segunda-feira, 17 de junho de 2013

Nunca se esqueçam

     Nunca se esqueçam do que vocês fizeram, do modo como foram corajosos e enfrentaram a cavalaria e a tropa de choque; Nunca se esqueçam que foram nós que nos levantamos e gritamos pelo fim dessa podridão, que marchamos lado a lado e sobre todos os olhares gritamos contra a mais dura das repressões. Não se esqueçam jamais.

     Fomos nós, fomos nós que marchamos enquanto rolava a bola e enfrentamos a cavalaria e as bombas de gás lacrimogênio, que gritamos para não haver violência e mesmo assim fomos tratados como bandidos. Estávamos certos, eles nem tanto. Lembrem-se bem de quem mandou a ordem, de quem disse que deveriam nos bater, assim como vocês decoraram os nomes dos fardados que bateram sem escrúpulos nos que tombaram diante a violência.

    Nada disso pode ser esquecido, não podemos esquecer nada disso. Tomamos voz, sentamos o pé onde deveríamos. Hoje você foram vitoriosos, fizeram uma coisa que eu mesmo queria ter feito, subiram a rampa do Congresso declarando a plena voz que nós tínhamos voz e queríamos ser ouvidos. Isso é democracia, nem Avelar, Dilma ou Agnelo podem nos calar agora, somos fortes e vivemos outra vez.

     Somos amigos do mundo, todos nos olham e veem como nos levantamos, só não podemos ser notícia de final de domingo, não são só vinte centavos assim como não é só um estádio: é um conjunto todo. Sinto-me mais feliz agora ao ouvir que a política finalmente voltou aos lábios do povo que a articula com vozes tão diferentes e com pensamentos tão concisos que eu duvido agora que ele tivesse adormecido de verdade.


    Sim, eu estou sendo utópico um pouco. E sou. Acredito agora em vocês que subiram a rampa do Congresso, como tanto queria ter feito, e os invejo um pouco. Estive lado a lado quando andamos até estádio e protestamos, senti a dor que os nossos sentiram quando jogaram o gás lacrimogênio na gente e a cavalaria rompeu com toda a sua fúria, mas hoje eu só lhes peço: Não esqueçam. Não se esqueçam jamais. Em vocês deposito minhas esperanças, e eu também, porque seguimos lado a lado nos nossos protestos até que nossos pés acabem por si. Nunca esqueceremos.

sábado, 15 de junho de 2013

Protesto sobre o expurgo de nossos sonhos

      O que eu vi hoje foi a supra mostra da capacidade com que o ser humano pode esboçar brutalidade aos seus  semelhantes, nunca duvidei de sua capacidade, mas isso se tornou cada vez mais real. De um simples protesto pacífico converteu-se numa luta, numa batalha campal, pior, num massacre obliterado da maior grosseria contra aquilo que sou mais caro, a liberdade de expressão.

     Vi policiais batendo em manifestantes com cassetetes de madeiras, vi com meus próprios olhos jogarem torrentes de gás lacrimogênio contra nós, simples manifestantes, não se importando com o fato de haver crianças ou não. Dispararam contra a cabeça de alguns, enquanto um helicoptero carregava o cenário hostil circundando o terreno com um franco atirador armado contra nós... Nunca vi tamanha selvageria.

    Aquilo era uma guerra, uma guerra desnecessária: Acabaram por agredir nossos direitos, nossos direitos de fala e nunca perdoarei eles por isso. Nunca. Não era necessário, mas fizeram. Estupraram as nossas ideias, prenderam nossos ideias e cuspiram no nosso rosto enquanto nos batiam sem dó. Pedimos por nada menos que paz, nada de violência, e tudo que houve foi violência. A cavalaria atropelou pessoas, prisões e mais prisões... Vadios, simplesmente assim nos chamaram.

   Perverteram nossas ideias, compraram os jornais, disseram que estávamos errados. Simplesmente nos culparam por um crime deles, nos culparam por queremos falar. Nos culparam por sermos críticos e nos culparam por sermos humanos. Se esconderam no alto de suas fardas, foi isso que eu  vi; no alto de suas dragonas, nos ameaçaram com veículos blindados e com armas tão psicológicas que ainda estão na minha memória.

   Isso tudo para servir de interesse a outros... A turistas de uma Copa fadada a fracasso, fadada ao fracasso não porque não tenham terminado os estádios (eles terminaram, há um alto custo), fadada ao fracasso por não valorizar nós, por nos recusar a cidadania. Eles tratam com desprezo seus cidadãos e enchem de mimos aqueles que só vem para cá em uma temporada. Resultou numa vitória no futebol, mas uma derrota para a democracia.

    Estou em choque por ter na minha mente as imagens da selvageria, estou em choque por dizerem que isso é democracia. Por dizerem que temos ampla liberdade de locomoção, mas nos privar logo desse direito. Violam nossos direitos, ordenam que façamos coisas que não queremos, que não votamos (não consultaram a nós quanto ao fato se queríamos a biometria ou não, ou se queríamos a Copa). Violaram os meus direitos.

    Sim, me disseram que nada mais vale agora, que tudo já foi feito e que não adianta remediar o mal já feito. Se não adianta, tudo que sobrará é a morte do paciente, o paciente povo brasileiro. Não confio mais no governo, não confio em Partidos, e a partir de hoje, não confio na Humanidade... Aquilo foi um prenúncio da morte, se não foi do governo foi do nosso povo, o mesmo povo que insultou-nos quando seguíamos em fileiras. O mesmo povo que falou que não servíamos para nada e que estávamos errados.

    Eu desisti de pensar por essa gente, não por elitismo, mas por cansaço. Cansei-me de querer ajudar o futuro das pessoas, e cansei-me de me sentir tão desconfortável com a artificialidade dessa cidade. Agora eu quero me livrar desses entraves e talvez viver tão sobriamente quanto um presidente de uma banda oriental nas águas do Prata.

   Desilusão. Permitam-me dizer que encontrei pessoas boas nessa vida, encontrei pessoas honestas e caridosas. Um repórter que me deu um pouco de vinagre para enfrentar o lacrimogênio, um desconhecido que me ofereceu água quando estava com sede. Uma amizade que acabou nos livrando de graves apuros. E sim, eu vi também beleza nesse movimento, uma certa moça de colete que protestava de maneira tão discreta e elegante.

   Brasília é odiosa, essa cidade me  enoja. Enoja-me mais do que isso é o fato de desconsiderarem a caridade que eu vi em todas essas três horas no mais intenso sol infernal, e nos insultarem por estarmos sendo pacíficos. Pacificidade agora é coisa errônea, não se pode mais lutar por seus direitos. A vanguarda sempre apanha, mas hoje eu vi que toda uma legião de pessoas desconfortáveis com esse tipo de vida foi insultada pelos comentários infelizes dos mais diferentes demagogos. Não há democracia aqui e tudo o que eu vejo é uma ditadura se formando...

    Queria terminar dizendo que tudo vai melhorar, mas não tenho mais tanta certeza. Espero que aqueles que lerem o que eu escrevi saibam que tudo que faço e agi é com as melhores intenções e sempre estive disposto a fazer sacrifícios, assim como acredito que muitos dos que conheci também estavam com as mesmas intenções. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Conto de uma noite em casa

        Dizem-me que a noite é a mais fria das irmãs, a mais cega das amantes e a mais deliciosa das paixões. Dizem-me que ela esconde nossos erros e apaga nossos pecados; A noite projeta amores passados em suas sombras no dia a dia enquanto se estende um corpo cansado.

      Dizem que na noite se encontram os maus espíritos, mas nada me apavora com a luz dessa cidade. Não tenho medo da noite, somos dois amantes perdidos sem rumo na escuridão tênue da luz das estrelas. Nela procuro ouvir bem atentamente com os meus ouvidos, embora o esquerdo esteja meio fraco, posso ouvir bater o modo como o vento bate na janela. Não sinto medo.

   Não sinto medo dos arrepios da noite que assustariam uma criança pequena, não sinto medo do frio que toma o meu corpo, não sinto medo de enfrentar os perigos sozinho de novo. Meu corpo pálido se projeta na escuridão, sem camisa e sem muitos músculos também, prossegue humilde pelos cômodos da casa enfrentando o frio.

    Deu-me vontade de fazer um chá ou voltar ao aconchego da minha cama, mas lembro-me bem que não  há nada mais quente do que remover memórias do passado. Sento-me junto à janela, tento imaginar alguma coisa, mas não me vem nada. Sento-me de cócoras no chão e deixo o frio da cerâmica tomar-me por completo. A noite se projeta mais uma vez.

   Não tenho medo dela, não sinto nada por ela. Penso em voltar para a minha cama, mas não há nada que possa aquecê-la, nem mesmo um bom livro ou um grande amor para me aninhar durante essa noite; Levanto-me e ando pela casa de novo.

   Visito o quarto dos meus pais, estranhamente vazio a essa hora. Não imagino onde possam estar; Procuro o quarto de minha irmã, tão ermo quanto o primeiro. Passo pela cozinha e não encontro nenhuma comida na geladeira, desço as escadarias e percebo que estou só. A ideia não me apavora, não tenho medo, mas ouço ruídos por trás da porta da frente, uma batida transversal à madeira.

   Abro a porta e não vejo nada. Olho para os lados e entro para casa. Procuro meu pai em seu escritório e percebo que a sua papelada continua meio bagunçada como ele costumava deixar. A casa toma feições meio arrepiantes que eriçam os pelos de minha nuca e uma corrente de ar gela-me a espinha.

    Viro-me para trás e percebo que, percebo que... Não há nada. Estranho. Subo as escadarias, deixando a impressão de lado, mas ouço baterem de novo na porta da sala. Quando volto de novo, penso ter visto uma sombra. Era eu mesmo.

    Abro a porta e escuto.

    Tririrtititi....trititiiti.

     Era uma coruja. Se você estivesse aqui, do meu lado na cama, eu não teria tido medo dessa coruja;

sábado, 8 de junho de 2013

Uma queda (conto)

      Saiu pois de casa, não antes de lustrar a maçaneta com um pouco de álcool em gel que desastrosamente  tinha deixado cair na mão e desapareceu na garoa fina que caía na rua a essa hora da tarde. Achou estranho que algo assim ocorresse no Planalto Central em pleno mês de junho, mas desapareceu em meio às sombras que se projetavam na penumbra das nuvens carregadas do céu.

     Seguia pelas ruas sem olhar para os lados, sempre para o chão, esboçando tamanha humildade que poucas pessoas teriam se admirado que estivesse saído tão combalido de casa. Quase foi atropelado por um desaviso, e doía-lhe até agora os tímpanos o modo como o motorista daquele pequeno hatch azul martelara a buzina.

     Sujou seus sapatos num gramado ensopado e correu para pegar o comboio para outra parte do Cerrado, foi aí que escorregou e...

                                                           ....

      — Eu te amo. Eu sei que você me odeia, mas eu te amo. Quero construir uma vida com você...
      — Se você me ama, pare com essas coisas.
      — Mas eu te amo.
      — Isso é típico de você, isso só mostra o quanto você consegue ser infantil.

      "Isso só mostra o quanto você consegue ser infantil. Infantil. Infantil... infantil. Infantil?"

      "Foi naquela festa, fazia um frio asqueroso naquela noite; acho que tinha bebido um ou dois copos de uma vodka bem vagabunda, talvez mais. Sim, foi naquela noite que tudo começou. Infantil.

      Eu estava só, sem amigos, apenas com colegas que sequer conhecia naquela altura, me sentia só como nunca me senti. Sim, você era bem infantil. Foi quando ela apareceu: Não era a mais bela das moças, tinha um queixo um pouco deformado, mas algo nela me seduziu. Será o cabelo escuro? O modo como falava com pleno domínio de algumas coisas que eu gostava? Ou será simplesmente inocência minha?

     Peguei-me um dia pensando nela, não em mim, não no meu amor mais recente ou na menina que tentava me seduzir. Mas eu pensei nela, justamente nela, por quê? Isso faz tanto tempo, nem parece que estava vivo quando lembro de tudo o que aconteceu.

    Eu cresci, acho que cresci com o passar dos anos, mesmo assim cometemos nossos erros. Esse foi um deles, tinha me apaixonado por quem de mim não gostava. Acontece, não é mesmo? Chorei por ela, senti solidão em suas palavras, solidão. Talvez tenha sido isso, eu me identifico com pessoas solitárias, eu as entendo melhor, não sei porquê.

   Mas não tinha calculado as variáveis, sempre cogitei que a solidão fosse uma característica involuntária, mas a bem da verdade, percebo que tudo isso é volátil. Afinal de contas, a solidão pode ser autoimposta. Não acreditava nisso. Infantil.

   Correto, fui infantil. Devia ter dito isso tête a tête e não ter escrito isso de maneira vulgar numa dessas mídias sociais, me escondi covardemente nas palavras, meu único porto seguro que são as letras. Eu mereci aquele fora por ter sido tão burro, mas o padrão se repetiu mais uma vez.

   Não sei porque estou pensando nela, não sei porque penso nela agora. Nunca ligou para mim, por que haveria de pensar nela? Afinal, por que está tudo tão escuro, não enxergo nada. Eu estava indo... AH!"

                                                                ...

       — Levem-no para o helicóptero, ele teve uma concussão cerebral, vai morrer com certeza se não chegarmos logo.

      — Diabos, um rapaz tão jovem!

     — Basta estar vivo para essas coisa acontecerem, Souza. Vamos, vamos levar a maca para cima.

     As agulhas retroativas corriam de forma circular no céu enquanto o cabelo dos paramédicos tremulava com o redomoinho produzido pelas lâminas do helicóptero, os dois se afastaram e deram um sinal de ok, enquanto o guarda de trânsito tentava organizar o trânsito.

    — Circulando, circulando. Não há nada para ser visto.

    — O que aconteceu? O que aconteceu?

    —  Desculpe, senhora,você tem que ficar calma, os médicos farão tudo o que é necessário — conteve amigavelmente outro guarda.

                                                               ...

    "Mãe, por que eu a vejo aqui do alto?"

    "Sim, minha mãe é aquela ali que está desesperada enquanto o guarda tenta acalmá-la. Ela era bem mais bonita do que hoje, tinha feições de uma bela modelo quando o meu pai a conheceu, mas o tempo sempre foi um filho ingrato.

     Sobre o que discutimos hoje, por falar em filhos? Foi sobre o carro não foi mesmo?"

                                                                       ===

     — Nossa, tô atrasado pra c@&*#%! Preciso da chave do carro.

     — Não, eu preciso levar a sua irmã pro médico. Vou precisar do carro.

     — Mas o carro é meu. Por que não posso usá-lo?

    — Correção, o carro é do seu pai.

    — Mas o meu pai se foi, ele deixou o carro pra mim em testamento.

    Com lágrimas nos olhos, me encarou horrorizada; Eu também ficaria, como eu falei algo assim, não tinha nem duas semanas quando tinha acontecido... Como pude entrar nesse assunto. Ela só teve força para me responder com um tapa numa das bochechas.

     Fiquei sem reação, mas a encarei com o ódio nos olhos, eu estava segurando o frasco de álcool em gel que deixei cair no chão e furioso saí de casa batendo a porta.

     — Me desculpe... — Foi tudo que pude ouvir.

                                                               ===

      "Me desculpe. É como eu já usei essa palavrinha, depois de fazer piadas infelizes, elogios que não devia ter feito. E... Sim, eu também pedi desculpas.

      Pedi desculpas por ter dito que a amava, não sei se as obtive, mas nunca me perdoei por ter agido daquela forma, me fiz parecer tão servil, tão ignóbil... Engraçado, me sinto meio fraco, a cabeça está meio tonta, o que me aconteceu?

      Não sei dizer, mas não me sentia tão fraco desde o enterro de meu pai. Meu pai era um homem honesto e trabalhador, sim, uma figura muito decente, embora quando eu era criança, fosse dado à bebida, esse seria no fim das contas a sua derrocada. 

      Meu pai dizia que eu precisava pensar grande, que eu devia ser um grande juiz e propagar a lei sobre todos. Deus sabe o quanto ele ficou decepcionado quando viu que o filho foi ser historiador. É, eu não o culpo, ter gasto uma fortuna em bons colégios para ver o filho jogar tudo para o ralo e ainda se envolver com política? Meu pai estava certo.

     Ficou um bom tempo sem falar comigo. Seis meses. Lembro até hoje. Desde então nunca mais fomos os mesmos, nunca mais nós nos falamos como pai e filho, o que para alguns é triste, mas eu prefiro não pensar nisso. Quando eu pensei em me matar, meu pai não estava ali, não em sua forma física. Eu vi que ele estava acabado ali.

     Acabou que os anos tinham-no pegado e doente como estava, foi morrendo aos poucos até que o coração não quis mais bater como antes, e pela primeira vez em sua vida ele pode descansar. Sim, eu não era um bom filho e minha mãe estava certa em me bater, mas considerando o quanto o meu pai me bateu quando era criança, sem qualquer motivo, não posso dizer que tudo só foi culpa minha.

     Deixou-nos razoavelmente bem de vida, meu pai, e conseguimos lidar com as nossas vidas conforme a normalidade. Às vezes a minha mãe não dormia à noite de tanto chorar, e deitava-se no chão pensando nos dias que tinha passado com o meu pai. Eu tentava não ouvir isso à noite, mas era mais ensurdecedor que um suspiro no espírito.

     Me sinto mal por não ter chorado no enterro do meu pai, eu realmente me sinto mal hoje; Mas nada vai fazer com que ele volte nesse momento. Sinto falta mesmo é do meu avô, que me ensinou o que eu precisava saber, como caçar e pescar, até como se portar e agir. Meu avô era bem mais amigável que o meu pai... Ele morreu não tem menos de cinco anos num desses canceres que nos destroem aos poucos, quando o vi pela última vez, ele não era nem a sombra do homem forte que eu conheci na minha infância.

...

    — Pressão caindo... Nós estamos perdendo.

   — Não pode ser. Tragam o neurologista, precisamos saber o que é.

   — Pobre guri, na flor da idade — Suspirou a enfermeira — E ele era tão bonitinho. Parece com o meu filho quando era da idade dele.

  — Menos, Maria, eu preciso do eletro... Nós vamos perdê-lo.

  — Diabos, afastem.

...

   O que é essa luz que se projeta na minha frente, serão minhas lembranças? Esse carrinho aqui laranja eu  ganhei quando tinha cinco anos, eu costumava andar muito nele pela rua onde eu morava. As crianças me achavam um bebezão por não querer emprestá-los, mas a minha mãe disse que não me deixaria brincar de novo se me roubassem o carrinho.

    Aquele ali é o rádio do meu pai, eu costumava brincar com o vinil que ele tinha; Não tinha bons discos como os do meu avô, mas dava para brincar legal. Esse é o escritório do meu pai?

    Meu pai sempre deixava a papelada exposta e bagunçada em sua escrivaninha e colocava o rádio para tocar enquanto ia contar a despensa dos produtos pra ver se faltava alguma coisa. Tinha duas mesas ali, uma de minha mãe, onde ficava a máquina de escrever e outra do meu pai, onde ficava o fax.

   Ali me criei em meio ao papel-carbono e as vias de pedido, cresci desde cedo para o comércio. Meu pai também tinha seus segredos, parando pra pensar, foi ali também que descobri (eu era um pré-adolescente à flor da idade) a minha primeira revista de mulher pelada. Luiza Ambiel para a Sexy, era a edição de 1996? Eu lembro que ela estava brincando com uma cobra, foi a primeira vez que eu vi algo do gênero. Devia ter quantos anos? Dez, onze anos?

    Sim, a revista desapareceu, certamente a minha mãe deve ter jogado fora na mudança. Mas essa coisa ficou na minha memória. Assim como eu lembro do dia que cheguei em casa depois de ter levado uma surra do meu colégio, meu pai saiu furioso de casa como nunca antes eu vi. Foi a primeira vez que eu em lembro de ter visto o meu pai me defendendo.

   Rayara? Sim. Também lembro dela. Minha primeira "namorada", se posso chamá-la assim. Eu tinha 7 anos e estava usando um belo terno. Eu era um garotão loiro de covinhas e estava apaixonado por ela sem nem mesmo saber o que era amor. Ainda bem que eu cresci, ela não não era tão bonita para valer a pena ( e me odiava também)

    Me odiava... Será isso um padrão? Eu não sei dizer, mas isso é até um pouco engraçado. Não tinha pensado nisso.

  Mas continuo caminhando nesse caleidoscópio de emoções e recordações. Sinto-me tão fraco o que anda acontecendo?"

...

   — Não, nós não vamos te perder, guri. Aguenta firme.

  Uma carga fez vibrar o corpo inerte enquanto um ensurdecedor ruído  agudo martelava o ouvido de todos na sala, na sala contígua ouvia-se um lamúrio abafado pelo choro. Todos ficaram tensos ao perceber que não havia resposta.

   — Aumente para duzentos! — Gritou o médico para o enfermeiro — Vamos lá, companheiro, resista! Não tem nada a perder ficando aqui.

    Tentou mais uma vez, pareceu inútil.

...

       "Tudo ficou escuro de novo? Onde eu estou?

       — Alan... Onde está você? Sua avó fez o almoço

       "Vovô? Não pode ser. Como posso ter voltado?

       Ei, espere. Eu lembro disso, eu estava brincando de pique esconde quando me escondi dentro dessa caixa d'água vazia. Eu tinha oito anos, eu acho.

      — Anda, meu neto, sai daí de dentro. A sua avó tá te chamando — pela abertura da caixa entrou um pouco de luz, uma mão se estendeu para me puxar para fora.

...
       — Não vá, companheiro, não vá;

       ...

       "Vovô?"

       — Venha, meu neto, o seu pai veio te buscar. A sua mãe anda ocupada com algumas coisa, ela não vai poder vir.

       — Sim, vô. Eu estou indo...

...

      — É inútil, doutor Roberto. O senhor fez tudo o que poderia, ele se foi.

      — Não, eu não fiz tudo o que poderia, esse menino não tem nem vinte anos. Ele podia ser o meu filho!

      — Não adianta, doutor. Pode ser que ele esteja num lugar melhor que esse aqui.

      — Hora da morte... — Disse entre lágrimas o rosto enrugado por de trás da máscara — Dez e cinquenta e cinco. Paciente n° 253 resistiu por apenas sete horas. Vou avisar à mãe do garoto.

...

       "Isso, Alan. Para você dar um nó que não seja frouxo, você tem que pegar a corda desse jeito.

       Certo, vovô.

      Ah, como é bom tê-lo de volta, meu neto.

      Eu digo, a mesma coisa, vô. Eu digo a mesma coisa."
  

Saudade

      Saudade dos dias que me seduzia com grande facilidade
      Saudade dos dias que brigava com minha própria idade
      Saudade de poder me apaixonar por essa maldita cidade
   
       Sinto saudades, muitas saudades
       Desses bravos baluartes
       Que desabam no amor

       Acaba o calor de sua voz
       Acaba o paixão das suas palavras
       E tudo que tenho é a lembrança

       Sinto saudades daqueles tempos
       Tenho uma franca nostalgia
        De poder me apaixonar

        Pena ter tido isso arrancado de mim
        Viver com esse fardo sem querer
         E perceber que nada vale a pena

        Que não posso confiar em quem eu queria
        Que não posso compartilhar minhas ideias
        E que devo ficar sozinho

        Não quero amar novamente,
        Não quero ver tudo se repetir
        Isso torra a minha mente

        Tão somente saudade
        Nesse planalto tropical
        Abaixo do Equador
        É com uma dor
        Que digo saudade

        Já me apaixonei por uma solidão mascarada em grosseria
        Bia
       Já me apaixonei por uma dor camuflada em forma de caracol
       Carol
        Tentei não me apaixonar pelos seus olhos de felina
        Melina

        Contudo, não me apaixono pela pessoa que eu mais conhecia
       Que mais me entenderia
        Não consigo gostar de mim mesmo

        É estranho, mas sinto as vezes saudade
        Saudade de ser eu mesmo
       Tudo é uma representação
       Tudo é um teatro


        Sinto saudade de ser eu mesmo
        Sinto saudade de ouvir meu avô
        Contar as histórias do interior

        Sinto saudades da minha mãe
        Cozinhar mais do que palavras
        E não falar mais do que favas

        De meu pai e de sua felicidade
        Do seu bom humor
        Quando estava em sobriedade
       
        Descobri hoje que tenho
        saudade da minha infância
        e da minha adolescência

       Percebi que tudo passou
       Que nada mais voltará
       O tempo levou

       Agora tudo me resta é saudade

        Saudade, saudade do trem
        Saudade daquela vida
        Simplesmente saudade

        Saudade de poder chorar
        De poder amar
        De gargalhar
        Saudade

        Se me sinto mal por ter saudade
        Pior são os que não podem entender
        essa palavra. Saudade.
        Só nós, lusitanos da América
        Entendemos o que é saudade

        Saudade de nossos pais,
        Saudade de Portugal
        Saudade do mar
        Ah, o mar

       Sim, todos nós temos
       Um pouco de saudade
       Pobres dos ingleses,
       Também dos franceses
       De não sentirem o que sentimos
       Saudade.

       

"Boas" viagens

        Você teve um funcionário por oito anos, um funcionário que se transformou numa figura polêmica e que   teve seus atritos com os seus colegas, mas sabia como se relacionar com o público. Esse mesmo funcionário, a despeito de ser muito popular, também cometeu os seus erros pelo caminho, chegando a ser acusado por alguns de ter participado de um esquema de desvios do dinheiro da empresa. De repente, após oito anos, ele é obrigado a se aposentar por tempo de serviço.

     Então ele começa a viajar pelo exterior, visitar novos países, tudo desvinculado à empresa; entretanto você toma o encargo de designar um dos seus funcionários para auxiliá-lo no exterior, isso não é algo relativamente estranho? Eu pessoalmente acho, seria uma prova de camaradagem para com o seu funcionário? Será que seria, mesmo se o seu funcionário fosse um ex-presidente e a sua empresa fosse o Estado?

     Qual é a lógica de designar um funcionário da embaixada para auxiliar as viagens de um ex-presidente à África, eu sinceramente não posso compreender. Quando as pessoas viajam para outras partes do mundo, elas tem como guarda-costas a fé e a sorte, só quando acontece algum perigo iminente à segurança do cidadão que a embaixada intervém; Será que o Lula possui um risco real à sua integridade física viajando para Maputo? Se sim, por que foi para lá?

    Sim, cortesia nunca é demais, eu concordo; mas com dinheiro público? Não tem algo de errado nisso?

    Não tem algo de errado também o fato do ex-presidente ter pagas as despesas do aluguel de um computador pessoal e uma impressora no valor de US$ 330, 58 num hotel em Doha em virtude de "fez-se necessário alugar os equipamentos para disponibilizar meios de comunicação ao ex-presidente e à delegação acompanhante"?

     Simplesmente é estranho ver que o Itamaraty tem também por preocupações cuidar de maneira satisfatória de seus cidadãos no exterior. É até uma coisa bonita, afinal de contas, será essa uma extensão do Estado de Bem-Estar Social?

      Melhor ainda são as empresas amigas ao viajante, como a Odebrecht e a a Camargo Correia, que custeiam metade das despesas dos viajantes que vão ao exterior. Me pergunto como elas conseguem ainda ter lucro.

      Mas é enigmático o  motivo do ex-presidente fazer tantas viagens à África e Costa Rica e receber apoio das embaixadas e das empreiteiras com os custos de viagem. Será essa uma parceria público-privada que deu certo? Eu não sei dizer, mas certamente deve ser rentável ao interesses da nação, afinal de contas, Lula nem sequer foi nomeado embaixador do Brasil, ou plenipotenciário, e já vem fazendo um trabalho dessa envergadura.

     Sim, sim, afinal de contas a Odebrecht e a Camargo Correia não deve ter contratos com o governo brasileiro ou com os países da África e nada disso passou de uma mera casualidade.  Não é mesmo? <só que não>


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    Isso sem falar que o Lula tem tamanha influência no governo que promete repassar pedidos no exterior para a Dilma, é tão engraçado ler o  caderno de política, veja quanta reflexão se pode retirar dessas notícias. Bom, ainda tem gente reclamando do fato da Dilma estar controlando os voos da Força Aérea à sua própria vontade.


 

Para além da Bolsa Família

       A despeito da retórica do governo, observa-se que a questão da miséria não está sendo resolvida conforme o esperado, como indica o IDF, Índice de Desenvolvimento Familiar, utilizado pelo governo como um meio supostamente mais eficiente do que o IDH.

      O padrão desse índice leva em conta parâmetro além dos indicadores de renda, mas também índices mais práticos e palpáveis, como a possibilidade ao acesso à educação e ao emprego, e o que se observou é que uma faixa, uma linha de exclusão ainda permanece.

     Embora o governo tenha tomado a iniciativa da Bolsa Família (que em verdade, começou no governo do FHC e vem realmente sendo apropriada por outros governos), muitas famílias não andam tendo o devido acesso a uma educação de qualidade satisfatória e isso influi diretamente atrapalha a possibilidade de emprego.

      É verdade, que as reformas sociais não partem normalmente com resultados imediatos, mas considerando que não houve uma grande reforma do sistema educacional, nem mesmo um incentivo pesado ao ensino por parte dos segmentos do governo e também da sociedade civil, acaba que se perde mais uma oportunidade.

      O Brasil é um país de grandes possibilidades e capacidades, mas perdemos tudo quando não damos chance a todos de conseguirem um ensino de razoável qualidade, para não contar a cultura que se criou de negação ao próprio ensino, que algumas pessoas desenvolveram com o passar dos anos, acreditando que o ensino só é importante se você quer um cargo no serviço público.

     O problema que se observa é que há uma hipertrofia dos gastos públicos e considerando que as reservas cambiais brasileiras não pagam nem mesmo um ano e meio dos gastos do governo, a situação é preocupante. Conforme os andamentos da Crise, é possível que aja demissões até mesmo dentro do governo e se não houverem, é a declaração de bancarrota. O Brasil não é tão frágil quanto no passado, mas também não devemos nos iludir dizendo que ele é titã internacional, a Argentina já foi uma grande potência, hoje é chutada por todo mundo, como cachorro morto, por escolhas erradas do seu passado.

      O governo está fazendo escolhas erradas agora, ao conferir um auxílio social sem promover um amplo acesso educacional de qualidade e uma reforma educacional sem fins eleitorais. A inserção do ENEM como único parâmetro de entrada nas Universidades, resultará em alguma medida, na pauperização do ensino superior, não que seja elitismo meu, mas o aluno não terá uma carga cultural exigida pelo ensino superior. A resposta estava nas melhorias da educação básica, mas a aposta em massa no ensino superior vem trazendo dividendos eleitorais, afinal de contas, criança não vota, só adulto.

     Sim, eu estou criticando o governo abertamente, embora algumas coisas não seja totalmente contrário, é conveniente criticar as medidas que o governo toma para simplesmente tomar votos em eleições. O Ministério da Educação devia realmente abraçar a educação básica e não confiar o ensino primário e secundário nas prefeituras, que aparentemente, não se mostram tão preocupadas quanto deveriam no ensino das crianças, mas é preferível lançar verbas às Universidades, em virtude (querendo ou não) do próprio PT ter uma base nas universidades; Pior ainda é o Prouni, que é dar dinheiro público a faculdades de pouca qualidade. 


       Enfim, os indicadores econômicos não são tudo que respondem as demandas sociais e isso o mecanicismo economicista da presidente (e não presidenta)  não enxerga, não basta dar apenas o dinheiro ao cidadão, tem que dar uma educação de qualidade e emprego, ninguém gosta de andar de muleta se pode andar com suas próprias pernas.


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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pois é... 2014

      Nunca mais tinha escrito dessa forma. Pois vejamos, 2014. Brasil.Como vai você Brasil?

     Terra mais longa do que o reino de Fez, mas tão demente quanto a louca da rainha de Espanha, Maria, que de louca pouco havia. Não sei vocês, mas o que vocês acham de 2014? Sério, eu estou perguntando sério? Será um bom ano?


     Poderá que sim, para os Estados Unidos, até lá eles poderão produzir petroleo a partir do xisto de uma maneira economicamente viável, estarão saindo da sua própria recessão e voltarão à liderança do mundo. O que é uma pena para outras potências, mas e o Brasil?

     O Brasil está surgindo em torno de uma bolha inflacionária, os preços aumentam de forma até exponencial e como se não estivesse aprendendo com os erros do passado, está se desenvolvendo uma bolha imobiliária que vai estourar a qualquer momento. Sim, o Brasil poderá estar em maus lençóis daqui não muito tempo.

     Mas por quê? Talvez por não ter aprendido com os erros do passado e ter aproveitado suas oportunidades, vendíamos tanta soja no porto que nem nos importávamos em perder uma ou duas sacas, com as demoras no envio pelas estradas; Achávamos que éramos o centro do Mundo, um mundo que tinha ficado  pequeno, mas nada mais éramos do que o celeiro do Mundo. Perdemos nossa indústria de maneira tão custosa quanto foi construída, de forma tão dramática, mas ninguém informa, não vendemos mais roupas como antigamente, carros ou mesmo bugigangas, vem tudo da China.

     Agora que perdemos nossa capacidade industrial, não vendemos nada até mesmo para a Argentina, que está pior que nós, e fechou-se num casulo em si mesma. O Mercosul está se tornando um fiasco, para tristeza de Mitre que tal espertamente tinha visto que uma aliança entre o Brasil e a Argentina era viável a ambos os lados, agora não é nem um pouco feliz ao Brasil.

    Não conseguimos vender e damos muitos privilégios à Argentina, e pior de tudo, deixamos que ela humilhe nossos vizinhos menores, o Paraguai e o nosso tão amigável Uruguai. Não devíamos deixar isso acontecer, mas deixamos.

     Estamos muito preocupados para uma coisa daqui um ano, uma Copa do Mundo. Uma mísera Copa do Mundo fez com que um país desse tamanho se mobilizasse tão rapidamente para obras, coisa que não fazia há pelo menos vinte anos, mas pelos motivos errados. Não era estádios que devíamos construir, mas  escolas e hospitais. Devíamos construir uma reforma educacional e universitária e poupar dinheiro para a Crise que está prestes a nos pegar daqui a pouco, mas achamos que construir um pasto para os ruminantes da bola algo mais importante.

    A maior desgraça que poderia acontecer ao Brasil é uma copa justamente agora, num momento como esse, perdemos a nossa grande chance de sermos uma Austrália ou um Canadá por pensarmos tão pequeno num barroquismo tão latino-americano como o nosso. Ontem vendíamos a ideia dos biocombustíveis, hoje importamos etanol dos Estados Unidos, ontem falávamos contra o protecionismo agrícola, hoje somos protecionistas contra o leite da Nova Zelândia, onde falávamos em bonança, hoje falamos em crise.

     O resultado foi bastante simples, não tivemos administradores decentes. Eu falo sério, não tivemos, o dinheiro que poderia ser investido em melhorias da sociedade está parado numa obra de transposição de um rio que não acaba nunca (a despeito da Grande Seca do Nordeste nesse ano),  numa ferrovia que só avança dois quilômetros por ano, num porto concedido ao Eike Batista que foi adquirido em meios duvidosos, uma hidroeletrica no Norte chamado Belo Monte de Merda que tem sua viabilidade econômica questionada e estádios que custam 1, 5 bilhão de reais (o câmbio do dólar-real está em R$2, 15, então algo perto a US$ 750 milhões), num lugar onde ainda se passa fome.

    Não entendo esse oba-oba, de repente deixamos de ser o Brasil e agora estamos virando a Noruega. Muita calma, essa propaganda toda é perigosa, nosso dinheiro está indo embora todos os meses no arroz, feijão, carne e tomate, e não é a toa. Inflação, a economia não soube acompanhar o nosso ritmo e os preços aumentaram. Aquecemos o mercado interno dando dinheiro aos mais necessitados, isso é certo. Mas deveríamos também poupar nossas receitas, o brasileiro culturalmente gasta o que não pode; Seja numa TV de plasma a setenta prestações ou numa roupa de uma grife que nem sequer vai usar no dia a dia (se bem que normalmente as marcas mais cobiçadas não são nem a Hugo Boss nem a Armani, mas a Lacoste).

     É difícil poupar, é. Mas onde não se poupa, os trigos se estouram mais fácil. Isso não falo só de nós reles cidadãos cumpridores dos nossos direitos, eu falo também do Estado, que está se endividando também a somas excessivamente altas. O Estado é mais do que uma empresa, é uma empresa com um papel social, mas não pode se pautar pelo prejuízo sempre e isso entra a questão da gestão.

     O governo impediu por um ano ou dois artificialmente que o preço da gasolina aumentasse ( a produção brasileira de petróleo está chegando ao seu esgotamento e o Pré-Sal demorará a ser explorado), importando gasolina da Venezuela e mantendo o preço estável para prejuízo para a Petrobrás para não alavancar a inflação. O problema que o preço estável da gasolina acabou inviabilizando o Pró-Álcool, o álcool deixou de ser lucrativo e ninguém mais usa álcool no tanque. Deixou de se desenvolver algo que o Brasil se destacava.

      Isso sem falar que a inovação científica brasileira sofre barreiras na própria estrutura burocrática do ensino superior, onde o sistema de bolsas do CNPQ é defasado e até atrapalha o desenvolvimento de tecnologia, assim, o retorno das universidades não é o esperado e cria-se o Ciência sem Fronteiras, que será talvez um grande fiasco, afinal de contas grandes mentes serão produzidas, mas não haverá laboratórios  de ponta, não haverá condições de trabalho favoráveis nem mesmo uma estrutura organizacional da própria educação que comporte esses especialistas, muitos ficarão no exterior mesmo.

      Isso sem falar nas medidas do governo usadas apenas por fins eleitoreiros, como o uso do ENEM, um teste que (convenhamos) é ridículo como padrão de avaliação na entrada dos estudantes e que mais parece uma cruzada de domingo. Ou mesmo questões mais ditas sociais, como o Bolsa Família.

      O Bolsa Família incha realmente o erário público, embora seja necessário ao Estado cuidar para que a disparidade social se reduza, não é simplesmente dando dinheiro que isso resolverá. Vale lembrar, que a questão deve ser dar emprego. Sim, formação ao pessoal que recebe benefício para se inserir no mercado de trabalho; Ninguém de bom grado (em condições normais) deve desejar receber dinheiro sem trabalhar.

     Voltando ao panem et circus. Acaba que temos um problema presente, a Copa não trouxe obras relevantes de infraestrutura (excetuando no Sul). A expansão dos aeroportos abarcará um seleto grupo, a malha rodoviárias interestadual e inttracitadina teve poucas alterações (com obras até embargadas pelo desvio de dinheiro de alguns governantes)  e até mesmo situações surreais acontecem.

     Por ocasião da Copa, todos os dias de jogos serão feriados. Como se não houvessem feriados demais no Brasil, colocou-se essa cláusula para que não se trabalhasse nos dias de jogo para não inchar o trânsito das grandes cidades. Verdade seja dita, os nossos dias estão sendo dados aos turistas.

    Criou-se linhas de ônibus especiais aos turistas para que eles não percam os jogos. Não sei vocês, mas não acho justo que exista ônibus para inglês vê enquanto eu vou expremido num ônibus caindo aos pedaços.

    Algumas obras mexem com a vida cotidiana dos cidadãos. O Estádio de Brasília: Não pode ser usado em sua plena capacidade, mesmo havendo placas solares de energia em sua armação, pois comprometeria o fornecimento de energia para pelo menos um terço do Plano Piloto. Isso quer dizer que numa suposta lotação do estádio, haveria gente, moradores que ficariam sem energia por causa do jogo.

    Fica a pergunta, o Estado governa para nós ou para os turistas. Engraçado que o Aldo Rabelo chegou até mesmo declarar que o Brasil está apto a sediar grandes eventos desde a vinda da família Real Portuguesa ao Rio (fugida de Napoleão) em 1808. Não sei vocês, mas expropriar casas de moradores para nobres "estrangeiros" (eram portugueses tanto no Rio como em Lisboa por ainda não existir brasileiros) ser uma mostra de ser apto de sediar um grande evento (a fuga de uma corte que perdeu uma guerra), algo muito forte.

    Eu acho surreal que ninguém realmente esteja interessado em observar os contratos das grandes construtoras das obras da Copa. Olhem com atenção para o nome das empresas que receberam concessões e as empresas que doam dinheiro para um partido X que está no governo. Tirem suas próprias conclusões e me digam se não é incomum.

     Ninguém olha atentamente para as finanças, é como se tivéssemos dinheiro eternamente. Economia é a gestão de bens que são escassos, a economia trabalha pela escassez.  E se não temos dinheiro para construir um hospital ou uma escola, como teríamos dinheiro para construir um estádio?

     Sim um estádio que talvez nem seja usado direito. Estádio de Brasília, vide. Grande encontro futebolístico dos times tradicionais do futebol candango: Dom Pedro x Ceilândia. Recorde de público pagante para vinte mil lugares (utopia), ou mesmo dar dinheiro a clubes cujas gestões não são tão índoles como deveria (sou corintiano, mas não confiaria a minha carteira à direção do Corinthians).


     Essas reflexões não estão postas como supras verdades, mas geram  reflexões. Pense que enquanto você reclama do preço do seu cafézinho, o governo gasta o seu dinheiro para uma coisa que talvez você nem usará. Já viu o preço dos ingressos?

    A economia está frágil demais para um evento como esse, a sociedade sofre desde a construção do Brasil e vai sofrer mais ainda por nada. Afinal, qual foi o retorno da Copa de 50 ao Brasil. Foi no Rio, não foi? Nós até perdemos a Copa para o Uruguai (e com a seleção que temos hoje, vamos perder de novo). Belo investimento mesmo, hein.

    Mas o Charles de Gaulle estava errado ao dizer que "O Brasil não era um país a ser levado a sério", na verdade ele é para ser levado a sério, seríssimo, mas apenas nos contos de fada. Não se pode imaginar que cometemos tantos erros e ainda assim voltamos a cometer de novo.

   PS: Antes que me acusem de antipatriotismo eu digo o seguinte: O Brasil é feito de brasileiros, e são os brasileiros que fazem o Brasil. Não estou batendo contra o meu povo, estou batendo contra o meu governo, se queres me por como antipatriota, lembre-se, não sou eu que estou deixando com que sofram mais da conta pessoas que não terão ganho nenhum com a Copa. Só estou sendo sensato

A despedida de nossas imaginações

       Vagarosamente, o cortejo passava e os homens seguiam ao redor daquela miríade que se desenvolvia naquela tarde fria e nada amistosa, o céu estava bastante acinzentado tal como o humor dos homens e mulheres que por ali passavam.

      Ondas do povo, centenas, milhares de seres corriam com os olhos a acompanhar o sofrimento gravado nas fisionomias das estátuas daquela praça central, alguém tentou subir num caixote e proferir algumas palavras, mas o horror do público não estava apto a ouvir a demagogia de alguns oradores.

      Lentamente um vento frio corria sobre nossos ossos, os operários de todos os tipos, desde os das letras até os das fábricas, seguiam calado com os gorros e chapéus junto ao peito, enquanto um coro de rostos banhados em  lágrimas cantava aos soluços os refrões da Internacional. Era uma turba sem rosto, mas de muitas vozes, pálida pelo frio, mas azeda em espírito.

      O cortejo fúnebre atingia a todos, desde mulheres corpulentas de rostos enrugados com os anos, até os mais jovens rapazolas que não tinham nada além de uma vida pela frente. Queria poder dizer que estava acompanhado em toda aquela multidão, mas me senti só e desolado no meio de todas aquelas pessoas, imagino que boa parte delas também.

     Não havia bandeiras vermelhas ou líderes devolutos em meio à turba, apenas uma fila indiana que caminhava no chão de pedra batida sem nenhum destino, sem nenhum horizonte, o sol da  liberdade tinha nos abandonado naquela tarde, tão cinzenta e nebulosa, que nem mesmo uma ave apareceu para nos cumprimentar.

       Os cabelos se esvoaçavam com o tempo e eu tentava me proteger daquele frio, mas sem muito caso também, não estava muito interessado ficar gripado, a essas alturas era o que pouco importava. Não havia bandeiras no horizonte e logo chegou o crepúsculo, as velas que alguns carregavam começaram a apagar com o vento que seguia contra nossa direção e o cortejo prosseguiu às escuras. Às escuras ficaram nossas ideias e paixões reprimidas e ficamos em silêncio enquanto o vento gorjeava uma canção monótona que nada se parecia com a Internacional. A boa e velha Internacional. "De pé, ó vitimas da fome! De pé, ó famélicos da Terra. Da ideia a chama já consome, a crosta bruta que a soterra". A crosta bruta que a soterra, pelo contrário, foi a crosta bruta que a soterrou por inteiro e agora essa chama se apagava em nossas mãos e corações.

      Sim, eu não posso dizer que fiquei feliz com tudo isso. Era como enterrar o meu melhor amigo, meu maior companheiro por muitos anos e passei um dia inteiro pensando nisso, mas enquanto a banda tocava agora a marcha fúnebre, percebi que um sonho tinha acabado.

      Duzentos homens pegaram as pás, incluindo eu mesmo, e marcamos a terra dura com a lâmina que ceifava esse trágico destino, olhávamos para nós com extrema tristeza, alguns estavam inconsoláveis. Eu também me peguei choramingando bem às escondidas, mantive a cabeça erguida e abri com ainda maior força o túmulo. Quando o abrimos, jogamos todas as nossas esperanças de lado, pegamos todos o nosso esquife e cerimonialmente o enterramos lentamente naquela cova.

      Alguns se recusavam a acreditar, saiam revoltosos da cerimônia, gritavam conosco e diziam que nós éramos traídores, mas suas vozes foram abafadas com o ruído com que o vento fazia tremular todos os presentes. Gemia bem lentamente, preenchendo nossos pensamentos.

      No fundo tocava o último refrão da Internacional, e um velho, um homem bem velho por sinal, surgiu no meio de nós, sem muito destaque, e  com lágrimas nos olhos ajoelhou-se no esquife e jogou um pequeno livro de brochura vermelha em cima da armadura do caixão. Era o Manifesto Comunista.

     Alguns outros se seguiram, outros colocaram o Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo, de Lênin, outros colocaram o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung, alguns lembraram até do Marighella, mas eu não, não tive coragem de enterrar Bukharin nessa cerimônia. Ele era o meu tutor, meu mentor na teoria econômica e ele não tinha morrido naquela cerimônia, tinha morrido antes quando  Stálin o matou por ser tão amigável, quando Stálin deportou sua mulher para a Sibéria e lhe roubou o seu único filho. Bukharin só vivia no meu peito.

      A cerimônia se seguiu bem triste, como eu disse, não teve ninguém que quis esboçar um discurso, nem mesmo um capelão. Todos nós presentes éramos ateus convictos, mas quando o esquife finalmente chegou na terra e os homens começaram a lançar as areias do tempo sobre o esquife, ficamos sabendo que tudo acabou. Em lágrimas, nos despedimos do nosso último sonho: O marxismo. A ideia mais eterna que tínhamos que tinha perecido sobre os discursos de demagogos e de assassinos profissionais. Nada tínhamos a perder a não ser nossos grilhões e no fim, perdemos tudo.

      Todos nós nós nos separamos, alguns saíram à esquerda, meio à francesa, outros seguiam pelo caminho mais ecológico, alguns quiseram voltar e escolher um novo caminho, um pouco mais à direita. Outros se perderam no meio daquele cortejo, mas eu, eu sou eu mesmo, me guio só por mim e caminho vagarosamente rumo a outro sonho, Bukharin não morreu com o marxismo, Bukharin vive,  está claro que temos nossas discussões, mas ele continua sendo o meu amigo.

     Esse cortejo desapareceu quando as  luzes apareceram, quando as últimas bandeiras e fileiras desapareceram soluçando e deixando para trás as ideias que tinham tomado com tamanha intensidade. Compreendi, de repente, que não era só eu que me sentia sozinho, mas todos nós. Essa ideia morrer sem nenhuma glória, e também não deixou nenhuma glória para nós.


Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...