sábado, 29 de setembro de 2012

"Com que Jove aos mortais gradua a fama"

      Numa dessas noites, sem nada para fazer decidi fazer a brincadeira em homenagem à semana mundial do livro. Peguei o livro mais próximo de mim e retirei da terceira frase da página 52 uma citação. Resolvi então ir mais além, peguei alguns livros da minha biblioteca pessoal e comecei a fazer um texto. Ficou bem interessante por assim dizer (cada ' significa uma citação diferente):

          "'Esse motor utilizava ignição elétrica e um sistema de transmissão de engrenagem de cremalheira,  mas 'gabava-se com desprezo, de não ser um funcionário, como se isso lhe conferisse uma autenticidade especial e como se os murros de Hemingway devessem ser a priori mais poéticos que os processos de escritório espalhados por Kafka.

           'Por que o seu primo kaiser estava fazendo isso com ele?:
        '— Sinto-me furiosa, deprimida e violenta
         '— A noite está saindo das portas ocidentais e não podemos atrasar por mais tempo.
          — O que quer dizer?
          'Julgava tanto as perguntas como as considerações impudentes e irritantes;
           '— Por que você está sempre sorrindo, Sol?
           '— Imite a minha voz e diga que vou dormir na sua casa hoje.
            — O que disse?
           "'Nosso esquema de proteção às pesquisas foi o mais perfeito possível", ouvia-se pela televisão, um programa qualquer como outro no fim de noite.
           'Cutucava os bolsos como se ali fosse um armazém de amendoins.
          '— É claro que posso confiar nele, Iara — Dizia a moça ao telefone.
           O osso ressentiu. 'Fomos para a outra sala.
           '— Que pretendo?
           'Decidi não pensar mais no caso, já que não chegaria mesmo a conclusão alguma.. 'Era preciso dar um fim àquilo, por bem ou por mal.
          "'Can we go back to the Safari Lodge now?", o inglês do filme que passava naquela televisão no fim de tarde ecoou bem nítido nos meus ouvidos.
          "'Vamos diga que ama Cristiano", mudou novamente de canal.

          'A narrativa começa perto do fim, 'mas o sol se punha e o homem não vinha. 'Quem pagou o resultado da pena de um e da gratidão da outra foi o toma largura.
          — Onde está o pai desse menino? — Exclamou sem voz Maria.
           — Eu sei lá.
          O garotinho olhou meio assustado para nós, foi penoso vê-lo assim. Mais penoso foi mentir pra ele naquela noite, 'Repetimos sem cessar o que nunca existiu.
           O garotinho ficou com o nosso filho por duas noite, e nós saímos à procura dos pai do garoto nesse meio tempo.

            'No sábado, às seis horas, partimos novamente. Ouvi na ruas dois andarilhos, que gritavam a plenos pulmões pra todo mundo ouvir.

              'Falavam dos comerciantes, dizendo francamente que eles enganavam o povo, que seus filhotes provocavam escândalos e fazem de tudo para obter um "título de nobreza", não preciso dizer que eles foram presos por vadiagem. Foi aí então que nós reconhecemos o pai do menino entre um deles.

              Fomos até a delegacia e conversamos com o delegado:
            — ...'O preso é, por exemplo, consertador de fogões e encarrapita-se em cima de mim.
            — Eu odeio esse lugar! É terrível, escuro, nem imagino o que tenha no resto disso tudo. Lugar fedido.  — Exclamou um prisioneiro.
             — 'E assim verá todo o resto, desde o queira — Exclamou o delegado.
            O prisioneiro se calou e fomos levados a uma ala onde os prisioneiros mais recentes tinham sido levados.
             '—É ele — Exclamou Maria.

           Era o pai do garotinho, todo sujo e fedido, maltrapilho e cheirando a cachaça. Uma coisa não muito boa de se ver. O delegado o encarou e disse:

          — Esses dois dizem que você tem um filho. Pois muito bem, quem sou eu para privar um pai de ver o seu filho na véspera de Natal...
           Fez um sinal para que o soltassem.
          — Mas escute. Escute com atenção, Eu não quero vendo vadiando mais uma vez por aí ouviu?
          — Sim, senhor — Disse cabisbaixo.
          — Pode ir.

         Eu esperava não levar tal presente de Natal ao garotinho, um pai todo sujo e cheirando a cachaça e catinga, mas foi o que eu tive que fazer. Quando reunimos os dois, vi nos olhos do garotinho um olhar de tristeza que me deu dó.
          — Obrigado, senhor e senhora L.. Muito obrigado por encontrarem o meu pai.
          — Vou está bem, Sol? — Perguntou Maria.
          — Sim, estou. Vou ficar.
          E os dois saíram naquela tarde, pai e filho, enquanto a tarde caía. Esse com certeza não é um bom conto de Natal, mas com certeza aquela também não era uma boa história".

          Apenas o final tive que abstrair um pouco, mas o início foi feito a partir de frases de variados livros, às vezes não fazendo o menor sentido. Mas no todo ficou bem interessante, essa é minha singela homenagem à Semana do Livro.
       

Cansaço

        Estou cansado, cansado de tudo, simplesmente cansado.

           Cansado de prosa, poesia, estou cansado até de teoria.

         Estou cansado de toda essa picuinha, queria me isolar, passar um bom tem numa praia deserta ou mesmo no mato; não aguento mais isso, não aguento mais.

          Estou cansado de conversar com pessoas que não gosto, conviver com pessoas que eu odeio, estou cansado das pessoas.

           Mas o que mais me cansa é lembrar do passado, das escolhas que eu fiz e não poder fazer nada para mudar, e agora vendo o futuro, tenho medo de seguir o mesmo caminho.

            Estou cansado de ficar tolo em períodos sazonais do ano por amor, e mais que isso me machucar com isso. Isso sim é que estar cansado.

           Não importam as oito horas todo dias que passo fora de casa, os dias sem dormir, as noites sem escrever, nada disso importa, o que importa é que não aguento mais tudo isso.

            Enfim, o que eu estou mais cansado com certeza é dessa conversa, pode ter certeza.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Meus livros

           Nada é mais triste do que você perceber que aquele livro, de capa tão legal, e nome tão sugestivo,esconde na verdade uma porcaria.

           Você se sente mal por não conseguir terminar de lê-lo, mas se sente mais mal ainda por se sentir enganado ao pagar um valor absurdo para lê-lo. É assim que eu me sinto quando vejo alguns livros na minha estante.

           Você quer se desfazer deles, não quer mais olhar para eles, sente-se envergonhado quando lembra que você queria tanto ler alguma coisa divertida e no final é outra coisa qualquer chata. O que fazer?

          Eu até queria trocá-los com alguém, mas aí eu fico com pena de quem pegá-los para si, pois são livros tão ruins de escrita que não desejaria nem aomaior inimigo.

          Pensei em doá-los. Mas que loucura seria doá-los se ficariam com certeza empoeirados numa estante qualquer em algum canto.

           Pensei em levá-los a um sebo e talvez fazer alguma transação qualquer, mas me sentirei tão mal ao ofertarem valores tão irrisórios pelos livros que até acho melhor não fazer isso.

           Esse é um dilema qualquer de um leitor de livros, que pode não parecer importante, mas assola minha cabeça cada dia que encontro os meus livros largados tomando um pouco de poeira.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não sabe como me doi

        Não sabe como me dói vê-la triste e sozinha. Não sabe como me dói quando vejo que se sente só quando está em grupo.

       Não sabe como me dói saber que você não pensa em si mesma, enquanto ri das piadas dos outros.

       Não sabe como me dói saber que você acabou de perder um amor.

       Dói-me completamente não poder consolá-la como eu queria, amá-la como desejaria, ficar com você naquele simples dia. Não sabe como dói.

        E pensar que também estou dolorido, e pensar que há algo em mim que precisa ser combatido. Não sabe como dói, não sabe, mas isso não é digno de pena.

         Você, minha querida, com o seu sorriso sincero, com o seu olhar penetrante e seu moletom preto que veste quando sente frio... Você que fala sem cerimônia, dança feito uma louca sem nenhuma vergonha e brinca de pular folhas secas no sol. É você que me seduz com o seu cabelo curto e sorriso engraçado, me lembrando os dias em que eu fora uma boa pessoa. Não sabe como me dói, não tê-la ao meu lado.

Vida sem nexo

        A vida é uma criatura totalmente ilógica, é essa criatura que te bate sem motivo num dia e te acaricia no outro.
       É esse monstro feio e disforme, cheio de pelos, com dentes agudos e olhar agressivo, que com o passar do tempo você se acostuma, e chama de seu docinho.

       A vida tudo lhe cobra e nada lhe dá, mas quando lhe dá, você fica bastante feliz com ela. Você se apaixona, se casa, monta uma família, cria raízes e ri por qualquer besteira.

       A vida é essa criatura maligna que depois de te bater, te dá doce... Ah, vidinha maldita!

       A vida é esse nexo provisório, onde um dia você se sente triste, no outro sente-se feliz por estar ao lado de outra pessoa. Não faz sentido, seu coração bater mais rápido, se dias atrás ele sequer fazia questão de bater de tanta tristeza.

       Ontem chorava por uma, agora ris feito bobo por outra. Qual a lógica disso? Eu não sei, só sei que me sinto assim, me sinto estranho assim, é verdade. Será esse o significado da vida? Eu não sei.

Adeus, camaradas

       Adeus camaradas, pois aqui nosso destino nos alcança. É aqui que desço na longa ferrovia da vida.

     Foi bem aqui que anos atrás saltei para conhecer o Mundo, e agora é aqui que me desapego de tudo que é impuro.

       Eis que na minha jornada vi as mais diferentes pessoas, com os mais diferentes costumes, todas vis e mentirosas, e aprendi desde cedo a confiar em nenhuma delas.

        Quantas coisas fizemos, quantas passeatas lutamos, quanto vinho tomamos... Foram bons tempos.

         E pensar que não foi tanto tempo assim. Como queria eu ser uma andorinha que se assenta em qualquer canto, depois de uma longa viagem e no dia seguinte levanta voo nessa vida bem cigana que é a de uma andorinha.

          Mas não sou,  eu não sou uma andorinha, apego-me a terra e a todos que nela vivem... Sim, sim, conheci uma pessoa, que não espero encontrar nessa estação. Uma pessoa que no íntimo pensei ser boa, e no fim se revelou ser, e eu ruim.

         Ela sequer deve saber que eu existo, sequer olhou para mim naquele dia... Não a culpo, não olharia para mim mesmo se visse a grande desfeita que havia feito naquele local... E pensar que não foi tanto tempo assim, foi numa estação qualquer da vida, há não um mês atrás.

          Hoje me despeço com uma dor no peito, pois saber que agora não os mais verei é tão triste quanto arrancar meio braço lentamente, mas sei que assim é melhor para nós, afinal de contas cada um com o seu caminho. Adeus camaradas.

             Não olho mais para trás, não vejo mais as tolices que cometi e os amores que perdi. Não penso mais no passado, o futuro me guiará, como sempre me guiou. Viva vida.

             Não penso mais nela, não penso mais naquela que destroçou sem cerimonia o meu coração. Por que pensar nisso? Ela nem se lembra de mim.

            Penso que nessa nova estação talvez encontre outra, uma donzela tão linda e tão infeliz quanto eu agora sou... Trarei-lhe flores, consolarei o seu choro... Ficarei abraçado à ela noite e dia, escreverei odes melosas e todas as sortes de harmonias.

           Queria que minha vida fosse assim, no fundo, eu queria. Mas eu sei que ela não é assim, não é um poema qualquer cheio de rosas de um poeta fatalista do fim dos séculos, mas eu gostaria que fosse assim.

            Lá está ela, de cabelos negros, rosto bem feito, e cabelos recentemente cortados... Bonita, serena, comum. Aquela, vês, a de moletom preto, com os cabelos curtos e sorriso tímido do rosto, que tanto fala aos amigos e que brinca no outono de pular nas folhas secas. Será que dará certo?

          Eu não sei, o caminho é pedregoso, cheio de cacos de vidro e não sei se tenho forças para enfrentar meu destino... Será que se eu sair daqui, ela pensará em mim?

          Espero que sim... Pelo menos acredito que sim. Adeus camaradas, deem minhas notícias aos nossos companheiros de luta, aqueles do Partido, pois agora rasgo minhas insignias e vou em direção a outra vida. Adeus, camaradas. Adeus.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Maldita escada





         Subia ao sótão um jovem rapaz, procurando algumas tábuas, algumas peças de madeira, um pouco de tinta e inspiração para consertar uma mobília qualquer.

          Sabia ele que não era fácil descer com tudo aquilo, mas mesmo assim decidiu arriscar, afinal de contas, não queria fazer duas viagens. Atou as peças de madeira com cordas às suas costas, prendeu com fita porções generosas de pregos no peito e levava os baldes de tinta presos aos seus braços pelas argolas.

          Quando descia, calmamente, sentia que não estavam muito seguros os baldes de tinta, e sem querer, desastrou-se e quase deixou a tinta branca cair ao chão num desastre irremediável a casa, já que aquela escada na parede, estava suspensa em outra em caracol.

           Conseguiu segurar aquilo, mas nervoso, esqueceu bem o perigo que a situação impunha e acelerou cada vez mais a sua descida.

         Num dado momento, as tábuas de madeira o fizeram tropeçar em seus próprios pés, e ele não pode fixar os pés nos degraus, ficando suspenso apenas pelos braços...

        Não, o garoto não era forte, era peso pena por excelência, mesmo assim agarrou-se à vida com tudo que podia, se caísse ali, cairia com certeza na escada em caracol e iria na melhor da hipóteses sair rolando como uma bola de futebol, seriamente machucado, na pior, ficaria paralítico.

         Agarrou-se como pôde no corrimão e estava prestes a fincar os pés no degrau. Foi quando algo desastroso ocorreu: A tinta branca, que tanto lhe causara problemas na descida, estava meio destampada e não custou muito para que a lata se abrisse e sujasse o rosto do rapaz.

           Desastrado, o rapaz golfou uma porção absurda de tinta que pintava sua língua e manchava seu paladar... Seus olhos ficaram encobertos pela grossa camada de tinta e ardiam com a reação com o pigmento, foi quando inconscientemente ele passou uma das mãos nos olhos para tentar limpá-los e como a outra não suportou bem o peso, acabou caindo escada abaixo.

            No chão, após um estrondo pavoroso que surgira enquanto ele rolava pela escada em caracol de metal, o infeliz soltara um grito de dor absurdo que pudera ser ouvido até pelos vizinhos e caído, ali no chão, olhava para cima sem acreditar na sorte infeliz que lhe fora reservada:

             "Maldita escada..."

              Estava agora imóvel no chão, rodeado de pregos e taxinhas, numa poça de tinta nas bordas e um punhado de madeira que havia se quebrado na queda... Havia batido as costas no corredor central da escada e não mais sentia as pernas naquele momento, talvez fosse melhor assim.

            Agora não seria um móvel que ele teria que consertar, mas uma coluna inteira por causa de uma maldita escada.

Uma cadeira





        Era uma singela cadeira, revestida pela sombra do cômodo escuro... Era uma cadeira logo ali no centro, sozinha, desolada, no piso de madeira.

          Na escrivaninha havia um bilhete, escrito em letra cursiva às pressas e ilegível, com a caneta-tinteiro repousada no frasco de tinta.

           À luz fraca e sinuosa de uma vela, uma única vela apenas, a garrafa de vinho tomava colorações interessantes, já que estava meio vazia.

            Afinal, o que pensar sobre tudo aquilo? O rapaz estava sentado junto à cama, no chão, admirando a tremenda estupidez que ia fazer... Via com assombro o nó da corda balançar sob a corrente de ar fria que entrava pela janela, e chorava com isso.



          Tinha nas mãos uma faca, cuja lâmina tão prateada era sedutora aos olhos de qualquer um, mas não àquele rapaz de se afogava nas suas próprias lágrimas. Bebera demais? Certamente sim, mas com certeza via-se nele um espírito de tamanha depressão e falta de amor próprio que nenhuma criatura desejaria.

          Ele bebera um pouco mais de seu vinho, e admirava o modo como a luz da noite, da lua refletiva, entrava pela janela do seu quarto escuro. Na parede, via um quadro qualquer de um violino sobre a mesa, numa parede tão rebocada e trincada que dava pena de se ver.

        No criado mudo, o telefone piscava uma seta vermelha, de várias ligações não atendidas, colorindo assim a capa daquele novo livro de bolso que o fazia dormir todas as noites. Era alguma coisa sobre o sofrimento de um jovem alemão desiludido pelo amor, uma obra qualquer de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther.

          Então era isso, então era por amor que o rapaz chorava, era por amor que o rapaz estivera tão disposto a acabar com aquela amarga sinfonia que é a vida... Que vergonha! Que franqueza! Que coisa ínfima!

           Sentia culpa de si mesmo, olhava para frente decidido que não saltaria naquela cadeira mais uma vez, não se seduziria pelo nó daquela gravata rude de corda que pendia sobre o teto... Não, ele não faria isso! Não dessa vez!

          Jogou para longe a faca e com os olhos fixos, observava na parede retalhada do quarto a única vela ali presente se consumir em chamas coloridas.... Passou a noite inteira assim, sob o gole de vinho, acordado,  enquanto o fogo desaparecia com o frio e ficou assim até mesmo quanto ficou escuro outra vez, e o sol se despontou no céu.

Uma janela




          Não sabem o que dizem os sábios quando falam que livros são a janela do conhecimento...

           Não sabem que por essa janela aberta, escancarada, entram uma infinidade de coisas boas e ruins... Desde a poluição do dia, até o raiar de sol que esquenta a manhã fria.

           Foi por esta janela que entrou um pequeno passarinho, um pardalzinho, marrom de bico escurecido, trazia consigo uma folha verde meio enrugada que caiu de seu bico enquanto saltava voo no meu quarto.

          A pequena criatura curiosa subiu diante a mesa, posta ao lado de uma parede, num canto, abaixo de um quadro qualquer e admirava consigo a papelada bagunçada pelas ideias de outro dia... Descansando ali, perto daquela ave, estava um copo de chá gelado, de hortelã importada, o qual o pardalzinho não fez cerimônia em bebericar.

          Acho que ele gostou, pois bebeu mais que devia e quando se satisfez da bebida, continuou a vagar curioso pela mesa... Distraída a ave tropeçou num punhado de tinta nanquim, que desabou pela mesa de madeira escura e sujou por completo a cerâmica fria branca do piso.

         A ave assustada saltou um voo preguiçoso e foi cair na minha estante de livros, se entrelaçando entre o Gogol e o Tchekhov, brincando com o Machado e viajando no Verne, lutando com o Dumas e inalando a poesia de Pushkin.

        Quando cheguei, essa ave literária, tão sábia quanto uma coruja, lançou-se ao voo de liberdade, deixando no Paulo Coelho uma surpresa inimaginável. Quem diria que aquela ave tinha um gosto refinado por livros, e por chá também?

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Poema chamuscado

Tece chama
Danças sinuosas
Cores harmoniosas
Vidas xistosas

Seu rubro rubor
Colorido de azul
Enche aos olhos
Um piromaníaco de amor

Foste tu que sozinha
Incendiara Roma,
Londres e Cartago

E ainda arranja tempo
Para aquecer-nos no frio,
Iluminar nosso caminho nas trevas
E cozinhar nossa comida.

Temem tanto a sua companhia,
A fumaça, que sequer ela é bem vista
Como se por ventura você fosse,
Destruidora impiedosa.

Chama surda que desatina,
Medo escarlate nos olhos.
Poeta diz que amar é uma chama,
Por isso é tão perigoso o amor.

Queima a alma,
Cega as vistas,
Inala-se de toxinas,
Faz bater o coração mais rápido.

No fim, você caí desacordado
Sem uma sombra de ar no peito
Depois de seus olhos lacrimejarem
E sua lógica se incendiar.

Amar é tal como soltar um incêndio
Você nunca pode controlá-lo
Você se seduz pelas cores
Mas no fim, você sai machucado.

Azul vermelho

Azul é uma cor bonita
Ao mesmo tempo
Não é verde, nem branco
Azul é azul

É primo do anil
Que colore o céu
Junto com o branco
Das nuvens véu

Azul seduz os olhos
Tinge com sua força
Com amarelo, verde
E com vermelho, lilás

Aliás, e o vermelho
Cor essa escarlate
Que ao mesmo tempo é
Vida e morte

Rosso, em italiano
É quase roxo
Tal como azul em polaco
Não é branco

Qual o sentido
de formar rima de cores?
Sem se lembrar do lilás.

Roxo é uma cor tão fúnebre
que quase chega a ser preto
É cor da berinjela e da beterraba
Que estragam o paladar e humor

Lembro-me de misturar roxo com amarelo
Dava algo perto de marrom
Marrom cor da madeira dura
E do excremento macio.
Que nojo!

Verde é azul com amarelo
Que diriam os duendezinhos irlandeses
Se eu dissesse que eles são filhos do sol
e do mar, ao mesmo tempo?

É triste na aquarela
Saber que branco e preto tem querela
Pois um é feito de todas as cores
E o outro também

Afinal esse é um debate de tintas ou sobre o preconceito?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Pergunte a um louco

        Certa vez perguntei a um louco qual era a fórmula da vida.

         Ele me disse que para ser vivo, precisava ser atento, viver o momento. Não pensar em si mesmo, mas também não pensar nos outros.

         Ele me disse também que para ser vivo, não precisa ter deus, afinal ateu vive e cristão morre, sem que o mundo acabe com isso.

         Falou pra mim que estranha as pessoas mentindo umas para as outras, afinal de contas, pra que mentir se a verdade está bem ali.

         Também disse que não entende o porque de pessoas chorarem por amor, sofrerem por pessoas malvadas que destroçam corações ou simplesmente sequer se importam com os outros.
          Perguntou-me qual era a graça de viver num mesmo lugar, todo o tempo, fazer as mesmas coisas todo tempo, de passar horas com raiva num transito para chegar em casa e dormir, sem usufruir de uma TV bacana, ou mesmo um livro legal.
          Não soube responder.

          Perguntou-me se o papel higiênico era assim tão importante para que as pessoas fizessem tanta merda para conseguir esse papel. Eu logicamente disse que não, então por que o dinheiro é?

          Falou-me que andarilho é um homem afortunado, anda livre por aí, assalta as árvores para comer, e conhece muitos lugares sem soltar um tostão qualquer.

         Disse-me que na vida, nem tudo se aprende na escola, mas é na rua que se aprende o que é ruim ou bom e que a vida é tão cigana, que não podemos ficar parados por aí.

          Azul não é rosa, e amor não é prosa, foi o que ele me disse.

          No fim percebi que o louco não era ele, e que sim eu, por acreditar que alguém tão genial podia ter sido louco num dado momento.

Não chore

Fecha os olhos
Erga a cabeça
Não chore criança pequena
Não há nada para se chorar

Tem olhos escuros
E uma fúria que irrompe o peito
Sente-se forte, mas no fundo...
No fundo é fraco

Não há porque chorar
Não está ferido
Não agoniza
Apenas tentou se matar

Mais uma vez?
Que feio!
Fugir do mundo desse jeito
Tentou viajar?

Pensa que isso muda tudo?
Que será forte daqui em diante?
Seu fraco! Nada muda se você não se muda

Sente dor? Sente pavor?
Ou é ódio de si que tem?
Quer se matar? Mate esse vilão no seu peito
Não a si mesmo.

Monstros da minha infância


"Na minha infância, eu acreditava em monstros. 
Achava que mãos iam brotar de baixo da cama. 
As sombras se mexiam.
Eu ouvia passos nos corredores."


O cair da noite me aterrorizava. Quando saía à noite pelo corredor, com medo, meus pais, tolos, diziam que não havia nada. Eram besteiras da minha imaginação. Monstros não existem.
É monstros não existem. Mas o que era então, minha simples imaginação?
Se fosse, tenho medo de mim mesmo, por ter criado na minha mente criaturas tão pitorescas, tão malignas, tão terríveis. Como uma criança podia pensar nisso?
Escondia-me debaixo dos lençóis, achava minha cama segura e quando logo clareasse tudo estaria bem e eu estaria a salvo mais uma vez.
Queria dizer que quando cresci, deixei de acreditar em monstros, mas na verdade não, os monstros estão todo dia e em todo lugar, apenas usam máscaras e se fazem de bonzinhos; Eles mentem, roubam, matam se preciso, não tem escrúpulos e ferem-nos na alma com um singelo comentário. Não há nada mais monstruoso do que o ser humano.

Dor surda

Ela saiu levando o meu coração
Ela partiu acabando com a canção
Ela me deixou sem qualquer reação

Não sorri, não chora
Não teme, não sente
Não mais olha, nem escuta

Ficou surdo
Com uma dor surda
Ficou cego
De amor cego

Pensou amar, quis desejar
Tinha que quebrar a cara
Fechar o rosto
E chorar

Não fez isso,
Não chorou, nem sequer pensou
Seguiu em frente, agora dor sente

Vale a pena, meu rapaz?
Vale a pena debater-se por isso?
Vale a pena tentar contestar o dito?
Vale a pena amar o perdido?

Não, não vale, você não havia querido
Não era a você que cabia amar
Não era a você que cabia sofrer

Feche os olhos, expanda a sua mente
Largue a arma, pense consciente
Não vale a pena morrer
Por alguém que nem liga pra você!

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...