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sábado, 28 de março de 2015

Nada a invejar

Preâmbulo

         Nada a invejar. Este artigo é apenas um pequeno ensaio sobre os sentimentos de um jovem que busca o admirável mundo novo ... Como a humanidade é bela! O admirável mundo novo, que tais pessoas nos trazem.

       Minha opção para escrever em português é apenas momentânea, nada acontecendo com minhas idéias sobre o idioma lusitano, mas eu tenho o compromisso de descrever as pequenas situações que ocorreram para mim e para as pessoas do que cercam minha pequena pessoa.

     O que aconteceu com a humanidade nesta época? Terríveis tempos. Eu só preciso saber, ou não? Não, eu não. Sentindo-se o passado é nada a invejar, por isso, como posso lembrar de coisas que não aconteceram para mim? Eu não sei, talvez eu tenha humildade para parar meus pensamentos quando tenho escrito, talvez a minha arrogância é apenas maior do que meus sentimentos tão refinados que uma poesia. Mas nada a invejar.

        Veja o futuro de um sistema operacional que nada tem controlado. O sistema de espírito.





...


         Esses eventos ocorreram na vida suburbana de uma metrópole. Grande, mas não  a maior. Pode ser Nova York, poderia ser Paris, Londres ou Munique. Mas não, isso ocorreu no sul, América do Sul, com precisão.



           20 h 30. Nada aconteceu de novo. Quando lembro todas as noites dos vazios das luzes amarelas que pincelam o asfalto negro, quando o vento martiriza nossos semblantes com um licor congelante em seu sopro, nada é mais do que uma simples miragem no deserto de concreto armado;

                Entrar em casa sempre é uma tarefa que exige um mínimo de esperteza. Não só porque a vida esteja tão cheias de segredos, sobretudo da porta para dentro, mas também os segredos muitas vezes enganam nossos olhos. Como disse, a noite estava arrastando-se e os olhos estavam voltados para o movimento da rua. Não havia ninguém. Pelo menos não achava.


            Cortada a injeção de adrenalina, espera-se que tudo se tranquilize quando se chega em casa. Quando gira-se a maçaneta dourada da porta de madeira e identifica-se a luz pelos vitrais amarelados. Quando se arrastam as dobradiças e se inaugura uma imersão a um novo ambiente que lhe é tão caro.

            O sofá azul marinho de tecido rústico, as cortinas em desenhos florais em verde-água. A parede nua de qualquer arte que não seja os afrescos dos cabidais de gesso no teto. A televisão sempre se torna mais convidativa, à entrada de uma casa, ela sempre reflete a alma de seus moradores. Outrora fora o rádio, e antes disso, a biblioteca; Pensar às vezes é difícil quando você se expõe ao toque negligente do vidro laminado a refletir seus próprios olhos numa porção convidativa de espelho.

               Na frente da televisão, somos todos iguais. Um velho provérbio dizia; Mas não, não era esse o caso. Colocou as chaves na mesinha contígua, um MDF barato que descascava com o tempo e foi pelo corredor no final da sala, estreito e frio, até uma das pilastras junto à escada; Dois quartos se entrelaçavam no caminho, e os cadeados estavam pendurados na parede. Saiu, saiu no frio. De fato , já era 20h 40. A noite continuava se arrastando.


           Passou pelo automóvel na garagem, um sedan qualquer, branco, que nunca fora muito potente. De fato nunca passara dos cem, mas era a sensação da garagem. Olhou para a parede de fora, com as cerâmicas verdes recentemente pintadas, a caixa de correio e a lixeira retráteis e pensou estar seguro num pequeno forte em um terra estrangeira. Fechou o portão com os três cadeados. Não esperava nada demais, e não houve.


          Preparou em um bule, um pouco de água fervente e esquentou a cuia de madeira com um pouco de erva-mate. Era um hábito gaúcho.  Incomum, mas ainda assim rotineiro. Despejou a água na erva e esperou inchar a erva. Da cozinha, passou para a área de serviço, a pequena biblioteca sem livros num quarto contíguo e subiu um escada em caracol; Uma escada de ferro branco, escovado, onde embaixo se escondiam uma bicicleta empenada e alguns caixotes de madeira.


           A escada fazia barulhos estranhos e tremia, a parede escondia uma textura que cortava os cotovelos, e o arrastar da pasta de couro atritava com as ferragens do corrimão. Retirou os sapatos junto ao final da escada e jogou-os junto a um hack onde ficava o rádio. O piso de cerâmica estava frio. Ligou a luz branca que povoava o cômodo e a parede azul começou a limpar sua mente. Cansaço, era o que sentia.


             Jogou a pasta para longe. Entrou num cômodo onde numa estranha sensação de pesar sentiu-se estranhamente confortável. Havia três estantes repletas de livros que envelheciam como vinho meio à poeira e os ácaros, dando um odor estranho de mofo com cravo da índia. Encontrou escrivaninha nova, aquisição recente, onde estavam depositados alguns papéis avulsos, a História de Roma, de Tito Lívio e o laptop preto entreaberto, do lado, conserva-se o conluio entre o antigo e o moderno. O computador de mão e a velha maquina de escrever com uma carta escrita ao meio. Aquele longo deslocamento era proposital.

          Na parede havia dois ou três quadros, todos impressionistas, um primeiro em perspectiva de uma avenida desconhecida de calçado pé-de-moleque, cheia de pinheiros em direção a um Arco do Triunfo. O segundo, uma paisagem floral ao redor de um rio de onde podiam se ver montanhas distante. E o terceiro, um retrato de uma moça morena, de cabelos negros, trajando uma camisa de gola que parecia ter um efeito especial na tela, embora estivesse encolhida atrás de uma das estantes.  Havia nessa estranha composição um arco e flecha indígena, meio retorcido e novamente bonito, que tinha um estranho efeito belicoso num cômodo tão artístico e de novo um relógio de areia que brandia o descontentamento e ansiedade quando nada mais parecia dar certo.



          Esse cômodo era escondido e fechado, só para si. Num espaço de reflexão, o rádio tocava uma música, mas o teclar das teclas era o que povoava sua mente. Difícil ser criativo hoje em dia quando tudo o que era genial já foi escrito. Entretanto era uma tarefa que se dedicava todos os dias, o nariz parecia estar pesado, tencionou cheirar um pouco de rapé. Mas eis que o celular vibrou na madeira da mesa. Aquilo foi um foco de desconcentração.


        Decidiu sair da cadeira, com a ideia resoluta na cabeça de que estava com fome. Seu estômago parecia inchado e depois, concluiu que precisava ir ao banheiro. A casa estava vazia nessa hora, e solitária. Confortável. O cômodo cheirava a um estranho cheiro de lavanda e urina, mas de todo não era agradável. À pia estavam alguns cremes para o cabelo, a pasta de dentes, o desodorante e um rolo de papel-higiênico. O cesto perto, do chuveiro, estava cheio e o vaso parecia ter sido polido recentemente. As paredes conservavam uma cerâmica cor de mármore que era bonita aos olhos e a pequena janelinha de metal no alto era a única fonte de ar daquele cômodo.

        Depois de dada a descarga, saiu da suíte. E olhou o corredor que crescia sobre os seus olhos, sentia uma fraqueza. Não era de fato fome ou queda de pressão, mas vontade de escrever.


        Voltou ao ateliê escondido e fechado. Entrou e lembrou-se que tinha que apresentar um projeto. Tinha prazo curto. Bem curto. Precisava de um orientador e sabia disso. O telefone tocou outra vez e serviu como arma de tortura. Era o Whatsapp, impossível trabalhar assim. Desceu. Foi para a parte de fora da casa, procurou espairecer as ideias e lembrou que tinha roupas no varal.


        Ventava, estava frio e úmido. Tocou uma roupa e ao notar que estava molhada, soltou um palavrão surdo. Chovia mais de uma semana e nenhuma roupa estava seca. Ia ficar sem roupas para sair. Isso foi frustante. Saiu e foi para a sala, onde tudo começou de novo. A tentação da televisão, o sofá de tecido rústico, a mesinha de MDF e as cortinas em temas florais.  Seu nariz atrapalhava, pesava, e percebeu que estava ficando doente.


         Quis se cobrir de mimos, edredons e remédios. Mas no fim, desistiu da ideia e foi para o ateliê. O celular continuava atrapalhando, tocava toda a hora. Em meio a trechos importantes, nada poderia ser escrito. A curiosidade surgiu com o que se passava, digitou a senha no teclado touchscreen e tudo o que viu foi: "KKKKK". Ah, não, não acreditava nisso. Quarenta minutos perdidos para nada.


       KKK. Ku Klux Klan? Pensou, só se for para me desconcentrar. Riu de sua piada sem graça e foi para o quarto descansar. O banheiro da suíte fedia, deu uma segunda descarga e aparentemente tudo melhorou. Fechou a suíte que se tornou hermética aos seus olhos. Ali estavam suas coisas pessoais, seus livros de cabeceira, alguns cadernos avulsos, alguns de seus filmes e a televisão que parecia cada vez mais convidativa. Olhou para o armário e quase não encontrou roupas, vociferou.


      Mesmo assim deitou na cama e olhou para o alto. Eram quase dez da noite. Seis da manhã teria que estar de pé de novo, teria que ir trabalhar. Que rotina! Procurou um livro para ler, deu uma olhada em três palavras e desistiu. Não tinha mais ânimo para isso, o cansaço apareceu. Mas isso nem lhe preocupava. Realmente olhar para o teto era uma sensação reveladora.


      Solidão. Esperança. Medo. Desejo. Sensações rotineiras, mas que às vezes circundam à mente. A noite estava escura e fria. Cada vez mais amarga e sem qualquer indício de animação. A televisão parecia cada vez mais convidativa, a luz vermelha que emanava por baixo de seu vidro risonho parecia hipnotizar a alma. E num lampejo de fraqueza desejou assistir televisão, desejou beber alguma coisa, ou chorar. Mas por quê? Será que o mundo só se traduzir a necessidades e desejos? Será que somos criaturas tão vis que nos rendemos ao nosso individualismo? A reflexão metafórica tomou sua consciência.

        E no fim desejou adormecer, mas eis que a insônia apareceu. As memórias do passado surgiram. Culpa, remorso. Medo. Solidão. A mente é um castelo de cartas, a casa é um castelo da mente. O corpo é uma fortaleza da alma. A alma é uma fortaleza da vida. Metáforas e mais metáforas. Dúvidas de coração vazio nem sempre respondem as grandes perguntas da vida.


      Sentiu vontade de comprar um gato, pelo menos para fazer companhia, mais eis que ela desistiu de qualquer uma dessas ideias, pois afinal. Era só mais um dia difícil numa cidade cosmopolita no meio do nada do sul da América do Sul.


       Ela. Porque teria que ser ela e não ele? Porque não importa o gênero nossos tempos são tão novos que as crescentes dúvidas não escolhem gênero, classe ou grupo social.
        

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Nevoeiro

         A névoa espessa junta-se aos galhos cinzentos das bétulas, os caminhos cortados por roedores que se escondem atrás dos choupos acabam sendo bloqueados pelas árvores secas do inverno. Também pudera, naquele frio que fazia, pouco podia-se fazer senão meditar.


        Com o cachimbo trincado nos dentes, a fumaça do tabaco que aquecia nas brasas da madeira resfriava-se quando chegava à boca. Caminhava sinistro com o seu capote de pele, sujava suas botas de couro na neve e meditava cabisbaixo enquanto caminhava pelo bosque. A nascente congelada corria silenciosamente enquanto o vento batia em suas costas. O quepe pensou em voar, mas preguiçosamente mantinha-se em sua cabeça.


         Resfriado, com um pouco de remela nos olhos. Ele fumava, enquanto o fumo parecia se apagar com mais um sussurro gelado daquela tarde. Seu coração era frio e o rosto era fino. Pálido como Branca de Neve, aquele personagem tão banal nem parecia ser digno de nota... E ele não era.


          De fato, tivesse ele nome ou não. Aquilo em si não era importante. Não estava ali para pescar ou caçar, estava apenas envolvido pela meditação enquanto o tabaco apagava perto da boca. Era um homem diferente dos outros.


          Pensou em beber um pouco de vodka que escondia junto ao coldre, mas lembrou-se que ia conduzir. Aquele homem era estranhamente sinistro e se escondia como uma coruja à noite, seus olhos eram castanhos e oblíquos. Ele tinha um nariz pequeno.


          O coturno amassava os galhos secos nos chão e as botas cortavam a neve sem cerimônia. Ele sacou uma faca e roubou um talo de bétula de uma árvore. Estava tão frio que pensou em fazer lenha, mas era tolice fazer justamente ali. Estava cada vez mais frio, e irresponsável, bebericou um pouco de vodka.


         Estava agora aquecido, da garganta para baixo. Ele não se importava se estava sozinho ou não, no meio do nada esperando ser caçado como uma lebre numa competição. Ele portava apenas dois papéis e um pequeno revólver sem balas no coldre. Seria ele um bandido?

         De fato ele não era, era só um homem. Sem coração nem carisma. Não conquistava o amor das mulheres, nem a simpatia dos homens. Vivia sob ordens num mundo em que a desordem impera.


        Sentiu frio de novo.


        Agora não foi o vento, mas algo mais sinistro. Puxou o revólver junto à mão e o coração junto à garganta. Beijou o medo e saiu calmamente no branco do esquecimento. Uma bala cortou-lhe de frente.

        Sorte que ele não foi atingido e saiu correndo. Estava sozinho e sem qualquer tipo de segurança. Correu, foi com tudo em direção à moto onde tinha estacionado. As ordens eram importantes e quantos anos ele tinha? Vinte? Como são inconsequentes os jovens de vinte anos! Será que eles amam de verdade? Ou apenas enganavam as moças das aldeias do interior.


         Mas Dmitri Sebastopov era um homem pouco maduro para a vida, mas muito maduro para o mundo. Ele sabia quando haveria sol ou não, ou quando ia viver e morrer. Ele sentiu o cheiro de sangue. Correu, disparou e acabou encontrando de frente...

         Era um cervo que caía agonizando na sua frente. Estava deitado sem esperanças, ele sangrava e tinha calafrios tão intensos por causa do frio que parecia estar tendo convulsões. Dmitri sentiu pena pelo animal e até pensou num tiro de misericórdia, mas sua pistola estava sem balas. O do oponente não.


          Correu, mais rápido que seus pés; mais longe do que sua cabeça; E mais ridículo do que o seu corpo. Saltou de uniforme e tudo na trincheira, sua farda ficou branca  e ele se escondeu no frio. Tinha perdido o seu cachimbo e estava sendo caçado. Teria tempo para ter uma morte honrosa e beber vodka? Pensou que não.


        Nunca mais veria Yulia cujos lábios de menina comiam os seus olhos durante a chuva, e seus olhos enganavam sua mente quando estava quente. Ele engasgava algumas palavras enquanto era caçado naquele bosque perdido. O nevoeiro não desaparecia, o coração batia forte e sentiu medo de urinar nas calças. Sem arma e com ordens oficiais. Presa fácil.


       Não sei se ele lembrou do cervo, mas sei que ele caiu. Caiu de costas no chão. Os olhos ainda olhavam para o nada e imaginou ter ouvido coisas. O frio entrou pelo colete e o ferimento fez de tudo para não congelar, o sangue jorrava no chão com extrema cautela. Tossiu.


         Pensou ter visto alguém se aproximar... Não sabia quem. Um casal talvez. Um homem e uma mulher. Tinha certeza mesmo à distância.  Sorriam ao todo, estranho.

         Ele estava morto? Não, era Yulia. E quem era o outro? Piscou os olhos e no próximo segundo seus olhos ficaram sem vida enquanto olhavam o céu. Estava nublado e frio. Como são todos os invernos em Veliky Novgorod.



sábado, 17 de janeiro de 2015

Batuque

          A agulha da vitrola tocava solitária num canto da sala enquanto o vento entrava pela janela. Chovia;  As pequenas gotículas de água que batiam na telha produziam um ruído que parecia ser um arranhado do vinil. A água começou a entrar no vestíbulo à medida que o vento se tornava cada vez mais impaciente por não ter sido convidado.

        O piso de madeira estava todo molhado e os quadros na parede eram volta e meia iluminados pelo trovão, era assustador ver que o relógio de pêndulo continuava a girar as horas a despeito do clima fantasmagórico que se abria no velho casarão. A casa de cômodos finos e refinados era uma preciosidade, no alto de um morro bem desenhado pela chuva e pela ação da natureza tinha uma arquitetura meio alemã-meio suíça que seduzia a todos pelo o olhar. Era a casa de muitos sonhos e vários pesadelos.

      A escada de madeira tinha apenas um degrau para cada pé, e isso era meio inusitado, mas era logo esquecido por qualquer visitante ao vislumbrar o belo jardim recheado de tulipas, rosas e alguns vasos de violeta. À noite ficava cada vez mais bonito visitar aquele lote quando se iluminavam as flores com aqueles vagalumes elétricos desenhados a muito tempo pelo arquiteto. A vitrola continua tocando o batuque, solitária, num canto da sala.

       O relógio badalava as horas, 11 e meia da noite, os donos não estavam em casa. Ninguém saberia quando iam voltar, mas o mais estranho era que a despeito de a mobília estar coberta de panos e poeira; a vitrola continuava a tocar a sinfonia. Um esganido de um roedor, bem fraco, mas não menos apavorador surgiu na lareira, coberta de fuligem e cinzas. O chapéu panamá depositado no prego junto à porta se desprendeu com a ação do vento e num momento nostálgico voou para cima do piano, onde descansa uma partitura envelhecida pelo tempo; O piano começou a tocar outro batuque.

       De repente a casa virou uma grande sinfonia, a água das telhas tocava ao fundo enquanto o piano acompanhava o doce som do vinil sendo arranhado pela agulha da vitrola, os trovões tão triunfantes serviam de estampidos de percussão e a euforia dos livros adormecidos criou vida. A canção sem melodia tocava sem nenhuma hesitação com a ausência dos donos naquela noite chuvosa de sábado. E a música beijou sob as cortinas o vento forasteiro que adentrava na casa.

      O casaco do dono da casa agora balançava, embora fosse impermeável não impediu que o chão se empapasse de água pela a abertura escancarada da janela. No alto da escada uma vela pendia no quarto que fracamente iluminado escondia a modéstia do passado; Uma cama de ferro com um colchão de penas talhava a aparência espartana de um cômodo sem rádio ou televisão.  Não havia computadores ou internet e o telefone ainda era de fio, os donos eram humildes, mas se davam a um luxo de terem banho quente ao menos;

      A sinfonia dos galanteios da chuva continuava para a alegria de um desavisado, o piano passou a tomar conotações mais caóticas em suas teclas e quando por fim parou de tocar, um rato saiu de dentro de sua armadura, as gotas de chuva continuava a cair sobre o telhado de barro, mas mais fracas. Apenas a vitrola continuava a tocar, solitária, num canto da sala enquanto o vento adentrava pela janela sem ser convidado.

    Uma sinfonia tão leve e tão sublime era a coisa mais bela a se ouvir naquela avançada noite de sábado, quando a caneta tinteiro com a ponta descoberta sobre a escrivaninha apontava para um emaranhado de papéis, projetos esquecidos e já gastos pelo tempo. Sem se dar conta, numa certa altura, a vitrola deixou de tocar sem qualquer cerimônia deixando a noite cada vez mais fria e ignóbil. A casa ficou sozinha de novo e essa ausência se tornou tenebrosa enquanto os relâmpagos continuavam a cair, agora distantes do  casarão na Rua do Encanto.

     As cortinas pararam de se mover e a sinfonia parou de tocar, tudo o que ficou foi o silêncio da ausência. Um retrato triste feito em nanquim sobre o papel amarelado pelo tempo pendia tristemente no chão, ainda ensopado pela água. Esse soberbo gênio de formas atléticas, de grave perfil, que mantém abertas nas amarras dos braços as suas asas, rudemente empunhadas como dois escudos, simboliza nobremente a grande do pequeno grande homem simples, ágil e risonho, que era o dono da casa. Um presente de um amigo distante que o tempo não custou a separá-los.
      

      Na parede em um dos quadros estava o retrato mais filedigno do dono daquele casarão, vestido com um casaco e com uma calça muito curta sempre arregaçada, coberto com chapéu mole cujos bordos estão em contrapartida sempre rebatidos, ele nada tem de monumental. O que o distingue é o gosto pela simplificação, das formas geométricas, e tudo no seu aspecto denota este caráter. Tem paixão pelos instrumentos de precisão. 

      Sobre a sua mesa de trabalho estão instaladas pequenas máquinas de precisão, verdadeiras jóias da mecânica, que não lhe servem para nada e estão lá somente para o prazer de tê-las como bibelôs. Ali se vê, ao lado de um barômetro e de um microscópio do último modelo, um cronômetro de marinha, na sua caixa de mogno. Até mesmo no terraço de sua casa ergue-se um esplêndido telescópio, com o qual ele se dá à fantasia de inspecionar o céu. Tem horror a toda complicação, a toda a cerimônia, a todo fausto. Assim, que rude e deliciosa provação para a sua modéstia, esta inauguração! Esse homem era Santos Dumont.

      Ali estavam o seu piano, o seu barômetro e a sua amada vitrola que não cansava de ouvir nas noite solitárias no alto do altiplano celeste de Petrópolis. A música que ele mais gostava era difícil dizer, mas nesse dia tocava uma obra lindamente arranjada de Alberto Nepomuceno, o  magnífico compositor cearense, Batuque da série a Brasileira, com a assinatura do próprio Nepomuceno no verso. Aquela casa carregada de lembranças não escondia a insatisfação de não ter o retorno de seu ilustre dono, abandonado pelo esquecimento na morada de sua morte amargurada.


       Memórias de anos que já se perderam na memória do esquecimento.


                                                        Batuque, de Alberto Nepomuceno


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Crônicas de uma velhice prematura

       Meus dedos enrugam, meus olhos se cegam e a chuva caí sobre meu rosto. O rosto envelhecido e sem vontade, tomado de rugas e de falta de consolo. Espero no frio um pouco de acalanto um pouco menos de tristeza, mas quando volto à casa de meu pai tudo que sinto é um misto de saudade envelhecida numa mente bolorenta de ideias. O casarão envelheceu tanto quanto eu e as janelas de ferro enferrujaram como as memórias da minha juventude.


       Nunca trocamos muitas palavras, eu e meu pai passamos anos brigando, mas no fim o que mais conseguíamos era nos respeita. Naquela época eu tinha sonhos, meu pai, a realidade. Um dia apertamos as mãos e começamos a conversar. Antes tarde do que nunca, hoje eu percebo. Na época era tão imaturo que me julgava poderoso em meu pedestal de livros fracos.

     

         Queria ter mais momentos de reflexão como esse, sem que precisasse fumar um tanto de tabaco na madeira de meu cachimbo trincado nos dentes. Meu pai não sabia que fumava escondido e me bateria se soubesse. Ele era uma pessoa risonha que raramente chorava... só o vi chorar uma vez, quando viu que iria me perder. Meu velho pai já de cabeça branca não tinha mais esperanças em suas mãos, não tinha olhos senão para o passado e o coração amargurado de tamanha tristeza.

        Quando arrumei minhas malas, vesti minha jaqueta e calcei os meus sapatos. Ele veio e me abraçou, não disse nada. Não me perguntou como costumava fazer em todo início de mês se eu tinha dinheiro suficiente, ou se andava almoçando. Não, ele sabia que era o nosso último dia. Nossos futuros eram diferentes, o lugar dele era ali, com o seu emprego e ao lado de minha mãe. E meu lugar era justamente o contrário, o mundo e ninguém ao meu lado.

         Ele nunca compreendeu o lado anárquico de minha pessoa e eu nunca quis me justificar tentando explicar. Eu descobri a verdade no mundo sem descobrir a mim mesmo e tomado pelo espírito nômade de meus pés, eu vaguei por onde nunca imaginei até o sangue se transformar em vinho que a terra bebericou com a chuva.

         Foi ao mesmo tempo belo e doloroso saber como tudo acabou. A tristeza com que meu pai esperou os seus últimos dias afundado numa cama esperando pelo filho que não retornava, desejando vê-lo mesmo sabendo que estava no outro lado do mundo. Ele me esperou sem saber que eu tinha desaparecido com a minha força de vontade.

        Vaguei sozinho por anos, levei nas costas os grilhões de vidas passadas e aprendi o que era a humildade. Meu pai que esperou tanto percebeu que seu filho só chegava atrasado e quando descansou, eu estava olhando o céu sozinho sob as montanhas de um lugar desconhecido. Um vento gelado cortou o meu coração e gelei com tudo isso, desci as montanhas corri para onde os meus pés me levavam até que o cansaço tomasse o meu corpo por completo e ainda assim não cheguei em casa.

          Quando cheguei a memória de meu pai tinha partido, ele que nunca usava gravata, estava vestido com uma bastante extravagante em seu paletó de madeira no púlpito em que poucas pessoas pronunciavam o seu nome. Minha mãe e eu não dirigimos uma só palavra, como previsto, nenhum de nós dois se perdoava, enquanto meu pai, cansado por toda uma vida, finalmente descansou. Eu beijei suas mãos e me inclinei para que visse meus olhos.

          O corpo dele estava gelado, suas mãos morenas engasgavam a rosa depositada no caixão. Eu me perguntei se tinha sido ele ou eu que tinha partido. Até hoje não sei qual era a resposta. A minha juventude se foi, o cabelo sempre tão rebelde passou a ser penteado e passei a vestir terno. Com a pasta nas mãos, abandonei meus sonhos e batalhei por dias e dias lembrando da tristeza de meu pai.

           Eu não lembro de ter chorado desde o dia que ele partiu, mas quando encontrei o velho sobrado ainda preservado, desabei. Não tive coragem de vendê-lo, aquele casarão era o maior sonho de meu finado pai e era a mostra de amor que ele tinha conosco. Eu ainda lembro do dia que ele apareceu sorridente com as plantas do escritório de arquitetura e me pediu para escolher um dos desenhos. O desenho que eu escolhi nem era o mais bonito, mas foi o que construíram.

      Todo o suor gasto para lembrar das lágrimas que nunca tive. Meu pai viveu nessa casa, eu nunca. Minha velhice enrugada esperava um sinal de conforto que nunca tive, porque nunca tive nada para ser reconfortado. Nunca me faltou nada, nem amor, nem tristeza. O relógio de meu pulso tomava meus ouvidos enquanto a chuva caía sobre o meu casaco, os velhos fantasmas sorriam para mim sem que me lembrasse dos dias felizes de minha vil juventude.


      Enteado de meu pai, depois de anos de profundo silêncio tudo que consigo dizer é que eu o amava, do meu jeito, frio e calculista. Sem que isso me cortasse a lembrança de tê-lo detestado quando criança. Apenas a velhice nos revela a maldade das coisas mundanas.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Garis

       Há muito tempo que meus dedos não massacram as letras com sua fugacidade, Crisálida envelhece a cada dia, escondida atrás de sua pequena pasta verde de plástico escovado. A velha Olivetti Lettera 82, 1963 está cada dia mais empoeirada sem que seu dono negligente tome nota de sua preciosidade embutida no escritório recém bagunçado. Os livros se acumulam ao seu redor e a poeira também.

        O rádio não toca mais há algum tempo e não há mais whisky debaixo do esconderijo. As ideias fugiram com o passar dos dias e a preguiça associada à inércia levaram o desaparecimento das palavras. O academismo sufocou a livre iniciativa, mas vamos há um conto negligente de dezembro.


        Como podem ver no céu, e no recanto de sua janela, Brasília chove quase a todos os dias. Chove de forma não programada, pegando a todos desprevenidos. Dessa vez fui eu. Atrasado, corria atrás de um ônibus que se tornou um fantasma em meio à mais uma greve de coletivos. Estava vestido como um inglês, mas de inglês não tinha nada, porque tinha esquecido o meu guarda-chuva.

        Fui à banca de jornal, coisa corriqueira e banal. Como comprar chicletes e colocar crédito no celular. Gotejava um pouco lá fora, minha capa me protegia, mas minha mochila me preocupava. Era a segunda vez que enfrentávamos a chuva e a primeira não foi muito animadora. Meu livro do Georges Simenon ficou todo empapado, junto com meu caderno de rascunhos e minha caixa de canetas.

        De fato, mesmo as nuvens estando carregadas. Cinzentas, mais cinzentas do que o concreto e o asfalto. Não dei muita confiança à tempestade; Devia ter me precavido porque "O inferno está deserto e os diabos estão aqui".

       Os ipés vermelhos coloriam os jardins de minha quadra, enquanto os carros corriam de farol alto diante a neblina. Não vi pedestres ou ciclistas e as poucas almas penadas que vi eram feitas de açúcar pois fugiam correndo de algumas gotas de chuva. A garoa estava ligeiramente fria e refrescante, fazia dias de calor, mas começava a engrossar.

       Encontrei um cachorro, meio asno, que correu em minha direção achando que eu era seu dono. Ele reconsiderou quando um trovão caiu bem perto de nós num descampado. A chuva estava cada vez mais forte e meus cabelos, antes desgrenhados, se pentearam pela a água que ensopara toda a minha cabeça e o meu casaco. Apressei o passo e a chuva tratou de se apressar também.

      Na rua as goteiras se somavam e pintavam o asfalto com tons cada vez mais enegrecidos e aquáticos. O reflexo das poças d'água criava pequeno espelhos de ângulos desconhecidos do meu semblante apressado. A mochila, como eu imaginei, já estava ensopada e meu humor também. Encontrei com segurança a parada de ônibus, toda revestida de vidro fumê e plástico que para a desgraça do arquiteto, era profundamente ineficiente e tinha goteiras.

        Duas pessoas se escondiam ali, encolhidas no frio com que o vento violento ceifava as almas mais esperançosas. Um, era um velho que apenas caminhava e foi surpreendido pelo aguaceiro e a outra pessoa era uma doméstica, essa sim estava empenhada em chegar em casa. Eu só queria esperar a chuva passar e ir trabalhar. Eram 15:00 da tarde.

       Numa sexta feira, encontrar um ônibus à tarde é um sacríficio. Imagine quando há greve. Fitei os carros que corriam no vazio do asfalto, enquanto os filetes graúdos de chuva engrosssavam. Ao acompanhá-los com os olhos, encontrei um carrinho de mão com ferramentas de jardinagem. Um aparador de grama, uma foice e uma tesoura de ponta. Um caminhão do Sistema de Limpeza Urbano estava estacionado bem próximo da parada, inaudido à percepção de todos. A chuva era a maior preocupação na hora.


      Um trovão desabou num gramado bem em frente de nós, prenunciando um mal presságio. A chuva violenta vinha do Norte e sua violência correu de uma só vez para os pobres indefesos que estavam na parada de ônibus. Como eu previa, o  vidro daquela instalação vagabunda não foi pensado para uma tempestade e o vento ameaçava retirar o vidro fora. A água começou a entrar no abrigo, e a molhar nossas cabeças debaixo do teto.

      Nós três ficamos reféns da boa vontade celestial. Os ventos me forçaram a sair da parada e me esconder atrás dela, visto que a chuva estava partindo de frente àquela estrutura. Gotejava e a fragilidade daquela estrutura não parecia inspirar conforto. Quem andasse naquele vendaval poderia ser perfeitamente arrastado. Um tufão ou algo parecido.

         Um dos garis gritou de dentro do caminhão-baú, olhando todo nosso sofrimento. Gritou e acenou:

     "EI! VENHAM PARA CÁ!"


      Desconfiados, as duas companhias que tinha entreolharam entre si. Mas num impulso sai correndo tentando me proteger. A chuva estava cada vez mais forte e daqui a pouco era a parada que sairia voando, junto com vacas e casas por aí. Apenas eu tomei coragem e subi no parachoque e depois na caçamba do caminhão.


        Lá dentro, com os cabelos pingando e a capa toda ensopada agradeci ao gari que retrucou olhando em direção à chuva:

       "Eles não quiseram vir, bom, o problema deles. Pode ficar até a chuva passar."

        "Obrigado"

         Eram 3: 23 segundo o meu relógio, que estava igualmente ensopado. Ali dentro percebi que não havia só um , mas vários garis. Sentados em torno de uma roda, eles esperavam a chuva passar. Alguns jogavam dominó, outros apenas jogavam conversa fora. Muitos nem sequer dignaram a me cumprimentar, eu não reclamei, eu era um intruso em seu ninho.

         Aqueles semblantes cansados e simples denotavam a dureza de seu serviço, que era capinar a grama todos os dias e garantir que as arvores e as folhas continuassem impecáveis. Funcionários da NovaCap, provavelmente receberiam tão pouco para operar um trator ou cortar um quilômetro de gramado. Eles discutiam o atraso do serviço:

         "Todo dia chove. A gente começa de manhã, e aí começa a chover. Aí a gente para, quando a chuva dá um tempo. A terra tá tão molhada que chega atrapalha. Quando dá pra cortar a grama, chove de novo"

         E a chuva batia cada vez mais forte na lataria do caminhão. A atmosfera era quente e acolhedora, bem melhor que o frio que fazia lá fora. Úmido e deprimente. Aquele ambiente não chegava a ser confortável. Havia poucas cadeiras e o chão estava sujo de terra que sentia-se o odor campestre dentro do caminhão. Fosse fertilizante ou a terra mesmo. O suor também figurava ali, das roupas e dos rostos. As ferramentas estavam dentro de um armário, junto à uma mesa onde tinha café.

        O gari que me convidou ao abrigo, me ofereceu o café. Eu aceitei. Senti o gosto amargo descer quente por minha garganta, mas era o máximo de cordialidade que poderia esperar. Aqueles semblantes me olhavam desconfiados e eu sabia o porquê. Eu estava bem vestido demais e parecia esnobe aos olhos de muitos. Fiquei olhando para o chão, calado enquanto a chuva corria lá fora. O trovão cortou meus ouvidos e o olhar de censura levou-me um pouco do meu orgulho.

        "Bucha de seis! Você morreu com uma bucha! Seu imbecil" Brandiu um jogador ao parceiro enquanto batia as pedras na mesa.

        Aquele grupo de garis de longe estava mais preocupado em voltar ao trabalho do que eu a sair daquela chuva. Discutiam quanto tempo levaria para fazer todo o serviço estipulado. Vez ou outra comentavam sobre a chuva, ou da família. Mas não demorou muito para que ficassem silenciosos sob minha presença.

        Fiquei ciente disso, e desconfortável, esperava aquela torrente de água passar. Mas não, ela só piorava. Na parada via as pessoas que tinham se recusado a ir no abrigo ficarem tão molhadas que poderia-se fazer uma sopa, era ridícula a ideia de tomarem um segundo banho vestidas, apenas por orgulho. De fato, o céu cinzento não me parecia promissor, mas a imagem de nenhum ônibus passar também não era muito reconfortante.

            Tentei me enxugar com um pano que tinha na mochila e conclui que estava ensopada de novo. Outro livro estragado!"Maldita cidade, passa seis meses sem chuva e quando chove parece que vai cair o dilúvio", disse um dos garis.

           O vento bateu mais forte, movendo a lataria do caminhão de forma preocupante, embora as chances de capotar pelo vento fossem pequenas, o veículo nem por isso deixou de balançar. Foi aí que passou o meu ônibus, não tive tempo de correr para pegá-lo, nem os outros passageiros que agora se acumulavam na parada. Tinha perdido e iria chegar atrasado, já era 3:56.


            O tempo demorou a melhorar. E mesmo olhando de longe a chuva se dissipar e os filetes de chuva se esfarelarem numa garoa fina, ainda demorei a tomar coragem para sair. O olhar curioso e desconfiado de um dos garis me deu forças para me despedir. Foi então que eu percebi, que era uma das raras vezes que não tinha nada a ver com as pessoas ao meu redor. E eu era um estranho na matilha.

           Agradeci com sinceridade o abrigo, e fui tratado com uma educação polida pelos demais. Saltei do caminhão e não ouvi os comentários maldosos que possam ter feito de mim. Na parada, os que ficaram me olharam com censura por estar seco enquanto eles estavam com as roupas completamente coladas no corpo. O tempo passou... A chuva continuava e mesmo assim nada do ônibus. Os desistentes se convenciam que todo aquele esforço fora inútil, e iam a pé para as suas casas.

        Fui o último a ficar na parada. Percebendo que só eu estava ali em pé, porque os bancos estavam molhados, também fui o último a desistir e a voltar para casa. A grama estava verde, as flores estavam vermelhas e o asfalto bem escovado e transparente. Contudo, não me esqueci o modo como aquele gari, na sua simplicidade me acolheu na chuva e me ofereceu um pouco de café, e também não esqueci o olhar desconfiado com que me olhavam os demais naquela cena tão estranha, tanto para eles quanto para mim.


        Esse fosso é bem mais fundo do que a gente imaginava. É bem mais fundo do que o Mar Vermelho.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Um último conto de novembro

         Meu avô era um homem do interior, nascido e criado no calor dos sertões brasileiros; era um homem de simples. Honesto e trabalhador, não era homem de muitas palavras e quase nunca sorria. A despeito de sua simplicidade como pessoa, era alguém de valor e estima, mais esperto que muitos intelectuais hoje.

         Por algum tempo ele trabalhou com o contrabando de cachaça, saía todas as noites a cavalo carregado de produtos para não ser pego pelo fiscal da prefeitura que sobretaxava as bebidas. Mas de manhã tudo o que fazia era vender sacos de açucar no Recife. Valente, um dos poucos homens de fibra que ainda resistiam em seu tempo, enquanto os homens andavam de brilhantina, meu avô andava de espingarda.

        Bebia cachaça num só gole e fumava mais que uma chaminé. Vivia contando histórias de suas viagens para os amigos quando voltava do interior, mas o que mais se ressentia, a despeito de ser aventureiro. De ter perdido seu pai tão cedo. Meu avô sentia faltava de seu pai às vezes, quando falava de meu bisavô seus olhos enchiam-se de lágrimas.  Nunca soube como meu bisavô morreu, nem tampouco meu avô se esforçou a contá-lo. Vovô não gostava de contar de sua vida pessoa, mas adorava contar várias histórias de suas aventuras.

        Certa vez brigou com ladrões de cavalos no interior, atirou a espingarda, a primeira vez na sua vida e conseguiu salvar um carregamento inteiro de cachaça no caminho. Mas na segunda vez, não teve sorte porém, teve que entregar o cavalo caso contrário seria morto. Desde então passou a subornar os bandidos para que não o atacassem tanto durante a noite. O Brasil que ele vivia era diferente do Brasil atual, os bandidos ainda tinham cordialidade.

       Contudo, mesmo sendo um homem que poderia muito bem ter vivido no século XIX ou no faroeste americano, meu avô ainda era homem de seu tempo. Ficou sabendo pelo rádio a aclamação de Juscelino e mais do que isso notícias da construção de uma nova capital, no interior do Planalto Central. A TV ainda não tinha chegado ao interior, mas imagino o choque que fez meu avô sair de sua vida nos arredores de Recife e decidir enfrentar a estrada até o Goiás. Ele tinha vinte e três anos, pouco mais velho do que eu.

       Imagino o choque que foi encontrar os arranha-céus gigantescos e suntuosos de Oscar Niemeyer na Esplanada dos Ministérios ainda sob a forma de esqueletos de concreto armado. Para quem só era acostumado com casas de alvenaria muito antigas, para ele aquilo devia ter saído de outra realidade. 

       Meu avô nessa época escrevia tão pouco e tampouco lia como as pessoas leem hoje, mas era desnecessário naquela época. Ele era um operário do sertão, um candango, muito mais trabalhador empenhado do que um pobre miserável como eu que fica brincando de poeta-proletário.


        Em Brasília, as barracas de lona montadas na Cidade Livre e na vila IAPI era a evidência que o Brasil de JK ainda era um Brasil feudal a despeito da modernidade aparente. À noite, as crianças morriam no frio do inverno. De dia rolavam mortes e assassinatos por dívidas de jogo ou mesmo só pela bebedeira. Ainda assim Brasília era a primeira vez que ele veria uma cidade moderna.


        Canteiro de obras na terra vermelha. Meu avô trabalhou, seja nas obras no Ministério do Planejamento, Itamaraty, nas quatrocentos ou duzentos. Meu avô trabalhou. Trabalhou como pode no Hospital Militar e nas obras do Aeroporto, mas isso não lhe serviu para que fosse trabalhar na NOVACAP. Trabalhou tanto em Brasília, mas nem chegou a conhecer JK, apertar sua mão , bater no seu ombro e dizer: "Trabalho feito, presidente. Aqui está o novo Brasil". Ele mal conseguiria reconhecer o presidente da época agora, Jânio Quadros, com o seus ternos cheios de caspa e os óculos fundo de garrafa.


        Contudo, meu avô sabia reconhecer a beleza no meio do calor de homens suados correndo de um lado para outro com vergalhões de aço nas costas. E assim conheceu minha avó.

          Olhos azuis, cabelo negro.e o toque lusitano. Minha avó ainda hoje é um poço de inocência, uma criança no corpo de um adulto, ou melhor de uma velha. Suponho que fosse mais inocente na época, e mais bonita. Por isso acho bem provável que meu avô tenha se apaixonado por ela.


         E os dois passaram quarenta anos juntos, se não estou errado. E duvido que tenha partido deslizes do meu avô no meio do caminho (embora eu não possa afirmar categoricamente nada). O problema é que o amor de meu avô era compartilhado com a bebida e o cigarro, todas as vezes que ele voltava de sessões de bebedeira, passava a ser uma pessoa agressiva. Batia na minha avó e nos filhos. Entretanto, nenhum casamento é um mar de flores, e de fato, eles tiveram vários filhos: incluindo minha mãe, que não é exemplo pra nada.

         Meu avô começou a trabalhar num ótica na W3 Sul. E com muito sacrifício conseguiu construir uma casa num terreno muito espaçoso, o qual eu chamava deliciosamente chácara do vovô.   Ali tinha pés de tomate e chuchu, que minha avó usava para fazer suas comidas sem gosto. E também bananas verdes que davam no pé, cana de açucar que era cortada para a gente (os netos) comerem em lascas. 

        A "chácara de Seu Manel", me lembra muito verde e da época que brincava com meus tios de pique-esconde e jogar bola. Como também as brigas que tinha com meus primos e dos dias que saia de casa e ia dormir na casa de meu avô por causa dos conflitos constantes de minha mãe com o meu pai.



         Por muito tempo, meu avô era meu pai. E sim, foi ele que me criou a despeito de tudo. Vovô passou por muitas provações na vida, mas era um homem forte. A maior de todas elas foi não ter conseguido salvar meu tio dos braços das drogas, e isso o marcou profundamente nos últimos anos. O tornou um tanto mais amargo, o fim triste do meu tio, tornou-o outra pessoa.

          Os filhos passaram a ser um engodo para o meu avô. Sazonalmente há brigas de famílias graves e discussões tão banais que tornaram tudo mais difícil para uma pessoa de idade como o meu avô. Entretanto, apesar disso, a vida dele mostrava uma força de vontade alicerçada na fé. Religião pra mim é uma franca alegoria, mas para ele era uma coisa francamente séria.

          De fato, meu avô era um homem diferente de outras pessoas. Um homem corajoso, que depois de muito tempo se submeteu a enfrentar o cigarro e a bebida e tornar-se um indivíduo mais familiar. Era um homem silencioso ao mesmo tempo que sábio, e hoje entendo a razão de seu silêncio e falta de sorrisos. A vida é muito curta para ser desperdiçada com falácias;


          Só sinto pena de meu avô porque nem os seus filhos, nem os seus netos chegaram perto de sua pessoa, principalmente os filhos, que se tornaram tão mesquinhos por suas rixas sem importância através dos anos.  Quando fui vê-lo pela última vez eu pensei justamente nisso e me apiedei de não ter sido o melhor dos netos nos últimos anos.


          Hoje, dia 7 de novembro. Meu avô entrou na UTI, com um quadro de desnutrição e desidratação em decorrência de seu câncer terminal. A despeito de sua fragilidade nos braços, e a dor em seu rosto. Os cabelos caídos e suas rugas cada vez mais profundas. Esse homem que hoje descansa no leito, sem qualquer suporte dos médicos, senão umas poucas palavras reconfortantes (e mentirosas) é um herói para mim. Um herói que nunca será lembrado pela História, porque nunca foi político, ou mesmo cientista ou artista. Mas apenas um cidadão brasileiro.
         
. Correção: Hoje pela manhã, recebi a notícia que ele faleceu em decorrência do câncer. Ao contrário do que ele tanto desejara, não lhe foi ofertada a opção de morrer em casa. Descanse em paz, vovô. Você merecia bem mais

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O vento da matemática

            Por quase um ano Gregório Furtado abandonava  giz e o apagador, o capote de ilustrado e caminhava na cidade combalida de mentes e raciocínio. Como um emérita transmoderno, não andava de túnica ou cabelo longo. Pelo contrário, andava de jaqueta preta e cabeça raspada; Poderia ser confundido com um motoqueiro ou algo parecido;




             Mas ele era mais perigoso do que isso, ele era um professor de matemática; E tão cartesiano de ideias, andava sempre com um esquadro nas mãos e uma calculadora em outra. Figurinha carimbada na escola, ele parecia um fantasma cujas projeções projetavam-se sobre a sombra tênue dos alunos. Esforço seja dito, diferencial ou mesmo trigonometria assombravam todas as noites dos jovens imberbes cujas barbas vazias os assemelhavam a crianças com medo do bicho-papão ou chupa-cabra.


              Revolucionário como as parábolas e o cálculo newtoniano, raramente saia de casa a não ser para se apaixonar novamente pelos números e pelo cálculo diferencial.  Solitário, brincava de calcular os riscos no chão e escrever números imaginários em sua cabeça; Multiplicava as árvores pelos pássaros e dividia tudo pela forma convencida dos arcos de concreto armado da selva de pedra;

                 Um dia foi denunciado como subversivo por brincar de estar brincando de ser economista, fazer projeções de especulação na porta de um banco. Catalítico dizia: “Nenhum banco é realmente bom para todos! Sempre haverá um número faltando nos dividendos.”

                   Isso era no meio do fogo de palha das Jornadas de Julho.  Qualquer frase mais ou menos revolucionária poderia ser encarada como uma afronta para o governo; A guarda pretoriana dos números primos vestia realmente capacetes draconianos e armados com cassetetes de matrizes batiam nos defensores einstenianos que questionavam a teoria newtoniana do Estado. A gravidade levaria tudo abaixo, menos a Babilônia que tinha jardins suspensos.

               Foi preso no meio daquela confusão de números primos misturados com raízes negativas. O número pi zumbia em seus ouvidos depois da saraivada pesada de um cassetete em seus ouvidos. E tudo que fez foi sorrir e recitar a formula de Bashkara.




              No meio do interrogatório. Sob golpes violentos do guarda, na luz fraca sobre o rosto e o sangue gotejando da boca, ele recitava:


“X igual menos b, mais ou menos raiz de b ao quadrado menos 4 multiplicado por a e c, dividido pelo dobro de a”


O guarda nem o delegado entenderam, e numa torrente de palavras ilógicas, e portanto não cartesianas, o golpearam com toda a incongruência matemática que é dizer que dois mais dois é igual a cinco.


Gregório Furtado era homem casado, pai e um ser matemático. Professor e cartesiano por convicção, beijou o cálculo quando criança e se apaixonou pelo modo como os números seduziam no gráfico.
Foi solto oito dias depois, ou será o cubo de dois dias inteiros? A juíza da vara judicial mandou uma ordem direta, de que não mais ministrasse a matemática. Os números eram subversivos e às vezes criminosos.



Indiciado por associação criminosa, ele rastejava pela cidade procurando encontrar o número em cada palavra das pessoas, versos, ou mesmo fonemas vocálicos. E descobriu que a geometria da vida era uma coisa tão amorfa que não correspondia ao prisma equilatéro com o qual sonhara toda a vida.


Gregório Furtado era casado, pai de uma menina de sete anos. Foi torturado e não pode mais fazer ativismo em classe. Dar aulas também é ser servo da religião dos números, o positivismo engendrado. Beijou o céu e a lua, pensou ser Pitágoras.


E no fim enlouqueceu de vez, apenas os bons colegas diziam. “O que se fez foi acabar com a reputação de uma pessoa que só podia pensar em se apaixonar pelos números. O homem matemático”.

“Eu sou Pitagoras eu sei, desenho o triângulo retângulo como você me vê, meu olho é um prisma por onde olho mundo passar a ser uma ótica do sombrio destino que é o número irracional”. Dizia.


Deprimido, sem capacidade de dar afeição aos números como antes fazia, se apaixonou pela língua portuguesa e hoje vende livros de cordel nas paradas de ônibus por aí a fora. “Meu mundo acordou, Não misturo as coisas . Esqueça que um dia fui mestre da ciência e se apaixone pela minha matemática das letras”, disse no ônibus.


Taxado de louco, foi deixado na parada. Com um semblante sorridente olhava todos com um olhar profundo que adentrava a alma, de modo que todos os passageiros viam em seu rosto um  choque de realidade. Desconfortáveis deixaram levar seus rostos lívidos com o passo do compasso e por fim Gregório Furtado contou as gotas de chuva que caíram sobre o céu.


“Minha tábula de diferencial” E beijou o vazio no meio do nada.



A chuva caía do céu e trovoadas corriam pelo céu no solo da capital... E o filho da ciência foi corrigido pelo braço coercitivo da matemática radical.

sábado, 23 de agosto de 2014

A fumaça de um cachimbo





São várias coisas que mostram cada dia mais o quanto é complicado ser um escritor. A primeira delas é não ser lembrado, não ter apelo algum pelo público e sequer ser reconhecido. A maioria dos escritores passa por isso porque a escrita e a pena são profissões ingratas. Mas talvez pior do que isso sejam duas coisas, ter um lapso criativo e envelhecer.

Sim, o papel branco que nos martiriza quando tentamos preenchê-los com ideias que depois de meros minutos de escrita parecem absurdas e meras bizarrices de um ilusionista fracassado em um circo de segunda linha. Nunca conseguimos escrever o que realmente pensamos e não conseguimos dormir sabendo que se escreve até na hora do banho.

Mas a pior parte é envelhecer. Pior que envelhecer é envelhecer e lembrar do seu próprio passado. Essa é a origem das frustrações de Manoel, uma pessoa ainda desconhecida de muitos, até mesmo de seus próprios colegas. Autor de romances tipo B, e incrivelmente cosmopolita tinha a imagem de um semblante jovem, barbeado e com um temperamento de trinta e cinco anos.

Bem-educado, bem de vida. Ao contrário da maioria, ele vivia bem, tranquilamente num casarão sozinho, sem nenhuma espécie de companhia ou amigos que pudessem se destacar no dia a dia. Ele era uma ilha dentro de uma própria ilha. Ele talvez fosse o mais solitário dos escritores.

Também deveras, sua rotina era bastante rigorosa. Acordava às oito e meia, tomava um banho quente, se vestia e ia trabalhar na repartição. Após horas de procrastinação, voltava e quando estava afim, lia um livro diferente a cada dois ou três dias, jantava fora, bebia sozinho, e voltava para casa. Sua rotina era enfadonha.

Às vezes caminhava sozinho nos finais de semana, analisando as pessoas nos parques, shoppings ou mesmo no museu e tentava estudar cada vez mais seus personagens. Absorvendo-se da “artificialidade do cotidiano”, como ele gostava de chamar, a felicidade geral com que as pessoas exibiam que não eram sequer verossímeis a si mesmo;

Ele não se julgava melhor ou pior do que as “caricaturas em forma de pessoa”, muito pelo contrário, às vezes até se divertia com isso. Mas algo lhe fazia julgar a si mesmo incapaz de ser como os outros, talvez por ser apenas um escritor. Ou um fantasma social.

Ele tentava solucionar esses problemas bebendo de forma absurda goles inteiros de álcool, seja o mais refinado whisky escocês até a mais barata das cachaças. E não desgrudava de seu cachimbo de madeira. Afinal o cachimbo tinha sido um presente bastante antigo com que se afeiçoara emocionalmente, sabia que fumar fazia mal, mas a despeito disso achava-se dono de si.

Sozinho, às vezes pensava que a solidão era sua companheira de longa data. Mesmo quando andava com vários amigos pelos bares e restaurantes à fora. Num ímpeto em sua juventude concluiu que eles  estavam se perdendo em essência e que ele também se perdera, e se isolou por um bom tempo. Abandonado, ou pelo menos pensou que estivesse, passou a ficar cada vez mais solitário e vazio por dentro.

Sim, ele era inteligente, bastante até, Manoel era um dos homens mais inteligentes que essa terra criou. Falava oito línguas diferentes, conseguia discutir filosofia, história e até física dependendo da ocasião. E além disso era bom conhecedor de vinhos, música e moda. Era um bon-vivant por excelência. Mas vazio.

O Céu Magenta, seu último romance encalhado. Não por escolha própria, mas por falta de ideias, que vocês hão de convir são um passatempo bastante pernicioso para a vida de um escritor.

Enfurnado em seu escritório, olhando para a tela branca do computador piscar com violência para a sua retina, ele se retirou por um momento e andou em círculos a matutar. Os quadros na parede era arte ilustrativa, um neoimpressionismo de autoria do próprio Manoel em um momento de diletância pura. Os livros o acompanhavam impacientes, assim como o relógio de pêndulo e a máquina de escrever quebrada. Pensou:

            “Diabos, se a máquina tivesse funcionando eu já teria algo em mente”...
            Pensou em desistir da obra no meio do caminho, mas algo lhe fez desistir. Seja as oitenta páginas escritas, seja a ideia do romance ainda lhe parecer emocionante. Tentou matutar, até que sua cabeça doeu, e  ligou o rádio para ouvir algo de novo.

            Colocou no empoeirado microsystem um CD, um jazz de Louis Armstrong para tentar relaxar, não era por exemplo as suítes noturnas de Shostakovich ou as operetas de Giuzeppe Verdi. Ele tinha um estilo eclético às vezes, ouvia Carlos Gardel num dia e noutro estava ouvindo música tradicional irlandesa. Isso quando num deleite de ufanismo, não se dedicava a bandas militares. Algo lhe dizia que seu sangue tinha algo de cigano.

            Tomou um copo e serviu trago de whisky 12 anos. Que por sinal avaliou estar forte naquele dia, mas coberto de sombras, achou conveniente. Ele passou um tempo avaliando a escuridão e o teto, até que por fim decidiu que tudo aquilo era inútil.

            Ficou sozinho em meio aos seus pensamentos, percebeu que estava se sentido solitário e saiu para a noite suburbana e bucólica na Capital. A “cosmopolitana cidade de interior” como ele adorava chamar, ou mesmo o quadradinho do Planalto Central, às vezes lhe era acolhedor, às vezes era sufocante; Nesse dia era ambos.
            Tentou correr atrás de um ônibus tal como criança correra atrás de borboletas. Mas logo julgou isso inútil, e como um fantasma, de capa e calça jeans, vagou pelos bairros a procura de algo para fazer. Era um Hemingway sem fama, ou pior do que isso, um mero Paulo Coelho sem fé. E profundamente decadente de sentimentos procurou um pouco de descarrego.

            Tentou se mesclar nos bares, restaurantes, mas ele não conseguia ser mais um. Ele só admitia ser o único. E sempre foi assim.
            “Cidade ignóbil”, pensou.
            Andou pelas calçadas e com um tom bastante boêmio pensou:

            “E o jovem Souza Campos ainda cansado de mais um dia de trabalho, com o paletó nos ombros e um paiol apagado dentre os dentes sorria enquanto acompanhava com os olhos esbulhados o bonde passar da esquina de Santa Maria. O jovem mulato, que não era bobo nem nada, sabia que correr não iria adiantar, e exausto de suas forças começou a cantar.
            O malandro senta na mesa do café...
            Mas ele não era um malandro qualquer, era um sindicalista que gostava de brincar de sambista de vez em quando”

            Campos? De onde tirara esse nome? Ah, sim. Daquele seu antigo candidato que morrera num acidente aéreo. Por mais que os laudos da aeronáutica atestassem, ele ainda acreditava que ao avião tinha sido sabotado. E por quê? Porque ele não confiava em ninguém, nem na própria sombra.
            Puxou o cachimbo do bolso, mas não fumou. Ele não tinha mais o hábito de fumar. Não mais. Ele só gostava de morder o cabo daquele objeto, sentir a madeira desviar-se com o movimento da mandíbula e se sentir importante. Ele parecia o comissário Maigret, de capa e cachimbo na boca. Queria ele próprio ser descrito pela narração deliciosa de Simenon na Noite da Encruzilhada, ou Pietr, o Letão. Quase ninguém sabe o que ele devia estar pensando, e ele se sentiu confortável com isso.
            Sentou-se num bar e bebeu uma cerveja. Queria ler alguma coisa, seja um caderno econômico para ver os juros do Banco Central, seja álbum de figurinhas que tencionava completar. Mas nada disso, só tinha uma televisão velha que estava passando futebol, e pra piorar, nem era jogo do Corinthians!
            Pagou e saiu.

            “A lua está bonita hoje. Nunca vi céu mais belo do que hoje”.

            — “E olhou para a lua no céu da Guanabara. O céu exibia um clarão tão intenso que sequer o nosso querido personagem apercebeu-se que estava sendo vigiado de tocaia pelos delegados do estado da Guanabara. A reunião clandestina ocorreria de forma secreta nos porões da Fábrica de Motores Nacionais, e a tocaia dos guardas da Secretaria de Ordem Pública levaria a prisão de vários militantes naquele dia. Os dias eram difíceis, e ninguém sabia o que iria acontecer. Tantas greves! Será que Jango era comunista?”


            “Jango”. Sorriu. Era assim que chamava o seu melhor amigo, Jango. Isso foi há pelo menos quinze anos atrás, quando ele ainda era jovem e brincava de ser militante estudantil. Parece que foi em outra vida. E que bom amigo o “Jangoulart” era, nunca tinha visto uma pessoa tão honesta e capaz atuar na direção de uma entidade estudantil como ele. Quando o sucedeu, logo depois, não pode repetir o mesmo feito. Manoel reconheceu, ele era jovem, e bastante imaturo.

            Por onde ele andaria, de certo deveria ter se casado com aquela menina, ele gostava muito dela, ou talvez não. Mas o que importava é que talvez ele fosse o mais próximo do que viria a ser um irmão; Na época pensava assim, mas o tempo sempre foi um carrasco infeliz de amizades.

            Mordia o cachimbo com mais nervosismo enquanto subia a ladeira entre as quadras 400 e o Eixo rodoviário. Brasília era uma cidade estranha, com pessoas estranhas. E ele sorria com isso, não era como Rio de Janeiro ou mesmo a Sampa (ou “a pátria paulista”, como chamava em tom de brincadeira). Ela era uma cidade projetada para robôs, não para seres humanos.

            E ainda assim era bucólica e tão provinciana que chegava a ser mais uma porteira do Brasil Central.


            — “Povo Brasileiro, trabalhadores e nobres camaradas. Hoje estamos prestes a construir um dia histórico. Nunca antes na história desse país...” Não, não posso usar isso, isso cheira muito lula-petismo. “ ‘Nunca antes, tivemos tamanha força como agora.’ Souza Campos suava em forma de tufos em meio a holofotes, não esperava que tanta gente apareceria àquela reunião que devia ser clandestina, na verdade, até reclamou.”

            E anotou em seu caderninho. Uma caneta de pena saiu de seu bolso.

            Engraçado como ele começou a usar canetas-tinteiro, foi por intermédio de seu orientador. Ele se recusava firmemente à ostentação de ter uma caneta mais cara que uma BIC, mas com o tempo se seduziu pelo toque retrô e pela escrita deliciosa de uma ponta de irídio.
            Ele sorriu ao se lembrar disso, e a despeito de não ter correspondido às expectativas, lembrou-se com carinho do semblante bonachão e engraçado do seu antigo orientador.

            Subiu às 200 e tentou atravessar o Eixo que naquela altura estava bem movimentado. Uma música subiu-lhe à cabeça.


            — “Nossa senhora do Cerrado/ Protetora dos pedestres/ Que atravessam o Eixão/ Às seis horas da tarde”... — E sorriu.

            Não lembrava bem dessa música do Legião Urbana, mas a sensação foi exatamente essa. Brasília era uma cidade musical, cidade do Cazuza, Cássia Eller, Legião Urbana, Capital Inicial e tantas outras bandas. Não era uma cidade de escritores, como Port’alegre ou Curitiba.

            “Um fio de suor correu-lhe à espinha quando de repente viu vultos luminosos adentrarem na reunião... Souza Campos pensou em correr...”, matutou.

            Subiu a 109 Norte e a 309 com o cachimbo entre os dentes. E encontrou um sinaleiro fechado na Avenida W3. Cheio de sim, aspirou o cheiro de sua infância quando ele corria com sua mãe atrás das zebrinhas (que hoje não mais existem) para ir para casa.


            Ficou feliz com seu toque regionalista, lembrar de Brasília assim é para poucos; O metrô inacabado que parava na Praça do Relógio, o Teatro Nacional que vivia fechado em reformas, os blocos de pilotis dos prédios de apartamentos nas quadras 400. Onde às vezes ele ia namorar, ou fugia da chuva quando estava saindo da UnB.

            O Pastel de Cana carregado de óleo da Rodoviária, a cúpula de cimento pintado do Museu Nacional. Algo lhe lembrava a infância. E ainda assim lhe trazia más lembranças. Seu regionalismo era ainda limitado a tomar chimarrão e comer pão de queijo ouvindo samba em meio ao Carnaval de Olinda. Era algo estranho e amorfo.

            Ele tinha algo de estrangeiro, não só em seu rosto ou em sua pele pálida que o assemelhava a um eslavo. Mas ele era um estranho no seu próprio país, passara quinze anos fora. E se lembrou de recitar Carlos Gardel na hora:

“Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos
Van marcando mi retorno...
Son las mismas que alumbraron
Con sus palidos reflejos
Hondas horas de dolor..

Y aunque no quise el regreso,
Siempre se vuelve al primer amor..
La vieja calle donde el eco dijo
Tuya es su vida, tuyo es su querer,
Bajo el burlon mirar de las estrellas
Que con indiferencia hoy me ven volver..”

                E lembrou-se de seu pai, quando ainda era vivo, quando esse tentava lhe dar conselhos de como lidar com o mundo. Hoje ele entendia o porquê. Ele estava só de verdade. E quando voltou para Brasília é como se tivesse voltado a seu velho amor, a cidade estava velha e ele também.


            Lembrava de sua primeira namorada, de quem fizera por muito tempo esforço para esquecer, para não sofrer mais ainda. Ou mesmo dos amores perdidos, da menina que retirou a sua virgindade que depois nunca mais desejou vê-lo, ou mesmo a outra que partiu para bem longe depois de uma situação indigesta.

            E pensou na última. Tinha ido para longe, foi para o recanto mais sujo da Europa e esquecido. Portugal. E ele não gostava muito de Portugal (sorriu). Portugal lhe deu muitas coisas, mas ele gostava de menosprezar aquele país que visitara apenas uma vez, e por vezes fazia troça do espírito português.
            Ele era anti-lusitano e ainda assim era luso-brasileiro. Engraçado.

            Acendeu o tabaco do cachimbo. A fumaça se fez. Será que ela estaria bem? Com certeza sim, casada talvez ou seria uma mulher de sucesso. Quinze anos, Gardel, Hondas horas de dolor. E ele viajara muito nesse meio tempo.


            O cachimbo lhe dera ideias. “Se escondeu na batida numa das sombras da noite, mas ele não pode esconder o seu espanto ao ver a polícia nocautear seus companheiros com saraivadas intensas de balas. Por vezes alguns se rendiam e era mortos ali mesmo com uma bala na nunca”.

            Andou pelo canteiro central da W3 com o concreto rachado pelas raízes das árvores maiores que a terra do Cerrado. Olhou para o alto e viu o reboco das marquizes descascar e aquela parte central que antes era viva nos seus olhos juvenis se desfazer na decadência dos anos fazem ao coração de uma cidade.

            Ali se multiplicavam os pontos de droga, os prostíbulos e a falta de paciência com a cidade por parte de Manoel. Andou recolhido em sua capa, como se fosse um inglês. Ou uma “águia das montanhas”, como gostava de se alto denominar no alto de sua arrogância e andou sozinho.

            Foi então que viu as prostitutas, uma delas o chamou:
            “Ei, gostoso. Vamos fazer um programa?”

            Ele ficou chocado no primeiro momento. Mas logo depois aceitou de sobressalto, ele era um Hemingway sem fama. E nem preciso descrever esse momento de intimidade seu.

            Perdido e velho. Estava com trinta e tantos anos na cara e ainda não sabia o que era si. Ele vagava como se fosse um fantasma e pior do que isso, não conseguia fugir do alto de sua autopiedade. Sozinho e amargurado, sentiu-se sujo, até que por fim voltou para casa e olhou seu bloco de anotações.

            Manoel se lembrava muito de sua juventude, de como viajara como mochileiro pelo Cone Sul com um amigo ou mesmo como fora sozinho de Lisboa até a Sibéria apenas de trem durante dois meses bastante felizes na companhia de uma namorada provisória. Mas lembrou-se que escritores não tendem a ser felizes, felicidade foge muito do que vem a ser a arte.



            Velho, bêbado e meio sozinho, ele avaliou a sua vida e julgou: “Minha vida é uma merda”. E no fim, apenas fumou um trago de seu cachimbo quando chegou em casa.

"Volver... con la frente marchita,
Las nieves del tiempo platearon mi sien...
Sentir... que es un soplo la vida,
Que veinte años no es nada,
Que febril la mirada, errante en las sombras,
Te busca y te nombra.
Vivir... con el alma aferrada
A un dulce recuerdo
Que lloro otra vez"

E se sentiu mais vazio do que o pó das cinzas do tabaco e a fumaça negra carregada de alcatrão.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...