terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ao meu amor

     Eu nunca irei encontrar uma mulher que me amou tanto quanto você, eu nunca irei encontrar alguém que lutou tanto por mim e me fez me apaixonar todos os dias como você. Você me fez sorrir quando tudo que eu tinha para dar eram lágrimas. Você me ensinou a me amar de novo como sendo parte de você e  me colocou no colo quando meus pulsos foram cortados.

      Eu te amei em todos os 365 dias, todas as 8760 horas e 525600 minutos que passamos juntos como um casal. Em cada segundo que meus olhos piscavam olhando o seu rosto e seu corpo nu eu agradecia por ter alguém que me amasse apesar de todas as nossas brigas, todos os nossos problemas e o nosso desespero.

      Estou com o espírito embargado em lembrar como tudo acabou, em como nosso instante, o nosso espírito de amor foi se apagando como uma vela que se queimou no vento gelado da tristeza. Tantas pessoas queriam que estivessemos separados, mas coube a nós tomarmos caminhos diferentes;

      Nunca te agradeci por ter sonhado por nós dois, nunca esqueci das mágoas que fizemos passar um ao outro. Eu sei que foi triste não termos conseguido ficar juntos, eu sei que foi trágico eu ter abandonado tudo e ter me segurado em seus braços,sem saber como iriamos nos sustentar. Eu digo adeus...


      Não sei se nesse vale de lágrimas irá ter um recomeço, não sei como irei ficar sem te ver mais uma vez. Eu te amei muito, e dói cada vez que meus dedos batem nessas teclas, como as navalhas que cortaram os meus pulsos quando não sabia mais o que fazer para ficarmos juntos. Eu sofri tanto quando você não apareceu, quando eu fiquei quinze horas esperando ter notícias suas e você estava sendo humilhada num canto escondido do interior, na mira de uma arma.

     Eu sofri tanto quando você voltou machucada, me pedindo desculpas por ter sido maltratada, com a maquiagem borrada e tantos ferimentos no seu coração juvenil. Eu te amei tanto quando vi que você também era frágil, e tentei do meu jeito tentar te proteger. Sei que muitas vezes fui muito duro, às vezes era muito rígido, mas eu te amava de verdade, e me preocupava com você chegar tão tarde em casa, sair com suas amigas sem saber se você iria voltar.

      Eu me preocupei com você durante esses doze meses, eu me endividei para que você não precisasse lutar tanto por nós dois, vendi os meus livros para que pudessemos ter um teto e fazer amor juntos como dois verdadeiros amantes. Eu adorava brincar com o seu nariz, eu adorava tomar banho abraçado com sua pele macia, eu ria quando você ficava irritada por conta dos hormônios. Sentia ciúmes quando outros caras olhavam para você, mas sentia a inveja deles quando sabiam que eu era o seu namorado.


      Esses últimos dias têm sido terríveis em saber que não terei você dormindo do meu lado, que não assistiremos mais nossos filmes debaixo dos lençóis, que não iremos fazer palavras cruzadas juntos e que não poderemos mais nos beijar quando criavamos vontade.

     Adeus meu amor.

     Eu te amei e continuo te amando.



sábado, 26 de agosto de 2017

A navalha

        O corte incisivo do fio de navalha pode proporcionar um barbear rente no rosto de qualquer homem minimamente preocupado com sua aparência, mas curiosamente, a mesma lâmina de aço em contato com a pele pode proporcionar uma das sensações mais desconfortáveis, conforme a pressão que exercemos com as mãos.

       Ontem, contrariamente do que tinha meditado toda essa semana, a navalha que tinha aposentado na gaveta, apareceu em uma das minhas mãos. O sulco da minha carne seguia de forma rubra durante o escaldante banho enquanto meu rosto olhava sem muito entusiasmo para aquela mistura de cores que saía de meus pulsos.

        A água em contato com meu sangue ardia conforme meu coração bombeava sem entusiasmo e o ralo consumia toda a minha energia vital que havia se esvaido. Lembrei-me do quanto havia me prometido não cometer besteiras, mas me pareceu nem um pouco equivocado quando senti o sangue sair do meu corpo e ir ao encontro da água.



         Dois cortes na altura dos pulsos, onde antes eu sentia falta de um relógio, hoje não mais. A mão esquerda sinistramente se estendia pelo esquife enquanto pacientemente a água inundava meus olhos. Cogitei desistir da ideia, pensei se não seria melhor voltar para casa dos meus pais e só ouvir uma dúzia de reprimendas. Pelo contrário, decidi continuar.

        Os últimos dias serão um foco dos meus estudos no futuro, serão o que irei visitar na memória como o ponto mais baixo do meu amor próprio e de minha própria compreensão como ser humano. Ecce homo? Não, não me sinto mais como um ser humano, pelo contrário, me sinto como um objeto depois de sucessivas torturas e sofrimentos pelo que venho passando.


       O fim pareceu-me cada vez mais sedutor justamente pelo seu caráter rígido. O fim é apenas o fim, não há meio termos, não há recomeços, e ninguém realmente lamenta quando o fim acontece. A minha vida passou como um filme, saboreei por um momento a minha infância na casa do meu avô. 

       Ele sorria enquanto eu ia ao seu encontro, eu segurava a sua mão enquanto ele me acolhia nos seus braços quando eu saía daquela caixa d'agua. Hoje me sinto preso de novo naquela caixa d'água. Meu avô, um dia me disse que as coisas iriam melhorar, ele e eu somos muito parecidos de certa forma, mesmo não termos tido muito contato nos seus últimos anos de vida. Foi um erro.

      Eu fui o último neto a vê-lo com vida, e aquele sofrimento que foi o câncer me fez jurar que nunca iria passar por aquilo de novo. Meu avô viveu de forma honesta, trabalhou durante a vida inteira e por uma injustiça, foi maltratado pela quimioterapia, pelos médicos insensíveis e pela doença que se espalhou por todo o seu corpo.

      Eu quase nunca falo disso, e acho que sei o porquê. 

      Enquanto a água caía, me lembrei do sorriso da minha irmã, logo depois do seu nascimento. De seus olhinhos pequenos, de suas mãos delicadas de criança. Me lembrei de quando a ensinei a andar, e com a felicidade dos nossos momentos fraternais na casa dos meus pais. Me senti responsável por ela no momento que a vi no hospital, e me sinto culpado de ter sumido nesse último ano.

      A minha irmã foi provavelmente a única pessoa que me amou sem realmente me cobrar nada.


       Lembrei-me de meu pai, de seu rosto por vezes severo, por vezes gentio. De sua forma bruta de falar, muitas vezes intolerante, me lembrei que ele me amava como filho, às vezes como amigo. Por vezes brigávamos, discutíamos, sempre pensamos de forma diferente, mas às vezes, bem raras vezes, nós concordávamos. Sempre tive orgulho de tê-lo como pai.

      Minha mãe foi a mulher mais bela e mais devotada aos filhos que vocês podem imaginar, ela era uma modelo. Coitada, como ela sofreu, e sempre foi meio calada. Ela tentou me salvar várias vezes, mesmo quando eu realmente intransigente. Não, não que ela soubesse expressar o seu amor, muitas vezes era algo bem subjetivo. Mas hoje eu sei o quanto ela sente por eu ter saído de casa.


       Meus amigos. Gerson, meu irmão mais velho, que me deu vários conselhos enquanto estavámos cercados de dúvidas, olhávamos ao nosso redor, sentados em um banco, e falavamos da vida. Por vezes, aparecia o Tadashi com um litro de chá gelado, outras vezes o Ayub que me pedia para fumar cachimbo (mesmo eu sabendo que ele não devia). Fui feliz naqueles momentos em que ficávamos tarde da noite num banco de cimento na frente da banca de jornal.


       Bruno e Rodolfo. Que grandes amigos! Mesmo nas horas mais difíceis, eles estiveram do meu lado. Bruno sempre com o seu jeito laborioso, com o astral lá no alto, eu não conseguia ficar triste perto dele. Tinha uma completa consideração e lealdade por esse homem que tive orgulho de dizer que era o meu amigo. Sinto-me mal de por vezes ter sobrecarregado nossa amizade, de outras vezes, tê-lo decepcionado. Sinto-me mal por ter sido apenas o Alan.

      Rodolfo, a pessoa que eu devo de forma inestimável. Um eterno amigo, espero que o universo pague por toda a sua bondade e paciência que ele teve comigo. Espero que ele consiga seus sonhos e que ele seja feliz. No pior momento da minha vida, ele me ofereceu um teto e não se negou a me dar um prato de comida. Muitas pessoas podem falar coisas horríveis dele, mas na realidade, Rodolfo é como eu no fundo, tentando fazer o melhor na medida do possível.




       Eu senti minhas forças irem enquanto a água ficava cada vez mais vermelha. Ontem, meus sonhos que já não eram muitos, ficaram cada vez mais confusos. Ontem, desisti de querer lutar, será que eu já não desisti há algum tempo?

       Meus olhos se encheram de lágrimas, a água quente combinava numa orgia sinistra com a água salgada que saía de meus olhos. Eu sabia que eu iria morrer se ficasse mais dois minutos naquela banheira. Olhei para os azulejos e tentei me lembrar da casa dos meus pais. Lembrei-me do quarto onde passei várias noites escrevendo, rodeado de livros (que infelizmente tive que vendê-los), da minha máquina de escrever e dos quadros que eu havia pintado.

       Lembrei-me das roupas, da coleção de chapéus, dos filmes que eu gostava, dos videogames e da cama. Aquela cama de solteiro de madeira, com os lençóis azuis, num quarto completamente azul. Aquela cama que me acolheu nos momentos mais difíceis, que me viu muitas vezes deprimido e chorando durante a noite. Enquanto o guarda-roupa seguia insensível durante as noites frias de inverno.


       Eu fui um privilegiado de ter tido esses momentos....


       Quando Giovana chegou, ela me tirou da banheira e chorou. Cobriu meus pulsos e disse que não queria que eu fizesse isso, que era melhor eu voltar.

       Meu Deus, como eu a amava. Hoje não sei o que mais sinto, passamos por tantas coisas. Foi um estupro, foi um sequestro. Passamos fome juntos, muitas vezes eu tinha minhas crises de depressão, outras vezes era ela que ficava mal. Ela não era uma pessoa ruim, não fazia maldades, e sim, ela lutou o quanto pode.


       Ela ficou pagando sozinha a conta de casa por vários meses quando eu me separei do meu trabalho, por vezes o dinheiro faltava e fazíamos as contas com matemática cartesiana, comer ou pagar o aluguel?

        Eu não me arrependo de ter a conhecido, não me arrependo de ter a amado.


         Ela me deitou na cama e chorou. Me beijou e disse o quanto que me amava, mas que as coisas não estão mais dando certo. Hoje eu não tenho mais o que dizer, o amor não foi suficiente no nosso caso e não sei, com meus pulsos ainda machucados, acho que meu coração bateu o que tinha que ter batido e agora está quebrado no meio. 


        Sinto muito pelo texto longo, e peço desculpas a todas as pessoas que o leram, mas principalmente, às pessoas que ficaram ao meu lado e eu não correspondi às expectativas.


Sonâmbulos

          Faz  aproximadamente um ano que minha vida deu uma reviravolta inesperada, uma completa perversidade do destino combinada com a livre iniciativa de um espírito revolto. Nesse único ano de sonambulismo, estive muito preso à ideia dos meus próprios sonhos, mas a verdade que todos os meus dias se tornaram terríveis pesadelos.

        Em paralelo, acredito que toda a juventude pode ter passado por isso, pelo horizonte de expectativas de um futuro melhor, e pela triste realidade de descobrirmos que não somos realmente livres. O espírito do homem sempre foi o de buscar a liberdade e a independência, mas a verdade é que temos medo da liberdade.

       Estamos reféns filosoficamente do nosso passado, do outro  século que se prolongou entre a intolerância e o ódio, somos os filhos do fracasso, da incompreensão e da cobiça. Nossa geração é a única que foi realmente preparada para ser melhor que as anteriores, e sim, nós fracassamos. 

       É um fardo que iremos levar, um mundo cujas responsabilidades se somam e o futuro nos engana. Lidaremos com menos de trinta anos o desafio do aquecimento global, de uma economia hipertrófica onde as sucessivas secas irão ser rotineiras, que a subsistência da humanidade será refém do caráter cada vez mais escasso da água potável. Ficamos absortos a isso enquanto discutimos trivialidades no Twitter ou curtimos as fotos no Instagram, mas a verdade é que não temos soluções para os nossos próprios problemas.

        O desemprego se soma e traz consigo todas as mazelas possíveis de uma economia de mercado cada vez mais cruel e impessoal, ao mesmo tempo que a tecnologia nos poupa de trabalhos braçais desumanos, ela retira os postos de trabalho de uma população mundial que vem crescendo em exponencial. É inevitável uma catástrofe social dentro dos próximos dez anos quando a juventude será sufocada pelo mercado de trabalho.

      Na verdade, pela falta de trabalho. O ofício intelectual é ameaçado pela nova teocracia neoliberal que valoriza a composição dos números e dos índices da Bolsa de Valores, os bancos que causaram o maior pandemônio econômico dos últimos tempos e que foram socorridos pelo Estado, agora voltam ao seu papel de agiotagem e rasgam as esperanças de qualquer trabalhador obrigado a se ver na condição de devedor. Nossos novos tempos valorizam a riqueza, mas na verdade não a produzem, apenas a roubam.

        A internet nos uniu ao mesmo tempo que nos distanciou, temos agora a maior oportunidade de acesso à informação de toda história da humanidade, mas continuamos cegos. O pior de tudo, às vezes, conscientemente, e ficamos absortos quando políticos envelhecidos pelo tempo tomam a iniciativa que irá impactar completamente o nosso futuro. 

          Seja um Michel Temer rasgando a legislação trabalhista consolidada pela CLT, conseguida com muito custo, em nome "do mercado", seja um Donald Trump fechando os muros de seu país e criando uma nova Idade Média: O fato é que a crise de representatividade nunca foi mais séria do que agora.

          Nesse último ano, eu descobri o que é ser um desempregado, descobri o fantasma de ser um devedor e a humilhação de ser refém do capital artificial dos bancos, mas pior do que isso, descobri o quão grave é a sonambularia que cegou todo o nosso triste esquecimento. Não tenho mais moral nem física nem psicológica para acusar um governo reconhecidamente corrupto, associado a um sindicato do crime e referendado pela corte de juízes. É um escárnio falar sobre como nosso futuro foi roubado.

        Enquanto vocês leem essas palavras, (se é que a leem), continua o genocídio do povo sírio nos seis anos que se arrastam  a Guerra Civil. Enquanto vocês estão no Snapchat, a Ku Klux Klan está ressurgindo em Charlotteville  juntamente com os neonazistas pregando a intolerância e o ódio. As fronteiras do nosso mundo se fecham com o medo e somos prisioneiros do esquecimento.


          Não deveria mais tratar sobre isso, mas o último sonho que tive foi de uma sociedade justa em que todos os homens tivessem a oportunidade de seguir os seus sonhos, que tivessem o mínimo para sobreviver num mundo cada vez mais impessoal e hostil. A questão é que a natureza humana conduz ao exercício trágico de ruptura com tudo o que sonhamos e a liberdade é apenas uma franca piada.

          Desta pessoal que foi humilhada por pensar diferente, que passou fome por não ter tido forças para lutar e que não correspondeu as expectativas nesse mundo pouco carismático, eu digo de coração, meu amor por tudo que eu conheci se foi no momento que a fantasia se descortinou.



      Não tenho esperança de que o futuro seja melhor, não tenho esperança que o racismo irá acabar, que a homofobia irá desaparecer, o desemprego, nem a fome. Infelizmente a intolerância é praticada por gente comum em posições razoavelmente comuns, e enquanto minhas últimas palavras se findam, relembro que a insônia de nossos tempos é justamente resultado de nossa incapacidade de abrir justamente os nossos olhos para o que segue errado, quando justamente seremos a geração que irá pagar o fardo das outras anteriores.

       Não acredito que minhas palavras irão mudar o mundo, nem acredito que esteja sendo lido nesse exato momento. Estou apenas refletindo que no espelho nada aparece senão um semblante abatido de dor e sofrimento; Adeus admirável mundo novo.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...