quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Crônicas de uma velhice prematura

       Meus dedos enrugam, meus olhos se cegam e a chuva caí sobre meu rosto. O rosto envelhecido e sem vontade, tomado de rugas e de falta de consolo. Espero no frio um pouco de acalanto um pouco menos de tristeza, mas quando volto à casa de meu pai tudo que sinto é um misto de saudade envelhecida numa mente bolorenta de ideias. O casarão envelheceu tanto quanto eu e as janelas de ferro enferrujaram como as memórias da minha juventude.


       Nunca trocamos muitas palavras, eu e meu pai passamos anos brigando, mas no fim o que mais conseguíamos era nos respeita. Naquela época eu tinha sonhos, meu pai, a realidade. Um dia apertamos as mãos e começamos a conversar. Antes tarde do que nunca, hoje eu percebo. Na época era tão imaturo que me julgava poderoso em meu pedestal de livros fracos.

     

         Queria ter mais momentos de reflexão como esse, sem que precisasse fumar um tanto de tabaco na madeira de meu cachimbo trincado nos dentes. Meu pai não sabia que fumava escondido e me bateria se soubesse. Ele era uma pessoa risonha que raramente chorava... só o vi chorar uma vez, quando viu que iria me perder. Meu velho pai já de cabeça branca não tinha mais esperanças em suas mãos, não tinha olhos senão para o passado e o coração amargurado de tamanha tristeza.

        Quando arrumei minhas malas, vesti minha jaqueta e calcei os meus sapatos. Ele veio e me abraçou, não disse nada. Não me perguntou como costumava fazer em todo início de mês se eu tinha dinheiro suficiente, ou se andava almoçando. Não, ele sabia que era o nosso último dia. Nossos futuros eram diferentes, o lugar dele era ali, com o seu emprego e ao lado de minha mãe. E meu lugar era justamente o contrário, o mundo e ninguém ao meu lado.

         Ele nunca compreendeu o lado anárquico de minha pessoa e eu nunca quis me justificar tentando explicar. Eu descobri a verdade no mundo sem descobrir a mim mesmo e tomado pelo espírito nômade de meus pés, eu vaguei por onde nunca imaginei até o sangue se transformar em vinho que a terra bebericou com a chuva.

         Foi ao mesmo tempo belo e doloroso saber como tudo acabou. A tristeza com que meu pai esperou os seus últimos dias afundado numa cama esperando pelo filho que não retornava, desejando vê-lo mesmo sabendo que estava no outro lado do mundo. Ele me esperou sem saber que eu tinha desaparecido com a minha força de vontade.

        Vaguei sozinho por anos, levei nas costas os grilhões de vidas passadas e aprendi o que era a humildade. Meu pai que esperou tanto percebeu que seu filho só chegava atrasado e quando descansou, eu estava olhando o céu sozinho sob as montanhas de um lugar desconhecido. Um vento gelado cortou o meu coração e gelei com tudo isso, desci as montanhas corri para onde os meus pés me levavam até que o cansaço tomasse o meu corpo por completo e ainda assim não cheguei em casa.

          Quando cheguei a memória de meu pai tinha partido, ele que nunca usava gravata, estava vestido com uma bastante extravagante em seu paletó de madeira no púlpito em que poucas pessoas pronunciavam o seu nome. Minha mãe e eu não dirigimos uma só palavra, como previsto, nenhum de nós dois se perdoava, enquanto meu pai, cansado por toda uma vida, finalmente descansou. Eu beijei suas mãos e me inclinei para que visse meus olhos.

          O corpo dele estava gelado, suas mãos morenas engasgavam a rosa depositada no caixão. Eu me perguntei se tinha sido ele ou eu que tinha partido. Até hoje não sei qual era a resposta. A minha juventude se foi, o cabelo sempre tão rebelde passou a ser penteado e passei a vestir terno. Com a pasta nas mãos, abandonei meus sonhos e batalhei por dias e dias lembrando da tristeza de meu pai.

           Eu não lembro de ter chorado desde o dia que ele partiu, mas quando encontrei o velho sobrado ainda preservado, desabei. Não tive coragem de vendê-lo, aquele casarão era o maior sonho de meu finado pai e era a mostra de amor que ele tinha conosco. Eu ainda lembro do dia que ele apareceu sorridente com as plantas do escritório de arquitetura e me pediu para escolher um dos desenhos. O desenho que eu escolhi nem era o mais bonito, mas foi o que construíram.

      Todo o suor gasto para lembrar das lágrimas que nunca tive. Meu pai viveu nessa casa, eu nunca. Minha velhice enrugada esperava um sinal de conforto que nunca tive, porque nunca tive nada para ser reconfortado. Nunca me faltou nada, nem amor, nem tristeza. O relógio de meu pulso tomava meus ouvidos enquanto a chuva caía sobre o meu casaco, os velhos fantasmas sorriam para mim sem que me lembrasse dos dias felizes de minha vil juventude.


      Enteado de meu pai, depois de anos de profundo silêncio tudo que consigo dizer é que eu o amava, do meu jeito, frio e calculista. Sem que isso me cortasse a lembrança de tê-lo detestado quando criança. Apenas a velhice nos revela a maldade das coisas mundanas.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Garis

       Há muito tempo que meus dedos não massacram as letras com sua fugacidade, Crisálida envelhece a cada dia, escondida atrás de sua pequena pasta verde de plástico escovado. A velha Olivetti Lettera 82, 1963 está cada dia mais empoeirada sem que seu dono negligente tome nota de sua preciosidade embutida no escritório recém bagunçado. Os livros se acumulam ao seu redor e a poeira também.

        O rádio não toca mais há algum tempo e não há mais whisky debaixo do esconderijo. As ideias fugiram com o passar dos dias e a preguiça associada à inércia levaram o desaparecimento das palavras. O academismo sufocou a livre iniciativa, mas vamos há um conto negligente de dezembro.


        Como podem ver no céu, e no recanto de sua janela, Brasília chove quase a todos os dias. Chove de forma não programada, pegando a todos desprevenidos. Dessa vez fui eu. Atrasado, corria atrás de um ônibus que se tornou um fantasma em meio à mais uma greve de coletivos. Estava vestido como um inglês, mas de inglês não tinha nada, porque tinha esquecido o meu guarda-chuva.

        Fui à banca de jornal, coisa corriqueira e banal. Como comprar chicletes e colocar crédito no celular. Gotejava um pouco lá fora, minha capa me protegia, mas minha mochila me preocupava. Era a segunda vez que enfrentávamos a chuva e a primeira não foi muito animadora. Meu livro do Georges Simenon ficou todo empapado, junto com meu caderno de rascunhos e minha caixa de canetas.

        De fato, mesmo as nuvens estando carregadas. Cinzentas, mais cinzentas do que o concreto e o asfalto. Não dei muita confiança à tempestade; Devia ter me precavido porque "O inferno está deserto e os diabos estão aqui".

       Os ipés vermelhos coloriam os jardins de minha quadra, enquanto os carros corriam de farol alto diante a neblina. Não vi pedestres ou ciclistas e as poucas almas penadas que vi eram feitas de açúcar pois fugiam correndo de algumas gotas de chuva. A garoa estava ligeiramente fria e refrescante, fazia dias de calor, mas começava a engrossar.

       Encontrei um cachorro, meio asno, que correu em minha direção achando que eu era seu dono. Ele reconsiderou quando um trovão caiu bem perto de nós num descampado. A chuva estava cada vez mais forte e meus cabelos, antes desgrenhados, se pentearam pela a água que ensopara toda a minha cabeça e o meu casaco. Apressei o passo e a chuva tratou de se apressar também.

      Na rua as goteiras se somavam e pintavam o asfalto com tons cada vez mais enegrecidos e aquáticos. O reflexo das poças d'água criava pequeno espelhos de ângulos desconhecidos do meu semblante apressado. A mochila, como eu imaginei, já estava ensopada e meu humor também. Encontrei com segurança a parada de ônibus, toda revestida de vidro fumê e plástico que para a desgraça do arquiteto, era profundamente ineficiente e tinha goteiras.

        Duas pessoas se escondiam ali, encolhidas no frio com que o vento violento ceifava as almas mais esperançosas. Um, era um velho que apenas caminhava e foi surpreendido pelo aguaceiro e a outra pessoa era uma doméstica, essa sim estava empenhada em chegar em casa. Eu só queria esperar a chuva passar e ir trabalhar. Eram 15:00 da tarde.

       Numa sexta feira, encontrar um ônibus à tarde é um sacríficio. Imagine quando há greve. Fitei os carros que corriam no vazio do asfalto, enquanto os filetes graúdos de chuva engrosssavam. Ao acompanhá-los com os olhos, encontrei um carrinho de mão com ferramentas de jardinagem. Um aparador de grama, uma foice e uma tesoura de ponta. Um caminhão do Sistema de Limpeza Urbano estava estacionado bem próximo da parada, inaudido à percepção de todos. A chuva era a maior preocupação na hora.


      Um trovão desabou num gramado bem em frente de nós, prenunciando um mal presságio. A chuva violenta vinha do Norte e sua violência correu de uma só vez para os pobres indefesos que estavam na parada de ônibus. Como eu previa, o  vidro daquela instalação vagabunda não foi pensado para uma tempestade e o vento ameaçava retirar o vidro fora. A água começou a entrar no abrigo, e a molhar nossas cabeças debaixo do teto.

      Nós três ficamos reféns da boa vontade celestial. Os ventos me forçaram a sair da parada e me esconder atrás dela, visto que a chuva estava partindo de frente àquela estrutura. Gotejava e a fragilidade daquela estrutura não parecia inspirar conforto. Quem andasse naquele vendaval poderia ser perfeitamente arrastado. Um tufão ou algo parecido.

         Um dos garis gritou de dentro do caminhão-baú, olhando todo nosso sofrimento. Gritou e acenou:

     "EI! VENHAM PARA CÁ!"


      Desconfiados, as duas companhias que tinha entreolharam entre si. Mas num impulso sai correndo tentando me proteger. A chuva estava cada vez mais forte e daqui a pouco era a parada que sairia voando, junto com vacas e casas por aí. Apenas eu tomei coragem e subi no parachoque e depois na caçamba do caminhão.


        Lá dentro, com os cabelos pingando e a capa toda ensopada agradeci ao gari que retrucou olhando em direção à chuva:

       "Eles não quiseram vir, bom, o problema deles. Pode ficar até a chuva passar."

        "Obrigado"

         Eram 3: 23 segundo o meu relógio, que estava igualmente ensopado. Ali dentro percebi que não havia só um , mas vários garis. Sentados em torno de uma roda, eles esperavam a chuva passar. Alguns jogavam dominó, outros apenas jogavam conversa fora. Muitos nem sequer dignaram a me cumprimentar, eu não reclamei, eu era um intruso em seu ninho.

         Aqueles semblantes cansados e simples denotavam a dureza de seu serviço, que era capinar a grama todos os dias e garantir que as arvores e as folhas continuassem impecáveis. Funcionários da NovaCap, provavelmente receberiam tão pouco para operar um trator ou cortar um quilômetro de gramado. Eles discutiam o atraso do serviço:

         "Todo dia chove. A gente começa de manhã, e aí começa a chover. Aí a gente para, quando a chuva dá um tempo. A terra tá tão molhada que chega atrapalha. Quando dá pra cortar a grama, chove de novo"

         E a chuva batia cada vez mais forte na lataria do caminhão. A atmosfera era quente e acolhedora, bem melhor que o frio que fazia lá fora. Úmido e deprimente. Aquele ambiente não chegava a ser confortável. Havia poucas cadeiras e o chão estava sujo de terra que sentia-se o odor campestre dentro do caminhão. Fosse fertilizante ou a terra mesmo. O suor também figurava ali, das roupas e dos rostos. As ferramentas estavam dentro de um armário, junto à uma mesa onde tinha café.

        O gari que me convidou ao abrigo, me ofereceu o café. Eu aceitei. Senti o gosto amargo descer quente por minha garganta, mas era o máximo de cordialidade que poderia esperar. Aqueles semblantes me olhavam desconfiados e eu sabia o porquê. Eu estava bem vestido demais e parecia esnobe aos olhos de muitos. Fiquei olhando para o chão, calado enquanto a chuva corria lá fora. O trovão cortou meus ouvidos e o olhar de censura levou-me um pouco do meu orgulho.

        "Bucha de seis! Você morreu com uma bucha! Seu imbecil" Brandiu um jogador ao parceiro enquanto batia as pedras na mesa.

        Aquele grupo de garis de longe estava mais preocupado em voltar ao trabalho do que eu a sair daquela chuva. Discutiam quanto tempo levaria para fazer todo o serviço estipulado. Vez ou outra comentavam sobre a chuva, ou da família. Mas não demorou muito para que ficassem silenciosos sob minha presença.

        Fiquei ciente disso, e desconfortável, esperava aquela torrente de água passar. Mas não, ela só piorava. Na parada via as pessoas que tinham se recusado a ir no abrigo ficarem tão molhadas que poderia-se fazer uma sopa, era ridícula a ideia de tomarem um segundo banho vestidas, apenas por orgulho. De fato, o céu cinzento não me parecia promissor, mas a imagem de nenhum ônibus passar também não era muito reconfortante.

            Tentei me enxugar com um pano que tinha na mochila e conclui que estava ensopada de novo. Outro livro estragado!"Maldita cidade, passa seis meses sem chuva e quando chove parece que vai cair o dilúvio", disse um dos garis.

           O vento bateu mais forte, movendo a lataria do caminhão de forma preocupante, embora as chances de capotar pelo vento fossem pequenas, o veículo nem por isso deixou de balançar. Foi aí que passou o meu ônibus, não tive tempo de correr para pegá-lo, nem os outros passageiros que agora se acumulavam na parada. Tinha perdido e iria chegar atrasado, já era 3:56.


            O tempo demorou a melhorar. E mesmo olhando de longe a chuva se dissipar e os filetes de chuva se esfarelarem numa garoa fina, ainda demorei a tomar coragem para sair. O olhar curioso e desconfiado de um dos garis me deu forças para me despedir. Foi então que eu percebi, que era uma das raras vezes que não tinha nada a ver com as pessoas ao meu redor. E eu era um estranho na matilha.

           Agradeci com sinceridade o abrigo, e fui tratado com uma educação polida pelos demais. Saltei do caminhão e não ouvi os comentários maldosos que possam ter feito de mim. Na parada, os que ficaram me olharam com censura por estar seco enquanto eles estavam com as roupas completamente coladas no corpo. O tempo passou... A chuva continuava e mesmo assim nada do ônibus. Os desistentes se convenciam que todo aquele esforço fora inútil, e iam a pé para as suas casas.

        Fui o último a ficar na parada. Percebendo que só eu estava ali em pé, porque os bancos estavam molhados, também fui o último a desistir e a voltar para casa. A grama estava verde, as flores estavam vermelhas e o asfalto bem escovado e transparente. Contudo, não me esqueci o modo como aquele gari, na sua simplicidade me acolheu na chuva e me ofereceu um pouco de café, e também não esqueci o olhar desconfiado com que me olhavam os demais naquela cena tão estranha, tanto para eles quanto para mim.


        Esse fosso é bem mais fundo do que a gente imaginava. É bem mais fundo do que o Mar Vermelho.

domingo, 9 de novembro de 2014

"Tudo que é sólido se desmancha pelo ar"

         Nove de novembro, 1989. Após dois dias de intensas manifestações na Alemanha Oriental, o governo socialista da República Democrática Alemã caiu por terra com uma profecia proferida pelo antigo filósofo alemão e  patriarca do socialismo, Karl Marx: "Tudo que é sólido se desmancha pelo ar".


         Marx certamente não sabia que pouco mais de cem anos depois de sua morte esse seria o prenúncio do epitáfio da ditadura do proletariado no regime de socialismo real. De fato, creio que Marx tenha se tomado de intenso arrependimento nos dias mais funesto da DDR. Talvez suas teorias sobre o desenvolvimento do socialismo e da revolução proletária estivessem certas ao destacar que apenas num país ocidental o socialismo poderia ter seu mais pleno desenvolvimento como regime político.

        O problema que a Alemanha Oriental não era um país ocidental nem completamente desenvolvido. Os portões de Brandemburgo escondiam uma Alemanha dividida depois da selvageria da Segunda Guerra Mundial, de fato, os alemães pagaram muito caro por terem se seduzido e aderido (em maior ou menor grau) ao nacional-socialismo de Adolf Hitler e do NSDAP. A Guerra num mundo traumatizado pelo antigo conflito mundial, bem como o rastro do genocídio nos Bálcãs, na União Soviética e nos campos de extermínio na Polônia levaram a um revanchismo e uma onda moralizante intensa nos Julgamentos de Nuremberg.

  
        Para os países ocidentais, vide França e Inglaterra, era completamente inaceitável que um "país civilizado" pudesse fazer uma matança tão indiscriminada sem que a própria moral da sociedade levasse ao questionamento do regime. Mas a hipocrisia com que os ingleses e franceses viam o problema era notável: O massacre da Guerra dos Boêres, pelos ingleses, e a Guerra da Argélia, pelos franceses, são indícios que a violência não era uma novidade para as potências coloniais. A ideia inicial que fomentou a violência do conflito no Leste Europeu foi sem dúvida uma tentativa imperialista da Alemanha, que já era experimentada por outros países muitos anos antes.


        A obsessão foi paga de forma muito cara. A Alemanha novamente ficou com a reputação de vilã (no Tratado de Versalhes ela já tinha sido encarada dessa), sua economia foi arrasada, sua população civil foi posta a inúmeras provações (embora não comparáveis às provações dos poloneses, russos ou judeus) e o seu país foi desmembrado em quatro.

       Sim, a Alemanha foi desmembrada em quatro para que não ressurgisse novamente um "nacionalismo alemão". De fato, essa concepção de divisão dos estados alemães nasceu na política do Cardeu Richelieu de criar um poder imperial francês na Europa em decorrência da fragilidade política dos estados alemães. Mas como tudo na História, os anos certamente são um bom motivo para mudança das coisas. O poder hegemonico não poderia ser alcançado nem pela Inglaterra, nem pela França. E sim pela União Soviética.


       A pátria do socialismo não estava mais só, houveram levantes espontâneos em prol do socialismo em alguns países da Europa, como a Tchecoslováquia, Iugoslávia e Bulgária. Em outros locais, o regime de economia planificada foi realmente imposto, como a Polônia, Romênia, Hungria e Alemanha. O Exército Vermelho, e o próprio Uncle Joe, eram bem populares no Ocidente. A ideologia marxista, dificilmente, teve um grau de tamanha expansão quanto depois da Segunda Guerra.


        A formação de estados socialistas associados à União Soviética é notável. O baluarte do socialismo era conduzido pelo braço forte do Grande Timoneiro, "o grande camarada Stálin, o gênio, herdeiro de Marx, Engels e o insuperável Lênin". Foi o momento em que o país que por vinte e dois anos viveu no mais completo isolamento teve a oportunidade de se mostrar como uma potência. E mais do que isso, um farol de sonhos para a juventude.

         As desconfianças entre os Aliados cresceram. O gabinete conservador de Winston Churchill retomou uma postura francamente anti-russa que já existia bem antes da Primeira Guerra Mundial, e o próprio primeiro ministro passou a ter desconfiança dos reais interesses de Stálin, em especial na Polônia. Lembrando que o Reino Unido entrou no conflito para garantir a soberania do regime polonês (e manter o status quo do Cordon Sanitaire ).

        Os americanos na administração Roosevelt sempre se notabilizaram por uma certa simpatia pelo regime soviético, e isso marca por exemplo o reconhecimento da União Soviética pelos Estados Unidos (tardio) apenas em 1933, com a vinda do diplomata Maksim Litvinov para mostrar suas credenciais ao presidente Roosevelt.

          Contudo, a falta de capacidade diplomática de Harry Truman em lidar com os soviéticos trouxe um objeto de mal estar, que levou até mesmo a trocas de farpas entre o presidente norte-americano e o representante soviético Viatcheslav Molotov. Alguns acreditam que as atitudes de Truman levaram a um enrijecimento do trato entre a diplomacia soviética e americana, o que propiciou o início da Guerra Fria.


           Berlim foi conquistada. Tomada pelo 3° Exército de Choque do 1°Front Bielorruso, o 150° regimento desse Exército ergueu a bandeira soviética no alto do Reichstag, onde anos antes,Adolf Hitler tinha forjado um incêndio, servindo de estopim para o golpe que daria no governo de Weimar.

              Inicialmente era possível a população transitar (ainda com o controle dos guardas armados do NKVD em alguns pontos de saída), posteriormente, à medida que as relações entre aliados pioravam, a repressão começou a se formar. Os alemães orientais passaram a ser prisioneiros em seu próprio país, a Alemanha Oriental passou a ser uma espécie de campo de concentração a céu aberto. 

               A pobreza dos primeiros anos foi notável. Logo mostrou-se inviável dividir a Alemanha em quatro, e os setores de controle inglês, francês e americano vieram posteriormente formar a República Federal Alemã, com sede em Bonn. Berlim Ocidental virou um enclave capitalista no meio do mar comunista. Em 1948, o mundo assistiu o Bloqueio de Berlim, o acesso à cidade foi limitado por tropas soviéticas. Limitando a ajuda humanitária americana à população de Berlim ocidental.
            A crise diplomática foi resolvida apenas um ano depois quando as duas superpotências, URSS e os EUA, sentaram-se para discutir a situação. A questão que a recuperação da Europa ocidental tenha se recuperado bem mais rápido que o bloco soviético (embora a reconstrução soviética tenha sido notável, com taxas de crescimento anual beirando a 20% em alguns setores), só é explicável pelo Plano Marshall.

            O Plano Marshall nasceu como uma tentativa de contenção do comunismo pela a Europa, e não como uma obra de filantropia estadunidense. A injenção de milhões de dólares a fundo perdido era algo impossível a uma economia fragilizada como a União Soviética. Com a melhora substancial do padrão de vida do alemão ocidental, não foi muito difícil compreender porque milhares de berlinenses orientais fugiam da DDR,com sua pobreza e repressão exacerbadas;

            1953 é um ano de mudanças. Stalin morre, a União Soviética é agora uma superpotência que possui não só a bomba atômica, e sim a bomba de hidrogênio. O mundo assistiu o conflito da China com olhos arregalados, e a derrota de Chiang Kai-shek levou o país mais populoso do mundo ao bloco socialista. A Guerra da Coreia ainda não tinha terminado quando Stálin bateu pela a última vez as suas botas de couro no chão.


         A crise de sucessão soviética e  a corrida presidencial após os dois mandatos pífios de Truman levaram a uma trégua parcial das hostilidades dos dois países.  A ascensão de Kruschiov e a denúncia do estalinismo deram esperanças de melhorias nas relações com os países ocidentais. Isso realmente não ocorreu.

            A União Soviética se tornou a ponta do pensamento científico, lançou um satélite no Espaço, o Sputnik. Enviou o primeiro ser vivo para fora da terra, cadelinha Laika. E estourou a maior bomba atômica já lançada na terra, a Tsar Bomba. Em 14 de abril de 1961, Yuri Gagarin conheceu o espaço de perto pela primeira vez. E seria o primeiro cosmonauta a realizar o sonho de Julio Verne.


            O Vietnã estava há quase quinze anos em conflito, a Europa Ocidental estava praticamente reconstruída. E a Europa Oriental caminhava a passos largos em seu crescimento, o padrão de vida soviética chegou ao seu ápice na época de Kruschiov, e o próprio governante soviético falava em dar ao cidadão soviético um padrão de vida similar ao cidadão americano, com todas as seguridades sociais que só eram possíveis num estado francamente socialista.


            Contudo os cidadãos alemães não se sentiam incluídos na “grande família soviética”, o socialismo sempre teve uma penetração modesta na Alemanha, a sua maior ascensão foi no período confuso de conflitos entre os camisas pardas e os comunistas nas ruas. A socialdemocracia de Kautsky sempre foi mais influente entre os segmentos médios alemães.
            O status de vilã da guerra nunca escapou aos alemães, eles viviam num padrão de vida inferior aos seus conterrâneos ocidentais, não partilhavam das mesmas liberdades e para piorar eram observados de forma brutal pelo seu próprio país. A tendência de governos altamente repressivos na Alemanha é uma marca de Bismarck até Honecker.


            A evasão de cidadãos para a Alemanha Ocidental era cada vez maior. Na madrugada do dia 13 de agosto de 1961, a esperança de um mundo melhor desapareceu. O Homem tinha chegado ao Espaço, mas não tinha conseguido sair de sua própria capacidade para a estupidez. Os berlinenses tiveram uma surpresa ao encontrar a sua cidade cortada por guardas armados, arame farpado e juntas de tijolos de concreto e argamassa. Nascia o muro de Berlim, e com ele a Cortina de Ferro física.

            Konrad Adeunaer tentou acalmar a população da Alemanha Ocidental, mas isso foi um tanto inútil. Willy Brandt, na época prefeito de Berlim, reclamou o quanto pode com as autoridades da Stasi e da DDR. Entretanto nada pode ser feito e a declaração de  Walter Ulbricht, líder da Alemanha Oriental passou a ser uma franca mentira:

Vou interpretar a sua pergunta da maneira que na Alemanha Ocidental existem pessoas que desejam que nós mobilizemos os trabalhadores da capital da RDA para construir um muro. Eu não sei nada sobre tais planos, sei que os trabalhadores na capital estão ocupados principalmente com a construção de apartamentos e que suas capacidades são inteiramente utilizadas. Ninguém tem a intenção de construir um muro!


                 O socialismo nasceu como uma ideologia universal, que deveria em tese, ser mostrada para o mundo inteiro para ser uma proposta viável frente ao capitalismo. Essa era a proposta inicial de Karl Marx ao escrever o Manifesto Comunista e recitar a canônica frase: “Trabalhadores do mundo, uni-vos. Pois nada tendes a perder senão os seus próprios grilhões”.

                O que foi o Muro de Berlim senão o sufocamento do ideário socialista? A Alemanha se desentendeu consigo mesma e agora dois povos tinham identidades diferentes. Não digo que viver na Alemanha Oriental fosse uma merda, não era, o padrão de vida de um cidadão alemão oriental era bem melhor que o padrão de vida de um cidadão brasileiro hoje.

              A Alemanha Oriental tinha uma jornada de trabalho de cinco horas, o sistema educacional e de saúde era público e funcionava. Qualquer cidadão da Alemanha Oriental poderia tirar férias, ter licença maternidade e paternidade. A despeito dos comícios, paradas militares estafantes e discursos vazios a vida do cidadão alemão era comum e bastante banal.

              O maior problema era que tinha mais agentes da Stasi, polícia secreta da Alemanha Ocidental, do que cidadãos economicamente ativos. O controle de informações era absurdo e as piadas dessa época são notáveis:

           “Vocês já se perguntaram por que na Alemanha Oriental os policiais sempre andam em três? O primeiro escreve, o outro lê. E o terceiro serve para prender os dois “intelectuais”.”


             De Trabants à comida enlatada. Viver na DDR não era o maior sacrifício na Terra. Mas onde existem Mercedes e apartamentos com calefação, sempre haverá cobiça. A grama do vizinho sempre é mais verde.

              A múmia política de Honecker beijava a outra múmia do Brejnev. A política do Partido Comunista Alemão não representava o grosso da população, no fim a decadência e estagnação corroeram a “sociedade perfeita”, e a Utopia de Thomas Morus se tornou o Admirável Mundo Novo de Huxley.

             Na parada de comemoração da Revolução de Outubro, em 7 de novembro de 1989, milhares de jovens e adolescentes saíram as ruas em busca de liberdade e transparência. Muitos nem sequer acreditavam no fim da Alemanha Oriental. As reformas de Gorbachiov começaram a ter efeito no bloco soviético. A polícia alemã ensaiou uma repressão, que sob os olhos dos ocidentais eram uma nova onda de barbarismo; Todos lembravam o discurso de Ronald Regan: “Mister Gorbachiov, tear down this wall”

            Não foi Gorbachiov que derrubou o Muro, foi a profecia de Marx: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. O regime sólido da Alemanha Oriental era representado pela pequena imagem de um muro acinzentado de concreto, laminado com uma capa de cimento, água, areia e pedra. Um monte guardas armados com AKs-47, rotweillers e brigadas de tanques. Tudo caiu, como deve cair. Nada é sólido o suficiente para ser imortal.


            A queda do Muro acabou com a União Soviética? Não. A União Soviética acabou porque não conseguia mais vender um sonho para a sua população há um bom tempo, o cidadão soviético vivia a partir da inércia desde a chegada do poder de Brejnev. A crise de abastecimento, a estagnação, a Guerra do Afeganistão, Chernobyl. Corrupção. Gorbachiov. Golpe. Tudo isso levou a demolição do regime criado por Lênin há 97 anos atrás.


         O socialismo morreu? Não. Só se dinamizou. Também se dividiu, do trotskismo ao maoismo. Da socialdemocracia com coloração um tanto liberal até o “socialismo bolivariano”. Marx ainda é lido, não como papa, mas como teórico. E isso é bom.

            Pessoas esquecidas vem sendo resgatadas, felizmente. Nunca se leu tanto Gramsci na esquerda, como agora. Bukharin saiu do seu esquecimento na década de 30, mas ainda não foi completamente recuperado. A socialdemocracia teve maiores avanços, incrivelmente (para quem nunca deu nada, Kautsky incrivelmente conseguiu superar até Lenin). Hoje o debate entre o marxismo é a retomada do debate do século passado, o marxismo deve ou não seguir uma via democrática? Até hoje não há consenso.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Um último conto de novembro

         Meu avô era um homem do interior, nascido e criado no calor dos sertões brasileiros; era um homem de simples. Honesto e trabalhador, não era homem de muitas palavras e quase nunca sorria. A despeito de sua simplicidade como pessoa, era alguém de valor e estima, mais esperto que muitos intelectuais hoje.

         Por algum tempo ele trabalhou com o contrabando de cachaça, saía todas as noites a cavalo carregado de produtos para não ser pego pelo fiscal da prefeitura que sobretaxava as bebidas. Mas de manhã tudo o que fazia era vender sacos de açucar no Recife. Valente, um dos poucos homens de fibra que ainda resistiam em seu tempo, enquanto os homens andavam de brilhantina, meu avô andava de espingarda.

        Bebia cachaça num só gole e fumava mais que uma chaminé. Vivia contando histórias de suas viagens para os amigos quando voltava do interior, mas o que mais se ressentia, a despeito de ser aventureiro. De ter perdido seu pai tão cedo. Meu avô sentia faltava de seu pai às vezes, quando falava de meu bisavô seus olhos enchiam-se de lágrimas.  Nunca soube como meu bisavô morreu, nem tampouco meu avô se esforçou a contá-lo. Vovô não gostava de contar de sua vida pessoa, mas adorava contar várias histórias de suas aventuras.

        Certa vez brigou com ladrões de cavalos no interior, atirou a espingarda, a primeira vez na sua vida e conseguiu salvar um carregamento inteiro de cachaça no caminho. Mas na segunda vez, não teve sorte porém, teve que entregar o cavalo caso contrário seria morto. Desde então passou a subornar os bandidos para que não o atacassem tanto durante a noite. O Brasil que ele vivia era diferente do Brasil atual, os bandidos ainda tinham cordialidade.

       Contudo, mesmo sendo um homem que poderia muito bem ter vivido no século XIX ou no faroeste americano, meu avô ainda era homem de seu tempo. Ficou sabendo pelo rádio a aclamação de Juscelino e mais do que isso notícias da construção de uma nova capital, no interior do Planalto Central. A TV ainda não tinha chegado ao interior, mas imagino o choque que fez meu avô sair de sua vida nos arredores de Recife e decidir enfrentar a estrada até o Goiás. Ele tinha vinte e três anos, pouco mais velho do que eu.

       Imagino o choque que foi encontrar os arranha-céus gigantescos e suntuosos de Oscar Niemeyer na Esplanada dos Ministérios ainda sob a forma de esqueletos de concreto armado. Para quem só era acostumado com casas de alvenaria muito antigas, para ele aquilo devia ter saído de outra realidade. 

       Meu avô nessa época escrevia tão pouco e tampouco lia como as pessoas leem hoje, mas era desnecessário naquela época. Ele era um operário do sertão, um candango, muito mais trabalhador empenhado do que um pobre miserável como eu que fica brincando de poeta-proletário.


        Em Brasília, as barracas de lona montadas na Cidade Livre e na vila IAPI era a evidência que o Brasil de JK ainda era um Brasil feudal a despeito da modernidade aparente. À noite, as crianças morriam no frio do inverno. De dia rolavam mortes e assassinatos por dívidas de jogo ou mesmo só pela bebedeira. Ainda assim Brasília era a primeira vez que ele veria uma cidade moderna.


        Canteiro de obras na terra vermelha. Meu avô trabalhou, seja nas obras no Ministério do Planejamento, Itamaraty, nas quatrocentos ou duzentos. Meu avô trabalhou. Trabalhou como pode no Hospital Militar e nas obras do Aeroporto, mas isso não lhe serviu para que fosse trabalhar na NOVACAP. Trabalhou tanto em Brasília, mas nem chegou a conhecer JK, apertar sua mão , bater no seu ombro e dizer: "Trabalho feito, presidente. Aqui está o novo Brasil". Ele mal conseguiria reconhecer o presidente da época agora, Jânio Quadros, com o seus ternos cheios de caspa e os óculos fundo de garrafa.


        Contudo, meu avô sabia reconhecer a beleza no meio do calor de homens suados correndo de um lado para outro com vergalhões de aço nas costas. E assim conheceu minha avó.

          Olhos azuis, cabelo negro.e o toque lusitano. Minha avó ainda hoje é um poço de inocência, uma criança no corpo de um adulto, ou melhor de uma velha. Suponho que fosse mais inocente na época, e mais bonita. Por isso acho bem provável que meu avô tenha se apaixonado por ela.


         E os dois passaram quarenta anos juntos, se não estou errado. E duvido que tenha partido deslizes do meu avô no meio do caminho (embora eu não possa afirmar categoricamente nada). O problema é que o amor de meu avô era compartilhado com a bebida e o cigarro, todas as vezes que ele voltava de sessões de bebedeira, passava a ser uma pessoa agressiva. Batia na minha avó e nos filhos. Entretanto, nenhum casamento é um mar de flores, e de fato, eles tiveram vários filhos: incluindo minha mãe, que não é exemplo pra nada.

         Meu avô começou a trabalhar num ótica na W3 Sul. E com muito sacrifício conseguiu construir uma casa num terreno muito espaçoso, o qual eu chamava deliciosamente chácara do vovô.   Ali tinha pés de tomate e chuchu, que minha avó usava para fazer suas comidas sem gosto. E também bananas verdes que davam no pé, cana de açucar que era cortada para a gente (os netos) comerem em lascas. 

        A "chácara de Seu Manel", me lembra muito verde e da época que brincava com meus tios de pique-esconde e jogar bola. Como também as brigas que tinha com meus primos e dos dias que saia de casa e ia dormir na casa de meu avô por causa dos conflitos constantes de minha mãe com o meu pai.



         Por muito tempo, meu avô era meu pai. E sim, foi ele que me criou a despeito de tudo. Vovô passou por muitas provações na vida, mas era um homem forte. A maior de todas elas foi não ter conseguido salvar meu tio dos braços das drogas, e isso o marcou profundamente nos últimos anos. O tornou um tanto mais amargo, o fim triste do meu tio, tornou-o outra pessoa.

          Os filhos passaram a ser um engodo para o meu avô. Sazonalmente há brigas de famílias graves e discussões tão banais que tornaram tudo mais difícil para uma pessoa de idade como o meu avô. Entretanto, apesar disso, a vida dele mostrava uma força de vontade alicerçada na fé. Religião pra mim é uma franca alegoria, mas para ele era uma coisa francamente séria.

          De fato, meu avô era um homem diferente de outras pessoas. Um homem corajoso, que depois de muito tempo se submeteu a enfrentar o cigarro e a bebida e tornar-se um indivíduo mais familiar. Era um homem silencioso ao mesmo tempo que sábio, e hoje entendo a razão de seu silêncio e falta de sorrisos. A vida é muito curta para ser desperdiçada com falácias;


          Só sinto pena de meu avô porque nem os seus filhos, nem os seus netos chegaram perto de sua pessoa, principalmente os filhos, que se tornaram tão mesquinhos por suas rixas sem importância através dos anos.  Quando fui vê-lo pela última vez eu pensei justamente nisso e me apiedei de não ter sido o melhor dos netos nos últimos anos.


          Hoje, dia 7 de novembro. Meu avô entrou na UTI, com um quadro de desnutrição e desidratação em decorrência de seu câncer terminal. A despeito de sua fragilidade nos braços, e a dor em seu rosto. Os cabelos caídos e suas rugas cada vez mais profundas. Esse homem que hoje descansa no leito, sem qualquer suporte dos médicos, senão umas poucas palavras reconfortantes (e mentirosas) é um herói para mim. Um herói que nunca será lembrado pela História, porque nunca foi político, ou mesmo cientista ou artista. Mas apenas um cidadão brasileiro.
         
. Correção: Hoje pela manhã, recebi a notícia que ele faleceu em decorrência do câncer. Ao contrário do que ele tanto desejara, não lhe foi ofertada a opção de morrer em casa. Descanse em paz, vovô. Você merecia bem mais

domingo, 2 de novembro de 2014

O violento sujeito chamado "brasileiro"

       Como é complicado ser democrático. Cinquenta anos depois de um golpe militar, centenas de pessoas marcham na Avenida Paulista pedindo intervenção militar já. E por quê? Porque há uma descrença absurda na ordem institucional.

       De fato o que é ser brasileiro senão ser esquisofrênico? Exige-se de um governante tudo, mas do cidadão nenhum esforço. A consolidação do nacionalismo brasileiro é limitado há uma meia centena de pessoas no estádio cantando um hino nacional em coro, quando outrora lutavam contra a implantação da FIFA no política brasileira. Gritavam: "Não abro mão, quero dinheiro para a saúde e educação".

       Eu sinceramente estou confuso se devo escrever ou não sobre isso, porque sinceramente pouco acredito que tenham eco essas palavras. Mas a democracia realmente é uma coisa que eu não acredito que exista no Brasil, sinceramente, depois de 2010 pra mim isso é emblemático. E não estou falando isso porque compactue com ideias de direita que pedem a intervenção militar na política, na verdade eu tenho até repulsa por tais ideias. A questão é que a cidadania brasileira é uma cidadania de papel.

       Digo cidadania de papel porque ela é ampla e irrestrita a todos os cidadãos que tenham voz e exercício pleno de suas funções, o problema que ela não é nem ampla e irrestrita, ela é setorizada a segmentos sociais muito claros.É óbvio para mim que quem mora na Zona Sul do Rio ou em Higienópolis/Morumbi em São Paulo possui direitos muito mais evidentes do que o negro da favela que mora na Rocinha ou Capão Redondo.

        Enfatizei a palavra negro porque é uma coisa também associada a questão social. A sociedade não é só dividida socialmente, mas racialmente. E essas duas divisões são coincidentes, o maior índice de pobreza e vulnerabilidade social são nas populações negras e mestiças brasileiras. A questão não é que não exista brancos pobres ou negros ricos, existem e são grupos expressivos inclusive, a questão é que a abordagem dos problemas existentes é bastante difusa e falha.

        Temos um problema muito claro e arterial que é a desigualdade social. A desigualdade social é a origem das ilhas de exclusão; Apenas quando resolvermos essa questão que resolveremos questões associadas como o racismo, a segregação e a violência.

        O problema que a última tentativa de resolver a questão da desigualdade social, o Bolsa Família, foi amplamente criticado por segmentos da sociedade civil por não ter tido o retorno esperado. Eu concordo com a análise de que esse neokeynesianismo não tem nada de Keynes, a microestrutura com a qual as reformas sociais que o governo Lula se pautou na verdade não são vergalhões de titânio, mas de pura madeira de compensado. São fracas, e criou uma ilha de dependência de segmentos inteiros da sociedade civil ao Estado.

         O Estado sempre será um agente perigoso que merece ser controlado. Nunca confie no Leviatã cem por cento. 

          O Bolsa Família retirou famílias inteiras das garras do caudilhismo interiorano e dos coronéis ao observar que a sua vulnerabilidade econômica é a razão para que o seu empobrecimento seja aproveitado de formas funestas pela a elite local. O problema é que o Bolsa Família não se dedicou na inserção econômica dessas populações no mercado de trabalho, seja criando fábricas estatais, companhias ou grandes empreendimentos (sobretudo no Nordeste).

          Sim há grandes obras, como a construção da Ferrovia Norte-Sul (parada) e da transposição do Rio São Francisco (que parece que ninguém lembra, mas é uma obra bem maior que o Canal do Panamá), o problema é que ao invés de incentivar que essas populações participassem das obras, ou mesmo que elas tivessem um vínculo empregatício nos setores econômicos associados, o governo priorizou terceirizar essas obras para grandes empreiteiras (algumas envolvidas em graves escândalos de corrupção).

         Eu apoio o Bolsa Família, mas com ressalvas. Era para ser um programa válido por um período determinado de tempo e no mais deveria ser locatário de uma profissionalização dos "beneficiários" que no fundo não são beneficiários, porque o Estado não faz mais do que sua obrigação, vide de passagem. Desde a Constituição de 1988 a sociedade civil brasileira optou por uma via social-democrata de garantias sociais.

        O problema maior hoje é conciliar esse ideal social-democrata de bem-estar social com crescimento econômico minimamente aceitável. É possível, é. A resposta está em locais onde uma economia mista de desenvolvimento foi experimentada, como a NEP na URSS, ou mesmo o modelo de desenvolvimento nórdico. De fato é possível, mas não é fácil, exige muito trabalho não só da arregimentação das normas sociais, controle sobre as finanças, mas do próprio trabalhador braçal que deverá se empenhar mais para produzir dividendos à poupança nacional.

          É uma opção difícil que demorará anos para ser feita. Mas só poderá ser feita com a democracia.


          Existem problemas com relação a esse modelo de desenvolvimento. A forte dependência da economia pelo Estado é uma delas, o país sempre tem que intervir nas relações econômicas para incentivar o crédito, emitir mais papel, dar empregos e no mais dar socorro e protecionismos às empresas nacionais. O problema disso tudo que cria uma artificialidade que não se sustenta a longo prazo, a indústria nacional não é competitiva, o crédito em excesso cria um capital virtual baseado no consumo, que sabidamente não se sustenta por muito tempo e a oferta de empregos no Governo, mais os auxílios do governo ao empresariado onera a balança de pagamentos e dividendos do governo. Resultado: O Tesouro fica com pouco dinheiro em caixa e não tem muita margem de manobra para as flutuações econômicas cotidianas.

         Essa é a origem da crise que vivemos hoje. Mais: A falta de investimentos no setor de escoamento da produção, a difícil capacitação do trabalhador hoje, o sistema fiscal excessivamente complicado que favorece também a sonegação e a falta de iniciativa do empresariado.

        
         É praxe dizer que todas as revoluções foram feitas na falta de pão. Da Revolução Francesa, Revolução Russa até hoje. A fome lacera o brasileiro? Ainda não, mas a inflação daqui a pouco o fará. O maior problema é que a inflação incide sobre os mais pobres e o modelo nacional-desenvolvimentista adotado pelo governo há algum tempo, é baseado no crescimento sob inflação. E vem dando errado.

         A revolta com o governo do PT é evidente em muitos segmentos sociais. E nisso coloco não só a velha classe média, e a elite, mas também o mito da "nova classe média" que está super-endividada e não consegue pagar as contas, e também até nos pobres, nesse caso conduzidos numa onda profundamente estranha de conservadorismo neopentecostal.

          Entretanto, as eleições de outubro solaparam questões internas no Brasil que são bem claras há um bom tempo. O Brasil é um país marcadamente dividido.

O Brasil sempre foi um país de múltiplas identidades, isso todo mundo sabe e é consenso desde as conversas mais rebuscadas da Academia até as rodas de conversa de botequim em Vila Isabel, a questão é que a criação do mito nacional é um dos maiores pressupostos da identidade brasileira.

        Três pilares: Paz, Natureza e Abundância. O Brasil é um país gigante (em sua própria natureza) que apesar de ter um braço forte, tem uma mão amiga. E sua natureza abundante e bastante rica o levará a condição de uma potência desenvolvida.

       Os três mitos fundadores do brasil são justamente movimentos sociais solapados pela a elite: A Inconfidência Mineira, a Independência do Brasil e a Proclamação da República. Em nenhum dos três eventos houve realmente uma participação francamente popular.

       A questão é que existe vários Brasis.

        Primeiramente: Dois Brasis, o Brasil dos números e do papel, estatístico e cujo formalismo bacharelesco das leis o tornam uma condição ideal de como um país deve exercitar o exercício legal: Esse é o país das pranchetas, Brasil país do futuro. O idealismo tropical

       O segundo Brasil é justamente o Brasil real, onde a gente tem a comprovação concreta e empírica que pouca coisa que é desenhada nas pranchetas é realmente aplicada. Seja os números da tabela do IBGE, o crescimento econômico estimado no primeiro semestre, ou mesmo que a constituição e as leis conferem direitos e deveres de maneira irrestrita a todos os cidadãos brasileiros. O choque entre o Brasil ideal e o real chega a ser brutal.

     
         Mas o Brasil não acaba nisso:

         O Brasil é rico ao mesmo tempo em que é pobre. A favela convive com as mansões da Zona Sul. É seguro e perigoso. É corrupto e honesto. É singular e plural. Esquisofrênico em sua própria natureza.

          De fato é impossível ter consenso e unanimidade nas decisões de soberania nacional, há grupos de interesses muito difusos seja no Norte, Nordeste, Sul ou Sudeste. Seja no interior ou na cidade. Ou na morro ou no centro. As redes de interesse são frágis num país continental como o Brasil.

           E para piorar mais é que o pleito de outubro foi acirrado. Nenhum dos candidatos falou publicamente em dar continuidade ao que vem ser feito (nem a Dilma que estava se reelegendo), devido à insatisfação geral da população. Aécio Neves, candidato da oposição, PSDB, perdeu por mísera diferença de pouco mais de 2%, ou cinco milhões de votos.


          Os dois projetos tanto do PT como do PSDB tinham semelhanças e continuidades, só tinham diferenças de abordagem. Mas não foi em si os projetos que mais importaram nas eleições de 2014, foram os ataques pessoais de ambos os lados, enquanto a população estava interessada em soluções para os problemas imediatos. Havia denúncias, escândalos, acusações e trocas de farpas na propaganda eleitoral e nos debates. Fiquei absolutamente convencimento que não evoluímos muito democraticamente falando de 1989 para cá, e digo porque pareceu um infantilismo o nível das discussões entre os candidatos.

          Eu me somei aos que votaram nulo. Não era possível votar em dois candidatos que mais se dedicavam a se atacar do que realmente dialogar em termos concretos pelo bem das eleições.

         E essa polarização incentivada por marqueteiros (digo em todas palavras, marqueteiros) que incentivaram o discurso da violência e um profundo nível de baixeza é o que tornou a situação mais difícil. O Brasil ficou mais difícil que estava.

        Os militantes do Aécio e de Dilma se digladiavam com as porta-bandeiras em meio a praça pública, se batendo inclusive. Quem ostentasse uma bandeira do PSDB no carro corria o risco de ter o carro arranhado ou apedrejado e vice-versa. Quem andasse com um botom da Dilma na roupa poderia ser insultado na rua. E a internet foi usada para demonstrar essa violência toda, com episódios de racismo, intolerância e segregação.

           O Facebook ficou insuportável de se acessar por muito tempo, o bombardeamento de informações, boatos e mesmo especulações foi exaustivo. E pela primeira vez desde minha militância aos quinze anos, eu senti nojo da política.


             A questão que esses ataques não pararam. Seja porque atacaram a sede da Veja com pichações e lixo (tenho minhas dúvidas se aconteceu de fato ou não), seja porque violaram os direitos de resposta em nome de fins de ataques pessoais.

              A questão é que pra mim o exercício da Justiça Eleitoral foi bem ruim e foi aquém do que eu esperava, não só porque a biometria deu tantos problemas (eu sinceramente acreditava que o registro biométrico daria maior segurança, no fim passei a duvidar da segurança do voto), mas porque o TSE foi pra mim bem parcial para um lado da campanha. Tenho minhas teorias de como se deveu essa parcialidade, mas eu deixei de acreditar que realmente a democracia funcione do jeito que está.

           É válido que um partido político possa questionar o resultado do pleito eleitoral sem que seja chamado de golpista (sim eu li isso em muitos blogues e jornais, o PSDB foi acusado de golpismo), afinal de contas a eleição foi acirrada. E é válido questionar a segurança das urnas, porque nenhum sistema informatizado é praticamente seguro em si mesmo. 

          O que foi criado nisso tudo foi um discurso sim de ódio, e foi quando vimos que a violência incrustada na sociedade civil se libertou de uma só vez. Seja no racismo e  no separatismo de alguns militante do bloco perdedor que estavam atentando contra a soberania nacional, seja o discurso de ódio com que a oposição foi encarada por alguns militantes da situação, que os nomearam como traidores da pátria e da democracia por serem contrários ao governo.

           Não há outros inocentes senão os que não estão no foco dessas discussões. O Brasil é muito grande para ter uma divisão binária. Nem tudo é preto ou branco, mas cinza. De modo que é terrível que tenhamos continuado com essa pobreza política e ideológica com que marcaram as eleições brasileiras.


         No mais, o Brasil é indivisível e uno em sua própria natureza, e qualquer ideia de separatismo é crime; Inafiançável inclusive, e deve-se lembrar que crimes de lesa-pátria ainda são passíveis de pena de morte. Questionar o governo é válido e eu questiono muitas vezes, mas no exercício democrático. Se não há democracia brasileira (como eu não acredito que exista) é cabível ir às ruas para lutar contra o corrompimento das ordens institucionais, seja pelas redes de poder ou aparelhamento político das instituições (não que não houvesse antes).


         O que não é aceitável é que se exprima um discurso de ódio baseado no racismo contra os nordestinos, pobres que por alguns serviram de "curral eleitoral do PT", tivemos mostras sólidas de que sem a pluralidade não seríamos um terço do que somos hoje.  Tampouco se pode aceitar um discurso de ódio contra a oposição pelo simples fato dela questionar o resultado de uma eleição.

         O poder judiciário, depois de tudo o que ocorreu, o poder mais dissociado da sociedade. E sim, deve-se abrir agora o questionamento se ele não deve ser eleito pelo próprio povo, ou se poder se autorregular da forma como vem feito, sendo nomeado exclusivamente pelo Executivo (e sancionado pelo Congresso, sem participação popular).

          E não, não acredito que o Brasil saiu mais forte dessa eleição. Eu duvido mesmo que tenha saído algo saudável disso tudo; O medo de um golpe pra mim é muito real, seja da situação ou oposição, há muitas desconfianças reais na democracia, e ataques de ambos os lados, cabe ao cidadão comum agir agora como agente ativo no exercício democrático ou ele realmente não se mostrará nem um pouco merecedor da democracia.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Quanto vale um voto?

              Quanto vale um voto? Financeiramente, algo em torno de sete reais por pessoa (através das estatísticas do próprio TSE). Mas o que realmente faz valer um voto?

              Um voto é uma pessoa essencialmente, mas o valor agregado de um voto é apenas simbólico. Digo isso por observar que o voto em si, no recinto democrático, perdeu o seu valor inicial, se desvalorizou depois de anos de desilusões numa ordem que cada vez mais se desvencilha da realidade.

               A democracia é uma triste piada, as instituições aparelham-se de maneira ignóbil e pueril a forças partidárias, seja de direita, seja da esquerda. Amianto em terna de ambientalista, é uma forma disforme e irregular diante da ordem oligárquica.

             Mas o que é um país sem o voto? É um país silencioso e devasso, um antro para as sombras ignóbeis da censura. A ordem democrática hoje é uma nulidade pela completa estupidez de um modelo engessado que não inclui realmente o cidadão comum à política; A democracia representativa é uma múmia política, a democracia direta é o modelo cada vez mais exequível e cada vez mais flexível.

          Contudo, o que é ser democrático? Esse é o maior dilema gramatical dos últimos tempos;. O respeito cartesiano aos códigos prescritos é essencialmente o mais correto, mas também o mais burocrático. A fluidez com que a dinâmica política da ordem das cotidianas impedem que necessariamente as coisas possam ocorrer conforme a teoria prescrita pela Constituição. A Constituição deve ser um norte e não um fim, porque as leis não se esgotam em si mesmas;.

             Agora, isso não quer dizer que todas as leis são passíveis de uma interpretação particular e fluída conforme as necessidades de um grupo político, pelo contrário, as leis partem do princípio de um contrato social entre a sociedade civil e o Estado; Algumas vezes esse contrato é imposto de maneira bastante violenta.

               Ninguém no Brasil em 1889 teve a chance de escolher se queria uma república ou a monarquia. Pelo contrário, a democracia brasileira se deu por via das armas; Talvez seja essa seja a origem do nosso desastre, o flerte com o autoritarismo que todos os atores políticos existentes já se seduziram uma vez na vida. Afinal de contas, onde estão os liberais? Eu digo não os neoliberalistas econômicos que interpretam de uma forma radical a Escola de Viena, Ludwig von Mises e outros, como se fossem testemunhas de Jeová a espera da chegada do Messias.
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                 Ao contrário do que se imagina, um liberal tem amor às instituições democráticas e o Estado constitucional de Direito. E mais, deseja o aperfeiçoamento das instituições para o funcionamento racionalizado da sociedade.  Contudo há uma confusão entre o liberalismo político e o crime do direitismo reacionário. Acaso isso seria criação propriamente do discurso vazio entre o totalitarismo e o pseudoprogressimo populista.

                     A origem dessa associação entre "liberais" e "reacionários" nasceu no contexto corrente da crise da democracia moderna na década de 1930. Quando o liberalismo do laissez faire reduziu o mundo às migalhas do desespero, o liberalismo era questionado duramente em todos os cantos do mundo democrático (e principalmente no não-democrático). No Brasil isso é mais sensível, porque a Revolução de 1930 acabou com uma ordem que pregava um liberalismo político às aversas.

                 A Primeira Republica nasceu com um golpe e morreu com outro golpe. A oligarquia paulista se articulou com as oligarquias regionais de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro para criar um regime eleitoral de base oligárquica. Essa oligarquia nasceu muito mais com a crença positivista de criar uma sociedade "higiênica" e puramente funcional do que propriamente democrática, tanto que militares de baixa patente, analfabetos e clérigos eram proibidos de votar, assim como as mulheres. Isso descartava a maioria da população economicamente ativa.

                     Na verdade, a liberdade brasileira é associada com a forma de acumulação de capital. O cidadão só é realmente livre quando realmente possui um poder aquisitivo para pagar o preço da sua própria liberdade (ou felicidade), mas nesse caso, querendo ou não sua liberdade é relativa, afinal de contas ele estará sempre vinculado ao contrato social.

               A Primeira Republica é essencialmente uma democracia deformada, de base rural e agrária; Ela reinterpretou à sua maneira a Democracia na América e trouxe o maior vacilo de deturpar a ordem norte-americana. De fato não é elogiando o sistema norte-americano, mas ele com certeza é o único lugar que a democracia efetivamente deu certo.

               O Golpe de 30 é um rearranjo das forças políticas e de um Brasil que estava esperando se modernizar (a grande propaganda positivista inflamou por muito tempo  a ideia de um Brasil Potência, e isso se manteve de maneira muito clara até 1985 quando há um desarranjo dos planos de desenvolvimento nacionais). Vargas fez o papel de declarar que tudo, inclusive o liberalismo é velho, e que a nova política só se daria a partir entre uma aliança entre proprietários e trabalhadores para criar um Grande Brasil;

               A Revolução de 32 é absolutamente liberal, o último suspiro afinal, e o levante dos paulistas foi duramente sufocado pela a violência de uma propaganda verborrágica de atacar São Paulo como o antro mais reacionário da Política brasileira que ameaçava o progresso de um Novo Brasil com sua velha política. Contudo é justamente São Paulo a vanguarda do que veio a ser o Novo Brasil, ali nasceu a nova sociedade brasileira que se passou por urbana e industrial.

              São Paulo guarda mágoas do resto do Brasil,  só não mais que o Rio Grande do Sul, porque farrapos sejam ditos, eles nos deram Getúlio Vargas.

               O Estado Novo é velho; Sim, velho porque nasceu das elites locais, dos tenentes (que se venderam ao poder pelo poder) e ao corporativismo escraxado. Vargas criou uma constituição moderna, a de 34, para torná-la despótica em 37. O Estado Novo trouxe de volta o autoritarismo florianista ao cenário nacional, repaginado não mais com o positivismo, e sim com o fascismo corporativista.

               A democracia de 46 é uma ressignificância do que foi o Estado Novo, mas foi o período mais democrático que vivemos e mais conturbado. O eleitor, trabalhador industrial, rentista, estudante, industrial, banqueiro ou comerciante, profissional liberal tinha consciência de seu papel político e de sua consciência de responsabilidade democrática. A participação social e o engajamento político é crucial para entender a Democracia de 46, mas isso não é um retorno ao liberalismo, pois de fato, o liberalismo político brasileiro nunca existiu.

                Ataques à Constituição, tentativas de golpes, intervenção do Congresso, do Exército, pareceres contrários ou favoráveis a determinado grupo vindo de fora; Tudo isso alicerçou a crise da democracia de 1964. E isso alicerçou os vinte anos de crise, a ditadura militar. Ali a democracia desapareceu na concretude e também no papel (mesmo havendo um congresso eleito e funcionando, com um papel totalmente eunuco de suas responsabilidades reais e um judiciário prostituído aos interesses de um Executivo totalmente centralizado).

                    O fim da ditadura trouxe uma verdadeira democracia, o povo foi as urnas, aos protestos com o desejo inflado por direitos e mais direitos; Mas os anseios do povo não estavam sendo acompanhados pela ninharia política deprimente que foi ter a velha política atuando: O primeiro presidente eleito poderia ser novo, mas era totalmente a cópia de seu pai, um velho político da época varguista.

             Os anos de crise e depressão econômica colocaram em xeque a democracia até o Plano Real, quando a estabilização monetária auxiliou a estabilização política. 2003 a 2011 foram os anos de sono, a classe média se desligou do que é democracia no momento de bonança financeira, quando as reservas monetárias estavam altas e sem alarde podia gastar seu dinheiro com o que quiser.

            Os grandes proprietários permaneciam silenciosos no governo trabalhista que lhes gerava lucros absurdos a despeito do discurso de defesa ao proletariado (que na práxis é uma franca distorção, porque a defesa do proletariado é incrivelmente a Revolução).

                E o estado assistencialista que nasceu reduziu a pobreza de tal forma, que as reservas de capitais altas de um estado inchado conseguiram por um tempo reduzir o impacto absurdo da pobreza. Esses tempos de bonança passaram e o Brasil foi obrigado a acordar.

               A eleição de Dilma Rousseff nasceu num voto de "confiança"/ conservadorismo político do brasileiro em manter os ganhos de oito anos do lula-petismo. O mensalão é uma mácula na história desse partido, mas que foi ignorado e ainda é, devido aos resultados econômicos da população geral bem como a inserção da maioria (pobre e miserável) no contexto social e econômico a partir dos programas de inserção do governo. O Bolsa Família salvou um país de disparidades brutais, ao caminho do radicalismo.

                 Mas isso se esgotou. E a ausência de projetos novos e viáveis, associada a completa irrealidade como se enxerga o exercício do republicanismo, alicerçado em uma estratificação democrática da legitimidade do voto, mais a corrupção brutal, levaram a descrença dos partidos políticos. Hoje tidos como cabides de aproveitadores.

                A democracia brasileira não existe, é uma franca piada. Ninguém se vê absolutamente representado pelos  candidatos verdadeiramente expressivos nas eleições. O voto não é no candidato vença, mas que o outro perca, afinal de contas, sempre se vota no menos pior. Acaso não é verdade, que se fosse opcional o voto poucos iriam às urnas? Claro que sim.

              Os três candidatos são ruins.

              Mas quanto vale um voto?

             Por volta de sete reais por eleitor.



              Mas há um preço simbólico no voto. Esse preço é: A única chance real de poder mudar nessa ordem deturpada e absolutamente nojenta que é a política nacional. Votar nulo não resolve, é insultar os milhares que foram torturados e mortos quando a democracia sequer existia efetivamente. Pior, é aceitar um modelo em vigor que muito bem pode virar uma ditadura disfarçada aos olhos da maioria.


             Há uma solução: Esqueça de votar no menos pior,  esses candidatos costumam ser piores ainda. Essa mentalidade é um câncer que lacera nossa própria realidade. Vote sim no que realmente acredita. Vote numa pessoa que você confiaria como um amigo, mesmo que tenha o risco da traição é melhor do que se assaltar com a persistência de um erro.


               Ou faça isso, ou faça a Revolução. Pois realmente eu concordo, essa democracia está a cargas d'água de nos fazer virar um Gigante Portugal.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Cronistas e cantadores




"Digo à minha pena que continue escrevendo ou inscrevo as letras,
gravando apenas o esqueleto ou as marcas dos acontecimentos
daquilo que o tempo trança, e não precisa ser caro
à dignidade que sua tribo espera,
 nem mesmo é prova de que vida e morte juntos valham qualquer coisa
O cronista sempre imagina que é o fim:
                                                         de sua "narrativa", -
e afinal, para quem ele escreve tudo e envia
                                                        suas mensagens?

Desde que a primeira letra foi lavrada em nome da narrativa comum,
 a obrigação de continuar fabulando de um escritor a outro
vai passando, ano após ano a passagem de um século
vai sendo contada, e quando não há algo de novo ou os sinais
da decadência se acumulam, escreves sobre a crueldade
de tua época e a respeito de povos mal alunos:

Assim  pensam os cantadores inclusive quando não é tempo de canções,
doam suas vozes, devem se manifestar porque antes deles
cantava-se diante das igrejas ou sobre o dorso dos cavalos; o povo cantante

não se indaga qual é a população ou o volume
da renda bruta; a grandeza medida são
os trovadores e o povo é tão grande
quanto os herois que são cantados. Tudo isso é antiquado, sabe-se,
pois depende da primeira letra , da primeira página
Do milagre recostado nos arreios de decassílabos

Se é bom ou mau, sequer deve-se indagar,
enquanto dura a escrita. Quando a língua deixar
de apenas preocupar-se com a canção, não haverá ninguém para
mensurar o valor do passado, nem para listar
o nome dos monastérios que retornaram às nuvens
ao serem chamados pelo antigo sacerdote.
Nem haverá quem busque pátrias na foz do rio."


                                                               Miodrag Pavlovich.


             Miodrag Pavlovich morreu recentemente, no dia 17 de agosto de 2014 na cidadezinha alemã de Tuttlingen aos oitenta e sete anos de idade. Miodrag Pavlovich infelizmente não é um autor muito conhecido para cá dos trópicos, de fato, isso se deve a sua produção literária se notabilizar pelo idioma sérvio. Contudo, Pavlovich se destacou como um dos percussores da ótica modernista na literatura sérvia pós-Segunda Guerra.

           Marcado por um estilo notoriamente fúnebre e bastante pessimista, Pavlovich foi um dos poucos poetas a captar a essência do que seria o horror da guerra. E insatisfeito com os desvios resultantes dessa, chocou-se muitas vezes com a ótica totalitária de construir a arte apenas como um objeto de consumo: o realismo socialista.

         

           Miodrag Pavlovich estabelece um conceito bastante diferente entre cronistas e cantadores; Primeiramente porque os cronistas são homens dados a contar a realidade conforme eles a observam, e acreditam que o fato se esgota em si mesmo a medida que colocam a pena para escrever. As crônicas são banais, cotidianas e se esgotam facilmente. Nisso, embora as crônicas sejam um domínio da literatura, elas favorecem a construção de um romance-reportagem, como gênero narrativo, pois se baseiam conforme a forma de maneira semelhante a um editorial ou um conto jornalístico de fato.

         Mas para quem de fato o cronista escreve? Quem é seu público alvo?

         As antigas crónicas medievais se dedicavam a glorificar um soberano e descrever um relato "oficial' sobre uma dita realidade histórica, e a despeito dos exageros costumeiros em quantificar os números ou adjetivar por exemplo uma batalha, as crônicas eram verossímeis para uma época e passíveis de críticas ao futuro. A crônica como gênero narrativo  é um dos estilos literários mais antigos da História, e está na fronteira cambaleante entre História e Literatura.

          De fato "O cronista sempre imagina que é o fim:    de sua "narrativa"", afinal a tendência em explicar um acontecimento sobre uma ótica singular foi o que pautou por muito tempo a construção das crônicas a respeito de determinados casos e situações.


"Desde que a primeira letra foi lavrada em nome da narrativa comum,
 a obrigação de continuar fabulando de um escritor a outro
vai passando, ano após ano a passagem de um século
vai sendo contada, e quando não há algo de novo ou os sinais
da decadência se acumulam, escreves sobre a crueldade
de tua época e a respeito de povos mal alunos"

           A literatura começa a se emprestar desse estilo literário à medida que a imprensa começa a emitir editoriais, num período muito avançado do enredo jornalista, de modo que as crônicas começaram a tomar proporções  desvencilhadas do concreto e passaram para o domínio do verossímil. Os redatores de jornais, os escritores seguem a "obrigação de continuar fabulando de um escritor a outro", em nome da narrativa comum. A narrativa que se constrói no começo desse século XX, longo século XX, é explicada num contexto onde o jornalismo e a mídia impressa se destaca como meio de propagar informações. As crônicas não só estabeleciam críticas sociais, como eram análises de comportamento sobre determinados casos que ocorriam na realidade social.

        "E quando não há algo de novo, ou os sinais de decadência se acumulam, escreves sobre a crueldade de tua época e a respeito de povos mal-alunos", creio que não há como ser mais claro do que isso, embora minha análise possa fugir em muito da de Pavlovich, acredito que essa seja a cerne do jornalismo baseado em crônicas de guerra, e cotidianas. As crônicas de guerra, iniciadas pela geração pessimista norte-americana, Ernest Hemingway, Fitzgerald, é uma geração que se dedica primeiramente à literatura, mas uma literatura engajada em relatar uma visão bastante particular e sombria sobre a realidade. A literatura, sob a base da crônica deveria descrever a crueldade da própria época em que se encontra o autor, onde se somam os sinais decadentes.

          A decadência é o maior aspecto da crônica moderna, não que a crônica em si seja decadente, pelo contrário, constitui o estilo literário mais revolucionário já inventado desde a criação do romance, mas ao contrário do que era a ode de exaltação dos reis e dos grandes feitos, a crônica hoje se destaca em mostrar a decadência dos novos tempos (e não seu triunfo), mostrar críticas e levar o senso crítico aos seus leitores, mesmo que por meio de um humor elegante e refinado.


           A crônica é diametralmente diferente dos cânticos, da arte dos cantadores. Os cantadores são alicerçados no domínio da tradição, eles cantam histórias antigas "doam suas vozes, devem se manifestar porque antes deles cantava-se diante das igrejas ou sobre o dorso dos cavalos; o povo cantante". Os cantadores, ou trovadores, nasceram numa cultura de linguagem oral que ainda estava no seu estágio de transição para uma cultura escrita.

           De fato, o maior papel de um trovador é relembrar o que foi o passado aos contemporâneos e adentrar no culto às tradições absorvidas e aceitas no tecido social. Enquanto a crônica moderna é revolucionária, o trovador é um conservador das tradições.

           O alaúde, o bardo, as odes. Isso tudo se findou no movimento trovadorista hispânico, uma franca remanescência medieva do que um dia foi o papel musicado do poeta. Honestamente é de se destacar que p cantador não é necessariamente a figura moderna do cantor ou poeta, mas sim uma absorção contemporânea de um conceito que um dia existiu:
         
          O círculo dos cantadores "não se indaga qual é a população ou o volume da renda bruta; a grandeza da medida são os trovadores e o povo que é tão grande quanto os herois que são cantados." Os cantadores são na verdade um grupo difuso para muitos, contudo, eu vejo a figura do publicitário ou propagandista como um trovador que não se indaga apenas com o impacto da renda bruta, mas incutir certos valores que são cantados em um número maior de pessoas.


         Esses publicitários originalmente não precisam ser revolucionários (mas muitas vezes o são)"Tudo isso é antiquado, sabe-se,pois depende da primeira letra , da primeira página.Do milagre recostado nos arreios de decassílabos',ou seja do milagre encostado no dogmatismo gramatical e na forma como se observa a primeira letra até o final.


"Se é bom ou mau, sequer deve-se indagar,
enquanto dura a escrita. Quando a língua deixar
de apenas preocupar-se com a canção, não haverá ninguém para
mensurar o valor do passado, nem para listar
o nome dos monastérios que retornaram às nuvens
ao serem chamados pelo antigo sacerdote.
Nem haverá quem busque pátrias na foz do rio."
   
           Duvido que Pavlovich tenha falado o que eu interpretei em suas palavras, obviamente ele criticava claramente os rigorosos defensores do academicismo literário em contraposição aos cronistas, defensores de uma narrativa (embora ele também critique qual deva ser o enfoque dos  cronistas). Cronistas e cantadores são meros aforismos para representar uma realidade pré-existente entre Vanguardistas e "academicistas". Contudo, o impacto com que a essa crítica atinge certos segmentos permite de certa forma extrapolar os limites da imaginação.

            A literatura e consequentemente as outras ciências que também se utilizam de um método literário para a construção de suas narrativas com base científica (seja história, filosofia ou sociologia), se baseia nessa constante dialética entre cronistas e cantadores.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...