quarta-feira, 28 de maio de 2014

Jardim dos pensamentos

               A noite estava mais escura e densa do que o habitual, uma fraca fonte de luz iluminava o pequeno jardim subterrâneo de modo que as folhas pontiagudas de um bambu chinês e a pedra lascada sobre a grama esverdeada conferiam uma aparência estranhamente acolhedora e confortável que se defrontava com o olhar de censura e austeridade de um pesado cipreste negro.

               Um vaso contendo uma muda de palmeira da Arábia decorava as pesadas paredes de concreto envelhecido e acinzentado, preenchendo o vazio com o toque minimalista de sua arquitetura modernista. As flores vermelhas do jardim, as crisálidas cantantes, o grilo solitário que saltitava pela grama, a terra negra onde cresciam filetes de grama, tudo isso era apenas uma parte anterior de um jardim de um abeto transtorno, que tombava em seu próprio eixo. Essa natureza cada vez mais delicada e cada vez mais negligente era sedutora aos olhos à noite.

             As grades escuras das salas contíguas ao jardim traziam amarras aos simples objeto de reflexão que saltava aos olhos enquanto os muros nus de tijolos vermelhos acariciavam de maneira um tanto agressiva o contorno dos olhos; O silêncio fúnebre de melancólicas formas preenchia esse vazio existencial e o medo saltou sob a bílis trazendo um refluxo que vinha do estômago até a glote. Esse silêncio, nada mais que silêncio brindava a noite com um suave sossego, e tal sossego me dava medo, bastante medo.

           De nada adianta ficar falando sobre o nada se tudo o que há a admirar é o suave silêncio da noite consumida em trevas e um pouco mais que meras reflexões?

Um gato

            Silenciosamente discreto de olhos puxados e pose aristotélica o pequeno e exuberante felino negro demonstrava um olhar de erudito frente ao movimento incessante do final de noite. Os corredores apilhados de gente eram foco de sua atenção.

            Esses olhos martelavam contra os modos ignóbeis da pequena humanidade cada vez mais hipócrita e com um tom claro de censura diziam: “Esses humanos...” Elevou o pescoço e com orelhas ligeiramente levantadas o gatinho procrastinou.


            No vão de concreto escuro do jardim delicadamente desenhado as gramíneas e margaridas circunscreviam as mudas de pequenos pinheiros lusitanos deixando ao gato uma pose de estátua marcial no meio do silêncio da noite gelada. As trepadeiras e as árvores de tronco retorcido arrastavam suas folhas contrariamente maliciosas à forma da pena do verso solitário.

            Acocorado no chão, o felino se toma numa mísera bola de pelos que se comprimia no frio com o verso de uma imagem cada vez mais imprecisa do que seria um gato solitário, esnobe e as vezes arrogante. Volta e meia ele olhava para mim com um olhar afetuoso de menino perdido e estranhamente eu me identifiquei com aquele pequenino ser de pelo escuro.

            Novamente em pé, ele fez questão de me ignorar com maus olhos e iniciou comigo um pequeno diálogo monossilábico de censura. Seus olhos fracos se afastavam dos meus e contra nós mandou um olhar arrogante e negligente. Sua paciência com os humanos, insuperavelmente humanos tinha se esgotado.


            Seu ar senhorial, de lorde inglês de fraque e whisky na mão tinha cativado a minha atenção de tal maneira que enxerguei eu próprio numa versão mais galante e despreocupada. Aquele gato era um arrebatador de corações negligente, as gatas teciam semicírculos em torno de seu perímetro, mas ignorando a tudo e a todos, o felino me olhava de maneira cada vez mais visceral. Ele estava me analisando, vendo como nós dois nos parecíamos.


            Deslocado o gatinho olhou sem nenhuma pinta de ciúmes para as felinas que desapareciam nas sombras da noite, convencido de que não conseguira nada senão uma troca de olhares e estava calmo com isso, estranhamente calmo.


            Preguiçoso ele se espreguiçou diante dos meus olhos e começou a se afastar de onde estava, tomando cuidado para parecer vaidoso até que desapareceu sem maiores despedidas.




            Lineu era seu nome, o pequeno gato Lineu, de pelo escuro e olhos cada vez mais rasgados, um pequeno felino tão deslocado no mundo como eu.

sábado, 24 de maio de 2014

Um verso desconhecido

As aventuras de um explorador
de chapéu  e chicote
Nas montanhas da Ásia
Nos desterros do Oriente
Ou nas florestas tropicais

Não se comparam a aventura
que temos quando imaginamos
A sorte de estarmos cada dia
Presos a um único passado
E livres a vários futuros

A similitude com que as corridas
Que as viagens que podemos ter
A própria imagem de um sopro
De livre e espontânea liberdade
Rompe qualquer inércia que venhamos ter

Não espero que essa retomada
de pensamentos otimistas
Passe a ter efeitos diretos
Na vida de ninguém

A forma com que a caneta inscreve
O papel riscos cada vez mais profundos
Como as rugas que findam a nossa mocidade
Me faz pensar em tudo que fizemos nesse passado

Nos amores deixados de lado
Nos destinos perdidos
E nas noites perdidas em álcool

O tédio que é manter a rotina
Me consumiu por inteiro
Para desejar apenas ir embora
E seguir a minha vida

Não preciso ter alianças com esse passado
Não quero ter algemas ao meu futuro
Só quero viver o hoje de forma inconsequente
Como sempre quis
Não ter prisões a nada nesse mundo

Liberdade, freedom, osvobozhdenie
Liberté, mon cherry
Nada mais do que seguir em frente
Nada mais a se prender

Agora eu sinto o ar balançar meu casaco
A camisa se desabotoar com a força desse espírito
E a caneta sempre como minha eterna companheira
Nunca mais espere de mim um sopro de inverdade

Os olhares esperançosos
Os olhos brilhantes de criança
O ar de confiança
Tecem desenhos sinuosos

As estrelas cantam essa sinfonia
Brincam de iluminar o meu caminho
E só desejo ter uma nave
e uma estrela para guiá-la

Um bom dia a você
 que acordou sonhador
que nem eu
Só deseja beijar pela última vez
uma mulher e partir para o desconhecido


A vida é um sonho

Quando acordamos
Todas as manhãs
De nosso sono pesado
Quando olhamos para essa janela pesada

Imaginamos o céu aberto
Sem nuvens e com o sol
bem no semblante de nossos olhos

A verdade é que não tememos
Olhar de novo para fora
E esperar sair novamente
de casa todos os dias

Sempre temos uma força de vontade
Sempre queremos tomar essa cidade
Com nossas esperanças e medos
A vida é um sonho

As vezes um sonho contente
Outras um pesadelo demente
Temer a rotina causticante
É correr canto gorjeante

Nessa vida tudo é êfemero
E não podemos ter medo
De não termos segurança
Pois tudo nisso é um sonho

O ato de respirar,
o bombear dos corações
O ato de um beijo
A marca de um sorriso
Tudo isso é um sonho

Nem a matemática do físico
Nem a gramática do erudito
Podem transgredir essa ordem
De que a vida é um sonho
E nós sempre aprendemos a sonhar

Não tema sonhar
Não tema sorrir
Não esqueça de chorar
Tudo que há
E apenas passageiro
E essa é apenas uma opera
Uma sinfonia cosmonáutica

A fusão de nossos átomos
O calor de nossos beijos
O movimento de nossas enzimas
A química de uma paixão

Isso é mera coincidência?
Ou um sonho de nossa
Pequena consciência?

Eu amo pensar em matemática
Falar em números e catetos
Mas amo mais escrever
Em versos meus tormentos

A vida é um sonho
Que não pode acabar
Não podemos pensar em acordar
Nem sequer um dia



Querido sol, querida lua

Querido sol,
querida lua
Hoje faz um ano
Do decênio de minha existência

Meus sentimentos confusos
Conflitam com minhas ideias
Cada vez mais racionais
Cada vez mais irônicas

Meu amor se foi
Ou está escondido
Em forma de amizade

Querido sol,
O brilho do seu sorriso
Beija minha alma
Tal como brinca com o coração

Ela não deveria ser esquecida
Mas não quer ser lembrada
É ela em forma de menina
Que se define por ...

A presidência impõe
Severa diligência
E o meu espírito cigano
Não encontra porto mundano

Querida lua
que preenche o céu
Eu sei que você me ama
Por isso veste o véu

Eu tenho medo
de encontrar perdido
O arco do meu violino

Ela não vem
E eu sei que não vem
Eu aceito
E não me sinto com isso

Posso esperar dela?
Posso beijá-la?
posso amá-la?
Não, claro que não
Eu não amo em ninguém
E não confio no jogo da sedução

Querido sol
cujo caminho
espirito mor
tanto medo
bastante medo

Agradeço o vento
Beijo o tormento
Sinto o sentimento

Penso, existo
Nada cogito
Eu tenho medo
Medo de espírito

Adeus ao seu sorriso
Adeus ao meu regojizo

Melancolia poética

Longe do meu sapato
Longe do meu cigarro
Estou esperando
Meio calado
O verso safado

Eu estou sozinho
Olhando para o alto
Beijando o vento
Esperando um amor passar

Veja bem,
olhe com atenção
Perdi meu amor
Numa festa de São João

Quero só ficar do seu lado
Me alinhando como se fosse gato
Esperando minha dor passar

Não espere muito de mim
Não sinta nada o que senti
Não se apaixone por mim
Eu não tenho conserto

Não foi por maldade
Nem de sacanagem
Só sinto muita saudade
De querer me apaixonar de novo

Estou com frio, estou com medo
Não de perder nada
Mas de não ser nada
Senão um grão de pó no meio do trigalhal

Quero só um pouco de carinho
Só esse dia
Juro que não peço mais
Mas amanhã vou pedir de novo

Mas como disse
Sou uma corda de violino
Que se arrebentou
E agora não tem mais conserto

Queria ser mais
do que mero fomento
Quero só um abraço
Juro que não sou ciumento

Poema de meia-noite

Desgraçado do homem que se abandona
Com um pedaço de pó
Ou por um rabo de saia
E se desencanta da vida
Sem viver a alma perdida

Desgraçado desse rapaz
Que acha muito fácil
Ser capaz
De não fazer nada

Mulheres, nada mais que mulheres
Como eu amo abraçá-las
Beijá-las e senti-las
Sentir o calor de nossos corpos

Como gosto dos seus beijos
Dos seus puxões de orelha
Suas arranhadas nas minhas costas
Seus suspiros às minhas mordidas

Mulheres, nada menos que mulheres
Eu gosto tanto dessas mulheres
Que não acham capazes
De mudar o que eu sou

Que me deixam livre
Para pensar na vida
E sequer querem me ver
Escrevendo sobre elas

Acho que realmente deve ser melhor
Pensar em tirar alguns beijos
Algum calor de nossos corpos
Do que me meter a apaixonar de novo

O amor da vida se foi
E o perigo que se tem a noite
É dormir com alguém
em sua própria cama

Digo dormir uma noite inteira
Pois sou espaçoso
E gosto da minha cama para mim mesmo

Sim, sou muito errado
Mas eu gosto de ser errado assim

terça-feira, 20 de maio de 2014

Um poema de noite

O semblante luminoso
do Cruzeiro do Sul
Seduz meus olhos
Com uma pequena
teia celestial
no imenso mapa estelar

O trópico de câncer
Inventa uma circunferência
No pequeno globo azulado
Cujo pequeno cosmonauta exclama
"A Terra é azul"

Pequena bola irregular
Feita de água e sal
Numa bolacha espacial
De um retirante sem lar

Queria que as estrelas
Tivessem respostas
Que escrevessem notas
Que parassem de viver entre elas

Que será esta pequena estrela?
Uma pequena anciã de cem anos atrás
Ou mesmo essa nova estrela?
Será uma supernova?

Supernova são ideias
Que saem do papel
E tomam a forma
De um sorriso

Sorriso de menina
Bem sapeca
Que abraça a alma
E beija meu corpo

Sorriso cigano
Que beija a escuridão
E brinca de criar ciúmes
No meio da sensação

Nas pequenas estrelas
Que observo de olho nu
Brinco de ficar te olhando
De corpo nu

Cigano sentimento de minha parte?
Nem sei consorte e mate
Pois tudo que me corta o peito
É pensar em Netuno e Marte

Quer me beijar? que me beije
Quer me ignorar? que ignore
Quer jogar? Que jogue
Mas não venha tomar
A sorte que é sorrir às estrelas
E beijar a escuridão dos seus olhos

Olhos de menina
Cujos barcos
estão presos
à marina


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Um rato



         Escondido no meio da multidão de livros e textos, na bagunça de um escritório mal-arrumado com a luz fraca piscando, um pequeno roedor corria pelos montes de tralha, fugindo da luz e dos seus incômodos seres humanos.


          Corria com medo e uma velocidade de foguete, correu  de um lado para outro como nunca iria imaginar. E essa criatura sabe como agir. Maldito, correu atrás de conforto e conseguiu, passou por debaixo das minhas pernas e começou a roer a capa dos livros. Como te odeio ratinho!

          Te deram um nome, Baltazar. Nome de demônio, nada mais justo sua bola de pelos de menos de quinze centímetros que rói a quina da minha mesa e faz suas necessidades em papéis deveras importantes. Como te odeio, ratinho.

           Seu rato excomungado! Onde te escondestes! Fostes mais para longe que o meu antigo amor partiu tempos atrás? New York? Nem lembro mais direito, nem me esforço a lembrar. Mas eis que lembro que você voltou, meu caro engodo, meu companheiro parasita. E se eu comprasse um gato?

               Felinos são preguiçosos e duvido que ele correria atrás de ti. Além do mais que nome daria para ele? Batatinha se fosse azul escuro ou Manda-chuva se fosse amarelo com chapéu. Esse felino preguiçoso iria acabar fazendo amizade contigo só para me enganar.

            Sua cabeça vai ficar a prêmio,  seu roedor infeliz. Vou por o seu retrato em todas as paredes possíveis e vou dar como prêmio um maço de cigarros. Porque você não vale mais do que isso, fumaça;
  
             Pior que você conseguiu a simpatia da mulheres, não entendo isso, talvez porque você não tenha corrido para morde-lhes o pé da saia; Nisso foste esperto, além disso os homens tem receio de te matarem no mano a mano. Vou ter que comprar uma caixa e te jogar para bem longe. Que acha do Alaska? O Alaska é muito frio e acolhedor, um bom lugar para um ratinho que nem você.

             Ou mesmo as veredas do sertão, para que você queime no sol e vire um churrasquinho de rua.

            Como odeio seu aspecto impessoal, ratinho, como eu odeio sua inconveniência de entrar sem pedir licença, como te odeio por ser mais alegre e popular do que eu. Como eu te odeio, ratinho.


               Meu amor me largou numa noite dessas e fiquei a ver navios, junto com os outros que eu perdi, mas você se vê confortável sob minha presença, escondido na soleira dos papéis avulsos e dos livros perdidos. Baltazar, seu ratinho de sorte! Quem diria que você seria tão amado!
  




              Estou com os olhos perdidos esperando o dia que você vai partir, e perderei sua companhia inconveniente perto de mim, escutando meus pensamentos, ouvindo minhas lamúrias, e ficarei novamente sozinho como sempre fui. Adeus Baltazar! Ratinho que só me trouxe azar.

domingo, 11 de maio de 2014

Poema de papel

        A medalha de papel 
        é o soneto de um violinista
        que brinca de
        desenhar o céu

        A sombra tece um véu
        Na árvore narcisista
        De folhas vermelhas
        E cheiro de mel

         A palha do chapéu
         Amarelo renascentista
         Cobre a cabeça
         Em forma de anel

          O vento corifeu
          Brinca a poetisa
          De quebrar rima

          Como se rasga papel

O Império onde o sol nunca se põe

            No caminho para o Parlamento, o jovem deputado tomou o cocheiro através da velha curvatura isabelina da capital imperial com o passo do progresso vitoriano de uma sociedade que se modernizava, o telégrafo se expandia pelo interior e chegava até por baixo d’água no cabo submarinho. As locomotivas corriam o país com seus trilhos de ferro cada vez mais rigorosos, e as fábricas corrompiam o ar da cidade com os gases pesados de suas chaminés.

            O jovem Theodore Cardigan era um típico gentlemen inglês, vinha de uma tradição de lordes militares que passava por gerações, seu tio, não tinha sido ninguém menos que o Duque de Cardigan, que lutara contra os russos na Crimeia há vinte anos, quando os interesses do Império estavam sendo ameaçados pelos cossacos czaristas.

            Seu pai, Phileas Cardigan, era um traficante de ópio e ganhara vultuosas somas vendendo essa droga para os viciados chineses em Hong Kong, bem como no Cantão. Com essa fortuna, investiu em títulos na Bolsa de Londres e fez fortuna injetando dinheiro nas ferrovias na América. Os títulos da Pacific Oceanic até hoje rendiam suntuosas somas à família Cardigan.

            Quando a sua mãe, Jeannette de Sourbone, era uma “legitime madam de France”, no termo mais pejorativo do termo, era bastante sensual e lasciva, conquistava a todos com seu jeito cortesão e seu olhar debochado aos ingleses, e volta e meia traía o marido com jovens oficiais da guarda do Palácio de Buckingham. Numa dessas, Phileas encontrou sua esposa aos braços do prefeito de Londres e como produto do escândalo os tabloides inundaram a casa com verbetes sujos e ruidosos.
            Por pressão do marido ou pela própria vergonha social, Jeannette se suicidou na escrivaninha do marido quando Theodore tinha dois anos. Desse modo, Theodore passou a ser o único herdeiro da fortuna da família, e acabou sendo criado pelo seu mordomo, Joffrey Harryford, que acabou sendo seu tutor com a morte de seu pai de sífilis no colo de uma prostituta chinesa no bairro velho de Londres.

            A despeito da história da família, Cardigan se tornou um rapaz exemplar, criado na ótica dos costumes da corte da Rainha Vitória, e sua lapela associada com sua origem de gentleman o fizeram cursar o curso de Direito em Cambridge e História pela Universidade de Oxford. Um homem fino, com costumes finos, mas excentricidades inglesas.

            Isso porque a despeito da fortuna da família, Theodore gostava de viajar. Seja para as areias do deserto do Egito, cruzando o Canal de Suez, ou mesmo andando de camelo pelas três pirâmides de Gizé, seja tomando um bom vinho sob a égide do Coliseu em Roma, ou namorando algumas concubinas em Napóles.
            Bon-vivant e aventureiro, não tirava seu amor pela História, na verdade, ele levava até as últimas consequências. Contraiu malária quando correu pelas selvas da Amazônia procurando o “Cetro da tribo Nukuini”, foi alvejado pelas tribos Zulus na região do Zimbábue quando caçava um leão para sua coleção e acabou preso na Índia por ter profanado um templo na procura por uma pedra de Sankhara.

            Os anos de juventude o fizeram ser um arqueólogo e um trapaceiros como outro qualquer. Especulara muito na Bolsa de Nova Iorque, roubando inclusive terras de posseiros americanos no Meio-Oeste para produzir algodão. Dera um golpe nas minas do Chile e tinha um conluio desonesto com os Rothchild para extorquir dinheiro junto aos governos brasileiro e argentino.

            Essa folha de serviço nada impecável o consagraram como membro da Câmara dos Lordes e querido pelo partido Conservador.




            James Sulivan era um típico operário de WestHam na parte leste da capital inglesa, sob o calor fabril das siderurgias sob o Tamisa, o jovem rapaz de vinte e cinco anos conservava-se sujo de graxa com o macacão de brim rasgado inúmeras vezes pelas traças e piolhos. O serviço de torneiro mecânico vinha sendo cada vez mais difícil com um salário de 45 xelins por semana e uma jornada de doze horas por dia.

            Sulivan era um típico inglês com seus dentes amarelados e o rosto cavalar, regia-se pelo ponteiro do seu relógio de bolso (única herança que recebeu de seu pai alcoólatra), e isso se aplicava até na hora de desposar sua esposa (e isso ela muito reclamava). Tinha cinco filhos com Amanda Sulivan, dos quais, o pequeno Harry estava com coqueluche e não dava sinais de melhora.

            Era véspera de Natal quando o pequeno Harry de dois anos e meio morreu nos braços da mãe. No dia seguinte, James teria que trabalhar. Não se lembra de ter chorado naquele dia frio e azedo em que a neve entrava na pequena casa de madeira no subúrbio da capital. Mas logo, logo foi demitido por um corte de gastos.

            Sulivan passou a ser apenas mais um, um no exército de reserva e passou a mendigar com os filhos; Conseguiu um emprego de guarda-volumes numa loja, mas logo foi demitido, até ser contratado por uma fábrica de revólveres em Millwall. Nessa altura, a esposa de Sulivan e a filha morreram numa epidemia de cólera que abateu a cidade, e ele tomou contato com os escritos anarquistas de Proudhon e Bakunin.

            Naquele dia corriam os boatos de um novo discurso na Câmara dos Lordes sobre a situação da fome da Índia e os conservadores na figura de sir Cardigan protestaram ferozmente contra qualquer iniciativa de ajuda à “joia da Coroa”. Sulivan estava disposto a mudar a situação.




            Montgomery MacCartney era um escocês de mão cheia, das Highlands, vivia de uma maneira muito confortável cuidando apenas de suas ovelhas (e não só cuidando delas, mas se envolvendo de maneira muito carinhosa, para não usar outros termos infames), e bebendo seu scotch todos os dias.

            Alcoólatra inveterado, veio com a família para a capital quando a situação nas Highlands era cada vez mais difícil. Como, disse, ele era alcoólatra e não muitas vezes batia na mulher e nos três filhos, William (em homenagem a William Wallace), Adam (em homenagem a Adam Smith) e James (em homenagem a James Watt). Cada vez mais consumido pelo álcool acabou entrando na marinha por intermédio de seus amigos de bar, vindo a lutar na Crimeia e também nas intervenções na Ásia.

Condecorado acabou voltando à Inglaterra como um herói renomado e sem muitos problemas acabou entrando na Scotland Yard, vindo a se notabilizar por sua brutalidade com os cidadãos do gueto judaico (incluindo acusações de estupros a algumas mulheres judias). Odiado por seus companheiros, MacCartney acabou assumindo o posto de guarda na entrada do Parlamento, um posto que ele realmente odiava.




Cardigan chegou à entrada do Palácio de Westminster às 10h 50 da manhã sendo recepcionado pelo colega do Partido Conservador, Charles Robinson e subiu as escadarias na porta do prédio sob o olhar paciente dos jornalistas e dos mendigos. Um engraxate se ofereceu para engraxar seu sapato, que ele não teve o trabalho sequer de rejeitar ao esboçar um olhar ameaçador.

— Esse lixo nas portas do Parlamento é o que estraga a glória do Império! — Concluiu ao colega depois de entregar a casaca e a cartola na chapelaria.
— Que bom que temos você para salvar a glória da Rainha. Cada vez mais que vejo esses lixos mendigando alguns xelins e essas prostitutas à porta do palácio da Rainha eu acredito que Malthus estava certo  e que devíamos controlar o nascimento dessa gente!
— Meu caro, essa gente ainda irá nos produzir dividendos! Lembre-se da Índia!
— Pois é... A Índia!

E os dois entraram na sala da Câmara dos Lordes.



 MacCartney pouco se importou com a entrada de sir Theodore Cardigan  no Parlamento, de fato, até ignorou, não se importava nem um pouco com os lordes entravam ou saíam do Parlamento. De fato, eles lhe pareciam inúteis, em seus sapatos de couro, sobretudos pesados e cartolas altas. Parecia uma convenção de pinguins numa cidade cada vez mais sombria e lamacenta.

MacCartney odiava Londres, ah, como ele odiava. Para ele a cidade crescera demais, como um câncer que não tinha tratamento, e com ela, seus crimes. E nisso ele entrava, para bater nos criminosos. Às vezes dava uma passada no bairro judeu para humilhar os poucos rabinos que saíam à noite ou ameaçar as jovem moças de família, mas isso lhe correspondia um mero passatempo de antissemita.

Ele sorria cada vez que lembrava das maldades que cometia no gueto e passava impune por um mero uniforme, corriam  os boatos de um serial killer que atacava mulheres pobres no gueto, um tal de Jack Estripador. Pois bem, podia ser muito bem ele.

Ele riscou um fósforo e começou a dar um trago num cigarro feito de folha de jornal velho.



Sulivan  mantivera-se incógnito na multidão de mendigos e cocheiros e pode observar atentamente os passos de Cardigan desde sua saída do coche até a sua entrada no Parlamento, de fato chegou até uns poucos metros do lorde, disfarçado de engraxate, mas foi profundamente rechaçado com um olhar desaprovador do homem.

Não tivera tempo para armar a bomba na pequena caixa de engraxar, senão teria mandado aos ares ele e Cardigan no mesmo instante, mas pacientemente voltou ao seu lugar olhando maneira preguiçosa as poças que se formavam nos ladrilhos quebrados da Whitehall. O céu acinzentado se deslanchou quando a garoa fina começou a cair e a empapar sua boina de operário.

Tentando se abrigar da chuva, correu para dentro de uma marquise e pediu um pouco de cerveja escura para aguentar o que viria a fazer.




“Caros patrícios, a situação na Índia vem tomando proporções inimagináveis. A seca que grassa o subcontinente há dois anos produz uma legião de famintos e leprosos que se estendem em cidades importantes, como Bombaim, Calcutá, Déhli, Madras e outras partes do país.
Ao que indica tivemos levantes na região de Bengala e da Caxemira e os informes do vice-rei da Índia são alarmantes, ao que indica as ferrovias vem sendo paralisadas e as plantações de cânhamo, algodão e chá estão sendo atacadas pelos famintos do interior.
Destacamentos do Exército e de sikhs foram enviados para a região de Bombaim para garantir a ordem, mas a Índia é uma nação muito grande para pensarmos em mandar fuzilar pessoas. Peço-lhes como nação cristã e civilizada que é a nossa Grã-Bretanha, que observem com  atenção a situação desses súditos da Coroa que padecem pela fome que aos poucos ceifa a saúde do nosso Império”

Após o discurso de sir Gérald Hollister, que foi vaiado pelo setor ultraconservador, e aplaudido de pé pela a ala mais liberal do Parlamento, sir Theodore Cardigan tomou a palavra:



“A sua juventude ainda me surpreende, mister Hollister. Sabe falar com eloquência de assuntos de menor importância. Caros patrícios dessa câmara solene, discursos inflamados são coisas que o Império não padece, afinal de contas, de palavras não se alimenta um povo. E qual povo? O povo da Inglaterra!
Dizer que são nossos súditos aquela legião de selvagens que habita as florestas da Índia é humilhar o aspecto civilizado de nosso Império, multidões crescentes aparecem aqui todos os dias querendo nos ceifar até os últimos xelins, isso quando não nos encurralam em guetos escuros para cortarem nossas gargantas à luz da madrugada.
Não à toa que proliferam nos jornais os anúncios sobre esse Jack, o Estripador, que ataca na surdina mulheres inocentes alastrando um rastro de ódio e terror. O erário inglês não pode ser desperdiçado com um levante de uma dúzia de camponeses indianos toda vez que a colheita não for boa. Construímos esse Império à base do ferro e do fogo!
Cortando de Leste a Oeste nossas ferrovias chegam às partes mais incivilizadas e incultas da África, no Império onde o céu nunca se põe. Nós como cavalheiros, devemos defender esse Império de ameaças externas, não nos preocupar com incivilizados que são os indianos. Eu estive na Índia e lembro muito bem como fui atacado por ter entrado num templo hindu! O que esperar dessa gente que tem preconceito de si mesma?
Não devemos usar os recursos da nossa Câmara Alta, nem mesmo da Câmara de Comércio para auxiliar a derrocada do Império. Se há fome na Índia a responsabilidade, ou melhor, a irresponsabilidade só pode ser creditada a uma pessoa: A figura do vice-rei da Índia, que foi irresponsável com suas contas públicas.
Nada poderá abalar a nossa fé no Império. Deus salve a Rainha Vitória!”


Cardigan foi aplaudido de pé pela ala conservadora do Parlamento enquanto os liberais se mantiveram silenciosos com a multidão de aplausos e de palavras de júbilo, certamente os jornais falariam de maneira muito positiva sobre o discurso desse “defensor do Império”.

Aplaudido pelos seus companheiros, Cardigan saiu acompanhado de seus corregionários de partido para a entrada do parlamento onde pegou sua cartola e seu sobretudo com um dos funcionários da Câmara dos Lordes.

— Belo discurso, sir Cardigan.
 — Obrigado, meu caro Rutherford. É sempre bom ouvir a aclamação de meus colegas de tribuna.


E desceu as escadarias. Uma legião de jornalistas o cercava com perguntas cada vez mais aguçadas sobre as deliberações do Parlamento sobre a fome na Índia, mas Cardigan apenas deu um aceno e esboçou alguns sorrisos. Enquanto se encaminhava para o coche, MacCartney tentava conter a legião de jornalistas com o próprio corpo. Foi então que Sulivan apareceu a quatro metros à frente do lorde e sacou uma pistola.

— Morte ao imperialismo!

Cardigan horrorizado não conseguiu esconder a surpresa no seu rosto, mas antes que pudesse falar algo, a arma disparou. Uma, duas, três vezes. POW!


MacCartney correu para frente de Cardigan, mas foi alvejado com uma bala que entrou no peito e atingiu no coração, morreu em questão de um minuto, junto com o lorde Cardigan que suspirava e golfava um pouco de sangue discretamente no canto do lábio esquerdo. Até nisso ele era inglês!


Os outros guardas correram atrás de Sulivan, que inutilmente tentou correr em direção à ponte, mas acabou sendo morto pelas mãos de outro guarda armado. Às 12h45, o operário James Sulivan tinha sido morto, e cinco minutos antes, o lorde Theodore Cardigan e o oficial Montgomery MacCartney.

Naquele dia de 11 de maio de 1896, as sessões do Parlamento não falavam senão do ocorrido, assim como os jornais vespertinos. Lorde Robinson esboçou um discurso emocionado na câmara dos Lordes, com as mãos ainda sujas de sangue:



“Essas mãos nunca viram coisa tão ultrajante quanto o que aconteceu na porta dessa grande casa. Um dos nossos membros mais ativos foi duramente assassinado pelas mãos de um terrorista anarquista que não conhecia o fundamento de suas ideias e pensamentos.
Penso que não só perco um amigo, mas um grande homem. E além disso a morte de Cardigan mostra o completo desrespeito por alguns dos direitos dessa casa e da justiça em torno da Rainha da Inglaterra e do Parlamento. Enoja-me pensar que os inimigos do Império se comprazem nesse dado momento pela morte de nosso grande colega nos bastiões da justiça inglesa.
Peço-lhes que adiem a sessão extraordinária de hoje e que pensem com atenção nas palavras de nosso companheiro de tribuna a cerca da questão da Índia, pois não conheci nenhuma pessoa mais justa e racional quanto o falecido Theodore Cardigan”;


O choro falso de Robinson não convenceu ninguém, mas a despeito do que tenha parecido, ele conseguiu que a votação fosse adiada, e logo em seguida o Parlamento votou contra a ajuda às vítimas da fome na Índia que levou milhões de indianos à morte.

Os jornais daquele dia, incluindo o Essex Diary, destacaram:


“Hoje a Monarquia não só perde um grande orador, discursante e amante da glória de nossa querida Nação; Não só perdemos o trabalho atuante de um bom oficial de polícia que morreu no cumprimento do seu dever, deixando mulher e filhos. Perdemos mais do que isso, perdemos a noção de um Império único e monolítico que morre com o assassinato de sir Theodore Cardigan.
As lembranças de uma monarquia sem inimigos internos se findaram nas três balas que o anarquista James Sulivan destruíram por completo a genialidade e perseverança desses dois homens que seguiam suas vidas em prol do nosso grande Império onde o sol não se põe.
A Inglaterra se vê repleta de inimigos, e a isso devemos procurar segurança. Armar-nos contra os inimigos que desejam nossas colônias e findar com a harmonia que vivemos sob o mandato de nossa amada rainha Vitória.
Definitivamente a Inglaterra é o futuro da Humanidade e desse futuro não precisamos do vírus pestilento do anarquismo canceroso que também dilacera outras nações da Europa”




            Engraçado como o fato de uma missa de sétimo dia ter sido rezada a sir Cardigan movimentou toda a aristocracia inglesa, mesmo ele sendo um trapaceiro, racista e mulherengo, enquanto Sulivan foi enterrado como indigente em alguma vala comum em algum cemitério na região de Londres. Mas essa era a vida no Império onde “o sol nunca se põe e reluz através da coroa da rainha da Inglaterra”.

A incógnita da escrita

A maior incógnita da vida de um escritor é o papel branco, pois nada é mais tentador, nada  é mais vazio que o pedaço de folha limpo sem ranhuras em sua superfície, disso, achamos que podemos criar mundos mirabolantes, realidades da existência louvável, grandes digressões e paradigmas cada vez mais indiciários de abstrações filosóficas.

Um escritor é um arquiteto de histórias, cujos imensos tijolos são as palavras, cuja a argamassa são as vírgulas, travessões, pontos-vírgula e outros cógnitos gramaticais e a grande planta é imagem filosófica e narrativa que surge sobre sua cabeça.

Escrever é imaginar antes de tudo, é ter sua mente aberta a observar um mundo para criar um outro completamente diferente, ou mesmo criar um mundo dentro desse mundo existente. Um bom escritor é um pintor que desenha a realidade numa tela de A4 apenas com palavras e uma caneta de pena.



Quem escreve está fadado a ser meio solitário, pois escrever exige bastante tempo. Mas quem escreve também será um sábio antes da hora, pois o ato de escrita exige muita leitura, exige pensamento rápido e raciocínio e mais do que isso, exige ter emoções ao pé do ouvido. Escrever é a arte de amar ser sentido. Amar escrever e calejar as mãos de tanta escrita.

Quem escreve  não pode por ventura ser vazio em intelecto, mas pode ser vazio em existência. Um escritor é normalmente uma pessoa muito triste e melancólica pois quando olha o mundo ao seu redor tem uma imagem ligeiramente aguçada do que a realidade proporciona. Por isso muitos escritores são ativistas, outros apenas querem se esconder no seu pessimismo clerical.

A escrita exige esforço, mas também inspiração. Cuja habilidade ultimamente me falta, e por isso normalmente um escritor é um cara frustrado quando não consegue produzir; Queria ser mais ameno nesses termos, mas a verdade deve ser dita sem ignóbeis mentiras. Meu ato de escrita vem sendo cada vez mais piorado a medida que vou envelhecendo, pois as responsabilidades crescem e negligentes como nós somos, acabamos nos convencendo que não temos mais forças para escrever grandes romances. Estamos completamente errados, estamos sempre prontos para escrever algo de novo, mas não sabemos.


Amar o que faz é o que define um escritor de qualidade, pois ele vive amando linha por linha do seu texto, e se cuidando para amá-lo cada vez mais. Ele ama lê-lo depois de ter feito cinco ou seis correções. Um texto é um pedaço de carvão a ser moldado, com as condições ideais de temperatura e pressão ele poderá virar um lindo e bem polido diamante, mas se for mal feito continuará a ser apenas um pedaço de carvão.

Amar à escrita é se apaixonar pelos livros, abraçá-los como se fosse sua própria mulher, beijá-los como se fosse seus próprios filhos e lê-los como leria aos seus netos. Ah! A escrita, ler, ler e ler, fora da leitura não há salvação. Já dizia meu professor, pois sem leitura não se tem ideias e não se escreve metade do que se deve escrever quando se está inspirado.



Como disse, o papel branco é a maior incógnita, e não é resolvida pela mera matemática. Muito pelo contrário, a matemática busca respostas que a literatura não provém e de maneira que essa estrutura narrativa se mantém é muito difícil escrever algo que não tenha um encadeamento lógico tradicional. A pequena redação de um livro pode ser um plágio de outro existente sem querer.

Queria ser mais virtuoso em dizer que a escrita é um ato fácil a todos os que se dedicam, mas não é verdade, era fácil para mim quando era mais novo, mas hoje, é algo cada vez mais urticante quando penso que não levo meus livros até o final, por isso acabo escrevendo contos ou poemas, que são menores e mais fáceis de se fazer. E como poeta sou tristonho.

Floreios não são inteiramente necessários quando começamos a escrever, pois a escrita é um ato de fé antes de tudo, e cada vez mais que escrevemos temos a consciência que nossos prazos e prazeres não se findam. A verdade é que escrever é uma fé na gramática e sobretudo da linguística em abarcar as suas ideias num campo semântico cognitivo eficiente, e nem sempre isso é possível.

Por isso eu acho mais fácil fazer cinema, ou mesmo uma tela, pois as emoções se inauguram a partir da combinação de cores e imagem, enquanto na escrita não há nenhum nem outro. Um escritor é um psicólogo amador, é um cronista social e um jornalista sem jornal. É um pesquisador e um bon-vivant sem um centavo trocado.



Escrever define o ser, define uma realidade e um personagem. Alguém que inexiste no plano concreto, mas pode existir no plano real. Pode ser uma pessoa que você conheceria se andasse mais pelo mundo, ou mesmo uma entidade que morreu anonimamente sem que ninguém a lembrasse. Um detetive que morreu numa caçada, um operário que caiu de um andaime, um professor que foi atropelado, ou um casal de velhinhos que morreu juntos para sempre.

Às vezes nem isso, as vezes só escrevemos uma parte de uma vida. Às vezes nem descrevemos a vida cotidiana, vamos recorrer ao tempo, como ao romance histórico e escrever um antepassado que nunca existiu, ou ao futuro para escrever um descendente que provavelmente nunca existirá. Somos deuses na curvatura de uma folha de A4, e num rincão tecnológico de um Word ou da mera caneta ou máquina de escrever.

Sabemos tanto de História, geografia, ciência, desenho, psicologia, antropologia, e filosofia, e ao mesmo tempo não sabemos nada. Um escritor é um ser diferente, porque tenta conciliar vários campos numa só obra.  Quisera eu que todos tivessem esse dom de redigir textos com facilidade como eu fazia, mas se todos fizessem isso, eu estaria desempregado.





A incógnita do papel branco se mantém, porque no início eu não sabia o que iria escrever, mas o final resultou num texto muito bem encadeado. Essa é a constante dúvida de um escritor em processo de criação e espero que isso ajude a alguém que pense um dia em escrever.

Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...