quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Flashes

         Às vezes tenho flashes dos momentos românticos que me deixaram bobo há não muito tempo atrás. Não que eu sinta vergonha, nem que eu queira esquecer, na verdade tudo o que eu quero é lembrar. Sim, lembrar, um homem sem História é um homem sem Futuro.

       Nem me arrisco a esquecer o erros que já cometi, as gafes engasgadas ou mesmo as demonstrações de afeto desastradas que já fiz, na verdade elas ainda são parte de mim. Assim como não esqueço quem eu amo e o que sinto, mas não deixo nada disso mudar o que estou me tornando. Não, não estou tornando-me insensível, mas prático e acho que não tem outro caminho a se tomar.

       Na verdade, a solidão sempre foi uma companheira incômoda em toda a minha vida, salvo alguns períodos, e essa solidão é parte de mim, uma parte que eu tentei eliminar, e ainda tento de alguma forma. Mas de certa forma, entendo o porquê de ser solitário, um dos motivos é que eu não tenho paciência com as pessoas como deveria ter, o outro é que são as pessoas que não parecem gostar muito de mim, seja pelo modo de ser, agir, ou pensar.

       Sim, eu me importava, mas acho que não me importo tanto quanto antes, estou aceitando tudo isso. Melhor aceitar logo de uma vez, sei que não é normal, mas não sei se devo mudar nesse aspecto. Mesmo em grupo, em coletivo, no meio de uma roda de conversa, perceba, eu ainda sou solitário, não sou o que mais falo, mas ainda falo alguma coisa, sorrio às vezes, mas no fundo, bem no fundo, você perceberá que sou solitário.

      Não quero que sintam pena de mim, não sou tão repulsivo ao ponto de sentirem pena de mim. Não, apenas sou isso mesmo e não tenho mais para onde caminhar. Tentei mudar, transcender essa característica minha, erro crasso. Eu sou uma ilha, não um continente, essa é a minha característica e não há como mudar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Discussão sobre o pessimismo

         Disseram certa vez que eu era pessimista, que eu não acreditava em mim mesmo, e que não tinha amor próprio. Duas coisas em três acertaram, eu mesmo não acredito nas coisas que eu realizo e não tenho mesmo porquê amar alguém como eu.

       Primeiro por dois motivos: O meu potencial é tão volúvel quanto a minha vontade, realizo feitos incríveis, mas só quando estou animado, e isso ultimamente vem se tornando cada vez mais raro. E a questão de não me amar é simples, rejeito a plenitude das esperanças de um dia ser feliz e isso não tem mais volta, e nenhuma forma de afeto por mim mesmo eu agora consigo desenvolver.

      Agora eu não sou pessimista, o pessimismo é apenas um apelido para aquilo que não conseguem definir, na verdade não há ninguém mais otimista do que eu, porque eu ainda acredito na realidade. Eu acredito no fato concreto, na palavra dita, no que os meus olhos veem, e crendo nessa análise amostral, eu me tornei um materialista, um materialista que enxerga o fato antes de identificá-lo.

       O pessimismo é uma parte do processo materialista, é a parte onde identificamos a imperfeição de tudo o que já foi criado, mas mais do que isso a imperfeição com que a humanidade se esconde. Consideramos o rigor com que os idealistas projetam os seus sonhos, nós mesmos temos os nossos, mas não deixamos que eles iludam nossa visão sobre o presente, por isso acredito que eu seja realista.

       Sonhos são a base dos nossos projetos, e se acreditamos neles podemos fazer planos incríveis. Mas devemos racionalizar tudo o que fazemos, tudo o que agimos, quando damos voz a emoção, tornamo-nos mais inconsequentes e inconstantes.

      Quando digo que parte de mim morreu, ela definitivamente se foi, com alguns trejeitos de uma vida autodestrutiva, é aí que percebemos que a infelicidade não é uma coisa passageira ela é parte integrante de nossas vidas, mas mesmo assim não a abandonamos, ela se torna o nosso incômodo fardo até o fim dos nossos dias.

       Demorei muito para entender algo assim, mas agora que entendo tudo parece simples. Não adianta mais se levar pela infelicidade a caminhos tortuosos, ou chorar pela tristeza de uma situação, em termos materialistas desde que o homem é homem, ele é infeliz. Por isso para que lutar contra a natureza, para quê pedir uma mudança. A infelicidade é constante, aceite-a.

       A solidão nada mais é um meio de nos lembrar de nossa infelicidade, ou pior os relacionamentos conturbados são ainda mais infelizes e nos tomam mais dores e sofrimento. Tudo é efêmero, a felicidade é efêmera, melhor deixar tudo passar.

      Sim, hoje digo isso, amanhã posso desdizer, os momentos de felicidade vêm e vão e somos tentados a acreditar no melhor, mas o melhor será esse mesmo? Será que o melhor é ocultar a própria verdade?  Às vezes acho que sim, mas como vocês sabem, isso acontece nos dias em que ando meio idealista e acredito num sentido para essa epopeia trágica a que chamamos de vida.

A transitoriedade dessa lira

         Sempre soube que a vida era uma criatura singela, de humor doce e cruel. Uma criança que parece inocente mas se diverte afogando os seus bonequinhos na água da privada. A vida é inconsequente, não quer saber o que pensamos e o que fazemos, apenas brinca com aquilo que dizemos sem dizer, nossos atos sem agir.

      Megera essa criatura que se diverte com os desatinos desastrados que cometemos com o passar dos anos, sem se importar o que pensamos e agimos, ela brinca conosco, com os nossos sentimentos e nem se importa com isso. Se diverte com as mais terríveis histórias, com os romances mais impossíveis, ou com a frivolidade dos seus jogos, ela é tão maldosa quanto uma adolescente.

     Ela nos acaricia com suas palavras, dá-nos esperança, mas no fim toma tudo, ela não se importa com os nossos sentimentos, tal como uma amante.

     Nós traz dores de cabeça, leva-nos trabalho e mais trabalho, retira-nos toda a felicidade que poderíamos ter adquirido. Exige de nós que façamos algo que não queremos, desde um romance ou uma opereta, mas priva-nos da criatividade ao nos fazer deixar de dormir ou nos acordar cedo demais. Acordar unicamente para ela. A vida é como uma esposa, é um casamento consigo mesmo, um casamento do qual não se pode fugir.

    Você questiona do porquê de estar casado, do porquê de ainda não ter se cansado e ter rompido com tudo isso. Mas no fim você se acostuma, se acostuma com as brincadeiras maldosas, as peripécias incríveis, e deixa de xingar toda essa coisa. Quando você vê, você não sente mais raiva, não sente mais nada, acha até tudo muito engraçado, percebe que no fim sua vida é vazia, mas não quer mudar nada nesse relacionamento. A depressão passa e você deixa tudo passar.

     Assim, quando você finalmente se apaixona por sua vida, a crueldade dessa criatura se torna voraz. Ela te abandona quando você mais precisa, quando você mais a ama, e no fim você termina sozinho pensando em como a vida foi ruim para você. É assim que eu me sinto em linhas gerais, como um amante usado pela vida apenas por mera diversão, como um jogo qualquer de sedução tal como as mulheres empreendem nos bailes ao jogarem os seus cabelos aos homens e seduzirem-nos com o olhar. Sim, vida, eu me acostumei com você, mais ainda não entendo, realmente não te entendo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

23:13

          A cidade gela
          Sociedade megera
          A noite cai
         O dia escurece


         Nenhum choro merece
         A plena voz singela
         A lágrima vai
         A dor regenera

         Deixe passar
         Deixe levar
         Não pense
         Suspense

        Fique calado
        Silêncio noturno
        Condensado

        Pense em nada
        Nem em conto de fada
        Fique calado

        A janela bate
        A alma fica parada
        A espinha gelada

        Olhe o relógio
        Onze e treze
        Para fazer suspense
        Estou com medo


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O que esperar da esquerda latinoamericana?


       Não estou cuspindo no prato que comi, antes o fosse, mas estou refletindo o que podemos esperar dos setores de esquerda latinoamericanos, primeiramente porque acredito que a esquerda esteja se isolando dentro de um casulo ideológico tão  difícil de ser superado que pode acabar a descaracterizando.

       Por volta de vinte a trinta nos falar que se era comunista, ou mesmo socialista, em alguns países era declarar na sentença um atestado de morte. Primeiramente, temos que lembrar que o marxismo só foi chegar para esse lado do Atlântico na última década do século XIX e o início do século XX e ainda assim com pouca receptividade. Sim, as massas alienadas não conheciam mesmo o que significava o socialismo, a América Latina foi dominada por caudilhos em todas as esferas de governo, isso só começou a desaparecer na Revolução Mexicana de 1910, mas mesmo assim nem tanto assim.

     O marxismo era popular em torno dos imigrantes, os quais conviviam com uma vida bastante difícil na recém chegada à pátria, e tinham algum conhecimento dos movimentos ao longo da Europa. Contudo, o Partido Comunista, como comunista, no Brasil, só foi surgir em 1922, muito depois de Outubro de 17,  e só viria a ganhar corpo com a direção do ex-capitão do Exército e líder tenentista, Luís Carlos Prestes, por volta da década de 30, quando ele no seu exílio na Bolívia tomou contato com o marxismo.

     Prestes é um exemplo de marxista prático da América Latina, tido como herói por alguns e imensamente respeitado por outros, desses incluo eu mesmo. Prestes era um revolucionário, e a carreira de revolucionário é uma carreira de escolhas e sacrifícios: Sacrificou o seu nome no Exército, que já tinha perdido no Tenentismo, mas mais do que isso, sacrificou sua esposa, em torno de um ideal.

     Sim, Prestes merece ser respeitado. Mas não nos incorramos ao erro de colocá-lo como guardião da democracia como alguns intelectuais atuais andam fazendo, em 1922, no auge do tenentismo, isso é até verdade, mas a dita Intentona Comunista não foi uma tentativa de estabelecer uma democracia ante uma Ditadura, tal como a existente com Vargas, ao contrário, estabelecer-se-ia uma Ditadura do Proletariado, aos moldes da União Soviética.

      Eu respeito Prestes, e o agradeço por muitas atitudes tomadas na redemocratização de 1946 ou mesmo na de 1988, mas Prestes também não era santo e cometia lá os seus excessos.

      Depois da Intentona Comunista, a situação ficou feia para os movimentos de esquerda, no Brasil,  em certa medida, na Argentina e no Uruguai, onde a célula do Komintern na América do Sul foi praticamente desmantelada.

     A questão é que a total fragilidade dos Partidos Comunistas na América Latina se devia à não adequação de suas propostas com as realidades apresentadas, e além disso as sociedades aqui existentes não tinham uma mobilização de uma vanguarda revolucionária industrial com tamanha força, tal como aconteceu na Rússia em Outubro de 1917.

     Em todo o caso, na década de 30, uma figura enigmática, mas também desprezível, aportou na cidade do México fugindo dos expurgos da União Soviética. Depois de perder na rixa sucessória decorrente da morte de Lênin, Lev Trotsky foi deportado para Alma Ata, na Ásia Central, e conseguiu fugir da fúria de Stálin ao sair da União Soviética. Esse renegado de seus pares, acabou desembarcando na Cidade do México e conseguiu apoio de políticos locais e também de artistas, como Frida Kahlo, com quem teve um caso.

     A vinda de Trotsky para a América Latina foi o maior desserviço que a história poderia ter feito. Ela alimentou todo um imaginário da década de 60 da figura de Trotsky por parte da esquerda latinoamericana, onde ele era visto como um coitado renegado que era incompreendido, e que se ele estivesse no poder da União Soviética, nada de ruim teria acontecido. Esse culto a Trotsky se confunde com o culto a Stálin, embora os trotskistas neguem veementemente qualquer ideia desse tipo.

      Primeiramente, temos que por em pratos limpos. Trotsky não era sucessor natural de Lênin, muito pelo contrário, ao logo depois do fechamento do jornal Iskra, por volta de 1903-4, Trotsky se alinhou com Martov e virou um grande opositor das ideias de Lênin, e no "Testamento Político de Lênin", Lênin ataca Stálin, isso é verdade, mas também ataca Kamenev, Zinoviev e Trotsky, e também Bukharin (esse último foi injustificado, afinal, Bukharin era "o teórico do Partido").

      Se Trotsky tivesse vencido, provavelmente nem mesmo a União Soviética existiria, para início de conversa, boa parte da organização e do pensamento de gestão da União Soviética partiu de Stálin e de seus companheiros. Trotsky iria arriscar as combalidas forças do Exército Vermelho para tentar organizar uma Revolução na Alemanha que poderia ter resultado em fracasso, arriscando todo o progresso conseguido em Outubro de 1917, afinal, o Exército Vermelho teria que conviver com uma guerra contra os poloneses, os alemães, os Brancos, o Exército Verde, o Exército Negro e os Interventores que com certeza iriam enviar mais homens para a Rússia. A Revolução estaria perdida.

       Quem disse que Trotsky também seria democrático? Nesse ponto, Trostsky iria reprimir os demais partidos, para assegurar a sua posição política, e muito provavelmente iria afastar seus opositores ou condená-los ao ostracismo para manter o seu cargo com rigidez. As propostas econômicas de Trotsky eram bem semelhantes a que Stálin colocou nos Planos Quinquenais, de desenvolvimento rápido a qualquer custo, o que era atacado por Bukharin como algo insustentável pois mexia com o trabalhador comum.


      Contudo, Trotsky é dado por um deus, por alguns setores da esquerda latinoamericana, sobretudo a influenciada pela esquerda francesa dos anos 60, da qual até Sartre fazia parte. E com a derrocada da União Soviética, essa vertente cresceu ainda mais, inculpando a União Soviética de ter sido imperialista, mas também esquecendo que ela foi construída a partir de uma ideia.

      Com a Revolução Cubana de 1959, outro setor da esquerda surgiu, derivada da esquerda stalinista, que anda meio enfraquecida em lugares como o Brasil, essa esquerda se apoiou na figura de Che Guevara e Fidel como libertadores da opressão do capitalismo americano na América Latina. Até hoje Che é celebrado como libertador, sendo que agora ele tem uma coleção só com camisas com o seu rosto, virou grife de moda, principalmente pelos revolucionários de sofá e alguns universitários sem censo de lógica.

     O ideal da Revolução Cubana, inicialmente não era marxista, sequer passava perto. Quando Fidel derrubou o governo, ele o derrubou por ser corrupto e não representar o povo cubano, só veio a se declarar marxista quando os Estados Unidos retalharam por terem perdido um ponto estratégico para os seus negócios de prostituição e cassinos, aí Cuba ganhou o apoio da União Soviética, com o próprio Voroshilov, o general de enfeite de Stálin (lembrando que nessa época, Krushiov estava no poder), aparecendo nas ruas de Havana ao lado de Fidel.

      Não podemos nos esquecer dos dramáticos eventos da Crise dos Misseis  Enfim, a política externa norteamericana é mesmo opressiva em relação aos seus vizinhos, mas isso não significa que devemos entrar num sentimento antiamericanista tão cego ao ponto de que ao vermos um cidadão americano sentirmos logo uma repulsa ou um ódio por ele. Mas a esquerda naturalmente se apoia por esse ideário.

     A esquerda culpa ostensivamente o imperialismo como a raiz de todos os seus males, contudo o subdesenvolvimento da América Latina resulta não só de exploração, mas também, como também dos interesses locais das elites, que nem sempre são atrelados aos interesses do grande capital, dos deficits imáginários de algumas lideranças e da população, e também de uma corrupção moral do próprio individuo que se sente oprimido, mas não se dispoe a mudar o status de oprimido de nenhuma forma.

       A esquerda latinoamericana recicla várias vezes a mesma explicação, de que tudo é culpa do imperialismo yankee, e que somos subdesenvolvidos por causa dele. Na verdade, esse setor ainda faz a atitude criminosa de reduzir a teoria marxista somente na simples dicotomia, eles, os opressores, nós os oprimidos.

      É nesse sentido, associando-se o pensamento político construído durante séculos de vantagens patrimoniais e clientelismo, que a esquerda, hoje, vem se alimentando de uma arma ainda mais nefasta, o populismo, que a exemplo da Rússia czarista, resulta mais atraso do que avanço. Propostas assistencialistas são implantadas para elevar uma figura perante sua população, seja Chavez, ou Lula, não são políticas de governo, mas medidas eleitorais, assim as instituições se fragilizam em demasia e a imagem do indivíduo se torna mais importante do que a lei.

      O que esperar da esquerda? Retrocesso. Embora o marxismo seja uma ideologia querendo ou não que queira promover o progresso da humanidade, a Esquerda Latino-Americana se prendeu ao passado, mas não ao passado da União Soviética, mas ao passado populista e caudilhista de sua própria existência, ela não se adequa aos novos tempos e pior mesmo com esse discusso ultrapassado que se revelou ineficaz para o desenvolvimento e a realização de medidas de igualdade social, ainda consegue o amparo de uma parcela significativa da população, por meio da própria alienação do individuo, o que Marx duramente atacava.

       A esquerda trotskysta está ainda mais atrasada, pois não se resolveu teoricamente e tenta se legitimar pelo simples discurso, "o capitalismo nos oprime", e cai no precioso de não fazer nada para mudar, e ainda acredita que a revolução será feita pelas armas.

       O prospecto não é bom, o grande desafio teórico é criar uma vertente que conjugue as realidades nacionais latinoamericanas em congregação com um pensamento revolucionário que não seja preso a uma sangrenta tomada do poder, mas se possível por uma revolução feita por palavras e ideias. Essa é a minha visão sobre o caminhar da esquerda em toda a Latino-América.




Conversas com Napoleão



        Sei que já é difícil acompanhar esse blog para alguns leitores (os poucos que ainda existem), contudo eu tive uma ideia  sobre um novo endereço virtual que se caracterizaria como o diário pessoal de Napoleão Bonaparte, no qual ele explica algumas atitudes suas e fases de sua vida.

       O blog Conversas com Napoleão tenta inserir um pouco de ironia sobre algumas posturas nas atitudes de Napoleão, que querendo ou não é um pouco superestimado, embora seja um dos personagens mais fascinantes da virada do XVIII com o XIX.


Eu      Segregado na Ilha de Santa Helena, "Nesse exílio perpétuo onde o wi-fi falha e a internet da Tim é uma porcaria, eu, o velho e bom imperador dos franceses, Napoleão Bonaparte, marquês da ilha de Santa Helena ponho em palavras todas as amarguras sobre-humanas que podem se incair nessa semidivindade representada por minha pessoa.", Napoleão fala por exemplo da sua infância, dos seus primeiros embates, da sua prisão na Revolução Francesa, e como conheceu Josefina. O blog ainda está no início e não sei se haverá continuação.



      Allons enfants de la Patrie!


http://codigonapoleonico.blogspot.com.br/

Recordações

      Eu nunca fui muito de guardar recordações, fotos, ou arquivos pessoais. Na verdade eu nunca tive muito empenho em guardar coisas. Por exemplo, eu não tenho fotos minhas dos últimos tempos, nem dos meus pais ou de outros parentes, deixou tudo guardado num álbum verde na estante da sala.

     Minha mãe que tinha esse hábito, de guardar recordações em fotos, mas eu preferia guardar tudo na memória, sempre acessível em todos os cantos que eu vou. Contudo, o preciosismo chegou de alguma forma e eu fui guardando relíquias no quarto.

      Primeiro a máquina de escrever de meu pai, da qual surgiram minhas primeiras palavras digitadas. Depois o óculos de sol que o meu velho comprou num ótica nos anos 90, a mesma ótica onde minha mãe trabalhara, e onde os dois se conheceram. Parecem bugigangas de um passado esquecido, mas no fim não eram.

     Papai sempre foi um pouco niilista, ele gostava de jogar fora as coisas inutilizadas, seja a vitrola que ele comprou com muito esforço quando tinha minha idade, seja a máquina de escrever que eu consegui salvar. Os óculos de sol se empoeiram num armário dentro de um estojo caramelo com os desígnios Ray-Ban,  na lateral. Era um óculos bonito, embora nunca ficasse bem nem no meu nem em seu rosto. Mesmo assim eu os guardei e os uso.

     Contudo, hoje foi um dia diferente, fui ver as fotografias emaranhadas dentro do álbum, aquelas que estevam esquecidas e eram guardadas por minha mãe. Nelas estava fotos de entes falecidos, meu bisavô, o grande João, pai de minha avó, português de nome e de família, que veio ainda criança de Portugal, lá do Minho, com o seu pai, o também falecido Antônio, caixeiro viajante falido de Portugal. Não lembrava que o meu bisavô fosse tão enrugado e tão frágil, a pele pálida acumulava veias azuladas em todo o seu rosto e os olhos eram cansados por tanto trabalhar como técnico de rádio. Minha mãe o odiava, nem sei porquê, mas minha avô nutria uma admiração pelo meu bisavô, eu só tinha o visto uma vez na minha infância. Ele morreu quando chegou aos 106 anos tendo os seus dias completados em algum lugar de Minas.

     Vi ainda a avó de meu pai, uma índia yanomami da aldeia que criou o meu pai quando ele foi abandonado pela mãe irresponsável e pelo pai relapso que tinha outra família, o meu avô Isaac. Ela segurou a barra e o educou, estava sentada numa cadeira com uma camisola branca que ia até o joelho, só me conheceu quando eu era bebê. Morreu antes que pudesse ter contato. Pela foto, sua vida não parecia ter sido muito feliz em seus dias, era tão enrugada quanto um maracujá e tinha olhos bastante arregalados.

      Nisso vi uma foto de quando eu era um bebê rechonchudo, de fios rubros no cabelo e sorrisinho no rosto. Não imagina que eu fosse daquele jeito, certamente se eu tiver um dia um filho, provavelmente será desse jeito. O pequeno garotinho risonho sentado sobre um banco tinha sofrido maus bocados, o pai dele chegava bêbado em casa e batia nele e na mãe e quando fora menor tinha convivido com o dilema de desnutrição, mas esse dilema não parecia fazer com que o garotinho se importasse com qualquer coisa nesse gênero.

        Vi uma foto de minha mãe, quando jovem, ela usava um terninho preto e salto alto, o batom vermelho combinava com os seus cabelos escuros. Parecia mesmo uma modelo, esbelta e um pouco alta, minha mãe realmente foi uma pessoa muito bonita.

        Quanto ao meu pai, ele sempre fora uma figura um pouco musculosa e rechonchuda, embora não fosse de todo intratável, ele às vezes tinha os seus excessos, como a vez que ele quebrou um armário de casa com um de seus braços num acesso de raiva, papa sempre foi alguém muito forte. Numa foto estou eu, com talvez quatro anos, ando lado a lado com o meu pai num parque, nessa época meus cabelos ainda eram dourados e o meu sorriso era falhado, por causa dos dois dentes que perdi num das minhas traquinagens em casa.

       Em outra foto meu pai estava em seu escritório, usando terno, em frente a uma pilha de papéis e em cima, pendurado a uma parede estava um pôster de algum produto que não consegui identificar, e que tinha a pose insinuante de uma moça desenhada vestida com uma revolta seda púrpura em seu corpo. Eu nunca tinha visto essa foto antes.

       Minha festa de cinco anos, lá estou sendo segurado pelo meu avô, Manuel, enquanto tento inutilmente apagar as velinhas do meu bolo. Vovô era realmente uma pessoa muito simples, que viveu uma vida muito dura no interior, mas que mesmo assim sempre foi uma das pessoas mais justas que eu conheci. Tinha ele um sorriso por debaixo do seu bigode grisalho que dava-lhe feições simpáticas, semelhantes a um James Doohan ou do presidente José Mujica do Uruguai. Meu avô nessa época era uma pessoa bem alta e vívida, os anos ainda não tinham chegado plenamente em suas costas, tanto que ele me segurava com fervor. Vovô, vovô, foi você que me criou, foi mais meu pai do que meu próprio pai.

        Em outra foto estava a minha avó, com os seus oblíquos olhos azuis combinando com os últimos fios escuros de seu cabelo. Ela era queimada de muitos sóis, também de muito trabalho, vovó sempre foi uma figura simpática, cozinha mal que era uma coisa, mas era simpática. Às vezes era um pouco infantil em suas atitudes, mas conseguia relevar tudo isso em sua simplicidade, traduzindo-se por uma dona de casa por definição.

        Meus tios, um pouco mais sombrios, ainda eram jovens à essa época, mas já nesse período mostravam seus talentos para a ociosidade, o único que salvava era o meu tio Marcos, que me deixava mexer em seu computador e a jogar em seu videogame. Foi ele que me ensinou de alguma forma como realizar a manutenção dos circuitos e um pouquinho de informática, virou um excelente tecnocrata em São Paulo.

       Quanto aos outros dois, William e Marcelo, esses se perderam no mundo. Meu tio William era fã inveterado de Dragon Ball e Pearl Jam, eu aprendi a gostar de rock com ele, mas nunca saía do seu quarto e sequer se dispôs a tomar um emprego, só com o meu pai, mas mesmo assim não acabou bem, meu tio Marcelo, depois de ter ido para o exército se indispôs a viver em sociedade e renegou qualquer carreira cívil, tornando-se o que segundo minha mãe disse, um vagabundo.

       Pior talvez seria o meu tío Maurício, que não tive a chance de conhecê-lo, ele desestruturou a família de meu avô. Meu tio Maurício era sem dúvida o favorito de meu avô Manuel,  e o filho mais velho, era com certeza o pupilo  contudo se envolveu com o mundo das drogas e começou a vender tudo o que tinha em casa. Meu avô tentou salvá-lo, gastando rios de dinheiro para interná-lo, mas não conseguiu, e acabou perdendo o filho quando ele teve uma overdose. Nunca mais o meu avô foi o mesmo, talvez tenha sido por isso que ele praticamente me adotou como seu "filho", para preencher essa lacuna.

       Em outra foto estavam minhas tias, Lúcia, Ednamar, Michele e Marcilene. Marcielene era e ainda é odiada por todas, incluindo por minha mãe, que a consideram arrogante e presunçosa,contudo na foto ela não parece nada disso: Uma figura simpática de cabelos negros e olhos igualmente azuis aos de minha avô, ela era bem mais alta do que me lembrava, e teve meus dois primos, os quais não tenho contato, Fábio Bruno, o qual odeio desde pequeno, e Alexander, uma figura um pouco mais simpática.

      Da parte de meu pai, há uma ausência de fotos no álbum, talvez porque minha odiasse a família dele, principalmente a sua sogra, Teresa, que o abandonou ainda bebê aos cuidados de sua mãe, minha bisavó paterna, e foi viver uma vida desvairada até sua juventude se esgotar. Contudo lembro de alguns nomes, embora os esqueça volta e meia.

      Enfim, folheando mais um pouco o álbum, encontrei uma foto minha quando era criança de eu abraçando uma menina na minha escola, quando devia ter seis ou sete anos. Talvez tenha sido minha primeira paixão, mas diabos, qual era o nome dela? Eu a conheci na classe da professora Jane, foi na primeira série, espere, eu tinha então cinco anos. Ela era realmente tão bonita quanto eu lembrava, era uma figura sorridente de cabelos pretos e olhos enigmáticos, mas era intocável, tinha uma madrasta daquelas, parecia a Branca de Neve. Erámos os dois crianças inocentes.

      Meus amigos na festa do meu aniversário: Felipe, esse sim me colocava em confusões quase sempre, era uma figura diabólica, com o perdão do termo, de cabeça de abóbora que se envolvia em brigas com os moleques mais velhos e me fazia ajudá-lo. Como acreditava que fosse meu amigo, apanhei diversas vezes. Eu era o terror da escola sem querer, mas mesmo sendo o terror, ainda era um aluno notável.

      Na verdade, alguns professores diziam que talvez eu fosse retardado, porque até os quatro ou cinco anos não tinha a fala plenamente desenvolvida e o meu desempenho escolar era realmente medíocre, contudo a partir da segunda série, disseram que eu era um aluno notável e me pularam de série (era muito comum na época), penso que queria mais se livrar do terror da escola do que me elogiarem propriamente dito, mesmo assim, também é mérito meu nunca ter reprovado e ter entrado na universidade dois anos antes da idade normal.

      Enfim, folhei mais um pouco e encontrei uma foto minha de terno, um belo terno por sinal, mas uma camisa meio ruim e uma gravata vagabunda, ao lado de uma menina desdentada da cor do leite, tal como as outras. Se chamava Rayara, ela, e eu tinha alguma forma de atração por ela, talvez tenha sido a minha primeira femme fatale, se podemos usar o termo, era uma menina sapeca e travessa que certa vez tinha jogado um chiclete na minha jaqueta e eu em represália coloquei o chiclete no seu cabelo, na sua franja. Foi uma cena por demais divertida na época, mas ela ficou chorando enquanto cortava o seu cabelo, hoje entendo porquê, eu era mesmo terrível.

      Foi aí que eu lembrei, foi nesse mesmo ano que saí do ensino público e fui para o particular. Meu pai tinha largado o alcoolismo e estava empenhado em me colocar numa boa escola a todo custo. Foi nessa escola, religiosa, que acabei tomando outros caminhos. Aprendi sim muita coisa, mas também aprendi a não gostar da religião. Na verdade, eu nunca fui muito religioso, minha família também não. Meu pai, apesar do sangue judeu da nossa família, era católico, minha mãe era talvez agnóstica, até hoje não sei qual é sua religião, meus avós protestantes e anteriormente católicos, nunca líamos a Biblia, ou resavamos antes das refeições, quando eu cheguei numa ambiente hierarquizado onde tinha que rezar praticamente todo o dia ao final da aula, e jurar a bandeira às sextas, pode-se dizer que foi um choque.

      Com poucos amigos, resolvi que iria me empenhar em estudar, e meus desempenhos eram muito bons. No início era bom em matemática, pelo que me lembro, mas depois descobri a força que a matemática tinha. Mas no primeiro ano, me destaquei mesmo em História, Geografia e Língua Portuguesa, ganhei em todos bimestres medalha de honra ao mérito, as quais, quando eu cresci e percebi que não tinham significado, tratei de jogá-las fora.

       Eu era excepcional para a minha turma, talvez. Mas em todo caso, convivi de algum modo com a tirania  dos meninos mais velhos, com suas brincadeiras maldosas, mas não tanto quanto outros alunos. Havia na minha turma um tal de Marcelo, um aluno de 16 anos (numa turma onde a média era ter 10, 11 anos) que tinha alguma forma de deficiência mental, e outra chamada Fayla, que também possuía, pronto, prato cheio para os desocupados que não perderam tempos em troçá-los por tais características.

      Os meninos, liderados por uma mente doentia, chamada Luís Miguel, insultavam os dois, faziam troça, brigavam fisicamente com eles. Eu queria dizer que fui neutro e tal, mas também não fui, embora não os tenha agredido, eu tinha alguma antipatia por eles, talvez por serem os que sofressem o bullying, talvez porque quisesse ascender aos olhos dos outros garotos, eu também disse coisas feias, que hoje tremo ao lembrá-las. Nunca vou me perdoar por isso.

      Mesmo assim, as minhas notas eram boas, os negócios de meu pai iam bem, tudo parecia perfeito, talvez o fosse. Eu parecia feliz ali, tinha provas, mas ainda assim era feliz, tinha na minha turma até histórias engraçadas, como as de um menino chamado Gabriel, um guri amarelento e magricelo que tinha um topete igual do Sílvio Santos, que certa vez trouxe o seu ratinho para a sala. Era um ratinho branco que ele escondera no quadro de energia e causou o terror nas meninas, eu ri muito na época. Depois fiquei sabendo que ele vivia no bar e um dia trouxe até uma capsula de uma bala para a escola, depois desse dia nunca mais o vi também.

     Sim, alguns amigos meus acabaram tomando outros caminhos, a eles eu lamento, mas mesmo assim a minha vida continua.

     Os negócios de meu pai iam de vento em polpa, foi aí que decidimos mudar-nos do subúrbio para um bairro mais ameno. Nesse meio tempo, eu mudei de escola e passei a frequentar uma renomada instituição da capital, para famílias mais abastadas, e conhecida pelo seu valor. Meu pai achou o ideal, mas eu tinha torçido o nariz.

       Tive que fazer novos amigos, como sempre. Mas me adequei bem a tudo isso. Mudamos de casa, mudamos de vida, tempos de bonança haviam chegado. Foi aí que eu cheguei à fotos da primeira vez que eu tinha ido ver o mar; meus pais viajavam com regularidade, mas sempre para lugares no interior, Poços de Minas, Goiania, São Paulo, mas nunca para o litoral, mas por sugestão minha nós fomos, e fomos para um bom lugar: Florianópolis.

      Lembro até hoje com orgulho de quando eu vi o mar pela primeira vez em Jurerê Internacional, eu fiquei fascinado, não queria sair da água por nada no mundo. Até hoje Florianópolis é a minha segunda casa.

     Era por ali que as fotos acabavam, nessa viagem. Depois nunca mais quis tirar fotos com minha família, e os meus pais só tinham agora fotos da minha irmã... Eu tinha crescido e a minha vida agora era outra.

     Pensando bem, mamãe estava certa, fotos realmente guardam recordações, mas são os objetos que carregam ainda mais. São os objetos que definem nossa personalidade, fases da nossa vida, a máquina de escrever com a qual você aprendeu a escrever, o óculos que o seu pai comprou quando conheceu sua mãe. Essas coisas fúteis, mas mesmo assim que carregam uma parte de você.

     Nunca vou esquecer do meu avô me segurando na minha festa de aniversário, sorridente, enquanto tentava apagar as velas, mas também não vou esquecer do dia em que me escondi numa caixa d'água no esconde-esconde e o meu avô apareceu para me tirar de lá, sorrindo, sem falar nada, nem sequer brigar comigo. No terreno da casa do meu avô eu tive dias bem felizes.

     Também não vou esquecer dos dias que meu pai entrava bêbado em casa e a minha mãe me protegia, dizendo que tudo iria ficar bem, que nada iria acontecer, que eu estaria bem. Nas noites frias, quando o meu pai estava sóbrio, quando ele me cobria com um cobertor, mas também brigava comigo se dissesse que estava com medo.

      As histórias que vovô me contava antes de dormir, quando era pequeno e eu ficava fascinado. Os pratos inusitados que minha avó fazia, os amigos com quem conversei. Tudo isso está na minha memória e nem tão cedo poderei esquecer.

      Também não poderei esquecer a violência que o álcool entrava em casa, do modo como o meu pai me batia, ou mesmo a infância imensamente pobre e problemática com a qual tive que conviver. Nada disso posso esquecer.

      Isso é parte de mim, parte do que rege meus pensamentos e minhas atitudes. A honra do meu avô, os caminhos tortuosos que alguns amigos tomaram, sempre manter o autocontrole e ser honrado, nunca infligir o mau, mas também não ser inocente. Essas lembranças carregamos conosco e nem mesmo o tempo pode apagá-las como faz num álbum de recordações.

Meditação soturna

         Sinto o vento úmido entrar nas minhas narinas, bem devagar, sem muita pressa, a corrente de ar gelada bate nos ombros e gela a minha espinha, mesmo estando de jaqueta eu sinto um notável desconforto com tudo aquilo.

          Estou parado, imóvel, olhando para frente, sempre para frente, mas meus olhos estão desfocados, não olham para o futuro, mas também não olham para o passado.  Estão abertos, somente abertos.

           Sentado nesse banquinho de madeira, isolado dos demais, vejo as pessoas passarem, mas não sinto nenhuma vontade de conversar com elas, na verdade nem quero mesmo vê-las. Prefiro ficar assim, desse jeito. Tenho vontade de ficar calado.

            Na verdade, eu não tenho, mas acredito que seria melhor se eu ficasse. Não falar tudo aquilo que vem a minha, cabeça, ou fitá-la de um jeito apaixonado como eu fazia. Não, é melhor não pensar nisso, não pensar em nós, se bem que o pronome "nós" nunca existiu.

          O dia segue nublado, eu prefiro que fique assim, o céu exprime tudo o que eu sinto, de alguma forma, tudo é tão nebuloso, tão turvo que tenho medo de que irrompa dos meus olhos qualquer pranto no meu rosto. Não quero alimentar a terra com as minhas lágrimas salgadas, assim como não quero alimentar o ar com minhas palavras amargas.

        Queria ouvi-la falar mais uma vez, sinceramente, que você conversasse comigo, mas temo que não seja possível. Não vejo tal vontade de sua parte. Estou meio depressivo esses dias, não tenho mais resposta, estou bastante desiludido depois de ter tanto tentado e acabando por falhar. Acho que você talvez me ame, mas eu sou tão complicado que você nutra esse sentimento confuso que ando sentindo.

        Você não sabe o quanto é triste ficar aqui, nesse banquinho calado vendo as pessoas passarem, olhando  para alguns cartazes num mural de festas que provavelmente eu nunca iria, passadas há muitas semanas. Olho para a frente, mas não olho para o futuro. Eu me levanto, mas os meus pés não andam para frente, ando solitário dando as costas para você.

        O que ando fazendo eu realmente não sei, e duvido que você entenda tudo o que eu disse. Eu realmente  sou complicado, sou essa estátua enigmática de um cavaleiro que sente tudo calado, sem demonstrar nos olhos ou nos lábios. Não sei o que fazer.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Acho que me cansei

Acho que me cansei
Dessa valsa atrapalhada
Que tanto dançamos
No dia dos ciganos

Essa aquarela circense
Desprovida de cor
Perdeu todo o sabor
Cansei de tudo isso

Cansei de pensar em ser feliz
De correr atrás de você
como um cachorrinho
Cansei

Te amo, te amei, te amarei
Hoje, ontem, sempre
Mas hoje eu cansei

Cansei de ser cortês
De amá-la de longe
Enquanto você me desdiz
Me desarma de perto

Cansei de ser tolo
De sorrir feito um bobo
Quando estou com você

Na verdade esse tempo todo
Eu quis te dizer que gostava de você
Mesmo com alguns defeitos
E outros floreiros

Parte de mim ainda sofre
Tenta ser mais forte
Sigamos em frente

A culpa não é sua,
nem é minha
Não somos nós

Me senti mal
Quando disseram que
eu não era para você
Fiquei com raiva

Até hoje não perdoei
Mas você me ensinou
Que ser bom nem sempre é ruim

Eu ri de besteiras
Tornei-me menos chato
E hoje sigo em frente

Ah! Chega dessa forma poética, vamos para a prosa que dá mais certo.

         Eu queria ter mais uma vez para afagar os seus cabelos, como eu disse naquela tarde, olhar em seus olhos e beijar sua testa, dizendo que eu te amo. Que eu nunca provavelmente teria feito aquilo, que era incongruente comigo e que sabia que provavelmente não daria em nada.

         Demorei muito tempo para tomar coragem de tudo aquilo, eu tinha tirado aquele dia para isso, tomei muita chuva, cheguei atrasado, enfrentei tudo que foi coisa só porque ouvir dizer que você iria. Eu queria vê-la mais uma vez e dizer que eu te amava. Transpirar esse sentimento para fora;

       Não quis que me dissessem o que fazer, eu queria sozinho aprender, como dizer tudo isso a você. Eu sou desengonçado com essas coisas, sou por excelência um romântico fracassado. Não sabia como me portar, tudo que tinha era me aventurar.

       Tinha sofrido muito naquele ano, levei um fora no meio de junho que despedaçou boa parte de mim, e me envolvi com uma menina que no final era uma relação mais de amizade do que amor. Podia ter dormido com ela, mas decidi que isso não era uma coisa muito correta.

        Eu acreditei na época que talvez você me entendesse, que talvez eu também a entendesse. Que você tinha sofrido, mas que estava levando tudo em frente, que era mais forte para se deixar se abater. Conversávamos sobre coisas similares e você não se continha no uso da palavra, dizia o que pensava, fazia coisas retardadas, tal como às vezes eu faço, e ouvia a todos com crescente apoio e atenção. Eu a amava por você ser boa, por você ser solícita e ser melhor do que eu.

       Eu sempre a achei bonita, para ser sincero. Mas beleza nem sempre é tudo, você sabe. Alguns amigos meus discordavam, diziam bobagens sobre o seu nariz...  bem, isso não importa, eu gosto do seu nariz, assim como dos seus olhos e do seu sorriso.

      A questão é que eu vi beleza também no seu interior, nas suas atitudes, nas suas palavras, nas suas ideias. Você nem de perto é uma daquelas meninas vazias e egocêntricas que encontramos às pencas por aí, você  me seduziu pelo seu jeito simples, por ter convicções fortes, às vezes apaixonadas, mas ser aberta a outros pontos de vista.

       Penso ainda hoje que você me entende, entende os meus pensamentos melhor do que os meus amigos, meus medos e desafios. Será? Achei melhor me isolar para não me tornar uma criatura tão recorrente que chegava a ser chata, mas não acho que eu esteja fazendo o certo.

           Eu tinha prometido a mim mesmo que se eu sentisse algo por você, não sentiria ciúmes, volta e meia eu senti, daqueles seus amigos, a quem às secretas em silêncio desdenhava. Engolia meu próprio veneno com amargura, como eu pude ser tão mesquinho? Não devia ter feito aquilo.

         Desconfiei de todos a minha volta, algumas vezes com razão, como no caso daquelas duas pessoas que disseram que você não devia ficar comigo, mas em outras eu fui injusto.

         Enfim, você sabe que mais do que ninguém, eu não sou perfeito. Embora eu cobre perfeição de mim todos os dias, eu não sou perfeito, eu erro, e procurei ser aberto com você sobre esse ponto. Sei que você também não é perfeita e aceito isso sem grandes problemas, o problema sou eu, eu tenho por definição ser intocável e ajudar as pessoas.

       Eu tenho que ajudar as pessoas, mas eu também as odeio. Você deve ter aprendido essa peculiaridade comigo: eu acredito que elas possam mudar, mas eu não gosto nem um pouco da forma como elas se relacionam; as pessoas são por definição, tolas, mesquinhas, arrogantes, estúpidas e desprezíveis. Esse é o motivo para que eu as odeie, simples assim. Além é claro de eu ter medo do que elas podem fazer. Mas não, eu não a odeio, muito pelo contrário, já dediquei até uma monografia a você. Eu não a temo, ao contrário, eu me sinto revigorado quando estou perto de você.

      Uma vez você escreveu que achava engraçado como um cara rígido como eu poderia ser sensível muitas vezes. A questão não é o que eu faço por fora que me define, mas o que eu sou por dentro que me designa. A rigidez é a minha capa, minha couraça, meu repelente para os infortúnios do mundo, e a única que tem a chave para dobrá-la, para vencê-la é você.

     Às vezes entre nós surgia um silêncio, um silêncio mórbido, mas um silêncio ainda assim gostoso, significativo, nem sempre tinha palavras para descrever a cena. Nem sempre sabia o que falar, o que dizer, pois hoje eu faço isso.

       Você sorria e eu me senti mais feliz, eu me sentia realizado. Tinha prometido a mim mesmo que iria fazê-la sorrir todos os dias, eu era bobo mesmo, mas quando eu a via triste eu ficava também triste por você. Talvez tenha sido uma das poucas provas de altruísmo que já desenvolvi nessa vida.

      Fui tolo e eu perdi. Fui muito arrogante, e acreditei mesmo que poderíamos ficar juntos numa altura, erro  crasso. Nada poderia fazer para melhorar isso, tive ciúmes e agora me retratei, quis sentir raiva de você, mas não consegui; Eu nunca consigo, mesmo vendo sua foto de Facebook. As vezes olhei o seu perfil, desejei que você me mandasse uma mensagem, que falasse comigo. Você estava certa, era melhor não responder mesmo.

       Depois que eu percebi que não tinha mais jeito, me calei por duas semanas, não falei com ninguém, não cumprimentei quem passava por mim, nem mesmo nossos amigos. Queria me fechar no meu mundo, e me isolar para sempre, sofrer sozinho, não era isso o que eu devia ter feito.

       Saiba você que desde aquele dia eu nunca mais bebi, nunca mais tive coragem. Dei uma desculpa qualquer e parei de me embriagar como se a vida não tivesse nada a oferecer, Carol, eu estava embriagado de paixão naquela época, não precisava de mais nada para me sentir feliz.

       Sei que você não vai ler isso, e se ler, vai sentir raiva de mim por ter dito o seu nome. Me perdoe por isso, você sabe que não sou perfeito, me perdoe por ter tomado o seu tempo, ter tornado tudo isso tão complicado e tão complexo. Mas mais do que isso, me perdoe por não ter sido tão bom quanto eu deveria ter sido.

       Você entende, eu acho que sim. Não é culpa sua, também não é minha, nós não tivemos culpa. Tudo isso aconteceu, essa situação sem controle nos levou a isso, meus julgamentos foram erráticos e eu acreditei mesmo nessa coisa toda. Eu não quero terminar essa história como sendo o seu inimigo. Não quero esquecer o seu nome, e colocarem na minha biografia você como "aquela que ajudou o herói", eu quero que você seja lembrada, como aquela que o herói amou e continuou amando até o último dos seus dias.

        Sei que é só um desejo meu, um desejo inútil talvez. Mas é um desejo. Não se culpe por nada disso, não sinta vergonha do que eu disse ou fale que eu fui infantil. Não gostaria de ouvir isso de você, a culpa não é nossa. Nunca será nossa. E sim, eu continuo te amando até meus dias se findarem, meu sangue afinar e minha cara ficar marcada de rugas e os cabelos ficarem brancos. Se eu esquecer disso um só momento, mereço ser punido, mas saiba sempre que eu te amarei.

        E amei ouvi-la falar, amei sorrir sem ter sentido, de me calar quando era preciso. De vê-la saltar nas folhas secas de outubro unicamente para se divertir, amei ter tentado consolá-la quando você estava triste, e quando eu estava, você ter me ouvido. Você se abriu comigo, eu me abri com você, colocamos tudo em panos limpos. Você não me odiou por ter dito que te amava, você não se importou quando eu repeti sucessivas vezes, na frente de outras pessoas, você simplesmente sorriu, com um pouco de vergonha é claro, mas sorriu.

       Você tentou resolver tudo isso da melhor forma possível, não sei se eu também tentei, estava um pouquinho cego talvez. Eu queria ser feliz com você. Você foi legal comigo, me ouviu, nem se importou com o fato de eu repetir toda a hora que eu gostava de você, que o meu coração batia pro você.

      Sim, não foi a toa que eu te amei, Carol. Eu amei tudo isso, e continuo amando. Amei ter convivido com você, você ter me apresentado suas amigas, que provavelmente devem ter me achado um chato, aos seus amigos, que às escondidas desdenhei em silêncio de ciúmes, amei tê-la amado.

      Você é mais do que só uma paixão, você é uma amiga, uma companheira. Você foi quem me reinjetou vida. Eu tinha chegado num ponto em que nada parecia importar, mas você querendo ou não me deu um norte. Muito obrigado por isso tudo, obrigado por ter ouvido minhas besteiras e ter lido os meus textos medíocres com carinho, e por favor desconsidere o tom lamuriento das minhas palavras, você sabe que eu não gosto de vê-la chorando.

      Obrigado, minha querida. Minha pequena pérola, moja jemchujna.



Prêmio à Cosmopolita

Nessa cidade desalmada
De mente feroz
E alma odiada
Se esconde uma voz


Nessa selva de pedra
No meio da savana
Segue em caravana
Para missa na capela

Cidade incomum
Jóia do deserto
Do Planalto Central

Nesse vale de lágrimas
Cai do céu garoa fina
Tão rala que nada germina

Nem mesmo a chama
Que arde sem doer

Essa alegria descontente
Que se faz presente
Bate no peito

E me deixa sem jeito
Nessa pradaria tropical

Odeio-te Brasília
Odeio-te Esperança
Maldita cidade
Maldita infelicidade


Foi aqui que eu cresci
Foi aqui que me apaixonei
Várias vezes pelas obras do Niemeyer
E me desapaixonei outra vez

As curvas singelas
As pequenas passarelas
As tesourinhas que alagam
As ruas sem esquina

Eu te odeio  Brasília

Foi aqui que me apaixonei
Tive esperança
Cresci na modernidade
De boa bonança


Estive nos seus prédios
Andei nas suas ruas
Sem nunca dizer:
Eu sou feliz

Não à cidade cósmica
Cosmopolita de nome
Retirada de toda a graça
De ter um coração

As pessoas passam
Eu não as escuto
Apenas passam
Um período curto

Fria e singela
Essa é Brasília
Linda de nome
Cosmopolita de sobrenome.

Eu te odeio, Brasília

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Mini Guia de Mitologia Contemporânea


(Essa é a fonte do que os antigos falavam e eu meramente copiei os seus ditos)

Ao alvorecer de um novo sol, a Terra tinha sido formada num ninho de trevas e desespero. Foi nesse mundo que da fusão entre o Tempo e o Espaço surgiu Fortuna.

A grande Fortuna casou-se com a vil Tortura e desse relacionamento surgiram o Trabalho e a Riqueza.
Um dia, numa festa na morada dos deuses, Fortuna dormiu com Maldade, senhor do submundo e das trevas, fazendo surgir a bastarda Avareza.

Tortura, ao saber disso, traiu a grande Fortuna com a Bondade, surgindo nisso a linda e devassa Esperança.
Quando a enlouquecida Avareza cresceu, numa de suas discussões, abriu o crânio de sua mãe, Fortuna, com um machado, fazendo jorrar assim todo o ouro do mundo pelo chão,  o qual a Avareza tentou segurar com suas mãos, mas acabou se escondendo pelo mundo, desde então a Avareza iniciou uma busca eterna por todo o grão de ouro na face da Terra.

Avareza então casou-se com o seu padrasto, a Tortura, e desse relacionamento os dois fizeram surgir todos os males do mundo: Fome, Guerra e Peste.
Avareza, tão perspicaz também conseguira separar seus dois outros irmãos numa rixa e agora Trabalho e Riqueza não se falavam mais.

Trabalho, gigante de formas rudes e delgadas, de cor bronzeada pelo calor da forja e dos raios de Sol, com suas longas tranças, casou-se com a bela Esperança, criatura fina, de cabelos negros e olhos glaucos, com um rosto bem bonito. Desses dois nasceram o Amor, a Honra e a Dignidade.

Numa caçada, a Inteligência, irmã de Fortuna, advertiu aos sobrinhos que o sangue de iguais iria se fazer jorrar numa briga intestina; os sobrinhos obviamente ignoraram à sua velha tia, achando nela mostras de senilidade prematura.

Um dia, num certo banquete realizado no lar dos deuses, Guerra, sempre ruidoso e bronco, competia com o seu irmão Peste no lançamento de dardos.

— Meus dardos são o ferro das espadas e das lanças dos guerreiros. São o sangue e o suor do calor das batalhas. Tais coisas são invencíveis quando são forjadas no calor da fornalha do Mal.
Guerra, que sempre usava uma couraça de couro fervido, fez transparecer seus músculos bem torneados ao atirar uma seta contra o alvo estendido na parede, o alvo da Vida.
— Pois esses dardos são feitos de todos os flagelos do mundo — Jactou-se Peste — Da febre, da tosse, do cansaço e da Dor.

Quando Peste, uma figura magricela e esverdeada, ligeiramente pálida, que sempre se envolvia num pano branco sujo, jogou o dardo, Guerra ficou sem palavras para expressar o seu constrangimento; Peste tinha sido mais certeira no alvo da Vida.

“A Peste para a Vida é uma coisa muito perigosa”, concluiu Guerra.

Guerra, imbuído de um estilo feroz, tentou vencer seu oponente moralmente. Assim, vendou os olhos e de costas, atirou o dardo contra a Vida.
Sem querer o dardo desviou por um sopro de Avareza e acertou a Honra, a mais querida das filhas.

“A Guerra é cega, dá as costas aos inocentes e fere até mesmo a Honra”.

Eis que Dignidade, ao ver que seus irmãos riem, levanta-se contra esta injúria e briga contra os dois. Avareza, com um de seus raios fumegantes, contém o ímpeto de Dignidade e a aprisiona nas mais distantes montanhas das terras do Sul, onde Dignidade teria que suportar todo o fardo do mundo.

Eis que irmãos brigam contra irmãos e sangue de iguais é derramado, tal como a Inteligência havia alertado. Até que com a ajuda de tortura e de seus três filhos, a Avareza vence e reina triunfante sobre o mundo.
Amor é forçada a se casa com Peste e dessa relação entre primos surgem o Ciúme e a Luxúria,  duas doenças contemporâneas.

Trabalho e Riqueza são feitos escravos da Guerra e da Avareza, servindo com imensa revolta a seus fins vis.

Apenas Esperança, que ouvira com atenção o que Inteligência havia dito, conseguiu escapar pelas sombras da noite, e é por isso que a Esperança só aparece nos momentos mais negros.

Sozinha, no meio do nada, Esperança uniu-se em relação carnal com o Desespero, deus descontrolado de feições sempre agitadas e nervosas, e dessa relação surgiu o Grande Pai Koala

.
O Grande Pai Koala, uma criatura tão pitoresca desde o seu nascimento, conseguiu a proeza de ser abandonado na floresta por sua própria mãe, que se culpava de ter se deitado com o repulsivo Desespero, e agora, ela não muito seletiva, acompanhava qualquer um.

“A Esperança acompanha os mais variados tipos de homens, desde os bons até os vis”.

O bebê Koala estava próximo da morte, assolado pela Fome, quando Vida se apiedou da pequena criatura e disse:

— Caro infante, terás uma dura jornada daqui para frente, mas irei acompanhá-lo por toda a minha existência, em respeito a seus irmãos e aos seus pais. Vês, vês a árvore logo a sua frente? É um eucalipto, é só o que comerás daqui em diante. Essa árvore lhe dará força e astúcia para vingares toda essa desgraça.

E é por isso que os coalas só comem folhas de eucalipto. Para os outros elas são tóxicas, até venenosas, mas para os coalas são o símbolo de sua força.

O grande Pai Koala foi crescendo e com passar do tempo foi discursando aos homens com voz melindrosa contra as injúrias causadas pela Guerra, Fome e a Avareza.

Com a ajuda de sua mãe, a grande Esperança, que acompanha todos os homens nesses momentos difíceis, Koala conseguiu convencê-los de que se precisava de mudanças e então, sob a liderança do grande Gato Calvo, os homens libertaram o Trabalho e Riqueza das mãos da Avareza, acabaram com o tempo com Guerra e Tortura, até que por fim tomarem o palácio e eliminarem a Avareza com um só golpe de foice na cabeça. A Peste e a Fome se afastaram por um tempo.

A Dignidade voltou de seu exílio e  Amor enfim estava livre, apenas a Honra que havia caído naquele vil banquete, demoraria tempos para voltar.


Gato Calvo fez com que os homens se juntassem ao Trabalho e dividissem entre si a Riqueza. Com a ajuda da Inteligência, governou por anos absoluto como fiel seguidor do Grande Koala e esse é o início dos Novos Tempos.

Logo após a morte de Gato Calvo, um anão da montanha brigou com Ovelha Negra e com um golpe de picareta cortou-lhe a cabeça. O Grande Anão tomou o poder, perverteu-se pela memória da Guerra e da Tortura e fez retornar os males do mundo, como a Fome e a Peste.

Com a ajuda do Lobo Negro, criatura traiçoeira das terras do Oeste, a Guerra voltou e o Grande Anão, meio tolo, conseguiu ser enganado pelo Lobo Negro.

Para conseguir se vingar da trapaça de Lobo Negro, o Grande Anão fez uma aliança com Cão Sarnento, um buldogue qualquer que secretamente estava à mando da Avareza.

Fez amizade também com a bondosa Lebre Paralítica e juntos, os três, conseguiram vencer após muito esforço, o Lobo Negro, que se deixou envenenar com algumas folhas de urtiga selvagem.

O Grande Anão e Cão Sarnento começaram uma briga logo após a morte de Lebre Paralítica e por várias gerações perdurou assim, mesmo com a morte dos dois.

Os demais sucessores do Grande Anão acabaram aprisionando, tal como este havia feito, o Trabalho e Riqueza, ao seu bel prazer e secretamente alimentavam com o seu pão, Guerra.

Foi só depois de vários anos, quando o Burro Careca resolveu dar fim a isso, libertou os dois do jugo tão vil instaurado pelo Grande Anão.

Entretanto, os homens, pervertidos pelos ensinamentos de Cão Sarnento e da memória de Avareza, romperam com a ordem do Grande Pai Koala e acabaram vendendo cada vez mais o Trabalho, o Amor e a Dignidade para alimentar o casamento entre Avareza e a Riqueza.


A Esperança perdura nos corações dos homens, mesmo como uma sombra do passado, nesse reino terreno de Avareza e Riqueza.
Enfim, em todo caso, os ensinamentos do Grande Pai Koala ainda perduram entre as mentes mais jovens, ainda que estejam cada vez mais preguiçosas e imóveis do que a Lebre Paralítica.





Nota de explicação: Caros leitores desavisados, se vocês não compreenderam a ideia dessa neo-Teogonia devo dizer que essa é na verdade uma critica de uma divinização algumas personagens comunistas da história, onde Karl Marx por exemplo se apresenta como o Grande Pai Koala. Leiam com atenção o documento

A fênix metafórica

         Queria ser um herói magnânimo que fosse indolente à chuva e ao frio, que nunca se importou com a dor e enfrentava dragões todos os dias, queria ser esse homem inflexível contado nas prosas e nos versos de desafinados trovadores que arrancavam suspiros das damas e iludiam as crianças com suas bravatas.

       Que não parasse por um obstáculo, mas sim moldasse o meu caminho. Defendia os pobres e oprimidos com o meu sabre retorcido, presente de algum príncipe da Rutênia, mas eu próprio seria somente um trovador com requintes de cavaleiro andante. Filho bastardo de um príncipe com uma bela feiticeira, neto de um grande mestre da alquimia, não haveria dragões que me rivalizassem.

       Queria salvar as pessoas, acabar com impérios tirânicos, formar novas repúblicas, ser um simples cavaleiro andante de elmo pontiagudo e capa de carmim sobre a couraça de bronze. Teria um cavalo,  um alazão negro chamado Polus, em homenagem à Polônia, por onde lá teria passado prestando serviços aos Piast.

       Mas nas minhas andanças eu encontraria uma moça, de cabelos escuros de belo sorriso, brincalhona, que não seria só uma donzela de chapéu alto e um vestido longo, mas mais que isso, uma companheira. Que ela não fosse indefesa ou estática, mas que me ajudasse nos meus problemas, me ouviria e brincaria comigo, o mesmo eu faria com ela.

      Bem, eu acho que só aceitaria ser um herói assim, ou mesmo um revolucionário, alguém que pudesse mudar o mundo para melhor, essa veia antiga de ex-pensador marxista minha. Mas não acho que seria um bom herói sem você, não pelo fato de heróis precisarem de donzelas que eles salvem, eles são mais do que isso. Não, eu queria uma heroína que lutasse lado a lado comigo, que não tomasse para si o papel de mártir, como a Joana D'Arc, e sacrificasse uma coisa bastante importante, sua felicidade.

      Não, eu não quero nada que não seja alguém assim e apesar dos caminhos tortos do destino, ainda acredito que seja você, uma heroína que ajudou o herói, mas que foi tão importante quanto ele, que sem ela não haveria história. Mais do que uma donzela, mas sim uma companheira.

      Posso não ser o mais heroico dos homens, mas não sou capaz da covardia de desmentir o que eu disse. Mesmo com toda a cultura cortês dessa vida, acredito na felicidade de nós dois, uma felicidade de iguais, sem primus inter paris, mas dois heróis se ajudando na história.

      É, eu não sou um cavaleiro andante de capa, nem tenho uma espada nas mãos para defender os inocentes. Tudo que tenho é uma caneta e as palavras num papel além de um sentimento corrente de um rapaz apaixonado. Não diga que me corroo em autopiedade ou que estou me vitimizando, isso doí bem mais do que uma navalha.

     Não me olhe com sua pena ou me escute por mera clemência, isso é totalmente amargo. Somos mais do que uma história de contos de fadas, nós somos a realidade, a verdade do aqui e do agora. E a verdade é que eu te amo, mesmo com a minha solicitude e frieza, eu te amo e provavelmente continuarei citando o seu nome até o fim dessa epopeia, essa história sem nexo, esse nexo provisório a que chamamos de vida.

       

Uma quinta-feira em janeiro

Queria vê-la hoje
Que você conversasse comigo
só nós dois
Sem mais ninguém

Que você não saísse
Como sempre sai
Com sua corte
E eu fico só

Eu iria faltar a aula
Mas não ia te contar
Porque o ponto alto
Desse dia seria falar
[com você]

Queria resolver nossos problemas
Tentar achar uma solução
Uma resposta à equação
Sem grandes estratagemas

Queria ouvi-la falar
desde coisas sérias
até mesmo baboseiras
Que não fim não seriam besteiras

Queria entender tudo isso
Essa coisa enlatada que criamos
Na qual eu acredito que você
sente algo por mim, mas não sei o que

Pena? Admiração ou será amor mesmo?
Eu não sei, eu queria ter respostas
Queria te ver hoje
Mesmo que sem querer

Queria contar-lhe como vão as coisas
Tentar fugir de assuntos delicados
Mas no fim ia acabar por falar mesmo

É, nada disso faz sentido
Mas o meu desejo é irracional
Meu amor é incondicional

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A velha Olivetti



       Quanto tempo não é mesmo?

       Passo a mão delicadamente no seu corpo metálico, dedilhando as teclas pesadas do seu mecanismo. É uma pena que tenha ficado tanto tempo parada, logo você que foi aquela criatura mágica na minha infância, o pequeno portal mágico para o conhecimento.

       Te salvei de uma boa não foi mesmo? Iam jogá-la fora, num lixo comum e você estaria esquecida em algum canto no meio do entulho. Não tive a mesma sorte com a vitrola, não consegui salvá-la, nem mesmo aos antigos discos de vinil de meu pai. Como pude deixar isso acontecer?

      Minha pequena máquina de escrever, tão singela e tão retrô. Eu gosto de você como a minha primeira professora, qual o nome dela? Jane? Foi ela que me ensinou os ofícios da escrita e da leitura, mas foi você que me ensinou como deveria martelar as teclas.

      Pena que esteja tão empoeirada minha querida criatura, que não tenha mais tinta no seu refil e eu não tenha como arranjar outro por esses tempos, mas saiba que eu gosto muito de você. Você não é só uma máquina de escrever barulhenta e um pouquinho lenta como dizem, você é mais do que isso, você é parte da minha memória, da minha infância. De como a minha mãe usufruía dos seus serviços para martelar teclas nos livros de contabilidade e de como o meu pai redigia pedidos e os enviava pelo aparelho de fax. Aparelho de fax! Minha nossa! Ainda temos isso!

      Nossa, quanto tempo faz? Quinze anos talvez? Nunca mais vi um fax à venda, assim como máquinas de escrever. O progresso chegou e ele não acompanhou minhas lembranças. Queria eu mostrar aos meus filhos um dia o que você fez por mim, o que você me ensinou quando criança, de como eu me escondia no escritório de meu pai, por entre as mesas de madeira e os papéis nos fundos de casa, e redigia uma ou duas palavras num papel sulfite que ficava largado.

      Papai nunca gostou muito que eu mexesse em você, sabia? Ele sentia um pouco de ciúmes, só quando o computador chegou, ele te trocou sem qualquer cerimônia. Eu senti pena de você, sério mesmo, você deve ter ficado tão triste e desolada, confinada no armário da sala sem qualquer uso, você quase foi pro lixo. Ainda bem que eu te salvei.

        Perdoe-me por não escrever mais no seu teclado, no seu esqueleto pulsante, mas ainda não consegui achar aquele maldito refil que escreverá as minhas doces palavras. Mas saiba que eu gosto muito de você, minha velha Olivetti.

Notas do caderninho preto

Poesia

Acho que perdi a esperança
De dias mais felizes
Acho que perdi a graça
E o bom humor

Perdi o seu carinho
Que se rompeu
Como corda de violino

Prefiro não pensar nisso
Não por o meu ouvido
E ouvir o meu coração
Bater por você

Dia a dia me sinto
Cada vez mais aflito
E em conflito
Devo amá-la ou esquecê-la?

Não posso esquecê-la
Não posso apagar tudo que passou
Na verdade nem quero

Não consigo pensar na ideia
De passar reto por você
Mas faço ainda assim de vergonha

Vergonha do que eu sinto
Vergonha do meu rosto
e do meu corpo

Naquele dia, naquela tarde
Eu disse que  te amava
Você sorriu
Seu sorriso é uma arte

Te amo em linhas tortas
E não crio falsa expectativas
sobre você. Eu te amo

Queria seguir nossos destinos
Que eles se interligassem
E eu pudesse ver os seus sorrisos

Seus sorrisos que alegram
os meus dias difíceis
E arrancam meus suspiros

Não mais

Ah, querida! Como gosto de você.



Prosa


      Não sei o que acontece comigo, minha querida, não há formula para conter tudo isso: Tristeza e desolação.

       Não sei se você me entende, se você sente. Na verdade espero que não, não quero que sofra, mesmo que sem querer você seja a minha femme fatale, a única criatura que consegue me desarmar sem qualquer remoço de minha envergadura.

        O que posso fazer?

         Os dias passam e eu sofro solitário, meio calado,  sem poder traduzir tudo isso em palavras. Tento me isolar e fico assim, difícil de entender. Não quero que me toquem, que me cumprimentem. Quero viver sozinho nessa ilha de agonia.  Acho que o meu destino é esse.

       Não, você não me entende.  Melhor assim, eu não sou fácil mesmo e você também não, por isso eu vejo graça nisso tudo, porque não somos fáceis de se compreender. Na verdade, eu não quero ser compreendido, não quero que me analisem e digam o que estou pensando e acho que talvez seja isso o que talvez você queria ter me dito também.

         Enfim, às vezes me pergunto se outras pessoas sentem tudo isso o que eu digo e sofram dessa maneira absurda, sem dor, mas ainda assim torturante. A resposta é quase automática: "Sim, as pessoas também sofrem". O ser humano é um ser naturalmente triste.

      Bem, meu pequeno caderninho, obrigado por sua atenção, eu precisava desabafar um pouco. Sei que falo as mesmas coisas e que estou começando a ficar chato, mas meu caro caderninho, você é o meu último companheiro nessa noite escura que ainda me ouve.

     Adeus, meu bom amigo e muito obrigado. Ela nunca lerá isso.

PS: Nem falei dos olhos dela, tão escuros e tão marcantes que entram na alma e me dão segurança, ou do modo que ela fala, de maneira descompromissada e divertida, que me seduziu a cada palavra com seu jeito  simples, mas digno de atenção. É definitivo, acho que não tem cura, meu caro caderninho.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Entre o passado e o futuro se esconde o presente

          Entre o passado e o futuro se esconde o presente, mas onde se espera encontrar no passado:

           É no passado que se remonta aos tempos de nossos entes queridos, ou uma nostalgia de outros tempos dos quais não podemos voltar mais; O passado era horrível, mas o idealizamos tanto que começa a ser doce, é dele que tiramos nossos heróis, homens de valor: Aleksandr Nevsky, Napoleão Bonaparte, Julio Cesar, Caxias, não importa, idealizamos todos eles.

           O passado fundamenta tendencias, ideologias, abre feixes e parâmetros, é do passado que tiramos todo o nosso conhecimento e todos os nossos exemplos; Foi dessa  construção temporal que aprendemos noções básicas do nosso cotidiano, religião, cultura, valores, política, etc. Nossas instituições humanas remetem ao passado.

          A família nuclear é a situação coesiva que insere um individuo em nossa sociedade, mas o que diriam os tradicionalistas, se eu dissesse que a sua própria forma organizacional remonta aos tempos do neolítico. Sim, a família só existe por causa da Revolução Neolítica, onde os homens acabaram deixando de serem meros caçadores, para produzirem o seu próprio alimento, e firmarem sua descendência num canto.

        Formamos cidades para proteger esses modelos, aldeias e agrupamentos humanos. A nossa sociedade, querendo ou não, é fundamentada pela família e nossas práticas culturais são neolíticas, como por exemplo: Por que mulher não pode ir à guerra, mas homem sim?

       Essa questão ainda é problemática, não pensem vocês que não, toda a vez que discutia com as feministas, elas se protegiam no arcabouço, "guerra é coisa para homens", o que não é verdade, basta lembrar de Catarina, a Grande, Cleopatra e muitas outras. Discutindo isso com um amigo tive a melhor resposta até então:

      "Mulher não vai para guerra pelo simples motivo, elas são as guardiãs de uma comunidade, e futuramente, caso tudo der errado, a comunidade pode ressurgir a partir das mulheres." Biologicamente a explicação faz sentido, mas só fui entender o porque dessa prática quando li sobre o Neolítico, onde estava estamentado o modelo tradicional familiar: Homem caça e faz guerra e as mulheres cuidam dos filhos e da casa. Isso faz sentido, numa guerra, a sociedade poderia ser varrida do mapa, mas se sobrasse um homem e várias mulheres, poderia ressurgir de novo, mas se não sobrasse nenhuma mulher, tudo seria mais difícil.

          Parece uma explicação estúpida, mas faz sentido quando observamos o caso da Sérvia, após a Primeira Guerra, onde um quarto da população masculina foi literalmente dizimada, deixando uma lacuna populacional considerável, contudo, em vinte anos, a população sérvia voltou a crescer, chegando aos patamares anteriores da guerra (para ser novamente arrasada pela Segunda Guerra), aconteceu o mesmo com a Alemanha e outros países.

         Enfim, esse fato já mostra o qual arcaica é a estrutura atual da família.

        O modelo da família nuclear é posterior, onde a monogamia se fez presente, e tem suas origens no Oriente Próximo, desde o Egito, Israel, até a Grécia. Na verdade, os escritos do Antigo Testamento fornecem de maneira bem direta uma mudança do estatuto social que o povo judeu quanto à família, anteriormente Adão só tinha uma mulher  Eva, e dela surgiu toda a sua descendência, mas já com o Abraão, vemos casos de bigamia, onde ele tem duas esposas. Eu tenho minhas ressalvas quanto a bigamia, mas ela perdurou nessa sociedade até a época de Davi e Salomão, quando ficou mais do que comprovado a falência desse sistema na figura dos atritos das esposas de Davi, Batshebah e Mical, e num dado momento esse modelo foi substituído.

        Por interações entre o mundo judaico-helenistico, isso acabou chegando à Grécia, como no caso da figura de Penélope e Odisseu, e se encaixou muito bem na Diáspora grega que chegou à Península Itálica, principalmente se lembrarmos o mito de Enéas e os seus homens que chegaram a Península e fundaram agrupamentos no Lácio que futuramente dariam na Roma de  Rômulo;

       A transformação legal do casamento foi inevitavelmente com Roma, mas em todo caso os alicerces são bem antigos.

     
       Outra coisa que é bem antiga, mas não tão bem neolítica, é a sociedade hierarquizada. Se formos ler os ensaios de Marx e sobretudo Engels, temos que anteriormente a um modelo escravista onde teve a hierarquização formal de uma sociedade em indivíduos produtores e exploradores, temos que a sociedade anterior, talvez a neolítica, pressupunha uma igualdade entre os caçadores e que eles repartiam os seus ganhos entre si (eu tenho minhas ressalvas, não acredito totalmente nessa ideia de igualdade entre caçadores piamente), mas com o passar do tempo, com as guerras e demonstrações de força, um indivíduo dessa tribo passou a ter maiores poderes do que os outros, essa é a figura do chefe.

       O chefe também tem uma questão militar embutida, mas na essência, por esse pensamento, essa é a formação da hierarquização da sociedade neolítica embutida, mas na essência, por esse pensamento, essa é a formação da hierarquização da sociedade neolítica. Adaptando essa teoria com outros saberes econômicos, nós temos que com o avanço econômico dessa sociedade, na forma de aumento de produção e armazenagem de excesso de produção, e entendendo economia como "gestae domu", gestão da casa, temos que num dado momento, alguns indivíduos deixam de fazer parte da cadeia produtiva tradicional e passam a se dedicar a outros ofícios, como a guerra, a religião, a arte dos minérios e ao saber científico, é a formação estamental de outros patamares, sendo que o último configura obviamente à classe que trouxe maiores desenvolvimentos à humanidade, a inteligentsia;


       E nesses termos sintéticos se explica por exemplo a elite intelectual ateniense ou de `Platão. Assim a República não é uma idealização da sociedade humana, é uma tratado de uma possível evolução da sociedade antiga, baseada no modelo ateniense de maneira mais plena: Uma sociedade de homens de ouro, de grande valor, seres pensantes que governavam a República através dos saberes puramente filosóficos, e por essa classificação superiores aos homens de prata, os guerreiros que lutam pela proteção da cidade, e os homens de bronze, que efetuaram trabalhos manuais, seja artesanato, cuidar da lavoura ou mesmo comerciantes.

      Essa situação estamental de razão filosófica é a base de todas as utopias já construídas. Na Idade Média, Santo Agostinho irá constituir a sua Cidade de Deus uma sociedade perfeita na esfera divina, que ao contrário de Platão e dos gregos, Agostinho só acredita que a perfeição seja possível no outro mundo, no espiritual e não no terreno, onde há a hierarquização de toda a sociedade de maneira convincente, tornando padrão referencial para a Idade Média (ao contrário de outras obras, Santo Agostinho era amplamente difundido).

      Essa vertente platônica vai servir de inspiração para a Utopia de Thomas Morus, onde é pontuada a existência realmente utópica de uma ilha onde não havia classes sociais, e que não havia homens de guerra ou a valorização de um corpo de mercadores ou de guerras, que mercenários eram usados para  a luta, e que o ouro era tão abundante que era renegado só às crianças e aos bandidos como algemas. Onde haveria reversamento entre a população entre o campo e da cidade há cada quatro anos. Não preciso nem dizer que a Utopia é realmente uma Utopia.

      Se Agostinho acredita que não seja possível ao homem alcançar a perfeição em vias do mundo ser naturalmente imperfeito, e o Morus recorre à esfera filosófica para construir a ilha de Utopus, o mesmo não pode ser dito de Hegel. Hegel com certeza retoma a ideia da perfeição de Platão, do idealismo alemão, de que é possível construir um novo mundo no presente a partir de nossas ideias. Na verdade, desde o Iluminismo isso já dava as caras, mas o idealismo alemão abraçou isso como uma persona grata.

      A construção de um ideal de belle époque e do progresso se embaseia nisso, e até o marxismo é meio hegeliano ao pensar na construção de uma sociedade sem classes sociais e propriedade. Tudo isso vai ser combatido por Nietzsche, quando ele retoma as origens da filosofia e começa a atacar Platão e toda a sua filosofia construída.

        Mas no fundo, mesmo com tudo o que foi dito. A nossa sociedade, na vertente, na origem, ainda tem vestígios da sociedade neolítica. É claro que com algumas modificações, mas a sua origem continua presente até hoje. É por isso que acredito que possamos estar próximos de um tempo de mudanças, mas qual, eu não sei.

       A nossa família é uma estrutura antiga, as relações familiares também. A filosofia é platônica, nossa moral foi construída no século XIX. Até os nossos jogos são meio medievais:

      Tomemos o xadrez, que jogo é esse onde encontramos relações de vassalagem, onde um peão é uma peça insignificante mas um bispo ou uma torre são cruciais para o andamento das jogadas. Na verdade, o xadrez é um jogo que esconde uma hierarquia, mas mais do que isso, ele é a base de todas as táticas de guerra na Europa medieval, desde a formação de tartaruga, o trabalho da cavalaria agir em flancos e da importância da família real para a manutenção do corpo.

      E quanto ao futebol? Esse jogo que é uma simulação quase que metafórica de um campo de batalha, onde onze homens de cada lado se dividem ao longo do campo, competindo e degladiando-se pela posse de uma bola (ou uma bandeira) com o objetivo de lançar a bola no gol (ou erguer a bandeira em um castelo). Até o futebol é meio medieval.

       Isso sem falar da luta livre, que é sem dúvida a releitura do circo de gladiadores romanos.

        Pois é, entre o passado e o futuro, se esconde o presente.

        Então o que podemos esperar do futuro? O futuro não influi diretamente no presente, mas o presente influi diretamente no futuro. Nós nunca temos certeza do que irá acontecer, e isso impossibilita termos certeza de que os nossos atos são corretos, o que esperar do futuro? Incerteza.

        Na verdade dizem que o futuro vai ser melhor que o presente, se espera sim. Materialmente será, mas filosoficamente? A História dá voltas e voltas, mas não em círculos, e sim em elipses. Podemos estar agora numa belle époque, mas amanhã podemos entrar numa guerra, ou não. Essa é uma elipse que sequer pode ser calculada, é uma elipse infinita. Pois apesar do trabalho absurdo de Fukuyama, a história não acabou. "Esse não é o fim, nem mesmo o início do fim, esse é o fim do começo".

       O presente é o arquiteto do futuro e a semente do passado. Ele se move para frente e nunca se apresenta de forma estática, assim como o passado não foi estático e nem o futuro será. O presente é a ideia consumada da teoria do caos, ou do castelo de cartas, em que tudo que é sólido se desmancha sobre a força do tempo.

       Mantivemos parâmetros neolíticos em nossa organização social, mas o que garante que eles próprios vão desaparecer. O presente é inconstante, é cigano, se move de um lado para o outro, por isso é tão sedutor, o passado pode parecer rígido e estático, mas foi tão inconstante quanto o seu irmão mais novo. A questão toda é, há futuro para nós, para tais discussões? Essa é uma das perguntas que movem o presente.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...