quarta-feira, 31 de julho de 2013

Na padaria

        Na terra das mangueiras a vida está melhor cada vez mais se assiste o surto do grande desenvolvimento econômico nunca antes visto na História desse país. Os jornais bombardeiam a todos com notícias boas da economia e de como o nível de vida do cidadão comum melhorou.

            “A vida hoje é melhor, com nossas medidas econômicas o trabalhador pode gastar mais na padaria comprando pão e leite. Sem essas medidas a economia irá se estagnar enquanto outras progredirão...”, ecoava estridentemente o áudio da televisão por cima do balcão da padaria. Aquela voz vinha se tornando cada vez mais conhecida naqueles dias, era do ministro da Fazenda, Margarina, nome muito conveniente de ser citado numa padaria.


            É verdade que ninguém presta muito atenção a essas coisas quando se está na fila para pagar o pão. Nessas horas a vida se resume na crescente dicotomia entre comer o café da manhã e não chegar atrasado ao trabalho; Algumas pessoas pensam em conversar qualquer coisa com o colega ao lado, mas dado ao nervosismo que consome a todos de manhã, nada disso é possível.


            A fila nunca anda e o pronunciamento do ministro Margarina também. Realmente a vida melhorou, agora as pessoas podem usar o cartão para pagar o pãozinho, é por isso que a fila nunca saí do lugar, deixando cada vez mais impaciente um daqueles engravatados que iriam trabalhar. A bem da verdade, a velhinha logo à sua frente não pagou no cartão de crédito, de fato nem mesmo sabia usá-lo, achou mais conveniente pagar com uma nota de cinquenta, para a fúria do jovem rapaz.



            “Agora vejamos o fiasco do empresário Eike Batista” — pronunciou uma voz feminina que apresentava o telejornal  — “Mais uma vez o grande investidor e dono da OGX  teve uma grande perda ontem; Desde quarta-feira as ações da grande petrolífera OGX despencaram devido à incerteza sobre a exploração dos campos de Petróleo em alto-mar, e nessa última segunda-feira apresentaram o pior patamar registrado na Bovespa...”


            A fila andou timidamente, mas dessa vez era o rapaz que seria atendido.

            — Bom dia, senhor. CPF na nota?

            — Não, creio que não será preciso — “Afinal só são dois pãezinhos e um frasco de leito, não creio que vale a pena pedir desconto no imposto”, pensou consigo.


            — Cartão de crédito? Aceitamos  Visa, Mastercard, American Express.
            — Não, obrigado, pagarei em dinheiro.
            — Tem certeza, senhor? Pagar com Visa é bem melhor.
            — Tenho, tenho certeza sim.

            Colocou os dois pães sobre o balcão e o litro leite, enquanto a atendente verificava os preços, o jovem rapaz voltou os olhos para a tela da diminuta televisão pregada na parede.

            “...As ações do empresário Eike Batista estão sendo vendidas na Bolsa há menos de dois reais, e especuladores e analistas técnicos acreditam ser esse o fim do Império do grande investidor brasileiro...”


            — Deu oito reais e noventa centavos, senhor.
            — Oito e noventa! Mas isso é um absurdo! Só são dois pãezinhos e uma caixa de leite!
            A atendente deu de ombros, parecia acostumada com aquele tipo de explosão, ou mesmo estava desinteressada com tudo aquilo, quem iria saber?
            — Sabe como é, senhor — desconversou — É a inflação, a gente tenta manter os preços, mas tudo acaba aumentando.
            — Mas isso é um absurdo — Vociferou ainda chocado.
            — Pois é, infelizmente não posso falar nada senão serei despedida.


            “É melhor calar a minha boca, senão vou arranjar uma cena aqui que não vai ser legal” — pensou consigo.


            — São oito e noventa.
            — Sim, sim, eu já entendi — Disse em um tom mais brando, sentia nos ombros o peso da humilhação. Retirou a carteira do bolso com bastante dificuldade, embora agora parecesse menor agora, a carteira não queria se soltar do bolso e quando a abriu sentiu cada vez mais o dinheiro pesado, que contou pela aspereza da lixa do papel-moeda — Aqui.


            Pegou o saco de papel onde estavam suas compras e saiu de cabeça-baixa da padaria, meio ultrajado com tudo aquilo, mas foi contido junto à porta pelo grito da atendente:

            — Senhor, o seu troco.

            “Troco, pelo menos há um troco”, pensou consigo. Viu-se obrigado a voltar e decidido a reaver o dinheiro retirado de maneira tão vil retornou ao balcão de atendimento com o pouco orgulho que ainda conservava em seu semblante.

            — Aqui, senhor, aqui o seu troco.

            Entregou-lhe um pedaço de papel timbrado que pela aspereza e tamanho reconhecia-se não ser dinheiro, mesmo assim ele forçou-se a perguntar.

            — O que é isso?
            — O seu troco, senhor — Disse em um tom ligeiramente dócil — São ações da OGX.
            — Ações da OGX!?
            — Sim, senhor, não está a par dos preços? Hoje elas valem menos de dois reais.
            — Mas isso é ridículo — Enfiou o papel no bolso e saiu da padaria nervosamente, puxou um cigarro e pensou consigo.




            “Realmente a vida está melhor, onde já se viu as pessoas  comprarem o pão com o cartão de crédito e receber de troco ações da Bolsa. Só aqui mesmo”, e sorriu-se no caminho para casa.

Notas de final de mês

Sinto sua falta toda vez que eu levanto pela manhã e vou me arrumar. Quando vou escovar meus dentes olho com amargura o rosto sem cor, magro e esquálido que percorre toda a minha tez, a tristeza me corrompe, termino de enxaguar a roupa e vou para o meu banho.

Deixo os pensamentos ruins caírem sobre o ombro e escorrerem pelo ralo, mas nem todos saem. Sinto sua falta enquanto enxugo meu corpo e tento enxugar minha alma.


Escolho minha melhor roupa pensando em você, pensando que talvez hoje eu te encontre de novo. Que tal essa camisa? Ela é bonita e não chama muita atenção. Será que devo ir de paletó? Sim talvez nunca mais eu te veja, mas sempre conservo essa vil esperança. Por quê? O porque eu não sei, mas espero um dia encontrá-la de novo.

Confúcio dizia que nada era mais danoso que uma dúvida no espírito, talvez ele estivesse certo, nada é mais danoso não saber se irei te encontrar de novo ou não. Devo-lhe um café e sinto falta das nossas conversas, de verdade, nunca mais a vi, nem acho que verei, por isso ando triste, bastante triste.



É verdade que tudo é efêmero e transitório, que a sociedade individualizada, que tanto Zygmunt Bauman fala, nada mais é uma sociedade de consumo onde tudo é passageiro e cultua uma beleza plástica. Mas você não constitui em nada esse modelo de beleza plástica, você é bela em essência, de maneira que toda a vez que eu te encontrava tinha desejo em abraçá-la, mas o tempo passou e a vida levou de novos essas esperanças.


Sim, talvez não devesse escrever sobre isso de novo, talvez fosse melhor guardar a minha tinta e andar um pouco, mas não consigo. Realmente é triste  tentar te procurar em todos os meus olhares, em todos os vagões de trem que eu pego, ônibus e todos esses corredores dessa melancólica universidade. Procuro você nos olhares de outras mulheres, mas não encontro, pois afinal de contas, acho que elas não são como você era; Você me surpreendeu de verdade, e de um jeito positivo, mas desapareceu tão rapidamente que nada mais sei de você. Não me deu o telefone, o email, ou qualquer referência.


Onde andarás eu não sei, e estou vagando a sua procura. Procuro-te todos os dias para pagar aquele café que eu te devo, e conversar mais com você, conhecê-la melhor, mas temo que isso seja impossível. É triste pensar em tudo isso, mas eu já me acostumei a tanta coisa!

A plasticidade dessa vida sufoca-me, acabou a vontade de escrever mais. Nessa ode de pedra e concreto armado no pequeno quadrilátero nesse imenso quadrado no Planalto Central tento inutilmente encontrá-la mais uma vez e dizer: “Olá, como vai você? Sabe que cada vez mais sinto a sua falta”.



É melhor eu pegar a minha capa e o meu  chapéu, não quero que vejam o que sinto por dentro.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sobre o ofício do poeta

         O ofício do poeta é um dos mais catastróficos que existem, pois nada é mais penoso que encontrar a rima perfeita e ainda ser estigmatizado por não ser relevante para a sociedade cada vez mais utilitária quanto a nossa.

O poeta é aquele indivíduo que come coxinha vencida na rodoviária, que compra pão amanhecido pra pagar menos e nunca tem um tostão furado. O poeta é o camarada que reutiliza os versos, remenda as rimas para nunca perder um só fio do texto.

Esse mesmo indivíduo é obrigado a encontrar a essência do mais belo da vida e escrever no papel. O poeta deve ser mudo da boca e tísico nos ouvidos. Sim, deve ouvir a todos, reparar no sapato que o engraxate lustrava até a fitinha do cabelo de um singela moça. Não há nada mais tão detalhista quanto o serviço do poeta.

Ainda dizem que o poeta é inútil. Inútil uma ova, somos nós que criamos hinos e canções que reverberam por cantos a fio, somos nós que consolamos corações partidos no final das noites cada vez mais frias, nós que mobilizamos as palavras em formas de versos para criar batalhões de ideias. E ainda dizem que o ofício do poeta é inútil.

O poeta pensa onde outros teriam passado despercebido, ele chora onde outros teriam rido e ele sente com o coração enquanto outros sentem com o bolso. O poeta é sofredor por natureza.


Sim é sofredor, mas alguns se mostram desonestos em nossa prática, aproveitam-se dos versos para brincar com as emoções das pessoas, para ter várias mulheres numa vida desvalida enquanto os verdadeiros sofredores sentem o que devem sentir. Fernando Pessoa disse que “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que  chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”[1]. Engana-se Pessoa, o poeta realmente sente e ele esconde a sua dor em sua vida cotidiana, mas não esconde quando escreve suas rimas.


Mas uma coisa tem razão ele ao declamar que: “E os que leem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, /Não as duas que ele teve, / Mas só as que eles não têm”. O leitor acha que pode se sentir bem com os sentimentos sofridos nos versos e consolo nas estrofes, a rima nunca é tão feliz quanto a intenção do escritor. Na verdade, é um esforço linguístico tentar por todas as ideias no papel.


Verdade seja dita, acho que os poetas não são de todos mentirosos. São até camaradas de valor, veja Lorde Byron morreu na Grécia lutando contra os otomanos pela a independência. E Maiakovsky que não nos deixa mentir, ficou do lado das linhas do Exército Vermelho lutando lado a lado com as palavras e vendo todo aquele horror da guerra que puxou para os seus versos depressivos.


Enfim, o que é o poeta? É um meramente um compilador de palavras? Ou um gênio da argumentação? É um filósofo ecumenicamente transformado em excêntrico ou um simples vagabundo que vive da boemia e de trocar as palavras. Talvez ambos, talvez nenhum dos dois. A verdade é que a escrita deve ser uma arte, ou melhor, é como um carvão, que se moldado a partir das pressões e das temperaturas corretas pode virar um belo diamante.


Os instrumentos que você tem, caro colega poeta, são o papel e a tinta. O papel pode ser qualquer um, até folha de papel velho, mas a tinta não. A caneta deve ser tão delicada quanto sua mente, elegante e leve, de preferência uma tinteiro, de pena tranquila e fluida que pinte de maneira elegante o papel. O problema é quando a tinta suja sua mesa, sua mão e a sua roupa; Bem, você terá que se acostumar com isso.


Para digitar? O computador e o bom teclado defronte a sua cadeira são boa pedida, mas se queres ser preciosista como eu, que tal reintegrar aquela velha máquina de escrever do seu pai que anda meio esquecida no porão. Talvez o refil nem mais funcione direito, ou as teclas digitem-se sozinhas, mas só a energia de se retirar um artefato desses na escuridão representa muito. As suas palavras também, elas são tão fortes que podem ressuscitar pessoas, tirá-las do esquecimento.




Sentes cansado de tanto escrever, é deveras cansativo passar horas a fio sentado numa poltrona redigindo um texto. E pior quando você não consegue escrevê-lo, que frustração! Vá, saia um pouco, vá andar um pouco. Leve um bloco com você, sempre tenha um bloco de anotações à mão, anote o que você vê, o que as pessoas falam ou o que você sente. Escreva, somente escreva.





Não consegue escrever de novo? Escreva o trecho umas três vezes e compare... Qual ficou melhor? Nenhuma? Escreva tudo de uma vez então. Rasgue o papel logo de uma vez, seja niilista, você é o seu próprio deus quando está escrevendo, você pode criar tudo na folha, desde a mais linda personagem até o mais macabro dos monstros.





Acabou? Não? Sente-se hostilizado pelos os outros? Por quê? Lembre-se sempre do que disse o grande poeta, Vladimir Maiakovsky:
Grita-se ao poeta:

"Queria te ver numa fábrica!
O que? Versos? Pura bobagem".
Talvez ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.

Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?

Certamente que a pesca é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.

Pescamos gente viva e não peixes.

Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.

Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?

Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:o poeta ou o técnico
que produz comodidades?

Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.

Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.

Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!

O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó![2]




Então, qual o papel do poeta? Antes de tudo escrever, escrever o que sente e o que pensa. Refletir sobre o que deve ser a vida e o que quer passar ao seu público. Acha árduo? Você não viu metade.




Não é só escrever que faz o poeta, o poeta tem que exprimir suas próprias emoções e nos seus leitores, tem que escrever fluidamente, tem que passar suas ideias, bem como suas paixões ou decepções. Tem que dar vazão, margem aos sentimentos sinceros, ou as vezes não, às vezes tem-se que mentir, mas não iludir o leitor, como Fernando Pessoa dizia de nós, mas mentir uma realidade bonita que às vezes não exista, não contar diretamente que não existe mais amor no mundo e que nem tudo são flores como a gente queria que fosse... A melancolia a gente esconde para nós mesmos.

Poeta também tem que informar, as vezes tem que ser até ativo, participar mesmo, se engajar nas próprias lutas e sair dos versos. Ir para a Guerra na Grécia (Byron) ou lutar junto ao exército de cavalaria (Isacc Babel) ou uma própria Revolução (Maiakovsky). O poeta tem que viver e  constantemente vivendo. Andar, seguir, perseguir novas histórias.


Tem que ser alerta, um mero detalhe pode fazer a diferença. Um anel no dedo de uma moça pode significar muita coisa, um sapato sujo também. A vida é feita de detalhes e imperfeições, cabe ao poeta imaginar tais singularidades e contá-las, ou as vezes não, as vezes esquecê-las e criá-las de outras formas. A poesia não é algo fácil e não é como a escrita normal, ela nos assola constantemente com a métrica, rimas e musicalidade, e nunca é 100% perfeita. Por isso prefiro mais escrever contos e romances a poesias, não que eu não goste dos últimos, mas penso mais em termos cartesianos que neobarrocos.





Esse é o árduo ofício do poeta. Queres escrever por extenso, prepare-se para escrever em verso. Essa é a essência da música, da arte e da oratória. Aqui, tudo aqui na poesia, essa falange da mente.


[1] PESSOA, Fernando. Autopsicografia. Disponível em: http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/143.php
[2] MAIAKOVSKY, Vladimir. O poeta proletário. In: Antologia Poética. São Paulo: Editora Max Limond LTDA, 1983.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Saiu de moda

     Saiu de moda
     Filosofar
     nesse frugal
     sonho
     de natal

     Saiu de moda
     Sonhar
     no trivial
     amor
     de Carnaval

     Saiu de moda
     Amar
     o vestal
     rigor
     gramatical

     Saiu de moda
     Rimar
     o animal
     vigor
     sexual

     Saiu de moda
     Vingar
     A lira
     com dor
     visceral

     Saiu de moda
     tudo isso
     Só não sai
     Essa dor cretina
     vinda de você
   
 

A você que parte

   Você que parte hoje
   de mãos dadas
   com esse crápula

   Você que hoje ri
   com essas ciladas
   que você manipula

   Esqueça que existo
   Saía de perto de mim
   Não quero você aqui

   Siga com o seu par
   para bem longe
   onde eu não possa olhar

    Perdi sem querer
    As rimas
    por culpa de você

    Vá beijar em outro lugar
    Não na minha frente
    Pare de me torturar

     A sua presença
     Dói a minha cabeça
     Deixe-me só

    Esqueça que eu existo
    Saía perto de mim
    Não quero você aqui

    A tinta se foi
    O tinto também
    Deixe-me só
    Deixe-me aqui

Nunca te perdoei

     Nunca te perdoei
     Por ter trocado
     meus sentimentos
     por uma casquinha de sorvete

     Nunca te perdoei
     Por ter brincado
     de amor
     com o cara errado

     Nunca te perdoei
     Por ter deixado
     tudo ficar
     assim de lado

     Nunca te perdoei
     Por eu ter chorado
     de tal jeito
     por esse amor levado
   

No torvelinho desse frio

      Nessa noite tão fria
      Minha voz se afina
      Meu corpo treme
      Minha alma geme

      No meio desse frio
      Nada é mais pueril
      Do que desejar
      O que não há

      Não existe amor
      Nesse quadradinho
      De Goiás

      Tudo é fechado
       Separado
       Dissociado

       Ninguém
       amigo
       ninguém
       Ninguém é amigo
       de ninguém

       Meu amor partiu
       No meio do frio
       Me deixou só
       Com essa dor

       Ninguém mais a viu
       Saiu sem se despedir
       E me deixou aqui

       Estou triste
       Esse negro licor
       De morte carregado
       Penetra nos meus olhos

      A escuridão é veneno
      O pranto perde cor
      Quando toca a face

      Nessa noite tão fria
      Minha voz se afina
      Meu corpo treme
      Minha alma geme

      No meio desse frio
      Nada é mais pueril
      Do que desejar
      O que não há

      Desisti de ti
      Desapareci
      No torvelinho
      desse frio


domingo, 21 de julho de 2013

Através das estrelas

Através das estrelas
Meu olhar tão distante
Desparece no amor

Ninguém dá muita trela
A coisas do coração
Nessa aquarela
de jasmim

Jardim de querelas
De canto exultante
Rimo com calor

Através das estrelas
Sopra-me o vento
Essa linda canção


Deixe-me ve-la
Ouvir-me cantar
Como a estrela
Procura o seu par

Através das estrelas
Vi a rima passar
Sob a luz do luar



Procura-se o meu amor

Procura-se o meu amor
Nesses versos de longe
Sem rima e métrica
E nenhuma sinfonia

Abro o catálogo
e busco vários nomes
Acho alguns, mas
não acho o dela

Ela era tão amável
Que nem me deu
o seu telefone
Mas que maldade!

Sem rancor
Procuro seu nome
Na prima vida
Acharei? Não sei

Meu amor
é doce
Tem olhos largos
E cabelos escuros

E bonita? Sim ela é
Ah quem diga que
mais bonita é
como ela é

Não estou rimando
Procuro seu nome
Não meros versos
Mas não me deixou telefone

Por quê? Eu não entendo
Você nunca mais apareceu
Agora estou só
E você está longe

Não achei seu nome
Te devo um café
Acharei? Não sei

Nem estou aqui
Nem estou ali
Estou à sua procura

Como é, como está?
Isso não sei dizer
Enfim, cadê você?

Sobrenatural

Sobrenatural ressupino
Das noites vazias
Cuja limpidez
Termina a palestra

Rigor molesta
com rapidez
Os  dias
Nesse frio alpino

Nora  dos ventos
Frio sobrenatural
Quebra os dentes
E o carnaval

Eis o vendaval
de grandes mentes
No rigor invernal
Tece olhares ciumentos

Na neve caminha
A criatura da noite
Emitindo a voz
da morte

Para minha sorte
O inimigo algoz
Não é de grande açoite
Mas sim uma gatinha

sábado, 20 de julho de 2013

Lembranças de Volgogrado



        Ninguém poderia dizer que havia um  céu tão límpido e azulado quanto naquela tarde. Preguiçosamente alguns flocos remanescentes dos feixes do gigante Sol batiam na fronte desse pequeno velho que agora anda calado; era um senhor amável, de aspecto meio bexiguento que caminhava um tanto encurvado, aparentando ser mais velho do que era. Era talvez como o seu avô, mas não tinha um único sorriso enquanto caminhava naquela praça  com o netinho.

          — Aqui, meu neto, ficava a fonte Barmaley, uma fonte de pedra esculpida em torno dessa praça para celebrar um conto infantil, escrito por um escritor russo, Korney Chukovsky.
          — Onde, vovô? Eu não vejo nada.
          — Ficava aqui, ela ficava exatamente aqui onde estou.  Era uma fonte linda, tinha no alto seis criancinhas dançando em volta de um poderoso jacaré. Veja, veja, tenho uma foto dela.

          O velho mostrou-lhe então uma fotografia meio envelhecida, já um pouco gasta, da dita fonte que agora não mais existia.
"Essa é a fonte Barmaley, meu neto"

            — Essa é a fonte Barmaley, meu neto; Foi aqui onde eu beijei a minha primeira namorada, eu tinha mais ou menos a sua idade quando tudo aconteceu; Eu lembro que quando dava domingo, as crianças pulavam na água para se refrescar ou mesmo se esconder no pique-esconde e os namorados compravam uma casquinha de sorvete bem ali naquele bosque.
            — O que aconteceu com ela, vovô? — Inquiriu o netinho curioso.
            — Algo terrível, meu neto. Ela se perdeu junto com a minha infância.

            Deixou um filete de água cair dos olhos, o idoso não teve a coragem de enxugar as lágrimas, tampouco esconder os seus olhos tão inchados. Com um aspecto meio sombrio começou a contar uma história para o netinho.

            — Eu tinha oito anos, eu ainda era uma criança quando vim para Stalingrado pela primeira vez. Estávamos saindo do campo para tentar uma vida melhor; Meu pai era violinista, o som de suas músicas dele continua a tocar na minha cabeça... Korsakov, Balakiev, os grandes sabe? — O neto não compreendeu o que o avô dissera, de certo não sabia essa parte da música — Ah! Que estou falando, você é muito novo para entender sobre música; talvez não  refletiu, afinal, que criança hoje em dia saberia quem foi Rimsky-Korskov ou Mily Balakiev? — Os grandes compositores nacionalistas, os nossos músicos tradicionais. Com a invasão nazista em Stalingrado, para o nosso povo, esse era um simbolo de esperança, para os nazistas, de resistência.
            — Do que está falando, vovô?
            — Um dia, um dia, a Gestapo bateu em nossa casa; uma patrulha qualquer, achavamos que só queriam um pouco de comida, mas não era isso. Um oficial entrou arrombou a nossa casa, eu estava brincando na sala quando eu vi ele, parado bem ali na porta. Sorriu para mim com um aspecto diabólico. Minha mãe correu em minha direção e me escondeu no armário da cozinha, antes que eles me encontrassem de novo.
            — E depois, vovô? E depois?
            Viktor  Gadzhiev, engoliu seco, tentou inutilmente lubrificar a sua garganta já muito gasta: a voz lhe falhava naquele ponto... Medo, cansaço? Talvez os dois, mas em todo caso Gadzhiev tomou um pouco de coragem e retomou sua história.

            — O oficial tinha olhos tão escuros que chegavam a torcer sua alma, e o aspecto vitríneo da cicatriz em seu rosto até hoje me apavora nos meus mais terríveis pesadelos. Eu lembro do modo como fitou a minha mãe, e gritou alguma coisa em alemão... Minha mãe não falava alemão então levou um golpe na cabeça, eu só pude ver o modo como eles a arrastaram como um animal para o divã da sala... Ela devia saber que estavam à procura do meu pai.
            O neto fitou-lhe com olhos arregalados, estava assustado com a naturalidade que seu avô contava aquela história... Gadzhiev não esboçava nenhuma emoção em seus lábios e tinha perdido toda a cor de seu rosto, estava mais pálido que um cadáver. Pergunto eu se depois dessa história ele não queria ser um cadáver.
           — Eles entraram no quarto dos meus pais,  procurando o meu pai, e quando eles o acharam, dormindo na cama, cortaram a sua garganta sem cerimônia; Eu pude ouvir da cozinha os gritos da minha mãe chorando — Um soluço tomou sua voz nesse momento   O nazista voltou com os seus encarregados para a sala e de um sinal para o SS que a segurava contra o sofá. Com uma tranquilidade absurda, disse em um russo muito ruim: "Agora, eu já eliminar o seu marido, vamos terminar tudo isso de uma vez, Russiche Schein!"
         Sua voz estava trêmula naquele ponto,  mal conseguia segurar a emoção que de tal magnitude fazia com que tremelicasse suas mãos :
          — Eles cortaram, rasgaram as roupas da minha mãe, na minha frente... E eles a violentaram; um a um, enquanto cuspiam,  xingavam e a humilhavam... Nenhum daqueles terríveis momentos sai da minha cabeça. O modo como o meu pai foi morto, como um animal, tomado pelo sangue de suas próprias cordas vocais, e a minha mãe, sendo violentada por aqueles sete malditos "fritzies" e depois estrangulada para que não contasse sobre tudo aquilo...
        

          —  ...Eles reviraram tudo, tudo que pudesse ter valor foi levado e logo em seguida atearam fogo em tudo  Gadzhiev soltou um tímida lágrima no canto do olho esquerdo, uma lágrima que passaria despercebida senão tivesse tomado o aspecto delgado de suas rugas — Eu era uma criança, uma simples criança, eu não sabia o que era vida até aquela hora. Eu podia ter feito algo, eu podia ter salvado meus pais, mas não eu fiquei lá, no armário, imóvel, enquanto aqueles malditos chucrutes faziam aquelas barbaridades com eles... Desde esse dia não consigo dormir sem me lembrar do que fizeram com os meus pais.

           O pequeno Anton abraçou o avô no tronco e com dificuldade ergueu seus olhos em direção ao choroso avô.

          — Não chore, vovô, não chore, o senhor não tinha culpa. O senhor não tinha culpa.

         O velho abaixou-se e abraçou o seu querido neto enquanto soluçava baixinho, Gazhiev num dado momento não conseguiu se controlar e já chorava à plena voz enquanto alguns transeuntes olhavam para a cena perplexos. Gazhiev soluçava de dor,  era a guerra. A guerra contra si mesmo, a guerra contra a culpa e o sofrimento.

        Com dificuldade as  lágrimas se secaram e em seguida levantou-se para caminhar junto ao neto pela Prospekt .

        — Eu corri  por essa mesma avenida há setenta anos atrás. Esperei os alemães saírem da casa dos meus pais; Fui sem rumo até encontrar aquela fonte abandonada, onde me sentia mais seguro. Entrei nela e me escondi e foi ali que eu passei a minha primeira noite na rua.

        Gazhiev estava estranhamente sério e sua voz estava mais clara do que nunca:

         — De manhã, quando acordei, encontrei  uma nuvem de fumaça no Céu; o ar estava meio difícil de respirar foi quando me levantei e ouvi passos pesados na Prospekt, e um rugido asqueroso de motor passando pela prospekt.. Eu achei que fossem dos nossos, mas quando tirei a minha cabeça da fonte, vi que não eram nossos irmãos... Eram alemães. 

        Gazhiev apontou para onde os nazistas passaram, num entroncamento de ruas bastante pacífico hoje no centro de Volgogrado. A cidade estava mudada, mas ele conseguiu localizar  por onde o regimento alemão tinha passado:

        — Voltei para a fonte, e fui me arrastando para não ser percebido, foi então que ouvi tiros por todo lado, me fingi de morto na hora. Morto de medo ou não. Bem isso não importa.
       — Eles te encontraram, vovô?

       — Eu também pensei nisso, mas não... Eram nossas tropas,  um grande ataque suicida contra os alemães, quando dei por mim já estava rolando sangue... Tentei me esconder, de todo o jeito que podia , tentei me esconder no que tinha na fonte... Então encontrei um soldado, um dos nossos com certeza. Estava ferido,  agonizando bem ao meu lado. Não sabia como agir, era um homem  forte, nunca julgaria que alguém como ele poderia  chorar que nem uma criancinha, mas ele estava.

— O que aconteceu com ele, vovô?

— Ele foi ferido na perna,  não ia sobreviver... Foi quando  percebi que aquela fonte não era só uma fonte, mas uma vala para os nossos soldados.
— Quer dizer que...
— Sim, eu estava no meio dos mortos... Eu conheci a morte muito cedo, meu neto.

"Sorte a minha que quando tudo acabou eu pude desaparecer dali entre os mortos. Nunca imaginei o que poderia ter acontecido comigo se não tivesse saído dali, talvez eu teria sido morto, talvez os nazistas teriam me pegado e eu estaria morto nos fornos de Auchwitz, o fato é que nada me fará esquecer daqueles dias, meu neto. Nada"

— Aqui foi onde o soldado Akaki Akakiev me encontrou vagando pelas ruas de Stalingrado. Ele me levou pro QG e eu fui evacuado para o outro lado do Volga junto com outras crianças. Descobri mais tarde que Akakiev morreu com estilhaços de bomba à caminho de Berlim, mas que sempre lembrava de como tinha salvado um garotinho em Stalingrado.

"Vês tudo isso? Vês, meu neto? Isso, esses prédios não escondem o que aconteceu aqui. O modo como vi os corpos se multiplicarem bem naquela fonte, ou o modo como os nazistas mataram os meus pais. Aqui, esta cidade, tudo isso aqui está repleto de histórias. Toda a vez que venho para essa essa cidade, tenho lembranças, boas ou ruins, da minha infância. Daquela fonte onde beijei minha primeira namorada, ou daquela mesma fonte onde vi o sargento Iagin morrer diante os meus olhos. A guerra é uma coisa asquerosa, toda vez me lembro disso quando venho aqui. Essas são minhas recordações, as quais não desejo para você".


Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...