quarta-feira, 29 de maio de 2013

Planalto das Veredas

      O povo do planalto das veredas[1] é um povo meio estranho, em formas e comportamentos. Ainda é formado por uma gente recente que surgiu nessas passagens não tem mais de cinquenta anos, mas transformaram totalmente essa paisagem.

     Aqui nessas veredas ocultas escondiam-se animais de imensa vergadura como um pequeno mamífero de nariz longo e fino todo peludo, curiosamente chamado pelos habitantes de Trigactyla[2]. Dedica-se ele a comer formigas nesse sertão sem cor na época da estiagem, enquanto outro compadre seu, um lobo simpático de cor meio ruivo-acastanhado chamado de Brachyurus[3] dedica-se a matar pequenos camundongos do mato para sua sobrevivência. Os nativos tomam esses dois como exemplos da fauna dessa parte do mundo, embora ambos estejam próximos da extinção.

    Nessas passagens também, apesar do solo ácido e vermelho, desenvolve-se o dito Pau-mulato[4], um nome feio para uma árvore tão frondosa como essa. Tem ela um tronco todo retorcido que arranha conscientemente o céu com suas flores amarelas que desabrocham um pouco antes da estação das chuvas. Essa árvore de folhas  penta-folíoladas é um simbolo de resistência à estação de estiagem que se prolonga por seis meses nessa parte do interior do continente e colore a grande cidade que o povo das veredas interioranas construiu a partir do nada.

     Disse que o povo das veredas surgiu a pelo menos 50 anos. Pois é verdade, surgiu de muitas tribos, tribos das montanhas da regiões ricas em ferro um pouco mais ao sul, das estepes que se prolongavam pela pradaria, do semi-desértico interior logo mais adiante. Gente de todas as falas e maneiras de pensar.


     O povo do árido semi-deserto foi que construiu tão vistosas habitações de forma matemática ao longo de uma linha tracejada ao qual carinhosamente os habitantes chamavam de Via Axium[5], que se desenvolve ao sul e ao norte de maneira tão prodigiosa que toda a cidade gira em torno desse caminho. Por ali xistosos xiquixás movidos sobre a tração de um eixo firmemente construído em um metal bem trabalhado, percorrem por esses caminhos levando os mais abastados cidadãos para os seus compromissos, embora quase nunca um desses xiquixás andem mais rápido do que a perna de um homem.

     Também existem grandes carroças de metal que levam pessoas de um lado ao outro que sempre estão lotadas, o que traz bastantes infórtuinos na vida cotidiana do povo das veredas. 

     As moradias dessas pessoas se desenrolam em torno da dinâmica dos xiquixás[6], e é comum as famílias terem mais de um, porque todos moram longe de onde trabalham, o que causa grandes transtornos. Boa parte dos que vão trabalhar na cidade central, moram na periferia e tem que atravessar vastas florestas e estradas em precárias condições para conseguirem o seu tão amado plástico pintado.

     Sim plástico pintado[7], o povo das veredas é bastante reverencioso quanto à essa tira de polímero feita de fibra de mandioca que possibilita que um seja mais poderoso que o outro. Outrora cultuava-se uma fibra vegetal cuja inscrição levava uma caricatura de várias criaturas da natureza[8], mas percebeu-se rápido que não era muito prático utilizar a natureza para esses fins, e desenvolveu-se o plástico pintado.

     Com o plástico pintado é mais fácil conseguir as coisas, tendo em vista que nenhum dos habitantes das veredas planta o que próprio consome, mas conseguem tudo a partir da religião, o Deus desse povo anteriormente era três em um, ao mesmo tempo que era um fantasma misericordioso, era também figura paterna nas horas mais difíceis e às vezes fazia o papel de filho  zeloso que nunca fazia travessuras, mas agora o deus deles é um único, tal como o nosso. Pois eles apresentam todo final de semana o plástico pintado no templo mais próximo e conseguem sua cota de milho ou batata, embora apreciem mais feijão.

     Às vezes os templos concorrem entre si, e dessa concorrência alguns tentam atrair fiéis dizendo que o seu milho era melhor, e que o deus comum a todos tinha abençoado mais tal congregação que outra com uma safra mais virtuosa.

    Contudo, como eu disse, para os habitantes das veredas conseguirem usar o plástico pintado, precisam exercer uma atividade normalmente tediosa e exaustiva. Assim seguem para os seus ofícios longe de casa. A maior parte das pessoas trabalham pintando fibras vegetais dentro de grandes castelos de pedra na parte central da cidade, castelos bonitos, em formas retangulares ou mesmo circulares que de tão grandes tentam tocar o céu. A visão destes é muito fechada, tudo o que mais desejam os jovens é preencher tais ocupações tediosas, para isso se submetem a rigorosas provas da comunidade para conseguirem o status de guerreiros pensativos da comunidade, e aquele que se mostrar mais valoroso recebe uma excelente cota para o resto da vida, alguns nem mais se dedicam a trabalhar.

    Os que verdadeiramente trabalham, os agricultores e tecelões são excluídos da sociedade e deixados de lado e fazem de tudo para conseguirem um pouco desse plástico pintado para terem um pouco de respeito na sociedade, assim vendem milho e roupas bem finas feitas de índigo e uma fibra vegetal qualquer, coisa que o povo das veredas há muito aprecia.

    O povo das veredas se esconde em falsos pudores, os homens são sempre arrogantes e acham-se caçadores natos, mas não conseguem viver sem as mulheres, que por sua vez se interessam mais do que pelo corpo ou pela astúcia de um dos seus pretendentes, mas sim a capacidade dele em lhe dar roupas bem trabalhadas e uma bela morada, as mulheres são tão chatas com isso que não deixam nenhum homem se aproximar delas, arrogantes como elas, brincam com os sentimentos do homem como gatinhos com novelos de lã, e é comum terem vários parceiros por semana, mas no fim reclamam por nunca encontrarem o parceiro ideal.

    Já o homem normalmente diz não se importar com isso, e procura ficar com várias mulheres ao mesmo tempo, se interessando apenas por suas formas, e à arte dos prazeres. Trancam-se em quartos escuros, e sobre esteiras sobre o chão, no meio da noite, emitem ruídos grosseiros com sua parceira; mal visto é o homem que não faz a sua parceira emitir tais sons da maneira apropriada.

   Entretanto, não é permitido nem aos homens nem às mulheres falarem publicamente disso, nem demonstrarem abertamente qualquer prazer na vida particular, embora os homens normalmente jactam-se disso, mesmo terem a dificuldade de conseguirem parceiras.


   O povo das veredas dedica-se aos seus ofícios  praticamente todos os dias, exceto em dois na semana, que são dados por sagrados (embora nenhum deles se lembre o porquê): Um é o dia da criação do mundo, outro é o dia do descanso divino. Como eu disse, anteriormente o deus desse povo era um que conjugava três, tal como nos povos da Índia, volta e meia alguns têm recaída, mas o verdadeiro deus é o provedor dos plásticos pintados; Ninguém sabe porém que esse deus se alimenta através da exploração dos ofícios do povo das veredas, mas se soubessem, ninguém iria se importar também.

    Essa cidade que se desenvolve em torno de um lago feito pelas mãos de sua própria gente, no meio do mais árido interior, sobrevive milagrosamente apesar da frieza e falsidade do seu povo, além de toda a matemacidade na qual ela se desenvolve no desenho de uma ave  no meio de um plano cartesiano. O povo que vive ali acha normal as ruas não terem nomes, ficar parado horas inteiras ao pé dos prédios sem nada para fazer e que alguns roubem descaradamente os plásticos pintados uns dos outros. Na verdade se divertem com isso, que povo estranho esse. Mais estranho ainda é o fato de pertencer a ele.




[1] Também comumente chamados de Brasilienses.
[2] Conhece-se também por Tamanduá-Bandeira
[3] Lobo-Guará
[4] Nome coloquial do Ipê-Amarelo
[5] Via Eixo
[6] Refere-se aos carros
[7] Cartão de crádito
[8] Notas do Real

sábado, 25 de maio de 2013

Recordações

      Imagens passam por minha mente tão taciturna de olhares, meus olhos oblíquos enchem-se nas pálpebras enquanto tudo em volta parece girar. A noite se tornou cada vez mais fria, hoje parecia ser um dia tão bom, mas acabou levando o meu chão;

     Imagens correm na minha cabeça, de um filme antigo, uma película já gasta pelo tempo, de uma tarde ensolarada dessas, há dez anos atrás, quando eu ainda era uma criança capeta, e me escondia nos fundos do quintal da casa do meu avô. Meu avô pensou que eu estivesse escapulido pelo portão, e me procurou por todos os cantos até me encontrar dentro de uma caixa d'água vazia.

    "É hora de almoçar, meu neto".

    Nem sequer brigou comigo, sorriu por  baixo do bigode, por onde a pele tão sofrida marcava-se de rugas. Meu avô era um típico homem do Norte, à essa época, era forte e tinha um ar severo. Ostentava um cabelo ralo, embora ainda negro, na cabeça e uma barba ligeiramente grisalha que o fazia parecer o Mazaroppi, na verdade, sempre achei que ele gostasse de ver os filmes dele.

     Tinha algo de especial em meu avô, a forma como ele se vestia, conforme a sua simplicidade, camisa cáqui e calça justa, e um chapéu Ramenzoni de feltro. Muito do meu estilo copiei dele, à bem da verdade.

    Meu avô era corajoso, contava-me histórias das quais eu não acreditava, dos tempos em que ele saíra do Recife, onde nascera e foi cuidar das fazendas de cana-de-açúcar no interior. O salário era de miséria, mas rendeu boas histórias. De como uma noite ele enfrentou uma fera com uma espirgarda nas mãos, e outra em que ele se esqueceu de dar o tabaco ao Saci-Pererê e ele aprontou mais uma diabrura no estábulo.

    Meu avô também contava de como Lampião tinha sido tão sanguinário no interior, que matara um padre, e deixara todos receosos dos cangaceiros, felizmente quando ele já estava em idade de trabalhar, o Cangaço já tinha acabado, mas ainda sim ele temia os coronéis.

    Contou-me uma vez de seu pai, que não tive a chance de conhecer, mas soube que ele era um sapateiro ou um profissional liberal de menor importância, contou-me como ele andava elegante pelas ruas do Recife, de colete, e chapéu, sempre levando um relógio de bolso nas mãos. Um belo relógio inglês que infelizmente não ficou com ele, mesmo sendo o filho mais velho.

   Meu avô adorava o pai dele, e acredito que se ele o adorava, então este deveria ser um homem valoroso, mas ele amava mesmo era a sua mãe, uma moça bonita da classe média recifense, refinada que só. Usava chapéu fechadinho e luvas de seda, mas teve que enfrentar o ofício de mãe e dona de casa, foi ela que educou o meu avô e o irmão dele, Tio José (como minha mãe o chamava).

   Tio José viajou para São Paulo tentar a vida e teve boa sorte trabalhando nas metalúrgicas, isso deve ter sido na década de 50, enquanto o meu avô trabalhava nos engenhos de açúcar até que ouviu o chamado do homem:

   "Convido a todos os interessados em construir uma nova nação tão forte e tão vigorosa, a virem ajudar a construir a nova Capital. Capital essa sonho de todos os Brasileiros". Era JK.

    Meu avô pegou o primeiro caminhão pau-de-arara e cortou as veredas do interior rumo ao pedaço de nada e terra que era Brasília. Trabalhou duro nas obras nos Ministérios, e se tornou um excelente operário, foi em Brasília, na vila do IAPI morar.

    Inicialmente dormiu no chão de terra batida, até que o pessoal da Novacap, liderada então pelo Israel Pinheiro mandou providenciar tendas de lona para que os operários da Capital não morressem com o frio cadavérico que fazia na época (meu avô dizia que nunca tinha sentido tanto frio quanto no dia que chegou à Brasília).

    Brasília era um esforço grandioso de uma nova cidade para uma nova humanidade. Era isso que se queria, apagar o horror que a Europa assistiu com a Segunda Guerra Mundial e viver para o futuro, um futuro em que o homem estava prestes a chegar ao Espaço. Meu avô não sabia de todas essas coisas, ele era analfabeto à época e só foi aprender com os operários na escola improvisada pela Novacap.

     Brasília em fevereiro de 1960 estava ainda só no mais puro esqueleto, ninguém acreditava que a cidade estaria pronta no dia 21 de abril de 1960, só JK, que apesar de ser corrupto, acreditou na cidade, bem como confiou sua carreira política. Presidente Bossa-Nova, JK veio pro meio do Goiás pra construir uma cidade como essa, e mandou o Niemeyer desenhar algo que combinasse com esse céu, que tal bem representa a vastidão do Planalto Central. Brasília, porque és tu, és Brasília.

    Não sei se meu avô chegou a conhecer JK em pessoa, acredito que sim, JK inspecionava as obras pessoalmente, e o meu avô trabalhava na construção dos Ministérios, esses tão grandes que eu passo por eles todos os dias. Ali está a marca do meu avô.

    Brasília é algo especial para ele, foi aqui que ele conseguiu um emprego (que pagava mais do que ele ser uma espécie de cowboy do interior do Sertão), e foi aqui que ele conheceu a minha avô, de traços tão lusitanos, bonita e meio bobinha. Sua família de portugueses estava vindo lá de Minas, e ela tão sorridente, de olhos tão azuis como os poços de água do Goiás e cabelos tão negros quanto a noite fria da Capital, aparentemente conquistaram o meu avô.

    Meu avô pediu a mão de minha avó à mãe desta, velha Celina (como chamava minha mãe), uma senhora tão bem anárquica que traiu o próprio técnico de rádio João, da cidadezinha de Uberlândia, com um artista qualquer, mas no fundo ela era megera. Celina era uns dez anos mais velha que meu avô e foi ela que arrastou a corda para o rapaz tão bem aparentado quanto ele (Meu avô era um tipo meio magricelo e formal, um tanto parecido comigo parando pra pensar, tirando o bigodinho de Mazzaroppi e o olhar perdido, além da brilhantina para deixar o cabelo impecável para traz).

    Meu avô comprou uma briga, disse que não queria ficar com a minha bisavó e sim com Edna, aquela que fazia ele pensar todas as noites. Um amigo dele disse que ele estava comprando briga, mas ele nem ouviu. Casou-se com Edna na capelinha improvisada (uma tenda no meio do terreno de terra batida) e teve com ela uma penca de filhos, entre estes, minha mãe.

    Minha mãe nasceu em 74, anos bastante difíceis, principalmente porque o meu avô a despeito de ser um excelente operário não quis ficar na Novacap e procurou trabalhar no comércio, onde dava mais dinheiro. Trabalhou na Ótica Veiga, que ainda acho que existe,  cujo o dono, senhor Veiga era um homem justo e educado, até hoje o meu avô conta histórias de como ele gostava do senhor Veiga.

    As coisas não eram fáceis, embora trabalhando na ótica, e tendo um salário razoável, meu avô tinha problemas para sustentar os oito filhos que o casal possuía numa pequena casa no subúrbio/favela da Capital, a vila IAPI acabou se deslocando para uma localidade que viria a ser chamada de maneira totalmente horrível, de Ceilândia.

    Mas acredito que o meu avô e minha avó eram pessoas felizes, embora meu avô fosse dado à bebida e ao cigarro, e tenha sido um tirano por um bom tempo, depois ele se tornou um homem macio e fino trato que eu conheci. Ele já chegou a ser tapeado várias vezes por pessoas mal-intencionadas, chegando a dormir num terminal de ônibus sem que tivesse um cruzeiro na carteira. Eram tempos difíceis.

    Quando houve a hiperinflação, minha mãe conta, que chegou a faltar comida em casa, minha avô teve que trabalhar de costureira e doméstica para pagar as contas, senhor Veiga às vezes atrasava os pagamentos (meu avô nunca acreditou que fosse uma coisa que ele quisesse), e meus tios, bem como a minha mãe, tiveram que catar laranjas para sobreviver.

     Os anos passaram, as condições dos meus avós não melhoram muito, e minha mãe foi ter que trabalhar. Trabalhar na mesma ótica que o meu avô trabalhava, onde por um acaso do destino, meu pai estava a comprar um óculos de Sol para enfrentar o calor nada abransível que fazia em Brasília. Imagino que os dois tenham se conhecido ali.

    Conta o meu pai que ao ver as condições de vida na casa dos meus avós, ele se apiedou com tudo, principalmente com as condições paupérrimas e pelos surtos que o meu tio Maurício, que era dado à bebida e outras drogas "recreativas", fazia em casa. Assim, ele levou  a minha mãe a morar junto com ele, isso foi no início dos anos 90. Foi nessa época que eles se casaram, contra o desejo do meu avô (ele não aprovava o casamento dos dois por acreditar que o meu pai, um homem também dado à bebida, iria cuidar bem da minha mãe), e logo depois eu nasci.


    Meu pai não era à essa época um homem muito agradável, pelo menos pelo que eu me lembre, de toda a minha infância, eu só lembro de ele ter brincado comigo uma vez, mas lembro várias vezes ele chegando em casa bêbado, batendo em mim e em minha mãe. Meu avô ficava indignado com isso, mas não podia fazer muita coisa (ainda não havia meios de denunciar tais coisas, e ele era muito velho para manejar a sua peixeira de novo). Por isso, ele cuidava de mim quando a minha mãe ia dormir em sua casa (com medo de meu pai), e cuidou de mim como um filho, por isso que tenho tanta estima por ele.

    Meu avô era um homem decente e justo, sempre me ensinou que era melhor ser justo e pobre do que rico e errado. Sim, ele era homem de valores e tinha boas histórias para me contar, não tinha estudado muito (antes de vir para Brasília e acabar de ser alfabetizado, meu avô tinha estudado numa escola financiada por padres, que valia a lei do castigo físico, embora ele reclamasse mais das lições de latim e de canto).

   Meu pai com o tempo se tornou alguém mais respeitável, largou a bebida e conseguiu um bom trabalho, de maneira que crescemos de vida. Comecei a estudar em bons colégios, e o meu pai dizia que queria um filho juiz (não conseguiu), meu avô sempre frisava que era melhor estudar se eu quisesse ser alguém na vida, e estudei, estudei por ele, estudei por causa do meu avô, para ajudar pessoas tão boas quanto ele foi.

   Me afastei do meu avô, ficou difícil conversar com ele do jeito que conversávamos antes, mas eu nunca esqueci do meu avô. Do modo como ele me ensinou a ser íntegro e justo, do modo como ele sorriu para mim ao descobri que eu estava na caixa d'água escondido:

   "É hora de almoçar, meu neto".

  Não, vô, é hora de chorar. Chorar simplesmente. Obrigado por ter sido bom comigo.

sábado, 18 de maio de 2013

Uma mancha na minha camisa (conto)

       Um borrão se desenvolve na minha camisa... Um borrão bastante incômodo,  uma sujeira inconveniente na minha camisa favorita, logo essa camisa?  Não lembro de onde pode ter surgido esse borrão. De onde será que veio?

      Não foi de café, porque a mancha não é marrom e não cheira tão bem quanto o tradicional café paulista. Também não é tinta, porque dessa vez não estava levando uma caneta, mas é um borrão deveras incômodo. Não é marca de ferro, porque sequer teria coragem de queimar essa camisa.

       Mas é estranho, essa camisa continua estranha. Deixe-me ver porque está desse jeito. Eu a vesti quando estava prestes a sair de casa, logo depois de vestir minhas calças, e antes de calçar as minhas meias e o meu calçado. Até essa altura você estava limpa.

       Peguei o comboio no caminho e fiquei em pé, troquei conversas  com o cobrador sobre futebol e ri um bocado de como tudo é tão irritante. Mais um engarrafamento, o sol estava pregando no meu rosto, mas nem por isso suei.

       Cheguei aqui e tomei um pouco de café, sentei-me de lado e li um pouco do jornal. Não tinha nada de interessante e deixei de lado, mas isso não explica o porquê dessa camisa estar meio manchada. Pode ser meio metrossexual de minha parte, mas eu gosto muito dessa camisa, ela me lembra do modo como a comprei.

       ...
          Comprei essa camisa numa loja, uma pequena alfaiataria no centro. Era uma loja para artigos de trabalho, onde só vendia roupas masculinas. Eu estava meio cansado nesse dia, e o céu não estava muito convidativo, entrei na loja e perguntei:

         — Olá, eu gostaria de ver os artigos para camisas.

          O atendente era um senhor de idade, muito amigável é verdade, tinha os cabelos brancos pelo o tempo e os olhos meio apertados, era pelo menos dois palmos mais baixo do que eu e tinha um sorriso discreto nos lábios.
  
           — Desculpe, eu não o entendi — Sorriu-se meio envergonhado.

           — Camisas. Eu gostaria de ver algumas.
  
           — Certamente que sim. Que tamanho é o seu, meu jovem.

            — 3.

            — 3!? Parece mais dois. Deixe-me ver — Fitou-me a gola da camisa — Tem razão, é três. Venha, eu tenho umas camisas que o senhor vai gostar.

             Segui o senhor até o dispensário, onde estavam expostas as camisas, algumas bem elegantes por sinal. 

           — Essa é a melhor da nossa loja. Ela é feita de algodão egípcio, fio 80. Não há melhor do que essa, custa cem reais.

           — Cem reais? É muito bonita, mas ela não é um pouco cara. Eu queria algo mais simples.

           — Mas, meu caro rapaz. Com essa camisa não haverá inferno que acontecerá contigo, ela é linda de queimar os olhos, qualquer mulher que se preze iria correr atrás desse colarinho.

            Obriguei-me a sorrir, decerto era mentira de vendedor, mas não me entreguei fácil.

            — E aquela ali?

            — Aquela ali não presta ao senhor. É de fio comum, desfia rápido demais, confia em mim.

           — Pois sabe, essa camisa que o senhor traz não me agrada muito.

           — Temos várias, veja essa.

           Mostrou-me uma camisa rosa com listras brancas, eu realmente dispensei na hora. Era ridícula  sem falar que não combinaria com nenhum paletó ou calça. Mostrou-me uma azul escura que era bonita, mas sóbria demais. Até que por fim me apresentou essa, branca, com linhas azuis. Achei bonita, desde cara. E perguntei:

          — Quanto é essa?

          — Cem reais.

          — Cem mesmo?

          — Sim, mas ela se paga. Pode apostar.

           Fitei-a com um pouco mais de carinho e disse:

          — Pois vou apostar, eu vou levá-la.

          O velho vendedor sorriu-se com aquilo e disse que era uma boa compra. E era mesmo, mas aquela seria a última camisa que eu pagaria aquela quantia. Logo depois de ter pago a compra, ele apertou a minha mão e entregou a sacola:

         — Cuidado, vem uma chuva braba por aí.

         E veio, as nuvens eram tão traiçoeiras que se combinaram com os ventos para esboçar um torrão de água sobre todos os desavisados naquele viaduto. Cheguei todo ensopado em casa, mas a camisa estava incólume.

...

        Usei-a em apenas três ocasiões. Uma foi num casamento, outra foi no serviço e a terceira foi agora. Ela era a mais adorada de minhas camisas e eu tinha total respeito por sua singularidade, tratava de lavá-la a mão e respeitando o sentido do fio.

        E isso traz-me a questão inicial, o que vem a ser essa mancha na minha camisa.

        Eu olhei para o céu, encontrei um avião cortando as nuvens tão devagar e tudo o que sabia era que aquilo era só um mecanismo que voava mesmo sendo mais pesado que o ar. Não me importei se o chão estava molhado, e encharcava o meu sapato.  Os regadores irrigavam o jardim.

        Andei mais um pouco pela calçada, cumprimentei um ou dois amigos pela multidão. Enfrentei a turba de pessoas que seguia contra a minha direção e pensei que tudo tinha acabado. Mas isso não responde nada. Logo depois fui para debaixo de uma árvore para cochilar, mas quando acordei nada me aconteceu: Não caiu uma maça na minha cabeça, tal como foi com Newton (até porque nem era uma macieira, era uma mangueira) e a minha camisa continuava limpa.

       Logo depois fui almoçar: Era espaguete ao molho surgo, mas a despeito da minha habilidade de sujar a minha roupa comendo macarronadas, dessa vez ela saiu incólume. Pensei em desaparecer um pouco, utilizar-me de uma sombra para escrever uma coisa, quando ela apareceu.

      Sim, ela. Não sei você, mas acho ela bem bonita.

      Tem ela olhos castanhos e um olhar meigo que conquista qualquer desavisado, seus cabelos escuros e o toque delicado de sua pele é tão sedutor como sua voz. Estava de batom vermelho que estava para arrasar qualquer um, e uma colar de coração prateado logo acima de sua camisa preta cheia de bordados. Aquela sim estava para seduzir.

        Sorriu pra mim e lembrou-se do meu nome, eu tive que cumprimentá-la também, quando saiu. Fiquei parado olhando o modo como andava, de maneira tão elegante e tão simples que era até agradável. Depois de dois minutos, me resignei, fiquei constrangido enquanto um casal sorria do modo como tinha agido e desci as escadarias de cabeça baixa.

        E isso me leva a esse problema. Como é que essa camisa estava manchada? Na ocasião está limpa, mas agora.

        Espere, e esse copo na minha mão? Está meio vazio não está... Eu tinha comprado um pouco de suco quando estava vindo para cá e vinha tomando. Vinha tomando até que... Não acredito, foi isso então. Minha camisa se manchou por causa disso! Isso é trágico-cômico agora, parando para pensar. Minha camisa favorita suja pela minha própria distração. Não acredito.

       Se pelo menos fosse  um pouco de café, deixaria minha camisa um pouco acordada, se fosse a macarronada, ela estaria bem alimentada. Se fosse a tinta, ela estaria prestes a escrever uma poesia, mas eu deixei cair um pouco de suco de uva... Isso é imperdoável. 

        Poderia ter sido pelo menos uma marca de batom. Não seria pedir demais, seria? Uma pequena sujeirinha vermelha junto ao colarinho, de uns lábios tão sorridentes de uma certa moça tão sedutora, de corrente em forma de coração e dada à poesia. Brincadeira, tais coisas não são fadadas a pessoas tão distraídas  como eu. Tenho que descobrir como limpar essa camisa sem que fique marcada para sempre, assim como minha vergonha desse fato não traga mais memórias futuras.

A versão de ode ao amor

        Disseram-me uma vez nos sonhos que as vidas não valem mares de rosas da Holanda, nem tampouco  mares de Vinho de Bordeaux, tampouco o azeite de Portugal e o chocolate da  Bélgica. Disseram-me que vidas não custam uma cashmere da Índia ou um pouco de prata da Bolívia, que não valem nem mesmo um sapato feito na Itália. Nada disso vale uma vida.;

       Disseram-me outra vez  que todas as nossas tristezas crescem-se apenas no terreno bastardo da compleição de ditos filosóficos, que as rosas murcham quando se está amando e o vinho se envinagra quando você canta com o coração.

       Alguém me disse numa tarde que não vale limpar grandes feridas com água, pois tudo só são lágrimas de Portugal, de Viseu à Castela, Agamenon de nações não trará respostas no meu caminho; Devo dizer que o destino zomba de nós mais do que nós nos zombamos dele, não nos dá nada e nos promete tudo, e isso aparentemente é gostoso, libera a endorfina que nos anestesia enquanto deveríamos estar carregados de adrenalina na tensão das coisas. Assim  surge esse vício em esperanças. Esperanças de retornos, de novos caminhos de novos dialetos.

       Ouvi dizer que nas noites em que o vento fareja o meu rosto e beija meus cabelos, quando eu estou sozinho, sem muito a fazer, alguém sussurra no meu ouvido como se estivesse com frio ou quisesse me ver por perto, mas quando essa voz monodística sorrio de tudo e ponho-me a andar novamente, nesse meirinho tarde da noite, sem ter um pouco de cor no rosto, apenas um sorriso amarelo nos meus lábios.


       O vento torna-se mais agressivo, a lua mais lasciva e a noite se revela uma traidora disfarçada, instável como sempre, agride-me e torna tudo cada vez mais difícil; Disfarça-se de meiga e suave quando o sol está prestes a desaparecer, mas encarna uma fúria que desgrenha meus cabelos, provoca-me arrepios e tenta tomar-me as palavras.

       Esses prazeres que se desenha a noite só enchem de promessas mentes vazias, e numa emboscada tenta envolver um coração em chamas; Como aquela moça beijada pelo fogo, sortuda e aconchegantemente ruiva que sorriu para você no trem... Aquele trem. Você se lembra?

      Pena isso não ser para mim, a noite é maliciosa e não combina com o meu sapato, embora não goste muito do dia: O sol tão arrogante ofusca o meu brilho. Mas essa coisa que chamam de amor é muito perigosa, tenho medo agora, tal como tenho medo do vento que desarruma os meus cabelos e brinca com o meu paletó.

      Prefiro o gosto da chuva que beija o meu rosto, que molha tão delicadamente os fios do meu cabelo e me reconforta com sua delicadeza. Sinto falta de você, minha doce amiga, você que garoava por sobre as árvores e me reconfortava depois de um dia difícil, que me ajudava a dormir quanto tintilava no telhado da minha casa e me engolia minhas lágrimas quando chorava na rua.

    Prefiro o gosto de suas águas, um gosto estranho é verdade, meio amargo; Quase como fosse um choro, mas um choro que nos enchia de vida, as rosas e o meu sorriso, seu toque era tão suave quanto os das mais lindas bacantes e prefiro de tempos em tempos arrumar o meu colarinho enquanto eu esqueço tudo isso: as promessas vazias, as palavras arrepiantes e o meu medo do vento. Mas não esqueço daquela ruiva, quem será que ela era? Devia ter puxado conversa.

     Entro no meu quarto, dispo-me de minha cashmere, salto na minha cama e esqueço tudo isso, nada mais de esperanças, nada mais de desilusões. Sinto falta de você, chuva, mas incrivelmente estou pensando em outra, estranho não. Aquela menina no metrô. O destino é mesmo algo muito estranho...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não tive tempo de dar um título decente (perdoem-me)

       Perguntaram-me ontem o porquê de estar tão pensativo e filosófico esses dias, não tinha pensado nada a esse respeito e sequer pude esboçar uma reação, sorri de forma meio desconcertada, mas me mantive calado. Eu estava a olhar o modo como a lua se projetava no céu tão bem pontilhado por estrelas quanto os mais completos quebra-cabeças que consomem nossas vidas.

       Faz sentido nenhum pensar em quebra-cabeças agora, é verdade; Mas eu queria pensar em algo diferente pelo menos uma vez, aquela lua tão pálida e solitária me confundia cada vez mais com a curva que as estradas da vida, tão esburacadas, me levam a esse destino sem rumo. Tropecei várias vezes e caí sonoramente no asfalto enquanto me deixava seduzir pelo brilho de uma lata no meio da rodovia.

       Não quero ser entendido no sentido literal, mas prefiro morrer novamente a pensar em você novamente; Não quero lembrar o modo como brincava nas folhas secas ou falava de forma desinibida, você só me traz dores de cabeça. E como estão fortes nos últimos tempos! Tive crises de dor de cabeça tão fortes tão grandes que tudo o que desejava era um revólver para romper meus miolos.

      Vocês não sabem como é sentir uma grande enxaqueca, nunca presenciaram uma dor tão constante e tão aguda que desejariam morrer a senti-la de novo. É isso que penso sobre você, a bem da verdade, sedutora em sua própria simplicidade e problemática em sua própria causalidade.

      Não fui leviano em nenhum momento, tampouco mentiroso, mas a espada do Destino a que minha vida está atrelada tornou-me um refugo de minha própria existência. É verdade que os meus últimos contos são uma tentativa de escapar de você, um última coluna nesse bastião de aço que esgana os mais coléricos.

      Sim, não preciso lembrar minhas dores de cabeça, mas eu lembro. Assim como eu lembro que estou ficando surdo, o que de fato não é uma coisa ruim, ouço menos do que antes, e não preciso mais ouvir a sua voz que outrora ecoava até o meu coração. Triste pensar que um dia eu te amei, mas na verdade não sei mais como eu te amei, se agi certo ou errado, ou se fui um Fausto à caminho da perdição ou um Daniel rumo à salvação. Prefiro pensar que não fui nenhum dos dois, mas ambos.

    O labirinto do Fauno adentra de novo em minha mente, Pan toca uma pequena sinfonia no fundo, tentado inutilmente vencer o grande Apolo nessa competição infeliz. Uma voz cacofônica surge no meu interior e irrompe do meu peito, uma canção melindrosa que se deseja sobre as minhas pupilas e me obriga a ver tudo mais colorido enquanto eu me sinto muito sombrio.


     Lavouras da vida me fazem querer beber tequila; Cabral sem querer descobriu o Brasil, e você sem querer quebrou meu coração. Bem da verdade, a culpa não deve ser colocada. Fausto foi o único culpado por ser tão arrogante, a arrogância da busca pelo conhecimento acaba derrubando os mais sábios dos homens.

     Não te conheço e não te entendo, busquei entendê-la, mas desisti no meio do caminho; E o cataclismo filosófico não é tão conclusivo quanto o que um dia senti por você, infelizmente ou não. Deveras complicado é pontuar que nessa cidadela de muitas portas e muitos caminhos eu tive momentos que me senti perdido, mas não quis mostrar isso e hoje não estou mais tanto;

    Desenrolam-se olhares curiosos por sobre minha pessoa, olhares tão maliciosos que me fazem tremer até os ossos; Olhares tão lascivos que tamanho soslaio corta-me as vistas e agride meu próprio coração, não é ela tão delicada quanto você foi, dedicada, ou meiga. A bem da verdade, nem chega perto, nem brinca nas folhas secas, sorri de coisas idiotas de uma maneira deliciosa e nem me faz me apaixonar todos os dias tal como você fez, é verdade que ela fuma que nem um cão; Parece até uma chaminé de fábrica de tantos cigarros tragados;

     Ela nem de perto me lembra você, mas ainda assim tenta me seduzir com os seus olhos cor de espinafre que nem de perto são tão sinceros quanto os seus, são olhos de cigana tais como os de Capitu; Já leu Dom Casmurro, nunca te perguntei coisas desse tipo: Eu odiei Dom Casmurro.

      O amor é elástico ao mesmo tempo que estático; Não curto mais me apaixonar de novo e dispenso logo esses olhares tão maliciosos, levanto-me e me afasto de tais coisas, assim como hoje me afasto de você. E isso leva-nos um grande dilema, eu te amei e deixei a corda de meu violino quebrar, me afastei e deixei nossa amizade se acabar.

      Sonoramente é engraçado pensar nas idiotices que somos fadados a cometer, de verdade, e ao mesmo tempo como tudo tende a ser trágico; Chaplin mesmo dizia: "A vida vista de longe é uma comédia, vista de perto é uma tragédia". Penso que talvez ele pudesse estar certo.

     Interlocutores à parte se escusaram de se inteirarem em tal conversa, tendo em vista que minha história não é nada especial, apenas é uma em várias: De um derrotado que tentou vencer a vida mais uma vez e perdeu de novo. Os ombros se encurtam, os sons que ouço já não são os mesmos, assim como os amigos, embora toda a ruptura tenha continuidades; continuidades tão disparadamente melindrosas que latejam todos os dias a minha cabeça quando me surge o seu nome no alto de uma conversa.

domingo, 12 de maio de 2013

Pequena crítica ao pós-modernismo e ao cientifismo

      Uma cortina de fumaça projeta-se nas linhas da memória quando conjecturamos as areias do passado, barroquismo à parte, a cientificidade dessa hecatombe filosófica frusta qualquer forma de pensamento matemático-cientificista, pois nas vias do conhecimento humano, não há nada mais frustrante do que pensar em pós-modernismos.

       Nada tem sentido é verdade, mas nós que lhes conferimos essa tarefa. Damos sentido a tudo que vemos na vida, damos sentido às moléstias que nos deixam fracos, damos sentido aos amores que deixamos no passado, damos sentido ao fato de irmos ao banco no fim de semana. Tudo isso damos um sentido.

       O sentido matemático das coisas que é a coisa mais seca de se fazer, estipular que o amor em linhas gerais se dá por uma reação carregada de doses de endorfina é desconsiderar a psicologia da afinidade e mais do que isso, é desconsiderar o lirismo que se projeta em torno do amor. Amor é uma mácula na armadura de um cientista, mas mesmo assim se ama o trabalho científico.

      A barriga embrulha-me quando penso que as pessoas tinham a tendência de explicar a complicada vida por míseras fórmulas: E= mc², onde a energia de uma revolução se dava pelo produto do descontentamento da massa pelo quadrado de sua fome por reconhecimento. Isso é simplificar muito as coisas, Einstein nos mostrou que as coisas não eram tão simples quanto pensávamos e mesmo assim continuamos com a tendência de simplificar tudo.

       A vida é complicada e não deve ser simplificada, um mísera dor nas costas não é só uma dor nas costas, uma simples corda de violino não é só uma corda de violino e é por isso que temos que pensar além do ABC e do 1+3, devemos refletir a dinâmica das coisas e ver a lógica com que se operam todas as relações humanas, de como nos organizamos até de que porque se construiu que um 1+2=3. A matemática não é perfeita, tal como a vida e a única cresça que devemos ter é que o futuro está fadado a ser melhor que o presente, embora o futuro imediato não seja promissor.

      Perdoem-me o barroquismo cientificistas, mas lembrem-se enquanto eu filosofo você trabalham com um número imaginário que elevado ao quadrado é igual à -1. E perdoem-me pós-modernos mas prefiro pensar em dar uma lógica às coisas.

As aventuras de Jack Ringo no Oeste (IV)

   Jack voltou na hora do almoço, à essa hora encontrou  a farmácia fechada e estranhamente vazia. Sabia que o tal farmacêutico não queria que fossem vistos, mas o local parecia estranhamente deserto. Tentou pois abrir a porta e viu que estava fechada por dentro, pensou que Harding tinha se esquecido do compromisso e então olhando para a janela, gritou:

    — Simon...

    Mas não viu nenhum momento, saltou para a janela e vislumbrou com olhos cansados o interior da farmácia, mas não encontrou nenhum sinal de Harding junto ao balcão, nem mesmo parecia estar nos fundos, quando olhou com mais atenção o chão, viu que algo incomum se projetava no tapete de urso. Uma carcaça estava imóvel no chão, e a julgar pelo pouco tamanho do corpo, um metro e sessenta talvez e as roupas escuras, provavelmente era o o pequeno farmacêutico.

     Arrombou a porta com um chute e entrou correndo na farmácia, alguns curiosos olharam aquilo meio incrédulos e uma mulher chamou o xerife:

     — Olhe! Ele invadiu a farmácia do senhor Harding — Apontou.

     — Quem? — Perguntou Maldonado.

      — Um homem de casaco marrom.

                                                              ...

       — Harding...
       — Agente Leya — tossiu.
       — Quem fez isso com você?
     
       Harding tossiu um pouco mais de sangue, tinha uma aparência meio cadavérica o homem antes mesmo de levar uma estocada nas costelas: Perdera tanto sangue que nada Ringo poderia fazer, ele sabia que o homem iria morrer. Esboçou pois de baixo do bigode um movimento com a boca:

      — Mal...do...naldo. Foi ele que fez isso, ele sabe da nossa operação. Eu tentei avisá-lo, mas ele chegou antes. Maldonaldo serve aos conspiradores, o fazendeiro MacDonald e ao banqueiro Ford, eles querem acabar com tudo... Leya, fuja, eles já devem estar vindo.

       — Não sem você — "Isso foi idiotice  ele não vai ir a nenhum lugar" .
 
       — Não, eu  já sou velho mesmo. Vá, antes que eles o peguem.

        E morreu em seus braços.

        Quando se levantou, encontrou Maldonado junto à porta junto com dois de seus guardas. Maldonado o encarou com cara de poucos amigos e segurava o cabo do revólver com um tom ameaçador, cuspiu para o lado e disse:

       — Você não consegue ficar sem arranjar problemas, não é Ringo? O caso no Sallon não foi nada demais, eu estava lá e vi com os meus próprios olhos, mas você tinha que continuar. Jogou um pela janela, em plena praça pública e agora matou o nosso farmacêutico, o bom senhor Harding, o que vai fazer agora?

         — Escute, Maldonado, tudo isso é um mal entendido. Eu posso explicar — Deu dois passos para trás, ele sabia que aquele negócio não iria acabar bem.

         — Chega de conversa, Jack, você sabe que as leis do Leste são as mesmas daqui. Você tá preso, xará.

          — Só por cima do meu cadáver — Virou a mesa num movimento e um tiroteio veio a seguir. As balas silvavam por cima de sua cabeça ou ricocheteavam a madeira.

          Ringo sabia que estava numa enrascada, mesmo assim usou sua arma umas duas ou três vezes, uma acertou a parede. Sua mira estava mesmo uma merda naquele dia, outra acertou o chapéu de um infeliz, e a terceira o braço de um dos guardas.

         — Merda! Ele acertou meu braço bom.

         — Cala boca, Frank Doloroso. Você reclama demais.

         Dispararam mais algumas vezes até que Jack percebeu que tinham que recarregar, após a saravaida de tiros, ele se levantou  num salto, saiu correndo, e com apenas duas balas, acertou o peito de Frank Doloroso e a cabeça de Ed Muller, quando apontou a arma para Maldonado a culatra travou e ele só teve tempo de quebrar a vidraça e sair correndo.

       — Jack, seu patife. Se eu te encontrar de novo, pego o seu membro viril e dou para as ovelhas comerem.

sábado, 11 de maio de 2013

As aventuras de Jack Ringo no Oeste (III)

     Acordou pois com uma dor de cabeça e logo descobriu que o whisky que tinha tomado era mais vagabundo do que tinha pensado, pelo menos tinha se divertido na outra noite, sua bela acompanhante estava bem para uma mera corista do cabaré: 

     Tinha ela olhos um pouco afastados demais, acinzentados, mas que caíam bem à sua cabeleira vermelha meio cacheada. Tinha um par de ancas das quais Jack se  orgulhava até agora, mas qual era o nome dela? Devia ser um nome francês qualquer, parecia que ela era da Louisiana também, mas não conseguia se lembrar do seu nome...

     Aïsha. Era um nome estranho ao mesmo tempo que bonito. Quando se levantou, Jack logo procurou um pouco de tabaco nas suas roupas (que imprudentemente tinha deixado em todo o canto daquele quarto) e encontrou no seu colete o seu saquinho com tabaco.

    Lembrou-se que não tinha papel e procurou alguma coisa que pudesse enrolar o tabaco. Encontrou um exemplar da Bíblia e retirou  uma folha de Gênesis: "Do pó tu viestes, do pó tu voltarás", pensou. "Tudo é pó nessa merda de cidade.  Até parece que a faxineira dessa pocilga morreu e esqueceram de avisar". Enrolou o cigarro e tragou um pouco da fumaça, enquanto se arrumava, ouviu o tintilar das placas do chão de taco, meio desconfiado, pensou em olhar para trás.

     Foi então que alguém arrombou a porta e atacou-o pelas costas. "Bem na hora do café da manhã. Seu infeliz!". Jack ainda estava meio sonolento, mas rapidamente ficou alerta, o assassino podia ser mais fraco do que ele, mas tinha o pegado desprevenido e já estava com uma faca perto de seu pescoço. 

    — Eu sei que merda de gente você é, Ringo. Você teve o tempo pra sair dessa cidade, agora vou arejar um pouco mais a sua cabeça;

    — E eu vou arejar o seu rabo, seu infeliz.

     Pisou com a espora da bota no pé do infeliz e quando este gritou, percebeu que ele tinha um hálito tão forte quanto queijo velho,não era tão doce  quanto o de Aïsha. "De novo pensando na prostituta, não sabe que ela só faz o serviço por causa do dinheiro?". Mas quando pensou em Aïsha o seu membro cresceu e no meio da briga o outro percebeu.

     — Ei, que merda é essa.

     — Cala a boca, você fala demais — Agarrou-o pelo suspensório e o jogou para a parede. Deu um ou dois socos no estomago e o infeliz magricelo, que tinha um aspecto meio cadavérico, por sinal, tentou reagir, mas Jack, deu-lhe um soco tão forte que quebrou todos os seus dentes da frente. 

      Grunhindo de dor, o homem se afastou e atordoado, não viu Jack se lançar em sua direção, quando viu, já tinha passado da janela que estava atrás de si  e se pendurava no parapeito sob o olhar curioso dos transeuntes logo abaixo.

      — Por favor, me tire daqui. Não deixe que eu morra — Implorou.

      — Ah, você fala demais — Pegou a faca que tinha roubado das mãos do outro — Quem devia ter a garganta cortada era você. Mas como eu sou piedoso — Fincou a lâmina entre os dedos, fazendo-o grunhir de dor — Fica aí pensando em toda a merda que você fez, eu vou tomar o meu café da manhã, depois a gente conversa.

       Deu as costas e quando terminava de se arrumar ouviu o assassino guinchar:

      — Filho da puta!

      Meio zangado, fitou o seu revólver Colt e rapidamente se virou: Ah, é assim então?

      Disparou bem no meio da testa do infeliz que rapidamente caiu com o disparo em direção à rua. Jack sorriu com aquilo e puxou o seu chapéu do alto da cabeceira: "Au revoir". "Foi isso que ela disse quando foi embora, o que será que quer dizer, deve ser "até logo"?"

      Cuspiu para o lado e desceu até o salão, houve um burburinho dos clientes depois do incidente e uma fileira de curiosos formavam um semi-circulo em torno do corpo caído no meio do chão de terra batida,Jack escondeu o rosto na aba do chapéu e fitou discretamente o corpo estendido no chão:

      — Au revoir, trou du cul.

       E saiu pela rua calmamente enquanto a diligência corria ao seu lado em direção ao banco, nem pensou muito no que havia acontecido, mas o homem tinha surgido na pior hora possível para resolver diferenças, antes do café da manhã! Como ele ia pensar em alguma coisa? Mas quanto mais andava, mas refletia. "Ele disse que sabia quem eu era. Será que sabem o que eu estou fazendo aqui?"

     Sorriu-se com aquilo. Fazia muito tempo que não andava pelas passagens do Texas, como alguém poderia saber o que ele fazia ali? 

     "Jack, eu sei que você anda fazendo coisas à margem da lei. Mas você devia ser mais sutil, pode por tudo a perder" — Disse-lhe o presidente Cleveland ao pé do ouvido. Grover Cleveland tinha sido o seu parceiro quando os dois estavam lutando para limpar as ruas de Buffalo dos corruptos e assassinos da pior espécie, não à toa que Grover começou sua carreira política sendo xerife dali.

     Grover Cleveland era uma figura meio rechonchuda que ostentava um bigode à la Bismarck e tinha olhos meio azul-acinzentados, seu rosto era tão vermelho que às vezes parecia um pimentão. Embora usasse casaca e cartola, ele ainda tinha aquele estilo meio de cowboy que era costumeiro aos jovens americanos.

      "—Que tipo de sutileza você espera de mim, Grover?" — Lembrava de ter perguntado algo nesse sentido.

       "— Do tipo em que você não corta a garganta de alguém cada vez que entra numa nova cidade. Essa missão não vai ser fácil e você tem que saber disso".

       "— Tá bom, eu já entendi. Qual é a missão dessa vez, senhor presidente?"

       "— Chega de formalismos, Jack, isso não fica bem em você — Grover serviu-lhe um pouco de conhaque embora nenhum dos dois estivesse com sede — Ficamos sabendo que anda havendo rumores de uma conspiração para desestabilizar o nosso poder lá no Texas, alguns fazendeiros de lá estão pensando em separar aquele pedaço de mundo e transformar de novo aquela coisa em um Estado. Fiquei sabendo que um dos seus amigos está envolvido. Henry MacGlover."

        "MacGlover? Ele ainda está vivo? Pensei que tinha acabado com ele quando fui para a Louisiana"

        "Só que não. Ele escapou e parece que está conspirando com os outros líderes de El Paso em separar o Texas da União".

        "Esses escravistas! Será que não aprendem. A escravidão já acabou nessa merda já tem um bom tempo, perdemos o Abbe assim."

         "É muitos fugiram e foram se esconder em países menos desenvolvidos que o nosso, como o Brasil, mas outros continuam a plantar intrigas por aqui e ali. Sua missão é acabar com isso".

         "Quando eu parto?"

          "Hoje mesmo. Você deve pegar o trem o mais rápido possível, chegando a El Paso, você deve procurar o farmacêutico, ele é o nosso contato. Ele lhe dará informações a respeito disso".

          "Certo, Grovie. Só uma coisa..."

           "O quê?"

            "Podia mandar reformarem essa merda de casa. Uma Casa presidencial cheirando a mofo,  ninguém aguenta".

             E saiu. Jack ainda sorria do modo como Cleveland o olhara quando falou daquele jeito da Casa Branca, não esperava nada parecido, e isso o fazia rir ainda mais. Quando cortou pela esquina, encontrou uma modesta drogaria espremida no meio de dois outros prédios: O secos-e-molhados do Tom e o Primeiro Banco da América. 

           Correu pela rua, tomando cuidado com os cavalos que passavam e rapidamente abriu a porta do estabelecimento. Encontrando o sino a tocar junto à porta, o farmacêutico o encarou meio desconfiado, considerando que estava sozinho.

         — "Tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de outro sonho" — Recitou Edgar Poe.

         — "Nada que nos representa é mais do que a verdade de um desaparecido". Agente Leya.

         — Me chamo Ringo. Então o que tem pra mim hoje? 

         — Agora não é uma boa hora — Olhou pela janela clientes se aproximarem da loja, Jack também notou que esse fato o aborrecia — Volte na hora do almoço que eu te darei maiores informações, certo?

         —  Tudo bem.

         Duas mulheres entraram, uma mãe e uma filha, ambas adultas e com lenços na cabeça; O ar estava ligeiramente tenso e embora Jack tenha dado uma sorridela discreta à jovem mocinha (que devia ter uns dezessete anos), isso não foi bem interpretado pela mãe, uma velha verruguenta de quarenta. O farmacêutico então falou:

        — Muito bem, sr. Ringo. Volte daqui a pouco aqui e terá o seu laxante na hora.

        A jovem sorriu-se com isso e Jack sentiu-se meio ridículo, baixou a cabeça e meio envergonhado agradeceu e saiu da farmácia.

        "Laxante? Ele tinha que falar justamente isso?". E foi tomar o seu café da manhã;

domingo, 5 de maio de 2013

As aventuras de Jack Ringo no Oeste (II)

      Depois de tomar um trago do seu whisky, que modéstia à parte, estava com gosto de mijo. Jack Ringo ouviu bater a porta num estalido de força. Podia apostar que aquele vulto que surgiu no saloon só podia ser o xerife. E não deu outra, era mesmo o xerife, Eric Maldonado, não muito melhor que os outros dois vermes que Ringo tivera o prazer de brigar.

      Eric Maldonado andava arrogantemente pelas esporas, tinha um rosto bastante sério e pediu junto ao balcão uma bebida:

     — Uma caneca de chopp, Frank. Pra'gora.

     — Certo, senhor xerife.

     Maldonado sentou-se ao lado de Ringo que bebia o seu último trago do whisky. Ignorando os olhares do oficial de polícia, bateu o copo na mesa:

      — Outra rodada dessa merda de whisky! Pra já !— Gritou.

      O xerife não podia esconder a curiosidade, como aquele caolho sozinho podia ter acabando com os dois maiores patifes da cidade e ainda assim se manter tranquilo ao ponto de beber um pouco de whisky. Sorriu-se com essa ideia e abriu sua cartela de cigarros:

      — Como vai, Jack? — Perguntou sorridente.
   
      — Muito bem até você aparecer — Respondeu o cowboy.

     — Você sempre é tão amigável assim ou é impressão minha.

     — Impressão sua, quando estou zangado abro o bucho de algum infeliz.

     — Tal como fez hoje — Levou o cigarro à boca e logo em seguida acendeu o tabaco com uma vela — O que te traz até El Paso?

     — Negócios. Coisa que você não deve se meter.

     — É tão secreto assim? Olhe, eu posso ajudar um pouco.

     — Como me ajudou na fronteira com os mexicanos. Muito obrigado, mas não — Fitou-lhe com a raiva nos olhos — Como uma merda de cidade como essa pode eleger um patife como você para xerife.

      — Estamos num país livre, cada cidade tem o xerife que merece — Deu de ombros.

      Ringo sorriu. Embora Maldonado fosse um maldito infeliz que o deixou a ver navios quando roubavam gado dos mexicanos, ele ainda tinha um senso de humor, isso era algo que ele admirava.

      — Muito bem, tô procurando a merda de um farmacêutico chamado Simon Harding. Ele deve ter vindo pra essas passagens à não muito tempo. É um homem baixo, feio de dor, com reumatismo e uma cicatriz junto ao olho direito. Usa sempre chapéu coco para esconder a merda da cabeça que parece um ovo. Você viu ele por aí?

      — Aqui? Em El Paso? Não, com certeza não — Ringo irritou-se com aquilo — Mas isso não chega a ser um problema, podemos  beber alguns barris de chopp e nos divertir com algumas meninas do cabaré. Você viu a que você salvo do Lonesome Billy, ela está olhando até agora pra você.

      — Não me impressionou — Comeu uma castanha que estava junto ao balcão.

      — Para de ser tão seletivo. Você pensa que o mundo gira em torno de Diana. Se diverte um pouco, seu infeliz.

       — Vá se fuder, Eric. Eu só quero um pouco de whisky decente e uma palha boa para dormir.

       — E que tal uma moça para esquentar a palha junto com você? — Sorriu.

       O garçom trouxe as bebidas e os dois seguiram calados até o final da noite.

       ...

       "Diana, não vá, por favor. Ele não sabe como fazê-la feliz", disse Jack antes de a bela moça de cabelos vermelhos partir de trem para o Leste. Era a última vez que a veria, mas mesmo assim valia a pena. Estava ela vestida da cabeça aos pés com um vestido branco, florido, e um chapéu de donzela com uma fitinha azul na armação, bem diferente da mulher que ele salvou do ataque dos índios duas semanas antes.

       — Eu não quero viver uma vida de aventuras com você. Jack Ringo. Onde a cada cidade que você entra toma uma mulher para si. Quantos filhos será que você tem, já pensou nisso? Eu não quero ser mais uma de muitas.

        — Não, você não é só mais uma. Diana — Dobrou os joelhos — Case comigo.
  
        — Já é tarde, Jack, eu já fui prometida para outro e você sabe disso.~

        — Não, não é tarde — Beijou-a.

        Diana deu-lhe um tapa no rosto e disse:

       — Deixe de ser tão infantil. Você devia ser um pouco mais adulto de vez em quando, se agisse como um, talvez não se arriscasse tanto quanto se arrisca.

       — Diana...

       — Adeus, Jack, e não me mande cartas, você sabe que eu não responderei — e subiu no vagão de passageiros.

...
         "Jack, Jack, Jack. Por que não consegue esquecer isso? Faz dois anos. Por que ainda sonha com Diana?". Levantou-se e foi se divertir no saloon.

As aventuras de Jack Ringo no Oeste

      Nessa terra ser rápido é o que importa e não se pode apenas tomar-se pela ira, não se pode descansar por uma sombra ou viver pela lei do olho por olho, deve-se ser rápido, ligeiro e sempre saber o que leva nas mãos, a responsabilidade de seguir em frente.

      Nessa terra onde se desenvolve a pradaria seca e desvalida de vida, onde os vaqueiros correm atrás do gado e os homens atrás de briga, os cavalos trotam rumo ao Oeste para longe dos índios e dos cavaleiros que tentam arranjar discussões. É nessa terra sem lei, que não tem nada a não ser o domínio das armas que se desenvolve um herói, Jack Ringo, pistoleiro e caçador em meio expediente.

      Nascido nas terras do Leste, fugiu desde cedo de Nova Iorque para tentar a vida no Oeste, trotando e assaltando bancos conforme a necessidade, mas agora estava a par da lei e só brincava de bang bang quando estava entediado ou quando faltava o whisky.

      Seu punho para os negócios era o que o levava a El Paso e também para o bordéu, antes de embarcar para a sua viagem para Santa Fé.

     Não que fosse lá um homem de muito destaque, usava sempre um semi-puído capote sobre  um colete de couro fervido e um chapéu de feltro marrom e duas Colts juntas à cintura. Suas voltas pelo o Oeste o levara um olho, um olho de vidro tentava substituir tal inconveniente;

     Passou pelo cavalo até a entrada da cidade e encontrou o movimento tímido de transeuntes na rua de barro. Parou o cavalo junto à estalagem e desceu do cavalo rumo ao cabaré:

   — Tire suas patas da minha mulher, Lonesome Billy antes que você não tenha mais nada para coçar as suas perebas, seu  porco — Cuspiu para o lado um homem rechonchudo de chapéu de coco e vermelho que nem um pimentão pela cólera.

  — Quem disse que ela é a sua mulher. Tem a sua marca, tal como você faz com os bois que você rouba dos outros — Retorquiu Lonesome, um homem de cabelos negros e olhar meio covarde, tinha algo de sinistro em seu rosto, pelo que notou Jack.

  De cabeça baixa, sem mostrar o rosto e envolto pelo seu próprio casaco, Jack Ringo contornou a mesa em que os dois discutiam perto do pequeno piano do cabaré. O pianista tocava uma musiquinha qualquer enquanto as mulheres levantavam as saias enquanto dançavam o cam-cam, Jack sorriu e bateu as palmas em reverência, deixando algumas vermelhas de vergonha com esse gesto.

   Sentou-se junto ao balcão e com uma das mãos chamou o garçom:

    — Onde eu posso conseguir um bom whisky nessa merda de cidade?

    — Veio ao lugar certo, meu caro cavalheiro, nós temos o melhor bourbon das redondezas. 

    — Boubon? Eu não bebo essa merda. Eu quero Scotch, do puro.

    — Sinto muito, caro cowboy, mas não creio que tenhamos algo tão refinado ao seu gosto. De certo pode querer outra coisa, que tal um chopp gelado?

    — Chopp? Tá me achando com cara de alemão da Pensilvânia? Eu quero whisky.

    A situação na outra mesa estava fora de controle, num dado momento, Lonesome Billy puxou o vestido da prostituta do cabaré e rasgou o tecido até a metade, deixando os seios à mostra, Jack, que não era bobo, deu uma fitada de leve naqueles dois peitos meio caídos e não achou nada de mais, mas Fat Tom achou aquilo o fim da picada e estava prestes a sacar a pistola quando o barman foi conter os ânimos.

     — Senhores, um dia tão bonito como esse, quase sem nuvens e os senhores arranjando confusão dessas? Bebam um pouco de choop. uma rodada por minha conta e vamos esquecer tudo, ok?

     — Não se mete, franzino — Empurrou-lhe Lonesome Billy — Isso  aqui é assunto de homem de verdade.

     Ringo estava procurando por de trás do galpão alguma coisa que pudesse servir para a sua sede incontrolável, quando de repente, não encontrando nada além de Bourbon, saiu irritado do balcão e fitou os dois que brigavam na mesa.

    Sacou uma faca da bainha e cortou bem no centro um naco de madeira da mesa:

    — Escutem aqui, seus mariquinhas, vão continuar com essa putaria de vocês? Eu tô pouco me ferrando quem vai dar uns pegas naquela puta ali, eu só quero um pouco de whisky decente e uma boa palha pra dormir, mas a briga de vocês está me dando de vocês, então — Fitou com o olho de vidro Lonesome — Parem de agir que nem bichinas e deixem a mulher em paz.

   Aparentemente Lonesome não gostou nem um pouco disso e disse:

   — Ei, quem é você, caolho, pra dizer  alguma coisa?

   Ringo sorriu  meio amarelo para Lonesome e o fitou com o outro olho, mas o homem não se deixou intimidar. Foi então que num só movimento Jack pegou a lâmina da faca e cortou de uma só vez a garganta do infeliz.

   — Mas... mas... que... merda... — O gordinho se borrou todo nas calças, antes que pudesse retirar o revólver do bolso, Jack virou a mesa  e derrubou o infeliz no chão. Com o revolver nas mãos, falou: Meu nome, meu nome é Ringo, Jack Ringo. E tudo o que eu quero é um whisky decente.

   O gordinho estava apavorado pedindo pela própria vida, até que Ringo teve uma ideia meio macabra no caminho de puxar o gatilho e ativar o cão da arma:

    — Muito bem, sejamos democráticos. Já que não é o lar da democracia, não é mesmo? — Sorriu— Cara, você morre, coroa você nunca mais volta aqui. Das duas formas eu não vejo mais o seu rosto de leitão à pururuca. Cara ou coroa, tanto faz.

     Puxou a moeda do bolso, uma bela moeda prateada com o rosto do Lincoln na face. Jogou-a ao alto e pegou-a sem pestanejar.

     — Coroa, que merda. Logo hoje que eu queria me diverti, saía daqui leitãozinho.

     — Si...si...sim. Eu já estou indo.

     E logo quando baixou a arma, saiu correndo do cabaré. "Resultado da façanha: Um morte e nenhum whisky decente. Que merda! O chefe não vai gostar disso".

     — Então sobre aquele whisky. Você tem certeza que não tem alguma coisa mais decente do que Bourbon? — Fitou o garçom.

      — Bem, temos um Tennessee que modéstia a parte é o melhor do estado. 

      — Será por que estamos no Texas? Traga-me essa merda mesmo, eu estou com sede.

      — Imediatamente, senhor.

      "Meu nome é Jack Ringo e sou um agente de Washington. Minha história é complicada e tudo o que vocês precisam saber que eu estou do lado dos mocinhos, embora a minha história não seja fácil de explicar. Eu nasci em Nova Iorque há trinta e pouco anos atrás, quando o país ainda tava dividido e ainda tinha escravidão no Sul, perdi meus pais muito cedo para a varíola.

       Foi então que comecei a fazer alguns furtos para sobreviver, até que fui pego pelo General Grant que me falou sobre uma força de jovens treinados para espionar o Sul. Eu tinha doze anos na época, quando a minha primeira missão foi matar um maldito escravocrata em Nova Orleans, desde aí nunca mais parei.

       Desde esse dia não faltaram missões e hoje eu estou nessa merda de cidade atrás de mais um maldito para levar para a cova, Samuel West, trapaceiro, ladrão de gado e caçador de recompensas, e mais do que isso, meu amigo. Pois bem, amizades são inúteis perto do whisky e das mulheres, vejam esses dois que acabaram de brigar agora mesmo, eles não nos deixam mentir".

     — Aqui está, senhor.
  
     — Já não era sem tempo — e serviu-se um pouco da bebida

Triste coração (conto)

      Ela arquitetou um belo dia caminhar pelo jardim de coração triste, tinha ela olhos tão grandes quanto o futuro e tão misteriosos quanto o presente. Ela sentou-se num banco e começou a conversar sozinha com uma planta, acharam que fosse louca, mas ela só estava meio sozinha.

     Recitou a plena voz um desabafo que poucos puderam entender:

     — Ele mudou o meu mundo, minha vida inteira se encantou. Eu respirava a poesia no ar e vivia numa casa de bonecas, tudo era lindo, até que ele me roubou tudo. Levou meu coração para bem longe de mim.

     Ela se sentia meio acorrentada ao banco e solitária decidiu experimentar um pouco de ternura doce que lhe confortava quando ia ao café, comprou um cappuccino  sem açúcar e se sentou na varanda. Estava ela acariciando o seu martírio, lembrava das histórias que eram tecidas de amor e se sentiu triste com isso.

      Se sentiu triste ao ver um casal, pai e mãe, cuidado do filho recém-nascido no carrinho. Paparicando-o com os mais diversos mimos e cuidando para que fosse bastante feliz, coisa que ela não era. Lembrou-se amargamente que não poderia ter filhos e que por isso ela foi abandonada. Muito triste, muito triste.

     Bebericou o seu café e começou a tremer com um pouco de tristeza.

     Um pássaro cinza sentou-se na mesa ao lado e a encarou com curiosidade, mas quando voou de novo, levou sua liberdade; trazendo assim maior drama. Partiu para casa e percebeu que o seu nariz estava vermelho: ela estava chorando.

     Tentou se aconchegar no seu casaco, mas a tristeza não lhe caía dos ombros. Ela corria agora contra a vida e contra o tempo, sozinha e desamparada, correu pelo viaduto para casa quando viu chover uma torrente do céu que encharcou o seu cabelo vermelho.

       Olhou para o horizonte e não viu muito futuro, pensou em se aproximar da borda do viaduto, mas algo lhe fez desistir de tal ideia: Não tinha terminado o seu café.

      Triste como ela, delicada como uma rosa, sua história partiu o meu coração: de uma pessoa que um dia se encantou e respirava poesia no ar que agora roubavam todo o seu carinho nessa chuva, pobre mulher que busca aconchego à alma.

sábado, 4 de maio de 2013

N'existais adiéu

      Como se ele não existisse, ela ficou do seu lado e sem mesmo o fitá-lo nos olhos, disse: "Pegue. É tudo para você".

      Eram joias, pérolas e diamantes. Todo o ouro de seu pescoço não pagava o amor que ela deixava ele levar na sua maleta de viagem. Por que o seu destino deveria ser tão cruel, por que alguém tinha que tirar o sabor de sua boca de fruta e mel?

      Ele não devia ser tão infeliz, ela o amava, por que devia ser tão rude agora? Ela iria com ele para onde fosse, e onde estivesse, mas o seu espírito de nômade o guiava para as terras de marfim e ébano, para a savana aberta de onde os leopardos se divertiam com as zebras e ele se divertia com o amor.

     Nada ia apagar as lágrimas e as tristeza que se geraram daquela partida, ele tinha sido um idiota por deixar alguém tão meigo quanto ela. Não era nada comum para alguém tão bonito. A pobre Júlia, tentou dizer algo ao pé do ouvido:

     — Não vá, por favor, não vá. Me escute, olhe para mim, não vá.

     Não chore por ele, Júlia, não sinta por ele. Eu digo um monte de poemas, toco o céu com a música, mas não chore. O sol ilumina suas lágrimas enquanto as asas do avião partem para o futuro distante.

      — Tudo o que eu quero é que guarde os seus tesouros,  eu quero que sinta o que eu senti, seu caçador de aventuras: O direito de amar.

      Ela o beijou na boca com as lágrimas secas no rosto, ele ajeitou o chapéu que ameaçava voar e subiu no avião. Como se ele não existisse, ela saiu de lá, sem fitá-lo nos olhos, partiu para casa enquanto ele partia o seu coração.

Meu amigo José (conto)


Este aqui é o José, quer se casar com a mais bela das mulheres, Maria. Mas o que José não sabia é que podia ter pego Sarah ou Dalila, mas mesmo assim preferiu Maria.

Por que Maria, José? Para quê ser tão Galileu? Você tinha logo que escolher Maria, justo ela que te traiu com aquele cara que você nunca viu. Por que José? Eu não entendo meu amigo.

Você podia ter sossegado na sua casa, José, tomar um pouco de chimarrão do lado da cerca, selar um baio de vez em quando e trotar pelas pampas, meu caro. Mas decidiu viver com Maria, fugir dos portenhos e aceitar  o filho que não era seu no Uruguai. Por que José, nada te prende aqui, vá para o Rio Grande, meu filho.

Mas você ama Maria, aquela de cabelos escuros, cacheados e que sorri lindo pra você depois de tantas travessuras. Ela que se deitou com um dos seus peões na cama que vocês dois dividiam à noite e que agora está grávida de algum moleque que não é seu. Por que José?

Não voltarás nunca mais para tua quinta, meu filho. Deixes de ser tolo, volte ao Rio Grande e venha comer uma boa costela comigo na fogueira. Caballero te espera.

Meu bom amigo, por que não te desesperas, quando teu filho começa a ter ideias estranhas e deixar o cabelo e a barba crescer. Chuta as peças da sua sapataria e planeja libertar o Rio Grande, porque não brigas como gaúcho com o guri, mas você o abraça e o ensina a ser paciente. Por que, José?

Agora sua mulher chora desde quando o seu filho foi lutar contra o Solano, nas curvas onde cruza o Riachuelo, onde agora luta-se no inferno de Huimatá. Agora Maria está chorando, mas você sorri, porque você é feliz com Maria. Bem logo você, meu vizinho de porteira, que bebia chimarrão junto comigo e troçava de Bento Gonçalves.


 Você, gaúcho da fronteira que poderia ter tomado Sarah ou Dalila, é agora mais feliz com Maria do que poderia ser, e agora longe de nós, nesse pedaço da pampa tenta se esconder nessa vida feliz na pequena casinha  de madeira que você mesmo construiu e virou o boa-praça que sempre foi. Felicidades, meu amigo.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...