quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O que é socialismo?

         O que é socialismo? Mil versões afirmam de inúmeras maneiras o que é o socialismo, mas darei a minha versão do que acredito que seja o socialismo;

        O socialismo nada mais é do que a distribuição justa (não propriamente igualitária) de todos os meios de produção e todas as riquezas adquiridas em via da acumulação primitiva de capitais, onde o indivíduo que trabalha mais deve receber mais, conforme a tecnicidade de seu próprio ofício.

      O socialismo é a forma pela qual acreditamos na justiça plena de uma sociedade onde acreditamos que é possível que todos os homens tenham as mesmas condições, mas possam trilhar os seus caminhos de diferentes formas.

      O socialismo é o meio em que o homem é valorizado diante do capital, onde a mais-valia é repartida de modo justo, considerando mais-valia produto de um  valor agregado a um produto quando submetido à transformação. Visa-se acabar com a alienação do trabalhador, e dessa maneira acabar com alienação da sociedade.

      O socialismo é, inegavelmente, mais do que uma religião ou uma simples teoria política, o socialismo se traduz como um modo de vida, um estilo de vida e uma maneira de pensar e se portar. O socialismo deve sempre acompanhar os  trilhos dos tempos, se renovar dia e noite, não parar, não estagnar. É o progressismo que move o marxismo.

       Sim Marx deu-nos boas ideias e grandes sugestões, mas não devemos seguir o Manifesto totalmente à risca como o Alcorão, devemos interpretá-lo, segui-lo, mas às vezes também questioná-lo. Não devemos ser tolos ao ponto de movermo-nos apenas pelo ódio. O marxismo é luta, mas uma luta por ideal, a liberdade do homem como ser humano e não como um meio produtivo apenas.

     O socialismo deve ser a parte mais completa de uma democracia, uma democracia do proletariado , naroda democratsy. Ao invés de uma ditadura do proletariado contra o proletariado, o socialismo é um ideal que na prática toma tantas formas que acabam me assustando.

     O socialismo deve se pautar pelo direito, direito à livre expressão, direito à liberdade, direito à própria vida, senão desvirtua-se como virtude e campo de pensamento. Não que eu pense que tudo é resolvido apenas pela maneira de pensar, mas sim pela ação, mas qual ação. É preferível mover uma revolução por meio de palavras e convencimentos do que através do ferro e sangue.

    Não que eu esteja negando o passado de luta e glória do marxismo, não é isso. Mas toda essa sangria desvirtua o que penso ser o socialismo, a parte mais elevada de uma justa sociedade e igualitária. Percebo que é tudo muito confuso e não sei se me fiz entender.

     A questão é o socialismo não deve ter fronteiras, deve ser mundial. O socialismo não deve ser algo forçado, mas algo algumas vezes até negociado. No marxismo é preciso ter carisma e valer-se bem de suas próprias ideias, respeitar costumes culturais e a vida como ela é, mas sempre seguindo para frente.

   Não devemos ser proselitistas, falamos como acreditamos piamente nesse conjunto de ideias  e valores, mas não devemos forçar ninguém a nos ouvir. A revolução só é possível se for uma de dentro para fora, partindo  da transformação do indivíduo para a transformação de toda uma sociedade. Não devemos negar o papel do indivíduo, o indivíduo faz a História, normalmente não como ele a quer, mas ainda assim faz História.

     A Revolução é História. A Revolução parece ser o caminho, mas não a Revolução levada a ferro e fogo. Mas uma revolução feita a partir de palavras, mudanças de pensamento e de ideias. Uma revolução dentro de nós mesmo.

     As revoluções sanguinárias levam a linhas difíceis e a supra ditadura, o socialismo devia ser dissociado de ditaduras, mas os próprios marxistas mais populares tentam valorizar o papel de ditadores e sanguinários: Fidel, Che, Chavez, todos esses devem morrer, filosoficamente eu digo. Eles representam o passado que devemos transcender, devemos evoluir e não regredir nos nossos próprios pensamentos.

    A vida é um constante caminhar, um eterno recomeço, mas um começo que não deve se repetir todo o tempo. Agradeço aos que leram esse ensaio filosófico daquilo que eu próprio acredito. Se sou utópico, com certeza não me vejo assim, mas se sou ditador, com certeza não o quero e nem um dia quererei ser.

    A vida é pulsante demais para se prender a puros dogmas artificiais e burocratas inconsistentes. É nisso que hoje acredito, nessa teoria, nesse desenvolvimento socialmente sustentável, que tanto o próprio Bukharin tentou uma certa época trabalhar. É nisso que acredito, mas respeito quem não acredita nisso.

Memórias de um cavalariano

      "De vagão em vagão, trilho por trilho, cortando as veredas antigas e intocadas do interior a locomotiva de estrela vermelha esguichava o vapor no pôr do sol alaranjado naquela planície na divisa da Ásia Central. A lenta travessia do maquinário se desenvolvia de maneira constante entre suspiros e brandidos metálicos dos parafusos naquele trilho retilíneo no meio do nada.

     Na avenida central, dia e noite, a bandeira de nosso líder flamula preguiçosa no leito branco das estepes, conduzindo nossos homens através dessa parte intocada da Ásia. Nessa avenida central, dia e noite, a vida corre mais rápido, nossas vozes tornam-se mais fortes, nossos passos são mais velozes e os nossos trilhos mais curtos enquanto o trem parte rumo ao Sul.

      A legião dos trabalhadores é nossa grande companheira, a ela juramos defender, enquanto nosso general está conosco para defendê-los, em nossas casas, em nossas vilas. Não deixaremos um só pedaço de terra para os inimigos.

      Corro atrás do trem no meu cavalo, lado a lado, suas patas são ligeiras, mas não tão rápidas quanto o trem. Dobro minhas pernas batendo nas ancas do animal, enquanto sibilo minha espada reluzente ao alto. URA! Aplaudam a grandiosidade do nosso exército enquanto nossos inimigos estão fugindo quando estamos lhes dando uma surra infernal.

      De estação em estação, de vila em vila, não deixaremos que eles vençam, que tomem as terras de nossos pais. De Kalach a Kazan, estamos aqui para nos defender de nossos inimigos covardes que hoje estão fugindo frente a ti, locomotiva!

     Em Kalach os canhões fascistas erraram a mira, e nosso trilho, nosso comandante, nosso glorioso Exército com suas ushankas e katyushas, libertou a pequena cidadezinha. Dia e noite, cavalgo pelos campos enquanto tu, oh locomotiva, leva nossa força de norte ao sul, de sul para o oeste.

     Noite e dia, viva a ti, oh Locomotiva! De madrugada em madrugada iremos agora, todos juntos acabar com a besta fascista! Embora não saibamos o que estar por vir na escuridão curta e negra da noite sera apagada pela  grande estrela vermelha.

     Nossos trilhos são grandes e largos, nossos caminhos são obscuros e negros e tu estrela vermelha, nos guia!

     Cavalgo sem sela lado a lado da ferrovia, noite e dia, tão rápido, tão ágil, com a espada na mão e paz no coração. Rápido, mais rápido, rumo ao vagão no meio da escuridão. Estrela polar me guia nessa luta noite e dia, grande estrela vermelha.

       Rápido, mais rápido. Pode relinchar, meu caro cavalo, mas a locomotiva não para, muito menos a guerra. De Kalach  a Kazan estamos aqui para nos defender de nossos inimigos covardes que hoje estão fugindo frente a ti, locomotiva!

      O acordeon toca uma balada logo ao fundo, os soldados cantam rápido enquanto o meu cavalo trota nessa estepe desvairada, estrela polar guia-me nesse dia..."

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Hoje o céu estava bonito

       Hoje o céu estava bonito... A chuva descia cortante pela diagonal, pintava minha camisa de outra cor e eriçava os pelos de minha nuca, de certa forma eu me senti bem ao levar aquele frio ar úmido no meu rosto, mas hoje o céu estava bonito.

      O céu o dia inteiro se apresentou meio nublado, tomado pelo acinzentado mau humor que nos caracteriza nas tardes de terça-feira, prenunciava uma grande chuva, que no fim, acabou caindo, mas o céu hoje estava bonito.

     Não que fosse bonito em rigidez ou em formas, mas a massa cinzenta das nuvens descarregando a chuva no asfalto tomava matizes bem mais coloridas do que eu já imaginara. Um incandescente alaranjado irradiava o céu em tonalidades de marrom, enquanto no fundo ainda se desenvolvia o azul celeste em alguns pontos e o negro da noite que adentrava sobre a paisagem. De longe se formou um belo arco-íris.

     O asfalto continuava com filetes de água, tal como um espelho, por onde os carros passavam lentamente e ninguém  falava nada. Nem era preciso, hoje o céu estava bonito, se tivesse uma câmera provavelmente daria inveja até mesmo o próprio Van Gogh, mas tudo o que tenho são palavras e vírgulas. Mas hoje o dia estava realmente bonito.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ando tão triste...

         As pessoas andam sendo educadas comigo e até amigáveis, eu acho tudo isso muito estranho; Pessoas que eu nutria desconfianças se revelaram mais amigáveis do que a encomenda, na verdade até divertidas, enquanto outras simplesmente me decepcionaram mais do que o mais infeliz dos filmes em cartaz.

       Pessoas que olhavam torto para mim, hoje me consolam, tentam me fazer rir de novo, falam que não deveria ficar triste com nada, e que um fracasso é a ponte para a vitória. Tudo é muito novo, demoro a me acostumar, faço amigos tão rápido hoje do que fazia há um ano atrás, e até hoje não sei porquê. Por quê?

      Sim, não rejeito ninguém, trato todos com cordialidade e como amigos, mesmo assim ainda não entendo. Às vezes eu me importo, embora finge não me importar com os outros, não que eu me sinta mau, na verdade eu sou mesmo, mas porque esse sou eu por definição.

      Em contrapartida a pessoa em que eu mais confiava trouxe-me grandes tristezas, não sei o que dizer disso; Eu acho que tentaram me alertar sobre algo parecido, talvez eu não tenha dado ouvidos, não que hoje eu odeie essa pessoa, mas eu ando tão triste!

      Nossa como ando triste! Estou talvez a caminho da pura depressão e não quero nem consigo me levantar, vejo minhas forças se esvaírem tal como o meu raciocínio tomar outras formas. Perdi a graça há muito tempo, mas hoje perco o meu sorriso, era um sorriso triste é claro, melancólico e discreto, mas mesmo assim hoje eu o perdi.

     Talvez eu o recupere amanhã e o perderei depois, assim nessa síncope emocional que perpassa-me todos os dias desde que acordo até a hora em que vou dormir. Deve ser por isso que acho tudo muito estranho, talvez por não ter me acostumado a viver assim. Espero que o caro leitor entenda, que ultimamente eu ando meio triste, mas que um dia posso me levantar, a melancolia desaparece e surge mais dia ou menos dia e nada muda quando essa dor sobre o meu peito não desafogar o meu coração.

21:53

       São vinte e uma horas e cinquenta e três minutos de algum dia de fevereiro, prestes a acabar mais um novo ciclo metafórico de autopiedade e sofrimento, entendo tudo isso de forma literal e não muito passageira, um desvaneio qualquer depois do Carnaval.

      Hoje é dia vinte e cinco de mais de 4,5 bilhões de anos da Terra, 4,5 bilhões de giros preguiçosos em torno do Sol, num universo sem rumo que se expande através do espaço. 4,5 bilhões de revoluções feitas em torno do Sol enquanto o Equador preguiçoso continuava a girar em torno de seu próprio eixo.

      Sim, girar em seu próprio eixo, seguindo as leis de Newton sem tomar grande nota desses desastres matemáticos que em termos filosóficos versificam a própria graça. Hoje olho para tudo isso com fascínio e repulsa já que o mundo gira ao meu entorno e eu giro em torno do mundo.

      Estou meio depressivo hoje, tal como nos outros dias. O céu nublado fechou o meu peito tal como o cálculo fechou a minha mente. É, hoje é um dia depressivo. Fracasso após fracasso, nada mais de vitórias, apenas fracassos, derrotado, talvez seja essa a definição. 22:01

     Não que me importe com isso, só penso em como os cientistas não entendem que E= m c², e sendo m igual à massa e c igual a velocidade da luz, temos que a energia é igual ao produto da massa pelo quadrado da velocidade da luz.


    Assim, é por isso que me falta energia para fazer as coisas, pois não consigo fazer tudo na velocidade da luz, eu me desintegro como átomo, pior que isso me converto totalmente em energia e não consigo mais me converter no que era de início. Pareço um físico filosófico.

    Os cientistas não percebem o poder que eles tem nas mãos, acelerando um objeto na velocidade da luz é possível transformá-lo em energia e transpô-lo para outro lado do mundo, podendo talvez um dia reintegrá-lo como era antigamente, mas sempre há uma perda de energia. O teletransporte não é uma ciência perfeita.

    Queria poder me teletransportar dessa realidade, mudar de uma hora para outra de ares, respirar uma nova vida, pulando de galho em galho na física quântica de Einstein, conversar com os homens do passado, aprender com os homens do futuro, conhecer o mundo inteiro em apenas um segundo. 22:08

     Pena que estamos na dimensão do Espaço-Tempo em que não podemos voltar atrás e nem podemos avançar muito à frente. Bem que me disseram que não devia confiar em você, sim, em fatores quânticos e de análise amostral meu corpo transpira calor tal como uma máquina de Carnot toda vez que penso em você, minhas mãos tremem e minhas pernas dobram-se.

     A reverberação da minha voz interfere nos meus próprios sentimentos e ainda assim trata de maneira tão ignóbil a ciência desse sentimento, não a culpo, mas também não mais confio em você, tenho que rever meus cálculos e estudar bem a gravidade com as injeções de endorfina sobre o meu peito causaram a esse triste coração apaixonado.

     Sim, 22:13, e quem disse que com ciência não se rima?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Para a maioria, a filosofia não basta, exige-se a santidade" (conto)


Num bar, desses botecos “copo-sujo” da capital estavam dois homens sentados junto a um balcão, o primeiro, um trabalhador qualquer da indústria civil, suado com a roupa repleta de nódoas de cimento do trabalho. Degustava feliz o seu copo de chope enquanto o outro, um homem fino e pequenino comia os amendoins enquanto esperava o seu conhaque.

Vem então a desculpa: o "tremor da carne", que abalou muitos mártires[1], você gostaria de conhecer alguém, pergunta a essa pessoa tanto quanto puder[2], não canso de dar bons conselhos ao meu irmãozinho e à minha irmãzinha, e os repreendo, mas é o mesmo que pregar no deserto.[3] Foi assim que uma conversa entre os dois começou.

Papo vai, papo vem, o segundo homem tomou um gole de seu conhaque e espremeu um pouco de limão em cima e começou a retomar a história que contava:

“Trata-se dum reservatório preso às costas, no qual se armazena ar...[4] Por mais zangado que estivesse, o pai não conseguiu conter uma gargalhada.

— Você não é meu filho — é um esquilo![5]

Se me escamei? Enfureci-me! Pus-me aos coices. Dei por paus e por pedras. Quase que me peguei com dois ou três deles. E acabei por me vir embora. Isolei-me[6]

Eis aí, por exemplo, um homem culto sofrendo os remorsos de uma consciência requintada, torturado por um sofrimento moral, perante o qual todo outro sofrimento nada significa[7]

Direi apenas que o pintei com horror, mas pretendi, custasse o que custasse, superar minha repulsa e, sufocando todo sentimento, me manter fiel à natureza.[8] Os senhores podem ver que esta nossa carne continua sendo ardentemente caçada, meus amigos[9].”

— Decididamente é um homem de imenso espírito[10]

— Por quê?

— Por tratares de filosofia em semelhante conversa. Parece até um mestre de dialética.

— Jamais fui mestre de ninguém, embora nunca me opusesse a jovem ou velho que desejasse me ouvir na execução de minha tarefa[11]

— Verdadeiramente és um poeta.

— De maneira nenhuma! A alma humana e seus limites, a esfera de experiências percorrida até o presente pela alma humana, os cumes, as profundezas e a extensão dessas experiências, toda a história da alma até nossos dias, suas possibilidades não realizadas ainda, tudo isso é o distrito de caça reservado para o psicólogo nato. Para o amigo das grandes caçadas[12]

— Quer dizer que é psicólogo?

— De maneira nenhuma, sou apenas um caçador de histórias, e estou contando-lhe uma. E para tanto, deves tomar muitas precauções antes de chegar a esse ponto[13].

— Sabe, meu caro, você é um cara engraçado, brindo a isso — bebericou o seu copo de cerveja.

— Não é surpreendente que você pense assim, já que não tem da realidade nenhuma representação que não seja falsa[14] Veja, por exemplo, o desejo da conquista. O desejo da conquista é, com certeza o mais comum e natural entre os homens, e quando eles se entregam a ele e são bem sucedidos, são louvados. Entretanto, quando lhes faltam meios e eles tentam de qualquer maneira, cometem um erro que merece censura[15]

— Ora, nem sempre é assim, meu caro. Na construção civil nos pensamos diferente, gostamos de dizer algumas banalidades às que passam, mas nem por isso somos assim. Eu confio nesse principio.

— Todo o universo da cidade e tudo o que havia feito a confiança no presente em sua superioridade não passavam de ruínas.[16]

— Não acredito nisso, moço.

— Tudo é passageiro, meu caro. Até a chuva de verão é efêmera frente ao calor tropical.

— Realmente o senhor é bem pessimista. Vejamos o jogo.

— De maneira alguma sou um pessimista, apenas sou um caçador de histórias, e um dia até eu irei contar essa história para os meus conhecidos. Passar bem, e não se esqueça, a vida é um jogo.

Bebeu um último gole de conhaque e saiu, o pedreiro sorriu-se de tudo aquilo e do jeito ridículo como aquele homenzinho contava suas histórias, até que percebeu que tudo fazia sentido e fechou o seu sorriso, não quis mais beber o seu chope e foi para casa. O Flamengo tinha perdido outro jogo.




PS: É interessante notar que me vali do uso das afamadas notas de rodapé, principalmente porque no início eu não tinha uma ideia clara sobre o que seria esse conto, dessa forma, me entreti na maior parte do tempo em brincar com as palavras, como o caçador de histórias, assim tomei-me da licença de tomar emprestadas citações dos mais variados livros da minha estante justamente na página 61. Espero que gostem desse meu lampejo criativo, ou não. E antes que me acusem de elitismo o título foi retirado também de uma citação, da página 61, de Rumo à Estação Finlândia, de Edmond Wilson.



[1] Duby, Georges. Idade Média, Idade dos Homens. Pág 61.
[2] Miodunka, Wladyslaw. Cześć jak się masz?. Pág 61.
[3] Tchekhov, Anton. O Assassinato e outras histórias. Pág 61.
[4] Verne, Jules. 20 mil léguas submarinas, pág 61.
[5] Martin, George. A Guerra dos Tronos. Pág. 61.
[6] Pessoa, Fernando. O Banqueiro Anarquista, pág 61.
[7] Dostoievsky, Fiodor. Memórias da casa dos mortos, pág 61.
[8] Gogol, Nikolai. O retrato. Pág. 61.
[9] Shakespeare, William. Henrique V, pág 61.
[10] Dumas, Alexandre. Os três mosqueteiros, pág. 61.
[11] Sócrates.  Apologia de Socrates de Platão in Nova Cultural, Sócrates. Pág 61.
[12] Nietzsche, Friedrich, Além do Bem e do Mal. Pág 61.
[13]  Sun Tzu, A arte da guerra, pág. 61.
[14] Thomas Morus, A utopia. Pág. 61.
[15] Maquiavel, O Príncipe. Pág 61.
[16] Hartog, François. Os Antigos, o Passado, o Presente. Pág. 61.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Não acredito que você fez isso

Não acredito que você fez isso

Realmente não acredito
Não esperava isso
Logo de você?
Por quê?

Eu confiava em você
Eu a ouvia falar
E me trata desse jeito?

Abri-me por completo
como um livro de cabeceira
E você me pos na sua biblioteca

Brincou bons meses
com sentimentos e rimas
E joga tudo fora sem cismas

Lançou-me esperanças
Trouxe-me temperanças
E agora?

Eu não esperava isso

É bonitinha, mas
só fala por indiretas
Que triste! Eu gostava de você

Rimas de uma quarta à tarde

Na curva retilínea
Do sinuoso concreto
Deixo em aberto
Minha mente vazia

Sentado nesse gramado
Na penumbra da sombra
Olho para o passado
Que hoje me assombra

Na minha frente
Ergue-se um edifício
De Cúpula diferente
De um passado difícil

Eis o futuro que me reserva
Uma tarde filosófica
Num pote de conserva
Na noite mais estóica

13:13. O ônibus quebrou.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pathétique

       A vida cresce serena
       O adágio muda de forma
       No fagote da passarela
       Sem grande norma

       O florete prateado
       Torna aguçado
       O lamentoso e xistoso,
        Clarinete do passado

        Pathétique

        Invocada a lira
        Tece o violino
        Doces rimas
        No esplendor matutino


        Antigas lascívias
        Desmontam logo
        Sarrapilha serenata
        Na ode desdentada

       Pathétique:

       Doce sinfonia
       De platônicos amores
       E longos clamores

       Linda ironia
       Dos versos, licores
       Cortejam as flores

        Pathétique:

        Cisne ciscalho
        Alegre adágio
        De linda cores

        Da graça floreia
        Cresce sozinho
        O lamurioso pinho
     
         Pathétique:

         Amor passado
         Arco quebrado
         Violino desafinado

         Coração despedaçado
         Vinho estragado
         Ritmo levado

          Pathétique:

          Nada é firme
          Nada é livre
          Acabou a graça
          Acabou o brilho

           Pathétique.
       
     
     
     
       
     

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Esses dias

        Sinto-me meio adolescente hoje, daqueles que falam coisas estúpidas e são irritadiços com qualquer coisa. Reclamo de tudo, mas não quero fazer nada, brigo por qualquer coisa, me sinto feroz e respondão, mas não sei porquê.

       Pareço um adolescente carente que anseia por um abraço apertado, por ser ouvido e admirado, que se magoa com o jeito que a pessoa fala e como age. Sou um pouco adolescente nesse ponto, que se ilude com paixões juvenis e deixo-me levar, viro romântico e idealizo todo um futuro.

      Adolescência nos leva a cometer erros, a prudência nos leva a sermos senis. Sinto-me velho hoje, por não mais me iludir, por não mais me entregar às chamas da paixão ou aos desatinos do passado, desilusão, esse é o esporte querido a todo ancião.

       Coloco no rosto um sorriso falso, faço algumas palhaçadas e assim engano o mundo. Ou por vezes sou antissocial e não cumprimento nem ao mais caro dos amigos, caso-me com o meu trabalho e esqueço o verso imundo. O que há de errado comigo? Será que ainda gosto de pensar em você? Mas não posso.

     Sinto-me um adolescente, que se sente importante e acha que pode mudar todo o mundo, que acredita em alguns momentos em ser feliz, mesmo sabendo que somos colecionadores de decepções, a tristeza não passa, ela está comigo, ela se camufla, se esconde, mas sinto ela junto de mim, às vezes ela me toma, deixo-a que vença por algum tempo. Não importa, nada importa.

      Idiotice minha achar que você pensa em mim, enquanto vejo o relógio e vejo as horas se combinarem, isso é uma tolice quase infantil, maior tolice é ter pensado que daria certo, que você me amaria e que viveríamos juntos. Não, você não pode me dar algo que não possui, amor por mim.

     Idiota adolescente, é assim que me sinto hoje. Depressivo e triste, que fica pensando no ontem como se fosse o amanhã. Ontem me arrancou suspiros, hoje me tira o ar, eu ainda não consegui deixar de te amar. Estou fazendo errado, estou tentando esquecer, mas nesses lampejos adolescentes da minha vida trazem regressos e progressos dos quais eu não posso me ater.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Tédio

       Para mim mesmo ergui esse ataúde de vidro de complacência e autopiedade, deixo o vento cair sobre minhas costas, vindo do mais distante infinito. Não tremo nas estribeiras, fico só pensando, pensando no passado,  no presente e no futuro.

       Seria uma boa hora para puxar um cigarro do bolso e começar a fumar, mas não, o fumo é tão desgastante quanto essa continuidade. Melhor não perder o meu tempo com tais vícios. Prefiro pensar, pensar, sorrir com os meus erros, calcular novos planos e novas metas, ver se são possíveis. Não, nada de chorar, nada de se sentir infeliz. Seguir em frente! Esse é o caminho.

       O tédio me consome, não tenho mais ideias do que irei fazer. Escrever? Estou sem vontade, escrevi demais. Ler? Também já o fiz até as minhas mãos e os meus olhos se cansarem. O que fazer então? Sair? Não eu não vou sair, a cidade deve estar um inferno. Suja, tola e abarrotada de gente.

      Prefiro ficar reclinado no sofá, olhando para a televisão desligada me encarando com os seus catodos e filetes de cristal líquido, imaginando as bobagens que devem estar passando nessa tarde e de como a vida pode chegar a tal nível. Com uma pequena bola de tênis, dessas que compramos na rua, fico martelando a parede com os mais ínfimos pensamentos e divagações. A sala está escura, o vitrô da janela nem sequer foi aberto direito, mesmo assim o vento gelado bate nas minhas costas. Por quê?

      Será meu passado me assombrando nessa tarde melancólica ou será o meu futuro me alertando para os perigos da vida? Eu não sei. Mas eu sei que estou tranquilo, me sinto livre e calmo. Tudo é tão sereno, mas tão passageiro, até mesmo o silêncio que pode ser quebrado por um simples suspiro ou o gorjear de um passarinho.

      As ideias são transitórias nesse dia, martelam na minha mente tal como a bola martela a parede, mas no fim quicam e acabam escapando. Melhor assim, hoje não é um dia bom para trabalhar, hoje é um dia para ficar deitado olhando para o teto perguntando o porquê de estar entediado e contando os dias para voltar ao trabalho. Sim, o trabalho às vezes era divertido, mas esse tédio não.

      Não quero pensar no tédio. Talvez devesse aproveitar a tranquilidade dessa casa para ficar pelos cômodos relembrando algumas lembranças, poucas é claro, a casa ainda é nova, mas já tinha traços bastantes peculiares. Não melhor não, nem sempre lembranças são boas.

      Levanto-me do sofá, sigo para o meu quarto e penso no que fazer. Sim, assistir a um filme. Como não havia pensado nisso antes. Eisenstein, com tudo que havia direito: Ivan, o Terrível, ver todas aquelas conspirações e mortes que só o Eisenstein sabia fazer. Eis que ligo o DVD e penso: "Esse tédio é tão fácil de ser contornado quanto um evento passado". Decido escrever um pouco e me tranquilizo com isso. 14:14,  mas que reloginho infernal!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Papa se empapou





       Após 600 anos passados, um Sumo Pontífice teve a coragem de renunciar ao cargo supremo da cristandade católica ocidental. Josef Ratzinger, o papa alemão, o velho septagenário que assumiu depois da morte de Karol Wojtiła no também cargo de Pontífice Maximus da Igreja.

     Essa figura fã incontrolável de Mozart e Bach, falante de pelo menos cinco línguas, mas que poucos prestavam-lhe atenção.

      Ratzinger não tinha o carisma de Wojtiła, era visto como um papa durão e inflexível, a sua condição de alemão ajudava a reforçar isso. Para piorar o papa vivenciou a Segunda Guerra, esteve na Juventude Hitlerista e acabou sendo integrado ao Wermarcht, o início de sua trajetória não podia ser pior, alemão que viveu o nazismo, o pai era comissário de polícia do Reich, logo quando jovem foi integrado à Juventude Hitlerista e acabou sendo aprisionado num campo de prisioneiros na Baviera.

Ratzinger quando jovem, note o distintivo do Reich em seu peito.
     Os opositores nunca se esqueceram disso, na verdade ressaltavam esse aspecto. É verdade que muitos tinham a desconfiar desse velhinho, principalmente frente ao papa João Paulo II, que era polonês e viu o lado amargo da guerra. Eu mesmo via com antipatia o papa Ratzinger.

     Não são poucas as biografias que enaltecem Bento XVI dizendo que ele não era a favor do regime, que ele era contrário a tudo que representava e etc. Isso não convence, é como se quisesse justificar o Papa dizendo que ele foi porque era forçado, isso em parte era verdade, mas o que nos garante que o pequeno rapazinho não acreditasse no regime? Isso eu não sei.

     A verdade é que perdoem-me os mais antigos, a questão da associação com o nazismo não é uma coisa bem superada nas gerações mais velhas na Alemanha. É como naquele filme de Michael Vernhoeve, Uma cidade sem passado (1990), onde a protagonista, uma jovem estudante de História, investiga o passado de uma provinciana cidade chamada  Pfilzing, que se orgulhava de ser um bastião de luta contra o nazismo, mas no final ela descobria  que a população mais antiga estava metida até os joelhos com o hitlerismo e ela acaba sendo perseguida.

     É isso que eu penso quando vejo alguém dizer que alguém era totalmente contrário ao nazismo, retirando o Oskar Schindler e alguns poucos jovens do grupo Rosa Branca, fica difícil de acreditar na total idoneidade dos indivíduos frente ao regime.

      Enfim, a discussão perdeu um pouco o seu foco.

      Como ia dizendo, Ratzinger vivenciou esse período e acabou sendo preso. Mas logo em seguida entrou para o seminário católico e em 1951, ele e o irmão acabaram sendo ordenados sacerdotes pelo Arcebispo de Munique, se tornando a partir disso professor de teologia, tendo por tese de doutorado um estudo sobre Santo Agostinho.

      Foi assim que a sua carreira decolou, e depois do 2° Concílio do Vaticano, ele foi classificado como especialista em teologia, e em 1977 foi feito Arcebispo de Munique. No seu arcebispado, houveram denúncias de conivência com casos de pedofilia envolvendo padres, que supostamente o próprio arcebispo tinha acobertado.

     Em 1981, João Paulo II, o novo papa, o apontou como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, onde nesse cargo ele passou a perseguir antigos defensores da Teologia da Libertação, impondo ao frade Leonardo Roff voto de silêncio por ter ideias socialistas um pouco enraizadas (não necessariamente marxistas, devo apontar). O Vaticano teve um caráter dúbio com as ditaduras na América Latina, assim como teve com os regimes totalitários na Europa. Alguns de seus expoentes se revelavam contrários aos desígnios dos regimes, mas outros eram fervorosos apoiadores, o fato é que Roff era um desses críticos da Ditadura Brasileira.

Não à toa que alguns comparam o Darth Mal de Star Wars com o Papa Ratzinger, e de fato há uma semelhança

     Ratzinger foi sempre tido como figura obscura para quem era de fora da Igreja, mas se especula que ele agisse no foro fechado dos escalões da Igreja, a verdade é que quando João Paulo II morreu, ele era a figura mais preferida para suceder o Papa, embora já estivesse bem velho.

      Os observadores achavam que ele seria um Papa transitório, é verdade. Se comentava isso nas ruas, mas mesmo assim ele foi empossado.



(Habemus Papam)
Annuntio vobis gaudium magnum; habemus Papam:       Anuncio-vos com grande alegria; já temos o Papa:
Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum,            O Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Dominum Josephum                                                     D. José
Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem Ratzinger          Cardeal da Santa Igreja Romana, Ratzinger
qui sibi nomen imposuit Benedicti Decimi Sexti.            Que adotou o nome de Bento XVI.



       Se esperava do novo Papa um retrocesso, que como João Paulo II já era conservador, esse papa seria mais ainda. Mas pelo contrário, Ratzinger fez algumas reformas, embora não todas, importantes. Desde a Igreja ter agora um twitter oficial, até aceitar o uso da camisinha entre as prostitutas, por questão de saúde, vale frisar (mas não entre os casais). O papa condenou os regimes ditatoriais na Síria e na Líbia, embora ele próprio tivesse tido problemas dentro de casa.

      Um de seus mordomos realizou atos de espionagem para a Imprensa Italiana, divulgando informações sigilosas da Cúria. Algo que foi sagazmente chamado de VatiLeaks, em referência ao WikiLeaks, do Assange. Foi uma situação bastante difícil para o próprio Vaticano, o papa deu o perdão ao mordomo, mas não acredito que a situação na Igreja fosse de boas relações com o dito cujo.

     Quanto ao papel ideológico, Ratzinger continuou a doutrina da Igreja no foro político, dizendo os mesmo lugares comuns da solidariedade e da responsabilidade dos ricos dividirem com os pobres, mas que esses também não se revoltem, etc. etc.

      Ratzinger com certeza não tinha os mesmos holofotes do que João Paulo II e com certeza era uma das figuras mais esquecidas no plano internacional. Na Espanha, a sua Jornada pela Juventude causou protestos gigantescos por causa dos gastos do papado num país em recessão, e logo em seguida o Vaticano tinha anunciado que em 2013 ela seria no Brasil.

Madri: polícia precisou intervir para conter protestos contra a visita do pontífice
Protestos na Espanha

     Agora fico curioso sobre como será essa Jornada pela Juventude no Brasil, com Bento XVI renunciando.

     A questão é que a renúncia do Papa foi uma surpresa, por quase 600 anos ninguém mais fizera isso, a última vez que aconteceu foi com Gregório XII, e segundo às más línguas, este estava desiludido com a Cisma da Igreja e com os desatinos políticos em torno do Papado (chegou-se ao absurdo de ter 3 Papas!).

    Também acredito que seja verdade quanto a Bento XVI, embora o Papa esteja velho, já passou dos oitenta há um bom tempo, ele talvez esteja desiludido por não ter voz e que o número de fiéis esteja decaindo, frente à expansão do islamismo, e da crescimento do ateísmo no mundo (não sem razão, vide de passagem).

     Em condições normais eu não faria uma postagem como essa, tendo em vista que eu me orgulho de ser ateu, mas a renúncia do Papa foi evento tão extraordinário que mereceu algum comentário.


Vá, e acho que você não deixará muitas  saudades


PS: Sobre o filme Uma cidade sem passado, de Vernhoeve, está disponibilizado no Youtube no seguinte link: http://www.youtube.com/watch?v=WNXjqc4aXds 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

É possível ser feliz vivendo sozinho?

        Sempre se construiu a ideia de que para ser feliz era preciso encontrar alguém, um amor. Fico pensando nisso hoje, será que para ser feliz é preciso encontrar um amor?

       Eu há pouco tempo acreditava que sim, acreditava que o amor entre duas pessoas era uma forma de transcender a solidão. Na verdade é mesmo, no entanto, não tenho mais tão fixa a ideia de que conseguir uma pessoa amada seja fator preponderante para uma pessoa ser feliz.

       Ao contrário da outra discussão que fala sobre o papel da individualidade na felicidade e se a a tecnologia nos estava deixando mais infelizes, essa discussão pergunta se é possível viver só e ainda sim sendo feliz.

      Não estou falando no sentido de que nos fecharmos para o mundo no mais perpétuo individualismo e sermos completamente reclusos numa ilha, não falo nesse sentido, estou falando que no convívio social é possível viver sem uma parceira ou um parceiro e ainda sim ser feliz.

      A problemática de toda essa questão é que se associa que para uma pessoa ser feliz ela deve estar em união com outra, mas quantos casamentos nós vemos de pessoas infelizes? Não o xis não parece ser esse.

     Na verdade, a felicidade é um conceito como outro qualquer, mas também é um estado de espírito, por essa razão não pode ser calculado, mas nem por isso devemos desprezar tal discussão tão rapidamente.

     O amor é um sentimento tão sublime que nos faz pensar em coisas belas, em sentimentos sublimes e nos faz dizer coisas idiotas. Nós passamos a ser mais amigáveis e mais amistosos quando amamos, pensamos que podemos ser felizes, às vezes nós nos sentimos assim, mas o amor é uma faca de dois gumes, do mesmo jeito que infla o coração, o maltrata. Do mesmo jeito que nos deixa felizes, ele nos entristece  O amor é volátil como qualquer outra coisa.

     Eu me apaixonei, várias e sucessivas vezes. Prometi que seria feliz e que faria com que também minhas paixões fossem felizes, até hoje desejo isso a elas. Continuo amando, não posso mais dizer quem, mas eu amo, mas isso não vem ao caso.

      Percebi que mesmo amando, ela não seria feliz, percebi que talvez não fosse o mais adequado, e julgando melhor não desperdiçar uma amizade insistindo e trazer maior infelicidade para mim mesmo, eu me afastei. Deixei-a ir, no início foi duro, depois me acostumei. Era melhor assim, preferia vê-la feliz do que outra coisa.

       Não sinto dor, não mais. Percebi que quando eu amava eu me prendia, às vezes sofria. E não queria mais saber disso, foi aí que eu pensei que possivelmente o xis da minha felicidade não fosse isso,  que talvez a fonte da minha infelicidade fosse a procura por outra pessoa e comecei a pensar se ficar sozinho não era mais sereno. Não queria ter pensado nessa ideia no início, mas se fez  cada vez presente, e comecei a entender que não me importava em ficar só, que era até mais fácil, não precisava me prender a nada, nem a ninguém, que poderia seguir o meu caminho sem me importar.

       Que podia sorrir, me divertir e trabalhar sem a necessidade de ninguém. Prometi que não ia mais importar com nada, que seria feliz do jeito que eu era e que bastava esquecer que um dia sofrera de amor. Simples assim, encarei a vida com realismo. Talvez fosse mais saudável assim.

       As pessoas acreditam que sempre haverá alguém com quem elas possam amar e contar, sejam héteros  gays, lésbicas ou outros gêneros. Mas e se essas pessoas simplesmente não existissem? Parei para pensar nisso, então a busca por outras pessoas só seria a negação da realidade. As pessoas não são iguais, não têm as mesmas necessidades psicológicas e crises existenciais. Foi aí que eu pensei que poderia viver sozinho, sem problemas e nem complicações, sem tristeza e nem remoço. Mais fácil assim, bem mais fácil. Somos mais acostumados a viver sós do que acompanhados.

      Não que eu não me sinta atraído por uma mulher, não que eu lhe negue um olhar se achá-la bonita. Mas simplesmente não preciso construir qualquer espécie de relação com ela, posso viver sem construir relacionamentos, vivendo sozinho.

      A solidão parece triste no início, mas depois você se acostuma. Você pode ser solitário mas não sendo individualista, é o individualismo a raiz da tristeza e esse dogma acaba produzindo um modo de solidão danoso, a solidão masoquista, em que o individuo se martiriza por viver só e ninguém gostar dele. Mas eu não me martirizo mais com isso, eu aceito isso, aceito que ninguém possa gostar de mim, e me sinto livre com isso, não sinto nenhuma dor, nenhum sentimento ruim. Nenhum choro.

       Por isso eu acredito que seja possível ser feliz vivendo sozinho, na verdade espero conseguir algum dia esse objetivo.

Avanço tecnológico X Solidão

                          (Um diálogo existencial sobre o papel da tecnologia na vida solitária do homem)

       É possível que com o avanço tecnológico, o avanço da ciência e de uma sociedade pautada em computadores o futuro reserve apenas solidão?

      Essa pergunta inicial é capciosa, mas é possível? Será que estamos trilhando um caminho próprio para a nossa própria infelicidade?

      Não me tomarei de tamanho pessimismo, na verdade, eu sou da vertente de Victor Hugo, que diz que o homem é um individuo infeliz por sua própria natureza, mas também não podemos esquecer de uma coisa, que caminhos trilhamos?

        A noção de indivíduo é um produto recente, ela só surge mesmo com o iluminismo e com a Revolução Americana, onde se define que cada pessoa é responsável por si e por seus atos, em detrimento da co-autoria coletiva, que acaba deixando de existir. Isso em certa forma foi benéfico, pois foi a aceitação que originalmente somos entidades separadas uma das outras, mas é também uma coisa perigosa, pois no fim, os delitos cometidos no coletivo, como por exemplo, a questão da aceitação do regime nacional-socialista, que após a Segunda Guerra, só alguns foram responsabilizados por isso, mas o próprio regime era amplamente popular na Alemanha, como também na Europa.

     Enfim, o individualismo e a questão da individualidade é o que pauta a organização social ocidental desde o primeiro feixe desse pensamento no Iluminismo. A despeito de o individualismo ser produto de uma sociedade capitalista por excelência  ele é produto também de uma sociedade onde a noção de liberdade é plenamente desenvolvida.

     O socialismo soviético teve como base a supressão propriamente dita da individualidade frente ao coletivo, a mera especulação de bem pessoal era tida como contrarrevolucionária e decorrente apenas de uma sociedade burguesa onde não se havia o amor ao coletivo. O nazismo se pautou também na supressão da individualidade, acredito que seja talvez por isso que os dois sistemas acabaram se esfacelando internamente, por ignorarem a pessoa, o pensamento de um ser, frente ao pensamento coletivo, por ignorarem novas formas de pensamento, ou pensamentos contrários frente aos "interesses" da classe trabalhadora, ou no caso do nazismo da "raça superior".

     O individualismo estimula a livre iniciativa, querendo ou não. Estimula reflexões independentes,  diferentes das atuais, isso é mais fértil em sociedades onde há a liberdade de alguma forma concentrada. É por isso que o avanço tecnológico das sociedades capitalistas conseguiu se manter, além de outras coisas como a concorrência, etc.

     Se dirá que a Alemanha Nazista deu um amparo total ao desenvolvimento científico. Realmente sim, da ciência e também da pseudociência, mas fundamentado apenas pela sua ideologia.

       Em todo o caso, o desenvolvimento tecnológico alemão dessa época é bem mais associado ao desenvolvimento bélico  e para reforçar a ideologia do Partido Nacional-Socialista. Salvo uma ou duas ocasiões, o regime nazista se preocupou com o desenvolvimento de tecnologias para o cidadão alemão comum e basicamente foram para os dilemas do próprio regime:

         O Volkswagen é a ideia de um carro popular, retirando-se a ideia do Henry Ford do Modelo T, por quem Hitler tinha bastante admiração, para que cada trabalhador alemão com sua família pudesse ter um automóvel barato, tendo em vista que carro na Alemanha era uma coisa cara, e um dos segredos para você reinjetar a indústria, além de dar incentivos econômicos ou aquecer a indústria bélica, é estimular o mercado interno, principalmente se for na indústria automobilística, porque tem maior valor agregado. O governo brasileiro tentou fazer algo relativo a isso com a sua afamada redução do IPI para automóveis.

       A Fanta, outro produto da Alemanha da época de Hitler de consumo popular, foi inventada pelo braço da Coca-Cola em resposta ao problema que a Alemanha vivenciava de abastecimento de produtos, onde teve que se optar pela substituição do ingrediente principal, a folha de coca, da produção, por ser muito caro, e substituí-lo por laranja ou uva para sair mais barato. Isso foi uma invenção basicamente por substituição.

      Assim, os dois grandes avanços nazistas foram para dilemas existentes do regime, e não por uma necessidade pessoal de um individuo, de fato o indivíduo nessa ótica, deve ser esquecido para a "grandeza da Grande Alemanha" ou da "raça superior". É possível que chegaria uma época que a sociedade alemã iria se cansar dessa recusa da individualidade e a produção tecnológica alemã acabasse por se estagnando tal como na União Soviética. Mas é claro, isso é especulação.

      Se falei de Alemanha, justo será falar daquilo que sou mais familiarizado, União Soviética. Esse experimento de sociedade socialista sem classes que se prolongou por todo o século XX. A União Soviética  incentivava da mesma maneira o desenvolvimento tecnológico como a Alemanha hitlerista, de acordo com preceitos ideológicos e não por necessidades individuais.

      Enfim, mesmo com esse investimento. Os principais estudos que viriam a se tornar uma especialidade na URSS, tiveram seus primórdios no período do Império. Os estudos de Pavlov sobre neurologia e desenvolvimento cognitivo que viriam a ser usados na medicina soviética, foram desenvolvidos em 1904. O programa espacial soviético, que por um bom tempo esteve à frente do americano, teve por base os escritos de Tsiokovsky em meados de 1895 e se prolongaram até a sua morte em 1935, sobre o cálculo de propulsão que um objeto precisaria para deixar a órbita terrestre. Não é a toa que logo na Segunda Guerra, os soviéticos usavam os seus afamados foguetes Katyusha.

     O regime aceitou tais estudos e os incentivou, pois não interferiam diretamente na ideologia do Partido, mas tal como na Alemanha, o desenvolvimento de conhecimentos diferentes era restrito e até proibido. Não a toa que na biologia, a União Soviética penou na questão agrícola, justamente por não concordar com a ideia de seleção natural de Darwin, e sim com o neolamarckismo de Lysenko, que se revelou um imenso fracasso. O mesmo pode ser dito da história, da economia e da filosofia, que sofreram um processo de castração semelhante ao que aconteceu na Alemanha nazista.

     Esse pequeno estudo mostrou que apesar dos regimes totalitários se vangloriem por desenvolverem a tecnologia e a ciência, isso é ilusório, pois só desenvolvem em áreas que lhe são convenientes, principalmente nas armas, e castram o desenvolvimento de ideias diferentes das suas, embora as democracias liberais não tenham propriamente um amparo à tecnologia, elas não frustam necessariamente outros pontos de vista, e não desenvolvem tecnologias alternativas.

      Essa divagação apenas contornou a problemática da questão. O desenvolvimento tecnológico irá nos levar à solidão?

      A questão é que eu não sei. Espero que não, o desenvolvimento tecnológico até agora nos conduziu para mais e mais individualismo. Você observa que ninguém pensa no coletivo, as pessoas pensam mais em si e vivem cada vez mais sozinhas, alguns vivem perfeitamente sem cumprimentar o seu vizinho (na verdade, eu também faço isso, mas é porque eu odeio os meus vizinhos), até para uma pergunta simples, do tipo: "Vai chover hoje? Que horas são?" As pessoas patinam na conversa, falam o mínimo possível.

      Eu mesmo sou individualista, eu tenho medo da multidão, tenho medo do que ela pode fazer, do jeito como se dirige, mas sei que o individualismo não é normal, assim como não é normal deixarmos tudo para o coletivo. O ser humano se caracteriza por ser um individuo social, que se inter-relaciona entre si, mas não se esquecendo a sua unidade, então ele deve estar no misto de individualidade e coletividade. No equilíbrio.

      Mas não é o equilíbrio que nos caracteriza, somos individualistas. Vivemos apenas com os nossos computadores, com a televisão, enclausurados em nossas casas e nossos trabalhos. Desejamos ter apenas o nosso carro, o nosso emprego, a nossa casa, a nossa vida.  Somos sim individualista. Não pensamos no outro e quando pensamos é com muita dificuldade.

       Alguns tentam transpassar a individualidade procurando alguém, muito dificilmente acha, mas quando acha, nem sempre está disposto a fazer sacrifício, nem sempre pensa na felicidade da pessoa, e se torna uma pessoa possessiva e passa a considerar a outra pessoa sua propriedade.

       Não, não deve ser assim, a outra pessoa tem direitos, ela não é SUA namorada, no máximo uma companheira, alguém para dividir a sua jornada. Alguém com quem você se importe, com a sua felicidade e harmonia, e se necessário fazer sacrifícios. Essa é a lógica de tudo. Se preciso, para essa pessoa ser feliz, você precise se afastar dela. A individualidade nos impede de fazer isso, nos torna cegos e egoístas.

       Procuramos a felicidade, mas não sabemos como. Não queremos nos sacrificar, mas também queremos tudo. Essa é a lógica individualista que julgo ser individualista, isso surgiu na nossa sociedade, foi construído com o passar dos anos e não conseguimos até hoje transpassar esse nível, nem com o marxismo conseguimos isso.

       Não somos felizes com os computadores, não somos felizes tendo óculos Ray Ban, ou carros esportivos. Somos felizes quando nos sentimos completos, e às vezes se sentir completo não precisa disso. Para nos sentirmos completos, devemos também completar as outras pessoas, ajudá-las se preciso. Mas só as que realmente importam, as outras podem ser perfeitamente ignoradas dependendo de nossas aspirações.

       A tecnologia não nos completou, nem nos completará. Completou o ciclo da demanda, a roda do consumismo, nos fez desejar outras coisas, passar a nossa necessidade patológica de sentirmo-nos só para a necessidade de comprar e assim acabar com as nossas frustrações, mas a raiz do problema continua.

      Dir-se-á que a internet uniu as pessoas, integrou-as, fez com que pessoas de várias partes do mundo se unissem e conversassem entre si, estreitou pontes e etc. Isso é uma grossa mentira, a internet tem esse potencial, mas está sendo sub-aproveitado. Nós estamos cada vez mais isolados e não nos comunicamos com nada além de uma caixinha, ou com uma pessoa que está on no Facebook. Mas quantas pessoas estão Online no Facebook? Conversamos com umas duas ou três talvez. É isso então, conversar com três pessoas numa caixinha, coisa que seria melhor falando pessoalmente. Tudo é frio, tão frio quanto o Espaço.

      É por isso que acredito que estamos ficando cada vez mais individualistas, o Facebook é uma rede social antissocial. Você fala com as pessoas, curte os seus comentários, mas não quer conhecer todas elas. Você quer falar de si, por si e para si e quer que os outros leiam, para se sentir especial, para inflar o seu ego e perceber que não está só, mas no fim  está.

      Onde está a graça de tudo isso? Não há.


      Há como mudar? Eu também não sei, mas como Fernando Pessoa escreveu em seu Banqueiro Anarquista, a Revolução parte do individuo ajudando de maneira solitária e paciente para controlar o sistema e por fim vencê-lo usando as forças do sistema. Assim, um stalker é por excelência um vencido pelo sistema antissocial da tecnologia e alguém comunicativo é alguém que está conseguindo transcender a sua condição de indivíduo solitário.

    A tecnologia foi feita para ligar as pessoas e vem sendo sub-aproveitada, na verdade todo o seu potencial está sendo jogado fora em prol da propaganda e da sociedade de consumo, que por excelência é individualista, e mais do que isso hedonista e narcisista. A solidão caminha para o seu ápice e o perigo disso tudo é que chegue um dia em que não poderemos transcender tal condição. Esse é o perigo de tudo.

   

Por que eu odeio o Carnaval?

       Fevereiro é um dos meses mais tristes do ano, não só por ser o menor dos doze, mas por ser tão o mais difícil de todos.

      Alguns dirão: "Como pode ser triste? É o mês do Carnaval?" É justamente por isso que é um mês triste.


     Eu odeio o Carnaval de corpo e alma. Talvez seja um dos poucos brasileiros que tenha orgulho em dizer isso, o Carnaval é uma festa logicamente da podridão da fornicação, e isso eu digo sem ser moralista, pois até os moralistas tiram a saia nesse período.

    O Carnaval é a mera releitura da Festa das Bacantes, com o viés mais romano e sacramentado pela Igreja, onde as mulheres saem nuas por aí e os homens se embriagam com tudo que têm direito, acabando por sonegar a sua condição humana. É no Carnaval que acontecem os maiores números de assassinatos, estupros e roubos. É tudo por que? Porque as pessoas passam dos limites.

    É curioso como uma festa assim, com pessoas fazendo sexo na rua, mulheres andam nuas e gritando obscenidades, possa ser sacramentada pela Igreja, mas foi. O Carnaval é o dia do pecado, e a Quarta de Cinzas é o início do período de purificação do cristianismo, a Quaresma.

     Mas tudo por que? Talvez a lógica seja de para você se purificar você deve pecar? Eu realmente não sei, mas acho um pouco hipócrita que nesse período pessoas religiosas, que passam os seus dias nas Igrejas rezando, pedindo ao seu deus ajuda, se rebelem e façam todo o tipo de coisa nesses três dias. No Carnaval tudo pode? Mijar no hidrante como um cachorro, sair pela rua beijando mulheres à força, fazer sexo na rua? Isso pode?

      O falso moralismo brasileiro se desmascara por aí. O brasileiro aceita que a mulata saía nua na passarela do samba balançando seus atributos (não que eu reclame)  enquanto bebe cerveja e fala obscenidades, mas não aceita que duas mulheres se beijem na rua, ou dois homens.

      Na verdade, aceita as duas mulheres, desde que estejam na cama com ele, salvo isso ele é o primeiro a falar contra, dizendo que o homossexualismo é pecaminoso, que antinatural. Mas essa festa em si é antinatural.

      O brasileiro acha errado que dois homens se inter-relacionem, acha pecaminoso, mas não vê problema nenhum saindo vestido de mulher pela rua com outros milhares de machos pulando pela avenida. O que difere isso da Parada Gay? E ainda assim critica. É uma hipocrisia.

     E quanto às mulheres, algumas estão ali só pela diversão, só para dançarem e tal. Mas outras, parece que baixa um santo, e começam a fazer tudo o que não deviam. Baixam a saia, beijam qualquer um, aceitam fazer sexo na rua. Saem nuas na Sapucaí, mas ainda querem pintar de moças de família que não querem se envolver com alguém porque não querem sujar o nome. São moralistas, nos outros 363 dias do ano, censurando as mulheres que andam com roupas menores que as suas, mas no Carnaval elas andam até nuas!

      Isso é hipocrisia. Acham obsceno e imoral que os seus filhos vejam o jornal, ou mesmo algum programa que conte histórias alheias ao que a moral ensina, mas aceita que passe na televisão mulheres peladas mandando beijinhos nos trios elétricos e etc. Mas no Domingo, tem que ir à Igreja.

       O brasileiro anda pelas ruas com as máscaras de corruptos conhecidos, Dirceu, Maluf, fala mal da política, culpa Brasília como um mal perpétuo,  mas ele ao primeiro arrocho da Lei Seca reclama, e tenta subornar o guarda com alguns trocados para escapar do bafômetro. Não acha que dirigindo bêbado ele está cometendo uma falta.

      O brasileiro fala que educação é importante, mas é o primeiro ao ignorá-la ao aceitar que milhões de reais, que poderiam ser usados para as escolas, sejam usados para uma festa como essa. Liga na Globo, assiste os desfiles das escolas de samba, que são tão chatos quanto uma Parada Militar, mas fazem isso pelo prazer de ver as mulatas dançam seminuas numa passarela.

      "A saúde é importante", diz ele. Mas ele próprio esquece da importância do preservativo, dizendo que aperta, e acaba fazendo sexo sem proteção. Não a toa que o número de nascimentos de crianças cresce depois 9  meses após o Carnaval, e o de DSTs também. Assim os hospitais acabam inchando com coisas que poderiam ser evitadas.

      O brasileiro é irresponsável antes de tudo, deixa para resolver tudo na última hora. No caso das crianças, as mulheres na maioria são contra o aborto, pois para elas significa a morte, mas quando a criança nasce, algumas nem hesitam em abandoná-las. Se falar em um casal homossexual adotar a criança, tenha certeza quer boa parte das pessoas vão chiar.

      Três dias de hora vermelha, de total liberalidade, para 362 de moral e costumes. Ou é tudo ou é nada.

      O brasileiro se acha romântico, mas puxa a mulher pela força, a mulher saí pela rua exibindo até o umbigo (por dentro), mas se diz de família. Acha errado a corrupção, critica-a com as máscaras, mas paga o guarda com um trocadinho. Mija na rua, joga lixo. Reclama da enchente. Acha-se no direito de fazer tudo isso, porque o Estado tem que lhe servir porque ele paga os seus impostos.

      O Carnaval é a época do desrespeito, desrespeito com as mulheres, desrespeito às leis de segurança, desrespeito com as vizinhanças, desrespeito à vida. É a época onde a promiscuidade impera de maneira hipócrita, em que não se respeita outros gostos  e outros pensamentos. Forçam-nos a ouvir o batuque, cornetas, gritarias em horas inimagináveis. Saturam nossa mente, e nos deixam cansados. Por isso mais de 50 % dos cariocas deixam o Rio nessa época, segundo uma pesquisa do IBGE. Não os culpo, a cidade deve ficar um inferno mesmo.

       E nós vendemos essa imagem para o exterior, da mulata fácil que dorme com qualquer um, da tropicalidade, da algazarra e do povo que se diverte por natureza. Que não se importa se vai trabalhar e batuca em tudo que é lugar, quando os estrangeiros vem, eles pensam nisso, que as mulheres são prostitutas, que os brasileiros só gostam de farra e são malandros. Não dá para culpá-los por isso, e mesmo assim reclamamos do jeito que eles nos tratam.


       Antes que digam que eu sou contra o samba, eu digo. Eu gosto de samba, principalmente o melódico, o  antigo. Do alto dos morros dos anos 30, aquele triste, infeliz, aquele de Noel Rosa. Eu gosto de samba, mas eu não gosto é de panicat em cima do trio mostrando a calcinha sobre um barulho ensurdecedor com o Psy dançando Gangnam Style para uma multidão ensandecida de gente se esfregando, suada, cheirando a cerveja e achando tudo isso normal. Dos banheiros químicos putrefatos, dos assaltos, e das ruas sujas. Dos acidentes nas ruas e da hipocrisia. A hipocrisia do homem brasileiro.

       Eu posso estar sendo chato, sendo uma variação tropical de Nietzsche e Chomsky ao mesmo tempo. Mas eu digo, que se o Carnaval, essa festa importada, é a égide da cultura nacional, eu mesmo devo me declarar antinacionalista, porque não posso aceitar que tal vulgarização seja acompanhada de 362 dias de hipocrisia (principalmente no Natal).

Um relógio de areia (conto)

         Devagar, bem lentamente a areia se esvai no movimento monolítico para baixo, se espalha na cuba elíptica do funil da armação de vidro e se acomoda no formato esférico daquele objeto. É um movimento lento e preguiçoso, tão delicado e tão sublime.

       O tempo passa, lentamente, mas passa, num movimento sinuoso da desse relógio.

       A areia é fina, como a de uma bela praia nos Trópicos, mas não é branca, é verde. Estranha coloração para uma areia é verdade, nem mesmo a da casa do gato é assim, mas mesmo assim era sedutora aos olhos. O pigmento esverdeado reflete no vidro e sobre esse prisma as páginas da História passam por sobre a nossa retina.

      Eis que tudo volta de cabeça para baixo, a areia volta a cair bem devagar no vidro, tão lentamente e tão sublime, era como um passeio na orla ou uma volta no parque, não, era ainda mais sublime e era tão bonito que conquistava os olhos e boa parte de sua atenção.

      Tudo se esvai, tudo o que é sólido se desmancha no ar, nada pode vencer a força do tempo. É assim que é um relógio de areia, uma peça tão antiga e tão delicada que possui nas suas mãos o poder de mover o tempo tão lentamente quanto move a areia dentro do seu receptáculo. Poderia ser uma mera peça de decoração, mas no fim não era. Aquele próprio instrumento tinha uma história em si, de como a mecanização dos relógios ainda não conseguia tomar por completo o domínio do tempo, uma coisa tão sublime, tão frágil! Assim como somos todos nós.

      Acabou a areia, assim como acaba a vida. Mas outra vez a peça voltou de cabeça para baixo pela mão invisível e maquiavélica admirada com toda a simplicidade daquele mecanismo. Era realmente bonito ficar acompanhando o modo como a areia caía enquanto não se fazia nada, era isso que chamavam de ciência.

      Dois minutos, era o tempo que aquele dispositivo registrava. Dois míseros minutos! Mas isso não lhe eximia o poder embutido ali dentro, o poder do tempo. Não, não gostava de chamar aquilo de ampulheta, sempre considerou um nome muito feio, aquilo era mais do que um simples objeto, um mecanismo. Não à toa que chamavam de relógio de areia, e não havia nome mais apropriado. Embora não tivesse ponteiros ou seguisse as vinte e quatro horas, aquele singelo instrumento media o tempo com uma espantosa precisão.

      Deu mais uma volta, outro ciclo. Assim como é a vida, que sempre tem o seu início e o seu fim, mas sempre um recomeço. É incrível como aquele pequeno pedaço de vidro envolto na armação de madeira sempre conseguia arrancar-lhe alguma filosofia, era como o xadrez, sempre um fim, sempre um recomeço.

      O rapaz olhava admirado para aquilo tudo, deixando o tédio de lado. Era como se toda a dor e o sofrimento da vida caíssem diante dos seus olhos e recomeçassem de novo. O relógio lhe ensinava que a vida era passageira, e que não adiantava se prender a velhos dogmas, a velhos grãos de areia.

      Adormeceu, pois, de tanto admirar o movimento sinuoso da areia batendo sobre o vidro, o tédio desse dia se esvaiu com o cair constante da areia na cuba debaixo. Um eterno fim e um novo começo, um constante recomeço. 20:20, vamos parar de filosofar.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...