sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Uma história do Capitalismo

         O capitalismo como sistema econômico de multiplicação de riquezas é com certeza o mais revolucionário da sua história, desde a época de Marx até os dias atuais, as empresas e as corporações enriqueceram de forma estratosférica na multiplicação de riquezas sobre a exploração do trabalho de homens e máquinas, mas também pelo capital especulativo das bolsas de valores.

          Embora o capitalismo mereça todas as críticas, devemos analisá-lo como um fenômeno histórico e nesse pequeno vídeo eu tento esboçar uma conjuntura histórica do capitalismo desde a Crise das Tulipas, passando pelo liberalismo, a Crise de 29 e o New Deal, as criptomoedas impõem desafios e por isso devemos analisar essa nova estruturação capitalista com calma.

       

Bitcoin: Considerações

           A Bitcoin é tida como a moeda do futuro, com o lucro estimado de 800% do ano passado para agora, a criptomoeda está sendo usada para pagamentos, contas e até mesmo pessoas estão recebendo salários em Bitcoins, mas essa nova moeda que parece ameaçar o sistema financeiro e os estados nacionais esconde negócios escusos desde sua interligação com a DeepWeb até a criação de uma bolha financeira.

           Meu receio quanto às criptomoedas não esconde também o interesse de um novo sistema monetário que virtualmente está além da inflação e dos choques cambiais, acompanhem o meu vídeo abaixo e façam considerações nos comentários. Esse é um tema delicado porque envolve dinheiro e muitas pessoas são sensíveis à essa parte do corpo humano, mas precisamos ser francos, a criptomoeda é uma tentativa de modernização do sistema capitalista.


sábado, 2 de dezembro de 2017

Novo canal

           Há muito tempo eu estava cogitando iniciar minha plataforma de youtuber, o blog não será descontinuado, mas essa é uma extensão do Troikamental e uma forma para trazer novos seguidores. Acompanhem o canal, embora esteja em nascimento, pretendo discutir uma enormidade de novos assuntos pelo Youtube.



         O nome do canal é Relógio Histórico, e o primeiro vídeo é sobre a Grande Depressão e a Crise de 1929. É um experimento, mas espero que vocês gostem e gostaria de agradecer pelos acessos do blog, ter leitores fieis sempre é uma mostra que vale a pena continuando com esse projeto de seis anos. O blog pode não ser muito divulgado, mas é enriquecedor saber que pude fazer uma certa diferença na vida das pessoas, mesmo que pequena.


       

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Sobre a censura no MAM

Eu Fui No Itororó


Eu fui no Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei.
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Quem não dormir agora
Dormirá de madrugada.
Ô, Dona Rosinha!
Ô, Dona Rosinha!
Entrarás na roda
ou ficarás sozinha.

Sozinha eu não fico
E nem hei de ficar
Porque tenho sempre alguém
Para ser meu par.

Tira tira teu pezinho
Põe aqui ao pé do meu
E depois não vá dizer 
Que você se arrependeu!

Eu passei por uma ponte
Um cachorro me mordeu
Não foi nada, não foi nada
Quem sentiu a dor fui eu.

          A Batalha de Itororó foi um dos eventos mais importantes e melancólicos da Guerra do Paraguai, foi a primeira batalha da Dezembrada, uma sucessão de lutas e conflitos que ocorreu em 1868 entre brasileiros e paraguaios depois da queda da Fortaleza de Humaitá. Os brasileiros já estavam desgastados e estavam a caminho de tomar a capital paraguaia, Assunção.
Batalha de Itororó


          O rio Itororó é muito fundo, tem uma corredeira muito forte e foi realmente um desafio pros brasileiros as emboscadas e escaramuças com os paraguaios nesse terreno pantanoso, os homens estavam morrendo de sede por causa da cólera e da beri-beri, a água estava contaminada, e por isso essa cantiga começa falando que: "Que fui no Itororó beber água e não achei". Água nessa situação era crucial, e como os soldados não conheciam o terreno muitas vezes se perdiam no caminho até o rio.

         "Achei bela morena, Que no Itororó deixei", esse é o trecho que é preciso ter um pouco de cautela. Durante a Guerra, mulheres e prostitutas acompanhavam os soldados no acampamento brasileiro, comerciantes e caixeiros viajantes eram responsáveis pelo abastecimento e pela diversão, mas as prostitutas eram plenamente aceitas e faziam parte do cotidiano fora dos combates, então, sabendo esse acontecimento, temos que ter um olhar mais refinado para a canção, ela não é tão inocente quanto se imagina:

        "Aproveita minha gente/ Que uma noite não é nada / Quem não dormir agora / Dormirá de madrugada", essa modinha meio roceira parece ser inocente, mas o trecho se você analisa com outros olhos tem uma conotação sexual, de incentivo dos soldados ao sexo, uma noite não é nada, quem não dormir agora, dormirá de madrugada, então, os soldados estavam prestes a sair de manhã para mais uma das escaramuças contra os paraguaios, e violeiro, incentivava a eles aproveitarem a noite o máximo possível antes de serem mortos em combate.



           "Ô, Dona Rosinha! Entrarás na roda ou ficarás sozinha". Sim, isso é realmente o que você pode estar pensando, que rodinha é essa? Rodinha de viola ou roda com outras conotações, mesmo uma mente não tão suja pode ficar com dúvidas sobre qual sentido dessa frase, mas se a dúvida não foi suficiente, leia então a outra parte:


              "Sozinha eu não fico/ e nem hei de ficar/ porque tenho sempre alguém/ para ser meu par." Isso eu estou falando em 1868, quando a sociedade de costumes essencialmente católica valorizava mais do que tudo o recato das mulheres, com o silêncio inclusive feminino sendo valorizado como forma de beleza. Sendo como for, a interpretação que eu tenho ao ler isso considerando a conjuntura histórica é que Rosinha era uma profissional do sexo e falou isso justamente porque não importasse quem ficasse com quem, ou quem morresse, ela sempre teria alguém. Esse trecho é profundamente marcado pelo machismo e a misoginia característica desse período.

           "Tira tira teu pezinho/ Põe aqui ao pé do meu/ E depois não vá dizer  / Que você se arrependeu", trecho de dança ou instruções para o meio do coito? Fica um duplo sentido subentendido, quem se arrependeu do quê? De dançar ou de ter feito sexo? Tirar o pezinho e por aqui ao pé do meu, pode ser como disse no sentido de uma dança, como no sentido de uma acomodação dos membros do parceiro numa cama, é complicado não ter uma visão  corrompida desse trecho.

              Seja como for, pode parecer que as pessoas do passado eram mais recatadas, mais moralistas e tinham o costume de ter vergonha do sexo, isso é uma meia verdade, o sexo continuava sendo um tabu sim, mas isso não impede de certa forma que a sexualidade fosse abordada de várias formas, inclusive nas menos imagináveis, uma cantiga popular. Gregório de Matos era chamado de Boca de Lixo por seus versos incendiários contra o governador da Bahia, mas principalmente por seus versos pornográficos, que ao mesmo tempo eram de cunho religioso, eram exaltando o sexo, assim como o Decamerão de Boccacio.

           E Olavo Bilac, patrono do Exército, era conhecido pelos amigos por seus versos carregados de erotismo, um dos amigos inclusive chegou a dizer: "Muito anos coma a terra, para quem comeu muitos an*s". Vocês entenderam o sentido da frase. Caso não tenha sido claro, um verso de Olavo de Bilac:


Delírio
Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo.
Na minha, a sua boca eu comprimia
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
‒ Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência brutal do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos, mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda, quase em grito:
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ num frenesi!

No seu ventre pousei a minha boca,
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ disse ela, louca.
             Então, o príncipe parnasiano e um dos maiores defensores do alistamento obrigatório, um dos baluartes do republicanismo da virada do século XIX para o XX teve um lado erótico bem claro, sendo dessa forma posto, Olavo Bilac, inclusive filho de um oficial da Guerra do Paraguai, não pode ser creditado como a pessoa mais moralista do mundo.
Moralistas ‒ perdoai! Obedeci...



            Esse é o ponto que quero chegar, nossos antepassados faziam sexo, falavam sobre sexo e mantinham-se presos a certos tabus, o problema é que a geração moralista de agora ao falar do sexo em si, acredita que seja algo pecaminoso, carregado de erotismo e que perverte sobretudo os adolescentes e as crianças, a questão não é isso, a questão é a cultura da pornografia, as crianças estão sendo constantemente bombardeadas por uma cultura erótica, seja em comerciais de cerveja com mulheres com seios de fora, seja em filmes e séries que objetificam as mulheres como apenas máquinas do sexo, sem que elas possam ter opinião, sem que elas pensem, e apenas sejam submissas. A mulher não é só uma parceira do homem, se enganam os religiosos, a mulher tem igual importância ao homem, ou não, a mulher é ligeiramente superior ao homem porque ela consegue transformar uma casa em um lar, e um grupo de pessoas em uma família. Seja como for, o machismo ataca diretamente a sacralidade ancestral que a mulher carrega de ser a entidade mais importante da sociedade.

             Não estou advogando para que esqueçamos o sexo, acorrentemos as mulheres, coloquemos véu. Não é isso, estou falando para deixarmos de ser hipócritas, nossa sociedade sempre objetificou a mulher e a sexualizou, mas se escandaliza quando conteúdos sexuais caem nos olhos e ouvidos de crianças, seja numa exposição do MASP, seja num desenho animado.

             A questão é, as crianças realmente não devem ser expostas a isso porque elas precisam ter um pouco de inocência para não atrapalhar o seu desenvolvimento cognitivo, mas nós adultos fazemos pouco nesse sentido, nós incentivamos a sexualização com filmes sobre o primeiro amor, a Lagoa Azul é o maior exemplo disso. Uma menina de 14 anos aparece na tela do cinema e muita gente acha isso incrível. É horroroso pensar que um clássico da literatura seja Lolita de Nabokov, um cara doente de meia idade que molesta uma menina de 12 anos e tenta explicar o motivo de ter feito isso.

             Essa canção também é um exemplo disso tudo e foi cantada por gerações de mães e babás para crianças dormirem, isso tem que parar de certa forma, temos que parar com a cultura do sexo e da pornografia e deixarmos de ser hipócritas, não adianta nada censurar uma exposição se você continua cantando Itororó deixei para os seus filhos, mesmo que seja dois pesos e duas medidas.

               Olavo  Bilac continua sendo tratado nas escolas por sua importância literária, mas ele era um cara absolutamente sexualizado, assim como Monteiro Lobato era racista, e ainda fazem filmagens e refilmagens de sítio do Picapau Amarelo. Eu não concordo com uma criança estar numa exposição de arte com nudez, eu não concordo, mas fechar o museu não é a solução, quando existe sempre a tentação da internet que está entulhada de pornografia, a criança corre risco de verdade de ser exposta a isso.

                Um exemplo disso é minha irmã de nove anos procurando jogo para o celular na internet e esses sites de download abrindo uma segunda janela com uma página de pornografia quando ela só queria jogar um jogo da Barbie. É isso que devemos combater, essa exploração canalha desses adultos de meia idade que acham natural colocar uma segunda janela numa página infantil com conteúdo erótico. Se não formos sensíveis a isso e deixarmos o problema se prolongar, é bem possível que o seu filho tenha acesso a conteúdos ainda mais pesados, como zoofilia ou sadomasoquismo. Então, parem, não digam que a exposição apenas deve ser fechada, não fiquem olhando o navegador do seu filho achando que isso resolve, lutem contra esses fornecedores de pornografia que são tão covardes a ponto de sexualizar crianças, de colocar páginas anonimas em pesquisas e cometem crimes cibernéticos.

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A internet é o maior desafio para a criação dessa nova geração super conectada

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O assassinato de Kirov


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         Serguei Kirov talvez tenha sido um dos entusiastas e políticos mais influentes do Partido Comunista, e se tornou a cerne de um dos maiores mistérios políticos em torno das muralhas de tijolos vermelhos da fortaleza do século XIV chamada Kremlin.


          Jovem, bem apessoado, esse homem de 48 anos de semblante atarracado era um líder popular, carismático e orador público de extrema eficácia. Seu rosto jovem e despojado de pretensões escondia um homem pacato e disponível às necessidades de todos e um vício incansável pelo trabalho. Era um homem do povo que saltava de seu carro para cumprimentar as pessoas na rua e que surgira do interior da Rússia.

           Serguei Mironovich Kostrikov nasceu na pequena cidadezinha de Urezhum em 1996, filhode um pequeno escriturário de pouca relevância. Apesar de suia condição de pobreza, levada pelo alcoolismo de seu pai, Kirov foi forçado a se tornar um homem voltado para os estudos. Quando perdeu sua mãe para a tuberculose, pouco podia fazer senão se arranjar na escola local e conseguir a sorte de ir estudar engenharia mecânica em Kazan. Onde se formou na virada para o novo século. Em 1904 mudou-se para a Sibéria gelada e aborrecida onde começou a militar pelo fervor revolucionário da Revolução de 1905, sendo logo um bolchevique.

             Preso,  dedicou-se à leitura e adorava escrever, isso o fez se tornar posteriormente jornalista de um jornal liberal de Vladikavkaz. Bolchevique, mas não amante do terror revolucionário. Era um apoiador da revolução por acreditar no progresso do socialismo. Envolveu-se com Stálin na guerra civil e essa amizade estranha o levou ser um estandarte da causa bolchevique.

           Popular e jovem, participou da campanha de coletivização do trigo em honra à construção de um novo país industrial e forte (que sem saber estava sob a matuta das botas de cano alto de um Stálin cada vez mais paranóico). Foi chefe do Partido no Azerbaijão e em 1926, após reconfigurações partidárias, se tornou braço direito de Stalin em Petrogrado.

            Kirov aceitou a função com destreza e a amizade com Stálin. Contudo com passar dos anos, já doente e cansado, Kirov desejava caçar e dormir nas barracas de lona no interior ao invés de passar todos os finais de semana nas reuniões intermináveis na datcha de Stalin. O jovem Kirov por vezes queria fugir: "Estou entendiado aqui. Em  nenhum momento posso ter férias tranquilas. Ao diabo com isso".
Kirov e Stalin nos anos 30

           Opositor do terror contra os trabalhadores em prol da realização das mirabolantes cotas dos Planos Quinquenais, Kirov se tornou uma "oposição surda", um foco de resistência ao NKVD. E suas memórias foram esquecidas quando passou a ter que tomar um papel mais proativo em Petrogrado.Após uma plenária do Partido Comunista realizada no dia 28 de novembro de 1934, Stálin acompanhou pessoalmente Kirov até o trem Flecha Vermelha com destino a Leningrado, abraçando-o antes de sua partida. No dia seguinte estava na antiga capital imperial

          Kirov passou a maior parte do dia 1° de dezembro de 1934 em casa preparando um discurso que faria à noite. Telefonou várias vezes para o comitê distrital e para alguns de seus adjuntos antes de telefonar às 16 horas para a garagem, no subsolo do seu apartamento, pedindo um motorista. Planejava passar no Smolny, bastião da Revolução de Outubro, para se preparar antes de seguir para o Palácio Taurida onde faria um discurso à 18 horas.

         Deixou a casa imediatamente e foi a pé até a ponte Troitski, onde o motorista, F. G. Erchov, o apanhou e o levou para o Smolny. Chegando ao Instituto Smolny, onde outrora Lenin, Trotsky, Kamenev, Zinoviev e e outros revolucionários 17 anos antes tinham orquestrado os pormenores da Revolução de Outubro, Kirov  subiu as escadarias do instituto e conversou com alguns colegas, sozinho, não percebeu que estava sendo seguido. Kirov levava uma pasta com documentos importante e um chapeu de pele na cabeça.

        O segurança tinha ficado nas escadarias, enquanto o dirigente comunista se encaminhava para a sua sala, Leonid Nikolaiev apareceu de surpresa, ele que tinha ido ao banheiro, ao ver Kirov no corredor, andou de maneira furtiva por trás do busto de Lenin, por trás da batente da porta, ele disparou o seu revolver Nagant na nuca de Kirov. Um crime sorrateiro, sem testemunhas e sem reação. Aquele crime iria mudar para sempre a URSS.

Kirov foi embalsamado para ficar em exposição por três dias antes de ser enterrado em Moscou.
         Stalin recebeu o telefonema de Leningrado, Kirov tinha sido assassinado. Foi o primeiro assassinato dos  Expurgos e esse crime seria a causa de toda a onda de terror contra lideranças, militares e artistas, mas principalmente, inocentes por toda a União Soviética. Kirov, a flor e a gênese da juventude comunista da URSS tinha sido brutalmente assassinado de forma traiçoeira.

         Stalin pegou o Flecha Vermelha no outro dia, colocou Molotov, Voroshilov e Yagoda dentro do trem e acompanhou pessoalmente as investigações, além de ser líder do Partido, Kirov era seu amigo, eles tinham passado as férias juntos na Geórgia não fazia muito tempo atrás. Aquela morte machucou o coração de Stalin, tanto quanto a morte de sua segunda esposa Nadja Alliluieva, que se suicidou alguns anos antes. Com botas pesadas de couro, o bigode e as marcas de varíola, Iossif Vissarionvich beijou a testa do amigo, enquanto via Leonid Nikolaiev ser interrogado pelo NKVD.

         Não sabia de nada a não ser que provavelmente Nikolaiev matou Kirov porque ele estava sendo traído pela esposa com o comissário. Nada parecia indicar um crime passional, mas Stalin, vendo as incongruências do processo logo ligou o crime a ninguém menos que Grigori Zinoviev, antigo líder do Partido em Leningrado, removido por fazer críticas ao próprio Stálin.

           Zinoviev, Kamenev e Stalin tinham formado uma troika, um governo de três, após a morte de Lenin, a questão é que eles achavam que Stalin poderia ser manobrado e foi justamente o contrário o que aconteceu, Stálin era a máquina partidária, em uma aliança com o líder proeminente Nikolai Bukharin, púpilo de Lenin, e "téorico do Partido" ele liquidou a oposição e se tornou o líder supremo.  A União Soviética se desenvolveria com as mãos de ferro de um novo líder. A NEP logo foi abolida e se iniciaram os planos quinquenais, os kulaks, camponeses  de classe média, ofereceram resistência à coletivização, a Ucrania quase entrou em guerra civil. Essa era a  nova União Soviética.

           Foi quando Kirov foi morto.


          Depois disso, as prisões, as delações e as conspirações começaram, As pessoas passaram a ter medo e a não poder criticar abertamente o Partido, deportações, julgamentos-espetáculo, e mortes. O NKVD passou a fazer prisões em massa e aquele país que era um sonho socialista passou a matar seus próprios construtores: Primeiro Zinoviev e Kamenev, depois foi Yagoda, ex-chefe do NKVD, e agora seria Bukharin. "Koba, por que precisa da  minha morte?", escreveu Bukharin em um bilhete para Stalin. 

        Por sete anos a URSS passou de uma republica de sonhos a um regime totalitário. As marcas desse crime nunca serão descobertas, mas de certa forma, esse crime em 1° de dezembro de 1934 acabou assassinando um país inteiro pelo medo; Stalin carregou o corpo do amigo pelas ruas de Moscou quando voltou de Leningrado, algo havia mudado, enquanto ele caminhava no Kremlin, até o cemitério dos revolucionário na muralha norte, ele sabia que a partir daquele dia a URSS não seri mais a mesma.


Conto de meia noite

          Numa dessas confluências da vida, quando a noite se prolonga mais do que o dia e a escuridão se adensa em nossos olhos a figura sinuosa de uma pessoa é um acalanto para uma mente carregada de preocupações. De fato nada pode ser considerado mais irresponsável do que se fechar para um mundo carregado de memórias e experiências

          As luzes fracas dos postes de cimento mal lavado carregavam a noite com uma luz artificial amarelo-magenta que faz com que cada reflexo no espelho de um asfalto récem molhado pela chuva tenha sido construído uma lâmina de prismas monocromáticos.   Prismas constituídos de flashes e trade-in, ou talvez só meros vazios nas lacunas da vida, mas o sentido epírico dessas palavras não pode ser traduzido apenas pela pena e pelo papel, mas pelo sentimento que corre em nossos corações e os pensamentos em nossas cabeças;

           Mas não tecerei versos carregados de fonemas carregados como Maiakovsky, essa história cotidiana e deveras suburbana é digna de ser colhida num único momento e piscar de olhos de você caro leitor. “Acaso devo carregar-me de poesia ou devo ler Guerra e Paz?”, deve estar se perguntando ao olhar o catatau de Tolstói.



         Seus olhos eram escuros e intensos, honestos e tão românticos que me preenchiam de pensamentos. Não, essa não era a meta, apenas tentar viver um dia de cada vez. Seus cabelos eram negros como a noite, e de seus lábios caíram palavras desencontradas cuja entonação não se ouvia diante os ventos frios, carregados do peso da noite:

Não ouvi no jardim mesmo os pássaros
Tudo aqui é parado até de manhã.
Se você soubesse como você é querida para mim
Nas noites frias de outono

O rio está em movimento e ainda parado,
A lua cor de prata.
Nos brinda com uma canção pode ser ouvida
e não pode ser cantada  
Nessas noites calmas.

Onde você está querida que me olha de soslaio?
Estará dormindo ou apenas enfeitiçada?
É difícil de expressar
Tudo o que está no meu coração.

Uma madrugada de verão
Olhei  para o jardim
E encontrei a lua
E me apaixonei por você

E o silêncio  é mais perceptível ...
Então, por favor, seja gentil,
Não esqueça daqueles dias de verão
Parados como você e eu.


Seus versos eram irresponsáveis, como os de um adolescente numa cântiga de verão e pior, ele tropeçava de soslaio, caía de maneira inesperada no chão e se contorcia num esforço inútil para levantar. Sua vida era mais do que simples álcool e poemas mal escritos mas a lembrança de um passado lhe soava meio incongruente.

“Como falarei com você? Como terei coragem em pegar o seu telefone e não falar contigo, de esquecer o seu rosto e mais do que isso ainda me martirizar por ser tão tolo a ponto de não querer me apaixonar?”, pensou como um bom mujique.

Bom, ele tentava se lembrar de como era não querer se apaixonar, de encarar as pessoas como meras marionetes no jogo de xadrez e manipulá-las a plena vontade; Ou melhor, pôker, porque ele gostava da sensação de ganhar e perder dinheiro com a mesma facilidade com que trocava de roupa.
Sabia como ninguém o que um par de rainhas representava.  Mas ela era mais do que simples cartas, ela era de carne e osso. Meiga e nem um pouco dada ao seu passado de boemia. Escutava-lhe o vento e um cachorro mal-tratado que mordiscava um hot-dog estragado.
O frio batia em sua capa. Um guarda de soturna expreitava os doentes, e a lua crescia celestialmente entre os prédios de tijolos vermelhos. Desenrolou um pedaço de papel no bolso


“Você é meu amor e destino!
O destino não é fácil. O amor é duro, mas é de verdade.
Pois estamos prontos a sacríficios
Nós todos experimentamos mais de uma vez,
O que é se apaixonar todos os dias
Nosso outubro, a todo velocidade!
Com a gente, a canção de corações vermelhos,

Apressam os nossos anos, mas a vida é jovem!
E canta como antes tubo.
Você meu amor, você está sempre em guarda!
Me esperando no coração


Hoje me sinto infantil para não ter escrito nada disso para você, apenas ter brincado de flertar com você que me escutava com tamanha atenção sem reclamar de nada a respeito. Onde você vier estarei contigo.

Tenho medo de trazer vários dos meus medos no papel, mas tenho o medo maior de deixar o tempo passar. Somos tão irresponsáveis para ignorar o dia?”

Caiu no chão com uma vontade narcisista de ser o imperador do mundo e por um momento sentiu-se Napoleão em pessoa, saltou em cima de uma moto parada e tomou um ímpeto dadaísta de  gritar “ Vive la France!” e sair pela cidade fazendo barbaridades.

Correndo sob tropeções começou a abraçar os passantes, correr atrás de carros inutilmente, ir mijar nos cantos mais abusrdos e casar-se com um poste de telefone. Correu do guarda, do cassetete e correu. Correu, correu, até gritar para todo mundo: Eu a amo.


No meio de uma dessas caiu de cara na mesa onde jogavam damas dois mendigos, que roubaram sua carteira, e bem mais que sua dignidade. Vomitado, passou maus bocados lá pelas três da manhã quando um cachorro mijou em suas pernas e lambeu seu rosto.




Os ônibus saiam vazios, e naquela noite de apuros, ele ainda se lembrou que foi correr atrás de briga com dois bombadões de academia. Quando acordou, não se lembrava de nada. Muito menos onde estavam suas calças, mas ele estava abraçado a um cachorro com o rosto plenamente vomitado e a roupa suja de vomito. A manhã de segunda feira foi meio complicada para o nosso jovem anti-herói que além de ter perdido sua dignidade, perdeu o papel com o telefone. Mas que inferno! Que ressaca!



segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O arco-íris cinza

         A base de toda a sociedade ocidental é feita sobre um processo de dominação filosófica e social e intercâmbios entre costumes e povos específicos. Os tabus que moldam todos os nossos preconceitos foram construídos no período de 20 séculos, sob a égide de uma religião e uma sociedade estamental transformada gradativamente em uma sociedade de mercado.

       A sociedade hoje é baseada na instituição da família mononuclear, de domínio heterossexual, cristã na maioria dos casos. Os pais dominam a vida e as escolhas dos filhos, sobretudo a figura central paterna, provedora do lar, mas mais do que isso chefe de família. O papel irresoluto do pai como senhor é passado de gerações a gerações desde os tempos do Império Romano, mas curiosamente é através do cristianismo e da Idade Média que se torna absoluto todo o sistema social heteronormativo.

       Até o século XX, a homossexualidade e a transsexualidade eram tratadas como doenças, e em alguns locais do mundo, os gays eram mortos sob o crime de sodomia. Isso sem contar que para a Igreja católica qualquer relação sexual que não for para fins reprodutivos é pecado. A moral e a ética cristãs alimentaram a discriminação desses grupos e o seu processo de afastamento por séculos, impondo inclusive crimes absurdos em nome da fé e dos costumes.

      Estamos no século XXI e até hoje gays, lésbicas e travestis são tratados como cidadãos de segunda classe, são juridicamente reconhecidos, mas não possuem qualquer tipo de amparo pela lei. São mortos por sua orientação sexual ou por se identificarem com outro gênero, trucidados todos os dias e marginalizados como leprosos e o Estado se renega ao papel de não vê-los.

      Quando disserem que os homossexuais e transgêneros têm privilégios, pensem duas vezes,  Darei alguns exemplos que mostram que hoje, em 2017, tratamos os nossos semelhantes com o mesmo descaso como nossos avós tratavam há 50 anos atrás.


        Basta lembrar que, nos primeiros quatro meses deste ano, o Brasil teve um aumento de 20% nas agressões contra pessoas LGBT. Em 2016, foram 343 mortes nesse grupo – 144 das vítimas eram travestis e transexuais. Com um agravante: a  homofobia e transfobia não constituem crimes no Brasil.

         Um simples casal andar de mãos dadas na rua parece ser um ato de afeto, se você for parte de um relacionamento heterossexual, se você for homossexual, ouvirá insultos, observará toda a sorte de pessoas olhando torto para você, isso se você não acabar sendo agredido. Parece coisa de outro mundo, mas experimente andar na Paulista de noite de mãos dadas. 

          Um simples beijo pode ser dado como ofensa, você pode beijar a sua namorada livremente na frente de crianças, idosos e casais e será dado como um namorado exemplo (e vice-versa), mas se estiver num relacionamento homossexual ou com uma pessoa transgênero, não será assim que acontecera. Você será chamado de vulgar, será convidado a se retirar, isso senão for insultado ou acusado de indecência.


            Ir ao banheiro muitas vezes pode resultar em espancamento e critica, dependendo do local onde você está. De toda forma, mesmo a esquerda não sabe como encarar os problemas e as demandas dos grupos LGBT, de fato as conquistas atuais são bem limitadas, e são restritas quase que exclusivamente aos gays. Os tratamentos hormonais, a inserção no mercado de trabalho de transexuais, ou mesmo a alteração dos documentos são uma novela que se arrasta desde os anos 90, quando as pautas também incluíam desmistificar a ideia de que a AIDS era uma doença de homossexuais. Estamos há quase trinta anos desde o final da ditadura e ainda somos reféns da intolerância contra os grupos mais vulneráveis da nossa sociedade.
         
           A cidadania é negada no momento que todo o sistema judicial  governamental e institucional marginaliza desde a educação básica até o ensino superior transexuais e homossexuais por sua orientação sexual, a censura no museu do MASP e em outros museus contra a "doutrinação LGBT" reforça ainda mais a intolerância e o preconceito. A ascensão de movimentos organizados que querem retirar direitos de representação nos espaços políticos de pessoas LGBT, seja em programas de televisão, seja em passeatas ou mesmo simplesmente na vida cotidiana mostra o quanto o brasileiro é contra o próprio direito de igualdade de direitos garantido na Constituição de 1988.

            De toda forma, percebam? Quantas travestis estão no mercado de trabalho? Quase nenhuma. De toda forma, durante a calada da noite, a maior parte delas é obrigada a estar num mundo pesado e asqueroso que é a prostituição, sendo usadas   por pais de família de classe média que reproduzem o machismo e a homofobia dentro de casa.


            O arco-íris cinza é o que define o tom monocromático de uma sociedade que não aceita as diferenças e cada vez mais intolerante com as suas minorias, então, quando houver a defesa de que gays não podem frequentar escolas, que travestis são pessoas mentalmente desequilibradas e que todas essas coisas são aberrações, lembre-se, você está sendo conivente com extermínio diário de centenas de pessoas marginalizadas nesse país apenas com a sua intolerância. O pior dos crimes é a conivência com o genocídio.

O banco

     6:30. O banco de madeira branca no meio da praça respingava as últimas gotas de orvalho naquele frio glacial que fazia em São Paulo. Nada naquele frio intenso que se estendia pela névoa úmida era mais mortal do que o semblante fechado de centenas de paulistanos que seguiam para o trabalho naquele dia morno de sexta-feira.

     A Avenida Paulista continuava silenciosa, a despeito da profusão cada vez mais constante dos ônibus e táxis que cruzavam toda sua extensão da Consolação à sede da Fiesp. O MASP continuava erguido na sua cúpula de pilotis, sobre o qual, o vão acolhia os mendigos na calada da noite.

      Nesse meio caótico de trânsito de pessoas, estendia-se de maneira bucólica o Parque Trianon, na mesma Avenida Paulista, defronte ao MASP e a dois quarteirões da FIESP. Era um parque encantador, com a arquitetura neoclássica e art noveau da São Paulo do início do século XX. Seus prolongamentos de postes de ferro fundido eram uma torção de atmosfera excentricamente britânica na paulicéia desvairada.

      Às 06:30, as correntes do parque se abriam e o segurança bocejava para mais um dia de expediente. O varredor de rua limpava as folhas das árvores que docilmente caíram na última madrugada, o feriado de 9 de julho estava próximo e a cidade deveria manter-se impecável.

       Às 7 h 00, o céu ainda cinzento não tinha deixado o sol nascer e a cidade cada vez mais movimentada olhava impaciente para o relógio do Edifício Safra. São Paulo por um momento se tornava de novo uma megalope, uma capital financeira, bancária e industrial. O seio das veias abertas  do capitalismo latino-americano, com seus mendigos dormindo debaixo das marquises, os seus executivos de ternos bem-cortados comprando café no Starbucks e os colegiais descendo para o metrô depois de tomarem café nas padarias da Augusta.


        Num piscar de olhos, as folhas que foram recolhidas e jogadas no cesto de lixo, deram passagem  aos alunos cada vez mais atrasados do colégio Dante Aligheri, o mais antigo e mais tradicional de São Paulo. Era Paulo, de dez anos, com moletom e gorro na cabeça, escutando Pink Floyd no Ipod que passava na frente do pequeno banquinho de madeira. Ele não tinha tempo  para admirar a vegetação escurra e densa da mata atlântica, tampouco visitava com os olhos a história daqueles postes de ferro fundido trazidos da Inglaterra.

       Paulo, um legítimo filho paulistano, que desceu na MASP-Trianon, corria para não chegar  atrasado no colégio enquanto os sinos badalavam. O trânsito que vinha da Avenida Nove de Julho corrompia-se no  entrocamento com o parque e o subúrbio paulistano acordava novamente para o horário de trabalho.

        Já eram 8h 00 quando Alberto passou com o seu cachorro Fila preto, que farejava o território dos outros cachorros, cada poste, cada lixeira era um lugar que poderia usar como mictório. E o cachorro festejou aquela atmosfera de odores e sabores como se fosse um ponto fora da curva, Alberto  teria um plantão no Hospital Albert Einstein dentro  de duas horas.

       8h30, o banco continuava firme e impassível à paisagem. Quantas pessoas passariam por ele naquele dia? Ele não tinha certeza nem segurança, mas já envelhecido pelo tempo, sua madeira começava a trincar em sulcos cada vez maiores. 

         9h00. Maria Antônia trouxe sua filha Paola, de seis anos para o parque. Maria lia a Dama do Cachorrinho, de Tchekhov, uma edição de bolso bastante delicada com ilustrações e folhas de revista.  Paola ilustrava o chão  com o seu lápis de cera, desenhando o céu e o arco-íris. As duas, mãe e filha, parecia felizes. 

         Às 9h30, Marcela aparecia para conversar com a amiga sobre os seus problemas de casamento e que iria se separar de Alberto, sim, o médico com o cachorro. Não havia nada naquela cena que parecesse triste, e enquanto a filha coloria a aquarela, Maria  Antônia dava seus últimos conselhos à amiga.

         Às 10h 00, o banco tinha deixado de ser divã e as três  mulheres  saíram, provavelmente para tomar sorvete na Soverteria do Chiquinho Scarpa.

          Às 10h30, o tempo ficou ainda mais nublado. Apareceu João, João Ninguém, às 11h com a Folha de São Paulo nas mãos, comprada na banca de jornal logo em frente. João foi logo aos classificados,ele estava procurando emprego.

           João leu, releu, estudou e com a sua caneta Bic desistiu de procurar vagas e fez as palavras cruzadas. Nada naquele jornal o agradava, ele era mais um dos 15 milhões de desempregados que recheavam as estatísticas. Fechou o chapéu na cabeça às 11h30 quando o primeiro pingo de chuva apareceu e foi para casa.

              Pobre  João que não achava trabalho!


          Às 11h30 começou a cair uma garoa fina que se prolongou pelo  horário do almoço. A aquarela de giz de cera foi apagada a cada badalada das águas nos ladrilhos de pedra batida da calçada. O banco ficou ensopado com aquela umidade fria que caiu na cidade.

              
           A chuva acabou às 12h 30, quando as pessoas saíam do almoço e iam descansar no parque. Alguns executivos com celulares na mão gritavam sobre a queda das ações na bolsa, as empregadas iam buscar as crianças no Dante Aligheri e os turistas chegavam para  visitar a coleção do MASP.

             Às 13h00, Joana de sessenta anos se sentava no banco depois de ter ido ao mercado, com três sacolas de compras. Ela estava cansada, Seus olhos negros olhavam para a paisagem com descaso, Alfredo, o seu marido, tinha morrido há quatro dias atrás depois de um enfarto fulminante.

             Às 13h30, chegaram os skatistas. Um deles caiu da prancha quando a roda enganchou em um dos ladrilhos. Ele virou o skate e resolveu consertá-lo na frente do banco. Os adolescentes sorriam e pisavam com os pés sujos de lama em cima do banco.

             Às 14 horas,  Pedro e Sandro jogavam xadrez no banco, Pedro tinha colocado o rei em xeque, Sandro estava prestes a tomar um bispo. A partida seguia indefinida sob o olhar de uma plateia inconsciente de um homem desconhecido; 

           A partida continuou enquanto os dois taxistas mantinham-se firmes ao jogo de tabuleiro, o desconhecido perdeu o interesse e foi embora, até que por volta das três da tarde o banco foi desocupado de novo. Paulo, aluno do Dante Aligheri passava de novo, ele seguia de volta pra casa.


          15h30, Bruno saía da sede do Banco do Brasil com um ramalhete de flores. Ele tinha comprado as rosas numa banca próximo da rua Peixoto Gomide e aguardava impacientemente no banco. O seu coração pulsava, martelava como uma bigorna e o relógio de seu pulso girava todas  as engrenagens de seu corpo de executivo. Ele suava frio debaixo do terno.


          Quatro da tarde, nada dela aparecer. Ele olhava o celular sem respostas, procurando uma mensagem que fosse de Luíza, sua cabeça ficou cada vez mais baixa e com imensa tristeza, Bruno esperou pelo amor de sua vida.

             Às 16h30, contra tudo e contra todos, apenas com o banco como companhia, Bruno jogou as rosas no cesto de lixo  e  foi embora  para o serviço. Os seus olhos não tinham mais lágrimas, estavam secos, igual o seu coração.


              17h00, Dona Amélia rigorosamente chegava nesse horário para alimentar os pombos. Essa velhinha, de rosto amável e lenço na cabeça, tinha apenas duas diversões na vida: Alimentar os pombos e jogar na Mega-sena. Católica e mãe de cinco filhos, ela vivia sozinha num pequeno apartamento na Bela Vista. 

           Sem filhos, nem marido, ela era sócia daquelas tardes no parque Trianon, enquanto alimentava os pombos como se fossem os seus sobrinhos.

            Às 17h30 o sol já se punha em relento, a cidade continuava se movendo, os bares da Augusta começavam a ficar cheios, o trânsito para Santo Amaro ficava cada vez mais sobrecarregado. O feriado estava próximo e o paulistano estava disposto a sair da cidade para curtir o litoral.

             Às seis, Gisele corria de moletom enquanto repassava os detalhes da reunião pelo fone de ouvido do celular. 

             18h30, quando começaram a cair as luzes, Miguel tirava uma foto de Anita para o ensaio do próximo número da revista. Ela sentada no banco com um longo vestido vermelho e um colar de esmeraldas falsas. Anita realmente estava disposta a ir para o São Paulo Fashion Week, depois disso iria  comer uma salada na Avenida Pamplona e sair com o seu sugar daddy no Itaim Bibi.

                19 horas, dois guardas passam. Nada a relatar.


               19h30, Mário  passeia com o seu cachorro, um Settler inglês chamado Puma, ele cheira o xixi do cachorro de Alberto. Alberto e Marcela devem ter tido uma briga feia, ele não voltou ainda para casa.

               20 horas. Começa o Jornal Nacional, um cachorro de rua urina na mesma lixeira que Puma fez as suas necessidades.

           20h30, Pisca, Manu e Zenas aparecem de moletom e boné com duas garrafas de Catuaba e começam a falar sobre a vida. Os três amigos acendem um baseado e riem dos últimos resultados do futebol.

          21 horas, Manu e Pisca brigam e um joga a lixeira no outro. Os três já estão caindo de bêbados quando a polícia aparece e leva os três para a delegacia.



           22 horas, eu me cansei de ver o banco e fui para casa. Imagino o quão tedioso é para o banco ficar parado num ponto fixo do parque quando a cidade inteira se move e as pessoas fazem com que todo esse ritmo intenso sobreviva.


O pequeno homem brasileiro

     Fernando Sampaio morava em Brasília, tinha 45 anos, casado, era branco e tinha cursado a universidade de administração. Ele era um funcionário público tal como muitos outros, trabalhava no Ministério do Planejamento e todos os dias saía de seu apartamento de três quartos na 406 norte.

        O seu carro era um Jeep Renegade branco, de setenta mil reais financiado em 30 meses, um orgulho para todo bairro ao exibir um SUV que ostentosamente andava devagar à cada curva ou semáforo. Não era simplesmente um carro, era um abre-alas de escola de samba, mostrar que um funcionário público também podia se fingir de rico. 

        Todos os dias pela manhã, Fernando saía atrasado para o trabalho, seus filhos pegavam a van para o colégio mais caro de Brasília, mas o próprio pai tinha preguiça de levá-los até a porta da escola e pagava a van. Quando chegava no serviço, sempre que podia, ele manipulava a presença e colocava o horário de entrada uma antes do previsto. Esperto, assim poderia sair mais cedo.

          Maria namorava Fernando desde os seus vinte e poucos anos, quando ele ainda estava casado com Ana Paula, a  mãe dos dois meninos, Ricardo e Miguel. Foi um escândalo? Pelo contrário, Fernando sabia que todos na sua família não iam com a cara de Ana, "uma comunistinha de merda" que ele se engraçou na universidade.

           Lá estava Fernando, ganhando seus 15 mil reais ao mês, pagando trinta prestações de um carro que não podia ter, pagando uma escola que não poderia pagar e economizando na pensão dos dois filhos. Por sinal, eles só foram morar com ele porque ele tomou a guarda "porque a mãe estava pegando o dinheiro para sair com os machos".

         Sampaio era um funcionário medíocre que veio transferido do Paraná, ele não gostava de petistas e achava que todos os políticos eram corruptos. Bem, ele foi nomeado para um cargo comissionado por seu amigo deputado. O Ministério do Planejamento era um suntuoso prédio na Esplanada dos Ministérios, não muito longe do Palácio do Planalto. Vez por outra, entediado, Sampaio jogava aviões de papel em seus colegas de mesa ou, pior ainda, ficava na fila do banheiro esperando ver os rabos de saia que saíam do banheiro feminino.

           — Que coxas deliciosas, Sandra. Anda malhando muito?

           — Cala a boca, Sampaio.

           — Só calo a boca quando eu tomar o chá dessa xo...

           O chefe apareceu e Sampaio fechou o bico, tomou o café e fingiu ter esquecido algo. "Cadê aquela papelada?"

          "Era o projeto de uma barragem no Alto Solimões, será que tinha índio ali? Quantos megawatts? 50? Só cinquenta? Vamos aumentar isso, cadê o menino da Oderbrecht?"

                Ele não sabia nada de engenharia, ele nunca soube o que significava amperagem ou aterramento, e como se gira as turbinas? Turbinas só de avião, afinal ele ia pra praia no próximo feriado prolongado, é um inferno ficar em Brasília...


              Cadê o menino da empreiteira?


              O projeto passava pela reserva xavante, a Funai chiou e falou que não pode matar índio.

              "Índio não é gente, Sampaio. Índio quer ar condicionado, televisão e wi-fi igual todo mundo. Tem que fazer a porra da hidrelétrica".


            —  O Ministério do Meio-Ambiente mandou um relatório pelo Gilberto, a obra vai causar um impacto irreversível no Alto Solimões e nos afluentes.

             — Cala a boca, Sampaio, desde quando você ouve aqueles maconheiros do Greenpeace?

             — Mas Carlos...

             —  A usina vai sair, ordem de cima, do ministro. O menino da Odebrecht já trouxe o projeto, tá todo mundo feliz com isso, inclusive o presidente.

             Sampaio odiava o presidente, ele era um capeta igual todo mundo, um bandido. Mas bem, ele não aguentava a Dilma, uma mulher no poder? Que loucura! "A velha não sabe governar, onde já se viu? Gasolina há quatro reais"

            — O lugar do Lula é na cadeia — disse na roda do café.

            "Cadeia"

             O menino da Oderbrecht depositou os cem mil como ele pediu? Não sabia, ele verificou o saldo do banco e nada. Como vai ser sem esse dinheiro?


            Sampaio estava estressado, foi direto pro banheiro e tirou da carteira o malote com 10 gramas de cocaína. Tinha que espairecer um pouco. Quem sabe o que o Ministério Público poderia fazer se soubesse disso?

          Não ia dar nada, se nem o presidente caiu, imagina se o Janot iria  se importar com cem mil reais? Mas o Janot saiu também. Foi então que riu.



           Alto e chapado, ele voltou como se não tivesse acontecido nada, mesmo que estivesse o pó branco bem debaixo do nariz. Quem disse que precisava ser discreto, se até o chefe dava um tapa na pantera de vez em quando?

              —  Fernando?

              — Oi?
              
              — A sua mulher tá no telefone.

               — Merda!

               Fernando foi para a sua sala e fechou as persianas.

              —  Que foi Maria Eduarda?

              —   Miguel caiu do parquinho, a menina da escola me ligou agora... O que eu faço, Fernando?

               — Estou ocupado, tem um projeto aqui no ministério, não posso responder agora. Resolva isso, sim?

               — Tudo bem, Fernando, é que...

               —  Faz isso, sim? Depois a gente pode sair, quem sabe?

              — Tá bom, Fernando. Eu vou lá. Eu te amo.

              — Eu também te amo.


             "Vaca"

              Desligou o telefone.


              Então Fernando fechou a porta.


              O projeto iria passar, mas agora era hora dele ver sacanagem no horário de trabalho. Com as mãos debaixo da calça ele abriu o Xvideos e procurou um vídeo para se distrair. Pornô no meio do trabalho, ninguém podia falar nada, era a coisa mais comum, isso quando o chefe não pegava as estagiárias.

              Era cinco da tarde, nada tinha sido resolvido. Mas o dinheiro caiu no banco. Fernando foi pra farra. Fechou a sala mais cedo e saiu sem falar nada, o escritório já estava vazio.

             Ele mandou mensagem para Maria, os garotos estavam bem e voltaram pra casa. Cansaço. 

            "Vou tomar aquela cervejinha e meter numa daquelas putas da W3"


              Foi para o Beirute, bebeu umas cinco ou seis long necks  sozinho e às sete e meia foi para a W3 Norte. Na altura da 709 norte, desfilou com o seu Jeep Renegade, dando em cima em qualquer criatura viva que passava. Não tinha pudores, a cidade se transformava em um imenso inferninho na calada da noite.

              Olhou as mulheres sem entusiasmo, ele queria mesmo era sair com as travestis. Cheirou de novo o pó que levava na carteira e bateu no ponto das meninas:

             —  "Quanto pra fazermos um sexo bem gostoso?"

             Ele pechinchou os valores e no final saiu pouco entusiasmado, voltou para casa, bateu na mulher, quebrou os pratos numa discussão e completamente transtornado saiu de novo na noite. O pequeno homem brasileiro no alto de sua arrogância típica da classe média, saiu na calada da noite e virou todas no Fausto e Manuel da 209 norte.  Bêbado, pegou o carro e saiu correndo pela L2 Norte. Estava a 120 por hora quando... VRUM! O carro derrapou numa curva e bateu numa bicicleta e numa árvore. O rastro dos pneus queimados se arrastaram pela pista.
           
             Josias tinha acabado de fazer 18 anos e tinha entrado no vestibular da UnB. Ele tinha sido prensado pelo para-choque do carro, e quando a lanterna começou a se apagar, ele faleceu. Uma morte estúpida, no meio do meio fio e do jardim central. Começou a chover na capital.

             Os bombeiros demoraram para chegar no local, eram três e meia da madrugada. Fernando estava preso nas ferragens, Maria Eduarda foi acordada e com o rosto ainda machucado pelo soco na boca, ela foi até o hospital. Fernando entrou em coma;


               Não havia céu e inferno para Fernando, mesmo ele sendo fiel da Igreja Universal, o dízimo dele não pagou a cirurgia para recolocar as vértebras. Uma pessoa tão ruim em vida, agora era refém do péssimo atendimento do hospital público, ele ficou por três dias no Hospital de Base até que foi transferido para o Hospital Brasília no Lago Sul. O ciclista não teve essa sorte, a família com muita dificuldade conseguiu enterrá-lo numa cova rasa no Campo da Esperança, ele era um menino que tinha vindo do Nordeste em busca de sonhos e Brasília lhe tirou a vida.

               Foram oito meses em coma, Fernando só foi recobrar a consciência no Natal. A essa altura tinha entrado um novo governo e os cortes começaram a mexer com a sua família. O cidadão que dizia que Dilma deveria ser deposta, agora não tinha dinheiro para pagar o tratamento da fisioterapia, teve que conseguir uma vaga na Rede Sarah. Sem o dinheiro da pensão e com o remanejamento do pessoal, Fernando foi afastado do Ministério do Planejamento quando descobriram uma falha na licitação. Sem dinheiro, sem saúde e sem segurança, ele estava desempregado e aleijado, agora andava de cadeira de rodas e era obrigado ainda a pagar as prestações do carro que ele tinha destruído.

              Maria Eduarda o abandonou e voltou para Curitiba, as crianças foram com ela. E sozinho e amargurado, na sua cadeira de rodas, o pequeno cidadão brasileiro olhou para aquele fim.

             — Eu só quero minha família de volta — disse com dificuldade.

             E sem querer, ele culpou a todos pelo seu destino. "A culpa é da Dilma, do PT, e desses comunistas de merda... Levaram tudo o que eu tinha". Mas o verdadeiro fracasso foi ele não ter conseguido cuidar da sua própria família.

               Ele foi para a Igreja, procurou ajuda com os pastores, prometeram-lhe a cura, cirurgias espirituais e tudo que é sorte de tratamento. Nada adiantou, o apartamento na Asa Norte foi tomado pelo banco. Sem ter para onde ir, ele tentou voltar com Maria Eduarda, não deu certo.  Ela estava agora com outro. Foi quando decidiu que iria pedir ajuda para a primeira esposa, Ana Paula, mãe dos meninos.
                  — Sinto muito, Fernando, não posso ajudar. Você já fez muito mal à minha vida, eu não quero que crie problemas à minha família.

               Queria dizer que Fernando não se abateu, e 2018 estava perto. Foi então que ele aproveitou a oportunidade, sendo ele cadeirante, agora poderia usar isso ao seu favor, vagas de deficiente, preferência de atendimento, cargos políticos. Foi então que ele se candidatou a Deputado Distrital e foi eleito pelo PMDB. Reviravoltas à parte,  o nosso pequeno homem brasileiro se tornou um político da bancada da bala, anti-aborto e a favor das Igrejas.


              Bem, até que... Madrugada de 31 de dezembro  de 2018, um navio comemorava o réveillon no Rio Negro, no Amazonas,  um grupo de empresários paulistas e brasilienses se reuniu com alguns políticos  na Amazônia. No cardápio, tucupi, tacacá, robalo assado e açai. Drogas  e mais drogas, além das bebidas, foram trazidas á embarcação 12 menores de idade, entre meninos e meninas da população ribeirinha. As menores tinham sido aliciadas em Manaus por uma cafetina e iriam receber um valor por duas noites.

                Na pororoca do rio, a embarcação virou e o nosso pequeno homem brasileiro virou com a sua cadeira de rodas no Rio Negro, mas foi resgatado pela tripulação do navio. Ao ser identificado, ficou claro que ele estava fazendo turismo sexual com menores de idade, ele manteve relações com duas meninas e um garoto, mas ao invés de ser detido, usou sua imunidade parlamentar. Não deu em nada.

             O pequeno homem brasileiro é hipócrita, corrupto e ganancioso, comete crimes, abusa e pratica o mal, mas ciente que terminará impune, advoga que sempre estará certo porque ele defende os valores da fé contra a doutrinação marxista e homossexual nas escolas. Fernando Sampaio é um personagem fictício, mas não foge da realidade da metade dos municípios brasileiros. O que parece ficção, parafraseando Garcia Marquez, corresponde a um realismo mágico.

A frivolidade do frio

O frio nos consome
O frio nos rouba
Todo o calor de nossa chama
Todo o tormento da noite

O frio é desprezo

O frio...


É a morte;

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Cem anos da Revolução Russa

          Pensei muito antes de escrever sobre o centenário da Revolução Russa, mas depois de algum tempo olhando para a tela branca do meu computador e eu não ter conseguido avançar no meu novo livro, me fizeram vir aqui escrever sobre o evento mais importante do século XX.Sim, acredito sim que tenha sido o evento mais importante e darei meus motivos.


         A despeito da própria Rússia não fazer questão de uma comemoração do evento, a Revolução de Outubro surgiu nos porões dos navios russos na Batalha de Tsushima, no levante do Encouraçado Potemkin e no levante em Odessa liderado por Afanasy Matyushenko e Grigori Vakuliuchuk, dois ucranianos que a historiografia esquece que foram os primeiros a fazerem um motim inspirados por ideias socialistas.



          Em 1905, a classe laboral petersbuguense saiu nos portões do Palácio de Inverno liderados pelo padre Gapon, que depois revelou-se agente da Okrana, e foi massacrada pelos cossacos. A Rússia é uma matriushka cheia de camadas e nessa sua diacronia histórica entre o passado e o futuro, os russos conviviam ao mesmo tempo com automóveis e arados de madeira.



       No dia 6 de novembro, Lenin e Trotsky faziam discursos no Congresso Pan-Russo, caminhavam pelo Smolny completamente preocupados, fazia exatamente quatro meses que Kornilov tinha tentado derrubar o governo Kerensky e a Guarda Vermelha salvou o governo provisório.



          Kerensky já não governava a Rússia, e a sua política de compromissos tinha dinamitado a popularidade do governo provisório. Além de ter instituído a lei marcial, os militares do front oriental literalmente deixaram Petrogrado desprotegida para os alemães atacarem a cidade e sufocarem os conselhos de trabalhadores.



           Antonov-Oeevsenko em uma pequena sala no Instituto Smolny coordenava as ações para a tomada do Palácio de Inverno enquanto o governo provisório fugia, Kerensky fugiu da cidade escondido numa viatura da embaixada americana e nunca mais voltou à Rússia. Os marinheiros de Krostandt que se amotinaram meses antes tinham sido libertos na calada da noite da Fortaleza de Pedro e Paulo e estavam a caminho da cidade.




           Os regimentos de junkers das escolas militares e do Batalhão da Morte, composto por mulheres, defendiam o Palácio de Inverno e no alto do segundo andar tinha uma metralhadora apontada para o Arco Vermelho, a entrada para o complexo do Hermitage.



        Trotsky fazia discursos fervorosos argumentando com os socialistas-revolucionários e mencheviques a necessidade de depor o governo provisório e passar o poder para os sovietes. Os soldados do Front faziam os seus relatos e os delegados das mais diferentes partes da Rússia ouviam entusiasmados os discursos de Lênin para a expropriação das terras, a paz incondicional e a abolição do regime provisório.



                 E foi durante a noite que Antonov-Oevsenko partiu com os seus homens, que tinham atacado o arsenal da cidade, e formou os pelotões da Guarda Vermelha. Os operários saíram do bairro operário de Vyrborg, do outro lado do rio Neva, e desceram a Nevsky Prospekt até se aglutinarem na frente do Instituto Smolny. Ali registravam-se e recebiam suas armas e bandeiras vermelhas, os fatídicos fusis Mosin Nagant e os revólveres Nagant ficavam nas mãos dos comissários.



          Os caminhões Mercedes-Benz e Fiat saíam lentamente cheios de homens que distribuíam panfletos ao mesmo turno que se juntavam aos blindados leves que decidiram aderir à Revolução.



          Os bondes da cidade estavam parados, os hotéis e cafés ainda funcionavam, as vitrines das lojas e dos cinemas continuavam acesas ao longo da Avenida Nevsky, os teatros apresentavam as suas peças normalmente embora a capital russa estivesse agitada.



          Os blindados seguiam lentamente e os caminhões cheios de milicianos vermelhos com baionetas fixas em seus rifles seguiam ao Palácio de Inverno. Zinoviev gritava : "Neste dia pagamos a nossa dívida para com o proletariado internacional".



               O Aurora estava a postos, os soldados soviéticos tinham cercado o Palácio de inverno mas os seus portões estavam escuros e o Palácio permanecia iluminado. Ali os soldados e marinheiros esperavam enquanto as peças de artilharia se montavam por trás de placas de madeira. Fazia frio e ventava, decidiram fazer uma fogueira enquanto os soldados esperavam.



              Antonov Oeveensko apareceu com o seu chapeu fedora e um revolver nas mãos, tinha os pulsos sujos de tinta, e pontualmente às 22 horas da noite o Encouraçado Aurora ancorado num dos canais da cidade disparou balas de festim. Era o sinal para o ataque. Aquela multidão de entre 200 e 300 homens atacou os portões do palácio sob o disparo dos cadetes junkers e das moças do Batalhão da Morte. O Palácio não precisou ser bombardeado, muitos dos defensores já tinham desertaram e os outros acabaram se entregando com o tempo.


           Com um documento nas mãos, Antonov subiu as escadarias do Palácio e procurou os membros do Tsik, o gabinete do governo provisório, e encontrou os ministros do governo Kerensky bêbados e atônitos, foi quando ele declarou por Ordem do Soviete de Petrogrado e do Congresso Pan-Russo, que o Governo Provisório estava destituído de suas funções.



             Esse foi o passo a passo do dia 7 de novembro de 1917, mas qual foi a importância da Revolução de Outubro para o resto do mundo? Primeiro foi de experimento político, a Rússia soviética foi o primeiro país a nacionalizar todos os meios de produção, abolir a grande propriedade e instituir um regime econômico planificado quando nenhum outro país ousou fazer isso nós pós-Primeira Guerra Mundial, depois, instituiu uma democratização do acesso à educação e à saude, eliminando o analfabetismo com uma campanha de leitura durante toda a década de 20. A psicologia do desenvolvimento infantil e do aprendizado surgiu na União Soviética nas mãos de Lev Vigotsky.


















          A Rússia entrou em Guerra Civil por quase cinco anos, teve que assinar uma paz desonrosa, vivenciou períodos de extrema dificuldade econômica, seca, fome, e ainda a intervenção de quase nove exércitos diferentes. Tudo isso alimentou o ressentimento dos bolcheviques e as desconfianças com as potências ocidentais e o isolamento dos bolcheviques alimentou a sua própria paranoia. Os bolcheviques acabaram tendo problemas com os anarquistas e socialistas-revolucionários, no final das contas consolidaram-se como partido único e instituíram o modelo da ditadura do proletariado.


          Isso não impediu, na verdade alimentou ao florescimento do cinema soviético nas mãos Sergei Eisenstein e Dziga Vertov, que praticamente demonstraram ao mundo que a Academia de Cinema Soviética podia produzir obras magníficas tanto quanto Hollywood.




          Seja como for, a Revolução Russa abriu a discussão sobre os direitos trabalhistas nos países democráticos, levantou o temor de que pudessem ter novas revoluções, combateu o analfabetismo na Rússia, universalizou o ensino e a saúde ao mesmo tempo que instituiu um novo regime econômico diferente do que havia sido tentado na época. Deu direitos isonômicos às mulheres, legalizou o aborto e eliminou as classes sociais. Também pecou pelo excesso, seja na brutalidade estalinista alimentada pela paranoia constante de uma guerra permanente com o Ocidente, seja pela concepção que havia inimigos internos, reais ou imagináveis.

           A jornada laboral na União Soviética chegou a seis horas por dia, sendo cinco para especialistas, tendo férias de três meses dependendo dos casos, licença-maternidade de quase um ano e paternidade de um mês, não havia desemprego na União Soviética e a despeito do déficit habitacional, os soviéticos produziram mais de cinco vezes habitações do que as que foram construídas no período final do czarismo. Os soviéticos mandaram o primeiro homem ao Espaço, o primeiro satélite e a primeira estação espacial.


         Seja como for, na medicina, os soviéticos foram pioneiros na neurociências e em cirurgias de alta complexidade, como as coronárias. 

          No ramo musical e artístico, os soviéticos além de financiarem artistas de renome como Prokofiev e Shostakovich, democratizaram o acesso dos jovens soviéticos aos conservatórios de música, incentivaram a leitura, sendo o povo russo até hoje um dos que mais leem livros no mundo, e grandes escritores como Madestam, Pasternak, Isaac Babel, e o serafim dos poetas, Maiakovsky, floresceram no período soviético.


          A equalização dos direitos dos homens com as mulheres no ocidente foi acelerada pelos soviéticos, que além de darem o mesmo salário e os mesmos direitos laborais e políticos para as mulheres, permitiu o divórcio antes do Reino Unido e os Estados Unidos, o aborto e outras medidas que ainda estão em discussão hoje. 

            Pode-se discordar da ideologia comunista, pode-se falar dos crimes de Stálin ou mesmo que o regime soviético teve inúmeros erros, e teve, mas foi o primeiro regime que realmente pensou de forma diferente desde o início, primeiro na concepção da economia, depois na concepção intelectual e educacional, na concepção social e na concepção de valores. Muitas coisas que temos hoje são fruto da Guerra Fria, são fruto das lutas por direitos sociais iniciadas na Revolução Russa e o regime soviético foi responsável pela derrocada do nazi-fascismo e pela existência de regimes democráticos no ocidente.

            Se hoje podemos falar em direitos humanos foi porque a União Soviética foi membro-fundador da ONU e incrivelmente assinou a Carta-magna, defendeu por muito tempo a abolição do trabalho escravo depois da queda de Stalin e auxiliou na guerra pela descolonização na África e na Ásia. Sim, os soviéticos também erraram, não eram perfeitos e muitas vezes  foram coniventes, seja com as ditaduras na América Latina, seja com alguns movimentos que terminaram piorando a situação de alguns povos na África e no Camboja.

            Mas antes de cuspir nas estátuas de Lenin, destilar o seu ódio contra a foice e o martelo e julgar os comunistas, lembre-se, a existência do seu sinal de Tv e  internet dependeu do satélite lançado em 1957 pelos soviéticos, assim como você ter assegurado o direito de ter saúde pública, educação e direitos a férias e a abono salarial.


Aos que se dedicam a ler, recomendo a leitura dos Dez dias que abalaram o mundo de John Reed, que conta o dia a dia na Rússia nos últimos dez dias que antecederam a Revolução Russa. Assim como recomendo Rumo à Estação Finlândia de Edmond Wilson que dá o início do panorama intelectual da esquerda até a ascensão de Lenin e dos bolcheviques na Rússia.  Assim como recomendo sem dúvida o Ano I da Revolução Russa de Victor Serge e as duas biografias feitas por Simon Montefiore sobre Stálin: Jovem Stálin e a Corte do Czar Vermelho.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...