sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Cronistas e cantadores




"Digo à minha pena que continue escrevendo ou inscrevo as letras,
gravando apenas o esqueleto ou as marcas dos acontecimentos
daquilo que o tempo trança, e não precisa ser caro
à dignidade que sua tribo espera,
 nem mesmo é prova de que vida e morte juntos valham qualquer coisa
O cronista sempre imagina que é o fim:
                                                         de sua "narrativa", -
e afinal, para quem ele escreve tudo e envia
                                                        suas mensagens?

Desde que a primeira letra foi lavrada em nome da narrativa comum,
 a obrigação de continuar fabulando de um escritor a outro
vai passando, ano após ano a passagem de um século
vai sendo contada, e quando não há algo de novo ou os sinais
da decadência se acumulam, escreves sobre a crueldade
de tua época e a respeito de povos mal alunos:

Assim  pensam os cantadores inclusive quando não é tempo de canções,
doam suas vozes, devem se manifestar porque antes deles
cantava-se diante das igrejas ou sobre o dorso dos cavalos; o povo cantante

não se indaga qual é a população ou o volume
da renda bruta; a grandeza medida são
os trovadores e o povo é tão grande
quanto os herois que são cantados. Tudo isso é antiquado, sabe-se,
pois depende da primeira letra , da primeira página
Do milagre recostado nos arreios de decassílabos

Se é bom ou mau, sequer deve-se indagar,
enquanto dura a escrita. Quando a língua deixar
de apenas preocupar-se com a canção, não haverá ninguém para
mensurar o valor do passado, nem para listar
o nome dos monastérios que retornaram às nuvens
ao serem chamados pelo antigo sacerdote.
Nem haverá quem busque pátrias na foz do rio."


                                                               Miodrag Pavlovich.


             Miodrag Pavlovich morreu recentemente, no dia 17 de agosto de 2014 na cidadezinha alemã de Tuttlingen aos oitenta e sete anos de idade. Miodrag Pavlovich infelizmente não é um autor muito conhecido para cá dos trópicos, de fato, isso se deve a sua produção literária se notabilizar pelo idioma sérvio. Contudo, Pavlovich se destacou como um dos percussores da ótica modernista na literatura sérvia pós-Segunda Guerra.

           Marcado por um estilo notoriamente fúnebre e bastante pessimista, Pavlovich foi um dos poucos poetas a captar a essência do que seria o horror da guerra. E insatisfeito com os desvios resultantes dessa, chocou-se muitas vezes com a ótica totalitária de construir a arte apenas como um objeto de consumo: o realismo socialista.

         

           Miodrag Pavlovich estabelece um conceito bastante diferente entre cronistas e cantadores; Primeiramente porque os cronistas são homens dados a contar a realidade conforme eles a observam, e acreditam que o fato se esgota em si mesmo a medida que colocam a pena para escrever. As crônicas são banais, cotidianas e se esgotam facilmente. Nisso, embora as crônicas sejam um domínio da literatura, elas favorecem a construção de um romance-reportagem, como gênero narrativo, pois se baseiam conforme a forma de maneira semelhante a um editorial ou um conto jornalístico de fato.

         Mas para quem de fato o cronista escreve? Quem é seu público alvo?

         As antigas crónicas medievais se dedicavam a glorificar um soberano e descrever um relato "oficial' sobre uma dita realidade histórica, e a despeito dos exageros costumeiros em quantificar os números ou adjetivar por exemplo uma batalha, as crônicas eram verossímeis para uma época e passíveis de críticas ao futuro. A crônica como gênero narrativo  é um dos estilos literários mais antigos da História, e está na fronteira cambaleante entre História e Literatura.

          De fato "O cronista sempre imagina que é o fim:    de sua "narrativa"", afinal a tendência em explicar um acontecimento sobre uma ótica singular foi o que pautou por muito tempo a construção das crônicas a respeito de determinados casos e situações.


"Desde que a primeira letra foi lavrada em nome da narrativa comum,
 a obrigação de continuar fabulando de um escritor a outro
vai passando, ano após ano a passagem de um século
vai sendo contada, e quando não há algo de novo ou os sinais
da decadência se acumulam, escreves sobre a crueldade
de tua época e a respeito de povos mal alunos"

           A literatura começa a se emprestar desse estilo literário à medida que a imprensa começa a emitir editoriais, num período muito avançado do enredo jornalista, de modo que as crônicas começaram a tomar proporções  desvencilhadas do concreto e passaram para o domínio do verossímil. Os redatores de jornais, os escritores seguem a "obrigação de continuar fabulando de um escritor a outro", em nome da narrativa comum. A narrativa que se constrói no começo desse século XX, longo século XX, é explicada num contexto onde o jornalismo e a mídia impressa se destaca como meio de propagar informações. As crônicas não só estabeleciam críticas sociais, como eram análises de comportamento sobre determinados casos que ocorriam na realidade social.

        "E quando não há algo de novo, ou os sinais de decadência se acumulam, escreves sobre a crueldade de tua época e a respeito de povos mal-alunos", creio que não há como ser mais claro do que isso, embora minha análise possa fugir em muito da de Pavlovich, acredito que essa seja a cerne do jornalismo baseado em crônicas de guerra, e cotidianas. As crônicas de guerra, iniciadas pela geração pessimista norte-americana, Ernest Hemingway, Fitzgerald, é uma geração que se dedica primeiramente à literatura, mas uma literatura engajada em relatar uma visão bastante particular e sombria sobre a realidade. A literatura, sob a base da crônica deveria descrever a crueldade da própria época em que se encontra o autor, onde se somam os sinais decadentes.

          A decadência é o maior aspecto da crônica moderna, não que a crônica em si seja decadente, pelo contrário, constitui o estilo literário mais revolucionário já inventado desde a criação do romance, mas ao contrário do que era a ode de exaltação dos reis e dos grandes feitos, a crônica hoje se destaca em mostrar a decadência dos novos tempos (e não seu triunfo), mostrar críticas e levar o senso crítico aos seus leitores, mesmo que por meio de um humor elegante e refinado.


           A crônica é diametralmente diferente dos cânticos, da arte dos cantadores. Os cantadores são alicerçados no domínio da tradição, eles cantam histórias antigas "doam suas vozes, devem se manifestar porque antes deles cantava-se diante das igrejas ou sobre o dorso dos cavalos; o povo cantante". Os cantadores, ou trovadores, nasceram numa cultura de linguagem oral que ainda estava no seu estágio de transição para uma cultura escrita.

           De fato, o maior papel de um trovador é relembrar o que foi o passado aos contemporâneos e adentrar no culto às tradições absorvidas e aceitas no tecido social. Enquanto a crônica moderna é revolucionária, o trovador é um conservador das tradições.

           O alaúde, o bardo, as odes. Isso tudo se findou no movimento trovadorista hispânico, uma franca remanescência medieva do que um dia foi o papel musicado do poeta. Honestamente é de se destacar que p cantador não é necessariamente a figura moderna do cantor ou poeta, mas sim uma absorção contemporânea de um conceito que um dia existiu:
         
          O círculo dos cantadores "não se indaga qual é a população ou o volume da renda bruta; a grandeza da medida são os trovadores e o povo que é tão grande quanto os herois que são cantados." Os cantadores são na verdade um grupo difuso para muitos, contudo, eu vejo a figura do publicitário ou propagandista como um trovador que não se indaga apenas com o impacto da renda bruta, mas incutir certos valores que são cantados em um número maior de pessoas.


         Esses publicitários originalmente não precisam ser revolucionários (mas muitas vezes o são)"Tudo isso é antiquado, sabe-se,pois depende da primeira letra , da primeira página.Do milagre recostado nos arreios de decassílabos',ou seja do milagre encostado no dogmatismo gramatical e na forma como se observa a primeira letra até o final.


"Se é bom ou mau, sequer deve-se indagar,
enquanto dura a escrita. Quando a língua deixar
de apenas preocupar-se com a canção, não haverá ninguém para
mensurar o valor do passado, nem para listar
o nome dos monastérios que retornaram às nuvens
ao serem chamados pelo antigo sacerdote.
Nem haverá quem busque pátrias na foz do rio."
   
           Duvido que Pavlovich tenha falado o que eu interpretei em suas palavras, obviamente ele criticava claramente os rigorosos defensores do academicismo literário em contraposição aos cronistas, defensores de uma narrativa (embora ele também critique qual deva ser o enfoque dos  cronistas). Cronistas e cantadores são meros aforismos para representar uma realidade pré-existente entre Vanguardistas e "academicistas". Contudo, o impacto com que a essa crítica atinge certos segmentos permite de certa forma extrapolar os limites da imaginação.

            A literatura e consequentemente as outras ciências que também se utilizam de um método literário para a construção de suas narrativas com base científica (seja história, filosofia ou sociologia), se baseia nessa constante dialética entre cronistas e cantadores.

00:00

      Eu confesso que estou jogando
      a minha vida fora
      E Você está jogando junto
      Eu confesso que preciso disso
      Nesse  momento estranho
      Não se esqueça o quanto é bom sonhar


       Eu tenho medo de que me esqueça
       De por essas palavras no papel
       Toda a vida depende desse momento
       Deixe-me tocar o ataúde
       Deixe-me sonhar sonhos em vão.

       Em seus olhos leio coisas estranhas
       Mas a noite não me escuta
      Agora estou no escuro
      E sou a luz no fim do túnel

         

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A Utopia e a realidade

            O burocrata nasceu da ótica de um estamento social bastante limitado mas ainda hipertrófico na figura da formação de um estado-nação. Ao contrário do intelectual, o burocrata não é treinado especificamente para pensar e sim para agir numa forma interna de maneira empírica dentro das regras pré-estabelecidas.

            Os intelectuais são relutantes em definir que seu raciocínio parte de uma ótica primariamente limitada da atmosfera dos "scholars"e o âmbito universitário e se projetam como líderes políticos, compartilhando teorias que levaram à vanguarda revolucionária na sociedade. Esse  papel do intelectual ativista surgiu na formulação de uma nova sociedade de culto ao raciocínio na Revolução Francesa, quando os intelectuais liberais passaram a agir de maneira direta nas lideranças revolucionárias.

           Tanto o burocrata quanto o intelectual, são pessoas nascidas em âmbitos sociais diferentes. Embora tenham emanado numa lógica preexistente muito clara: Sacramentalizar a educação oficial no âmbito de formação de funcionários do próprio Estado.

           A burocracia nasceu de uma noção idealista de gerir o Estado, o Leviatã, a partir de uma ótica corporativa, de que todos as repartições, escritórios, deveriam agir de forma bastante afinada como orgãos do sistema digestório ou circulatório e quando um processo não funcionaria direito, era porque o corpo não funcionaria direito. A medicina em muito condicionou à formação de um Estado segregado a funções bem definidas.

           Enquanto a burocracia prima pela ortodoxia das regras organizadas, o intelectual é naturalmente extravagante e excêntrico, prima normalmente para ideias originais e muitas vezes seu idealismo filosófico é repleto de um completo jogo de interesses; muitos dos que dizem intelectuais na verdade são meros oportunistas demagógicos. (vide Sartre e Arthusser)

           Não faltam também oportunistas na esfera do Estado, na verdade sobram, sobretudo com relação ao seio burocrata de maneira que o papel delicado de manutenção dos serviços à população através do Estado é prejudicado pelo pedantismo inconsequente e bem como pela inércia das repartições. Assim burocracia foi associada automaticamente aos nossos novos tempos com o vocábulo atraso, embora tenha nascido originalmente com a ideia de dar ordem  ao sistema difuso e confuso de uma ótica corporativa.

          Em 1905, o revolucionário russo Vladimir Ulianov escrevia: "a opinião antiquada de que a intelligentsia  seria... capaz de permanecer fora das classes" tinha que ser desconsiderada. De modo que o papel da intelligentsia era de se mostrar como um estamento ilustrado a conduzir o proletariado ainda inculto para as esferas da Revolução. O aspecto leninista de interpretação do fenômeno intelligentsia-proletariado esconde dentro de si um aspecto platônico de uma ilustração pelo conhecimento levaria a uma libertação dos "ignorantes", o Mito da Caverna de Platão. 

           E para acrescentar, o leninismo é também bastante carregado da óptica salvacionista de uma luta bastante aguerrida, que levará a um estágio de sangria e sofrimento, levará à pura redenção de uma sociedade sem classes. É claro que foi na Revolução Russa que vemos o intelectual como um revolucionário, que pega em armas e luta por suas próprias ideias. Esse fenômeno se mantém na Guerra Civil Espanhola e só morre no final da Segunda Guerra (alguns diriam que perdura nas ditaduras latino-americanas). 

             É a primeira parte da integração entre o intelectual e as massas. Essa sua crescente fixação pelo povo não é compartilhada pela burocracia. O burocrata tem ligeiro nojo e aversão pelo que vem a ser popular, obviamente por ter emanado numa lógica mercadológica de ascensão pelo conhecimento e concursos. Um burocrata é um concurseiro do passado, de modo que ele ainda tem fé no sistema de seleção e na ideologia do Estado. Assim, ele é um defensor aguerrido de valores pequeno-burgueses ou de sua classe média.

              Na questão do manuseio da realidade, o burocrata para evitar uma formulação de princípios teóricos e partir a partir da experiência pessoal do seu serviço não trabalha com, casos gerais, para ele só existem casos específicos. Para o intelectual, o que mais há são generalidades, e as especificidades são explicáveis a partir de um contexto pré-estabelecido.

               Esse empirismo que perdura sobre minha análise é tornado acabo pelo modo como a burocracia como mantenedora do culto à tradições e da ordem pre-existente consegue deformar-se rapidamente no formalismo rígido dos mandarins, se dissociando completamente da realidade.
                O intelectual também consegue desaparecer facilmente da realidade, isso é bem nítido quando no meio de suas associações teóricas, ele comete o erro crasso de desistir de viver na realidade, e mais cria incertezas absurdas do ponto de vista prático (vide pós-modernismo).

               É evidente que essa dicotomia entre o intelectual e o burocrático perdura por anos a fio, não só depois de um século inteiro de acadêmicos e funcionários públicos coexistindo, mas pelo contrário, a eminente fusão de ambos os aspectos gera a aberração que é o "medalhão" machadiano. O homem poderoso que se finge de inteligente e intelectualizado, mas no fim é um péssimo burocrata e um péssimo intelectual.

             A dialética entre o utópico e a realidade nos leva a crer que os burocratas são dignos de desconfiança, de pilhéria e de absurdos, enquanto os intelectuais de respeito e de profunda consideração por estarem presos à atmosfera das bibliotecas e dos cafés, de lerem coisas que são inacessíveis a alguns. Mas a utopia estabelece um padrão ético que a despeito de se proclamar elevado e desvencilhado do que vem a ser a estupidez de um estado mal-organizado, ela em si é um tanto mal elaborada pois não foi construída estritamente na realidade amostral, mas apenas em teorias gerais sobre o homem.

                  O realismo burocrático é estupidamente imbecil e estupidamente real. De tal modo que nem o intelectual nem o burocrata se contrapõe e ainda assim não se completam, pois são filhos bastardos de uma só esfera, a esfera do Estado. E para construção de uma moralidade existente no Estado deve-se lembrar das sábias palavras de Edward Carr, filósofo e historiador britânico: "A moralidade só pode ser relativa e não universal". A  realidade é também relativa  e a dicotomia entre utopia e realidade só  constrói uma expectativa do futuro, de burocratas eficientes e intelectuais cada vez mais realistas e práticos.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O vento da matemática

            Por quase um ano Gregório Furtado abandonava  giz e o apagador, o capote de ilustrado e caminhava na cidade combalida de mentes e raciocínio. Como um emérita transmoderno, não andava de túnica ou cabelo longo. Pelo contrário, andava de jaqueta preta e cabeça raspada; Poderia ser confundido com um motoqueiro ou algo parecido;




             Mas ele era mais perigoso do que isso, ele era um professor de matemática; E tão cartesiano de ideias, andava sempre com um esquadro nas mãos e uma calculadora em outra. Figurinha carimbada na escola, ele parecia um fantasma cujas projeções projetavam-se sobre a sombra tênue dos alunos. Esforço seja dito, diferencial ou mesmo trigonometria assombravam todas as noites dos jovens imberbes cujas barbas vazias os assemelhavam a crianças com medo do bicho-papão ou chupa-cabra.


              Revolucionário como as parábolas e o cálculo newtoniano, raramente saia de casa a não ser para se apaixonar novamente pelos números e pelo cálculo diferencial.  Solitário, brincava de calcular os riscos no chão e escrever números imaginários em sua cabeça; Multiplicava as árvores pelos pássaros e dividia tudo pela forma convencida dos arcos de concreto armado da selva de pedra;

                 Um dia foi denunciado como subversivo por brincar de estar brincando de ser economista, fazer projeções de especulação na porta de um banco. Catalítico dizia: “Nenhum banco é realmente bom para todos! Sempre haverá um número faltando nos dividendos.”

                   Isso era no meio do fogo de palha das Jornadas de Julho.  Qualquer frase mais ou menos revolucionária poderia ser encarada como uma afronta para o governo; A guarda pretoriana dos números primos vestia realmente capacetes draconianos e armados com cassetetes de matrizes batiam nos defensores einstenianos que questionavam a teoria newtoniana do Estado. A gravidade levaria tudo abaixo, menos a Babilônia que tinha jardins suspensos.

               Foi preso no meio daquela confusão de números primos misturados com raízes negativas. O número pi zumbia em seus ouvidos depois da saraivada pesada de um cassetete em seus ouvidos. E tudo que fez foi sorrir e recitar a formula de Bashkara.




              No meio do interrogatório. Sob golpes violentos do guarda, na luz fraca sobre o rosto e o sangue gotejando da boca, ele recitava:


“X igual menos b, mais ou menos raiz de b ao quadrado menos 4 multiplicado por a e c, dividido pelo dobro de a”


O guarda nem o delegado entenderam, e numa torrente de palavras ilógicas, e portanto não cartesianas, o golpearam com toda a incongruência matemática que é dizer que dois mais dois é igual a cinco.


Gregório Furtado era homem casado, pai e um ser matemático. Professor e cartesiano por convicção, beijou o cálculo quando criança e se apaixonou pelo modo como os números seduziam no gráfico.
Foi solto oito dias depois, ou será o cubo de dois dias inteiros? A juíza da vara judicial mandou uma ordem direta, de que não mais ministrasse a matemática. Os números eram subversivos e às vezes criminosos.



Indiciado por associação criminosa, ele rastejava pela cidade procurando encontrar o número em cada palavra das pessoas, versos, ou mesmo fonemas vocálicos. E descobriu que a geometria da vida era uma coisa tão amorfa que não correspondia ao prisma equilatéro com o qual sonhara toda a vida.


Gregório Furtado era casado, pai de uma menina de sete anos. Foi torturado e não pode mais fazer ativismo em classe. Dar aulas também é ser servo da religião dos números, o positivismo engendrado. Beijou o céu e a lua, pensou ser Pitágoras.


E no fim enlouqueceu de vez, apenas os bons colegas diziam. “O que se fez foi acabar com a reputação de uma pessoa que só podia pensar em se apaixonar pelos números. O homem matemático”.

“Eu sou Pitagoras eu sei, desenho o triângulo retângulo como você me vê, meu olho é um prisma por onde olho mundo passar a ser uma ótica do sombrio destino que é o número irracional”. Dizia.


Deprimido, sem capacidade de dar afeição aos números como antes fazia, se apaixonou pela língua portuguesa e hoje vende livros de cordel nas paradas de ônibus por aí a fora. “Meu mundo acordou, Não misturo as coisas . Esqueça que um dia fui mestre da ciência e se apaixone pela minha matemática das letras”, disse no ônibus.


Taxado de louco, foi deixado na parada. Com um semblante sorridente olhava todos com um olhar profundo que adentrava a alma, de modo que todos os passageiros viam em seu rosto um  choque de realidade. Desconfortáveis deixaram levar seus rostos lívidos com o passo do compasso e por fim Gregório Furtado contou as gotas de chuva que caíram sobre o céu.


“Minha tábula de diferencial” E beijou o vazio no meio do nada.



A chuva caía do céu e trovoadas corriam pelo céu no solo da capital... E o filho da ciência foi corrigido pelo braço coercitivo da matemática radical.

sábado, 6 de setembro de 2014

Bечера Песня

Um verão de madrugada
Olhei para o jardim das cerejeiras,
Vi uma coruja seca
E as  uvas cresciam no vinhedo.

Eu coro e começo a empalidecer,
De repente, queria dizer:
"Vamos cantar.
Ou só nos conhecer hoje! "


O bordado verde no chão, a folha esculpida,
Aqui nos separamos de perto com você.
A macieira verde encaracolada com a noite
Esculpia formas sinuosas na paisagem

Quando sai de casa.
Estava esperando por você
Na floresta densa de sonhos

Mas no caminho a floresta desapareceu.
E encontrei a rua quebrada da cidade
O telefone tocou
E muitas vezes pensei na noite.

Até que percebi
que estava sonhando acordado

Песня

Não ouço no jardim nem mesmo as folhas
Caírem das árvores secas
Tudo aqui é parado até de manhã.
Se você soubesse como é querida para mim
Nas noites frias de inverno

O rio está em movimento e parado,
O lua prateada ilumina o jardim
A canção pode ser ouvida silenciosamente
Nessas noites calmas de inverno.

Onde você está, querida, que me olha de soslaio?
Sua cabeça está inclinada?
É difícil de expressar e falar
Tudo o que está no meu coração.

E  é mais perceptível falar nada...
Então, por favor, seja gentil,
Não esqueça que daquele verão
Nesse inverno gelado!

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...