domingo, 24 de novembro de 2013

O dia que comecei a assistir Star Trek







"O Espaço, a Fronteira Final... Essas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas formas de vida e novas civilizações. Indo, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve" Abertura de Jornada nas Estrelas.

"A lógica é apenas o princípio da sabedoria, e não o seu fim" Spock sobre o papel da lógica


       Isso tem muito tempo, muito tempo mesmo. Nem lembro que ano foi, só lembro o modo como tudo começou... Era uma quinta-feira, lembro bem que era uma quinta-feira, eu tinha aula cedo no outro dia, mas não queria dormir. Tanto que não queria dormir que minha mãe cismava que não devia assistir televisão tarde, então, eu burlei o sistema, liguei o rádio então. Afinal, eu não estava assistindo televisão.




       Antigamente (não tanto hoje) o rádio operava em frequências muito próximas da televisão em alguns casos e causava interferências (com a TV digital tudo isso se perdeu) e eu peguei a transmissão de um canal de televisão sem querer... Era a voz do Senhor Spock no rádio, uma voz grave mas ao mesmo cativante em uma especulação sobre um fato qualquer. Foi aí que parei para ouvir pela primeira vez de Jornada nas Estrelas, Spock e Kirk estavam numa versão bizarra de uma Alemanha Nazista (quer coisa mais bizarra ainda) no século XXIII para tentar impedir um  genocídio. Comecei a ouvir o rádio até que as escondidas liguei a televisão, coloquei o cobertor sobre a televisão e vi o contorno cheio de cores que é comum dos seriados dos anos 60.


      A humanidade conviveu por tanto tempo em preto e branco que quando a TV a cores surgiu todo mundo quis exagerar. Mas eu lembro que eu estava compreendendo tudo, embora Spock falasse rápido demais. Mas essa era a mensagem, Jornada nas Estrelas sempre tratou temas complexos com palavras simples. Daí então passei a gostar de Jornada nas Estrelas.


     Todas quintas feiras eu assistia aquela reprise escondido da minha mãe que sempre achava uma porcaria pensar em viver no Espaço, imaginar um futuro melhor. De repente vi que todas as semanas eu esperava dar 20 horas pontualmente para ligar a televisão. Assistindo as aventuras de Kirk, Spock, McCoy, Scotty, Sulu, Uhura, Chekov e outros eu começava a imaginar que o futuro seria melhor realmente, com homens galopando pelo cosmos com naves mais rápidas que a luz, utilizando-se às vezes da dobra temporal para voltar ao passado. Guerras, diplomacia, ciência, medos, paixões, filosofia, antropologia. Jornada nas Estrelas era algo muito bem feito para época, embora seus cenários sempre fossem toscos e muitas vezes reutilizados, algumas histórias fossem incompletas, as brigas do Capitão Kirk fossem hilárias, eu gostava de ver o jeito como a Enterprise se organizava:



     Eu gostava do tom de comando de Kirk em dar ordens, mas ouvir também muitas vezes conselhos e retroceder, ser hábil ao negociar com outros comandantes (acho que peguei um pouco disso para mim), também gostava do método analítico, indutivo e lógico de Spock (que também é usado por mim em muitas ocasiões que merecem reflexão), seu senso meio esnobe da superioridade da lógica frente aos impulsos "bárbaros" dos humanos em seguir suas emoções e instintos, Spock sempre foi um filho de dois mundos, rejeitado pelos vulcanos por ser filho de uma humana e rejeitava ser humano por sempre se ver como vulcano. Sempre me senti como Spock, filho de dois mundos, só que no meu caso era a cristandade e o judaísmo, e sempre me vi rejeitado por aqueles que me identifico. São duas culturas diferentes, a humana e a vulcana, assim como a cultura judaica e a cristã.


                                               Mais uma das brigas do Capitão Kirk

     Scotty sempre tive uma certa simpatia por achar que ele era um falastrão mesmo, mas de bom coração. Viciado em seu trabalho (também sou viciado no meu), às vezes fica tão alienado em pensar nos seus motores de Dobra que não pensa outra coisa senão na segurança da nave. Kirk e Scotty dividiam um amor imaterial por algo que não poderia lhes corresponder, um amor platônico e triangular.  Os dois amavam a Enterprise, Scotty amava o modo como ela fora construída e como funcionava e Kirk amava o ambiente de convívio que a nave proporcionava, o modo como ele tinha seu comando atrelado a esse braço poderoso que era a Enterprise.

Scotty num momento etílico
      Kirk é a releitura do velho capitão de nau de madeira tão bem descrito na literatura de viagem do século XIX, Gene Roddenberry certa vez confessou que a figura de Kirk foi baseada numa série de livros que tinha lido quando criança que tratavam das viagens de Horatio Hornblower, criação do escritor britânico C.S. Forester.

     Kirk era um galã que tinha uma mulher à sua espera a cada planeta que chegava, e isso o seriado sempre enfatizou o modo bon vivant de Kirk, mas ainda assim responsável, tanto que certa vez Kirk no cumprimento do dever acabou perdendo o amor de sua vida no episódio "The City  on the Edge Forever" (Cidade à beira da Eternidade), Edith Keeller.  Kirk sempre teve um teor trágico na sua vida, foi o capitão mais jovem da Frota Estelar ao tomar o comando da Enterprise com 26 anos, mas teve que vivenciar um genocídio na colônia Tarsus IV promovido por Kodos, o Carrasco, durante suas viagens perdeu o seu irmão que foram vitimado junto com sua família por um praga que abateu um planeta no sistema de Rigel, sobrando-lhe apenas um sobrinho como parente. Não teve tempo para conviver com o filho e quando chegou a saber de sua existência, teve que enfrentar o assassinato do filho pelos Klingons.
     
Kirk e o amor de sua vida, Edith Keeler (que morreu de forma trágica)


     Não há vida mais triste que a de Kirk, de modo que o capitão sempre procurou o apoio de seus amigos mais próximos: Spock e McCoy. Formando um trio que dava amálgama ao comando da Enterprise. Enquanto Spock se prendia aos seus paradigmas, à sua irracional procura pela racionalidade extrema, McCoy não teimava em ser profundamente humano, emocional, às vezes rabujento demais, dava conselhos importantes a Kirk e frequentemente discutia com Spock sobre questões filosóficas, McCoy era a definição de um médico de interior que cuidava de seus pacientes como se fossem seus vizinhos, bem diferente da concepção dos médicos que temos hoje.

\Kirk, McCoy e Spock o trio imbatível da série


     Chekov é a juventude que se abre na Enterprise, impulsivo, emotivo e brigão, Chekov sorri e brinca com Sulu na Ponte de Comando, corteja as moças de vez em quando, mas não esconde seu nacionalismo russo quase explicito. Acredita nas virtudes do povo russo e está ali representando a Mãe Rússia com unhas e dentes na navegação e no controle de armas. Pouco se sabe sobre Chekov pela série, só que perdeu um amor quando entrou para a Academia da Frota Estelar.






Sulu e Chekov num momento de descontração

      Sulu é a paciência e a eficiência combinadas juntas. Sulu nem era meu favorito embora fosse um anexo para a agressividade de Kirk, envolvendo-se em brigas e distúrbios muitas vezes; Não tinha muita simpatia por Sulu quanto tinha por Chekov, talvez porque numa certa altura Sulu tenha sido negligenciado na série.








       Uhura é a musa da nave, uma excelente cantora, também era responsável pela parte das comunicações da nave. Uhura divertia-se aos flertes que lançava de vez em quando à população masculina da nave, mas na realidade se via profundamente sozinha na imensidão do Espaço.

       A enfermeira Chapel é a encarnação de um amor platônico que nunca dera certo, afinal de contas, Chapel tinha uma paixão impossível pelo senhor Spock, que por sua vez era casado (Time Amok explica isso) e tentava ser asceta dentro da nave. Auxiliar do Doutor McCoy , impossível não sentir pena da tristeza com que a enfermeira olhava o senhor Spock pelos corredores.


         Findo isso, é conveniente destacar o que eu aprendi com Jornada nas Estrelas:

Comandante Klinglon em um momento de profunda satisfação


         História, as viagens de volta ao tempo e as visitas a planetas que imitavam o passado terrestre figuravam como uma aula de História. Além disso, o seriado querendo ou não é bem influenciado por sua época de produção, a Guerra Fria, tanto que os klinglons são como uma metáfora para os soviéticos, e num episódio ficou explicita a referência à Crise dos Misseis ao tratar da ameaça de guerra entre a Federação e o Império Klinglon. De fato, se os klinglons são uma metáfora para os soviéticos, a Federação é uma metáfora camuflada de um norte-americanismo propagado por ideias como democracia, liberdade associadas ao crescente desenvolvimento tecnológico. A Federação é a visão de um futuro da transformação dos Estados Unidos.


         A ideia da Enterprise é uma ideia antropológica de convivência de vários povos dentro de um mecanismo de viagem para outros planetas. Nisso, convivem muito bem americanos (Kirk, McCoy), japoneses (Sulu), swalis (Uhura), irlandeses (Riley), escoceses (Scotty), russos (Chekov) e raças alienígenas (Spock). 

          O contato com outros povos também abre discussões antropológicas, como a própria demonização dos Klinglons, as raízes em comum entre vulcanos e romulanos, a diretriz de não-interferência que é um tema recorrente da série que impede dos homens da Federação exercerem seu etnocentrismo. A ideia de Star Trek além de glorificar a corrida espacial, mostrar os desenvolvimentos científicos da época, no campo da antropologia, história, física (Teoria das Cordas, Dobra Espacial, Buracos de Minhoca), biologia (Vida baseada em silício, como no caso do monstro que matava a todos num planeta mineiro; Vida com sangue de cobre, caso de Spock), filosofia e outras áreas.

        Há a propaganda de valores americanos também, como no episódio que há uma guerra civil num planeta e Kirk discursa para os habitantes com a constituição americana nas mãos e diz: "Esses valores não são só para vocês, mas também para os commies (comunistas)". Foi um episódio escrachado do espirito civilizatório da diplomacia americana.
Kirk lendo a Constituição Americana


          De fato, diplomacia é o que ronda no seriado. Klinglons, vulcanos, romulanos, rigelianos... São tantos nomes que acaba esquecendo. A conferência de Babel, o planeta Memory Alfa, todos essas reverências mostram que a diplomacia ainda o melhor caminho frente à guerra. Nisso eu vejo uma apologia ao Departamento de Estado norte-americano que estava em alta na época devido à solução da crise dos Misseis e a doutrina Kissinger na diplomacia norte-americana.


        Jornada nas Estrelas pode ser uma visão colorida de um futuro que gostariamos, mas essa visão colorida acabou influenciado o nosso presente atual: Como os celulares, que foram idealizados em Star Trek na figura dos comunicadores; Os tricorders  que hoje podem ser interpretados como os smartphones, devido ao fato de terem um acesso rápido à internet na palma da mão para o acesso de informações. Também a ideia de um computador pessoal que surgiu em Star Trek. A teleconferência e o Skype também surgiu a partir da ideia da tela central na ponte de comando.


         O teletransporte quântico ainda está em testes, o físico demorará, ainda mais que também se especula pela teoria da Relatividade ser impossível passar da velocidade da luz como Jornada nas Estrelas acredita. De fato, não há fronteiras para a capacidade criativa humana, isso Star Trek também mostra. Star Trek auxiliou-me a tornar parte do que do que sou hoje, pois trouxe-me à luz de alguns sonhos. E sonhos ainda são imortais.









"Live long and prosper"

sábado, 23 de novembro de 2013

Liga Coxinha Extraordinária

       A criação de novos "partidos apolíticos" é produto de uma variante esquizofrênica de  um novo tipo de ator político: O coxinha.

       Coxinha é uma expressão utilizada nos círculos políticos recentes para descrever um jovem de classe média, de 18 a vinte cinco anos de condição estável, estando desempregado ou não que vive junto com os pais, frequenta regularmente a academia para obter a hipertrofia desejada (utilizando anabolizantes inclusive), mas não dedica-se a treinar o espírito, tampouco a mente. Lê pouco, frequenta todas as baladas possíveis, bebe whisky Red label, acha que tem a necessidade de pegar todas as meninas da festa.

        Consome camisas polo Lacoste, costumeiramente nunca anda de terno ou engravatado, possui um carro hatch de motor 1.6 e adora falar de futebol. É engraçado como se construiu o termo Coxinha, porque coxinha designa originalmente um salgado em formato cônico à base de farinha de trigo, farinha de rosca e batata com recheio de frango desfiado que é frito e costumeiramente é vendido vencido nas rodoviárias de pé de estrada nos rincões do Brasil; Talvez seja por isso que tenha sido designado de "coxinha", devido ao aspecto estragado de suas ideias, e por demais indigesto.

       Não preciso dizer que os  coxinhas correspondem ao segmento dos marombeiros em alguns casos, pseudointelectuais em outros, filhinhos de papai (vulgo mauricinhos) em todos. A verdade seja dita, coxinha é coxinha que tem dinheiro mas não sabe se portar com o dinheiro, chega a ser a encarnação de um noveau riché, às vezes fala alto, é inconveniente, exige tudo à mão e ainda reclama. Não consegue muitas vezes manter uma conversa nos limites da amistosidade devido a sua impaciência tautológica. 

       No campo político o "coxinha" é "apolítico", se descreve dessa forma. Diz que todos os partidos são sujos e que não merecem o mínimo respeito. Que a política brasileira é assim e nunca irá mudar, mas nem é um pouco disposto a mudar esse quadro. Acredita que a corrupção associa-se à esquerda que pejorativamente chama de "petralhas" (junção entre o nome do PT, Partido dos Trabalhadores, envolvido com esquemas de corrupção, e os Irmãos Metralha do Tio Patinhas), esquecendo-se que os outros partidos brasileiros são tão ruins quanto, estão associados à corrupção, ao coronelismo e à própria Ditadura Militar.

      Nas manifestações os coxinhas não anti-partidários, nada de bandeiras ou bastiões. Isso é digno de briga e de linchamento de segmentos partidários nos protestos. Gritam, esperneiam, gritam Gritos de Guerra monótonos e monolíticos e se recusam veemente a cantar por exemplo a Internacional. Quando a cavalaria ataca, são os primeiros a correr, tentam safar a pele e culpam os "black blocs" e os anarquistas como pessoas que saíram dos limites. Acha que os protestos são bons, mas não queria estar no trânsito porque diz que atrapalham a vida do cidadão.

      Formam a multidão desvairada e como toda a classe média, é babaca. Sim, a classe média é meio babaca mesmo, falo com toda a convicção, não que eu a odeie, só digo que é babaca. É babaca pois é o maior segmento social com possibilidade de instrução, que possui as portas abertas para a política e negligencia tudo isso em virtude do seu pseudo "american way of life". Também deveras, afinal, Marx dizia que a pequena-burguesia está no caminho entre a classe proletária e a burguesia, de modo que a pequena-burguesia com acirramento da luta de classes está fadada ao desaparecimento, tendendo ideologicamente à classe dominante, porque inevitavelmente é a classe que desejaria ser. Marx pode está velho, mas é tão atual quanto você que está nessa poltrona. O sonho do coxinha é ser milionário.

      Não se importa com o pobre, não se  importa com a saúde pública (afinal tem plano de saúde), nem com a educação (afinal, ele estudou em colégio particular), embora ele reconheça que os serviços públicos são uma merda. E pra isso ele ideologicamente (embora essa ideologia esteja escondida em seu subconsciente) é um neoliberal e quer ver um estado mínimo com menos impostos. O coxinha é  coxinha, e qualquer coisa que ronde em torno de cotas sociais e raciais para o ingresso na universidade é totalmente rechaçado pelo coxinha, assim como a ideia de trazer médicos cubanos ao Brasil sabendo-se que os médicos não querem trabalhar nos hospitais públicos.

      Lenin dizia que é fácil iludir o povo com promessas de liberdade e democracia (LENIN, Vladimir Ilyich. Como iludir o povo) e isso é usado pelos segmentos mais reacionários para confundir o proletariado e sobretudo o campesinato com promessas que não seriam cumpridas. Assim, acredita o coxinha que  o voto representa o maior poder do cidadão, que embora exista meios de burlar a legislação eleitoral, a culpa é do povo por não saber votar direito, mesmo sem saber que há elementos como o fator partidário que fazem eleger junto com um candidato outros três, ou que o voto é do partido, assim se o candidato mudar de legenda, a vaga fica para outro membro do Partido, assim vai. o coxinha é um iludido por natureza.

     Iludi-se com o sistema democrático americano que apesar de ser o mais funcional no mundo é imperfeito e incompleto e deseja ardentemente que o seu país se torne um bastião da democracia e do capitalismo tal como os Estados Unidos, que São Paulo vire New York, que o Rio vire São Francisco e que Miami seja logo ali, sem perceber que o Brasil é diferente desde que nasceu.

     O coxinha quando quer se inteirar lê o Guia Politicamente Incorreto de Leandro Narloch, que nem sequer era historiador, mas ex-jornalista da Veja e também o 1808 do também jornalista Laurentino Gomes. Engraçado que cita trechos desses livros e os nomeia como historiadores, para profundo desespero dos acadêmicos, acredita que esses livros trazem a Verdade Suprema. Sim, eles acreditam numa VERDADE SUPREMA (faço questão de por Caps Lock), e que essa verdade é somente dada por Deus.

       Os coxinhas são um tipo estranho de religiosos, eles acreditam em Deus, frequentam a igreja (católica ou protestante, tanto faz), acreditam que deva existir bondade no mundo, mas fazem tudo ao contrário. Bebem, prevaricam, desejam a mulher do  próximo, clama o nome de Deus em vão, deseja que Deus atenda os seus desejos numa oração e se não atende, reclama. São um jeito estranho de fiel, são cristãos McDonald's, que desejam o retorno imediato de suas preces.

       Os coxinhas não vou parar de dizer são conservadores, às vezes reacionários, do tipo querer voltar ao passado. Vez em quando riem das  piadas do Felipe Neto, Danilo Gentilli e outros, assistem o podcast do Olavo de Carvalho falar mal dos "petralhas" e comentam a página do Uol sobre o Mensalão com comentários de pouco teor político.

      Os coxinhas também são machistas, nisso eu falo no seguinte sentido, desejam ardentemente ficar com várias garotas na festa, contam numa calculadora o número de ficadas, desejam fazer sexo ali mesmo na passarela, entretanto enxergam com maus olhos quando uma mulher sai com mais de um homem por semana. Estranham quando elas têm apetite sexual e as chamam de vadias quando não querem ficar com eles.

      Os coxinhas odeiam as feministas e as lésbicas, dizendo que "não foram bem comidas" e associa que o feminismo é um lesbianismo disfarçado, mas muitos coxinhas desejariam ter duas mulheres em sua cama. E é estranho como os coxinhas se relacionam, são quase Stormtroopers, andam sempre em grupos e acotovelando os que passam, são quase uma confraria de profundas ligações emocionais.

      No Facebook são ativos e são os que mais fazem comentários desnecessários. São esses os coxinhas que a gente observa ultimamente.

       Coxinhas, agora os coxinhas que sempre foram um grupo grande, diverso, tentam se organizar, juntar os marombeiros com os filhinhos de papai e pseudointelectuais, estão querendo formar partidos que variam de um falso senso apolítico até um neoliberalismo escrachado da Escola de Frankfurt. Eles que são reacionários, que vem as mulheres como objeto e feministas como vadias, socialistas como Petralhas, o paraíso como Miami, tentam se organizar, formar uma Liga Coxinha Extraordinário para o fascínio da Veja e da Globo. 

       Eles são os "bom-moços" da revista Veja, eles são os filhinhos queridos da mamãe que nunca desobedeceram em casa, mas aprontaram todas na escola. Eles se acham especiais por serem felizes no seu jardim do Éden artificial,  são filhos da nova geração medíocre de "homem-médio" brasileiro, esvaziado de ideologias, ideias, conhecimento filosófico e de mundo, mas travado em seus músculos, bebedeiras e gritos despreocupados.Eles um dia formarão uma Liga Coxinha Extraordinária, e quando formarem estaremos em maus lençóis. Não por serem competidores sérios, mas por ser uma constatação que a política virou um circo ambulante qualquer.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Engraçado é o livro

      Nossos amigos são diferentes uns dos outros, mas perpetradores de histórias que somente nós podemos nos lembrar. Até eles também se esquecem de todas as vezes que saímos em bebedeiras, corremos atrás de ônibus, conversamos, brincamos e sorrimos; Nisso uma pequena discussãozinha começa do nada, e vira uma megapole de argumentos, para no fim terminar: "Você bebeu todas, seu puto, saía do Facebook." "Para de falar assim, seu vascaíno de merda". "Eu gosto de você, seu desgraçado", "De boa, seu merda. Até mais".

     Amizade é algo tão estranho que mesmo se xingando as pessoas se sorriem e brincam-se consigo. Jogam cafunés, falam histórias, trocam piadas e conseguem ficar sérias quando preciso. Ser amigo é ser amigo, mas antes de tudo, ser amigável.

     Um mero pedido de um livro já abre uma discussão:

    "Meu livro!"
    "O livro dele", abre-se uma segunda voz ao coro.
    "Dele o livro", surge uma terceira, mais grave, na discussão"
    "Livre delo é", constrói-se uma quarta.
    "O dele livro", diz uma quinta pessoa.
    "Ode lê livre", corresponde novamente a quarta pessoa.
    "Livro dele é", repete
   

     Os amigos sorriem-se com os significados, mas pacientemente o amigo volta à discussão inicial:

     "Devolve meu livro"
     "Devolve o livro dele", diz a segunda voz do coro;
     "Dele o livro devolve", surge a quinta amiga na conversa novamente.
     "Dê-lhe o livre volve", a quarta pessoa comenta novamente sobre o assunto.


      Não há coerência na conversa, e o livro continua longe de seu dono  numa prateleira numa casa distante , mas a amizade continua entre os significantes e significados. Pois sem querer, numa discussãozinha qualquer cria-se um poema pós-moderno.

30 dias

        Na verdade não são trinta dias, são 29 dias e vinte e três horas mais alguns quebradinhos; Vinte e nove dias de puros amores relampejantes, piqueniques, cinemas, beijos e mais beijos; De poucas brigas até agora, mas de muitos problemas. De gente desocupada que tenta interferir em nossas vidas, de problemas que surgem sobre nossas cabeças e temos que enfrenta.

      Gente que não aceita que a gente fique junto; Gente que inventa mentiras para deixar-nos mais preocupados, uma operadora de celular que faz chantagem emocional com telefonemas; Não importa, sempre surge alguma coisa na palavra do dia, e também não me sinto mal com isso. Os problemas surgem e se resolvem e se resolvem mais rápido quando você tem alguém;

      Não pelo fato de você ter uma pessoa, mas pelo fato de você estar amando. Um artigo é menos que um pedaço de papel, uma apresentação é um passeio no piquenique... Você se imagina diferente do que você pensaria que era. Começa a se achar bonito, a se olhar mais no espelho. Acredita que o seu bem não é o importante, o importante mesmo é o bem de quem você se ama;

     Você se sente culpado quando você se atrasa e vê sua namorada sentada num banco de argila, com um guarda-chuva nas mãos com um ar preocupado, enquanto você falava besteiras com os seus amigos e sorria e gritava. Você se sente culpado por não falar nada, mas queria falar tudo. A monotonia de suas mesmas palavras lhe faz sentir com medo de ser repetitivo.

    Às vezes não acontece nada. Verdadeiramente, nada de novo, mas você queria que acontecesse para contar para quem você ama. Para ter uma conversa além de beijos e suspiros de "eu te amo"; Tem horas que você tem  vontade de viajar do nada, para um lugar deserto, só você e a sua namorada, mas você se lembra que ela tem a família dela e suas obrigações, depois você lembra que você tem também.

    Tem horas que você queria trocar uma prosa com os amigos, ver como eles estão; Mas você se sente distante deles, não por culpa deles, mas sua. E de repente você não se sente culpado, porque apesar de você estar longe, estar sozinho beijando sua namorada; Sente-se feliz ao perceber que eles são seus amigos e que você confia neles;

     Certas dores de cabeça não possuem mesmo tratamento, nem remédio. Mas certos beijos atenuam qualquer um dos problemas; São 18:18 agora, as horas se repetem não é por acaso, de verdade, eu acreditava ser besteira esse esquema dos números sequenciados no alto do ponteiro de um relógio; Mas não é.

      Não sei dizer se é tão prático  viver sem ter alguém, talvez seja. Você pode fazer tudo o que quiser numa dada hora, pode decidir amanhã largar tudo e viajar pelo mundo; Mas depois você pode se encontrar num alto de uma colina à noite sob uma fogueira e um céu estrelado e se sentir sozinho. A humanidade é solitária por essência.

      Bom, nem tudo é flores; Às vezes temos brigas, às vezes queremos ouvir mais nossos amigos do que nosso amor; Às vezes queremos ficar sós. Outras queremos ficar super grudados, ter cola superbonder, para grudar nossos corpos e nossos lábios para não nos separarmos; De verdade, eu não sei ser engraçado, mas me divirto quando ela sorri. Não sei ser sempre calmo, mas eu fico feliz quando ela está tranquilo. Amar é ter um pouco de empatia por quem se ama sem pedir nada em troca, pode ser besteira se apaixonar nos dias de hoje. Eu mesmo tinha um discurso desses no passado, mas a endorfina que a gente libera com um beijo, a adrenalina que a gente possui quando corre atrás de seu amor quando briga; Tudo isso nos faz pensar que é legal se apaixonar uma vez, ser piegas de vez em quando; Pagar um almoço caro, comprar um brinco para a sua namorada. Não que eu não ache isso muito fora de moda, mas a gente sente isso de vez em quando. A gente sente uma vontade de fazer outra pessoa feliz.

     Não se preocupa muito com os outros dizem, não quer saber da reprovação da sua própria mãe,se preocupa sim com a segurança do seu amor que às vezes chega tarde. Se preocupa com uma melancolia que possa aparecer a essa pessoa quando se sentir sozinha, se preocupa se por acaso ela almoçou ou se consegue pagar as contas do mês. Amar é estar um tanto preocupado, mas é bom estar preocupado.

    Amar, hoje percebo não é pra todo mundo; Tem que estar preparado para viver com outra pessoa, tem que abrir mão de coisas que você inicialmente não queria fazer, outras vezes tem que abrir mão de desejos. Tem que ser crítico de vez em quando, mas nunca sempre crítico. Tem que saber se importar com outra pessoa, às vezes tem que estar disposto a brigar por ela se preciso. Às vezes você ignora os seus pais, às vezes você brinca de escutar de fingimento, outras você ouve com atenção. Amor não é eterno, tem que estar preparado para isso, não é eterno, mas é pra ser intenso. Com mordidas na orelha, sussurros escondidos, pescoços marcados, beijos e mais beijos, até faltar ar. Amor não é chama que arde sem se ver, amor é uma chama que implora para ser vista. Amor é intenso, senão é intenso, amor não é;

     Não sei se será eterno esse sentimento, eu acredito que não, mas lembro de uma sábia frase de meu pai: "Na vida, dinheiro ajuda em boa parte das coisas. 99% dos problemas são resolvidos a partir do dinheiro. Mas existe 1% que não se compra. Um por cento que faz toda a diferença, e esse um por cento é a felicidade. E Alan, você não é feliz." Depois desse conselho, todos nós refletimos. 1% corresponde essa nossa felicidade, para você ver que a felicidade é algo raro e finito, mas essa felicidade pode não ser eterna, mas vem fazendo diferença todos os dias que estou ao lado de minha namorada.

     "É somente nas misteriosas equações do amor que alguma lógica real pode ser encontrada" e o amor nunca foi lógico por essência, mas sempre foi compreendido como uma coisa a ser sentido e testado de vários modos diferentes.

      Agora são 30 dias...

domingo, 10 de novembro de 2013

Quando a CIA virou o Fuxico





         A despeito de não importar com o rumo das conversações sobre espionagem (afinal de contas eu sei que não darão em nada) é conveniente analisar um caso bastante intrigante que vem ocorrendo e divulgado pelos jornais ao redor do mundo; O dia que a National Security of America, órgão que como o nome diz é responsável pela segurança nacional dos Estados Unidos realizou atos de espionagem não só contra países supostamente inimigos aos Estados Unidos, como países neutros e até aliados, como o caso do Brasil e principalmente da Alemanha.


         Nesse contexto os Estados Unidos foram cotados como a revista Fuxico da diplomacia internacional, sempre querendo saber dos furos dos representantes dos outros governos nacionais. Nesse caso estão os grampos ao telefone de Angela Merkel, bem como os atos de espionagem à França, Espanha e Reino Unido. Desdenhou-se muito do Brasil por ter se levantado quanto a isso, de fato o Brasil não é visto como igual aos outros países na Organização das Nações Unidas.


Os grampos telefonicos não morreram com a Guerra Fria


















        Bom, o que há a dizer. Snowden realizou uma contribuição à comunidade internacional ao se desmascara mais uma vez o papel esquisofrênico da liberdade democrática norte-americana. Não só porque ela deseja promover os valores de liberdade de expressão, inviobilidade dos direitos naturais do homem, mas na práxis conduz-se às vias do totalitarismo quando vigia a correspondência de seus próprios cidadãos em nome da segurança nacional. Interessante que o discurso da segurança nacional é o que acaba sendo reutilizado nesse caso, mesmo discurso que para o bem da manutenção da ordem pública governos se utilizam para molestar as estruturas democráticas existentes; 



       Não pensem que nos Estados Unidos isso é diferente, em situações de guerra o governo norte-americano enfrentou as questões mais difíceis retirando as liberdades do indivíduos momentaneamente. No mandato de Woodrow Wilson você poderia ser enquadrado pela polícia e ser preso com base a nenhum estatuto simplesmente por sua atividade política (seja feminista, seja de esquerda ou trabalhista) ser encarada como uma questão de arruaça e que atrapalhava o esforço de guerra norte-americano;



       Na Segunda Guerra a administração Roosevelt foi perspicaz ao dinamitar os atritos sociais com as reformas decorrentes do New Deal e o populismo norte-americano representado por esse presidente levou à classe trabalhadora ao seu atrelamento à políticas sociais do governo. Entretanto é de se lembrar que os direitos dos nipo-americanos foram violados conforme as leis do governo norte-americano que lhes retiraram o direito de cidadania e os alojaram em campos de concentração no próprio território norte-americano;

       Contudo foi no período do senado McCarthy que se observou o período mais obscuro e hipócrita da história norte-americana, não só porque o governo norte-americano divertiu-se com a retórica de defesa da democracia contra a tirania vermelha que se abria no leste, mas com o modus operantis do FBI e de outros organismos do governo no período da administração Truman e o início da administração Eisenhower, em que nos métodos pouco se diferia dos soviéticos, devido às prisões compulsórias e os julgamentos espetáculo realizados em pleno território norte-americano. Os Estados Unidos não possuem ainda peito para reconhecer seus erros durante a época do marcathismo.
Vigiar cidadãos americanos para garantir a segurança da democracia, taí uma coisa que ele aprova
        A banalização do Mal não está só enraizada no estudo ao totalitarismo nacional-socialista como Hannah Arendt coloca, está semeada até na própria estrutura política norte-americana. A violação constante das liberdades individuais frente a "interesses de Estado" é uma lacuna que não consegue ser preenchida pela história norte-americana, é a volta da "Raisón de état" tão comumente utilizada pela retórica demagógica do Império de Luís Bonaparte, que agora retoma nos Estados Unidos, pelos interesses de estado tudo se torna possível;

        Esses interesses de Estado criam um aspecto de policiamento da própria sociedade norte-americana, onde o cidadão está a mercê do Estado e observa cada vez mais sendo cerceado em suas ações e molestado pelos interesses públicos que se sente coagido a levantar voz contra o regime; Bom, os norte-americanos ainda estão imersos no espírito de Ilha da Fantasia, com o Tattoo trazendo todos os dias uma bandeja de contas e cheque especial e o senhor Roarke se beneficiando da desgraça alheia resultante da crise econômica. Os sonhos vão embora, as esperanças também, vemos agora que nós não somos especiais e nem podemos ser.

A Ilha da Fantasia acabou

        Pois a juventude se afina a velhice toma nossos cabelos e somos céticos quanto nosso futuro. Isso nos aguarda de verdade, mas nos aguarda também sermos vigiados cada vez mais pela estrutura estatal que se hipertrofia. Devo explicar que essa hipertrofia não é de toda a estrutura estatal, pelo contrário, desde a ascensão do modelo neoliberal de Reagan e Tharcher, o Estado cada vez mais quer se desvencilhar do seu papel social como mediador das mazelas sociais e como regulador do mercado, entretanto ele se adensa no seu corpo militarista ao concentrar cada vez mais recursos ao aparato militar-tecnológico que se constrói no complexo industrial-militar, para utilizar uma das frases do ex-presidente norte-americano Dwight Eisenhower.

      Sim, a sociedade norte-americana está abandonando a sua liberdade, para a vergonha de Jefferson, e está adotando uma postura profundamente gritada pelo populismo fanatista de Obama e a permanência, com notório predomínio dos interesses de grandes corporações no cenário norte-americano. Os Rockfeller estão cada vez mais sendo deixados fora do plano do discurso como grandes magnatas da ordem norte-americana, de fato eles não possuem a força econômica como antes detinham, mas isso não interfere no fato que possuem uma força na política norte-americana.

        As grandes famílias da Costa Leste americana ainda coordenam a política norte-americana e isso é visível quando observamos o financiamento de campanhas durante a corrida presidencial; De fato as suntuosas fortunas não são dadas de graça.

        Pois o governo norte-americano se tornou um anexo dos interesses dos grupos econômicos norte-americanos desde meados do final da Segunda Guerra (especulo que com a própria guerra em vigor o controle econômico desses grupos já se tornara inevitável), de modo que a política de aversão à Cuba criada na administração Kennedy nada se relacionava ao contexto de Guerra Fria inicialmente, mas no momento em que Fidel Castro nacionalizou os cassinos e pôs fim aos prostíbulos de Havana, a administração corrupta do presidente mulherengo Kennedy, que tinha ligações claras com a Máfia, optou por tomar uma postura de profundo ressentimento com Cuba, chegando ás vias próximas da destruição com a Crise dos Misseis.

       Bom, estou divagando sobre a sociedade norte-americana, mas o fato que se apresenta é que o Grande Irmão que George Orwell detalhava em seu distópico best-seller 1984 não caracteriza só a União Soviética e Stalin, mas mais do que isso, caracteriza a sociedade norte-americana hoje. A teletela não é a nossa televisãozinha de tubo como imaginávamos, mas o nosso notebook que é vigiado constantemente nos nossos escritos, e cuja webcam pode ser invadida a qualquer momento por um agente da CIA. De fato, minha paranoia sempre pisca quando vejo que minha webcam ligou do nada.

     A teletela coloca não só todos nós sob eminente vigilância do governo norte-americano, mas como Orwell escrevera, a teletela coloca-nos a par dos valores do regime. Suas notícias e sua ideologia simplista traduzida em canções cada vez mais simples e monótonas, de revistas que não aprofundam em assuntos complexos da dinâmica social existente e observamos que a vigilância acrescenta-se quando percebemos que organismos como o Google e o Facebook repassam nossas informações livremente aos organismos de segurança não só americanos, mas também regionais.

"Tô de olho. O Grande Irmão Obama está de olho em você"

       É vigilância que se espera no século XXI, não privacidade. O direito de privacidade era algo destinado aos nossos pais, mas não nós e isso se traduz nas relações internacionais:

      Os Estados Unidos não possuíam um organismo de espionagem eficiente até a Segunda Guerra, mas devido à importância dos aparatos de inteligencia como o NKVD e o MI-6, os norte-americanos desenvolveram a inteligência do Exército para contrapor a Abwehr alemã do almirante Canaris. Com o estabelecimento de uma célula de espionagem soviética no território norte-americano e sua descoberta em 1947, os Estados Unidos cada vez mais foram se desenvolvendo em serviços de espionagem até que chegaram a enfrentar a eficiente KGB durante a Guerra Fria.

     O aparato de vigilância norte-americano se manteve a despeito o fim da União Soviética, e os Estados Unidos ainda são muito influenciados por uma lógica binária nas relações internacionais de Guerra Fria. A sua procura por inimigos é algo que traduz isso, de toda forma, a construção do aparato de vigilância se manteve e os Estados Unidos que sempre foram muito acostumados a realizar vigilâncias sobre outros regimes continuaram a prática e a reforçaram com iminência da "war to terror" de Bush.

    A espionagem de aliados reporta à época de George Bush e isso os informes da diplomacia norte-americana do Wikileaks demonstram muito bem que essa questão não é de hoje; Contudo, o mundo se impressiona hoje do porquê do "bom-moço" Obama continuar a vigiar a vida de chefes de Estado, como Angela Merkel, Hollande ou a tupiniquim Dilma.

     De fato a diplomacia americana aprendeu a ser esquizofrênica e a nunca confiar nos seus parceiros, isso a França de De Gaulle traduziu muito bem, a confiança norte-americana só perdura com Israel, talvez pela influência de Kissinger no Pentágono e na Secretaria de Estado. O conhecimento tácito da realpolitik de Bismarck até os dias atuais conduz ao governo norte-americano de sempre ser desconfiado em relação aos seus parceiros e sempre criar alianças fluidas e inconstantes.

     A manifestação dos governos vigiados em questionar as ações do NSA são válidas, na medida que seus governos precisam dar uma resposta aos seus respectivos povos, mas não representaram qualquer mudança nas regras quanto à inteligência mundial, porque os próprios serviços de inteligência são algo a margem da lei. Sempre foram, e sempre violaram os contratos sociais, nisso observa-se que as ideias de Maquiavel são válidas na medida em que é conveniente a um bom governante ser amado por seu povo, mas mais do que isso ser temido por sua gente. De tal foram, para a manutenção da ordem a moral não deve interferir nas ações de um líder.

      O carisma de Obama não deve servir de engano a nenhum outro. Aquela euforia desesperada por um Messias em 2008 era ruim naquela época e é ruim hoje. Obama não é um Messias, está mais para um Pinóquio, não só por suas mentiras, mas mais do que isso por parecer um fantoche na presidência norte-americana. Quase cinco anos de presidência não lhe conferiram nenhum senso de responsabilidade e as suas ações no plano social foram até agora ínfimas.


O Yes, we can traduziu-se em Yes we can to see
      A vigilância de Obama a outros povos traduz-se por uma vigilância de um governo frustrado frente a outros governos. A legitimidade dos democratas está se reduzindo tanto quanto a dos republicanos e isso poe em xeque até que ponto chegará a política norte-americana. Os Estados Unidos são os Estados Unidos, são a grande potência com músculos que destroçam até um mamute, isso é inegável. Até a China reconhece isso, reconhece tanto que chega a ser cautelosa. Todos os países o são, tanto que o protesto brasileiro à ONU só ecoou na tribuna dos BRICS, porque não trouxe outra coisa senão riso da diplomacia norte-americana.

"Que orelhas grandes você tem!"
     O governo brasileiro ao hostilizar abertamente os brasileiros e não conferir o tratamento adequado ao embaixador americano em Brasília pode colocar em xeque o futuro nacional, não só porque perderemos um parceiro, como poderemos entrar num caminho que não haverá mais saída, tal como a Argentina. Obama dobrou-se à Merkel, porque a Alemanha é a Alemanha, Deutschland über ales, é a Alemanha quem segura a União Europeia e a coordena, é o carro-chefe do capitalismo no Velho Mundo; Mas o Brasil é Brasil, gigante por natureza de pés-de-barro, numa hora poderá se desfazer frente aos graves problemas sociais e estruturais de sua economia como um todo, sempre foi um auxiliar do séquito norte-americano e não mudará essa imagem tão cedo;


    A espionagem americana é própria da natureza de um american way of life. Onde o americano comum é frustrado com o seu próprio emprego e com sua vida comum, é frustrado com a sua vida dentro de casa, frustrado por não poder consumir do jeito que gostaria; Tão frustrado que às vezes só comprado coisas ele pode superar essa frustração, tão frustrado que é comendo no McDonalds ele obtém alguma forma de prazer, tão frustrado que é pela pornografia que ele obtém alguma forma de atenção.

    A espionagem americana se explica nada menos pela psicanálise de Freud, onde o desejo de vigiar outros povos, vigiar cidadãos de outras nações traduz a sensação de frustração que é o isolamento americano nas relações internacionais, não porque lhe faltem parceiros, mas porque não há quem rivalize com sua estrutura econômica e que lhe faça ter estímulos novamente para o seu crescimento. Não há mais a Inglaterra, o México, os índios, os latinos, os alemães ou os soviéticos para rivalizar o "trem da História norte-americano", como eles pensam. Eles realmente se tornaram um baluarte de um capitalismo que só consegue se desenvolver pela tecnologia sem outras formas de competição.

    Os Estados Unidos não estão em vias do fracasso eminente, demorará ainda cinquenta anos para o seu regime entrar em colapso e como os americanos são sortudos por convencer a cerne do pensamento intelectual mundial a ir ao seu território, é possível que ainda consigam superar os seus desafios como sempre superaram. Os Estados Unidos são um enigma a qualquer um que estude a história de grandes impérios;

      A espionagem dos Estados Unidos é a espionagem de um garoto gordinho desocupado aos seus vizinhos num condomínio fechado com um telescópio. Ao invés de olhar as estrelas, ele olha para como os seus vizinhos se relacionam. A prática norte-americana é uma prática voyeur. Os Estados Unidos são voyuer por natureza.

"Hum, tô vendo os dois naquele quarto. O que será que estão fazendo..."

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Filete de chuva

          "  — Alan, você quer ser meu namorado?"


            A lua olhava aos dois, ela sorria frente a inocência dos dois amantes, velha como sempre devia estar a sorrir com seu deleite de prata; Suas rugas profundas, seus olhos cansados de velha criatura a pintar o céu, enquanto seu esposo, o sol, não a olha a tanto tempo, devia estar sorrindo agora com acalanto dos dois apaixonados;


            O silêncio daquela noite fria onde o vento desaparecia preguiçoso, nas tomadas do concreto armado de muito cimento e areia, martelava vozes que rompiam o coração apaixonado... Devo aceitar? Eu a amo, mas será que estou pronto? Mas eu a amo e pediria ela em namoro amanhã. Puxa, foi melhor assim, ela me pedindo em namoro, e como a amo, porque não aceitar? Ter cuidado para não me machucar? Ela é sorridente e feliz, delicada e tranquila. Eu a amo de tantas formas diferentes que fica difícil pontuar; Ela é tudo que eu sempre quis conhecer, bondade e amor. Ela é o amor de muitos dias, o amor de muitos amores, ela é o amor de uma vida.


            Pois olhou para a lua procurando respostas, a lua enigmática não lhe respondeu. Ele tinha numerosos problemas, e se perguntava se ela estaria disposta a comprar uma coisa desses. Ele sempre se sentiu um patinho feio que não serviria pra ser amado, no fim ela via um cisne branco, ele teimava em não acreditar que fosse cisne, mas adorava olhá-la abraçar o seu espírito revolto e indomável. Pois esse espírito não era um leão, era uma lebre machucada que tinha medo da vida e achava que nunca conseguiria voltar a corrida para a estrada. Mas encontro a luz no fim da escura estrada quando viu alguém como ela.



            Metaforismos à parte, eu olhei para o seu e imaginei o rosto dela comigo, isso me deixou contente de verdade. Eu olhei para mim  e via que ficava feliz com ela, podendo ficar mais; Ela era alguém para se dividir uma vida, alguém em quem acreditava que pudesse dividir os meus segredos e medos, assim como ela faria tudo isso comigo. Humilde, simples, amorosa e às vezes bastante inocente. Eu me apaixonava cada vez mais por ela, e nós dois conversávamos sobre tantas coisas que duvido eu me sentisse tão bem solto e livre do que naquele dia.



            — Sim... — Disse bem baixinho quase ao pé do ouvido — Sim, eu quero ser o seu namorado.


            E não me arrependo disso. Isso foi no dia 15 de outubro, por volta das 18h40. A lua cheia nos olhava misteriosa, o céu estava um tanto nublado, estávamos num banco de namorados enquanto outras pessoas na praça jogavam conversa fora. Conversas que nem me esforcei em ouvir, pois o que tinha para ouvir estava no meu peito. Verdade seja dita, não me arrependo.


            Hoje olho escorrer o filete de chuva  chorar sobre o vidro, enquanto o calor de várias respirações embaçar a transparência cada vez mais opaca daquela liga. Ela está no banco ao meu lado, cansada, tentando cochilar um pouco sobre o meu ombro e eu penso comigo bem baixinho: Como eu consegui ser isso? Como eu consegui ser tão lindo quanto ela diz? Como consegui viver com olhar querido? Como consegui ser amado? Nem todo o dinheiro do mundo ou raciocínio empírico responderia isso, mas eu decidi que não me importava com as respostas, nem mesmo com as perguntas, eu a abracei junto comigo. Junto ao meu peito, e ela sorriu como uma criança quando sorri quando recebe um carinho.


            Quando a olho, eu me vejo menino. Sozinho e sujo brincando num canto com um carrinho. Quando eu a vejo, também olho para uma menina, que se divertia pelas ruas e riachos da vida, sem se preocupar com o pouco que tinha. Eu vejo nós como duas crianças que cresceram, um menino e uma menina. Que se completam, que mais que amigos, ou namorados, são parceiros de uma vida.



            Por isso não me arrependo, e espero nunca ter me arrependido, em dizer sim naquele dia. Pois embora tenhamos ideias que às vezes sejam diferentes, conversamos sempre conosco. Justo nós que somos tímidos, ela que não gosta de beijar em público, eu que não gosto de multidões. Eu que me sinto deslocado em festas, ela que também não se sente confortável em coisas assim. Nós dois nos encontramos a cada dia que nos vemos e nos perdemos cada dia que ficamos longe um do outro. Pois nós nos amamos, eu a amo como pessoa e como mulher. Ela que me ama por me achar fofo e bonito.


            Eu que sempre penso no bem dela, ela que sempre se preocupa do porquê de eu não ter almoçado. Eu que me preocupo quando ela chega tarde em casa, com as brigas que ela convive. Ela que olha-me de um jeito diferente, como se quisesse tocar meu peito e dizer  bem baixinho “eu te amo”, todos os dias.


            Somos dois, somos um. Somos duas pessoas, duas pessoas que respeitam um ao outro, que pensam que nada deve ser estático ou forçado. E somos um porque cada um de nós se vê feliz com o outro. Eu sinceramente acredito que a melhor coisa que eu fiz foi dizer sim.


            Os anos poderão passar, as nossas brigas poderão chegar. Nada é eterno, mas não posso me esquecer do quanto fui feliz hoje ao lembrar dos momentos que passamos juntos, desde que nós nos conhecemos até hoje. Eu espero ficar velho um dia e olhar para trás e lembrar: “Puxa, eu fui muito feliz com a Maíres”. Melhor, eu gostaria de pensar mais alto: “Puxa, como eu ainda sou feliz com ela”.


            “Pois eu sei tudo que eu faço, sei tudo que passo, paixão não me aniquila”, Noel Rosa toca na minha mente. Eu lembro bem o que eu já vivi, os erros que já cometi, os amores que já tive ou já desejei, os amigos que eu perdi. Isso eu não esqueço, mas não esqueço também os acertos que fiz, os amigos que hoje me acompanham como bons irmãos, e o amor que está junto comigo.


              Quando eu digo a ela que eu a amo, penso comigo mesmo que eu tenho bons motivos para amá-la. Amá-la por ela ser simples, sincera, inteligente, bonita e independente. A coisa que eu mais queria era isso, conhecer e conviver com uma pessoa assim. Ela tem muitos problemas e ainda assim para para me escutar e ouvir o que eu tenho a dizer. Eu tento ser simples perto dela, sincero sempre fui. Inteligente, modéstia a parte, tenho a arrogância de dizer que sou, bonito eu não sei, mas sempre vou ficar feliz em ver o quanto ela é independente. E eu incentivo essa independência e com muito amor, até. Alguns pensam que uma namorada é alguém que tem a obrigação de ficar com você e de fazer as coisas que você quer. Te servir. Isso é uma concepção errada do que é um namoro, namoro é uma divisão de experiências e de pensamentos onde os dois decidem o que farão de suas vidas, onde há a liberdade de ação de ambos, sem que isso altere o sentimento de carinho e afeto que sentem um por outro. Desse modo, uma namorada não é uma posse, é uma companheira.






            Esse é um dos motivos pelos quais eu amo pensar naquele dia sobre o olhar preguiçoso da lua cheia. Aquele dia ficará na minha memória, pois foi naquele dia que eu me encontrei com uma companheira. Quando fico triste sempre tenho na recordação aqueles bons momentos que passamos juntos.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...