sábado, 6 de junho de 2015

Entre a cegueira e a mediunidade

        Pensar no papel ideológico irrefletido dos movimentos sociais atualmente é pensar o próprio futuro da esquerda no horizonte político logo à frente. Na esteira entre o colaboracionismo e a verdade, muitos dos hoje militantes, jovens entusiastas da causa socialista hoje são tomados pelo ligeiro sentimento impensado de simples ódio contra as estruturas sociais constitutivas da sociedade. Um ódio não racionalizado, ódio por ódio que muitas vezes chega a ser infantil.

     Infantil digo, não para desqualificar as naturezas do movimento estudantil, que muitas vezes é bem planejado e executado, mas infantil porque é tomado por um esquerdismo incoerente com a própria disciplina revolucionária. Lenin, em 1920, no capítulo 2 de seu pequeno ensaio, Esquerdismo: Doença infantil do Comunismo, destaca: 
"Hoje, sem dúvida, quase todo mundo já compreende que os bolcheviques; não se teriam mantido no poder, não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, não fosse a disciplina rigorosíssima, verdadeiramente férrea, de nosso Partido, não fosse o total e incondicional apoio da massa da classe operária, isto é, tudo que ela tem de consciente, honrado, abnegado, influente e capaz de conduzir ou trazer consigo as camadas atrasadas. "

      A disciplina com o esforço revolucionário é um compromisso incondicional e consciente do papel da esquerda na sua luta para a transformação social, do qual não se devem eximir sacrifícios, um verdadeiro revolucionário deve estar consciente de seu papel como tal, deve estar pronto para a linha de choque e estar bem consciente dos riscos que a causa socialista impõe, de modo que a carreira política de um militante de esquerda não é fácil e não é um mar de rosas como alguns imaginam.

   Quando se toma para si a bandeira militante deve-se ter consciência de três eixos: Dedicação, inteligência e capacidade de adaptação. As situações na esfera social impõem que o individuo militante  deva se eximir de uma série de reclamações e complexos de coitadismos para optar a sua defesa ideológica de maneira coerente, deve ter a inteligência suficiente para compreender a dinâmica do processo e ter percepção sensorial para utilizar a série de insatisfações sociais que possam conduzir a um esforço coletivo justificado, e mais do que isso, ter jogo de cintura para saber lidar com os próprios problemas cotidianos no seio do movimento.

   Os estudantes devem antes de mais nada, ter uma visão ampla, e não uma visão limitada às universidades e rodas de discussão estudantis, que no fundo são inúteis, afinal de contas são pouco deliberativas e defendem questões, muitas vezes do plano prático. Se os estudantes querem manter sua essência revolucionária devem aprender a ouvir o povo, lidar com o povo,  e saber conversar com a classe trabalhadora. 

    Os estudantes são imbuídos de uma arrogância absurda frente aos trabalhadores em dois aspectos: O primeiro é em desconsiderar o conhecimento previamente estabelecido desses indivíduos no que considera a suas reivindicações principais, laborais e cotidianas; E a segunda, não menos importante, é se considerem completamente cientes do que está em jogo e se considerarem espertos o suficiente para conduzir uma luta cuja força está nos trabalhadores, e não numa dúzia de "corujas eruditas enrustidas de operários".

   A força de todo movimento está com os trabalhadores e é obrigatório a todo militante saber compreender seus dilemas diários, seus problemas e seus objetivos no que concerne aos seus próprios direitos laborais. Os trabalhadores sabem sim e tem plena consciência de seu papel na sociedade, devemos parar de ser tão cegos ao ponto de acreditar que depois de cem anos após a Revolução Russa que o estágio de alienação do trabalhador industrial continua o mesmo de 1917, as pautas do movimento operário hoje são bem diferentes das pautas daquela época porque os fins são outros.

   O que os erros estalinistas e maoístas ensinaram é que a esquerda deve ter a humildade de reconhecer seus próprios erros e fazer sua autocrítica de maneira eficiente, mas a autocrítica também não pode beirar ao assembleísmo irracional e inconsequente, porque a despeito de tudo, o socialismo deve ser pautado também por termos de eficiência e não por discussões metafísicas sobre o papel do proletariado e da vanguarda revolucionária na sociedade capitalista pós-moderna.



     Afinal de contas, a despeito do pós-modernismo ter alargado o espaço de discussões no movimento socialista internacional, sobretudo nas questões sexuais e étnicas, ele por vezes acaba retirando o foco do espaço de discussões do movimento socialista justamente pelo o excesso de críticas e questionamentos das "verdades absolutas do socialismo". Todo movimento político tem verdades absolutas. Isso é inegável, porque uma ideologia é um construto social baseado em grandes verdades previamente fixadas, se houver um excesso de questionamentos filosóficos, o movimento em si é desmoralizado.


     Com isso, eu não estou declarando que o militante deve ser um indivíduo acéfalo, pelo contrário, reafirmo, deve ser bem inteligente e capcioso, deve compreender qual é o seu papel no movimento e criticar a própria liderança quando for necessário. Nisso entro na discussão do que é cegueira política. Tal como George Orwell certa vez destacou na sua crítica ao stalinismo, e sobretudo no movimento stakhanovista, o excesso de fé na causa e na liderança é um desvio gravíssimo de qualquer maneira. Na vida, deve-se aprender a desconfiar até da própria sombra, nunca deve-se confiar, sobretudo em alguém que lhe dá ordens. As lideranças são as partes mais propensas aos erros, pois apesar de terem visão geral do todo, são cegas às particularidades.

      Siga sempre o seu bom senso antes de tudo, nunca se deixe tomar completamente pela tolice de seguir cegamente a liderança. É contraditório com o que os escritos marxistas estabelecem? Sim. Mas nunca é demais desconfiar do outro, a humanidade é falha por natureza.

      Cegueira. Um ensaio sobre a cegueira. Dos erros da militância: 1) Acreditar que mudará o mundo sem muito esforço. 2) Acreditar ser dotado de mais consciência de classe do que os seus pares. 3) Ignorar os anseios da classe trabalhadora. 4) Dotar-se de arrogância injustificada no seio do movimento. 4) Exercer desmedidamente a autocrítica de forma exagerada. 5) Ser cego às falhas dentro do próprio movimento.

     Acho que me esqueci de uma dúzia de trechos importantes.


     Um deles pode ser sobretudo com relação ao individualismo dentro do movimento social. Individualismo nas proposições de determinados grupos, que anseiam apenas mais direitos a setor particulares do que o todo, devemos enfatizar que é obrigatória a igualdade de direitos, a despeito do gênero, credo ou raça. Não podemos fazer distinções simplesmente por divisões históricas, ou dívidas sociais construídas pelo preconceito social, devemos promover é equalidade de qualquer forma. Irrestrita e geral. Direitos iguais para todos.

      A outra é sobre a questão do ódio. Ódio sim, porque muitos não sabem dosar o próprio ímpeto e estão se deixando levar por esse desvio de caráter. A militância não é lugar para ódio pessoal, tenha consciência disso, um revolucionário profissional sabe bem como utilizar o ódio de maneira racional, mas você não é um revolucionário profissional, você é um militante. Ódio por ódio, o mundo terminará cego. Odiar individualmente uma pessoa simplesmente por questões pessoais, de gênero ou socioeconômicas é uma questão de mediocridade inclusive e utilizar-se do suporte da ideologia para deslanchar uma desmoralização pessoal contra uma pessoa em específico é mostra de falha de conduta, afinal de contas, qual o ganho para a causa em trazer transtornos individuais para uma pessoa em particular quando é o todo que importa?

    Muitas vezes novamente é a cegueira que se toma, na postura agressiva de alguns, em deslanchar golpes individuais encarniçados de mediocridade desmedida.  Rotulações, xingamentos, insultos e toda a sorte de admoestações sem fundo prático, simplesmente pelo prazer da rapinagem, alguém que age dessa forma é sem dúvida um desmoralizador do movimento. O ódio é uma arma perigosa e deve ser controlada.


    Toda a ação impõe responsabilidades, toda. O ataque pessoal, o ataque físico, a irresponsabilidade é um dos maiores crimes que ocorrem ultimamente, a própria maldita temperança de agora resulta na tentativa irresponsável de desvencilhar das consequências futuras. Lembro-me de um caso, onde uma militante agrediu gratuitamente um policial simplesmente pelo prazer de desmoralizá-lo em frente aos seus companheiros, após insultá-lo, cuspir em seu rosto e admolestá-lo de inúmeras formas diferentes, durante um protesto em 2013, conta a Copa, ela passou a ser ameaçada fisicamente pelos companheiros de farda do policial. Com o risco de ser morta, a militante desapareceu, se escondendo inclusive dos colegas, sem ter norte de como sobreviver em seus dias. Quando ouvi essa história de um colega automaticamente falei: Irresponsabilidade. 

     Por que irresponsabilidade? Pois não mediu a situação-problema com cautela. O oficial estava ali a serviço, ele é um personagem do aparato repressivo do Estado (nossa, usei um conceito empoeirado do Louis Althusser), que está ali cobrindo um encargo profissional de conter a multidão, à contragosto, vide de passagem, com excesso de adrenalina no sangue e uma arma no coldre. O policial está sob tensão, vive sob tensão, e tem posse de arma. Agora nesses termos, acha sensato atacá-lo de frente dessa forma? Pior, humilhá-lo inclusive? Na frente da imprensa? Uma pessoa com porte de arma, logicamente não. 

     Ele está exercendo um encargo profissional, e segue estatutos da corporação, mas não sejamos levianos, essa ideia de soldado-cidadão nunca deu certo em nenhum lugar do mundo, "à noite, todos somos lobos na escuridão das sombras". É irresponsável agir dessa forma sem esperar consequências. Até eu escrevendo isso eu sofro uma série de riscos, imagina quem se propõe a agir desmedidamente?

    Nisso, tenha consciência de duas coisas: A militância não é um passeio no parque, envolve riscos e uma série de frustrações e perigos. Tem uma questão de autossacríficio que às vezes é bastante inconveniente. Não seja infantil em se envolver numa questão séria sem tem plena consciência de tudo o que está envolvido, não seja cego, em outras palavras, ou usando o próprio Lenin, num conceito escrito em "Como iludir o povo", não seja um "idiota útil".

     A outra, saiba o limite entre a mediação e o enfrentamento. E digo, isso porque é uma coisa que eu levei para a vida, existem questões que não são resolvidas apenas com a baioneta, mas às vezes com a conversa;  Sobretudo no que concerne ao mundo latino, onde sempre teve um histórico sangrento. A mediação, por vezes é muito mais desejosa.

     Mediar não é necessariamente peleguismo, às vezes é jogo de cintura, nisso eu discordo até do próprio Lenin na crítica a Karl Kautsky, mesmo os social-democratas alemães terem sido taxados de colaboracionistas e traidores da classe trabalhadora, não nos esqueçamos que a social-democracia foi vitoriosa em muitos pontos da classe laboral sobretudo na sua análise acertada pela mediação em muitas questões sinceramente espinhosas, sem tanta necessidade de derramamento de sangue como foi o caso do marxismo-leninismo. Pragmatismo de vez em quando é muito apetitoso.

     Vivemos em tempos de autoritarismo disfarçado, de mudanças sociais cada vez mais aceleradas e de questionamentos diretos à sociedade atual. As ideologias do passado vêm sendo repensadas e sabemos que entre a cegueira e a mediunidade o caminho ainda é longo, me preocupa ter desconhecimento do que será o futuro, mesmo conhecendo os erros do presente. A inteligência e a perspicácia podem salvar o pensamento de esquerda hoje se ele não se render a particularidades e praticar uma postura inteligente de compreender as demandas da sociedade atual. A tudo isso, sejamos sinceros, o mundo é progressista e a recepção do horizonte de expectativas sempre se altera e tudo que eu escrevi pode estar obsoleto logo que eu publicar. Paciência, esse é o admirável mundo novo a ser descoberto.

     

sábado, 9 de maio de 2015

O dia de meu nome

      Minha consciência prega-me novamente outra peça. Nessa madrugada que se arrasta perdi o meu amor próprio e o amor à minha própria cama. Eu estou imerso de ideias que não saem da minha cabeça e que me entristecem ao passar das horas. A solidão dos dias em claro meditando num canto fechado de casa sem ter ideias de como enfrentar a vida. Há algo de anormal nisso tudo? De fato eu não sei, sinto certa incapacidade de minha parte.


      O desânimo e a tristeza me tomam por completo. Nunca esperei chegar em tamanho estágio de impotência, fragilidade e medo. Sim, porque nós devemos sentir medo às vezes. As pessoas tem medo de ficarem sozinhas, medo de se sentirem inúteis, medo de se sentirem vulneráveis. Todos nós compartilhamos isso uma centena de vezes.

      Estranhamente é meu aniversário, mas é como se fosse um dia qualquer. Uma madrugada de sexta para sábado que realmente me amargura por dentro. A noite espessa, sem qualquer tipo de vínculos com meu corpo, acaba me adoecendo. Ligo o rádio e desejo um jazz tranquilo, e eis que ouço Louis Armstrong. Eu estou triste.


      Meditei todo o mês de abril sobre essa incapacidade emocional que surgiu em minha mente, e redescubro o zeitgeist do qual fui tomado há pelo um ano e meio atrás, quando realmente fui forçado a amadurecer mais cedo do que deveria. Naquela época os sonhos pareciam possíveis, as chaves de todas as portas e janelas estavam a um passo, mas novamente por uma estupidez de minha consciência tornei-me estranho à própria imagem refletida no espelho. Desde então aconteceu-me sucessões de contratempos, dos quais não desejo dissertar, mas descubro que não tenho mais objetivos já algum tempo e isso me é foco de sofrimento.

     Estou no limbo filosófico, estou amargurado pela lembrança de um passado que não me consola. De fato, eu já o ignoro, mas o futuro não me deixa de ser um conto de fadas.


      Hoje espero que esse dia passe, que as responsabilidades dêem um tempo e que eu tenha tempo para raciocinar tudo o que fiz. Minha honra continua inabalada a despeito das máculas com que a podridão humana se somam contra meu próprio nome, e não estou muito centrado em banalidades cotidianas, de fato. Assomam-se os inimigos em minha volta e estou tranquilo com minha estupidez diária em tornar-me cada vez mais eu.


     Não preciso da aprovação de pessoas estranhas, não preciso de elogios de pessoas falsas, nem busco o conforto em palavras ou ideologias insinceras. O ceticismo já me preenche, junto com o pragmatismo que me acostumei em abraçar, mas mesmo em meu ceticismo, desejo amar e viver como um ser humano normal, que possui seus próprios portos seguros em meio às tempestades do mar da vida. Isso é realmente impossível, principalmente com os padrões de comportamento atuais.

      Não há perseverança sem sofrimento. E imagino as virtudes dos sofrimentos com que as pessoas são inundadas, as dúvidas e dilemas. Quanto mais penso nisso, mais eu fico carregado de ideias. Não sou essencialmente a imagem de um pária para a humanidade, mas também não posso me pautar por prerrogativas de base moral arcaica, o dogmatismo é empobrecedor assim como as rotulações que hoje emanam como insultos aos meus ouvidos.


      A despeito disso, a despeito de ter sido tomado pelo ódio visceral com pessoas cuja estirpe realmente não me apetece durante os últimos meses, a despeito de ter vociferado críticas ferozes a ideologias caducas, de dilemas morais estúpidos e de religiões arcaicas após o limiar do novo século, mantenho ainda a minha consciência tranquila. O semblante abatido de hoje é fruto apenas do envelhecimento prematuro de uma consciência que um dia já foi juvenil. Pedantismos à parte, ignoro a imaturidade com que os indivíduos de minha idade encaram suas próprias vidas.



         Odeio pensar que perdi amigos nesse processo, porque de fato, fora tão fácil se afastarem de mim por desculpas fajutas, então não posso reconhecer-lhes laços de amizade. Mesmo distante de velhos amigos há coisa de cinco ou seis anos, lembro-me com muita felicidade dos momentos que passei junto daqueles a quem considerei muito. Os que hoje se afastam por infantilidades da própria mente são tomados pelo ignóbil desvio de caráter que é ser covarde. A justeza de minhas palavras pode soar ácida, mas ainda assim verdadeira.


          9 de maio. Maio, um mês bastante complicado. Eu penso muitas coisas quando vou envelhecendo, nos meus vícios mundanos, seja o tabaco e o álcool, os quais faço questão de ser bastante severo em minha autocrítica, mas também nos meus vícios emocionais, dos quais ainda não consegui conter. Um deles é sem dúvida um enorme calcanhar de Aquiles, ter empatia pelas pessoas próximas.

             Tolices à parte, eu imagino os erros que cometi que poderia ter evitado, afinal de contas se fui foco de sofrimentos a essas pessoas, peço desculpas, não sou um ser humano perfeito. Sou ainda frio e bastante calculista. Mas nem em toda a frieza me torna insensível às coisas que concernem meu coração, pois num filete de esperança que irrompe sobre o meu peito, imagino que as minhas paixões acaloradas e emotivas foram benéficas, embora tenham me conduzido a erros inimagináveis.

            A tudo isso imagino que pessoas estiveram do meu lado, conhecendo todas as minhas facetas e me tratando como semelhantes, essas pessoas realmente posso chamar de amigos. Mais do que isso, os laços de amizade são apenas uma centelha, um adjetivo banal utilizado após a popularização do Facebook, mas essas pessoas é como se tivessem laços de sangue, mesmo de forma virtual, comigo. Como se fossem irmãos e irmãs de minha própria consciência, essas pessoas são parte do que eu sou e da personalidade que se formou em torno de minha mente.


         Napoleão não é apenas Napoleão, mas a soma de todos os seus pares e semelhantes. Assim como César ou Alexandre. Essas pessoas nesse dia de meu nome merecem ser lembradas com enorme consideração. Embora tenha crises de consciência, elas ainda se mostraram fiéis mesmo em todos os aspectos difíceis.


           Inumano, talvez seja isso que descreva o epitáfio de minha consciência para algumas pessoas. Mas de fato, posso estar sendo mesmo.  E como reforço, não me importo. Eu tenho minhas ideias, tenho minhas paixões, meus erros e considerações, mas pelo menos eu sou livre enquanto as outras pessoas são presas em caixotes que elas realmente construíram para si mesmas. Não desejo nem mesmo pontuar o nome dessas criaturas ignóbeis que não deveriam ser relembradas num futuro próximo.


         Depois de meditar comigo mesmo, redescobri que apesar do zeitgeist, ainda sou eu mesmo que perdura dentro de mim mesmo. Que mantenho um fio de esperança na caramuça, na armadura que erigi para mim mesmo e que ainda estou tomado de romantismo para com a minha própria vida e o meu horizonte de expectativas. Descobrir o sorriso de uma criança, o calor de um beijo de uma pessoa amada, a sensação da vitória e mesmo a sensação da solidão melancólica. Isso que nos traz vida. Mesmo envelhecendo, mesmo tendo cabelos brancos antes do tempo, ainda sinto-me bastante jovem para dizer que eu amo uma desconhecida, cujos olhos grandes e escuros devoram-me como  a esfinge, cujos cabelos escuros e lábios de mel tomam minha consciência na distância de meros passos distantes, bem distantes de mim.


         Na minha febre melancólica de um mês finalmente tomo esse pensamento como um prêmio. Estive errado por muito tempo em considerar a presença de uma pessoa física como elemento importante da minha felicidade, quando na verdade a pessoa intelectual, teórica e construída de palavras e ideias é o elemento mais relevante para a minha existência hoje. E ela nem precisa gostar de mim, conhecer ou me desejar. Ela deve estar comigo sempre quando minha mente criar armadilhas a mim mesmo, essa criatura hipotética deve acompanhar a minha cabeça como um norte coerente para alguém que não tem religião ou fé.


          Esperança, agora entendo o que pode ser isso.   Maior presente que foi dado por Pandora à Humanidade. Felizmente. Não desejo galanteios, não desejo presentes, nem palavras charmosas em honra de meu nome, nesse dia de meu aniversário, só desejo o silêncio que me trouxe o maior dos presentes: Paz de espírito.

sábado, 28 de março de 2015

Nada a invejar

Preâmbulo

         Nada a invejar. Este artigo é apenas um pequeno ensaio sobre os sentimentos de um jovem que busca o admirável mundo novo ... Como a humanidade é bela! O admirável mundo novo, que tais pessoas nos trazem.

       Minha opção para escrever em português é apenas momentânea, nada acontecendo com minhas idéias sobre o idioma lusitano, mas eu tenho o compromisso de descrever as pequenas situações que ocorreram para mim e para as pessoas do que cercam minha pequena pessoa.

     O que aconteceu com a humanidade nesta época? Terríveis tempos. Eu só preciso saber, ou não? Não, eu não. Sentindo-se o passado é nada a invejar, por isso, como posso lembrar de coisas que não aconteceram para mim? Eu não sei, talvez eu tenha humildade para parar meus pensamentos quando tenho escrito, talvez a minha arrogância é apenas maior do que meus sentimentos tão refinados que uma poesia. Mas nada a invejar.

        Veja o futuro de um sistema operacional que nada tem controlado. O sistema de espírito.





...


         Esses eventos ocorreram na vida suburbana de uma metrópole. Grande, mas não  a maior. Pode ser Nova York, poderia ser Paris, Londres ou Munique. Mas não, isso ocorreu no sul, América do Sul, com precisão.



           20 h 30. Nada aconteceu de novo. Quando lembro todas as noites dos vazios das luzes amarelas que pincelam o asfalto negro, quando o vento martiriza nossos semblantes com um licor congelante em seu sopro, nada é mais do que uma simples miragem no deserto de concreto armado;

                Entrar em casa sempre é uma tarefa que exige um mínimo de esperteza. Não só porque a vida esteja tão cheias de segredos, sobretudo da porta para dentro, mas também os segredos muitas vezes enganam nossos olhos. Como disse, a noite estava arrastando-se e os olhos estavam voltados para o movimento da rua. Não havia ninguém. Pelo menos não achava.


            Cortada a injeção de adrenalina, espera-se que tudo se tranquilize quando se chega em casa. Quando gira-se a maçaneta dourada da porta de madeira e identifica-se a luz pelos vitrais amarelados. Quando se arrastam as dobradiças e se inaugura uma imersão a um novo ambiente que lhe é tão caro.

            O sofá azul marinho de tecido rústico, as cortinas em desenhos florais em verde-água. A parede nua de qualquer arte que não seja os afrescos dos cabidais de gesso no teto. A televisão sempre se torna mais convidativa, à entrada de uma casa, ela sempre reflete a alma de seus moradores. Outrora fora o rádio, e antes disso, a biblioteca; Pensar às vezes é difícil quando você se expõe ao toque negligente do vidro laminado a refletir seus próprios olhos numa porção convidativa de espelho.

               Na frente da televisão, somos todos iguais. Um velho provérbio dizia; Mas não, não era esse o caso. Colocou as chaves na mesinha contígua, um MDF barato que descascava com o tempo e foi pelo corredor no final da sala, estreito e frio, até uma das pilastras junto à escada; Dois quartos se entrelaçavam no caminho, e os cadeados estavam pendurados na parede. Saiu, saiu no frio. De fato , já era 20h 40. A noite continuava se arrastando.


           Passou pelo automóvel na garagem, um sedan qualquer, branco, que nunca fora muito potente. De fato nunca passara dos cem, mas era a sensação da garagem. Olhou para a parede de fora, com as cerâmicas verdes recentemente pintadas, a caixa de correio e a lixeira retráteis e pensou estar seguro num pequeno forte em um terra estrangeira. Fechou o portão com os três cadeados. Não esperava nada demais, e não houve.


          Preparou em um bule, um pouco de água fervente e esquentou a cuia de madeira com um pouco de erva-mate. Era um hábito gaúcho.  Incomum, mas ainda assim rotineiro. Despejou a água na erva e esperou inchar a erva. Da cozinha, passou para a área de serviço, a pequena biblioteca sem livros num quarto contíguo e subiu um escada em caracol; Uma escada de ferro branco, escovado, onde embaixo se escondiam uma bicicleta empenada e alguns caixotes de madeira.


           A escada fazia barulhos estranhos e tremia, a parede escondia uma textura que cortava os cotovelos, e o arrastar da pasta de couro atritava com as ferragens do corrimão. Retirou os sapatos junto ao final da escada e jogou-os junto a um hack onde ficava o rádio. O piso de cerâmica estava frio. Ligou a luz branca que povoava o cômodo e a parede azul começou a limpar sua mente. Cansaço, era o que sentia.


             Jogou a pasta para longe. Entrou num cômodo onde numa estranha sensação de pesar sentiu-se estranhamente confortável. Havia três estantes repletas de livros que envelheciam como vinho meio à poeira e os ácaros, dando um odor estranho de mofo com cravo da índia. Encontrou escrivaninha nova, aquisição recente, onde estavam depositados alguns papéis avulsos, a História de Roma, de Tito Lívio e o laptop preto entreaberto, do lado, conserva-se o conluio entre o antigo e o moderno. O computador de mão e a velha maquina de escrever com uma carta escrita ao meio. Aquele longo deslocamento era proposital.

          Na parede havia dois ou três quadros, todos impressionistas, um primeiro em perspectiva de uma avenida desconhecida de calçado pé-de-moleque, cheia de pinheiros em direção a um Arco do Triunfo. O segundo, uma paisagem floral ao redor de um rio de onde podiam se ver montanhas distante. E o terceiro, um retrato de uma moça morena, de cabelos negros, trajando uma camisa de gola que parecia ter um efeito especial na tela, embora estivesse encolhida atrás de uma das estantes.  Havia nessa estranha composição um arco e flecha indígena, meio retorcido e novamente bonito, que tinha um estranho efeito belicoso num cômodo tão artístico e de novo um relógio de areia que brandia o descontentamento e ansiedade quando nada mais parecia dar certo.



          Esse cômodo era escondido e fechado, só para si. Num espaço de reflexão, o rádio tocava uma música, mas o teclar das teclas era o que povoava sua mente. Difícil ser criativo hoje em dia quando tudo o que era genial já foi escrito. Entretanto era uma tarefa que se dedicava todos os dias, o nariz parecia estar pesado, tencionou cheirar um pouco de rapé. Mas eis que o celular vibrou na madeira da mesa. Aquilo foi um foco de desconcentração.


        Decidiu sair da cadeira, com a ideia resoluta na cabeça de que estava com fome. Seu estômago parecia inchado e depois, concluiu que precisava ir ao banheiro. A casa estava vazia nessa hora, e solitária. Confortável. O cômodo cheirava a um estranho cheiro de lavanda e urina, mas de todo não era agradável. À pia estavam alguns cremes para o cabelo, a pasta de dentes, o desodorante e um rolo de papel-higiênico. O cesto perto, do chuveiro, estava cheio e o vaso parecia ter sido polido recentemente. As paredes conservavam uma cerâmica cor de mármore que era bonita aos olhos e a pequena janelinha de metal no alto era a única fonte de ar daquele cômodo.

        Depois de dada a descarga, saiu da suíte. E olhou o corredor que crescia sobre os seus olhos, sentia uma fraqueza. Não era de fato fome ou queda de pressão, mas vontade de escrever.


        Voltou ao ateliê escondido e fechado. Entrou e lembrou-se que tinha que apresentar um projeto. Tinha prazo curto. Bem curto. Precisava de um orientador e sabia disso. O telefone tocou outra vez e serviu como arma de tortura. Era o Whatsapp, impossível trabalhar assim. Desceu. Foi para a parte de fora da casa, procurou espairecer as ideias e lembrou que tinha roupas no varal.


        Ventava, estava frio e úmido. Tocou uma roupa e ao notar que estava molhada, soltou um palavrão surdo. Chovia mais de uma semana e nenhuma roupa estava seca. Ia ficar sem roupas para sair. Isso foi frustante. Saiu e foi para a sala, onde tudo começou de novo. A tentação da televisão, o sofá de tecido rústico, a mesinha de MDF e as cortinas em temas florais.  Seu nariz atrapalhava, pesava, e percebeu que estava ficando doente.


         Quis se cobrir de mimos, edredons e remédios. Mas no fim, desistiu da ideia e foi para o ateliê. O celular continuava atrapalhando, tocava toda a hora. Em meio a trechos importantes, nada poderia ser escrito. A curiosidade surgiu com o que se passava, digitou a senha no teclado touchscreen e tudo o que viu foi: "KKKKK". Ah, não, não acreditava nisso. Quarenta minutos perdidos para nada.


       KKK. Ku Klux Klan? Pensou, só se for para me desconcentrar. Riu de sua piada sem graça e foi para o quarto descansar. O banheiro da suíte fedia, deu uma segunda descarga e aparentemente tudo melhorou. Fechou a suíte que se tornou hermética aos seus olhos. Ali estavam suas coisas pessoais, seus livros de cabeceira, alguns cadernos avulsos, alguns de seus filmes e a televisão que parecia cada vez mais convidativa. Olhou para o armário e quase não encontrou roupas, vociferou.


      Mesmo assim deitou na cama e olhou para o alto. Eram quase dez da noite. Seis da manhã teria que estar de pé de novo, teria que ir trabalhar. Que rotina! Procurou um livro para ler, deu uma olhada em três palavras e desistiu. Não tinha mais ânimo para isso, o cansaço apareceu. Mas isso nem lhe preocupava. Realmente olhar para o teto era uma sensação reveladora.


      Solidão. Esperança. Medo. Desejo. Sensações rotineiras, mas que às vezes circundam à mente. A noite estava escura e fria. Cada vez mais amarga e sem qualquer indício de animação. A televisão parecia cada vez mais convidativa, a luz vermelha que emanava por baixo de seu vidro risonho parecia hipnotizar a alma. E num lampejo de fraqueza desejou assistir televisão, desejou beber alguma coisa, ou chorar. Mas por quê? Será que o mundo só se traduzir a necessidades e desejos? Será que somos criaturas tão vis que nos rendemos ao nosso individualismo? A reflexão metafórica tomou sua consciência.

        E no fim desejou adormecer, mas eis que a insônia apareceu. As memórias do passado surgiram. Culpa, remorso. Medo. Solidão. A mente é um castelo de cartas, a casa é um castelo da mente. O corpo é uma fortaleza da alma. A alma é uma fortaleza da vida. Metáforas e mais metáforas. Dúvidas de coração vazio nem sempre respondem as grandes perguntas da vida.


      Sentiu vontade de comprar um gato, pelo menos para fazer companhia, mais eis que ela desistiu de qualquer uma dessas ideias, pois afinal. Era só mais um dia difícil numa cidade cosmopolita no meio do nada do sul da América do Sul.


       Ela. Porque teria que ser ela e não ele? Porque não importa o gênero nossos tempos são tão novos que as crescentes dúvidas não escolhem gênero, classe ou grupo social.
        

domingo, 1 de março de 2015

Um ano de cautela

           Devemos ter cuidado. Bastante cuidado. Nunca estivemos num momento tão delicado quanto agora, se antes batíamos no peito para falar do mundo, hoje devemos pensar em nós mesmos. O Brasil é um país complicado, não só porque é dividido nitidamente em classes sociais, mas também em regiões tão diferentes umas das outras e em ideologias conflitantes. O Brasil não tem uma identidade única e num momento de fissura é que as diferenças aparecem;



       Hoje a violência parece ser plausível dentro da política, tanto à esquerda ou à direita o discurso deixou de ser apenas de oposição para passar a ser um discurso de violência e ódio. Ambos os lados se digladiaram dessa forma em 2014 e o resultado foi uma das eleições mais sujas e funestas da História. Digo suja porque não confio na Justiça Eleitoral, com o seu sistema informatizado sujeito a falhas que continua sendo o mesmo desde 1998. Não pode dar comprovação do resultado, nem conferir recontagens. É absurdo chamar de golpismo um questionamento do resultado do pleito.



       Todos tem direito a fazer isso, sobretudo numa eleição tão apertada. Mas eis que entra a ditadura dos bacharéis, pois de fato é isso que é o Brasil público, um sistema complicado de legislações e tribunais tão corrupto em sua forma quanto à política. Os juízes se sentem deuses por passarem numa seleção de concurso público e acreditam realmente estar fora da sociedade, na verdade eles se enganam. Os tribunais é que hoje mandam na vida pública de todos nós, infelizmente.

       O Poder Executivo e a Presidência vem sendo questionados constantemente. De fato o país entrou numa recessão, quem não reconhece isso é cego. O governo Dilma perdeu apoio, não só de 48 % da população, mas também de sua base aliada ao fazer justamente o que tinha atacado nas eleições. Ela realmente fez o que era esperando, um estelionato eleitoral. Digo estelionato eleitoral, porque ela mexeu sim nos direitos sociais, ela retirou  50% das pensões de pessoas viúvas na terceira idade, impôs uma legislação mais dura contra o seguro-desemprego, num país onde o desemprego irá aumentar. Tudo por credibilidade econômica.


         O fato que o governo perdeu credibilidade. Investir no Brasil é investir num sonho que pode virar pesadelo. A credibilidade internacional se perdeu com as atitudes impensadas de um ministério da Fazenda que não olhou direito o cenário internacional. O preço das commodites baixou, a inflação subiu, a política de incentivos ao consumo resultou em endividamento, o poder de compra ganho em 2011 caiu brutalmente em 2014. O varejo não vende, a indústria fechou e estamos apenas sendo salvos pelo campo.


         O governo gasta demais e não faz poupança. Quando precisou ajustar o cambio que estava em alta as reservas não conseguiram segurar. O dólar disparou, e acredito que foi de propósito para estimular o mito da indústria nacional. A Indústria Nacional não existe, o capital é mundial. A maior irresponsabilidade foi ter construído estádios e promovido um evento que custou no mínimo 20 bilhões de dólares num cenário de incertezas. agora esse dinheiro faz muita falta.


        A Petrobrás sofreu um ataque especulativo. Isso não dá pra negar, sim, especulativo, mas verdadeiro. Sempre houve corrupção na Petrobrás, assim como houve corrupção no Banco do Brasil, na Caixa e ainda será descoberta no BNDES e outras estatais chave do governo. O problema que essa corrupção retirou toda a credibilidade da maior empresa brasileira justamente num momento de dificuldades, quando o preço do barril de Petróleo baixou, a Petrobrás fez investimentos com pouco retorno no exterior, a exploração do Pré-sal está em cheque.

       As nomeações políticas nas Estatais tiraram totalmente a credibilidade do governo, a falta de transparência em divulgar os balanços foi mortal. A Gerentona Dilma Rousseff  passou a ser vista como uma incompetente, por um Cerveró o país entrou em recessão.

        O governo FHC tinha corrupção, o governo Lula também,mas os escândalos de agora são motivo sim de indignação. Depois das manifestações de 2013 é quase um insulto ouvir todos os dias mais um novo escândalo da Petrobrás. É um tapa na cara da sociedade, considerando que a Petróleo Brasileiro S.A. é nossa. Essa empresa financia a cultura, o desenvolvimento em pesquisa e em ciência.

       Agora o que temos é isso, uma gasolina a R$ 3,45. Óleo Diesel a R$ 2,83. Quando o barril de petróleo está nas suas menores cotações da História, US$ 40,00 em média. É um absurdo da própria econômica brasileira. Quando estourou a greve dos caminhoneiros foi inevitável, o sistema viário parou. E a mistura foi óbvia, os transporte ferroviário foi negligenciado por quase quarenta anos, as rodovias foram priorizadas como forma de locomoção mais viável e ficamos dependentes dos hidrocarbonetos e das condições da estradas.

     Ter automóvel se tornou caro. As montadoras estão dando férias coletivas ou demitindo no ABC. Muitos brasileiros são obrigados a andar de transporte público, ou seja ônibus. Ônibus depende do diesel, a tarifa por consequência aumentou. A qualidade não. O transporte público é uma merda. Falo com todas as letras, não presta e o que é mais indignante, é insuficiente e de péssima qualidade. Demora e sujeito a engarrafamentos, o trem metropolitano poderia ser a solução senão tivesse sido feito na maioria das capitais apenas como objeto de enfeite.

    De fato a indignação da população /vai estourar. Principalmente quando começar a faltar energia, as usinas termelétricas estão funcionando acima da capacidade, a falta de planejamento nas barragens associada à seca no Centro-Sul ameaça novamente a economia, refém do tempo. A oportunidade de construção de novas fontes de energia foi de novo negligenciada, Angra 3 poderia ter sido completada nesses 12 anos, os parques eólicos e solares no Nordeste poderiam ter sido conectados ao sistema nacional. De fato foi falta de investimentos que nos pôs como reféns.

   Sendo a luz brasileira baseada em hidroelétricas, então diretamente se falta energia é porque falta água. Seca. E a falta de água não é só dependente da estiagem, havia planos alternativos, como tratamento do esgoto (que não é feito na metade do Brasil), investimentos em transposição dos rios (alguém lembra que o Rio São Francisco ainda está sofrendo obras de transposição?) e dessalinização e combate a desperdícios. Isso é alçada tanto dos governos locais como do Governo Federal.


      Economia, emprego, transporte, energia e água. Tudo isso fracassou. Mas ainda há outros aspectos que não são necessariamente da alçada do governo federal, mas contribuem para a crise: Educação e Saúde.

      Digo Educação por educação de Ensino Fundamental e Médio. O investimento em educação no Ensino Médio e Fundamental é terrivelmente constrangedor, os alunos vivem em função de um currículo defasado há quase trinta anos. No qual não há incentivos à prática docente em aula, não há segurança jurídica ao professor e tampouco há a real hipótese de formar além de alunos, cidadãos. Criamos apenas no melhor dos casos analfabetos funcionais.

      Analfabetos funcionais, sim, o Brasil ainda é um país de analfabetos. Pessoas que não conseguem interpretar um jornal, ou aproveitar as oportunidades. Uma legião de cidadãos economicamente ativos que não tem condições  para arriscar-se na livre-iniciativa porque não tem capacitação. Isso se traduz no ensino universitário, que também caiu em qualidade, devido à deficiências de ensino da Educação Média e Fundamental.

      Os professores universitários têm pouca disposição à renovação ou à reciclagem de ideias, criando assim futuros professores presos a modelos teóricos dos anos 70. O que é brutal porque o desenvolvimento à ciência se limita apenas a verdades pressupostas.

     A saúde acompanha ao mesmo tempo que dissocia-se da educação, a falta de médicos no interior é associada à falta de capacitação do ensino. Mas não só isso, os médicos são ensinados nas condições universitárias de maneira desvencilhada do humanismo, apenas reproduzem um modelo americano de obtenção de riquezas com a mercantilização da saúde.

      Entra então também as condições materiais dos hospítais, de fato, são horríveis. Faltam coisas básicas, como aspirina, gaze, antibióticos. Alguns estão defasados que a limpeza e sanitarização são precárias e fazem acumular-se os casos de infecções. Crianças morrem sem amparo, excesso de pacientes para poucos hospitais. Quando tem hospitais. 


     A iniciativa do Governo Federal pelo Mais Médicos passou de dúvida à necessidade, mas é um tapa na cara da medicina brasileira. Teve-se que importar médicos do exterior para conter um problema de saúde pública no interior do Brasil quando bate-se recordes nas aprovações dos médicos.


      Outras características que são de esfera social, atrapalham o governo: A falta de investibilidade do brasileiro e seu vício pelo estatismo. O Brasil é a pátria dos concursos, mas alguém deve lembrar que quem sustenta a balança é o sistema produtivo.

       Pois bem, os impostos impedem a reprodução esperada do capital. A burocracia atravanca investimentos, e os comerciantes e empresários não têm muita segurança nos investimentos quando há alterações diretas nas regras impostas do governo. As regras mudaram tantas vezes nesses últimos dois anos, que grandes empresários ficam desconfiados em investir. 

       Como a inflação e o endividamento crescem, dissociados na proporção do aumento de renda, o consumo sofreu uma retração absurda. O setor produtivo que nunca produziu as mil maravilhas, começou a parar. Os empregos vão parando junto, e vira uma bola de neve.  Os empresários preferem se tornar rentistas a investidores, de fato está sendo mais viável viver de aposentadorias, ações ou fundos de aplicações do que esperar uma melhora da economia. Esse é o maior problema, vai faltar capital produtivo quando a inflação só cresce.

      Para piorar, o Banco Central emitiu muito papel-moeda entre 2008 e 2011, o que aumentou a oferta de dinheiro e agora está produzindo um encilhamento da economia. A inflação e a queda do valor do Real também estão associadas a isso. 


      Observando essas características, digo, a situação está quase impossível de ser solucionada. Aí entra a ideologia. O governo nomeou Levy como ministro da Fazenda, numa tentativa de acalmar o mercado depois de algumas lambanças do Ministro Mantega no final do seu mandato. O problema que a ideologia do governo o impede de fazer as mudanças necessárias, Levy não é cepalino como metade do PT admite ser, ele é Chicago Boy, a formação dele é um tanto liberal, embora também tenha alguns elementos keynesianos. A questão é que ele não tem autonomia que lhe é esperado, e agora, isso é evento trágico.


      Não teremos capacidade de fazer um New Deal nem se quisermos. E afirmo, não vamos sair felizes nem tão cedo dessa crise. Se eu pensava em três anos, hoje penso em cinco, a crise brasileira começou e 2012-13 e só vai acabar quando tivermos sorte de mudar as perspectivas do futuro.

      Num país dividido, com cabos eleitorais de ambos os partidos se digladiando, com um Congresso que atrapalha as ações do Executivo (um Congresso bastante conservador, corrupto e inepto, veja-se de passagem) a experiência que teremos será apenas o que o governo Obama teve, uma crise institucional quando foi fazer reformas atravancadas pelos Republicanos. E de fato, o caso do Brasil é ainda pior, porque o Brasil tem flerte com o autoritarismo, o setor militar possui insatisfações muito claras, os empresários e o setor produtivo também e agora uma boa parcela da população também.


     Eu tenho medo do que pode acontecer com a Democracia daqui adiante, mas tenho medo mais ainda do que pode acontecer ao povo brasileiro. E não vou mentir, fiquei surpreso com o fato de Dilma ter sido reeleita, mesmo eu sendo de esquerda, confesso que me surpreendeu, o primeiro mandato de Dilma foi bastante frustante se é que podemos dizer que foi um mandato presidencial.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um homem chamado Leonard Nimoy

      Vivemos uma época tão trágica onde nossos ídolos morrem mais rápido do que os nossos próprios inimigos. Nossos sonhos desaparecem sob a penumbra da noite e sozinhos na escuridão tomamos consciência que o farol que devemos seguir não é a tela branca de um computador.


        Tratar de um ídolo sempre é uma experiência particular, principalmente quando tratamos com familiaridade, Esse é o caso de Leonard Nimoy. Hoje eu choro a morte de um amigo distante, o qual nunca vi pessoalmente. Nunca o olhei de perto e mesmo assim me  ensinou bem mais do que a erudição dos livros ou as pancadas da vida. Jornada nas Estrelas é uma religião e Spock era seu profeta. "I have been and always shall be, your friend... "


        Falar de Leonard Nimoy nos leva inconscientemente a falar do Senhor Spock. Mas Nimoy foi muito além de Jornada nas Estrelas. Ele é um exemplo do desafio de crescer num mundo repleto de medos e incertezas.   


          Leonard Nimoy nasceu numa família judia de Boston numa época em que os judeus começavam a ser perseguidos na Europa. Seu pai era um judeu ucraniano que fugiu da Revolução e se estabeleceu com muita dificuldade nos Estados Unidos, Nimoy vivenciou o preconceito e os anos difíceis da Depressão, até conseguir ser contratado como barbeiro quando adolescente. Serviu o Exército em 1953, e se inseriu no teatro e no cinema a partir da década de 50,


           Isso é a parte preliminar de uma carreira de ouro, quando criança ele ia à sinagoga com os seus pais e via os rituais chassidistas com particular curiosidade, como judeu asquenazim, era comum viver com rabinos de barbas longas e telefins pretos na cabeça.  Aos oito anos viu às escondidas uma benção estranha feita com a mão direita, na qual dois dedos se separavam do outro. Nem imaginava que isso  seria sua marca.

           Nimoy começou a fazer pontas em seriados importantes como Man of UNCLE, Get Smart e o piloto "The Cage", em que contracenou com o astro dos westerns Jeffrey Hunter, onde apareceu pela primeira vez o personagem Spock. The Cage é o piloto de Star Trek, e como disse Gene Roddenberry, era um filme de cowboys no Espaço, só que tinha uma temática muito intelectual para um seriado no início dos anos 60. 


           Foi a primeira vez que Nimoy usou suas orelhas de Metistofeles e a maquiagem verde. Um diretor de maquiagem da MGM foi quem lhe salvou ao fazer um molde de gesso de uma orelha de duende, caso contrário seria o fim prematuro de Spock. Spock era um personagem diferente dos demais, que a despeito de tudo, sorria.

        Mas Spock deixou de sorrir quando a série foi rejeitada. Ele e Gene Roddenberry construíram uma amizade sólida que reverberou quando foi contratado para uma viagem de cinco anos em Star Trek, onde contracenou com William Shatner, Deforrest Kelley e James Dohan. Se tornou um astro da televisão americana, e tentou seguir carreira de cantor com o sucesso da série. Mas a viagem foi cancelada depois de três anos.


             Teve problemas em lidar com o ego de Shatner inicialmente, assim como teve problemas com membros da própria tripulação da Enterprise. Nimoy reclamava do salário que era um "assassino", mas trabalhava num ambiente informal onde o seu filho o visitava no meio das cenas e aparecia para olhar o Senhor Spock na ponte de comando.


              Preso ao papel do vulcano Spock, ele passou a ter uma crise de identidade com o próprio personagem que o levou a escrever dois livros: I am not Spock (um fracasso editorial) e I am Spock. Com os filmes, passou a ter de novo a fama que lhe era merecida, onde fez sucesso com Star Trek: The Motion Picture e o espetacular The Wrath of Khan, com tamanho sucesso ele passou a dirigir o filme Star Trek: The Search for Spock. 



        Com o fim da série dos filmes e envelhecimento dos atores, era natural que Nimoy passasse apenas a fazer parte de convenções de Star Trek e alguns pontas na televisão, como foi no caso de Fringe. Ele estava mais dedicado em sair do cinema e  fazer trabalhos como fotografo, do qual nunca abriu mão. 


          Inovador e desvencilhado de preconceitos com as tecnologias, Leonard fazia desde comerciais até coisas elaboradas, como poemas, Mas o ponto alto de sua adaptabilidade  foi ser convidado para narrar o jogo Civilization IV e desempenhar um papel tão inusitado para os olhos dos fãs, mas crucial para o desenvolvimento de um jogo.


          O trabalho em Fringe lhe deu a chance de participar das refilmagens de Star Trek I e II com JJ Abrams, Deforest Kelley e James Dohan estavam mortos, enquanto Shatner estava envolvido com Boston Legal. Spock estava sozinho. Nimoy saiu de sua aposentadoria e passou a ser a ligação entre a série original e os remakes... 




             Seu envelhecimento e abatimento foram notáveis, principalmente com o passar dos anos. A saúde delicada provinha dos pulmões castigados por tanto tempo de gravações e cigarros tragados. Morou com  a esposa Suzan até os últimos dias e viveu longamente como todos os fãs esperavam. Nimoy era um homem diferente dos demais, assim como Spock. Ele era humano, demasiadamente humano. Humilde, sempre se ofereceu para dar autógrafos aos fãs sem qualquer tipo de cerimônia. Preocupava-se com alguns de seus fãs cuja saúde não estava boa e tentava seguir uma justa e judia. Vegetariano por opção. aberto a ideias, esse era Nimoy.


           Hoje morreu uma parte da minha juventude movida à aventuras, fantasias e emoções num futuro que não existiu, mas num passado que sempre me acompanhou, O exemplo de um ser mais humano que os próprios humanos, que nunca realmente existiu, mas se movia pela honra e a lógica. Nimoy era o verdadeiro Spock, embora ele negasse, porque a despeito da falsa lógica da dramaturgia construiu um personagem tão imortal e tão singelo apenas com a mera interpretação. Mas hoje Spock entra para a eternidade, graças ao gênio de Leonard Nimoy, Leonardo da Vinci da Califórnia.


        Spock é a humanidade dentro da modernidade e do mundo cada vez mais materialista que prossegue enrustida em sua humanidade, mas tem demonstrações diretas de emoções. Lealdade e honra, Spock sabe o valor da amizade o que o mundo contemporâneo destruiu e foi exemplo de construção de cidadãos que buscam um futuro melhor em meio à incerteza. Soluções rápidas, práticas e lógicas. Esse Spock tornou-se a raiz de uma filosofia de vida diferente das demais.


        Não é o culto à Razão Suprema de Robespierre, pelo contrário é o culto ao pacifismo, ao otimismo e ao progresso. Spock como desajustado socialmente representa um mundo de pessoas incapazes de expressar sentimentos, ou simplesmente sorrir, mas suas virtudes sempre foram levadas à sério.



         Nimoy fazendo ponta em Get Smart (Agente 86) https://www.youtube.com/watch?v=r_zowFvPgp8



       
         Nimoy como fotografo:
 



         Leonard Nimoy narrando Sid Meier's Civilization IV https://www.youtube.com/watch?v=XZlWmYe8HM4


Funny joke

         http://trekcore.com/specials/rare/ks_ultimatecomp.jpg


       
Lendo a MAD do outro lado da Galáxia




       
Momento no almoço



         Esse homem não tão distante de nós, que apenas com a representação de um personagem que nunca existiu e talvez nunca existirá no futuro trouxe um tanto mais de esperança num mundo tomado de medos e incertezas. Quando vozes se calam, outras se pronunciam. A ideia de Nimoy como uma pessoa notável na mesma proporção que a imortalidade de Spock. Um homem simples, demasiadamente humano. Esse era Leonard Nimoy.




                                                         Goodbye, mister Nimoy

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Nevoeiro

         A névoa espessa junta-se aos galhos cinzentos das bétulas, os caminhos cortados por roedores que se escondem atrás dos choupos acabam sendo bloqueados pelas árvores secas do inverno. Também pudera, naquele frio que fazia, pouco podia-se fazer senão meditar.


        Com o cachimbo trincado nos dentes, a fumaça do tabaco que aquecia nas brasas da madeira resfriava-se quando chegava à boca. Caminhava sinistro com o seu capote de pele, sujava suas botas de couro na neve e meditava cabisbaixo enquanto caminhava pelo bosque. A nascente congelada corria silenciosamente enquanto o vento batia em suas costas. O quepe pensou em voar, mas preguiçosamente mantinha-se em sua cabeça.


         Resfriado, com um pouco de remela nos olhos. Ele fumava, enquanto o fumo parecia se apagar com mais um sussurro gelado daquela tarde. Seu coração era frio e o rosto era fino. Pálido como Branca de Neve, aquele personagem tão banal nem parecia ser digno de nota... E ele não era.


          De fato, tivesse ele nome ou não. Aquilo em si não era importante. Não estava ali para pescar ou caçar, estava apenas envolvido pela meditação enquanto o tabaco apagava perto da boca. Era um homem diferente dos outros.


          Pensou em beber um pouco de vodka que escondia junto ao coldre, mas lembrou-se que ia conduzir. Aquele homem era estranhamente sinistro e se escondia como uma coruja à noite, seus olhos eram castanhos e oblíquos. Ele tinha um nariz pequeno.


          O coturno amassava os galhos secos nos chão e as botas cortavam a neve sem cerimônia. Ele sacou uma faca e roubou um talo de bétula de uma árvore. Estava tão frio que pensou em fazer lenha, mas era tolice fazer justamente ali. Estava cada vez mais frio, e irresponsável, bebericou um pouco de vodka.


         Estava agora aquecido, da garganta para baixo. Ele não se importava se estava sozinho ou não, no meio do nada esperando ser caçado como uma lebre numa competição. Ele portava apenas dois papéis e um pequeno revólver sem balas no coldre. Seria ele um bandido?

         De fato ele não era, era só um homem. Sem coração nem carisma. Não conquistava o amor das mulheres, nem a simpatia dos homens. Vivia sob ordens num mundo em que a desordem impera.


        Sentiu frio de novo.


        Agora não foi o vento, mas algo mais sinistro. Puxou o revólver junto à mão e o coração junto à garganta. Beijou o medo e saiu calmamente no branco do esquecimento. Uma bala cortou-lhe de frente.

        Sorte que ele não foi atingido e saiu correndo. Estava sozinho e sem qualquer tipo de segurança. Correu, foi com tudo em direção à moto onde tinha estacionado. As ordens eram importantes e quantos anos ele tinha? Vinte? Como são inconsequentes os jovens de vinte anos! Será que eles amam de verdade? Ou apenas enganavam as moças das aldeias do interior.


         Mas Dmitri Sebastopov era um homem pouco maduro para a vida, mas muito maduro para o mundo. Ele sabia quando haveria sol ou não, ou quando ia viver e morrer. Ele sentiu o cheiro de sangue. Correu, disparou e acabou encontrando de frente...

         Era um cervo que caía agonizando na sua frente. Estava deitado sem esperanças, ele sangrava e tinha calafrios tão intensos por causa do frio que parecia estar tendo convulsões. Dmitri sentiu pena pelo animal e até pensou num tiro de misericórdia, mas sua pistola estava sem balas. O do oponente não.


          Correu, mais rápido que seus pés; mais longe do que sua cabeça; E mais ridículo do que o seu corpo. Saltou de uniforme e tudo na trincheira, sua farda ficou branca  e ele se escondeu no frio. Tinha perdido o seu cachimbo e estava sendo caçado. Teria tempo para ter uma morte honrosa e beber vodka? Pensou que não.


        Nunca mais veria Yulia cujos lábios de menina comiam os seus olhos durante a chuva, e seus olhos enganavam sua mente quando estava quente. Ele engasgava algumas palavras enquanto era caçado naquele bosque perdido. O nevoeiro não desaparecia, o coração batia forte e sentiu medo de urinar nas calças. Sem arma e com ordens oficiais. Presa fácil.


       Não sei se ele lembrou do cervo, mas sei que ele caiu. Caiu de costas no chão. Os olhos ainda olhavam para o nada e imaginou ter ouvido coisas. O frio entrou pelo colete e o ferimento fez de tudo para não congelar, o sangue jorrava no chão com extrema cautela. Tossiu.


         Pensou ter visto alguém se aproximar... Não sabia quem. Um casal talvez. Um homem e uma mulher. Tinha certeza mesmo à distância.  Sorriam ao todo, estranho.

         Ele estava morto? Não, era Yulia. E quem era o outro? Piscou os olhos e no próximo segundo seus olhos ficaram sem vida enquanto olhavam o céu. Estava nublado e frio. Como são todos os invernos em Veliky Novgorod.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Reflexões

       Não espero encontrar sua foto essa noite, nem fitar o seu sorriso tão mal encaminhado que me perdi no meio dessas palavras. O verso com que escrevo está carregado de tinta e de remorso, não me fite com esses olhos sinceros, a reprovação do tempo será minha maior pena. 

       Hoje é um dia como outro qualquer onde a inspiração não se esconde por trás de meu ouvido, nem minhas mãos conversam direito com a pena da caneta. Já faz tempo que não escrevo, e sem remoço digo isso. Viver de pena é um vida violenta, mas mais violento é esperar bater o meu coração junto ao peito. O meu desaparecimento é causal, mas o seu esquecimento não. Ele é deliberado.

       Deixei meus cabelos crescerem por descaso, a palidez de minha pele se tornar cada vez mais doentia e os tremores da solidão serem boas companhias nas noites cada vez mais frias. Até você deveria saber que não há nada normal em ficar calado por tanto tempo, mas o silêncio é um anúncio da revelação. O futuro sempre me assustou, mas hoje só é uma lacuna triste num caderno ainda vazio.


       O relógio marca ponteiros, troca os minutos a cada instante e sem querer não vejo outra atividade tão carregada de ócio do que escrever palavrinhas pequenas no meio desse caderno esquecido pelo tempo, manchado de lágrimas e gotas de vinho argentino.


        Caminhei procurando respostas que no fim descobri que estavam em mim mesmo, e em minha comedida autopiedade eu esperei em silêncio tornar-me tão capaz de exercer meu suplício com o calvário de um dia após o outro. Não fugi da responsabilidade, nem adulei os caminhos mais fáceis e corrompidos da mediocridade humana; Acaso eu me perdi? Penso que só na minha própria consciência.

       Mas as memórias que guardo hoje me colocam no seguinte pedestal de que as pessoas são meras esculturas de isopor, caricaturas de personagens de livros esquecidos no fundo dos sebos, e de formas tão confusas que não entendem a si mesmas.Só se preocupam com prazeres mundanos, como a luxúria, o desejo, e a ganância quando na verdade tudo o que procuram é uma falsa segurança; Inseguras consigo mesmas, elas tendem a ser cada vez mais medíocres e esquecem que a verdadeira essência das coisas não está simplesmente em promessas mal concebidas, mas em pequenas coisas da vida.

       Não à toa que cada dia mais, elas se tornam cada vez mais estranhas a si mesmas. E na verdade é consequência natural esperar a desumanização das pessoas comuns, tão naufragadas em ilhas de desejo e sofrimento. O resultado é que a insustentável leveza do ser é realmente insustentável pela natureza com que é criada; Somos apenas animais consumidos pelo banal desejo por coisas materiais, e as faculdades mentais e emocionais de cada um de nós são reféns desse pensamento tão carregado de falta de sentido.


         De fato tome como insensível caso não a olhe nos olhos, mas não desejo lembrar o meu passado ridículo e infantil. Fui refém de meus desejos por muito tempo, desejos esses que eram um tanto incomuns. Apenas sonhos de uma vida calma, num lugar afastado, fazendo o que eu gosto. De fato, nem todos temos essa sorte;

           O que é verdade, é que há entrementes uma sexualização cada vez maior dos nossos desejos, uma alienação por nossos impulsos, e quando chegamos a desejar apenas um corpo descaracterizado de sentido, voltamos a face animal dos nossos instintos. A arte não pode viver num mundo tão saturado de projeções carnais, quando na verdade ela se alimentava de emoções. As emoções sinceras estão por certo em extinção bem antes que tenham sido catalogadas como uma espécie realmente existente.

         O medo e o desejo, as duas maiores falhas de nossos novos tempos.

         Eu não queria ensaiar uma filosofia, mas quando vejo fotos esquecidas no tempo, fico desorientado a tal forma que fico refém de meus pensamentos e me ponho a escrever; Escrever e refletir de como mundana é a existência de várias pessoas que não conheceram realmente a si mesmas, perdidas num marasmo de ignorância e impotência. É arrogância minha escrivinhar a essa hora da noite sobre questões tão empiricamente pouco comprováveis? É possível, de fato, é até aceitável a recusa pelo que acabo de pensar, mas como disse todo o esquecimento é deliberado.

         Mas tento esquecer das esculturas de isopor, os cidadãos de papel, que foram o meu referencial por anos a fio, quando na verdade nem eu, nem eles, somos senhores de nós mesmos e sobretudo de nossos sonhos e desejos. O meu maior remorso foi não ter compreendido isso tempos atrás.

A porta

No dia em que os sussurros da madrugada
Forem tão fortes que arrebentem as batentes
Da porta, saberei que bem longe dali
Estarão meus parentes
Muito longe, falando mal de mim


A noite se pronuncia com ventos cada vez mais fortes
A ousadia é tão duvidosa que sozinha
Abre a porta e deixa o vento passar

As cortinas voam, os papeis também
tudo o que espero é sempre
ter cuidado com o vento
Ciumento, às duas da madrugada

sábado, 17 de janeiro de 2015

Batuque

          A agulha da vitrola tocava solitária num canto da sala enquanto o vento entrava pela janela. Chovia;  As pequenas gotículas de água que batiam na telha produziam um ruído que parecia ser um arranhado do vinil. A água começou a entrar no vestíbulo à medida que o vento se tornava cada vez mais impaciente por não ter sido convidado.

        O piso de madeira estava todo molhado e os quadros na parede eram volta e meia iluminados pelo trovão, era assustador ver que o relógio de pêndulo continuava a girar as horas a despeito do clima fantasmagórico que se abria no velho casarão. A casa de cômodos finos e refinados era uma preciosidade, no alto de um morro bem desenhado pela chuva e pela ação da natureza tinha uma arquitetura meio alemã-meio suíça que seduzia a todos pelo o olhar. Era a casa de muitos sonhos e vários pesadelos.

      A escada de madeira tinha apenas um degrau para cada pé, e isso era meio inusitado, mas era logo esquecido por qualquer visitante ao vislumbrar o belo jardim recheado de tulipas, rosas e alguns vasos de violeta. À noite ficava cada vez mais bonito visitar aquele lote quando se iluminavam as flores com aqueles vagalumes elétricos desenhados a muito tempo pelo arquiteto. A vitrola continua tocando o batuque, solitária, num canto da sala.

       O relógio badalava as horas, 11 e meia da noite, os donos não estavam em casa. Ninguém saberia quando iam voltar, mas o mais estranho era que a despeito de a mobília estar coberta de panos e poeira; a vitrola continuava a tocar a sinfonia. Um esganido de um roedor, bem fraco, mas não menos apavorador surgiu na lareira, coberta de fuligem e cinzas. O chapéu panamá depositado no prego junto à porta se desprendeu com a ação do vento e num momento nostálgico voou para cima do piano, onde descansa uma partitura envelhecida pelo tempo; O piano começou a tocar outro batuque.

       De repente a casa virou uma grande sinfonia, a água das telhas tocava ao fundo enquanto o piano acompanhava o doce som do vinil sendo arranhado pela agulha da vitrola, os trovões tão triunfantes serviam de estampidos de percussão e a euforia dos livros adormecidos criou vida. A canção sem melodia tocava sem nenhuma hesitação com a ausência dos donos naquela noite chuvosa de sábado. E a música beijou sob as cortinas o vento forasteiro que adentrava na casa.

      O casaco do dono da casa agora balançava, embora fosse impermeável não impediu que o chão se empapasse de água pela a abertura escancarada da janela. No alto da escada uma vela pendia no quarto que fracamente iluminado escondia a modéstia do passado; Uma cama de ferro com um colchão de penas talhava a aparência espartana de um cômodo sem rádio ou televisão.  Não havia computadores ou internet e o telefone ainda era de fio, os donos eram humildes, mas se davam a um luxo de terem banho quente ao menos;

      A sinfonia dos galanteios da chuva continuava para a alegria de um desavisado, o piano passou a tomar conotações mais caóticas em suas teclas e quando por fim parou de tocar, um rato saiu de dentro de sua armadura, as gotas de chuva continuava a cair sobre o telhado de barro, mas mais fracas. Apenas a vitrola continuava a tocar, solitária, num canto da sala enquanto o vento adentrava pela janela sem ser convidado.

    Uma sinfonia tão leve e tão sublime era a coisa mais bela a se ouvir naquela avançada noite de sábado, quando a caneta tinteiro com a ponta descoberta sobre a escrivaninha apontava para um emaranhado de papéis, projetos esquecidos e já gastos pelo tempo. Sem se dar conta, numa certa altura, a vitrola deixou de tocar sem qualquer cerimônia deixando a noite cada vez mais fria e ignóbil. A casa ficou sozinha de novo e essa ausência se tornou tenebrosa enquanto os relâmpagos continuavam a cair, agora distantes do  casarão na Rua do Encanto.

     As cortinas pararam de se mover e a sinfonia parou de tocar, tudo o que ficou foi o silêncio da ausência. Um retrato triste feito em nanquim sobre o papel amarelado pelo tempo pendia tristemente no chão, ainda ensopado pela água. Esse soberbo gênio de formas atléticas, de grave perfil, que mantém abertas nas amarras dos braços as suas asas, rudemente empunhadas como dois escudos, simboliza nobremente a grande do pequeno grande homem simples, ágil e risonho, que era o dono da casa. Um presente de um amigo distante que o tempo não custou a separá-los.
      

      Na parede em um dos quadros estava o retrato mais filedigno do dono daquele casarão, vestido com um casaco e com uma calça muito curta sempre arregaçada, coberto com chapéu mole cujos bordos estão em contrapartida sempre rebatidos, ele nada tem de monumental. O que o distingue é o gosto pela simplificação, das formas geométricas, e tudo no seu aspecto denota este caráter. Tem paixão pelos instrumentos de precisão. 

      Sobre a sua mesa de trabalho estão instaladas pequenas máquinas de precisão, verdadeiras jóias da mecânica, que não lhe servem para nada e estão lá somente para o prazer de tê-las como bibelôs. Ali se vê, ao lado de um barômetro e de um microscópio do último modelo, um cronômetro de marinha, na sua caixa de mogno. Até mesmo no terraço de sua casa ergue-se um esplêndido telescópio, com o qual ele se dá à fantasia de inspecionar o céu. Tem horror a toda complicação, a toda a cerimônia, a todo fausto. Assim, que rude e deliciosa provação para a sua modéstia, esta inauguração! Esse homem era Santos Dumont.

      Ali estavam o seu piano, o seu barômetro e a sua amada vitrola que não cansava de ouvir nas noite solitárias no alto do altiplano celeste de Petrópolis. A música que ele mais gostava era difícil dizer, mas nesse dia tocava uma obra lindamente arranjada de Alberto Nepomuceno, o  magnífico compositor cearense, Batuque da série a Brasileira, com a assinatura do próprio Nepomuceno no verso. Aquela casa carregada de lembranças não escondia a insatisfação de não ter o retorno de seu ilustre dono, abandonado pelo esquecimento na morada de sua morte amargurada.


       Memórias de anos que já se perderam na memória do esquecimento.


                                                        Batuque, de Alberto Nepomuceno


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Por uma nova economia

       A opção da sociedade brasileira é a consolidação de um padrão de vida inspirado no  modelo social-democrata de desenvolvimento. A consolidação de um estado de bem estar social  exige uma acumulação de capital  respectiva aos gastos de uma democracia social ao estilo nórdico. Para a construção dessa acumulação de riquezas, as apostas no mundo exigem uma especialização do capital humano existente.

        O Brasil está na retaguarda, é um país modernamente arcaico. Onde há disparidades graves entre a periferia e o centro econômico, o acentuamento das dificuldades operacionais do sistema capitalista e de reprodução do capital interno levam a uma concentração da renda em determinados grupos da sociedade nacional. Essa tendência mundial da concentração do capital é cada vez mais abissal no Brasil que ignora a legitimação econômica de seu modelo de desenvolvimento.


       O modelo cepalino é o grande responsável para fracasso assistido de 2013 até hoje, a retração e a estagflação se somam ao alto endividamento da família brasileira. Isso é resultado da aposta do governo em supervalorizar o salário mínimo e a capacidade do mercado interno em superar uma crise endêmica do capital. A questão é que o salário em si não consegue sozinho consolidar a riqueza brasileira, de fato, ele vem sendo corroído pela inflação e os juros que estouraram na virada de 2014.


        O estado interventor é aceitável por um curto período de tempo, quando a UTI econômica que leva a associações econômicas e grandes especuladores atacam a soberania da moeda nacional, ameaçando a estabilidade social de um país. Os altos gastos da União associados aos crescentes apelos irresponsáveis de prefeitos e governadores por mais verbas ameaçaram a estabilidade do futuro  do Tesouro Nacional, agora atolado em dívidas, O BNDES gastou um dinheiro que não foi devidamente devolvido em investimentos nas empresas nacionais, e os grandes conglomerados agro-industriais acabaram sendo a única esperança no meio da bancarrota nacional.  Mas o campo produz riquezas, mas não produz ouro.

        Ficamos dependentes do velho modo produtivo relegado à América Latina, a exportação de matérias-primas e commodites, a instabilidade das bolsas e o aumento da oferta internacional de alimentos acabaram desabando o preço do nosso maior produto de exportação: a soja. O ferro, dependente do aquecimento da economia chinesa, desabou de preço; assim como aconteceu com o minério de cobre chileno. Só que o Chile conseguiu contornar a sua crise tornando-se fiador de austeridades intragáveis ao seu povo.

       Austeridade é uma palavra bonita para apertar o cinto, e fomos obrigados a fazer muito mais do que isso. Vendemos a fivela e o fecho do cinto, agora só falta a tira de couro e a calça. Vivemos um mundo dinâmico, onde não há espaço para lamentações. Mas não temos ações a curto prazo que possamos fazer.

       Nikolai Tikhonov ao escrever os Desafios da Economia da União Soviética em 1988 acreditava que o regime soviético iria se manter com as reformas de Mikhail Gorbachiov e a política de valorização de salários promovida desde Kruschiov em diante, contudo a crise produtiva soviética era bem mais grave, não só por causa da falência produtiva dos soviéticos no campo, que trouxe o fantasma da fome, mas também a falta de qualidade e investimento na industria soviética. O resultado foi grave e a Rússia não se recuperou, tornando-se vulnerável às ações do capitalismo internacional.


      A desindustrialização do parque industrial brasileiro é uma tendência que assistimos desde o governo de Collor de Mello e que se acentuou com o passar dos anos, essa tendência de retirar da indústria o papel transformador de uma sociedade é assisitida em outros lugares do  mundo. Não há mais espaço para a indústria\ pesada senão a China, apenas um país que considera o padrão de vida do trabalhador um fator secundário pode admitir uma indústria de transformação como pilar da economia. Apenas a indústria criativa e tecnológica podem salvar o Brasil de sua desindustrialização,e temos concorrentes bem mais fortes, com tradição forte na informática\, nas ciências de informação, softwares e aeroespacial. 

     O protecionismo cepalino nos atrasou de modo que não confiamos numa indústria de tecnologia nacional, as políticas de incentivo governamentais são uma franca piada política, e o apoio ao desenvolvimento tecnológico não acompanha o desenvolvimento de laboratórios, plantas de produção e tampouco os impostos ajudam somados aos juros altos ao desenvolvimento de novos empreendimentos criativos.


       Apenas o consumo não consegue segurar um país, embora com muito sacrifício tenhamos conseguido uma política de valorização do salário e uma cota reduzida do desemprego, isso será provisório se a crise que enfrentamos se arrastar por mais alguns anos. E a economia fraca desestabiliza novas democracias.

        A inflação, a falta de investimentos dos empresários, a população que utiliza o crédito como uma forma desenfreada de obter renda. Essas são origens de uma catástrofe. E cego somos nós que não agimos como deveríamos, que assistimos a tudo isso insólitos e curiosos como se fosse um descarrilhamento de um trem. A recuperação será dura e temos que  estar preparados para isso.

         Mas como recuperar-nos do tombo galopante desse ano de 2014? Onde a irresponsabilidade e arrogância parecem ter vencido o medo do fracasso. Ao sediarmos uma irresponsável festa no meio de ano, o final foi azedo e bastante ignorante. Ficamos sem dinheiro na carteira e os empregos cada vez mais ameaçados. Os mercados ficaram cada vez mais indecisos e sofremos com a indecisão do mercado no dia a dia.  A Petrobrás sempre teve corrupção, inocente é quem afirma que desde 1952 até hoje uma empresa estatal que produzia tantos dividendos com o monopólio de hidrocarbonetos num país como o Brasil não tivesse sofrido anos de especulação e corrupção. O ataque contra a Petroleo Brasileiro SA é um ataque especulativo, que associado ao desânimo da economia brasileira, um governo economicamente pífio e a instabilidade internacional levou à parcimônia crise da Petrobrás.

        O caso que o óleo do Presal não deverá ser explorado em 2018 como se acreditava, talvez nem em 2022. Será economicamente inviável explorar as profundezas do Campo de Libra considerando à baixa cotação do petróleo. E a baixa cotação do petróleo não se deve por exemplo à exploração do óleo de xisto americano, que está caminhando ainda devagar, mas ao ataque do mercado aos grandes conglomerados industriais fornecedores de óleo: Como Venezuela e Rússia. Eleitos como dois países mal-gratos da economia internacional, o grau de integração dessas duas economias sempre foi ruim, mas piorou por políticas erradas em períodos delicados.

        A instabilidade da crise do bolívar aumentou com a crise sucessória de Hugo Chavez e da inflação absurda que estourou na Venezuela bolivariana, os anos de hostilidade da política venezuelana aos interesses norte-americanos acabaram colocando a Venezuela numa condição frágil no mercado internacional.A sua proatividade em auxiliar o regime cubano a não chegar no caos econômico também levou recursos prioritários para a sua manutenção econômica que deveria ser imposta com a injeção de doláres e renegociação da dívida externa a partir do Banco Central autônomo a interesses políticos. Não foi feito, e a Venezuela virou alvo de ataque internacional e especulativo devido sua própria irresponsabilidade em não honrar compromissos. Capitalismo não é uma profissão honrada, mas valoriza a honra como maior virtude.

         /Quanto à Rússia, o plano geopolítico em estrangular economicamente esse país euroasiano e submetê-lo à vontade ocidental vem sendo aplicado desde a queda da URSS em 1991, quando o país passou por duas recessões graves e uma perda grave de seu padrão de vida e sofreu com uma forte desindustrialização devido à sua falta de renovação durante a época de Brejnev. A industria russa ainda é obsoleta quando comparada à da Europa Ocidental e uma plutocracia tomou o país durante o regime de Yeltsin onde magnatas se empossaram das mais importantes companhias petrolíferas, de exploração de minérios, transportes e gás. Esses magnatas ganharam milhões.

         Aliados com os interesses do governo construíram uma Nova Rússia capitalista e associada com a geopolítica de combate ao terror da Era Bush e a dependência energética do Eurocontinente e sobretudo da Alemanha. Mas conforme os anos passam e a diplomacia americana muda conforme seus designios, os democratas começaram a incentivar a intervenção americana em locais diferentes do globo, sobretudo no Oriente Médio, onde houve um choque de interesses entre russos e americanos na Síria. Os americanos levaram muito a sério essa quebra na aliança tácita desenvolvida entre Washington e Moscou.

          O acordo feito entre Reagan e Gorbachiov para que a OTAN não se aproveitasse da fragilidade do regime soviético e intervisse sobre sua "esfera de influência" acabou erodindo quando houve a crise ucraniana; O povo ucraniano decidiu que o governo instalado constitucionalmente pró-Rússia estava tomando decisões erradas ao impor um atrelamento da economia ucraniana a uma "nova URSS" que de fato não apareceu.

         Os russos apareceram com uma proposta de linha de crédito e de parcelamento da dívida ucraniana mais tentadora do que a da União Europeia, que anunciava um programa de austeridade grave que afetaria os próprios ucranianos. Entretanto, o desejo do povo ucraniano se dividiu, alguns optaram por ter um padrão de vida da União Europeia fossem quaisquer consequências, enquanto outros viam como uma traição se submeter aos desígnios europeus sabendo o choque de realidade. A questão que o país entrou em guerra civil e a Rússia interviu por razões estratégicas na Crimeia.

       Essa intervenção deixou os ocidentais furiosos, e como aprenderam na velha doutrina Thatcher-Reagan, uma guerra com a Rússia é impossível e contraproducente, mas é possível estrangulá-la economicamente conforme sanções econômicas em áreas prioritárias. O ataque internacional contra a Rússia, a ação do capital especulativo e a desvalorização do barril do petróleo levaram à crise do rublo que indiretamente afetou também  outros países em desenvolvimento dependentes de commodites. Caso do Brasil.

      O Brasil sofre hoje de várias coisas, de políticas econômicas equivocadas, da fragilidade econômica do Mercosul e sobretudo da Argentina que está prestes a quebrar em virtude de outras crises fiscais e de irresponsabilidade do governo e do capital externo; Da economia venezuelana enfraquecida que impacta a economia brasileira e da desvalorização do barril de petróleo em virtude das ações contra a Rússia. Sem falar do fim  do milagre econômico através do atrelamento da economia brasileira ao modelo de desenvolvimento chinês e a nossa dependência da economia do Eurocontinente enquanto os Estados Unidos ressurgem de forma milagrosa depois da maior crise desde 1929.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...