra o regime salazarista que colocam em cheque sua própria vida pessoal.



        Nisso, Gregorius conhece os antigos companheiros de causa de Amadeu, a irmã e reconhece na sua procura pela verdade um pouco de autoconhecimento próprio. O livro através de sua história traz reflexões ao próprio leitor, que obstinado tenta compreender o desassossego daquele jovem poeta com aquele mundo de totalitarismo e injustiça.

       Quando vi esse filme, senti-me bastante angustiado com a trajetória desses dois personagens e do seu deslocamento temporal  e geográfico. Os dois marcados pelo sofrimento estão a procura de alguma forma de redenção mediante a busca da justiça. Existe um elemento de Benjamin, Baudelaire e sobretudo de Albert Camus, no Estrangeiro que torna a trama ainda mais especial e nos faz compreender que mesmo na dureza dos regimes mais funestos, ainda há margem para as inquietações cotidianas que todos enfrentamos em nossas vidas.

       Desmistificado, devemos ser críticos, mas elegantes. Um filme desses não é alvo de grande bilheteria, mas merece o mérito de ser visto com os olhos sensíveis aos sentimentos e inquietações de nosso mundo moderno. Foi esse filme que me destravou desse lapso criativo e espero que tenham uma impressão positiva, semelhante a que tive com essa película.

Vertigem

         No dia 17 de abril de 2016, o país parou. A Esplanada dos Ministérios estava lotada, colocaram um muro no meio da avenida dividindo dois protesto. A cidade estava um caos. Nesse caos, estava eu, perdido, procurando respostas.

        Faz dois anos que eu abandonei completamente a política. Dois anos que desisti de mudar o país pelo poder democrático e ajudar a construir um mundo novo. Fui em tantos protestos, fiz tanto piquete, ajudei tanto na militância que hoje me dói saber que o esforço foi em vão. Vi meus amigos subirem a rampa do Congresso Nacional, enquanto o povo enlouquecido se fartava nas águas sujas do espelho d'água em frente a esse edifício. Eu estava ali naquele espelho d'água. 

        A polícia militar tinha feito um cordão de contenção para que não chegássemos ao Palácio do Planalto, mas alguns dos manifestantes tinham quebrados os vidros do lindo e suntuoso Palácio do Itamaraty; Eram anos difíceis e rebeldes, todos estávamos zangados com um monte de promessas e baboseiras que nos prometeram por oito anos. Que teríamos um futuro e oportunidades.

        Nós jovens, saímos as ruas, pedir por um mundo diferente do mundo dos velhos, queríamos que tivesse maior sensibilidade com os problemas diários que enfrentamos. A passagem de ônibus era realmente cara, a educação continua sendo uma merda e a saúde, só falta morrer no hospital. Queríamos reformas sérias para um novo país que se construía, seja na política, seja na economia, seja no campo social. Nos enganaram.

        Em 2014, ano eleitoral prometeram muito e não fizeram nada.


       2015 foi o pior ano que eu vivi. Foi nesse ano que vi que todos os nossos sonhos foram jogados na lata do lixo. Ali que eu percebi que havia perdido as esperanças. Estourou um escândalo de corrupção, o governo mentiu e impôs um arrocho amargo contra o país, e ficamos ainda mais acuados quando vimos que tudo o que lutamos só serviu para uma camarilha se manter no poder.

       Nesse contexto, os velhos políticos começaram a fazer o que fizeram nesse mês. Passaram a não reconhecer o resultado das eleições e acusar esse governo mentiroso de corrupção. Correto, mas eles também não são flor que se cheirem. Em fato, são mais sujos que pau de galinheiro e agora ameaçam o futuro de novo do nosso país.

       Eles roubaram a nossa voz de quando nos levantamos e fomos às ruas e começaram a organizar os seus próprios protestos contra a presidente. Eu não apoio mesmo o PT, mas foi uma falsidade ideológica invocar o que sonhamos em torno desse país carcomido que vão construir agora. A presidente vai ser deposta sem ter cometido crime algum, mas pelo crime dos outros. Percebem isso?

      Eu fui nos dois protestos, a favor e contra o impeachment. No protesto a favor, vi famílias com Iphones, chapéus panamá, crianças e bandeiras verde-amarela. Todo mundo usava camisa da CBF e contei três carros de som tocando Olodum. Faziam marchinhas em favor do Moro, xingavam o Lula e ficavam eufóricos com cada voto de deputado no telão nos Ministérios. 

    Vi religiosos rezarem um terço, abençoarem a água e abençoar o impeachment. Mas o momento mais triste foi ver um helicóptero voar baixo, com um polícia munido com uma escopeta, ser saudado de pé e sob aplausos por aquela multidão e retribuir o gesto com uma saudação. Fiquei com medo daquilo  ser um nascimento do partido fascista. Tive uma vertigem e comecei a passar mal, saí dali, estava sufocado, não sei se porque estava muito quente, se estava com muita gente ou se fiquei com náuseas. Mas perdi o amor por aquilo.

     Fui embora. Mas tinha que ver o protesto contra o impeachment.



    Minha glicose baixou, precisava de açúcar. Um vendedor de churros sorria enquanto faturava com a fila de gente faminta naquele momento de manifestação. Mas o vendedor era lento, e a válvula que injetava doce de leite entupiu. Esperei por dez minutos o homem reparar aquilo para que ele atendesse pessoas que literalmente furaram a fila. Brasileiro tem disso, ser contra a corrupção e furar fila. Desisti de comer.

      O protesto a favor da presidente parecia mais vazio, mas ainda mais engajado, com discursos em carros de som, membros entusiastas do PT, CUT e MST, todos reunidos em torno da apuração dos votos. Encontrei funcionários públicos, professores, donas de casa, estudantes, domésticas, trabalhadores braçais e camponeses. Todos juntos com camisas vermelhas e ansiosos pela votação.

      Ali eu encontrei o que esperava que fosse o povo brasileiro, mesmo que uma fatia muito pequena. Mas encontrei pessoas de diferentes classes sociais, nervosas e apreensivas, gritando em favor de alguém. Parecia uma torcida em favor de um time de futebol, mas era bem mais sério que isso. Fiquei com eles até anoitecer, acompanhando os votos, xingando os deputados hipócritas e me solidarizando com o sofrimento deles. Eles podiam ser petistas, mas eles realmente acreditavam naquilo. Eles sofriam a cada derrota e sabiam o que estava em jogo. 

      Todas as falhas de um governo não podem ser atribuídas aos seus eleitores, mas aos seus próprios equívocos.

      Ali que eu percebi que mesmo tendo sido a favor do impeachment, o que estava ali em jogo era o retrocesso. De um lado havia quem defendia o regresso dos militares, do outro havia quem chorava por perder toda a esperança que foi depositada num governo prolongado. E os mesmos canalhas que apareciam no telão dizendo que votam em nome de Deus, do pai, da mulher e dos corretores de seguros. 

     Saí triste, fraco e abalado. Sem energia e com fome. Estava abalado, mas o Brasil tinha perdido. Não porque a presidente foi praticamente afastada (e traída), mas tinha perdido porque roubaram todos os nossos sonhos para um leilão de meia dúzia de corruptos no banquete de corvos no meio da casa legislativa. Foi então que percebi, é meu dever voltar a falar de política.

Silêncio

       Olho para o vazio deste lago, olho para esse líquido espelhado que me separa, cuja a distância dessa ponte até o fundo é de vinte metros. Olho para o horizonte, ainda é cedo, poucos carros passam. Ninguém dará a mínima.

        Puxo um cigarro como último pedido, meu cachecol se solta do meu pescoço e voa longe. Era um cachecol bonito, xadrez, azul e branco, ele que me aquecia a garganta quando ficava muito frio. Mas eu me despeço dele com um olhar perdido. Longe, eu vejo o Congresso Nacional de um lado e a Torre Digital de outro. As vigas dessa ponte são rígidas, de um aço laminado bem forte. Meio estaiada, a ponte se inclinava de forma peculiar, ligando a L4 Sul e o Lago Sul.

        Meio perdido, olho para o meu carro estacionado perto dos restaurantes fechados na praça da Ponte JK. O que me separa de ir para casa e tentar viver de novo? Alguns metros. Mesmo assim olho intensamente para aquele azul-prateado convidativo. O lago é tão grande e ainda assim tão sublime, uma represa tão bela, tão bem construída que parece ter sido feito por mãos divinas. Eu espero me encontrar em seu manto cinzento nesses últimos momentos de martírio.

       Termino  meu último cigarro, eu que não fumo, jogo a bituca para longe. Meu sapato azul sobe sobre um dos apoios e vejo o que podem ser meus últimos momentos. Queria  ter uma corda para me amarrar nesses últimos instantes, e enrolar no pescoço como uma gravata, mas tudo o que tenho é medo. Começa a ventar muito, meus cabelos se desgrenham e tenho medo que tudo acabe mal. E seu eu escorregar antes da hora? 

       Como será se afogar? Será tão doloroso assim? Mas e com o impacto? Será que não desmaio antes? São tantas perguntas, a gente até tem dor de cabeça de tanto pensar. Olho para o céu com olhos de menino, procurando por alguma luz ou uma pipa perdida. Coço minha barba que não aparo a dias, será que esse é o fim?

        Tiro da carteira minha última foto. A última foto dela. Ela sorri, está linda, totalmente maquiada. Parece feliz. Rasguei a foto, mas deixei cair na operação a carteira no lago. Tudo bem, havia apenas cartões de crédito estourados e umas duas notas de cinco.  Quando eu cair, isso nada será de útil. Mas e meu documento? Morrerei como indigente?

         Eu sou indigente. Ninguém se importa se estou ali às 6h35 da manhã de um domingo olhando para o horizonte com os dois pés no cercado da Ponte JK. Está claro que não sairei vivo disso. Mas não, eu olho de novo para as minhas mãos, estou tremendo... Eu tenho medo do vento. Bastante medo, e desisto.

         Desço do vão e saio da ponte. Fico zangado por ter deixado a carteira cair no lago, mas vejo que estranhamente ela flutua com o peso. Estranho... Mas consigo recuperá-la. Os documentos estavam todos encharcados, mas tudo bem. Agora o cachecol, esse se perdeu. Foram aqueles momentos mais tristes que eu percebi que estava errado e desisti de ser o que eu sou, um desafortunado.

         Liguei o meu carro e fui para casa.  E agora?

         Eu não sei. Realmente não sei.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Carta aos meus filhos

      Meus filhos, hoje, se leem essa carta, saibam que eu os amo e espero que estejam felizes e contentes. No passado, poderia dizer que lutei muito para que o mundo fosse um lugar melhor para todos vocês; Desejei maiores oportunidades para vocês, as quais não degustei quando criança. Fui acossado, humilhado e injustiçado. Hoje, não sei o que falo para vocês.

    Roubaram as minhas esperanças, os velhos políticos do passado roubaram meus sonhos. Corromperam minhas lembranças e ainda assim tornam um martírio a vida de meus semelhantes. Meus filhos, como desejei mudar o mundo, mas os velhos não o permitem. O assassinato de uma democracia e o assassinato de um país, tudo isso eu vi. Defendi um novo país, com novas ideias e eleições. O amor e o afeto que tive foram jogados na lata do lixo.

    Meus amigos, morreram ou pereceram às veredas do ódio e da tirania. A maioria deles se venderam, conforme o oportunismo e o ódio. Amei e amarei sempre a vocês mesmo estando tão distante, mesmo que nunca nos encontremos. Meus filhos, intelectualmente estou tão triste por ter desistido tão fácil, por não ter lutado contra essa velha ordem e ainda assim ver todo o nosso esforço sendo jogado na lata do lixo.

     Hoje eu ainda conservo minha juventude, mas não tenho as mesmas forças. Morri e pereci no calvário da política de gabinetes, eu como ex-militante estudantil, ex-presidente de centro acadêmico me enojo de ter visto o pior das pessoas em coisas tão banais. Saibam, meus filhos, que mesmo que não seja  pai,  vocês saberão que fui o melhor que pude. Tentei tanto e não consegui nada, me enojei de ser brasileiro, me enojei em ser jovem e me enojei de ser cidadão.

     Sobre o fim desse país, vi o que não deveria ter visto. Vi a corrupção não somente nos deputados ou políticos, vi a corrupção a face de tudo. Na Academia, na Universidade, nos meus amigos, nos meus conhecidos. Vi no dia a dia, na catraca de um ônibus, num troco roubado, no comércio, e nos desvios das empresas. Estou enojado, sinto de vontade de vomitar.

      Tentei esquecer a podridão do mundo no tabaco e na bebida, a bebida ficou cara e o cachimbo me faz  mal. Estou envelhecendo sem ter visto meus sonhos se realizarem. Cognição e constrição, meu bolso vazio e meu rosto sem expressão, todo dia é um martírio ver meu rosto desgrenhado no espelho.

       Insatisfação ter acreditado no salto falso de um novo país, vi tantos amigos irem embora, fugirem para o exterior, mas fiquei porque acreditei nisso aqui. Nesse sonho frustrado chamado Brasil. Se um dia vocês me conhecerem, e virem uma pessoa diferente, saibam que ela nasceu aqui. Vendo o desemprego, vendo o fim de sonhos, vendo o abuso com que as pessoas infligiram sobre toda a juventude. 

        Guerrilheiros ou políticos profissionais. Não quero sonhar em desistir, mas quero ver que o mundo é nojento e mais nojento ainda é acompanhar a violência com que infligiram ao nosso futuro. Os velhos penhoram nosso futuro, e seremos que pagaremos tudo. Desculpem, meus filhos, devia ter lutado mais para vocês fossem mais felizes do que eu.

sábado, 9 de abril de 2016

Por novas eleições

       Faz anos que não escrevo sobre política, desde 2014. Mesmo assim, me vejo obrigado a responder as minhas inquietações com esse texto: O Brasil naufragou sem mesmo zarpar do porto. Era  um desastre anunciado, desde 2013 a situação brasileira não correspondia mais aos anseios da sociedade.
       Culpabilizo o governo por ter ignorado o apelo popular por reformas em 2013, sobretudo na parte de combate à corrupção, ao aumento de incentivos na parte da saúde e educação. O resultado foi um total desrespeito do governo ao apelo popular por melhorias estruturais no sistema democrático.

      Em uma tentativa falha de minimizar os ânimos populares, o governo procurou promover um pão e circo às avessas, ao invés dos pobres, o governo tentou afagar os ricos com a Copa do Mundo, pacotes de incentivos e investimentos setorizados. 

       Reconheço que no campo social, houveram avanços importantes, sobretudo no plano da habitação e do combate à fome, mas não sejamos inocentes, todos os programas de incentivo dados pelo governo, seja redução  do Imposto de Produtos Industrializados, para incentivar o consumo, seja os semi-planos quinquenais (como PAC 1 e PAC 2), e crédito subsidiados, serviram apenas para alimentar ainda mais a ilusão de uma "burguesia nacional". 

      Digo ilusão porque na globalização, não existe mais esse conceito de burguesia nacional. Na verdade, nunca existiu, assim como os "proletários não tem nação", segundo o próprio Marx, o Kapital também não possui qualquer vínculo nacional, assim como a burguesia. É um erro acreditar que todo o dinheiro conseguido mediante a lucro tenda a ficar pulverizado em toda a sociedade.

     O ovo da serpente foi o governo ter virado as  costas para  todos, para o desemprego que crescia, para inflação que explodia, ignorado que havia problemas fiscais sérios e que a população estavam insatisfeita com os rumos da nação. Poderão dizer quem em 2013 ninguém sabia o que ia acontecer, eu desminto, Todo mundo sabia o que ia acontecer, estava anunciado. Não foi à toa que todo mundo foi para a rua. A classe política tem a tendência de desconstruir o papel proativo do povo, rotulá-lo como ignorante ou incapaz de consciencia política. Sou franco, o povo é imaturo, mas não ignorante.
Todo mundo tinha ideia que havia algo errado em 2013, inclusive o governo.

     Em 2014 tivemos aquele espetáculo de horrores que foi a eleição de 2014. Foram talvez as piores eleições do período pós-redemocratização. Como o voto no Brasil é obrigatório, observamos que havia três candidatos fortes no páreo:

       Dilma Rousseff tentando a reeleição com índice de rejeição altíssimo por causa das suspeitas de desvios na Copa, a economia dando sinais de desaceleração e falta de credibilidade política. Aécio Neves, candidato de segmento neoliberal, sem qualquer expressividade fora de Minas, com alta rejeição inclusive no próprio estado de origem, com um projeto de reformas que desagradava boa parte da população. E Eduardo Campos, que tinha uma visão diferenciada do processo, em que queria manter os progressos sociais do lulismo com as reformas necessárias no âmbito fiscal e político naquele momento.

       Eduardo Campos morreu num acidente aéreo pouco explicado. Marina Silva assumiu e praticamente dissolveu as propostas de Campos,  Aécio e Dilma acabaram vencendo o primeiro turno, e o espetáculo de horrores se anunciou. Quem votou na Dilma, prioritariamente votou contra o Aécio. Quem votou no Aécio, não queria a Dilma. Esse é o maior problema do voto obrigatório, as pessoas não tem a liberdade de se recusar a votar nos candidatos com alto índice de rejeição.

      Mesmo assim a quantidade votos nulos disparou, mas não foram contabilizados como votos válidos. Nisso chegamos ao aspecto acirrado, de uma eleição apertada de 51% dos votos para Dilma Rousseff contra 49 % para Aécio. Dilma pode ter ganho as eleições por 2 pontos percentuais, mas não saiu vencedora. 50% do país não queria a Dilma já em 2014.

     O maior problema de 2014 é que a economia já estava indo mal, mas o governo optou por segurar a situação financeira do país, emitindo títulos, segurando os juros, o preço das commodites básicas inflacionárias (como o combustível), e mantendo uma política de crédito já comprovadamente falida. Nada mais natural, o governo queria se manter. O problema que no segundo semestre de 2014 já havia relatórios econômicos mostrando o cansaço da economia brasileira, sobretudo porque o consumo não estava acompanhando o aumento da renda, a inflação começou a subir devido a problemas crônicos na produtividade brasileira e na sua questão logística. E em dezembro de 2014 foi o desastre fiscal, a bomba estourou.

    O governo fugiu da sua meta fiscal, era para ter crescido por volta 25 bilhões a 30 bilhões, ficou com deficit maior de 100 bilhões de reais. Foi o maior tombo da bicicleta em um único ano. De modo que não houve repasse de verbas para programas sociais, como o Bolsa Família, e os bancos estatais tiveram que custear esse encargo sozinhos. Deixando-os em situação financeira delicada, sobretudo a Caixa Economica Federal, o governo só conseguiu pagar as dívidas com os bancos públicos no final do ano passado. 

     A acusação que pesa sobre a presidente não é sobre corrupção, até porque não há acusações concretas contra Dilma (há contra gente do alto escalão do Governo, inclusive o caso do Lula é dramático, mas não me soa uma novidade), mas sobre o crime de responsabilidade fiscal e mais do que isso uma possível improbidade administrativa, porque se utilizou instrumentos financeiros do Estado para manter uma situação favorável para o governo nas eleições. Onerando o Tesouro Público e deixando em situação delicada empresas estatais.


     Empresas estatais, veja o Caso Petrobrás, a maior companhia petrolífera estatal do Mundo sob a acusação de desvios, superfaturamento de obras, esquemas de Caixa  2, cartel, dumping, e problemas sérios de gestão (sobretudo a questão da Refinaria de Abreu e Lima e Pasadena). No início de 2015 a justiça norte-americana levantou indícios de possível fraude na compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás, nisso a Operação Lava-Jato já estava atuando e descobriu novas irregularidades no mandato de Graça Foster no comando da Estatal. Graça Foster caiu, descobriu-se então outras irregularidades e esquemas de corrupção no mandato do ex-presidente da companhia Gabrielli, amigo pessoal de Lula.

     A toda semana foram se descobrindo novas evidências, algumas que se comprovaram ser falsas, outras que levaram a prisões, como a de Cerveró, Bumlai e Delcídio Amaral. O fato que se o governo já não estava com uma popularidade alta logo depois das eleições, com a descoberta de esquemas de corrupção na Petrobrás e a "pedalada fiscal" com os Bancos Públicos, o governo perdeu ainda mais popularidade.

     Nisso se soma as impopulares (e necessárias) medidas do ajuste fiscal, me desculpem os petistas, mas Dilma fez tudo o que prometeu não fazer, aumentou os impostos, mexeu nos planos de aposentadoria, aumentou os juros, mudou as regras do seguro-desemprego e retirou investimentos no Bolsa Família e do Minha Casa Minha Vida, Ciência sem Fronteiras entrou numa situação financeira delicada, e não obstante, a dívida publica do Brasil dobrou com a explosão do dólar que aconteceu nesse ano. O poder aquisitivo brasileiro caiu (embora ainda seja maior do que foi em 1998) e o desemprego voltou a crescer, a juventude perdeu seus sonhos e teve o ajuste fiscal do Levy.

     Levy, para o mal para o bem, estava fazendo tudo o que o mercado queria, a um ritmo lento devido às próprias questões políticas do governo com a base na Câmara e no Senado. Acabou que nenhuma das medidas surtiu efeito, não por despreparo do ministro, mas porque o Brasil não tinha credibilidade para levar a frente medidas tão impopulares com a presidente. Nesses momentos difíceis a arte do convencimento de um bom governante faz com que se superem as adversidades mais fácil, os estrangeiros não tem a percepção, mas Dilma não é popular, não tem carisma, e pior ainda, não tem jogo de cintura para esses problemas. O maior problema da Dilma é não ser o Lula.

     A inflação estourou a niveis catastróficos de quase 10%, a política de juros chegou a absurdos 13,75%, o maior índice de todas as vinte maiores economias do mundo, o poder aquisitivo brasileiro caiu para um 1/3, o câmbio em relação ao dólar que chegou a R$ 1,66, foi para R$ 4,15 em menos de um ano e meio.

     Economicamente falando foi um desastre, e a culpa foi a indecisão do governo de fazer o que era necessário. O necessário era renegociar a dívida pública que praticamente triplicou, manter uma folha fiscal estável e elevar impostos não sobre o consumo, mas sobre a renda. Nada disso foi feito.

     Não  há milagre nem New Deal que resolva isso. A oposição que tinha praticamente desaparecido na época do Lula (o PSDB quase desapareceu), ressurgiu mediante a insatisfação popular, e os antigos apoiadores do governo se desiludiram com as constantes denúncias de corrupção,as atitudes equivocadas uma atrás a outra da presidente e o próprio ajuste fiscal. 

    Brasil como bem se sabe, não é para amadores. A oposição é neoliberal, mas não é direita de verdade, e sim social-democrata. O  governo se diz de esquerda, mas suas atitudes tem mais a ver com a ideia de um capitalismo estatal cepalino do que qualquer projeto de esquerda. PT deixou de ser partido de esquerda em 2003, na minha opinião, e muitos ex-militantes pensam da mesma forma. Agora o partido corre o risco de ser esfacelado com a grande impopularidade da Dilma.

     A solução do impeachment mediada pelo PMDB francamente não resolverá nada, o PMDB foi o condutor do processo de redemocratização, participou de todos os governos de 1985 até agora, e esteve  entranhado no projeto do PT por 14 anos.  Está envolvido nos erros da política econômica, está envolvido nos esquemas de corrupção, e logicamente é tão impopular que não conseguiria eleger um presidente sozinho. Como maior partido do Brasil, ele é o mais heterogenero da República, e o mais confuso. Um governo do PMDB seria um desastre.

     Não acredito francamente que o impeachment seja um golpe, basta a leitura rápida de Locke, para perceber que quando um governante não tem mais o apresso do seu povo, é lícito que seja deposto, até mesmo pelas armas. Desejo profundamente que não se use as armas e sim os limites da justiça, mas impeachment é um processo natural previsto na Constituição e nascido em todos sistemas democráticos. Nós temos direito de retirar um governante quando não queremos mais, é errado termos que esperar mais dois anos para que se possa se fazer um reajuste político convincente.

     Se tiver que esperar mais dois anos, haverá uma guerra civil. Eu acredito realmente nisso, isso se não tiver golpe de verdade, com armas, tanques e mortes.  A única saída realmente sábia são novas eleições gerais, imediatas, mediante a um plebiscito com o povo. O poder emana do povo e deve-se manter com o povo, os representantes hoje estão tão dissociados da sociedade que não podem mais responder por ela.

    Antes que digam que goste da oposição ou do governo, convoco-lhes ao pensamento, só há realmente dois projetos antagônicos para esse país? Será que não estamos pensando pequeno demais ao esperar desses políticos caducos, com projetos políticos da Guerra Fria, possam ser extirpados sem que produzamos nada de novo. Acabou para mim a Quarta República brasileira no momento que se admite que o diálogo não pode produzir mais nada, e apenas o ódio mútuo ser aspecto reconhecido da política.

     Maldito seja o governo que deixa o seu povo sofrer com sua própria incompetência, e  maldito seja o povo que deixar se iludir por sua própria infragilidade. Não podemos mais esperar que o mundo resolva fazer algo por nós, a Democracia brasileira só será feita diretamente pelo povo, e não por políticos profissionais que há 20 anos espoliam o nosso país com falsas promessas.

     Novas Eleições imediatas! Plebiscito! E se necessário nova Constituição! Apenas isso salvará o que ainda resta de democracia nesse país.

Do ódio

      O ódio é a encarnação de todas as nossas corrupções e preconceitos sobrecarregados pelo medo ao diálogo. Quando odiamos uma pessoa, observamos que apenas o domínio psíquico da cognição reflete uma repulsa imediata da pessoa, elevando os níveis de estresse, aumentando o batimento cardíaco e dilatando as pupilas. Entramos em posição de batalha.

     Isso pode ter haver com os nossos ancestrais pré-históricos, que em disputas territorialistas e depois tribais, marcavam território com brigas e embates cada vez constantes. Hoje estamos numa postura similar, o que demonstra que o ódio é um resquício inato do ser humano. Ao contrário do amor, todos nós odiamos alguma coisa: Seja uma cor, uma comida, uma música ou uma pessoa. Há sempre alguém para odiar.

     Odiar é humano, antes de qualquer coisa. Não é uma geração emocional saudável, porque produz inimizades desnecessárias. Mas pensemos, o ódio não é produto de incompreensão? Quando penso em termos políticos, com certeza, mas em relações interpessoais também. O ódio surge quando a sua raiva ou a sua repulsa se torne tão cega que não há possibilidade de agir de forma educada ou cordial com alguma pessoa. Sejamos francos, nós sabemos ou não sabemos o que odiamos?

     Tendo a pensar que ignorância acaba criando o medo e a animosidade, depois disso surgem o preconceito e outras carestias. Entretanto, é possível odiar uma pessoa conhecendo-a muito bem, ou aja vista que ex-namorados não podem acabar se odiando? Ou irmãos e amigos?

     Confesso que tenho ódio de pessoas que no passado julguem por amigos, tanto por suas práticas questionáveis, quando por questões políticas. Especialmente agora que os ânimos estão sobrecarregados, amei e desamei muitas mulheres. Agora, pergunto, é possível superar o  ódio?

      Tendo a refletir que não. Que o ódio é uma característica inata aos seres humanos, e mais do que isso, um elemento de intolerância e cegueira do ser humano que é indiscriminadamente utilizado para formar sistemas de opinião, conceitos, e ideologias políticas. Ele é o maior aspecto de desvalorização do seu semelhante e de criação de animosidades.

      Não posso aqui vir fazer a apologia do  amor ou do pacifismo, pois não acredito em ambos. Mas pensando bem, é preciso ter ódio irracional? Desconhecer o seu próprio oponente é imaturo e complicado, sejamos francos, há motivos concretos e reais para exercer essa postura de animosidade?

      Raciocinar as nossas emoções não é fácil, mas devemos superar os pensamentos irracionais e impulsivos que estão nos movendo em tempos difíceis. Filosoficamente, estamos pouco maduros para compreender a imensidão do mundo e das pessoas quando deixamos de observar e ensaiar as discussões de forma saudável. Contra isso que deve ser combatido o ódio, apenas para retirar a ignorância de nossos olhos.

terça-feira, 29 de março de 2016

Número imaginário

Número imaginário

O quadrado da hipotenusa
Não descreve o calor do momento
Que foi ter você junto ao meu peito


O ponteiro do relógio
Perdido no devaneio
Desconhece o tempo do nosso beijo

Nem mesmo o botânico
Consegue identificar
Que flor é essa
Que rouba meu coração


O filósofo na verdade
Deixa de escrever a tese
Para ver de soslaio
Tudo o que vejo


Quando estou apaixonado
Fico tão lúcido quanto cego
Mas mais do que isso
Imagino nosso futuro longe de você


Quero somente tomar de novo o seu beijo
Beber um pouco do seu doce mel
E sentir o  seu corpo incandescido j

Matemática do amor




Num traçado de uma tangente
Um matemático meio demente
Descreve uma equação inconsequente


Dentre os pequenos cálculos
Puxa na saudade dos números
Encontrar a felicidade da cara-metade
Como se isso fosse uma tenra novidade

Calculou que a soma dos quadrado dos catetos
Era igual ao quadrado da hipotenusa
Mas por uma inocente maldade
Imaginou o coração como um triângulo

Um triângulo que batia em três lados
Um lado era da paixão, que saia no piscar de um olho
Outro lado era o da fé, que era cego como um porco
E o terceiro era do amor, perdido na poesia

Pois bem, descobriu o coração rachado
nos três lados. Beijou o quadro com o giz
Calculou o tempo de um piscar de um olho
Calculou o tempo de uma missa de fé
Mas e o amor?  Como se calcula?


Hipoteticamente, não há hipotenusa
O matemático sem esperanças
Rasgou os papéis e saiu da sala descontente
Até que quando se deu conta

Se apaixonou pela ideia de ser  matemático de novo

sexta-feira, 11 de março de 2016

O melhor do recomeço é a renovação da esperança

         Queria ter tido mais esperanças que fosse dar certo, queria ter me contido quando pude, e não ter me entregado de corpo e alma aos seus braços. Queria ter beijado ainda seus lábios, se soubesse que os perderia numa prosa de minuto. Queria ter te desejado menos do que te desejo nesse segundo.

        Estou sozinho e amargurado, e toda vez que olho sua foto, bate mais calado o meu coração. Estou tão abatido e sem felicidade, que nem fome mais tenho, nem mais desejo quero ter, nem batuque perdido quero ouvir. O vento que suja meu rosto de pó, esfarela meus lábios secos e deixa negro meu coração. Petrificado, puxo de lado um tabaco e penso em voltar a fumar. Mas não, a fumaça não me irá fazer esquecer do que sinto no momento,

       Não tenho esperanças nesse recomeço, nem quero que saiba que te amo, pois odeio a mim mesmo por ter começado a te amar. Estou sozinho novamente no mundo e isso me entristece, principalmente porque poderíamos ser felizes diante os desafios do mundo. A síndrome de patinho feio que hoje me corrompe, faz com que eu chute a lata de alumínio na calçada e xingue os transeuntes na calada da madrugada. O terno nas minhas costas todo amarrotado, e a barba por fazer.

       Eu te amava, moça. Mas a felicidade é um bem que não se compra, e se comprasse não seria um luxo que gostaria ter, você me mostrou o relâmpago de endorfina quando dormia ao seu lado, no frio da noite, e quando roncava. Sim, você roncava. Inquietude, me sinto tão inquieto por nunca mais poder te ver, que dói escrever o que eu escrevo. Acredito que você nunca acreditou no que disse, e se acreditou, ficou com medo... Poderia ter desejado me jogar desse abismo, onde nunca mais haveria de ser encontrado, mas ainda assim amargurado, desejo me encontrar longe de ti. Eu que amo e me despeço , hoje deprimido, me encontro longe, olhando para esse lago sujo de tanto clamor.

      Meu terno hoje puído, meu rosto sem rosto, meu amor sem coração. Você me disse para encontrar alguém, mas como encontrar alguém se estou tão perdido quanto você? E que recomeço mais torpe do que acrescentar que hoje vou emagrecendo e perdendo o fôlego com o passar dos dias. O desânimo que me consome, hoje me liquida nessa tarde, e sem qualquer afeto, respiro amargurado o ar quente da janela do meu quarto.

      Cacoetes à parte, acabou meu sigilo. Desejo manter sustenido o  que sinto o que sinto. Pois nesse agito, vejo o que vejo como gole grogue de absinto.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Proscrito

        Eu te perdi, como a gente perde uma chave. Como a gente perde a esperança, ou quando a gente perde uma amizade. Perdi por distração, perdi por ter  esquecido de ficar calado. Mas não te perdi completamente de uma vez, mas aos poucos, onde todas as noite fugia de meus medos e me acolhia no calor de seus braços. Deixei você agir como minha irmã, cuidar de mim como uma mãe, e me consolar como amiga, mas você só tinha que ser minha namorada... Era o que eu queria.

      Mas não podia. A verdade é que não sei se podemos pensar sobre isso, afinal não é uma opção válida. De todos os meus medos, de todos os meus martírios, desistir de você me deixa cada vez  mais triste, mas cada vez mais calmo. Taciturno, titubeio sem imaginar que o mais cego dos amores é o mais pleno dos desastres.

     Me apaixonei no desatino de um minuto, num passo de segundo. Apaixonei tão intensamente que foi como ser atropelado por um trem, e hoje esse vento, cada vez mais violento, me insulta com palavras injuriosas enquanto escondo minha lágrima no fundo do coração. É mais uma entre várias, de um coração partido que foi remendado às pressas e que não bombeia mais com a mesma força de antes.

       Desisti de ter resposta. Desisti de minhas perguntas... Fisiologismo meu pensar que te amo, afinal somos tão jovens e tão tolos. Não, você é mais madura do que eu, mais esperta e inteligente. Nunca vi alguém assim, e nunca mais encontrarei. Te perdi com mais dor por causa disso, mas tolice. Tolice minha, amei sem esperar.Amei com pressa de ser amado, amei amargurado.

      Silêncio. Adeus, soneto... Hoje é um dia triste para os meus olhos, mas é um dia que irei baixar a cabeça para elevá-la depois. Cabeça erguida, vai demorar para conseguir, mas desisti de correr atrás de algo que nunca vai acontecer. Soneto do abandono,,, Eu te amo no desassossego dos meus olhos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Chuva

       Beija os meu pés o mais gelado dos lábios, que é o chão molhado com os pés descalços. E longe de sentir-me incomodado, abraço a chuva que cai do céu e sem cerimônia enxarca meus cabelos de água límpida e transparente enquanto venta preguiçosamente as minhas roupas contra a direção do ar.

      Desejo me encolher nesse escuro que faz hoje a noite, e me sinto especial ao imaginar na sombra dessa escuridão o filete de felicidade sincera... Uma tromba d'água cai sobre meu corpo, e preenche minha alma, mas eu hoje não sei porquê. Me sentia antes tão perdido na chuva, que mordiscava o seu tempo com ódio mal-disfarçado, mas hoje me esforço a beijá-la e bebê-la com os lábios entreabertos, entardecidos de tamanho despojamento. 

     Minha capa está completamente ensopada, meus sapatos deixaram entrar água que agora foi direto para a minha meia. A roupa não irá secar no varal, meu carro vai ficar todo sujo, e sim, provavelmente estarei com sono daqui a pouco. Mas como gosto do barulho da chuva que bate na telha e tece sobre mim um doce cântico junto ao meu ouvido... Não é um cântico lamentoso, ou mesmo carregado de alegria, mas um monotono tintilar que me faz lembrar de quando era criança e gostava de dormir na chuva.

      O poste perto de casa se apagou, em meio à ventania os cabos de energia balançam, mas eu não temo absolutamente nada. Depois de um tempo, você se acostuma a olhar a chuva como algo redentor e, por quê não, salvador. Possuir a chuva é um desejo que nem chega a ser profano, nem divino, mas uma aventura colegial. Afinal, de suas águas nada tenho senão a que molha meu corpo e enxarca minha alma.


      Nessa chuva, é bom tomar um bom chocolate quente, ficar envolto nas cobertas e assistir um bom filme. Com uma companhia, bem, seria perfeito...Mas afinal, o que me falta na chuva, acho que só a sensação de vê-la caindo na terra, pulverizando longas distâncias e alimentando todas as árvores e folhas. Os rios e lagos cada vez mais cheios, a vida cada vez mais colorida, e o mundo cada vez menos inseguro.

       Chuva é uma obra desse pequeno planetinha que demonstra o real valor da vida, pois me lembra da agonia que a seca representa para todos os infelizes lobos do deserto. As estepes se prolongam, mas tardam a desaparecer quando a água começa a cair, e nisso, estou contente, em dizer que já esperava me perder nessa narrativa, mas quem disse que quero me encontrar senão no meio do temporal que cai lá fora?
     

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...