quarta-feira, 27 de abril de 2016

Equador



Linha imaginária que divide o coração em dois
Que divide nossas vidas em duas palavras:
Vida e morte.
No ar frio da madrugada, olho o espelho embaçado
Cortar o meu rosto como se fosse navalha

Os poemas são vazios, o mundo que é belo
Elegante e esbelto, nunca fica ultrapassado
Boa sorte a esse triste coração que não sossega

As árvores são poemas que a terra escreve para o céu
Nós a derrubamos e as transformamos em papel
Para registrar todos os nosso vazios na manhã gelada.

Café, caneta e papel. Eu te desenho nas letras tortas
Em duas estrofes e quatro versos. Imagino o inverso
A melancolia me toma enquanto vejo o seu sorriso
E desisto...

Rasgo o papel e vejo a linha imaginária
Que nos separa décadas no futuro
E metros no presente.

Eu te amo, admirável mundo novo

Que tantas novidades nos trazes.

sábado, 23 de abril de 2016

Numismática

      Não é  segredo que nos últimos anos venho acumulado algumas antiguidades, seja máquinas de escrever, livros antigos, canetas e outros artefatos, mas gostaria de compartilhar uma paixão que surgiu repentinamente esses tempos e que vem sendo avassaladora. 

       Ultimamente tenho me dedicado à numismática, uma ciência antiga que determinava o estudo dos detalhes e do acabamento de moedas, um ramo análogo á arqueologia, o estudo das moedas determina a representação pictórica de uma sociedade e sua representação simbólica de construção identitária. 

         Foi a partir da numismática que aprendemos tanto sobre os fenícios, os povos do Oriente Médio na Antiguidade e sobre a Idade Média. Minha paixão em colecionar moedas é ainda primitiva, em todo caso, mas gostaria de compartilhar algumas moedas latino-americanas que adquiri nesses últimos tempos.


Moeda comemorativa a Bernardo D'Higgins, 1975. República do Chile

        Essa moeda curiosamente tem a fabricação no último ano de mandato de Salvador Allende, antes de ter sido deposto por Augusto Pinochet no dia 11 de setembro num golpe televisionado para todo o mundo. O resgate de Bernardo D'Higgins curiosamente reforçava uma lembrança da Guerra do Pacífico e do caráter nacional chileno que parecia estar sendo dinamitado naqueles tempos pela atividade golpista orquestrada (hoje sabemos) pela CIA.


República de Chile, 100 pesos, 1992 
      Essa moeda de 1992 é feita em comemoração ao descobrimento da América, e mostra a suntuosidade que os últimos anos do regime de Pinochet gostaria de demonstrar, mesmo com a desvalorização da economia chilena imposta a cabo com anuância do neoliberalismo da época. Essa moeda demonstra que a despeito de serem os últimos anos da ditadura, o regime de Pinochet desejava ainda manter o caráter simbólico de construção nacional.
Moeda de 1 peso da República Argentina, 1959
        Essa moeda de 1 peso da República Argentina de 1959 tem uma história curiosa, em uma gravura simples, mas ainda assim icônica que representava o centenário da independência. Essa moeda representa a República Argentina após a Exposição de Buenos Aires que comemorava a formação da Confederação Argentina, feita por Perón em 1954.

       Perón foi derrubado em 1955, mas o seu legado nacionalista perdurou e se manteve na cunha das moedas, no governo da União Cívica Radical, com a estabilização eleitoral de Frondizi. Após um período conturbado após o golpe de Perón, a produção de moedas seguiu esse formato até 1962, quando novas séries de moedas passaram a ser produzidas em comemoração ao centenário da unificação argentina no projeto mitrista.



Moeda comemorativa ao General Artigas, República Oriental do Uruguai, 1965

         Essa é a minha favorita, embora esteja mais deteriorada. A moeda sofre um processo de oxidação ocasionado pelo contato do níquel com o cobre e o estanho, levando a uma perda de sua coloração. A lasca demonstra a falta de cuidado que tinham por essas moedas na época, embora fosse uma moeda comemorativa do bicentenário de nascimento do General Artigas, herói e fundador da República Oriental do Uruguai.

         O Uruguai em 1965 era um bastião da legalidade e da democracia na América Latina e um refúgio contra as ditaduras que nasciam no Cone Sul. Até hoje esse legado, a despeito da triste ditadura que se prolongou naquele país na década de 70, manteve o caráter progressista das  constituições uruguaias até hoje, tal como o sonho de Artigas por liberdade.

A outra metade

A outra metade

Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”

(Camilo Castelo Branco)

Trem Noturno para Lisboa (filme)



         Nesses tempos difíceis, tenho passado muito tempo dentro de casa, sobretudo assistindo filmes e lendo notícias. Dei um tempo da literatura por tempo indeterminado e sobretudo da escrita, mas não foi algo proposital.

         Nesses últimos dias acompanhei com aflição os lançamentos da Netflix e encontrei esse filme. Elegante, singelo e metafísico. Ando com preconceito com o cinema contemporâneo mas a ideia me convenceu do contrário. Trem Noturno para Lisboa é um filme que fala sobre o passado, o legado no presente e nos convence de que a vida tem questões intermináveis através dos anos.

        Como toda adaptação de livro, o filme, baseado no romance de Pascal Mercier, possui uma introdução impactante:

        Raymond  Gregorius é um professor do segundo grau em Berna, na Suíça. Separado, vive uma vida solitária e melancólica até que tem a sua vida revirada quando encontra uma jovem que ameaça se jogar de uma ponte. O choque que Gregorius tem no momento em que vê a moça tentando o  suícidio faz ele largar seus papéis e se meter numa aventura sobre o seu próprio conhecimento. Após salvá-la, ele acaba acidentalmente ficando com o seu casaco e procura entregá-lo, até que encontra um livro de um poeta português perseguido pelo regime salazarista.

        Indelicado, mas curioso, Gregorius acaba lendo o livro e se simpatizando com o autor, até que decide de súbito entrar numa viagem para Lisboa para conhecer o mundo de Amadeu, seu passado no liceu católico, sua relação familiar, sua profissão como médico e sua militância contra o regime salazarista que colocam em cheque sua própria vida pessoal.



        Nisso, Gregorius conhece os antigos companheiros de causa de Amadeu, a irmã e reconhece na sua procura pela verdade um pouco de autoconhecimento próprio. O livro através de sua história traz reflexões ao próprio leitor, que obstinado tenta compreender o desassossego daquele jovem poeta com aquele mundo de totalitarismo e injustiça.

       Quando vi esse filme, senti-me bastante angustiado com a trajetória desses dois personagens e do seu deslocamento temporal  e geográfico. Os dois marcados pelo sofrimento estão a procura de alguma forma de redenção mediante a busca da justiça. Existe um elemento de Benjamin, Baudelaire e sobretudo de Albert Camus, no Estrangeiro que torna a trama ainda mais especial e nos faz compreender que mesmo na dureza dos regimes mais funestos, ainda há margem para as inquietações cotidianas que todos enfrentamos em nossas vidas.

       Desmistificado, devemos ser críticos, mas elegantes. Um filme desses não é alvo de grande bilheteria, mas merece o mérito de ser visto com os olhos sensíveis aos sentimentos e inquietações de nosso mundo moderno. Foi esse filme que me destravou desse lapso criativo e espero que tenham uma impressão positiva, semelhante a que tive com essa película.

Vertigem

         No dia 17 de abril de 2016, o país parou. A Esplanada dos Ministérios estava lotada, colocaram um muro no meio da avenida dividindo dois protesto. A cidade estava um caos. Nesse caos, estava eu, perdido, procurando respostas.

        Faz dois anos que eu abandonei completamente a política. Dois anos que desisti de mudar o país pelo poder democrático e ajudar a construir um mundo novo. Fui em tantos protestos, fiz tanto piquete, ajudei tanto na militância que hoje me dói saber que o esforço foi em vão. Vi meus amigos subirem a rampa do Congresso Nacional, enquanto o povo enlouquecido se fartava nas águas sujas do espelho d'água em frente a esse edifício. Eu estava ali naquele espelho d'água. 

        A polícia militar tinha feito um cordão de contenção para que não chegássemos ao Palácio do Planalto, mas alguns dos manifestantes tinham quebrados os vidros do lindo e suntuoso Palácio do Itamaraty; Eram anos difíceis e rebeldes, todos estávamos zangados com um monte de promessas e baboseiras que nos prometeram por oito anos. Que teríamos um futuro e oportunidades.

        Nós jovens, saímos as ruas, pedir por um mundo diferente do mundo dos velhos, queríamos que tivesse maior sensibilidade com os problemas diários que enfrentamos. A passagem de ônibus era realmente cara, a educação continua sendo uma merda e a saúde, só falta morrer no hospital. Queríamos reformas sérias para um novo país que se construía, seja na política, seja na economia, seja no campo social. Nos enganaram.

        Em 2014, ano eleitoral prometeram muito e não fizeram nada.


       2015 foi o pior ano que eu vivi. Foi nesse ano que vi que todos os nossos sonhos foram jogados na lata do lixo. Ali que eu percebi que havia perdido as esperanças. Estourou um escândalo de corrupção, o governo mentiu e impôs um arrocho amargo contra o país, e ficamos ainda mais acuados quando vimos que tudo o que lutamos só serviu para uma camarilha se manter no poder.

       Nesse contexto, os velhos políticos começaram a fazer o que fizeram nesse mês. Passaram a não reconhecer o resultado das eleições e acusar esse governo mentiroso de corrupção. Correto, mas eles também não são flor que se cheirem. Em fato, são mais sujos que pau de galinheiro e agora ameaçam o futuro de novo do nosso país.

       Eles roubaram a nossa voz de quando nos levantamos e fomos às ruas e começaram a organizar os seus próprios protestos contra a presidente. Eu não apoio mesmo o PT, mas foi uma falsidade ideológica invocar o que sonhamos em torno desse país carcomido que vão construir agora. A presidente vai ser deposta sem ter cometido crime algum, mas pelo crime dos outros. Percebem isso?

      Eu fui nos dois protestos, a favor e contra o impeachment. No protesto a favor, vi famílias com Iphones, chapéus panamá, crianças e bandeiras verde-amarela. Todo mundo usava camisa da CBF e contei três carros de som tocando Olodum. Faziam marchinhas em favor do Moro, xingavam o Lula e ficavam eufóricos com cada voto de deputado no telão nos Ministérios. 

    Vi religiosos rezarem um terço, abençoarem a água e abençoar o impeachment. Mas o momento mais triste foi ver um helicóptero voar baixo, com um polícia munido com uma escopeta, ser saudado de pé e sob aplausos por aquela multidão e retribuir o gesto com uma saudação. Fiquei com medo daquilo  ser um nascimento do partido fascista. Tive uma vertigem e comecei a passar mal, saí dali, estava sufocado, não sei se porque estava muito quente, se estava com muita gente ou se fiquei com náuseas. Mas perdi o amor por aquilo.

     Fui embora. Mas tinha que ver o protesto contra o impeachment.



    Minha glicose baixou, precisava de açúcar. Um vendedor de churros sorria enquanto faturava com a fila de gente faminta naquele momento de manifestação. Mas o vendedor era lento, e a válvula que injetava doce de leite entupiu. Esperei por dez minutos o homem reparar aquilo para que ele atendesse pessoas que literalmente furaram a fila. Brasileiro tem disso, ser contra a corrupção e furar fila. Desisti de comer.

      O protesto a favor da presidente parecia mais vazio, mas ainda mais engajado, com discursos em carros de som, membros entusiastas do PT, CUT e MST, todos reunidos em torno da apuração dos votos. Encontrei funcionários públicos, professores, donas de casa, estudantes, domésticas, trabalhadores braçais e camponeses. Todos juntos com camisas vermelhas e ansiosos pela votação.

      Ali eu encontrei o que esperava que fosse o povo brasileiro, mesmo que uma fatia muito pequena. Mas encontrei pessoas de diferentes classes sociais, nervosas e apreensivas, gritando em favor de alguém. Parecia uma torcida em favor de um time de futebol, mas era bem mais sério que isso. Fiquei com eles até anoitecer, acompanhando os votos, xingando os deputados hipócritas e me solidarizando com o sofrimento deles. Eles podiam ser petistas, mas eles realmente acreditavam naquilo. Eles sofriam a cada derrota e sabiam o que estava em jogo. 

      Todas as falhas de um governo não podem ser atribuídas aos seus eleitores, mas aos seus próprios equívocos.

      Ali que eu percebi que mesmo tendo sido a favor do impeachment, o que estava ali em jogo era o retrocesso. De um lado havia quem defendia o regresso dos militares, do outro havia quem chorava por perder toda a esperança que foi depositada num governo prolongado. E os mesmos canalhas que apareciam no telão dizendo que votam em nome de Deus, do pai, da mulher e dos corretores de seguros. 

     Saí triste, fraco e abalado. Sem energia e com fome. Estava abalado, mas o Brasil tinha perdido. Não porque a presidente foi praticamente afastada (e traída), mas tinha perdido porque roubaram todos os nossos sonhos para um leilão de meia dúzia de corruptos no banquete de corvos no meio da casa legislativa. Foi então que percebi, é meu dever voltar a falar de política.

Silêncio

       Olho para o vazio deste lago, olho para esse líquido espelhado que me separa, cuja a distância dessa ponte até o fundo é de vinte metros. Olho para o horizonte, ainda é cedo, poucos carros passam. Ninguém dará a mínima.

        Puxo um cigarro como último pedido, meu cachecol se solta do meu pescoço e voa longe. Era um cachecol bonito, xadrez, azul e branco, ele que me aquecia a garganta quando ficava muito frio. Mas eu me despeço dele com um olhar perdido. Longe, eu vejo o Congresso Nacional de um lado e a Torre Digital de outro. As vigas dessa ponte são rígidas, de um aço laminado bem forte. Meio estaiada, a ponte se inclinava de forma peculiar, ligando a L4 Sul e o Lago Sul.

        Meio perdido, olho para o meu carro estacionado perto dos restaurantes fechados na praça da Ponte JK. O que me separa de ir para casa e tentar viver de novo? Alguns metros. Mesmo assim olho intensamente para aquele azul-prateado convidativo. O lago é tão grande e ainda assim tão sublime, uma represa tão bela, tão bem construída que parece ter sido feito por mãos divinas. Eu espero me encontrar em seu manto cinzento nesses últimos momentos de martírio.

       Termino  meu último cigarro, eu que não fumo, jogo a bituca para longe. Meu sapato azul sobe sobre um dos apoios e vejo o que podem ser meus últimos momentos. Queria  ter uma corda para me amarrar nesses últimos instantes, e enrolar no pescoço como uma gravata, mas tudo o que tenho é medo. Começa a ventar muito, meus cabelos se desgrenham e tenho medo que tudo acabe mal. E seu eu escorregar antes da hora? 

       Como será se afogar? Será tão doloroso assim? Mas e com o impacto? Será que não desmaio antes? São tantas perguntas, a gente até tem dor de cabeça de tanto pensar. Olho para o céu com olhos de menino, procurando por alguma luz ou uma pipa perdida. Coço minha barba que não aparo a dias, será que esse é o fim?

        Tiro da carteira minha última foto. A última foto dela. Ela sorri, está linda, totalmente maquiada. Parece feliz. Rasguei a foto, mas deixei cair na operação a carteira no lago. Tudo bem, havia apenas cartões de crédito estourados e umas duas notas de cinco.  Quando eu cair, isso nada será de útil. Mas e meu documento? Morrerei como indigente?

         Eu sou indigente. Ninguém se importa se estou ali às 6h35 da manhã de um domingo olhando para o horizonte com os dois pés no cercado da Ponte JK. Está claro que não sairei vivo disso. Mas não, eu olho de novo para as minhas mãos, estou tremendo... Eu tenho medo do vento. Bastante medo, e desisto.

         Desço do vão e saio da ponte. Fico zangado por ter deixado a carteira cair no lago, mas vejo que estranhamente ela flutua com o peso. Estranho... Mas consigo recuperá-la. Os documentos estavam todos encharcados, mas tudo bem. Agora o cachecol, esse se perdeu. Foram aqueles momentos mais tristes que eu percebi que estava errado e desisti de ser o que eu sou, um desafortunado.

         Liguei o meu carro e fui para casa.  E agora?

         Eu não sei. Realmente não sei.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Carta aos meus filhos

      Meus filhos, hoje, se leem essa carta, saibam que eu os amo e espero que estejam felizes e contentes. No passado, poderia dizer que lutei muito para que o mundo fosse um lugar melhor para todos vocês; Desejei maiores oportunidades para vocês, as quais não degustei quando criança. Fui acossado, humilhado e injustiçado. Hoje, não sei o que falo para vocês.

    Roubaram as minhas esperanças, os velhos políticos do passado roubaram meus sonhos. Corromperam minhas lembranças e ainda assim tornam um martírio a vida de meus semelhantes. Meus filhos, como desejei mudar o mundo, mas os velhos não o permitem. O assassinato de uma democracia e o assassinato de um país, tudo isso eu vi. Defendi um novo país, com novas ideias e eleições. O amor e o afeto que tive foram jogados na lata do lixo.

    Meus amigos, morreram ou pereceram às veredas do ódio e da tirania. A maioria deles se venderam, conforme o oportunismo e o ódio. Amei e amarei sempre a vocês mesmo estando tão distante, mesmo que nunca nos encontremos. Meus filhos, intelectualmente estou tão triste por ter desistido tão fácil, por não ter lutado contra essa velha ordem e ainda assim ver todo o nosso esforço sendo jogado na lata do lixo.

     Hoje eu ainda conservo minha juventude, mas não tenho as mesmas forças. Morri e pereci no calvário da política de gabinetes, eu como ex-militante estudantil, ex-presidente de centro acadêmico me enojo de ter visto o pior das pessoas em coisas tão banais. Saibam, meus filhos, que mesmo que não seja  pai,  vocês saberão que fui o melhor que pude. Tentei tanto e não consegui nada, me enojei de ser brasileiro, me enojei em ser jovem e me enojei de ser cidadão.

     Sobre o fim desse país, vi o que não deveria ter visto. Vi a corrupção não somente nos deputados ou políticos, vi a corrupção a face de tudo. Na Academia, na Universidade, nos meus amigos, nos meus conhecidos. Vi no dia a dia, na catraca de um ônibus, num troco roubado, no comércio, e nos desvios das empresas. Estou enojado, sinto de vontade de vomitar.

      Tentei esquecer a podridão do mundo no tabaco e na bebida, a bebida ficou cara e o cachimbo me faz  mal. Estou envelhecendo sem ter visto meus sonhos se realizarem. Cognição e constrição, meu bolso vazio e meu rosto sem expressão, todo dia é um martírio ver meu rosto desgrenhado no espelho.

       Insatisfação ter acreditado no salto falso de um novo país, vi tantos amigos irem embora, fugirem para o exterior, mas fiquei porque acreditei nisso aqui. Nesse sonho frustrado chamado Brasil. Se um dia vocês me conhecerem, e virem uma pessoa diferente, saibam que ela nasceu aqui. Vendo o desemprego, vendo o fim de sonhos, vendo o abuso com que as pessoas infligiram sobre toda a juventude. 

        Guerrilheiros ou políticos profissionais. Não quero sonhar em desistir, mas quero ver que o mundo é nojento e mais nojento ainda é acompanhar a violência com que infligiram ao nosso futuro. Os velhos penhoram nosso futuro, e seremos que pagaremos tudo. Desculpem, meus filhos, devia ter lutado mais para vocês fossem mais felizes do que eu.

sábado, 9 de abril de 2016

Por novas eleições

       Faz anos que não escrevo sobre política, desde 2014. Mesmo assim, me vejo obrigado a responder as minhas inquietações com esse texto: O Brasil naufragou sem mesmo zarpar do porto. Era  um desastre anunciado, desde 2013 a situação brasileira não correspondia mais aos anseios da sociedade.
       Culpabilizo o governo por ter ignorado o apelo popular por reformas em 2013, sobretudo na parte de combate à corrupção, ao aumento de incentivos na parte da saúde e educação. O resultado foi um total desrespeito do governo ao apelo popular por melhorias estruturais no sistema democrático.

      Em uma tentativa falha de minimizar os ânimos populares, o governo procurou promover um pão e circo às avessas, ao invés dos pobres, o governo tentou afagar os ricos com a Copa do Mundo, pacotes de incentivos e investimentos setorizados. 

       Reconheço que no campo social, houveram avanços importantes, sobretudo no plano da habitação e do combate à fome, mas não sejamos inocentes, todos os programas de incentivo dados pelo governo, seja redução  do Imposto de Produtos Industrializados, para incentivar o consumo, seja os semi-planos quinquenais (como PAC 1 e PAC 2), e crédito subsidiados, serviram apenas para alimentar ainda mais a ilusão de uma "burguesia nacional". 

      Digo ilusão porque na globalização, não existe mais esse conceito de burguesia nacional. Na verdade, nunca existiu, assim como os "proletários não tem nação", segundo o próprio Marx, o Kapital também não possui qualquer vínculo nacional, assim como a burguesia. É um erro acreditar que todo o dinheiro conseguido mediante a lucro tenda a ficar pulverizado em toda a sociedade.

     O ovo da serpente foi o governo ter virado as  costas para  todos, para o desemprego que crescia, para inflação que explodia, ignorado que havia problemas fiscais sérios e que a população estavam insatisfeita com os rumos da nação. Poderão dizer quem em 2013 ninguém sabia o que ia acontecer, eu desminto, Todo mundo sabia o que ia acontecer, estava anunciado. Não foi à toa que todo mundo foi para a rua. A classe política tem a tendência de desconstruir o papel proativo do povo, rotulá-lo como ignorante ou incapaz de consciencia política. Sou franco, o povo é imaturo, mas não ignorante.
Todo mundo tinha ideia que havia algo errado em 2013, inclusive o governo.

     Em 2014 tivemos aquele espetáculo de horrores que foi a eleição de 2014. Foram talvez as piores eleições do período pós-redemocratização. Como o voto no Brasil é obrigatório, observamos que havia três candidatos fortes no páreo:

       Dilma Rousseff tentando a reeleição com índice de rejeição altíssimo por causa das suspeitas de desvios na Copa, a economia dando sinais de desaceleração e falta de credibilidade política. Aécio Neves, candidato de segmento neoliberal, sem qualquer expressividade fora de Minas, com alta rejeição inclusive no próprio estado de origem, com um projeto de reformas que desagradava boa parte da população. E Eduardo Campos, que tinha uma visão diferenciada do processo, em que queria manter os progressos sociais do lulismo com as reformas necessárias no âmbito fiscal e político naquele momento.

       Eduardo Campos morreu num acidente aéreo pouco explicado. Marina Silva assumiu e praticamente dissolveu as propostas de Campos,  Aécio e Dilma acabaram vencendo o primeiro turno, e o espetáculo de horrores se anunciou. Quem votou na Dilma, prioritariamente votou contra o Aécio. Quem votou no Aécio, não queria a Dilma. Esse é o maior problema do voto obrigatório, as pessoas não tem a liberdade de se recusar a votar nos candidatos com alto índice de rejeição.

      Mesmo assim a quantidade votos nulos disparou, mas não foram contabilizados como votos válidos. Nisso chegamos ao aspecto acirrado, de uma eleição apertada de 51% dos votos para Dilma Rousseff contra 49 % para Aécio. Dilma pode ter ganho as eleições por 2 pontos percentuais, mas não saiu vencedora. 50% do país não queria a Dilma já em 2014.

     O maior problema de 2014 é que a economia já estava indo mal, mas o governo optou por segurar a situação financeira do país, emitindo títulos, segurando os juros, o preço das commodites básicas inflacionárias (como o combustível), e mantendo uma política de crédito já comprovadamente falida. Nada mais natural, o governo queria se manter. O problema que no segundo semestre de 2014 já havia relatórios econômicos mostrando o cansaço da economia brasileira, sobretudo porque o consumo não estava acompanhando o aumento da renda, a inflação começou a subir devido a problemas crônicos na produtividade brasileira e na sua questão logística. E em dezembro de 2014 foi o desastre fiscal, a bomba estourou.

    O governo fugiu da sua meta fiscal, era para ter crescido por volta 25 bilhões a 30 bilhões, ficou com deficit maior de 100 bilhões de reais. Foi o maior tombo da bicicleta em um único ano. De modo que não houve repasse de verbas para programas sociais, como o Bolsa Família, e os bancos estatais tiveram que custear esse encargo sozinhos. Deixando-os em situação financeira delicada, sobretudo a Caixa Economica Federal, o governo só conseguiu pagar as dívidas com os bancos públicos no final do ano passado. 

     A acusação que pesa sobre a presidente não é sobre corrupção, até porque não há acusações concretas contra Dilma (há contra gente do alto escalão do Governo, inclusive o caso do Lula é dramático, mas não me soa uma novidade), mas sobre o crime de responsabilidade fiscal e mais do que isso uma possível improbidade administrativa, porque se utilizou instrumentos financeiros do Estado para manter uma situação favorável para o governo nas eleições. Onerando o Tesouro Público e deixando em situação delicada empresas estatais.


     Empresas estatais, veja o Caso Petrobrás, a maior companhia petrolífera estatal do Mundo sob a acusação de desvios, superfaturamento de obras, esquemas de Caixa  2, cartel, dumping, e problemas sérios de gestão (sobretudo a questão da Refinaria de Abreu e Lima e Pasadena). No início de 2015 a justiça norte-americana levantou indícios de possível fraude na compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás, nisso a Operação Lava-Jato já estava atuando e descobriu novas irregularidades no mandato de Graça Foster no comando da Estatal. Graça Foster caiu, descobriu-se então outras irregularidades e esquemas de corrupção no mandato do ex-presidente da companhia Gabrielli, amigo pessoal de Lula.

     A toda semana foram se descobrindo novas evidências, algumas que se comprovaram ser falsas, outras que levaram a prisões, como a de Cerveró, Bumlai e Delcídio Amaral. O fato que se o governo já não estava com uma popularidade alta logo depois das eleições, com a descoberta de esquemas de corrupção na Petrobrás e a "pedalada fiscal" com os Bancos Públicos, o governo perdeu ainda mais popularidade.

     Nisso se soma as impopulares (e necessárias) medidas do ajuste fiscal, me desculpem os petistas, mas Dilma fez tudo o que prometeu não fazer, aumentou os impostos, mexeu nos planos de aposentadoria, aumentou os juros, mudou as regras do seguro-desemprego e retirou investimentos no Bolsa Família e do Minha Casa Minha Vida, Ciência sem Fronteiras entrou numa situação financeira delicada, e não obstante, a dívida publica do Brasil dobrou com a explosão do dólar que aconteceu nesse ano. O poder aquisitivo brasileiro caiu (embora ainda seja maior do que foi em 1998) e o desemprego voltou a crescer, a juventude perdeu seus sonhos e teve o ajuste fiscal do Levy.

     Levy, para o mal para o bem, estava fazendo tudo o que o mercado queria, a um ritmo lento devido às próprias questões políticas do governo com a base na Câmara e no Senado. Acabou que nenhuma das medidas surtiu efeito, não por despreparo do ministro, mas porque o Brasil não tinha credibilidade para levar a frente medidas tão impopulares com a presidente. Nesses momentos difíceis a arte do convencimento de um bom governante faz com que se superem as adversidades mais fácil, os estrangeiros não tem a percepção, mas Dilma não é popular, não tem carisma, e pior ainda, não tem jogo de cintura para esses problemas. O maior problema da Dilma é não ser o Lula.

     A inflação estourou a niveis catastróficos de quase 10%, a política de juros chegou a absurdos 13,75%, o maior índice de todas as vinte maiores economias do mundo, o poder aquisitivo brasileiro caiu para um 1/3, o câmbio em relação ao dólar que chegou a R$ 1,66, foi para R$ 4,15 em menos de um ano e meio.

     Economicamente falando foi um desastre, e a culpa foi a indecisão do governo de fazer o que era necessário. O necessário era renegociar a dívida pública que praticamente triplicou, manter uma folha fiscal estável e elevar impostos não sobre o consumo, mas sobre a renda. Nada disso foi feito.

     Não  há milagre nem New Deal que resolva isso. A oposição que tinha praticamente desaparecido na época do Lula (o PSDB quase desapareceu), ressurgiu mediante a insatisfação popular, e os antigos apoiadores do governo se desiludiram com as constantes denúncias de corrupção,as atitudes equivocadas uma atrás a outra da presidente e o próprio ajuste fiscal. 

    Brasil como bem se sabe, não é para amadores. A oposição é neoliberal, mas não é direita de verdade, e sim social-democrata. O  governo se diz de esquerda, mas suas atitudes tem mais a ver com a ideia de um capitalismo estatal cepalino do que qualquer projeto de esquerda. PT deixou de ser partido de esquerda em 2003, na minha opinião, e muitos ex-militantes pensam da mesma forma. Agora o partido corre o risco de ser esfacelado com a grande impopularidade da Dilma.

     A solução do impeachment mediada pelo PMDB francamente não resolverá nada, o PMDB foi o condutor do processo de redemocratização, participou de todos os governos de 1985 até agora, e esteve  entranhado no projeto do PT por 14 anos.  Está envolvido nos erros da política econômica, está envolvido nos esquemas de corrupção, e logicamente é tão impopular que não conseguiria eleger um presidente sozinho. Como maior partido do Brasil, ele é o mais heterogenero da República, e o mais confuso. Um governo do PMDB seria um desastre.

     Não acredito francamente que o impeachment seja um golpe, basta a leitura rápida de Locke, para perceber que quando um governante não tem mais o apresso do seu povo, é lícito que seja deposto, até mesmo pelas armas. Desejo profundamente que não se use as armas e sim os limites da justiça, mas impeachment é um processo natural previsto na Constituição e nascido em todos sistemas democráticos. Nós temos direito de retirar um governante quando não queremos mais, é errado termos que esperar mais dois anos para que se possa se fazer um reajuste político convincente.

     Se tiver que esperar mais dois anos, haverá uma guerra civil. Eu acredito realmente nisso, isso se não tiver golpe de verdade, com armas, tanques e mortes.  A única saída realmente sábia são novas eleições gerais, imediatas, mediante a um plebiscito com o povo. O poder emana do povo e deve-se manter com o povo, os representantes hoje estão tão dissociados da sociedade que não podem mais responder por ela.

    Antes que digam que goste da oposição ou do governo, convoco-lhes ao pensamento, só há realmente dois projetos antagônicos para esse país? Será que não estamos pensando pequeno demais ao esperar desses políticos caducos, com projetos políticos da Guerra Fria, possam ser extirpados sem que produzamos nada de novo. Acabou para mim a Quarta República brasileira no momento que se admite que o diálogo não pode produzir mais nada, e apenas o ódio mútuo ser aspecto reconhecido da política.

     Maldito seja o governo que deixa o seu povo sofrer com sua própria incompetência, e  maldito seja o povo que deixar se iludir por sua própria infragilidade. Não podemos mais esperar que o mundo resolva fazer algo por nós, a Democracia brasileira só será feita diretamente pelo povo, e não por políticos profissionais que há 20 anos espoliam o nosso país com falsas promessas.

     Novas Eleições imediatas! Plebiscito! E se necessário nova Constituição! Apenas isso salvará o que ainda resta de democracia nesse país.

Do ódio

      O ódio é a encarnação de todas as nossas corrupções e preconceitos sobrecarregados pelo medo ao diálogo. Quando odiamos uma pessoa, observamos que apenas o domínio psíquico da cognição reflete uma repulsa imediata da pessoa, elevando os níveis de estresse, aumentando o batimento cardíaco e dilatando as pupilas. Entramos em posição de batalha.

     Isso pode ter haver com os nossos ancestrais pré-históricos, que em disputas territorialistas e depois tribais, marcavam território com brigas e embates cada vez constantes. Hoje estamos numa postura similar, o que demonstra que o ódio é um resquício inato do ser humano. Ao contrário do amor, todos nós odiamos alguma coisa: Seja uma cor, uma comida, uma música ou uma pessoa. Há sempre alguém para odiar.

     Odiar é humano, antes de qualquer coisa. Não é uma geração emocional saudável, porque produz inimizades desnecessárias. Mas pensemos, o ódio não é produto de incompreensão? Quando penso em termos políticos, com certeza, mas em relações interpessoais também. O ódio surge quando a sua raiva ou a sua repulsa se torne tão cega que não há possibilidade de agir de forma educada ou cordial com alguma pessoa. Sejamos francos, nós sabemos ou não sabemos o que odiamos?

     Tendo a pensar que ignorância acaba criando o medo e a animosidade, depois disso surgem o preconceito e outras carestias. Entretanto, é possível odiar uma pessoa conhecendo-a muito bem, ou aja vista que ex-namorados não podem acabar se odiando? Ou irmãos e amigos?

     Confesso que tenho ódio de pessoas que no passado julguem por amigos, tanto por suas práticas questionáveis, quando por questões políticas. Especialmente agora que os ânimos estão sobrecarregados, amei e desamei muitas mulheres. Agora, pergunto, é possível superar o  ódio?

      Tendo a refletir que não. Que o ódio é uma característica inata aos seres humanos, e mais do que isso, um elemento de intolerância e cegueira do ser humano que é indiscriminadamente utilizado para formar sistemas de opinião, conceitos, e ideologias políticas. Ele é o maior aspecto de desvalorização do seu semelhante e de criação de animosidades.

      Não posso aqui vir fazer a apologia do  amor ou do pacifismo, pois não acredito em ambos. Mas pensando bem, é preciso ter ódio irracional? Desconhecer o seu próprio oponente é imaturo e complicado, sejamos francos, há motivos concretos e reais para exercer essa postura de animosidade?

      Raciocinar as nossas emoções não é fácil, mas devemos superar os pensamentos irracionais e impulsivos que estão nos movendo em tempos difíceis. Filosoficamente, estamos pouco maduros para compreender a imensidão do mundo e das pessoas quando deixamos de observar e ensaiar as discussões de forma saudável. Contra isso que deve ser combatido o ódio, apenas para retirar a ignorância de nossos olhos.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...