quarta-feira, 23 de julho de 2014

Escuridão (conto)

         Nada é mais denso que o suor das estrelas, mas no passar de um cometa, o acalanto de um céu vazio e coberto de nuvens escuras era um tremor para uma mente desalmada; pois nada era mais agressivo do que o silêncio de um mujique ou o suspiro de uma corrente de ar; nessas horas cada um que se encontrava pelos bosques e arvoredos olhava para o calçamento com olhos fracos e quando se encontrava tarde da noite com uma pessoa, tecia um grave silêncio que era perturbador para o mais sonoro dos inexperientes.

        Nessas horas cada passo pode ser o último, cada ofegar pode ser um grito e um mero suspiro ou uma palavra mal empregada pode acarretar graves consequências; de fato, quem mais argumenta durante a noite é o mais triste dos feitores; O silêncio é parceiro não declarado das noites frias de inverno.

        É arrebatador pensar que a despeito do circuito egocêntrico de queremos apenas nos encontra confortáveis em nossas camas, algumas pessoa acreditam que a noite é uma companhia maior do que as outras. Pessoas essas que trabalham, escrevem, passeiam ou mesmo só carregam a lacuna de mais uma viagem pela escuridão. Onde ontem havia estrelas, hoje havia nebulosas considerações;

           Nunca espere mais do que isso em noites de final de julho.


            E foi no final de julho que esse fato aconteceu. Não que seja mais insuportável que os outros, muito pelo contrário, era normal e corriqueiro; Num dos quadrantes industriais de nossas metrópoles polidas planejadas em formas matemática, em torno de uma rara  concepção de que o urbanismo é uma ciência tão cara quanto a física ou mesmo a biologia, num desse quinhões de desenvolvimento em meio à selva de árvores e riachos que ainda intocados adentravam no corredor vegetal de bioma do planalto brasileiro.

          Nessa ilha de desenvolvimento que isso aconteceu. Numa dessas noites de final de julho, Felipe Gouveia, uma pessoa ignóbil, franzina  e muito escassa em expressões idiomáticas caminhava para fugir de mais um dia de trabalho; extenuado em sua busca caminhava pelos ladrilhos quebrados da calçada de um dos bairros do subúrbio e relutante objetou tomar um ônibus. Mais relutante ainda estava o coletivo que ao avistar o rapaz sozinho naquela ocasião passou reto contraindo uma torrente de obscenidades que o idioma lusitano não me permite descrever em palavras miúdas.

            Os mujiques das estrias  industriais olhavam para o rapaz dos bares apilhados de cerveja vagabunda e fumaça de cigarro paraguaio. Nesse deleite de adversidades o rapaz estranhamente sorria e matutava consigo como tinha sido o dia: O terno estava nas suas costas lhe dando conselhos.


             Impessoalmente dizia consigo: "O trabalho liberta e divinifica o homem. Meu pai dizia, queria poder dizer que ele está errado. E está errado mesmo, velho imprestável!"

             E lembrou do dia no banco, de como fora cansativo o caso da velhinha que queria trocar o seu cartão e nem sabia o número de sua senha. Ou da gritaria que foi renegociar o consórcio com uma família inteira, mãe, pai, filhos e filhas, bebê, cachorro, papagaio e sogra. Num deleite do choro do bebê ele acabou cedendo nos termos e chamando o gerente que decidiu não tomar a "maloca".

              Perdeu consigo tempo na parcela de lucros, pois não abriu mais contas do que deveria e de modo que sua instantânea preguiça o conduziu para um raciocínio direto: Nada é mais estafante do que trabalhar num banco. Quando saiu da agência, seu carro tinha sido guinchado por ter estacionado em fila dupla e a noite se pronunciava de maneira absurda. Foi ao ponto de ônibus, esperou, esperou e esperou... Passou-se uma hora e meia, sozinho, agora sentado no banco de concreto tentou encontrar explicações até que percebeu que nenhum ônibus passara desde então. Era uma greve geral.

           Zangado com o rumo do dia, partiu à pé e de um modo arrebatador olhou para o céu que não exibia nenhuma forma de conforto direto. Caminhando pelos ladrilhos quebrados, lembrou que não havia chuva e que um cano de esgoto escorria na pista sujando seus sapatos engraxados. Amaldiçoou até encontrar o ônibus, que conforme disse, havia se despedido sem cerimônias.

          Caminhou mais um pouco, pensou em pegar o trem; mas eis que eram já dez e meia, e o metrô fechava às onze. Argumentou que era ridículo algo desse jeito fechasse tão cedo, mas só conseguiu convencer a si mesmo. 

               Num desses cantos escuros, cobertos de mangueiras e sabugais, não muito longe das casas e dos comércios, caminhou com passos aguerridos. Estava com a impressão de estar sendo seguido e azar o dele: estava de terno. Correu com suas pernas curtas das sombras que se pronunciava sob a luz fraca dos postes e num dos becos escondidos nas reentranças suburbanas encontrou uma voz assombrosa e fina em sua frente: era um ser de olhos esbugalhados, orelhas pontiagudas e poucos pelos faciais, assustado tanto quanto ele, o gatinho correu sob seus miados, fugindo da sombra que irrompia atrás de Pedro;

                 Um homem mascarado vestido de preto da cabeça aos pés irrompia numa das sombras das onze da noite e sacou a lâmina prateada das mãos, Pedro não teve tempo de reagir. E arrogantemente o bandido encerrou o dia da pior forma possível. O terno caiu no chão, Pedro logo depois. Roubaram sua carteira e logo estava sozinho olhando para o céu, o céu continuava fechado:

               Escuridão, apenas escuridão...

domingo, 20 de julho de 2014

O suspiro da esquerda

        Ser de esquerda é ter um espírito próprio de se indagar sobre as injustiças do mundo, questionar os motivos para ter uma divisão absurda dos recursos materiais e humanos maior para alguns e quase nula para outros; É se compadecer com o sofrimento de muitos (e quando não for muitos mais, é ainda se compadecer com o sofrimento humano, mesmo que seja minoria).

        Não admitir ser comodista é ser logicamente um progressista, e quem é de esquerda de verdade acredita inerentemente no progresso: O progresso material e social; Seja pela revolução, seja por uma economia de transição, quem é de esquerda crê construir algo de melhor; e no fim das contas, é uma pessoa bem intencionada por esses motivos.

       Um verdadeiro partidário de esquerda é disposto a fazer sacrifícios em torno de um pouco mais de igualdade, justiça; sabe que a vida será um martírio, mas aceita de bom grado o desafio. Espera com uma moral arrebatadora o melhor de seus companheiros e o melhor de si, cobra todos os dias por eficiência em suas ações, e humanidade em seus atos. Ser de esquerda é pensar em quesitos humanísticos;

        Mas o que fazer quando mesmo com o melhor dos espíritos nossos ideais são usurpados pela demagogia? Quando tiranos se aproveitam de nossos sonhos para impor um centralismo democrático tradicionalmente autoritário? Eles se corromperam ao acreditar que a mera violência por si mesma é solucionadora inerente dos problemas sociais; ao contrário, a violência pode ser a parteira da História, mas não é a única, e não podemos aceitar que ela se mantenha mesmo quando mantemos firme o nosso ideal.

      A violência inerente com que a Revolução Russa levou uma sociedade que buscava seguir um caminho é algo que entristece de fato um segmento da social-democracia, é como se fosse uma mácula do pensamento socialista. "Não existem revoluções que não tenham tido Terror", Lenin teria dito. Em verdade, a justificativa que ele apresentou foi a partir da análise da Ditadura de Oliver Crowell e do Terro Jacobino de Robespierre, mas os próprios ocasionadores do Terror são fagocitados por sua própria criação, numa variação da novela de Robert Stevenson, Doctor Jekyll and Mister Hyde. O terror expõe as piores características humanas, a sua propensão pela violência.

       E a despeito de o Iluminismo ter declarado que toda a violência é válida quando há um motivo justo, nenhuma violência é tecnicamente racional, nem quando houve o Termidor ou a caça aos kulaks na URSS, muito menos na Revolução Cultural. Nenhuma violência é válida pela simples razão de que ela não só viola os direitos do homem à vida e á liberdade, como também ceifa  a sociedade de um espaço de discussão para o predomínio da loucura e da violência, inicia-se um caos social em que vizinho denuncia vizinho, amigo trai amigo e mulher se vinga do marido. As coisas mais mesquinhas aparecem por baixo do barranco.

        Ser de esquerda é um exercício diário de humildade. Um exercício que muitas pessoas não conseguem manter quando chegam ao poder, e acabam impondo com violência a sua verdade a outras pessoas, seja opositores ou entusiastas; O maior delito que o pensamento radical construiu foi tentar impor valores sociais universais sem observar a realidade cultural de uma sociedade, tampouco, muitas vezes destruíam a realidade política a partir de assassinatos políticos e prisões.

         O seio do ideal revolucionário é a destruição criativa. Destruir o sistema capitalista para construir algo inteiramente novo, um niilismo com propósitos nobres, mas nem sempre reais; Tal como hoje as velhas marias-fumaças enferrujam em seu ostracismo para dar lugar aos trens-bala, ou mesmo os automóveis darão lugar para o futuro teletransporte no futuro médio-distante, os revolucionários acreditavam que o capitalismo estava fadado à sua destruição.

        A questão é que o capitalismo continua firme e forte (apesar que tenha seus momentos de fraqueza, conforme os ciclos de Kondratiev), e nesses momentos de crise, onde o povo sofre os mais profundos efeitos enquanto a concentração de renda aumenta, o capitalismo se renova e se refaz para continuar seu caminho: Às vezes ele cede às pressões sociais e toma "medidas profiláticas" de evitar novas revoluções, como foi o caso do New Deal, outras vezes, acaba retirando todas as seguridades sociais em torno da ilusão da eficiência das grandes empresas, neoliberalismo tharcheriano.

        O fato que o atual sistema continua sendo assustadoramente eficiente para produzir riquezas, e crescendo cada vez mais, não só por mexer com os vícios e aspirações psicológicas das pessoas (que a psicologia econômica e a microeconomia hoje estudam com afinco), como também levou a uma proporção metafilosófica a vida cambial. 

           Não que o dinheiro já não fosse um conjunto filosófico de conferir valor a um bem que na verdade é só um pedaço de papel pintado (tal como o ouro ainda é um mineral dourado com propriedades reconhecidas apenas na eletrônica), mas o dinheiro passou a ter uma proporção cada vez menos palpável e concreta, até chegar ao nível filosófico intrísseco e ser atrelado ao conceito de número imaginário: um número existente na teoria, mas inexistente no mundo prático, exceto na computação. E esse é  o valor do dinheiro hoje, o dinheiro hoje é um número imaginário que se elevado ao quadrado pode dar negativo, porque no fim, não há nada mais virtual e tecnológico do que o mercado de ações.

            E o mercado de ações é um vício como outro qualquer, é uma evolução do Pôquer ou do Black Jack, onde você aposta todas as suas fichas em determinadas frações de uma empresa (sem necessariamente ter poder de administração desse negócio) para no fim esperar ter um ganho financeiro em cima de outra pessoa: No Black Jack, você nunca ganha nada em cima da casa, você sempre ganha em cima do fracasso de outro jogador. Psicologicamente falando, especulação é um vício tal como o vício em jogo de cartas e talvez tenha sido assim que surgiu a especulação, com o jogo.

          O caráter lúdico do ganho de dinheiro não pode ser quantificado, assim como o caráter de colocarmos valores irreais num bem ou produto. Tal como foi com a Crise das Tulipas, na Holanda, que foi a primeira crise financeira que se teve notícia no mercado de valores.

            Em todo caso, o papel da esquerda é fazer valer as regras sociais do jogo; defender os perdedores desse processo que não são levados em conta nesse vício lúdico que é o mercado de ações: os empregados, os proletários que vendem a sua mão de obra em troca de sua própria sobrevivência;

           Marx dizia que a medida que os anos passariam, as tensões entre a burguesia e o proletariado aumentariam de modo que as fileiras do proletariado aumentariam cada vez mais juntamente com a exploração da burguesia sobre essa classe; Entretanto, Marx estava errado, no momento chave da expansão do capitalismo, o trabalhador inglês teve um aumento no seu poder aquisitivo em por volta de 15%, é claro que o lucro do burguês foi ainda maior, mas isso mostra que apesar do aumento da exploração, houve também um aumento dos direitos do trabalhador.

              Isso incrivelmente se deu graças aos liberais e não aos socialistas, embora os socialistas estejam ligados a esse processo; os liberais foram responsáveis pela expansão do sistema educacional para as classes mais baixas devido à necessidade cada vez maior de técnicos para trabalharem nas fábricas, isso levou a um aumento do salário devido à lei da oferta e da procura, e quem não se especializou ficou para o exército de reserva. Foi uma janela de oportunidades que se abriu nas fileiras do proletariado.

              Os movimentos trabalhistas eram duramente combatidos pelos conservadores, mas o liberalismo inglês foi perspicaz ao compreender que algumas mudanças pontuais no sistema, "medidas profiláticas", esse é o termo da literatura da época, eram interessantes para o seu projeto político de criar uma sociedade nova a partir de seus referenciais pressupostos: A felicidade geral do homem a partir do ganho material e das riquezas. E só numa sociedade estável, sem indícios de lutas internas violentas isso poderia se desenvolver, assim para acalantar as reivindicações sociais os liberais começaram a fazer concessões aos trabalhadores, lentas obviamente.

               O papel da esquerda e dos trabalhistas é ser a vanguarda das mudanças sociais, é estimular cada vez mais que a exploração sobre o trabalhador comum seja menor e que ele passe a ter mais direitos; o papel dos conservadores é impedir que essas mudanças sejam nocivas ao corpo social como inteiro, para que não aja rupturas e derramamento de sangue, eles defenderam os pontos de vista dos "exploradores", mas eles também são responsáveis por uma parcela da identidade cultural da sociedade. E o papel dos liberais é mediar esses dois grupos, e por isso que o papel do liberal é o mais difícil, pois além dele ser criticado pelos dois lados, ele é vulnerável em certas épocas a desaparecer, como foi o caso do período entre a crise de 1929 até o final da Segunda Guerra Mundial;

          O problema de mudanças bruscas na sociedade é acabar deixando a sociedade instável politicamente e sem um norte jurídico, nesse tipo de situação os impulsos psicológicos mais mesquinhos aparecem em atitudes francamente impensadas. Uma sociedade civil deve sempre buscar o equilíbrio entre o radicalismo e conservadorismo para a sua segurança institucional, caso isso não ocorra corre-se o risco de todas as antigas normas sociais serem desconsideradas.

      A classe média (petit-bourgeosie, nos conceitos marxistas) é a vanguarda do pensamento conservador, não à toa que o fascismo, bem como o nazismo nasceram (e foram apoiados) em massa pela classe média italiana e alemã frustrada com suas perdas na crise de 29 e com o "perigo vermelho" que representava a União Soviética e o bolchevismo.

         A classe média é instável consigo mesma, ela deseja se tornar uma burguesia com o poder aquisitivo e seguridade social desejados, mas tem um trauma de sempre estar em perigo constante de acabar se empobrecendo e entrando no proletariado. De modo que ela tem medo da pobreza, e esse medo faz com que ela aceite as coisas mais absurdas possíveis em prol de sua "falsa sensação de segurança". Tal reacionária quanto a classe média talvez só o camponês, como diria o Lênin em "Como iludir o povo", e Marx em vários escritos.


        Entretanto a classe média também é uma das mais beneficiadas pelas lutas históricas da esquerda, ela conseguiu a previdência social, direitos trabalhistas, sistema de saúde, férias, e outras coisas que só foram obtidas a partir de lutas do proletariado. Ela é esquizofrênica em sua constituição e digo sem mais delongas, nunca será homogênea em seus interesses.

        O radicalismo assusta a pequena-burguesia, e o radicalismo demais leva ao proletariado a tomar atitudes que externar a catarse de sua exploração por meio da violência a outros indivíduos, e esse é o perigo. O perigo de as lutas desconfigurarem por inteiro o convívio social, além do fato da reação descabida do conservadorismo.

            Pior que o conservadorismo é o reacionarismo; O reacionarismo é um morto-vivo, um zumbi histórico, que aparece só em sociedades que não são tecnicamente desenvolvidas economicamente ou politicamente, pois não há coisa mais anacrônica que invocar o passado como modelo. O reacionarismo é possível em contextos repressivos de estados "atrasados", como a Rússia, Áustria e Prússia na Santa Aliança pós-Congresso de Viena, a  Espanha de Franco depois da derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola, Portugal (sempre sendo Portugal) de Salazar, a Argentina no golpe de 1930 pela aliança dos agropecuários com o exército para derrubar Yrigoyen, e o Brasil em 1964 com a sua Marcha da Família com Deus para Liberdade, e os TFP, onde a classe média apoiou o golpe civil-militar para acabar "com o perigo vermelho".


              O papel da esquerda é difícil, ser a vanguarda das mudanças e demandas sociais nem sempre é fácil; Ela tem que lutar não só com os liberais e conservadores, como também tem que tentar dar uma homogeneidade aos anseios sociais existentes para que a vontade da maioria prevaleça; Na política, quando se está fora do poder, deve-se ser oposição, denunciar os erros e defender os desejos sociais. No poder deve tomar cuidado com a arrogância e passar a ouvir bem a sua base, compreender a identidade política existente e ter cuidado para não ser autoritário.

              A União Soviética é sem dúvida nosso melhor legado; e sabem porquê, ela nos ensinou o que devemos fazer e, o principal, o que não fazer. O experimentalismo soviético deve ser louvado, então devemos dar fim ao nosso constrangimento quando lembramos que o muro de Berlim deu presságio ao agouro de Hitler: "Basta chutar a porta que o resto desmoronará". Tudo desmoronou porque deixamos, e esse foi o nosso erro.

                 Hoje temos que saber que uma economia estritamente planificada é uma forma completamente difícil e complicada de gerir recursos, que não é muito eficiente frente a uma economia de mercado e que não podemos aplicá-la do jeito radical na forma de Planos Quinquenais tal com a URSS aplicou desde Stálin e a China aplica até hoje. Devemos dar espaço às discussões, não exercendo pressão imediata nos grupos sociais existentes, para não cair no mito da inflabilidade de um Grande Líder ou de um modelo, devemos ser humildes para reconhecer nossos erros. Nós somos socialistas, não somos clérigos da Igreja.

          O suspiro da Esquerda é de alívio, na medida que abandonamos o Zero e o infinito e o Arquipélago Gulag, hoje não há espaço para ditaduras; e o que aprendemos com isso tudo é ter sempre ciência no nosso papel como transformadores sociais; a social-democracia nórdica não teria tido forças sem o radicalismo bolchevique, tampouco o Welfare state francês ou alemão teria nascido senão tivesse a sombra de um bolchevismo forte, ou mesmo as pressões sindicais cotidianas.

               Temos que identificar nossos erros sem nos basear em fidelidades pessoais, e esse é o nosso perigo hoje. Ficamos tão calados, tão presos a um modelo que estamos aceitando o esvaziamento de nossos ideais tão rápido em torno de um populismo e um assalto do Estado por usurpadores autoritários, seja na América Latina, seja na Europa. Temos que aprender com a União Soviética e o Zero e o infinito a nunca nos calarmos, a criticar até mesmo quem se diz ser dos nossos, pois um socialista na verdade nunca se deixaria levar pela corrupção e pelo populismo desorganizado.

               A União Soviética nos mostra que começar tudo do zero é perigoso, sempre teremos que ter um autocontrole imenso para impedir nossos erros e ainda assim não fugiremos ao nosso passado. A ruptura inteira com nosso passado inexiste, é um sonho que não poderemos manter, de modo que criar um novo com a destruição do que já existiu é impossível, mas é possível modelar nosso tempo conforme as necessidades existentes.

                A esquerda deveria estudar a União Soviética, estudar de verdade. Olhar seus erros, olhar o que deu errado e que não deve ser repetido. Deveria olhar para os que erram ainda hoje, Coreia do Norte, Cuba; e os que tentam se renovar e ainda não se encontraram direito, seja os ex-comunistas da Europa Oriental ou a China. Isso mostraria bem o que devemos fazer no futuro.

                E não podemos nos esquecer as realizações do soviéticos. O combate ao analfabetismo (que só teve força com o poder bolchevique), as liberdades e direitos da mulher, o nascimento do feminismo como campo teórico, o experimentalismo soviético nas artes de vanguarda, seja cinema, seja artes plástica e teatro. As novas concepções de música e arquitetura, a transformação rápida para uma sociedade industrial de indústria pesada; As realizações científicas no campo da cosmonáutica e da medicina.

                  Mais do que isso, há um período muito bom para ser estudado que desgraçadamente foi deixado para trás, o laboratório de experiências: A década de 20 na União Soviética, onde se chegou mais perto de uma sociedade democrática na Rússia, com suas experiências "mais ou menos" bem sucedidas no campo de planejamento econômico na agricultura e na economia: a NEP.

                  Sim, parece desenterrar um cadáver, mas a NEP pode ser a resposta para os nossos problemas econômicos hoje, a teoria esbouçada por Bukharin e Rykov responde aos anseios de construir uma sociedade que haja ao mesmo tempo desenvolvimento econômico com a manutenção da seguridade social, com  o firme controle do Estado em empreendimentos de significância estratégica, e a manutenção do livre mercado num aspecto de pequena e média propriedade. Os soviéticos têm muito a nos ensinar ainda.

              O espírito de Lenin pode ter desaparecido, mas os ensinamentos dos soviéticos nem tanto. Eles têm muito a ensinar na sua sombra do passado e hoje, quase vinte e três anos desde a irresponsabilidade de Gorbachiov e Yeltsin, o mundo e sobretudo os intelectuais de esquerda podem olhar tudo com outros olhos.

               O suspiro da esquerda é poder olhar seu passado agora criticamente e poder reconstruir seu futuro de maneira tecnicamente autossustentável. Esse é o legado da União Soviética que não podemos deixar desaparecer: aprender com nossos erros e seguir em frente.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sensações

O suspiro de uma mão
O acalanto de um conforto aparente
O beijo num pano
O tocar de duas mentes

Sensações que não podem ser escritas
Às vezes é errado descrever os sentidos
Pois como diz o neologismo
São para serem sentidos

O pulsar de uma mão
O abraçar de um irmão
A expectativa da desilusão
O fato de se apaixonar com mísero olhar

O tremor quando está frio
O alívio por ler um livro
O estupor por um elogio
Sensações que não são descritas

Palavras conscritas,
amores de uma vida
Plurais dentro do singular
Singularidade do plural

São sensações
São tentações
De toda uma vida

Lacunas

Em todo o espaço vazio
resiste um infinito
pois se escondem
centenas de coisas
numa lacuna que martela
uma consciência destreinada

Lacunas são espaços dentre palavras
versos, ou mesmo no ponto-e-vírgula
Mas nesses vazios existenciais
sempre há espaço para renovação

Lacunas são espaços entre ladrilhos
São o cimento e argamassa
Do papel e do concreto
pois são amálgama do subconsciente

Lacunas é como encontrar um livro perdido
Um verso que foi comprimido
Ou um suspiro que foi contido
Pois o vazio é um todo
E o zero é o infinito.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Minerva

Minerva
deusa da sabedoria
E da sensualidade
Que fenestra sua adaga
Nos desavisados prosaicos
e nos sofistas de verso
metafilosófico

Sua serpente age
com o veneno de muitas
E o sínodo de suas formas
No ferro fundido
Escondem a pilhéria contrastante
De uma deusa de formas humanas

De muitas aparências
tece o novelo do conhecimento
Espero que ouçam as ideias de um sintagma
Perpassado de vários significados
Pois no fim, minerva é conhecimento
Um conhecimento campestre do pensador

Seu teorema de Tales
Sua filosofia matemática
Há algo de inustidado
Sensual que não sei dizer

Tome dois tempos
Toque uma sinfonia na tíbia
E escreva em grego o que sente
Alethéia, bardo do esquecimento

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Saída

Por aquela porta
Sob o semblante taciturno
Minerva esconde a serpente
E segura o feixe do esquecimento

O relógio na parede
Martela o ponteiro
As cadeiras vazias
Escrevem amarga poesia

As nuvens do ócio
Encolerizam nos ventiladores
E beijam os sabugos
dos degraus da escadaria

As cercas do conhecimento
O cunho aristocrático dos livros
Os computadores impessoais
Tomam meu livre saber
Toda a memória do esquecimento

Meu amigo destino
Meu sentido clandestino
Papel vermelho
Amargo pentelho

Referências,
Exposições
meras distrações

As luzes do positivismo
ofuscam o meu caminho
E sem as ilhas de livros
Não poderia apagar o sentido

Por aquela porta
não se pode falar
beber ou fumar

Minerva é sensual
e bastante matriarcal
Conhecimento
é cimento da solidão

Aquela porta de vidro
Aquela saída
está para mim fechada

Acabei de sorrir,
e em mim já estava arrependido
com tamanha velocidade

Ostracismo

Hoje compreendo
o tamanha pesaroso
De ficar tecendo
o fio sinuoso
do verso solitário

Meu cinismo de ontem
é o a rima de hoje
e na retórica quebrada
Erijo um totem para mim mesmo

Faríngeo e fariseu
Bravo e grande coliseu
é o meu ego centralizado
Meu egocentrismo acuado

Hoje compreendo
o que é ostracismo
ser deixado de lado
E tomar as areias da história

Tem tudo um licor salgado
E um vazio narcisístico
Que nem pinto prosa
Nem  sublinho dístico

A nostalgia
O passado místico
O perdão encolerizado
Ergui para mim mesmo
O ataúde de madeira
do nobre esquecimento

Minha autopiedade
é mais honrosa
do que pensar em solidariedade

E fazendo-me de cego
Fazendo-me de surdo
Ouço e vejo mais do que a maioria
Condenável ostracismo

Condenável destino
Espero que me ouça
Sou uma múmia de vinte anos
Com um cinismo e rabugice
De uma coroa de espinhos


domingo, 13 de julho de 2014

Relógio

O tempo passa
O ponteiro se move
Bem devagar
O relógio toca
É hora de acordar

Já são duas e meia
E a prosa magenta
Não vou acordar
Que noite violenta!

O ponteiro gira
A minha cabeça também
Já é tarde, tenho que trabalhar

O relógio é ciumento
Não aceita meu carinho com a cama
Que sem querer fui babar
Estou cansado e atrasado

O alarme toca
caio da cama
O cabelo está arrepiado
O edredom no chão
Rápido!
Você está atrasado!

Tomo um banho enquanto escovo os dentes
Penteio o cabelo enquanto me olho no espelho
Visto uma roupa e ouço o ponteiro marcar
Tic Tac! Tic Tac! Piui!
Tempo, tempo à frente!

Com tudo! A tudo!
Com toda a velocidade!
Sem café da manhã
Corre, corre

Tic tac, tic tac
Sou escravo do tempo
Rápido, você perdeu o trem
Com os meus olhos queimarei montanhas
abrirei vales e arrebatarei corações

Relógio á frente,
 mais um dia de trabalho
Sou poeta-proletário
Sou um Maiakovsky
sem um k
e sem tempo

Cortarei pedras com a mão
Quebrarei vidros com o pé
Carregarei o mundo nas costas
Mas chegarei a tempo dessa vez

Tempo, à toda velocidade
Sou seu escravo
Que horas? Mas já?
São duas e meia
E ainda estou atrasado

Corre, corre
Mais rápido
Maiakovsky
Começo a suar
Meu rosto fica pálido
Esqueci de almoçar
O cabelo voa
O tempo mais ainda

Quebrarei pedras e vidros
Mas não empenarei a pena
Que tanto me faz escrever
Estou atrasado, o dia frustrado
Tempo, tempo à frente
Pulsante, rápido

O esbaforido, o cansaço
Ou mesmo gemido
Não tenho tempo,
tempo temido

O ponteiro continua
desdenha de mim
Cada vez mais irônico
Lacônico relógio
E no fim
sou apaixonado por você, tempo


relógio

sábado, 12 de julho de 2014

Prosa e poesia II

Queria decantar
dois tercetos
em um soneto
triste e violento

Queria fazer rimas
de formato tão sinuoso
Que as primas
deixariam de rimar

Nenhum dos verbos aceitos
Possuem percurso tão lento
quanto eu imagino musicar

A gaita toca ao fundo
triste e melosa
Numa suíte de blues
em três quartos
Onde estão os azuis?


Cantam flamingos vermelhos
fotonovelas de dragões
da independência
na prosa azul
de um poema musical

O medo da ausência

       Fico me perguntando cada vez mais com o passar do tempo qual é o papel imediato do Estado na sociedade contemporânea; observando as sociedades dinâmicas atuais do mundo anglo-saxão e bem do Norte da Europa observamos que a sociedade civil se movimenta cada vez mais rápido apesar do Estado, e cada vez mais rápido se movimenta menos o Estado pode intervir na vida comum do cidadão; A tendência ao respeito das liberdades individuais, bem como da livre iniciativa e do próprio movimento por si mesmo dos cidadãos para o seu próprio desenvolvimento é mais claro evidente.

       O Estado nesse  caso tem um papel secundário quando está frente ao que é a sociedade civil, ao contrário do que ele tenta parecer e age, cada vez mais contra as liberdades individuais ele atua, e atua de maneira surda e velada frente aos interesses do bem comum; Utiliza-se de uma máquina de imprensa que nem sempre move ao seu próprio favor.

       Mas as sociedades que não estão na vanguarda do desenvolvimento político humano se pautam cada vez mais pela a inseguridade social,  uma incerteza e uma franca falta de iniciativa que molda de certa forma uma dependência de um estado completamente inchado e muitas vezes ineficiente; Há um medo completo à liberdade, pois a organização social não surgiu antes do Estado e tampouco de uma tradição social pré-existente. Foi implantada à força por um Estado, uma imposição da superestrutura para criar uma infraestrutura social artificial; Isso é visível nas sociedades da Europa do Sul e do Leste, bem como a América Latina, onde a sociedade não consegue se mover independentemente do Estado.

       Nesses locais a presença do Estado é cotidiana e os atores existentes na sociedade civil desejam ou possuir uma parcela do poder ou um aumento e ampliamento das obrigações do Estado para consigo; é perigoso no seguinte sentido que essa lacuna que o governo preenche na sociedade civil o deixa vulnerável aos moldes de uma oligarquia ou mesmo ao assalto de um golpe de Estado, levando à ditadura.

        Queria poder dizer que caminhamos numa luta contra isso, mas não, procuramos incentivos em tudo do grande Leviatã, do colosso monumental e parasitário que age com violência para manter a ordem social. Queremos bolsas de pesquisa, aposentadorias, pensões, ou mesmo regulamentações sobre o esporte, as regras de convívio social e muitas outras coisas; E é ainda mais complicado porque inexiste nessa estrutura política a fiel dedicação política dos cidadãos à política local em prol de uma formação de uma política marco, a política nacional; Como se o cotidiano não fosse importante o suficiente e que as leis maiores de domínio federal teriam maior ação do que as nacionais. O pacto federativo é uma infeliz piada, os prefeitos dependem de recursos do poder central que por sua vez depende de alianças políticas para se manter; nisso nasce redes de apadrinhamento nascem e crescem, dilacerando a democracia, se é que essa maravilha realmente existiu fora do mundo anglo-saxão.

        Nessas sociedades o Estado não está fadado a seu inevitável desaparecimento tão cedo, de modo, que acredito que o seu papel primário continuará enquanto a sociedade se pautar pelo seu tecido canceroso do estatismo. O inchaço do estado leva a uma submissão surda não só da elite de mentalidade ainda mercantil, que se escora nesse aparato para manter-se dominadora, e de uma população que precisa do Estado para não ser massacrada pela ganância dessa classe social;

       A sociedade não pode viver sem o Estado nesses casos, e o medo da ausência é o medo total de um regulador da própria anarquia que é viver num mundo implantado a pessoas sem segurança pessoal e psicológica garantidas. Por isso que a regulamentação da internet, do futebol e de outros campos sociais é bem vinda, não como ataque à democracia, mas por incrível que pareça, uma "consolidação da base democrática".

        O medo da ausência é que alimenta o Leviatã, que o faz crescer e se expandir, até que ele esteja inevitavelmente obeso demais para se mover e se torne ineficiente e deficitário., a partir disso ele começa a consumir demais e a sociedade latino-americana, historicamente inflacionária passa a ser mais inflacionária ainda quando tem o parasitismo da sociedade no parasita maior que é o Estado.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Não há nada mais imperfeito do que a beleza



Eu espero que meus pensamentos não nos ouçam hoje, mas o que realmente é essa estabelecida beleza que tanto esperamos? Uma forma estabelecida matematicamente de uma proporção aritmética de 1:1,6? Ou mesmo algo peculiar que nem nós buscamos explicação?

            A construção de um rosto parte de construções matemáticas de como se medir yma mediana  e o segmento de uma equidistância de dois pontos, a partir de uma simetria axial, a partir de um eixo, descrito na linha existente do meio dos nossos pé separados, passando pela virilha, o umbigo, a linha da câmara torácica, a ponta do queixo e o nariz. Qualquer compleição que seja completamente diferente da simetria dos dois lados é matematicamente imperfeita.



            Mas a beleza é uma imperfeição. E isso é algo que realmente é bem claro quando observamos as obras do Renascimento, que são construídas a partir de uma proposta racional e científica. O maior paradigma que o Renascimento se espelhou talvez tenha sido na proporção áurea de várias obras gregas, mas a que mais me impressiona é, sem dúvida, a Venus de Milo.


            Venus de Mileto é a mais bela de todas as esculturas, a mais bela e mais bem trabalhada mulher em uma obra de mármore de Paros. Ela é ao mesmo tempo sublime e sensual, enigmática e ainda assim tão jovial. Venus é tão comum que chega temos a vontade de abraçá-la, beijá-la, justamente por ser comum. O seu aspecto não exagerado de uma moça jovem sem uma erotização de seu conjunto é o que apaixona muito os amantes da arte.


            Confesso que sou apaixonado por essa Venus, eu a imagino no meu subconsciente de uma maneira diferente da escultura. Eu a imagino como sendo ruiva, de cabelos presos, olhando para o nada com os seus olhos ligeiramente inclinados para o horizonte. Eu me apaixono por essa obra cada vez que olho em retrato e as reproduções posteriores não chegam próximo da sensação de ver a Venus pessoalmente.


            Quisera eu ter a oportunidade de me apaixonar de perto por Venus. Mas ninguém que não seja entusiasta de arte sabe realmente a razão porque a Venus seja tão atraente, ela não tem mais os braços e encostada ao pó de um museu, não parece ser páreo para a beleza erótica, por exemplo, de uma Sacha Grey.


            Aleksandros de Antióquia pode ter sido o escultor mais bem sucedido por ter esculpido uma obra tão graciosa, de uma mulher nua da cabeça até metade do tronco que aparentemente tinha os dois braços; A ausência dos dois braços em Venus é apenas explicável pela onda de iconoclastia ocorrida no período de queda do Império Romano quando não só os bárbaros, mas também os cristãos e os invasores muçulmanos promoveram levas de destruição às esculturas do período clássico como forma de dar o fim no que foi o Império romano. Tanto que a boa parte de bustos que são creditados à César ou a Constantino na verdade são de Marco Aurélio (que sobreviveram por alguma questão de acaso ou adágio papal).


            A forma  e o conteúdo de Venus constituem um enigma para muitos inclusive para mim; ela sempre será algo belo para mim, mas não por ser um elemento só ricamente desenhado na textura de sua roupa de mármore, mas por expressar uma mulher simples, provavelmente uma serva ou uma cortesã num momento de inspiração.
            Venus de Milo provavelmente segurava de maneira graciosa uma maçã, que aparentemente se desprendeu da obra e foi encontrada junto na escavações.  Mas isso é só um detalhe.


            O maior composto da obra não é bem a forma como foi esculpida no mármore (ainda que me faça ter uma paixão especial por essa obra), mas é quando olhamos o seu acabamento. Depois de anos exposta a intempérie e a iconoclastas que molestaram a obra, o mármore começou a apresentar ranhuras e imperfeições. Essas imperfeições revelam muito, porque a despeito de serem produto de um desgaste da obra mostram que a beleza é imperfeita em seu interior.


            As pessoas são naturalmente vazias, essa  é uma constatação que nós temos quando observamos atentamente as ações e experiências de cada um. Não há exercício mais divertido e prazeroso do que observar alguém, olhar os seus maneirismos, sua fala, ou mesmo suas expressões. E o melhor é que isso ainda é de graça!



            As pessoas são apegadas a uma imagem plástica de si mesmas, uma representação do que seria algo bom, sejam boas roupas, boa forma ou um corpo desejado. A simplicidade com que observam a vida é naturalmente assustadora, procuram mulheres de bustos e nádegas avantajadas, rostos de boneca  e uma cintura absurdamente fina, enquanto os homens devem ser altos, fortes, barbudos antes de mais nada para conseguirem sucesso com as mulheres. É absurdo pensar em tais padrões.


            A natureza de uma beleza parte de uma questão matemática se formos considerar a proporção áurea, mas para fins práticos, ela é um exercício irracional. Porque nada realmente explica o que é realmente bonito senão uma análise nossa, pessoa e subjetiva do que para nós é perfeito. E como nós temos uma base de raciocínio que não parte por nenhuma maneira em regras senão o nosso espaço de experiência, logo toda a ideia de beleza que temos é carregada de imperfeições, porque nossa própria mente age por impulsos elétricos não puramente lógicos.


            Não há nada mais imperfeito do que o desejo, o desejo meramente pela a arte de querer algo numa prática masoquista e hedonista em ter para si algo que não necessariamente teremos conosco. O desejo e a beleza incrivelmente estão interligados até psicologicamente.



            A psicologia coletiva de nossa sociedade é cada vez mais fluída, eu até acredito que se modifica tanto que nunca teremos um padrão fixo do que é belo (tirando talvez a beleza não necessariamente corpórea, mas a beleza moral, nisso se atrela a beleza do raciocínio, do espírito e de uma arte moralmente aceita como a Venus de Milo). Mas invariavelmente caminhamos para uma erotização da sociedade e uma erotização da beleza;


            Isso é ruim? Depende. Do ponto de  vista de um moralista, isso levaria a uma vulgarização da sociedade; Do ponto de vista de um liberal é positivo pois leva a uma libertação de velhos preconceitos acerca da sexualidade humana. Eu acredito que ambos os argumentos possuem fundamento;


            Mas é triste observar que a busca pela beleza é como se fosse a busca por um produto, um produto raro, um diamante; e logo assumimos que poucos são bonitos e muitos são de certa forma feios. A carga pejorativa de ser feio é associada automaticamente a ser “ruim” ou mesmo “inútil” para uma sociedade de culto de si própria. Largamos o culto a deuses para cultuarmos a nós mesmos.
            Nisso eu arrisco até a dizer que a masturbação e outros atos de prazer solitário na verdade não só são fruto de uma carência própria de um individuo, como também são um culto a si próprio, uma reverência ao próprio corpo, escondendo nada menos que um egocentrismo velado.
            O que para os meios midiáticos é difundido como belo ou “sexy”, já que belo e sexy são termos hoje bastante interligados, é sacramentalizado por um estamento social, que o toma como verdade e procura nesses estereótipos se guiar na busca para sanar seus desejos carnais.


            Mas o que é belo?

            Não posso realmente dizer o que é belo. Isso é muito subjetivo;



 Pra mim, belo é uma poesia que toma formas com um pouco de letras e no fim te faz pensar, te traz conforto. Pra mim belo é desejar o vento bater no seu rosto, olhar o céu azul e ver o sol brilhando mais uma vez; belo também é ver o respingar da chuva, a fração da matemática fazer sentido, ensinar uma criança a ler ou pensar pelo prazer de refletir. Belo é buscar o que não existe, buscar o amor em coisas pequenas;


Belo também é imaginar o companheirismo, a solidariedade, e porque não, belo é olhar para uma flor, para um bem-te-vi, ou mesmo um gato. Belo é beijar uma mulher por quem você se esforça em se apaixonar todos os dias, mesmo que aparentemente não valha o esforço, e amá-la sabendo que há outras, sabendo que ela tem suas ranhuras tal como Venus de Milo, e ainda assim saber que não poderá dizer isso diretamente.


Belo é enxergar tudo com os seus olhos, ou melhor, ter completo sentido de nossos sentidos e saber que o dia é algo a ser vívido, mesmo quando não desejamos mais viver. Por isso belo é imperfeito, pois para saber o que é ser belo, tem antes que saber como ser um pouco humano.


Eu queria pensar que sou belo aos olhos de alguns, que minhas palavras fizessem sentido, que não houvesse idolatria apenas do caráter corpóreo da beleza, mas do seu caráter subjetivo. Muitas pessoas creio que se sintam assim, pessoas que tentam pela sua inteligência mostrar que são belas e não merecem ser esquecidas, pessoas que por suas ações fazem a diferença por ações nobres, ou mesmo pessoas que nem sequer fazem nada e são belas por sua própria indiferença. E todos nós temos nossas ranhuras.


A incapacidade da maioria em entender isso é o que me assusta, não só por causa desse vício aos próprios desejos, como uma cegueira completa do mundo à sua volta. Eu também sou cego, mas enxergo algumas coisas mais do que a maioria.


Talvez eu seja cínico em tentar ser poeta ou contista em descrever a hipocrisia humana, talvez eu mesmo seja fruto de uma maldade inerente ao próprio ser, mas eu me sinto vazio cada vez que olho que a imperfeição maior de todos nós é achar que temos que ser nada menos que belos e arrogantes.



Mas o que é mais belo para mim é a coisa mais natural ao ser humano: o choro. O choro talvez seja a única coisa que seja naturalmente espontânea de quem se está triste. Mas minhas ranhuras dentro de meu próprio ser me fazem parecer feio quando estou defronte ao espelho e isso me assusta tremendamente.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Prosa e poesia I

Os trilhos de pedra
Os rejuntes de madeira
As vírgulas vermelhas
Os papéis timbrados

Hoje ninguém acerta
A imagem verdadeira
Do que nos espera
Nem mesmo os mais ousados

O destino é um grande inimigo
inimigo do nosso passado
e de nossas recordações

Nossa memória de vez em quando falha
Nossas peças não movem no tabuleiro
da maneira que esperávamos

O meu caminho é longo
tal como o sapato me diz
em tom de reclamação
aos calos do meu pé

Sempre fui tão mesquinho
em acredita que ao ser
tão certinho haveria de ter
uma recompensa

Potes de ouro não existem
Nem mesmo no fim do arco-íris
Porque haveriam no caminho
Para a Capadócia?

Estou nos infernos de Dante
Estou no último dos níveis
Onde não há esperança

Que dado circunspecto
Taciturno até
De fingir ser fingidor
Pois poeta eu não sou

Meu niilismo
Minha doença infantil
Minha coqueluche que não sara
Ou serei muito mimado?

O fim é sempre um começo
O começo é sempre um fim
Queria eu ser um novo passado
E um velho futuro

Meu coração está no vento
Que desgrenha meus cabelos
E me puxa para Portugal
para o frio dessa terra
E para longe do Carnaval

Meu idealismo está no espírito
Meu positivismo na cabeça
E meu beijo no seu coração

Queria ser menos certinho
Queria ser mais ousado
Mas minha ousadia
Só é andar desacompanhado


 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Faz tempo...

Seres de olhos abertos
fenecem as estrelas
e contemplam as águas
que não escorrem

A folha
brinca de flutuar na água
e encontra nas nuvens
uma companhia

Faz tempo
que as mulheres envelheceram
e os poetas morreram

Tudo foram mascates
que viajaram de novo
para o alto

Hoje seus cocares
se perdem nas águas
e os índios dessa terra
andam nus de novo

Na rua cinzenta
o vício do riso
brinca de atropelar 
o felino olhar dos seus olhos

Que noite estranha...
E a nuvem se esganou no ócio da primavera



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Prosa do mundo da lua

Deixei de ser menino
Deixei de beijar o sol
Deixei de desejar abraçar o vento
E não há maior tormento
Do que virar adulto

Hoje sou um pedaço de adubo
Brincando de olhar as estrelas
E flertar com a lua
Não passeio mais pelos anéis de Saturno
Nem jogo críquete em Plutão
Sou como um militar de coturno
Sem brincar de marcha soldado

Amanhã estarei velho
E não poderei correr atrás do tempo
Mas apenas contra o tempo
Meus cabelos ficarão brancos
E as rugas serão minhas esposas
Pois no bosque da perdição
Vou ficar tão velho e sem noção

Hoje e amanhã
Ficarei longe de você
Depois e antes do depois
Pois minha vontade é olhar as estrelas
E ainda encontrar um pouco de você

Vivo no mundo da lua
E o espaço é o meu palco
Beijo um dia ou outro seu retrato
Me deixe de fora, me deixe de lado

Deixei de ser menino
Deixei de beijar o céu
Brincar de caleidoscópio no céu
Ou de escrever histórias no papel

Estou me modificando
Ficando mais velho e rabugento
Procurando no pó do Big Bang
Um pouco da fumaça do cordel

Sou apaixonado pela ciência
Apaixonado pela matemática
que me distância cada vez de você
E calcula o quadrado da hipotenusa
Como a soma dos quadrados dos catetos
Que somos nós dois

Não sou mais menino
E brinco de desenhar números
Faço contas imaginárias
Com variáveis reais

Nunca deixei de ser adubo
De pensar com pensamento caduco
Pois no ciclo de nitrogênio
Todos nós morremos
para no fim ressurgimos de novo

Estou ficando velho
E cada vez caduco
Penso no jogo
Como esporte dos inúteis

A lua crescente
pinta o arco da estrela de seis pontas
Que por sua vez tece um anel ao cruzeiro
O Grande Cruzeiro do Sul

Nós somos pequenos pigmeus encolhidos
No frio de uma noite gelada
Dessas de final de junho
Início do solstício caseiro

Nós somos pequenos pigmeus escolhidos
para sairmos longe um do outro
Pois não há maior tesouro
Que imaginar que tudo é passageiro

Deixei de ser menino
Para me tornar um homem
Deixei de abraçar o vento
Para cumprimentar o tormento
Pois não há nada mais triste
do que olhar as estrelas
e só encontrar selva de cimento

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...