terça-feira, 24 de setembro de 2013

Até a lua

         Até a lua que guia minha viagem no meio da escuridão, que arrepia as crianças depois de um conto de terror, que deixa os amantes cada vez mais apaixonados e os mares mais revoltos. Até a lua apareça  deve-se brincar com as estrelas cada vez mais tolas e inconsequentes.

          Nunca acredite em alguém que diga que não gosta da lua, pois é mentira; Mar da Tranquilidade e da Serenidade. Quem nunca se imaginou nadando em suas águas? Embora não existam por conta da sua inviável gravidade e atmosfera inexistente é engraçado pensar a Lua como um pedaço da terra, um mero satélite. Mas ela não é um satélite, ela é parte da Terra; E ainda sim bastante bela;

         Essa lua foi profanada com uma bandeira hasteada no seu fulcro, ao invés de uma bandeira de toda a humanidade, uma mísera bandeira está pendurada lá no alto. Ridículo. A Lua não é dos americanos, russos ou chineses. A Lua é de todos os apaixonados.

        Mas não deixam que eu fale tais coisas, poetas são filósofos sem entorpecentes e magos sem magia; eles sabem bem mais da vida que você imagina. Tocam no seu coração enquanto roubam sua atenção e sua carteira. Poetas são tolos por nascença, divagam sobre o amor, mas no fim não sabem amar.

        A Lua é dos apaixonados, pessoas muito diferentes de mim, pois cantam nos beijos e nos abraços tudo o que sentem; expressam o desagrado em brigas estúpidas e acreditam que a vida é perfeita por um milésimo de segundo que é um beijo. Eu não posso admirar a lua como eu queria, pois não quero me sentir apaixonado de novo;

       Isso é estranho, parando pra pensar. Olhar para o céu, mas não conseguir olhar para si mesmo. A Lua é o espelho da Terra, mas a Terra não é espelho da lua. Eu sou eu, conforme minhas circunstâncias; Esta teogonia filosófica foge completamente da dialética, quem diria, pois a vida é infinitamente mais complexa. Um beijo esquecido, molhado e delicado; Um abraço amargurado e bem apertado. Um choro calado e escondido. A vida é feita de ciclos, tal como a lua, de sobreposições de um espelho quebrado o qual  sempre me cortei.

         Até que a lua me procurar nessa sexta, não acho que quero me imaginar aqui de novo, mas a caminhar; Sozinho e muito bem acompanhado comigo mesmo. Solitário e triste é verdade, mas é melhor do que ficar imaginando alguém que nunca irá aparecer, nem nada que me faça esquecer os erros que eu já cometi; Tristeza é algo que se esconde no lado negro da lua, e aparece a cada Lua Minguante e Crescente quando você estiver disposto a ver. Espero que esteja disposto a ler o que irei escrever daqui em diante

De novo a chuva...


        O  ponteiro do relógio marca 13:20... 13:20 marca o relógio. Estranho porque o tempo não passa, o escritório fechado continua meio abafado e o som toca um chorinho bem meloso que chega a dar um pouco de sono. Um jornal mal impresso está jogado no chão, esparramando o piso de mentiras e estupidez.




        O ponteiro não se move, que horas são afinal? Tenho que sair daqui a pouco... Pera, isso é chuva? Estava fazendo um calorão, agora tá chovendo? O céu tá meio nublado, tintilam as telhas as poucas gotículas de água vindas do alto. Não que eu queira saber, mas acho que tudo isso é resultado do andar preguiçoso das nuvens e do vento que se seduziram em brincar um pouco com os transeuntes desavisados.

        Chove forte, bastante forte até. Parece que está para levar as telhas de minha casa assim como leva as letras da-s pa- la-v-r-a-s...

        A chuva chegou e veio pra ficar; veio pra alagar as nossas vidas com mais lama, transtornos e tristezas, nos ensopar de tanta gripe e umedecer bem os nossos cabelos enquanto mutila nossos rostos com os seus ventos. É verdade, veio levar a falta de luz que ultimamente nem precisava de chuva para acontecer; O verão chegou pra lavar os últimos vestígios da minha alma por água abaixo, escorrendo pelo bueiro no meio do lixo jogado por um pedestre incômodo e um vizinho porcalhão.

       É melhor tirar um cochilo. Estou bastante cansado, minha vida anda realmente uma merda. Seguindo em frente sim, mas descendo a colina e indo pro precipício; Achei melhor deixar minhas seguranças de lado e partir em frente e levar tapas de todos os lados, decidi que era melhor manter-me só a ficar com alguém que eu realmente gostava. Hoje a chuva veio cobrar o seu tributo, depois do asqueroso calor que se abate, mais uma chuva; Chuva maldita, não percebe que eu quero ficar sozinho? Que não preciso ouvir você me lembrar que eu perdi mais uma vez, que sua marcha triunfal sobre as telhas de cerâmica não resultará em nada a não ser maior solidão?

       Talvez queira me pregar uma peça, me deixar mais deprimido do que eu já estou. A vida cria-me tais desígnios, primeiro vejo uma pessoa morrer diante dos meus olhos, com o maior dos sofrimentos inerentes à dor de se desgarrar da vida, depois sou obrigado a viajar contra tudo que decido, por fim me vejo tão atolado na areia movediça que decido desistir de tudo. Sim, você veio me lembrar com o seu jeito tão característico, tão sutil de se misturar com essa terra argilosa carregada de ferro e alumínio, pobre em nutrientes e em vida, o mar de lama que me enxovalhou por completo, calça e camisa; Não tenho coragem de acreditar que você finalmente voltou, sua maliciosa criatura arrebatadora de corações. Chuva, sua maldita.

        Antes eu te saudava como minha salvadora e minha guia, como aquela que me reconfortava depois do calor estridente da seca; Mas agora eu tenho um ódio quando penso em você como meu fardo que terei que carregar todos os dias nos próximos meses; Isso me entristece, pois gostava de caminhar sobre a égide de suas águas e refletir sobre a minha vida; do que eu deveria fazer. Digo que a minha vida está uma merda.

         Você não limpará essa sujeira pastosa que corrompe minha vida e suja minha alma. Você não tem mais força ao penetrar nas minhas roupas e chegar com suas águas a tocar o meu coração. A face cada vez mais fina, magra e cadavérica toma-se de sucos, os olhos antes brilhantes tomam um aspecto opaco e o rosto fica com um aspecto cada vez mais pálido e frustrado. A angústia de acreditar que o fim do ano está chegando, que estou envelhecendo, que desejo não falar mais com ninguém me machuca por completo. Terrível é acreditar que todos se escondem da chuva e eu não tenho medo de enfrentá-la.

         Não demorará para você derrubar árvores, inundar avenidas, tomar de lama o asfalto e causar acidentes. Esse aguaceiro emocional tem que parar, não quero mais pensar em nada; Estou esperando que esse cochilo meio triste acabe, mas agora que eu percebo que o relógio não moveu nem um milímetro o ponteiro; Espera, isso está certo?

          Claro que não está, agora que eu vi, o relógio está quebrado e tenho um peso meio amargurado. Obrigado, chuva. Obrigado, passado.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Por toda minha vida

         Por toda minha vida
         Pensei que poderia vagar
         Sem precisar de chinelo
         No meio do asfalto

         Perdido no meio do caminho
         Sem ida nem vinda
         Querendo apenas me achar
          Sem no bolso nenhum dinheiro

          Pensei um dia se seria legal
          Viajar dessa forma
           Deixando minha casa atrás
           E a vida para frente

           Contudo o asfalto estava muito quente
           E tive medo de me queimar
           Tive medo de me aventurar
            E mais que isso de perder

            Por isso nunca parti
             Nessa longa vida
            Caminhada absurda
            Mesmo com a vontade muda

         

terça-feira, 17 de setembro de 2013

No médico

          Hoje minha cabeça sentiu uma pontada, meu coração acelerou, quase disparou em retirada. Os olhos ficaram cada vez mais presos e mais rígidos, o calor tomou o meu corpo e o meu braço esquerdo começou a formigar. Depois a perna direita falhou, senti o desconforto crescer cada vez mais, e escondi minha palidez.

       Tratei de ir embora, estaria eu perto de um ataque cardíaco? Um AVC? Mas eu não fumo, nem tenho uma dieta que foge muito de saudável. Corri pra pegar um ônibus, quase morri no meio do caminho. Cheguei suando feito um porco no coletivo e afundei-me na poltrona. Contudo, no segundo fui obrigado a ir em pé, a palidez do meu rosto era evidente;

       Desci do ônibus e rumei logo ao hospital. O plano de saúde funcionou pela primeira vez e logo fui atendido, reclamei com o médico e ele me perguntou: "Você tem dezenove anos? Como você pode ter ficado assim? Você fuma?"

       "Originalmente não, só quando fico muito nervoso. Aí varia, posso fumar um cigarro ou três de uma vez, mas isso é uma vez há cada duas semanas no máximo, não é rotineiro".

       "Hum. Você come comidas muito gordurosas? Salgadas?"

       "A priori não mais que todo mundo"

       "E sua rotina?"

       "Eu tava pegando umas sete matérias na universidade, um curso de idiomas. Mantenho um grupo de estudos, ando meio cheio com um artigo e ando me envolvendo com política. E tenho que trabalhar de vez em quando também e aparentemente quem estava ficando comigo não quer mais saber de mim"

       "Mas já, você ainda tem dezenove anos!"

       "Pois é..."

       "Você teve um acesso de pressão alta, vamos ter que fazer maiores exames. Sua pressão tá 13x10. Talvez seja estresse, tente dar uma maneirada nessa vida, senão você não chega aos trinta"

       "É, bem que eu queria, mas essa vida não quer me deixar assim"

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Chaveirinho

         O pequeno chaveiro
          Preso à porta
          Me olha sincero

         O pequeno chaveiro
         fita com temor
         bastante singelo

         Pois não tem mais
         portas para abrir
         E é meio deixado de lado

         Perdeu sua utilidade
         E viu-se usado como objeto
         O pequeno chaveiro perdeu
         Sua serventia

          O chaveiro está triste
          Balançado junto à porta
          Calado e taciturno

          Queria ver lembrarem do molho de chaves
          Que perdeu as chaves para o seu coração
          Pois o chaveiro é bem mais que um objeto
          O chaveiro também um dia foi gente

Vontade

        Empacoto meus livros
        Mais uma vez meu dicionário está largado
        Entre o livro do Pushkin e do Chomsky
        Sem saber o que dizer
        Vocifera algumas palavras em polaco
         Que eu esqueci o que querem dizer

         Os meus quadros estão dentro
          do assoalho, longe da parede
          Pegando uma poeira de nylon


          Os filmes estão encaixotados
           Os poemas esmiuçados
           Estou de partida para longe
           Um lugar que nem existe

           Bielorrússia?
           Ando pensando em ir pra lá
           América Latina?
           Também

           Meu espírito cigano
           Mais uma vez me leva
           A fugir mais uma vez

           Fugir de você
           Sobre a fumaça do cigarro
           O torpe do álcool

           Vou embora dessa vez
           Não quero sentir
           Dor e insensatez
   
            Longe é um lugar
            Que nem existe
            Longe é um lugar
            Onde o amor não resiste

            Minhas malas estão prontas
            Meu panamá está no cabide
            O chaveiro está na mesa
            Esperando eu partir
            De maneira ansiosa
            A camisa mal passada

            A jaqueta puída e surrada
            O sapato gasto
            A carteira vazia
            O espírito aberto

            Quero ir para longe
            de você
            Dessa vez o bem-te-vi
            Não está para se arrepender

            Rompeu a jaula
            E quer ser um pouco cigano
            Agir como pombo
            Lidar com o sono

           A andorinha
           Migratória
           Ao Minho
           Do fado
           Alucinado

            Ser imigrante
            Está no sangue

domingo, 15 de setembro de 2013

Bem-te-vi

        Sempre que olho para o alto
        Quero ser um pequeno bem-te-vi
        Procurar ter asas e planar uma vez
        Voar no céu procurando você

        Você que ama
        Brincar comigo
        Bem que podia saber
        O quanto dói viver sem você

        As nuvens do céu me lembram
        Que nada é tão perfeito
        Que apesar de tão linda e iluminada
         Você está longe de mim

         Também pudera
         Mas não canso de pensar
         Que um dia vou te encontrar
         E dizer na lata
         O bem que me fazes

         Às vezes penso que você
         é apenas um sonho
         Um desvaneio
         Que logo vou acordar

         Sentirei saudade
         Pois foges do bem-te-vi
         é verdade que existem muitos pardais
         Mas poucos são assim

         O bem-te-vi desaparece
         Perde-se no meio da selva
         Não sabe pra onde voa
         Só sabe que tem que te encontrar

         Enfrenta todos os dias o gavião
         Pobre bem-te-vi
         Tudo isso por ti
         Pobre bem-te-vi

         Caiu na água desesperado
         Procurando mais um beijo
         Está morrendo afogado
         De coração machucado

         Pobre bem-te-vi

         O quarto esfria mais um bocado
         Cubro-me do frio
         Temendo pelo bem-te-vi
          Que queria ficar do seu lado


          Pobre bem-te-vi

          Meus pesadelos voltarão
          Quando sumiu o bem-te-vi
           Procurando ser amado
         
          Pobre bem-te-vi

          Que futuro terá o bem-te-vi?
          Que futuro terei eu sem ti?
          Adeus bem-te-vi
       
     

Briga com Cupido

        Fique o Cupido
        atento ao que eu digo
        Pois não tem o direito
        de brincar assim comigo

        Levado amigo
        Do coração partido
        trouxe bastante atrito
        Fique atento comigo

        Levou muito agito
        Quando soltou o grito
        Quando beijou o delito
        E me deixou sustenido

       Pare de brincar comigo
       Eu já te avisei, Cupido
       Essa flecha helênica
       Troça mais que Sêneca

       Errou mais uma vez a mira
       Partiu outra vez a pira
       Queima o fogo contido
       De suor ardido

       Deixe-me só Cupido
       Não brinque comigo
       Estou de coração partido
       e de choro maldito


       

Poesia íntima

      Ouvi um dia, um cântico
      De tão sonoro atrito
      Preenchia o velho frio
      Com coração partido

      Amava o apelido
      Pinçado na noite
      Do bom amigo
      No grande açoite

      Beijava contido
      Sem grande ruído
      Tinha bom medo
      De ser remendo

      Para qual agito
      O vento batia
      na ombreira
      Sustenido

      Tenho medo
       De pensar comigo
       No dia perdido
       Logo cedo

       Toca o violino
        Sem corda
        Batendo madeira
       Segue pianinho

       Onde bate sino
       Leva meu coração
       Longe vizinho
       Dobras da paixão

       Senti e sinto
       Falta flautim
       Que hoje lido
       Longe de mim
     

sábado, 14 de setembro de 2013

Um quebra-noz perdido

        Os mais tristes dias contam a devassidão com que a nossa mente se preenche dos mais austeros tons de imagem e som, em que o sol não ilumina mais, mas acaba sendo um fardo que assola nossas costas. O teor canceroso das palavras não ditas preenche as linhas do esquecimento e desabam na autoafirmação do mais sincero silêncio.

        Não que não seja de fato algo recorrente, de fato chega a ser rotina, os desatinos mais comoventes não se dão por tamanha sinceridade nos versos, mas no mais taciturno dos dias. Ninguém é tão sábio de querer romper esse maldito silêncio. De fato nem eu sou tão sábio, pois a sapiência é uma corrente tão estúpida do pensamento platônico que recheia nossa mente com tremenda estupidez.

       O sintagma sonoro com que sou obrigado a ouvir todas as vezes que sou deixado de lado é de tal forma tão negligente que martela minha mente de tanto pensar, pois afinal de contas, esse vínculo vicioso é tão absurdamente convexo e complicado, suntuoso, que não parece ter tamanho fim. Não sei se há como superá-lo mesmo tentando romper os grilhões que me atam ao triste passado, não sei como fugir dessa melancolia que me consome todos os dias, retira a cor dos meus olhos e me deixa cada vez mais de rosto esquálido.

         Talvez seja verdade que a vida nos pregue peças, que os nossos sentimentos ofuscam nossa visão, que a mais derradeira conversa engana o mais idiota dos sábios. Talvez seja verdade que se apaixonar seja a maior maldição desse século, onde não temos pontos seguros e não sabemos para onde irmos. Onde não temos maiores convicções e não temos a quem sentir qualquer identificação. É fato que tudo isso é algo construído e assentado de maneira concisa na mais tristonha experiência empírica.

      O fim dessa hecatombe emocional parece não chegar, e o masoquismo com o qual eu estou acostumado toma novas formas mais delgadas. Sinto-me de certa forma usado, como um objeto que depois é largado como se uma criança se enjoasse de um brinquedo.

          O brinquedo se revolta, some, desaparece da sua arca fechada da qual sufoco meu espírito e vago sozinho procurando o que fazer. Sou apenas um  bonequinho de chumbo, um quebra-nozes que não consegue mais marchar quanto deveria, que manca quando pensa no duro caminho a correr. Que tenta ser mais do que um mero bonequinho de luxo e quer se tornar seu para sempre, que quer ser levado para a sua cama, quer ser aninhado de vez em quando e que você conte algumas histórias. O quebra-nozes está meio desgastado, é verdade, passou muito tempo largado e agora está meio revoltado com essa posição de brinquedo jogado em qualquer canto.

       O quebra-nozes tem medo de sair e ficar no limbo novamente, mas se vê desconfortável em pensar novamente em ser deixado dentro do baú empoeirado de novo, no escuro da noite, enquanto escuta o som fragilizado de uma caixinha de música meio melancólica.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Bukharin: o teórico esquecido







           Um dos mais importantes teóricos do marxismo, Nikolai Ivanovich Bukharin talvez tenha sido o precursor nos trabalhos sobre o estudo de construção de uma nova sociedade, onde ele mesmo descrevia que o marxismo era uma luta não necessariamente só física por uma nova sociedade, mas uma luta diária e ideológica contra o antigo regime. Onde a religião e os antigos meios de comportamento não seriam abolidos pela força, mas por uma constante luta no campo cultural para reafirmar os valores marxistas.


        A política cultural defendida por Bukharin era algo bem desvencilhado do que viria a ser o Realismo Socialista, ele defendia que os autores e os artistas tivessem liberdade criativa desde que não ferissem os princípios caros da aliança entre os operários e camponeses. Pasternak, Maiakovsky, Maxim Gorky, todos esses constituíam não só o círculo de autores admirados por Bukharin como também eram amigos desse teórico, de modo que o suicídio de Maiakovsky o marcou profundamente.

      No campo científico, Bukharin ficou por um tempo responsável pela construção da Academia de Ciências da União Soviética, embora não fosse um cientista de carreira, e sim um economista e um advogado, Bukharin fez um grande serviço ao tentar conciliar os parâmetros do marxismo e do materialismo histórico com o regime de ciência que se desenvolvera até então na Academia. Teve seus atritos com o teórico da biologia, Ivan Pavlov, por esse cientista ter criticado (corretamente) a visão dos bolcheviques de uma única verdade, o que frustrava o próprio propósito da ciência de procurar novas respostas. Bukharin criticou Pavlov é verdade, em seu "A revolução mundial, nosso país, a cultura, etc. (Resposta ao professor Pavlov)" Bukharin se defendeu das altas críticas que recebeu de Pavlov aos seus dois livros, Revolução proletária e cultura e o ABC do Comunismo.  Pavlov chegou a declarar que: " De que desenvolvimento da cultura podem falar pessoas que, Bukharin inclusive, têm as mãos sujas de sangue".


        Bukharin tinha sido responsável no período da Revolução pela tomada do Kremlin, e coordenou o movimento bolchevique em Moscou. Mas com uma docilidade extrema disse: "a estrutura metodológica e os resultados das pesquisas do prof. Pavlov são uma arma no sólido inventário da ideologia materialista. E o materialismo hoje, em nossa época, é, não devemos esquecer a ideologia do proletariado [...] Logo, é inteiramente compreensível que exsta em nosso ambiente marxista - e sempre existirá - respeito por todos os cientistas que tomam posição contra as turvas tendências mistificantes. Repetimos: cientistas assim, independente das suas intenções subjetivas, trabalham pela mesma causa pela qual nós trabalhamos, marxistas revolucionários. E o Prof. Pavlov pertence exatamente a essa categoria de cientistas"

      Os dois passaram a se conhecer mais depois do episódio, e debatiam sobre biologia em termos bem acadêmicos, embora muitas vezes discordassem, Bukharin tinha conhecimento da teoria de Darwin e conhecia sobre pássaros e mamíferos. Pavlov chegou a frequentar o apartamento de Bukharin tal como outras personalidades da URSS para discutir sobre ciência e biologia.

    Inevitável falar que Bukharin era um economista. Um economista que não só entendia a realidade do seu tempo e percebia que mudanças bruscas na política econômica, numa coletivização forçada do campo e numa industrialização acelerada desafiariam a própria existência do trabalhador rural comum soviético, como também foi ele um dos elaboradores da NEP. A NEP, Nova Política Econômica era algo profundamente provisório feito conforme as necessidades, mas que resultou numa melhor palatina do cidadão comum soviético. A economia mista soviética onde o Estado detinha os recursos, as grandes empresas e os aparatos administrativos enquanto podia haver a permanência de uma pequena propriedade, sobretudo no campo, contanto que não fosse produto de exploração do trabalho de outra pessoa. A NEP foi abolida em 1929, sob crescentes resistências de Bukharin à política de Stálin de hostilizar os camponeses, mas Bukharin foi vencido pela linha estalinista.

Gravura de Bukharin sobre Lenin

      Advogado de formação, Bukharin também auxiliou a elaborar a Constituição Soviética de 1936, uma das mais democráticas até então. Garantia as liberdades de pensamento, liberdades civis, inviobilidade do lar e de correspondência, bem como o direito e dever de todos trabalharem na sociedade soviética. Infelizmente as ideias de Bukharin foram corrompidas com a implementação da Iejovchina.

     Em processo de ser condenado ao ostracismo, Bukharin foi nomeado redator do Izvestia que se tornou o segundo jornal mais popular da União Soviética, correspondia a um jornal que não seguia diretamente a linha do governo, embora jamais tenha sido de oposição. o Izvestia publicava notícias cotidianas, artigos científicos, convocações, e poemas. Pasternak chegou a escrever para o Izvestia.

    Mas nada disso traduz a essência que foi Nikolai Bukharin, pai, esposo, amigo. Cartunista, escritor, economista e revolucionário. Bukharin era tudo isso e muito mais, excelente orador, conquistava as massas com o seu estilo simples e pessoal. Ele constituía a ligação que o Partido tinha com o povo e sobretudo com o campo.




    Bukharin representava o jovem rapaz que um dia se tornou revolucionário, que realmente queria mudar o mundo, mas não se deixou mudar diante os problemas. Bukharin pode ser criticado por muitas coisas, mas não pode ser criticado por não ser honesto. Morreu como revolucionário, embora tenha sido tão bem humilhado no altar do sacrifício da hecatombe stalinista. 

    Morreu desesperado, deixando seu velho pai doente para trás sem amparo, beijou sua jovem esposa Anna Larina, e seu filho recém nascido, e foi levado pelos guardas do NKVD para a Lubyanka, o terrível lugar conhecido pelas torturas e pelos anos de cadafalso. Dizem que Bukharin não foi torturado, mas ele foi humilhado. O sorridente Bukharin que brincava com Lênin, Gorky, Rykov e Ordzhnikidze e outros, que rascunhava alguns desenhos das mais chatas reuniões do Politburo, que falava de literatura com Gorky e Maiakovsky, de economia com Lunatchevsky, biologia com Pavlov e ainda arranjava tempo para escrever para o Pravda e Izvestia, morreu de uma forma tão infeliz que até hoje esquecem-se quem foi ele. 

       Ninguém sabe onde ele está, ninguém lembra de como ele foi importante e do caminho que ele abriu para outros teóricos como Gramsci. Ele morreu e foi esquecido por culpa de um regime tão sanguinário como o estalinismo.

   
Stalin  com o seu habitual cachimbo, retratado também por Bukharin


Trotsky vagando pelo mundo, por Bukharin
















Sergo em seu traje de gala




                                                  Bukharin com Rykov discursando

Anna Larina, esposa de Bukharin, enquanto jovem



A família do Gulag, Yuri Larin é o jovem pai de olhar compenetrado, ao seu lado está sua esposa e os seus dois filhos, netos de Bukharin


Filho de Bukharin hoje, Yuri Larin , tal como o pai, possui uma veia artística forte, sendo um renomado pintor contemporâneo na Rússia
        Fizeram há algum tempo atrás um documentário sobre a trajetória triste de Anna Larina desde o prisão de seu marido e sua consequente prisão para o Gulag na condição de zek: Disponível em: http://vimeo.com/54557097

         Em entrevista à Fundação Russkiy Mir, o filho de Bukharin trata de como foi sua vida sem sua família e como soube que era filho de Bukharin:  http://www.russkiymir.ru/russkiymir/en/magazines/archive/2008/07/article0002.html


 Alguns escritos de Bukharin estão disponíveis digitalmente no site: http://www.marxists.org/archive/bukharin/

       

         O silêncio com que colocam sobre sua voz descreve mais do que mil palavras. Pois quando ainda existe quem pense em Bukharin, ele ainda continuará vivo como sempre ele foi, teórico do Partido, amigo de Lenin, e um bom comunista. "Koba, por que precisa da minha morte?"

Sentimento inerte

        Incapaz, somente incapaz.

       É assim que eu me sinto e me descrevo. Não estou conseguindo conversar com você do jeito que eu queria. Nessa incapacidade fico cada vez mais complicado em mim mesmo de modo que volto a ser um imbecil e frígido que sempre fui ao não demonstrar as emoções que sinto bem no meu consciente;

       Estou te perdendo por ser eu mesmo, estou te perdendo. Esta é minha impressão. Na imbecilidade da minha longa solidão eu me bloqueio de tal maneira que começo a sentir novas vibrações tomarem a boca do meu estômago, será medo? Fragilidade? Ignorância?

       Às vezes tudo o que eu preciso é de um abraço apertado, um beijo molhado. Quando eu estou nervoso esse é o melhor remédio, mas sem ele fico pensando em fumar um novo cigarro. Ainda bem que parei, isso me fazia mal.

      Essa indecisão corrompe minha mente e desfaz as minhas virtude que acabam se esfarelando com o imenso vendaval que carrega a areia desse deserto emocional. Amar é arar o mar, pintar sobre o relento, gritar para um surdo.

     O silêncio descreve a aridez torpe que corrói toda a minha vida que de certa forma é vazia e asquerosa. Uma vida que é difícil de ser escrita e abandonada; crescente é o medo é verdade. Medo de perdê-la é algo presente, mas ando tendo medo é de ser dominado por esse estranho sentimento que é estar apaixonado de novo. Desvencilho-me de velhos sonhos que ainda possuo, mas os quais não tenho coragem de contar - Isso é errado; Afinal queria lhe contar mil coisas da minha vida, mas o silêncio é algo que parece tão imperativo que nenhum som saí da minha boca.

       Hoje algo me permite falar. Falar tudo que eu penso e faço, estou me sentindo bastante inseguro como se o terreno estivesse sido mudado e me sinto bastante estúpido por ficar desnorteado. Levado por minha inexperiência (ou melhor, minha experiência adversa) tenho às vezes medo de falar tudo o que eu sinto. Senti falta de mim mesmo quando não tomei a iniciativa de falar com você naquela hora, quando não te beijei como eu queria; Fico pensando se ainda continuo tão solteiro quanto antes, na realidade essa indecisão me faz sentir assim.

         Sim, estou só. Sempre fui meio sozinho no mundo; Você deve ter percebido isso quando me encontrou sozinho meditando sobre a vida naquele banco qualquer. Sou tão solitário que precisava de alguém para dividir os meus medos, um porto seguro, que você tão pacientemente anda sendo. Mas às vezes fico pensando que não consigo fugir da minha cortina de solidão quando estou perto de você.

         Fico me perguntando o que você viu em mi? Já que não sou tão belo quanto penso, nem tão inteligente e às vezes meio fadado à melancolia. Um incapaz sem ideias ou sentimentos; Um surdo-mudo que se esforça pra brincar com as palavras, mas não consegue dizer nada.

        Eu não estou sabendo agir, dizem que talvez eu me sinta tão machucado que não tenha total segurança para dividir a minha vida com outra pessoa. Não penso assim, afinal eu vivo sentindo sua falta e falo feito um colegial o quanto gosto de você; O problema que você convive de vez em quando com pessoas que me parecem repulsivas à primeira e também à segunda vista.

       Ando refletindo muito sobre isso, paro para pensar que você deve ter achado que o meu encanto deve ter desaparecido nessa semana que eu estive fora. É bem capaz, na realidade. Agora talvez você reconsidere o fato de ficar comigo, talvez perceba que eu não seja o melhor para você que existem pessoas mais interessantes, e muito menos inseguras, pois pareço estar cada vez mais carregado com a minha fragilidade por dentro do casaco pesado de tristezas e amarguras que costurei para mim mesmo.

        Também você pode reclamar o quanto sou reclamão, afinal conheci uma das mais belas e inteligentes moças que eu tive a oportunidade de conhecer e mesmo assim fico divagando um ensaio sobre a insegurança. Eu me sinto um chaveirosinho largado na gaveta do seu quarto ou me sinto dentro de um conto do Tchekhov no seu armário empoeirado, onde você seria a dama do cachorrinho e eu seria aquele infeliz que se apaixona terrivelmente por ela. Será que sou o cachorrinho dessa história?

         Estou me sentindo cada vez mais desconfortável com esse lugar. Estou partindo desse antro cada vez mais sórdido com uma fatia de esperança no peito, de voltar a te encontrar no Facebook, ou nesses corredores sem interferências dos seus amigos que deixam tudo mais complicado. Tenho a esperança que você também venha me beijar e que venha me abraçar quando achar que estou meio triste. Às vezes é tudo o que eu preciso e eu quero;

           No meu medo, eu estou ficando cada vez mais inerte. O suor frio seduz as linhas angulosas e esquálidas de meu corpo, afunda minha paciência e leva o pouco de humor que ainda tenho acumulado após tantos anos. Não quero nada além dos seus doces beijos e dos abraços, além de esquecer o estresse que se torna cada vez mais constante cada dia que eu não te vejo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sobre os protestos de 7/09

        É pernicioso acreditar que um movimento tão caro tenha mudado  tanto; As marchas hoje tomaram um caminho tão diverso que diferentemente de Julho, estão voltadas mais para um apelo cívico do que um senso de reformas ou mesmo uma Revolução. Em Julho parecia inevitável o fato que o governo iria cair, embora o povo ainda não tivesse pautas definidas. Povo? Desculpem, a classe média, ou melhor, voltemos aos conceitos marxistas que nesse caso devem ser empregados: a pequena-burguesia.

       Sim, realmente não foi o povo na sua definição mais proletária de conotação, mas sim um povo que se caracterizava por conceitos nacionais. Como brasileiros, pessoas que beijavam a bandeira dos Bragança modificada,  que gritava a plenos pulmões o hino nacional e marchava inutilmente no espelho d'água no Congresso Nacional. Esses indíviduos acreditam ser os grandes revolucionários que postam no Facebook imagens de si por cima do domo do Congresso projetado por Niemeyer sem compreender que nada disso trouxe tantas transformações quanto se deveria;

       É verdade que a pequena-burguesia está se vendo cada vez menos representada, embora esteja crescendo em  número, ela não se vê representada pelas medidas assistencialistas do governo, tampouco representada pelos grandes grupos detentores do capital, embora ela possua inveja de milionários como Eike Batista e Abílio Diniz. Essa classe de pessoas é a mesa que viaja sazonalmente aos Estados Unidos fazer compras, possuí uma calça da Levi Strauss (sem sequer pensar que Lévi Strauss também é o nome de um grande antropólogo estruturalista) e óculos Warfare Rayban.

      Não os estou julgando, seria hipocrisia, em julho era eu que gritava lado a lado com eles contra o governo, embora não tenha ouvido um único trecho da Internacional no meio daquela massa que gritava o Hino Nacional. É engraçado, porque num protesto dessa natureza é o sistema inteiro que deve ser criticado, desde os seus mais perniciosos pecados, como a repressão dura policial, até o seu caráter simbólico: A bandeira e o Hino Nacional, mas o que vimos ali não foi algo diferente de uma partida de futebol, onde todo mundo está zangado por causa do modo como o juiz o conduz, com as faltas mal empregadas e os cartões injustos, enquanto o outro time está se valendo de carrinhos e outras coisas, enquanto a gente canta o Hino Nacional com a mão no peito. É algo estranho.

       Marx diria nesse momento que é a pequeno-burguesia percebe o acirramento das contradições internas do sistema e o seu processo de proletarização, mas Marx equivoca-se, a pequeno-burguesia não possui tal consciência e pelo contrário, as contradições internas estão sendo aplanadas pelo neopopulismo petista. A pequeno-burguesia na realidade está crescendo, mas os velhos grupos pequeno-burgueses apercebem-se  que não possuem o mesmo poder político e de compra como antes, de modo que não se veem representados por nenhum partido político, assim vão para as ruas.

      Contudo vão às ruas sem um projeto. É verdade, boa parte constitui uma juventude pós-Muro de Berlim que não possui a profundidade de uma leitura socialista que poderia ser interessante nessas horas; De fato o apartidarismo é tão crescente que qualquer grupo político que deseje se manifestar é profundamente rechaçado, de fato, no período de ascensão do fascismo, qualquer movimento que carregasse um estandarte de um partido político era para ser rechaçado à força.

      Sim, o movimento de agora realmente tem características meio fascistas, como a valorização da Nação antes de tudo, combate sistemático da corrupção (como se alguém fosse a favor dela) e o antipartidarismo. Não possui uma ideologia própria, mas possui um antiesquerdismo exacerbado pela parte de alguns. O problema que a pequeno-burguesia é facilmente manipulada e alienável, pois ela própria, segundo Marx, não possui uma consciência de classe e possuí aversão à classe trabalhadora. O caráter alienatório com o qual a pequena-burguesia possui cria distorções tão absurdas como o culto à personalidade de uma personalidade notoriamente anarquista (V de vingança) com ideias nacionalista e beirando ao autoritarismo.

      Em verdade, o fascismo caracteriza-se por uma tentativa de romper com a ordem democrática fragilizada e impor uma nova ordem de massas, onde as contradições sociais virtualmente desapareceriam, contudo era um movimento de massas; Um movimento de massas em favor da pequeno-burguesia, esse é o grande xis da questão. Até onde nos guiará esse levante da classe média sem um princípio norteador, qual seria o rumo dessa manifestação toda. 


     Logicamente não serão novas ditaduras, a época para ditaduras já passou, mas pode ser um estado de viés um pouco mais autoritário e centralista, e isso ameaça as liberdades individuais do homem e do individuo, sem levar em consideração que atrapalha o projeto de construção de uma sociedade sem classes sociais. Os movimentos de setembro agora apagam o fogo revolucionário de Julho,  retira o papel revolucionário do movimento e tomam um caráter cada vez mais diversificado. Resta saber se a continuidade representará uma mudança no movimento ou ele se extinguirá de uma vez por todas como fogo que se esgota após um vendaval.

       A Revolução é a única solução que se apresenta hoje, entretanto como todos nós sabemos, Revolução pressupõe sangue o que nenhum dos manifestantes está disposto a desperdiçar, de maneira que não há grandes projeções para tal movimento no futuro próximo. A Revolução é o meio pelo qual as massas são ouvidas, ou como Karl Marx dizia, é o festival dos descamisados, dos que não têm nada.

Versos espalhados 2

         Somente hoje quero dizer
         Impetuosamente falar
         Nada menos que um canto
         Trovado no esquecimento
         Os dias doces que vivi

         Somente hoje cantarei
         Uma valsinha de criança
         Anedota do saber

         Frustrante pensar que eu sei
         Alguma coisa desse recanto
         Ludibriei o cupido ciumento
         Todas as vezes que eu disse
        "Amor, eu sei cantarolar"

Versos espalhados 1

           A aurora desse novo dia
           Manhã de grande alvorecer
           A centelha que brilha
           Nada pode fazer
           De nada resolver
           Amar sem você

           Elegante é esquecer
           Uma vez só

            Teoria dessa vida
            Existência do ser

             Amar é sentir
             Muitas vezes
             O modo como me confundo todos os dias

domingo, 8 de setembro de 2013

Esforços

         Tento em vão gastar meus esforços a aprender um pouco de polonês, mas minha mente anda tão carregada que nada anda mais tão fácil como antes. Então vejo que seria bom escrever um pouco, mas minha inspiração anda indo embora tal como a tinta da caneta. Eu estou virando acadêmico e estou percebendo isso.

        Isso ao mesmo tempo me deixa feliz como temeroso, feliz porque finalmente estou virando um historiador, e triste porque estou perdendo a minha veia poética e minha sensibilidade para o amor. Contudo, não acredito que esteja me tornando algo tão diferente de mim, esteja me tornando cada vez mais bronco nas palavras e nos versos, cada vez mais vazio e sem inspiração, como se estivesse esgotando toda a água de um deserto. Sem as palavras, sem os versos, eu não sou nada, nem mesmo um poeta-proletário como brincava Maiakovsky.

            Em verdade, ainda tento escrever um pouco, embora não tenha mais tempo. Não tenho tempo mais para nada, é, acho que enfim se foi a minha mocidade. E foi cedo, por sinal, não vi nem o tempo passar. Meus cabelos estão começando a ficar brancos sem ter nem mesmo completado vinte anos! Hoje nasceu o terceiro fio grisalho, logicamente o arranquei. Arranquei o fio de cabelo com tamanha veemência do modo como o tempo arranca minha vida. Queria ter tanto tempo, queria ter tempo de escrever, ouvir e olhar. Queria ter tempo para refletir e para filosofar. Mas sobretudo, eu queria ter tempo para namorar. Bem, não é bem namoro, e sim algo um pouco mas complexo. Mas como ela é bonita e inteligente. Meu Santo Maquiavel, como ela é inteligente, uma das mais doces criaturas que eu já conheci e eu estou sendo um imbecil em não acompanhá-la do jeito que eu queria.

         Nem poderia, tenho tantas responsabilidades agora. Deveria dar um tempo de tudo, mas não posso; Dizem que sou um tanto importante, duvido que seja; Dizem que eu sou trabalhador, se sou, poderia trabalhar mais um pouco. Dizem tantas coisas que nem chego a acreditar. Eu sinto falta dela, das risadas dela, dos abraços e dos beijos. Sim, dos beijos, mas como eu disse, sou um idiota em não passar o tempo que eu queria com ela. E também acho que ela está saturada de mim. Bem seja verdade, eu também estaria no lugar dela, afinal sou tão complexo que até um matemático não conseguiria desvendar a equação da minha vida.

         Estou me tornando cada vez mais difuso e com particularidades. Não sei se vocês me ouvem, ou leem essas narrativas sem muita graça (confesso eu, já foram bem melhores antes), mas meus versos proféticos e desesperados andam tropeçando na ponta do ponto e vírgula, esbarram no travessão e se retem no meio das aspas. São palavras que não escrevem nada, não pontuam nada e não sentem nada. Palavras que levam apenas letras na sua composição sentencial da ordem gramatical. Esqueço-me que não se pode fazer rima no interior de prosa dominical.

          Bom, ando meio ansioso ultimamente. Nervoso para terminar com as minhas obrigações, me sentar de fronte à mesa, ligar o som com uma boa música do Rachmaninoff, e retirar o pó da minha máquina de escrever, que pelo que eu lembro anda com problemas com o teclado. Se fosse só ela. Minha mão anda pesando quando começo a escrever com a caneta tinteiro,  de tal forma que estou perdendo a prática, minha letra anda cada dia mais feia e o papel vem envelhecendo cada vez mais no meu caderno.

          Ando cada vez mais irritadiço, comigo e com os outros. Não posso entrar num lugar sem brigar com os meus conhecidos, aparentemente todo mundo está cansado e eu estou percebendo isso. Estou tão irritadiço que nem ando falando direito com quem eu deveria falar.

          Não encontro mais o meu porto seguro tanto quanto deveria, não a encontro mais pelos corredores, não sei se ela anda me evitando ou se nossos horários não andam se encontrando. Tenho medo de acabar perdendo-a por ser tão assim, tão redondamente eu, às vezes frio, vazio e sem sentimentos, às vezes melancólico, calado, e carente. Ela deve ter descobrido que eu sorrio mais por decoro do que por sentimento, na realidade não duvido. Eu gosto dela realmente, como pessoa e mais como isso como possível companheira, às vezes nos compreendemos tão bem que me sinto como se fossemos um, às vezes discutimos tanto que fico me perguntando o que ela viu em mim. Realmente o que ela deve ter visto? Não sou tão belo assim quanto eu imagino ser, nem tão inteligente, sou solitário e terrivelmente sozinho. Brigão às vezes, chego a ser até chato que vive reclamando da vida mesmo sabendo que  existem pessoas que sofrem muito mais. O que ela viu em mim? Eu não sei.

           Talvez minha franqueza, eu sempre fui bastante franco, isso é verdade.

           Agora nela eu vejo tantas coisas, ela é sim bastante inteligente, é amigável e divertida. Embora às vezes fique até mais taciturna que eu, ela consegue levar as situações a seu favor. E sim, como ela é sorridente. Bonita também. Eu não sei, eu tentei me pautar por critérios de personalidade, mas não posso esquecer que ela é muito bonita. Queria escrever palavras mais bonitas para ela, dizer que ela foi esculpida no mais divino trabalho divino, que seu jeito meio de moleca me diverte cada vez mais, que de vez em quando, quando ela põe o cabelo para trás, ela parece a Pocahontas, e que ela tem os mais doces lábios que tive a oportunidade de beijar. 

       É verdade, que duvido que ela venha a ler tais palavras; Eu tenho a impressão que qualquer encanto que eu tenha produzido já tenha sido dinamitado pelo tempo; Que ela não irá mais querer das minhas histórias, dos meus medos ou dos meus carinhos. Que ela não saberá mais a hora de me abraçar quando eu estiver me sentindo sozinho ou eu também não saberei como agir quando ela estiver me contando uma história triste. O fato é que eu gosto dela, mesmo não mais me encontrando do jeito que eu deveria e morrendo de vontade de beijá-la a qualquer momento que a vejo, abraçá-la e como um colegial dizer aquelas três palavrinhas infelizes: "Ja lubię ty". 

        Parece que eu ainda lembro alguma coisa de Polonês, menos mal. Faz tanto tempo. Isso é secundário quando eu fico com a mente cheia. Cheia das besteiras que me contam, as intrigas e os assuntos do trabalho, que tornam a vida cada vez mais enfadonha. Terrível. Eu só queria ter um tempinho pra mim, isso não é pedir muito, por causa dessas intrigas quase não vi meu pai, quase não encontro com a minha querida companheira. E quase não tenho tempo para sentir novamente. Aí eu fico à beira do colapso.

        Eu quero sonhar novamente, não do jeito que eu sonhava antes. Não posso mais mudar o mundo do jeito que eu queria, não posso ter como desejar uma família como eu desejei na infância, não posso desejar uma parceira para toda a vida, tenho que ser realista. Nada é eterno, nada. E isso às vezes é bem frustrante, pois acabo perdendo parte de mim no caminho. O tempo é o que mais se perdeu nesses anos, a felicidade também, a tal ponto que fico me perguntando se é possível tornar-me feliz de novo. Eu estou cheio de dúvidas.

         Não tenho dúvidas quanto ao que eu quero agora. Deixar meu passado morrer atrás de mim, largar algumas responsabilidades e passar o tempo com o que realmente importa, ficar ao lado de quem eu gosto, e beijá-la o quanto antes.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sete dias

           Sete dias fora; sete dias pensando em você.

           Sete longas noites passando frio, escrevinhando algumas coisas enquanto não sentia grande conforto nessa vil solidão. Dormi sozinho abraçado à minha mala com a vil esperança de voltar para casa. O frio corroeu minha mente nessa longa semana que se arrastou, não tive a menor vontade de sair da minha fria barraca e nem cumprimentei o meu vizinho de frente.

          Estava escuro e frio. Senti medo algumas horas é verdade, tivemos momentos de tensão, mas eu continuava a escrevinhar sobre você, tentando desenhar na minha mente os contornos áureos do seu rosto risonho, ao contrário do meu que só envelheceu. Não acredito que fui para tão longe.

         Senti saudades suas, de meu pai também, o qual mal pude ver quando cheguei, que estava de partida tanto quanto eu, e da minha irmã também. Minha mãe estava aflita quando entrei pela porta, achando que nunca mais iria voltar, eu sempre a achei meio dramática, mas eu penso hoje que talvez pudesse realmente não mais voltar.

       Eu tenho espírito de cigano, minha vida é uma longa viagem, embora sinta por vezes saudade; Isso corrói é verdade, não era pedir muito querer ficar perto de você por mais algum tempo, mas esses sete dias mudaram muita coisa não foi mesmo? Não estamos mais tão sorridentes quanto antes, nem sei mais porquê. Eu fico pensando nisso, não tivemos mostras de carinho nem nada parecido, eu fiquei calado e você também ficou muda.  Estranho, tinha tanto a dizer.

       Injusto isso, realmente injusto;.

       Derivado disso tudo, esses sete dias poderiam ser mais felizes, mas a felicidade está em algum canto da minha mala, espalhada no meio das roupas sujas ou dos cosméticos que derramaram. De quebra tenho de brinde a mais chata das gripes, estou tão enfermo que a tosse dói até o pâncreas.

        Mas isso me lembra a música do Carlos Gardel, onde nada mais se deseja senão voltar ao próprio aconchego. Eu vejo às luzes à distância, o brilho do seu sorriso discreto, na estrada de onde ecoa o látex do pneumático procuro a sua voz. As estrelas zombam de mim nessa vil esperança de chegar mais cedo e a noite se arrasta.

        Volver... uma semana não é nada, com o rosto murcho de tanto sofrimento. Mas voltar finalmente, os olhos febris olham de novo pra Brasília  com a vontade de te encontrar mais uma vez, enquanto o meu coração continua a gemer a canção de Gardel bem silenciosamente.





Aço incandescente II

         Esperanças e medos          "Todas as vezes que penso na grandeza desses dias, penso em Maiakovsky:                 'C...