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terça-feira, 29 de março de 2016

Matemática do amor




Num traçado de uma tangente
Um matemático meio demente
Descreve uma equação inconsequente


Dentre os pequenos cálculos
Puxa na saudade dos números
Encontrar a felicidade da cara-metade
Como se isso fosse uma tenra novidade

Calculou que a soma dos quadrado dos catetos
Era igual ao quadrado da hipotenusa
Mas por uma inocente maldade
Imaginou o coração como um triângulo

Um triângulo que batia em três lados
Um lado era da paixão, que saia no piscar de um olho
Outro lado era o da fé, que era cego como um porco
E o terceiro era do amor, perdido na poesia

Pois bem, descobriu o coração rachado
nos três lados. Beijou o quadro com o giz
Calculou o tempo de um piscar de um olho
Calculou o tempo de uma missa de fé
Mas e o amor?  Como se calcula?


Hipoteticamente, não há hipotenusa
O matemático sem esperanças
Rasgou os papéis e saiu da sala descontente
Até que quando se deu conta

Se apaixonou pela ideia de ser  matemático de novo

sábado, 6 de setembro de 2014

Bечера Песня

Um verão de madrugada
Olhei para o jardim das cerejeiras,
Vi uma coruja seca
E as  uvas cresciam no vinhedo.

Eu coro e começo a empalidecer,
De repente, queria dizer:
"Vamos cantar.
Ou só nos conhecer hoje! "


O bordado verde no chão, a folha esculpida,
Aqui nos separamos de perto com você.
A macieira verde encaracolada com a noite
Esculpia formas sinuosas na paisagem

Quando sai de casa.
Estava esperando por você
Na floresta densa de sonhos

Mas no caminho a floresta desapareceu.
E encontrei a rua quebrada da cidade
O telefone tocou
E muitas vezes pensei na noite.

Até que percebi
que estava sonhando acordado

Песня

Não ouço no jardim nem mesmo as folhas
Caírem das árvores secas
Tudo aqui é parado até de manhã.
Se você soubesse como é querida para mim
Nas noites frias de inverno

O rio está em movimento e parado,
O lua prateada ilumina o jardim
A canção pode ser ouvida silenciosamente
Nessas noites calmas de inverno.

Onde você está, querida, que me olha de soslaio?
Sua cabeça está inclinada?
É difícil de expressar e falar
Tudo o que está no meu coração.

E  é mais perceptível falar nada...
Então, por favor, seja gentil,
Não esqueça que daquele verão
Nesse inverno gelado!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Que futuro?

A bandeira vermelha tremula a meio mastro
Tenha certeza que o sangue jorrou
Jorrou nessa terra fria e ácida
Não tenha medo, camarada
Só é um enterro, um funeral
Funeral de heróis de um futuro esquecido

Os nossos camaradas que sorriam
Brindavam e corriam sob os silvanos
Hoje caíram sob o cadafalso da tirania
Sem direito de resposta
Caíram ensanguentados
Até fenecer sobre a morte

O estudo em vermelho
A câmera em preto e branco registra
A desolação de uma mãe
que não pode enterrar seu filho
Ele era meu camarada;

Meu amigo de infância
Meu colega de juventude
Que corria dos cachorros
Mas não fugiu das balas

O frio tece-me a lembrança
De como o chumbo é sacana
Pois queima-o por um instante
Mas o deixa gelado de agonia

Meus camaradas morreram
Nessa praça onde você anda
Eles feneceram em silêncio
E se dobraram ao tempo
Mas eu, eu não esqueço

Não esqueço de quando era jovem
De quando era idealista
E um único sonho
era ser marxista

Vi o tempo passar,
vi uma guerra se formar
Lutei e vivi
Vi meus filhos crescerem
Casei e morri

Hoje tudo que me resta
É descrever o que minha juventude disse
E eu não ousei ouvir
Que meus sonhos são hoje
O passado de alguém distante

Que futuro eu terei?
Que futuro você terá?
Nada é mais triste
Do que esquecer seu passado
E desdizer o futuro

Viva o presente, meu jovem
Viva o presente.
Tempo, a toda velocidade,tempo!
Não se esqueça de nós, minhas crianças
Assim como nunca esquecemos de vocês

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sensações

O suspiro de uma mão
O acalanto de um conforto aparente
O beijo num pano
O tocar de duas mentes

Sensações que não podem ser escritas
Às vezes é errado descrever os sentidos
Pois como diz o neologismo
São para serem sentidos

O pulsar de uma mão
O abraçar de um irmão
A expectativa da desilusão
O fato de se apaixonar com mísero olhar

O tremor quando está frio
O alívio por ler um livro
O estupor por um elogio
Sensações que não são descritas

Palavras conscritas,
amores de uma vida
Plurais dentro do singular
Singularidade do plural

São sensações
São tentações
De toda uma vida

Lacunas

Em todo o espaço vazio
resiste um infinito
pois se escondem
centenas de coisas
numa lacuna que martela
uma consciência destreinada

Lacunas são espaços dentre palavras
versos, ou mesmo no ponto-e-vírgula
Mas nesses vazios existenciais
sempre há espaço para renovação

Lacunas são espaços entre ladrilhos
São o cimento e argamassa
Do papel e do concreto
pois são amálgama do subconsciente

Lacunas é como encontrar um livro perdido
Um verso que foi comprimido
Ou um suspiro que foi contido
Pois o vazio é um todo
E o zero é o infinito.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Minerva

Minerva
deusa da sabedoria
E da sensualidade
Que fenestra sua adaga
Nos desavisados prosaicos
e nos sofistas de verso
metafilosófico

Sua serpente age
com o veneno de muitas
E o sínodo de suas formas
No ferro fundido
Escondem a pilhéria contrastante
De uma deusa de formas humanas

De muitas aparências
tece o novelo do conhecimento
Espero que ouçam as ideias de um sintagma
Perpassado de vários significados
Pois no fim, minerva é conhecimento
Um conhecimento campestre do pensador

Seu teorema de Tales
Sua filosofia matemática
Há algo de inustidado
Sensual que não sei dizer

Tome dois tempos
Toque uma sinfonia na tíbia
E escreva em grego o que sente
Alethéia, bardo do esquecimento

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Saída

Por aquela porta
Sob o semblante taciturno
Minerva esconde a serpente
E segura o feixe do esquecimento

O relógio na parede
Martela o ponteiro
As cadeiras vazias
Escrevem amarga poesia

As nuvens do ócio
Encolerizam nos ventiladores
E beijam os sabugos
dos degraus da escadaria

As cercas do conhecimento
O cunho aristocrático dos livros
Os computadores impessoais
Tomam meu livre saber
Toda a memória do esquecimento

Meu amigo destino
Meu sentido clandestino
Papel vermelho
Amargo pentelho

Referências,
Exposições
meras distrações

As luzes do positivismo
ofuscam o meu caminho
E sem as ilhas de livros
Não poderia apagar o sentido

Por aquela porta
não se pode falar
beber ou fumar

Minerva é sensual
e bastante matriarcal
Conhecimento
é cimento da solidão

Aquela porta de vidro
Aquela saída
está para mim fechada

Acabei de sorrir,
e em mim já estava arrependido
com tamanha velocidade

Ostracismo

Hoje compreendo
o tamanha pesaroso
De ficar tecendo
o fio sinuoso
do verso solitário

Meu cinismo de ontem
é o a rima de hoje
e na retórica quebrada
Erijo um totem para mim mesmo

Faríngeo e fariseu
Bravo e grande coliseu
é o meu ego centralizado
Meu egocentrismo acuado

Hoje compreendo
o que é ostracismo
ser deixado de lado
E tomar as areias da história

Tem tudo um licor salgado
E um vazio narcisístico
Que nem pinto prosa
Nem  sublinho dístico

A nostalgia
O passado místico
O perdão encolerizado
Ergui para mim mesmo
O ataúde de madeira
do nobre esquecimento

Minha autopiedade
é mais honrosa
do que pensar em solidariedade

E fazendo-me de cego
Fazendo-me de surdo
Ouço e vejo mais do que a maioria
Condenável ostracismo

Condenável destino
Espero que me ouça
Sou uma múmia de vinte anos
Com um cinismo e rabugice
De uma coroa de espinhos


sábado, 12 de julho de 2014

Prosa e poesia II

Queria decantar
dois tercetos
em um soneto
triste e violento

Queria fazer rimas
de formato tão sinuoso
Que as primas
deixariam de rimar

Nenhum dos verbos aceitos
Possuem percurso tão lento
quanto eu imagino musicar

A gaita toca ao fundo
triste e melosa
Numa suíte de blues
em três quartos
Onde estão os azuis?


Cantam flamingos vermelhos
fotonovelas de dragões
da independência
na prosa azul
de um poema musical

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Faz tempo...

Seres de olhos abertos
fenecem as estrelas
e contemplam as águas
que não escorrem

A folha
brinca de flutuar na água
e encontra nas nuvens
uma companhia

Faz tempo
que as mulheres envelheceram
e os poetas morreram

Tudo foram mascates
que viajaram de novo
para o alto

Hoje seus cocares
se perdem nas águas
e os índios dessa terra
andam nus de novo

Na rua cinzenta
o vício do riso
brinca de atropelar 
o felino olhar dos seus olhos

Que noite estranha...
E a nuvem se esganou no ócio da primavera



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Prosa do mundo da lua

Deixei de ser menino
Deixei de beijar o sol
Deixei de desejar abraçar o vento
E não há maior tormento
Do que virar adulto

Hoje sou um pedaço de adubo
Brincando de olhar as estrelas
E flertar com a lua
Não passeio mais pelos anéis de Saturno
Nem jogo críquete em Plutão
Sou como um militar de coturno
Sem brincar de marcha soldado

Amanhã estarei velho
E não poderei correr atrás do tempo
Mas apenas contra o tempo
Meus cabelos ficarão brancos
E as rugas serão minhas esposas
Pois no bosque da perdição
Vou ficar tão velho e sem noção

Hoje e amanhã
Ficarei longe de você
Depois e antes do depois
Pois minha vontade é olhar as estrelas
E ainda encontrar um pouco de você

Vivo no mundo da lua
E o espaço é o meu palco
Beijo um dia ou outro seu retrato
Me deixe de fora, me deixe de lado

Deixei de ser menino
Deixei de beijar o céu
Brincar de caleidoscópio no céu
Ou de escrever histórias no papel

Estou me modificando
Ficando mais velho e rabugento
Procurando no pó do Big Bang
Um pouco da fumaça do cordel

Sou apaixonado pela ciência
Apaixonado pela matemática
que me distância cada vez de você
E calcula o quadrado da hipotenusa
Como a soma dos quadrados dos catetos
Que somos nós dois

Não sou mais menino
E brinco de desenhar números
Faço contas imaginárias
Com variáveis reais

Nunca deixei de ser adubo
De pensar com pensamento caduco
Pois no ciclo de nitrogênio
Todos nós morremos
para no fim ressurgimos de novo

Estou ficando velho
E cada vez caduco
Penso no jogo
Como esporte dos inúteis

A lua crescente
pinta o arco da estrela de seis pontas
Que por sua vez tece um anel ao cruzeiro
O Grande Cruzeiro do Sul

Nós somos pequenos pigmeus encolhidos
No frio de uma noite gelada
Dessas de final de junho
Início do solstício caseiro

Nós somos pequenos pigmeus escolhidos
para sairmos longe um do outro
Pois não há maior tesouro
Que imaginar que tudo é passageiro

Deixei de ser menino
Para me tornar um homem
Deixei de abraçar o vento
Para cumprimentar o tormento
Pois não há nada mais triste
do que olhar as estrelas
e só encontrar selva de cimento

domingo, 29 de junho de 2014

Vacilo

Uma mulher conversou comigo
na luz das sombras e do luar
eu não escutei nada e fiquei perdido
fui para longe pro meu lugar

Nunca mais esqueci seus cabelos longos
Um belo tormento para o olhar

Abandonei leis e parentes,
 beijei Sol e Lua
até meu destino vir
 e  me levar

Como pude permitir
Com o lápis nas mãos
ficar de cabelos grisalhos
na coroa imperial da minha juventude?

Confesso que vi gazelas deitarem o peito no Universo
E peixes vermelhos pisotearem pobres oceanos
mas não recordo de lágrimas tão dolorosas,
lágrimas de sangue, que exilaram meu peito
quando o meu coração partiu

Condenados a desaparecer nas paredes,
esses pequenos versos encontraram caminho
de ida e volta para longe nas estrelas

A lua me fitou,
e através dos meus olhos,
assustou um gato

O medo tem olhos enormes
e ideias geniais
à espera de um pouco de surpresa
no adormecer de uma vida

Nunca mais esqueci essa mulher,
um tormento para o olhar
Que até hoje me mete medo
Só em pensar em lembrar

Diálogos esquizofrênicos

Meu papel de livreto
Não corre devagar
No beijo do soneto

O verso regular
Não tem graça
Nessa mesa de bar

Deixe-me cantar
Duas páginas
e meia ciranda
de ninar


Caderno de papel
De menino levado
De letras grandes
e gesto desconfiado

É nada menos
que um pequeno véu
Na infância perdida
de um poeta fracassado

Aquarela vermelha
Ciranda amarela
É essa noite
que vem e que gela

Eu sou menino
que finge saber ler
e acha poder escrever

Eu sou garoto
que não sabe soltar pipa
e só quer saber de mulher

Nunca corri atrás de gafanhotos
Nunca subi em pé de mangueira
Sou mimado demais
para ser deixado pra trás

Já briguei muito na escola
Sempre saia perdendo
Mas o que não saia perdendo
Era minha dignidade de brigador

Por vezes minha mãe me batia
Por vezes ela discutia
Só sei que ela me atura
Nessa grande ditadura

Cadê meu caderno?
Cadê meu lanche?
Pode amarrar meu sapato?
Pois é, sou muito folgado

Cuidado comigo,
eu posso crescer
E sabe de uma coisa?
Não estarei com você...

Sou embalado a jato
Sou menino ingrato
Eu sou garoto
que não sabe soltar pipa
e só quer saber de mulher

Poeta fracassado
Na infância perdida
cidadão de papel

Marcha soldado
Cabeça de papel
senão marchar direito
Vai preso pro quartel

"Seu prezado escritor
que não sabe pescar
o maço de papel
sem fazer garrancho

Sou eu que sou criança
e você que finge ser adulto
deixe eu ser você
e você ser eu
e aí tá tudo certo
comigo e contigo

Quero uma pinta de soneto
Dois quartos de terceto
e um beijo no rosto
daquela menina do retrato

Também quero que escreva
O quanto você chora que
nem criancinha de duas às seis
E depois corre como adulto
ganhar dinheiro das oito às doze

Cadê você?
Você, seu velho?
Cadê você
que se esconde
nesse fio de bengala?

Está achando que eu te esqueci
Onde mais teria te encontrado
senão na minha mente
Seu velho inconsequente

Já não basta ter babado
enquanto estava dormindo
ou ter se aposentado
enquanto estava vivo?

Que velho imprestável
nem quer escrever nada
seu cidadão instável!"

'Quando eu era jovem
As pessoas tinham mais respeito
Eu tinha mais peito
E batia vento na viagem

Quando era jovem
eu escrevia muitos papéis
que hoje eu lembro e sorrio
Na burrice da vida da juventude

As rugas me ensinaram um defeito
que é ser jovem e idealista
Quando criança era mimado
E quando jovem era safado'

"Mas que velho imbecil!
Eu ainda sou criança
Beijo a minha pança
E olho meu umbigo"

e eu sou tão safado
que volta e meia
eu olho para o passado

Eu sou moleque
que joga no videogame
puxa um chimarrão de vez em quando
e brinca de beijar mulher

Sou velho, sou novo
Sou poeta, sou pecador
Sou antes de tudo esquisofrênico
E amargo sofredor

Pois sou poeta, sou velho
Novo jovem, velho poeta
safado, pecador, errado
E sonhador
Acima de tudo
sou louco
de vontade
de voltar
a ser
inconstante

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Jazz gramatical

Não me venha pedir o seu telefone
Pois o seu toque me faz
tremer o meu coração

Não me venha tocar um pouco mais
Uma suíte de Jazz
Nessa inevitável paixão

Estou com frio nessa noite
De luzes estreladas
Em inevitável solidão

Não me aqueça hoje
Nem finja lembrar que existo
Pois a noite é consolação

Jazz é um movimento
Em dois quartos
Da suite nervosa
do sopro na alma

Jazz é um orgasmo sonoro
Um suspiro latente
Que mexe com a gente
Em nove contrações

Não me venha pedir o seu telefone
Pois o seu toque me faz
tremer o meu coração

Jazz ritmado
Blues prismado
Eu fico abismado
Em te encontrar sorrindo
Nessa silenciosa canção


domingo, 15 de junho de 2014

Toda vez que fecha uma livraria

Toda vez que fecha uma livraria
Um pessoa a menos passa a ler
Uma vida inteira acaba se perdendo
Personagens de um livro são esquecidos
E não temos mais o culto aos escritos


Toda vez que uma livraria fecha
Um livro é defenestrado
E o resto são esquecidos
Pois nada mais adestrado
Do que livro de cabeceira

Toda vez que uma livraria fecha
As traças e o mofo tomo o lugar
Onde antes tinha um pouco de cultura
E gente ávida em se apaixonar

As palavras são perdidas ao vento
Os livros são confinados no convento
E nada mais triste do que achar
Um Fernando Pessoa se rasgar

Toda vez que uma livraria se fecha,
Uma cabeça mais se fecha pro mundo

O cheirinho do café

O cheirinho do café
Com um toque de fragrância
De mel com um pouco de madeira
De livros envelhecidos na estante

Nessa livraria pouco iluminada
Onde os livros vão envelhecendo
Te encontro ciscando um Pablo Neruda
Enquanto eu leio versos do Edgar Poe

Decido-me entre Fustel de Coulanges
ou Ernest Hemingway
Mas você não se decide entre
Clarice Lispector ou Agatha Christie

Mais interessante você fica
Escondida em seu óculos de intelectual
Recolhendo-se numa mesa
Perto da folha musical

Uma distância de oito metros nos separa
Oito metros e meia literatura francesa
Meu café está delicioso
E ainda não cheguei ao meio do Velho e o Mar

Seus olhos escuros desdenham das letras
E com um olhar preguiçoso
Fitam sobre mim um gesto curioso
Um enigma se inicia entre nós

Finjo estar preocupado em ler o livro
E você finge estar preocupada em não me ver
É mais cínico da sua parte do que da minha

Não lembro de onde eu te conheço
Duvido que você se lembre de mim também
Quem é você, afinal?
De cabelos vermelhos e óculos de grau

Nessa mimésis perdida
Recolho-me a cantar
Mais uns dois versos
De o Velho e o Mar

Que quinta-coluna você...
Tentou me ignorar mais um pouco
Até me mandar um bilhetinho pelo o livreiro
"Quer tomar um café comigo?"

E saiu sem se despedir


(Livros, livros, e mais livros. Quanto mais velhos, melhor)

terça-feira, 10 de junho de 2014

A natureza dessa força

          Ser forte é parecer fraco quando é conveniente
          Mas parecer forte e ser convincente
          É ter medo de não agir quando deveria
          E ter raiva por também ter agido

          Ser forte não é ter só músculo
          Mas também ideias
          Pois é muito fácil ser um Hulk
          Mas é muito difícil ser um Einstein

           Quem é forte não tem medo de chorar
            Mas também não teme sorrir
            Forte é ser humano
            Esquecer de vez em quando
            A máxima tristeza
            E amar a ótica do esquecimento

           
            Eu queria ser tão forte
            para poder te esquecer hoje
            E para que você me esqueça amanhã
            Mas não é essa minha natureza

            Você talvez se lembrará do meu olhar
            E eu lembrarei de seu sorriso
            Você lembrará de minha voz triste
            E eu lembrarei que você ainda existe

            Não espero muita coisa disso
            Queria largar a lembrança
             De meu fadigado esquecimento
             Mas tudo que consigo é mais tormento

             Não choro ou sinto o que sentiria
             Não imploro ou escuto
             Aquele grito sustenido

             É um pensamento hipócrita
             É um sentimento idiota
             Pensar no acontecido
             E chorar o perdido

             Eu não quero que me ouça
             Não quero que me veja
             Só quero que me esqueça

             Estou cada vez mais só
             No mundo cada vez mais duro
             E vou ficando cada dia mais maduro

             Essa noite está cada vez mais gelada
             Tenho apenas um cobertor para me esquentar
             E um coração frio para me contentar

             Sou um mero robô de carne
             Fechado na pouca razão
             E no fim da emoção

             Não me ouça
             Não me veja
             Me esqueça

             Quero estar só
              Imaginando você
              Junto comigo
              Nesse amor perdido
              De espírito doentio

sábado, 24 de maio de 2014

Um verso desconhecido

As aventuras de um explorador
de chapéu  e chicote
Nas montanhas da Ásia
Nos desterros do Oriente
Ou nas florestas tropicais

Não se comparam a aventura
que temos quando imaginamos
A sorte de estarmos cada dia
Presos a um único passado
E livres a vários futuros

A similitude com que as corridas
Que as viagens que podemos ter
A própria imagem de um sopro
De livre e espontânea liberdade
Rompe qualquer inércia que venhamos ter

Não espero que essa retomada
de pensamentos otimistas
Passe a ter efeitos diretos
Na vida de ninguém

A forma com que a caneta inscreve
O papel riscos cada vez mais profundos
Como as rugas que findam a nossa mocidade
Me faz pensar em tudo que fizemos nesse passado

Nos amores deixados de lado
Nos destinos perdidos
E nas noites perdidas em álcool

O tédio que é manter a rotina
Me consumiu por inteiro
Para desejar apenas ir embora
E seguir a minha vida

Não preciso ter alianças com esse passado
Não quero ter algemas ao meu futuro
Só quero viver o hoje de forma inconsequente
Como sempre quis
Não ter prisões a nada nesse mundo

Liberdade, freedom, osvobozhdenie
Liberté, mon cherry
Nada mais do que seguir em frente
Nada mais a se prender

Agora eu sinto o ar balançar meu casaco
A camisa se desabotoar com a força desse espírito
E a caneta sempre como minha eterna companheira
Nunca mais espere de mim um sopro de inverdade

Os olhares esperançosos
Os olhos brilhantes de criança
O ar de confiança
Tecem desenhos sinuosos

As estrelas cantam essa sinfonia
Brincam de iluminar o meu caminho
E só desejo ter uma nave
e uma estrela para guiá-la

Um bom dia a você
 que acordou sonhador
que nem eu
Só deseja beijar pela última vez
uma mulher e partir para o desconhecido


A vida é um sonho

Quando acordamos
Todas as manhãs
De nosso sono pesado
Quando olhamos para essa janela pesada

Imaginamos o céu aberto
Sem nuvens e com o sol
bem no semblante de nossos olhos

A verdade é que não tememos
Olhar de novo para fora
E esperar sair novamente
de casa todos os dias

Sempre temos uma força de vontade
Sempre queremos tomar essa cidade
Com nossas esperanças e medos
A vida é um sonho

As vezes um sonho contente
Outras um pesadelo demente
Temer a rotina causticante
É correr canto gorjeante

Nessa vida tudo é êfemero
E não podemos ter medo
De não termos segurança
Pois tudo nisso é um sonho

O ato de respirar,
o bombear dos corações
O ato de um beijo
A marca de um sorriso
Tudo isso é um sonho

Nem a matemática do físico
Nem a gramática do erudito
Podem transgredir essa ordem
De que a vida é um sonho
E nós sempre aprendemos a sonhar

Não tema sonhar
Não tema sorrir
Não esqueça de chorar
Tudo que há
E apenas passageiro
E essa é apenas uma opera
Uma sinfonia cosmonáutica

A fusão de nossos átomos
O calor de nossos beijos
O movimento de nossas enzimas
A química de uma paixão

Isso é mera coincidência?
Ou um sonho de nossa
Pequena consciência?

Eu amo pensar em matemática
Falar em números e catetos
Mas amo mais escrever
Em versos meus tormentos

A vida é um sonho
Que não pode acabar
Não podemos pensar em acordar
Nem sequer um dia



Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...