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domingo, 1 de março de 2015

Um ano de cautela

           Devemos ter cuidado. Bastante cuidado. Nunca estivemos num momento tão delicado quanto agora, se antes batíamos no peito para falar do mundo, hoje devemos pensar em nós mesmos. O Brasil é um país complicado, não só porque é dividido nitidamente em classes sociais, mas também em regiões tão diferentes umas das outras e em ideologias conflitantes. O Brasil não tem uma identidade única e num momento de fissura é que as diferenças aparecem;



       Hoje a violência parece ser plausível dentro da política, tanto à esquerda ou à direita o discurso deixou de ser apenas de oposição para passar a ser um discurso de violência e ódio. Ambos os lados se digladiaram dessa forma em 2014 e o resultado foi uma das eleições mais sujas e funestas da História. Digo suja porque não confio na Justiça Eleitoral, com o seu sistema informatizado sujeito a falhas que continua sendo o mesmo desde 1998. Não pode dar comprovação do resultado, nem conferir recontagens. É absurdo chamar de golpismo um questionamento do resultado do pleito.



       Todos tem direito a fazer isso, sobretudo numa eleição tão apertada. Mas eis que entra a ditadura dos bacharéis, pois de fato é isso que é o Brasil público, um sistema complicado de legislações e tribunais tão corrupto em sua forma quanto à política. Os juízes se sentem deuses por passarem numa seleção de concurso público e acreditam realmente estar fora da sociedade, na verdade eles se enganam. Os tribunais é que hoje mandam na vida pública de todos nós, infelizmente.

       O Poder Executivo e a Presidência vem sendo questionados constantemente. De fato o país entrou numa recessão, quem não reconhece isso é cego. O governo Dilma perdeu apoio, não só de 48 % da população, mas também de sua base aliada ao fazer justamente o que tinha atacado nas eleições. Ela realmente fez o que era esperando, um estelionato eleitoral. Digo estelionato eleitoral, porque ela mexeu sim nos direitos sociais, ela retirou  50% das pensões de pessoas viúvas na terceira idade, impôs uma legislação mais dura contra o seguro-desemprego, num país onde o desemprego irá aumentar. Tudo por credibilidade econômica.


         O fato que o governo perdeu credibilidade. Investir no Brasil é investir num sonho que pode virar pesadelo. A credibilidade internacional se perdeu com as atitudes impensadas de um ministério da Fazenda que não olhou direito o cenário internacional. O preço das commodites baixou, a inflação subiu, a política de incentivos ao consumo resultou em endividamento, o poder de compra ganho em 2011 caiu brutalmente em 2014. O varejo não vende, a indústria fechou e estamos apenas sendo salvos pelo campo.


         O governo gasta demais e não faz poupança. Quando precisou ajustar o cambio que estava em alta as reservas não conseguiram segurar. O dólar disparou, e acredito que foi de propósito para estimular o mito da indústria nacional. A Indústria Nacional não existe, o capital é mundial. A maior irresponsabilidade foi ter construído estádios e promovido um evento que custou no mínimo 20 bilhões de dólares num cenário de incertezas. agora esse dinheiro faz muita falta.


        A Petrobrás sofreu um ataque especulativo. Isso não dá pra negar, sim, especulativo, mas verdadeiro. Sempre houve corrupção na Petrobrás, assim como houve corrupção no Banco do Brasil, na Caixa e ainda será descoberta no BNDES e outras estatais chave do governo. O problema que essa corrupção retirou toda a credibilidade da maior empresa brasileira justamente num momento de dificuldades, quando o preço do barril de Petróleo baixou, a Petrobrás fez investimentos com pouco retorno no exterior, a exploração do Pré-sal está em cheque.

       As nomeações políticas nas Estatais tiraram totalmente a credibilidade do governo, a falta de transparência em divulgar os balanços foi mortal. A Gerentona Dilma Rousseff  passou a ser vista como uma incompetente, por um Cerveró o país entrou em recessão.

        O governo FHC tinha corrupção, o governo Lula também,mas os escândalos de agora são motivo sim de indignação. Depois das manifestações de 2013 é quase um insulto ouvir todos os dias mais um novo escândalo da Petrobrás. É um tapa na cara da sociedade, considerando que a Petróleo Brasileiro S.A. é nossa. Essa empresa financia a cultura, o desenvolvimento em pesquisa e em ciência.

       Agora o que temos é isso, uma gasolina a R$ 3,45. Óleo Diesel a R$ 2,83. Quando o barril de petróleo está nas suas menores cotações da História, US$ 40,00 em média. É um absurdo da própria econômica brasileira. Quando estourou a greve dos caminhoneiros foi inevitável, o sistema viário parou. E a mistura foi óbvia, os transporte ferroviário foi negligenciado por quase quarenta anos, as rodovias foram priorizadas como forma de locomoção mais viável e ficamos dependentes dos hidrocarbonetos e das condições da estradas.

     Ter automóvel se tornou caro. As montadoras estão dando férias coletivas ou demitindo no ABC. Muitos brasileiros são obrigados a andar de transporte público, ou seja ônibus. Ônibus depende do diesel, a tarifa por consequência aumentou. A qualidade não. O transporte público é uma merda. Falo com todas as letras, não presta e o que é mais indignante, é insuficiente e de péssima qualidade. Demora e sujeito a engarrafamentos, o trem metropolitano poderia ser a solução senão tivesse sido feito na maioria das capitais apenas como objeto de enfeite.

    De fato a indignação da população /vai estourar. Principalmente quando começar a faltar energia, as usinas termelétricas estão funcionando acima da capacidade, a falta de planejamento nas barragens associada à seca no Centro-Sul ameaça novamente a economia, refém do tempo. A oportunidade de construção de novas fontes de energia foi de novo negligenciada, Angra 3 poderia ter sido completada nesses 12 anos, os parques eólicos e solares no Nordeste poderiam ter sido conectados ao sistema nacional. De fato foi falta de investimentos que nos pôs como reféns.

   Sendo a luz brasileira baseada em hidroelétricas, então diretamente se falta energia é porque falta água. Seca. E a falta de água não é só dependente da estiagem, havia planos alternativos, como tratamento do esgoto (que não é feito na metade do Brasil), investimentos em transposição dos rios (alguém lembra que o Rio São Francisco ainda está sofrendo obras de transposição?) e dessalinização e combate a desperdícios. Isso é alçada tanto dos governos locais como do Governo Federal.


      Economia, emprego, transporte, energia e água. Tudo isso fracassou. Mas ainda há outros aspectos que não são necessariamente da alçada do governo federal, mas contribuem para a crise: Educação e Saúde.

      Digo Educação por educação de Ensino Fundamental e Médio. O investimento em educação no Ensino Médio e Fundamental é terrivelmente constrangedor, os alunos vivem em função de um currículo defasado há quase trinta anos. No qual não há incentivos à prática docente em aula, não há segurança jurídica ao professor e tampouco há a real hipótese de formar além de alunos, cidadãos. Criamos apenas no melhor dos casos analfabetos funcionais.

      Analfabetos funcionais, sim, o Brasil ainda é um país de analfabetos. Pessoas que não conseguem interpretar um jornal, ou aproveitar as oportunidades. Uma legião de cidadãos economicamente ativos que não tem condições  para arriscar-se na livre-iniciativa porque não tem capacitação. Isso se traduz no ensino universitário, que também caiu em qualidade, devido à deficiências de ensino da Educação Média e Fundamental.

      Os professores universitários têm pouca disposição à renovação ou à reciclagem de ideias, criando assim futuros professores presos a modelos teóricos dos anos 70. O que é brutal porque o desenvolvimento à ciência se limita apenas a verdades pressupostas.

     A saúde acompanha ao mesmo tempo que dissocia-se da educação, a falta de médicos no interior é associada à falta de capacitação do ensino. Mas não só isso, os médicos são ensinados nas condições universitárias de maneira desvencilhada do humanismo, apenas reproduzem um modelo americano de obtenção de riquezas com a mercantilização da saúde.

      Entra então também as condições materiais dos hospítais, de fato, são horríveis. Faltam coisas básicas, como aspirina, gaze, antibióticos. Alguns estão defasados que a limpeza e sanitarização são precárias e fazem acumular-se os casos de infecções. Crianças morrem sem amparo, excesso de pacientes para poucos hospitais. Quando tem hospitais. 


     A iniciativa do Governo Federal pelo Mais Médicos passou de dúvida à necessidade, mas é um tapa na cara da medicina brasileira. Teve-se que importar médicos do exterior para conter um problema de saúde pública no interior do Brasil quando bate-se recordes nas aprovações dos médicos.


      Outras características que são de esfera social, atrapalham o governo: A falta de investibilidade do brasileiro e seu vício pelo estatismo. O Brasil é a pátria dos concursos, mas alguém deve lembrar que quem sustenta a balança é o sistema produtivo.

       Pois bem, os impostos impedem a reprodução esperada do capital. A burocracia atravanca investimentos, e os comerciantes e empresários não têm muita segurança nos investimentos quando há alterações diretas nas regras impostas do governo. As regras mudaram tantas vezes nesses últimos dois anos, que grandes empresários ficam desconfiados em investir. 

       Como a inflação e o endividamento crescem, dissociados na proporção do aumento de renda, o consumo sofreu uma retração absurda. O setor produtivo que nunca produziu as mil maravilhas, começou a parar. Os empregos vão parando junto, e vira uma bola de neve.  Os empresários preferem se tornar rentistas a investidores, de fato está sendo mais viável viver de aposentadorias, ações ou fundos de aplicações do que esperar uma melhora da economia. Esse é o maior problema, vai faltar capital produtivo quando a inflação só cresce.

      Para piorar, o Banco Central emitiu muito papel-moeda entre 2008 e 2011, o que aumentou a oferta de dinheiro e agora está produzindo um encilhamento da economia. A inflação e a queda do valor do Real também estão associadas a isso. 


      Observando essas características, digo, a situação está quase impossível de ser solucionada. Aí entra a ideologia. O governo nomeou Levy como ministro da Fazenda, numa tentativa de acalmar o mercado depois de algumas lambanças do Ministro Mantega no final do seu mandato. O problema que a ideologia do governo o impede de fazer as mudanças necessárias, Levy não é cepalino como metade do PT admite ser, ele é Chicago Boy, a formação dele é um tanto liberal, embora também tenha alguns elementos keynesianos. A questão é que ele não tem autonomia que lhe é esperado, e agora, isso é evento trágico.


      Não teremos capacidade de fazer um New Deal nem se quisermos. E afirmo, não vamos sair felizes nem tão cedo dessa crise. Se eu pensava em três anos, hoje penso em cinco, a crise brasileira começou e 2012-13 e só vai acabar quando tivermos sorte de mudar as perspectivas do futuro.

      Num país dividido, com cabos eleitorais de ambos os partidos se digladiando, com um Congresso que atrapalha as ações do Executivo (um Congresso bastante conservador, corrupto e inepto, veja-se de passagem) a experiência que teremos será apenas o que o governo Obama teve, uma crise institucional quando foi fazer reformas atravancadas pelos Republicanos. E de fato, o caso do Brasil é ainda pior, porque o Brasil tem flerte com o autoritarismo, o setor militar possui insatisfações muito claras, os empresários e o setor produtivo também e agora uma boa parcela da população também.


     Eu tenho medo do que pode acontecer com a Democracia daqui adiante, mas tenho medo mais ainda do que pode acontecer ao povo brasileiro. E não vou mentir, fiquei surpreso com o fato de Dilma ter sido reeleita, mesmo eu sendo de esquerda, confesso que me surpreendeu, o primeiro mandato de Dilma foi bastante frustante se é que podemos dizer que foi um mandato presidencial.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um homem chamado Leonard Nimoy

      Vivemos uma época tão trágica onde nossos ídolos morrem mais rápido do que os nossos próprios inimigos. Nossos sonhos desaparecem sob a penumbra da noite e sozinhos na escuridão tomamos consciência que o farol que devemos seguir não é a tela branca de um computador.


        Tratar de um ídolo sempre é uma experiência particular, principalmente quando tratamos com familiaridade, Esse é o caso de Leonard Nimoy. Hoje eu choro a morte de um amigo distante, o qual nunca vi pessoalmente. Nunca o olhei de perto e mesmo assim me  ensinou bem mais do que a erudição dos livros ou as pancadas da vida. Jornada nas Estrelas é uma religião e Spock era seu profeta. "I have been and always shall be, your friend... "


        Falar de Leonard Nimoy nos leva inconscientemente a falar do Senhor Spock. Mas Nimoy foi muito além de Jornada nas Estrelas. Ele é um exemplo do desafio de crescer num mundo repleto de medos e incertezas.   


          Leonard Nimoy nasceu numa família judia de Boston numa época em que os judeus começavam a ser perseguidos na Europa. Seu pai era um judeu ucraniano que fugiu da Revolução e se estabeleceu com muita dificuldade nos Estados Unidos, Nimoy vivenciou o preconceito e os anos difíceis da Depressão, até conseguir ser contratado como barbeiro quando adolescente. Serviu o Exército em 1953, e se inseriu no teatro e no cinema a partir da década de 50,


           Isso é a parte preliminar de uma carreira de ouro, quando criança ele ia à sinagoga com os seus pais e via os rituais chassidistas com particular curiosidade, como judeu asquenazim, era comum viver com rabinos de barbas longas e telefins pretos na cabeça.  Aos oito anos viu às escondidas uma benção estranha feita com a mão direita, na qual dois dedos se separavam do outro. Nem imaginava que isso  seria sua marca.

           Nimoy começou a fazer pontas em seriados importantes como Man of UNCLE, Get Smart e o piloto "The Cage", em que contracenou com o astro dos westerns Jeffrey Hunter, onde apareceu pela primeira vez o personagem Spock. The Cage é o piloto de Star Trek, e como disse Gene Roddenberry, era um filme de cowboys no Espaço, só que tinha uma temática muito intelectual para um seriado no início dos anos 60. 


           Foi a primeira vez que Nimoy usou suas orelhas de Metistofeles e a maquiagem verde. Um diretor de maquiagem da MGM foi quem lhe salvou ao fazer um molde de gesso de uma orelha de duende, caso contrário seria o fim prematuro de Spock. Spock era um personagem diferente dos demais, que a despeito de tudo, sorria.

        Mas Spock deixou de sorrir quando a série foi rejeitada. Ele e Gene Roddenberry construíram uma amizade sólida que reverberou quando foi contratado para uma viagem de cinco anos em Star Trek, onde contracenou com William Shatner, Deforrest Kelley e James Dohan. Se tornou um astro da televisão americana, e tentou seguir carreira de cantor com o sucesso da série. Mas a viagem foi cancelada depois de três anos.


             Teve problemas em lidar com o ego de Shatner inicialmente, assim como teve problemas com membros da própria tripulação da Enterprise. Nimoy reclamava do salário que era um "assassino", mas trabalhava num ambiente informal onde o seu filho o visitava no meio das cenas e aparecia para olhar o Senhor Spock na ponte de comando.


              Preso ao papel do vulcano Spock, ele passou a ter uma crise de identidade com o próprio personagem que o levou a escrever dois livros: I am not Spock (um fracasso editorial) e I am Spock. Com os filmes, passou a ter de novo a fama que lhe era merecida, onde fez sucesso com Star Trek: The Motion Picture e o espetacular The Wrath of Khan, com tamanho sucesso ele passou a dirigir o filme Star Trek: The Search for Spock. 



        Com o fim da série dos filmes e envelhecimento dos atores, era natural que Nimoy passasse apenas a fazer parte de convenções de Star Trek e alguns pontas na televisão, como foi no caso de Fringe. Ele estava mais dedicado em sair do cinema e  fazer trabalhos como fotografo, do qual nunca abriu mão. 


          Inovador e desvencilhado de preconceitos com as tecnologias, Leonard fazia desde comerciais até coisas elaboradas, como poemas, Mas o ponto alto de sua adaptabilidade  foi ser convidado para narrar o jogo Civilization IV e desempenhar um papel tão inusitado para os olhos dos fãs, mas crucial para o desenvolvimento de um jogo.


          O trabalho em Fringe lhe deu a chance de participar das refilmagens de Star Trek I e II com JJ Abrams, Deforest Kelley e James Dohan estavam mortos, enquanto Shatner estava envolvido com Boston Legal. Spock estava sozinho. Nimoy saiu de sua aposentadoria e passou a ser a ligação entre a série original e os remakes... 




             Seu envelhecimento e abatimento foram notáveis, principalmente com o passar dos anos. A saúde delicada provinha dos pulmões castigados por tanto tempo de gravações e cigarros tragados. Morou com  a esposa Suzan até os últimos dias e viveu longamente como todos os fãs esperavam. Nimoy era um homem diferente dos demais, assim como Spock. Ele era humano, demasiadamente humano. Humilde, sempre se ofereceu para dar autógrafos aos fãs sem qualquer tipo de cerimônia. Preocupava-se com alguns de seus fãs cuja saúde não estava boa e tentava seguir uma justa e judia. Vegetariano por opção. aberto a ideias, esse era Nimoy.


           Hoje morreu uma parte da minha juventude movida à aventuras, fantasias e emoções num futuro que não existiu, mas num passado que sempre me acompanhou, O exemplo de um ser mais humano que os próprios humanos, que nunca realmente existiu, mas se movia pela honra e a lógica. Nimoy era o verdadeiro Spock, embora ele negasse, porque a despeito da falsa lógica da dramaturgia construiu um personagem tão imortal e tão singelo apenas com a mera interpretação. Mas hoje Spock entra para a eternidade, graças ao gênio de Leonard Nimoy, Leonardo da Vinci da Califórnia.


        Spock é a humanidade dentro da modernidade e do mundo cada vez mais materialista que prossegue enrustida em sua humanidade, mas tem demonstrações diretas de emoções. Lealdade e honra, Spock sabe o valor da amizade o que o mundo contemporâneo destruiu e foi exemplo de construção de cidadãos que buscam um futuro melhor em meio à incerteza. Soluções rápidas, práticas e lógicas. Esse Spock tornou-se a raiz de uma filosofia de vida diferente das demais.


        Não é o culto à Razão Suprema de Robespierre, pelo contrário é o culto ao pacifismo, ao otimismo e ao progresso. Spock como desajustado socialmente representa um mundo de pessoas incapazes de expressar sentimentos, ou simplesmente sorrir, mas suas virtudes sempre foram levadas à sério.



         Nimoy fazendo ponta em Get Smart (Agente 86) https://www.youtube.com/watch?v=r_zowFvPgp8



       
         Nimoy como fotografo:
 



         Leonard Nimoy narrando Sid Meier's Civilization IV https://www.youtube.com/watch?v=XZlWmYe8HM4


Funny joke

         http://trekcore.com/specials/rare/ks_ultimatecomp.jpg


       
Lendo a MAD do outro lado da Galáxia




       
Momento no almoço



         Esse homem não tão distante de nós, que apenas com a representação de um personagem que nunca existiu e talvez nunca existirá no futuro trouxe um tanto mais de esperança num mundo tomado de medos e incertezas. Quando vozes se calam, outras se pronunciam. A ideia de Nimoy como uma pessoa notável na mesma proporção que a imortalidade de Spock. Um homem simples, demasiadamente humano. Esse era Leonard Nimoy.




                                                         Goodbye, mister Nimoy

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Por uma nova economia

       A opção da sociedade brasileira é a consolidação de um padrão de vida inspirado no  modelo social-democrata de desenvolvimento. A consolidação de um estado de bem estar social  exige uma acumulação de capital  respectiva aos gastos de uma democracia social ao estilo nórdico. Para a construção dessa acumulação de riquezas, as apostas no mundo exigem uma especialização do capital humano existente.

        O Brasil está na retaguarda, é um país modernamente arcaico. Onde há disparidades graves entre a periferia e o centro econômico, o acentuamento das dificuldades operacionais do sistema capitalista e de reprodução do capital interno levam a uma concentração da renda em determinados grupos da sociedade nacional. Essa tendência mundial da concentração do capital é cada vez mais abissal no Brasil que ignora a legitimação econômica de seu modelo de desenvolvimento.


       O modelo cepalino é o grande responsável para fracasso assistido de 2013 até hoje, a retração e a estagflação se somam ao alto endividamento da família brasileira. Isso é resultado da aposta do governo em supervalorizar o salário mínimo e a capacidade do mercado interno em superar uma crise endêmica do capital. A questão é que o salário em si não consegue sozinho consolidar a riqueza brasileira, de fato, ele vem sendo corroído pela inflação e os juros que estouraram na virada de 2014.


        O estado interventor é aceitável por um curto período de tempo, quando a UTI econômica que leva a associações econômicas e grandes especuladores atacam a soberania da moeda nacional, ameaçando a estabilidade social de um país. Os altos gastos da União associados aos crescentes apelos irresponsáveis de prefeitos e governadores por mais verbas ameaçaram a estabilidade do futuro  do Tesouro Nacional, agora atolado em dívidas, O BNDES gastou um dinheiro que não foi devidamente devolvido em investimentos nas empresas nacionais, e os grandes conglomerados agro-industriais acabaram sendo a única esperança no meio da bancarrota nacional.  Mas o campo produz riquezas, mas não produz ouro.

        Ficamos dependentes do velho modo produtivo relegado à América Latina, a exportação de matérias-primas e commodites, a instabilidade das bolsas e o aumento da oferta internacional de alimentos acabaram desabando o preço do nosso maior produto de exportação: a soja. O ferro, dependente do aquecimento da economia chinesa, desabou de preço; assim como aconteceu com o minério de cobre chileno. Só que o Chile conseguiu contornar a sua crise tornando-se fiador de austeridades intragáveis ao seu povo.

       Austeridade é uma palavra bonita para apertar o cinto, e fomos obrigados a fazer muito mais do que isso. Vendemos a fivela e o fecho do cinto, agora só falta a tira de couro e a calça. Vivemos um mundo dinâmico, onde não há espaço para lamentações. Mas não temos ações a curto prazo que possamos fazer.

       Nikolai Tikhonov ao escrever os Desafios da Economia da União Soviética em 1988 acreditava que o regime soviético iria se manter com as reformas de Mikhail Gorbachiov e a política de valorização de salários promovida desde Kruschiov em diante, contudo a crise produtiva soviética era bem mais grave, não só por causa da falência produtiva dos soviéticos no campo, que trouxe o fantasma da fome, mas também a falta de qualidade e investimento na industria soviética. O resultado foi grave e a Rússia não se recuperou, tornando-se vulnerável às ações do capitalismo internacional.


      A desindustrialização do parque industrial brasileiro é uma tendência que assistimos desde o governo de Collor de Mello e que se acentuou com o passar dos anos, essa tendência de retirar da indústria o papel transformador de uma sociedade é assisitida em outros lugares do  mundo. Não há mais espaço para a indústria\ pesada senão a China, apenas um país que considera o padrão de vida do trabalhador um fator secundário pode admitir uma indústria de transformação como pilar da economia. Apenas a indústria criativa e tecnológica podem salvar o Brasil de sua desindustrialização,e temos concorrentes bem mais fortes, com tradição forte na informática\, nas ciências de informação, softwares e aeroespacial. 

     O protecionismo cepalino nos atrasou de modo que não confiamos numa indústria de tecnologia nacional, as políticas de incentivo governamentais são uma franca piada política, e o apoio ao desenvolvimento tecnológico não acompanha o desenvolvimento de laboratórios, plantas de produção e tampouco os impostos ajudam somados aos juros altos ao desenvolvimento de novos empreendimentos criativos.


       Apenas o consumo não consegue segurar um país, embora com muito sacrifício tenhamos conseguido uma política de valorização do salário e uma cota reduzida do desemprego, isso será provisório se a crise que enfrentamos se arrastar por mais alguns anos. E a economia fraca desestabiliza novas democracias.

        A inflação, a falta de investimentos dos empresários, a população que utiliza o crédito como uma forma desenfreada de obter renda. Essas são origens de uma catástrofe. E cego somos nós que não agimos como deveríamos, que assistimos a tudo isso insólitos e curiosos como se fosse um descarrilhamento de um trem. A recuperação será dura e temos que  estar preparados para isso.

         Mas como recuperar-nos do tombo galopante desse ano de 2014? Onde a irresponsabilidade e arrogância parecem ter vencido o medo do fracasso. Ao sediarmos uma irresponsável festa no meio de ano, o final foi azedo e bastante ignorante. Ficamos sem dinheiro na carteira e os empregos cada vez mais ameaçados. Os mercados ficaram cada vez mais indecisos e sofremos com a indecisão do mercado no dia a dia.  A Petrobrás sempre teve corrupção, inocente é quem afirma que desde 1952 até hoje uma empresa estatal que produzia tantos dividendos com o monopólio de hidrocarbonetos num país como o Brasil não tivesse sofrido anos de especulação e corrupção. O ataque contra a Petroleo Brasileiro SA é um ataque especulativo, que associado ao desânimo da economia brasileira, um governo economicamente pífio e a instabilidade internacional levou à parcimônia crise da Petrobrás.

        O caso que o óleo do Presal não deverá ser explorado em 2018 como se acreditava, talvez nem em 2022. Será economicamente inviável explorar as profundezas do Campo de Libra considerando à baixa cotação do petróleo. E a baixa cotação do petróleo não se deve por exemplo à exploração do óleo de xisto americano, que está caminhando ainda devagar, mas ao ataque do mercado aos grandes conglomerados industriais fornecedores de óleo: Como Venezuela e Rússia. Eleitos como dois países mal-gratos da economia internacional, o grau de integração dessas duas economias sempre foi ruim, mas piorou por políticas erradas em períodos delicados.

        A instabilidade da crise do bolívar aumentou com a crise sucessória de Hugo Chavez e da inflação absurda que estourou na Venezuela bolivariana, os anos de hostilidade da política venezuelana aos interesses norte-americanos acabaram colocando a Venezuela numa condição frágil no mercado internacional.A sua proatividade em auxiliar o regime cubano a não chegar no caos econômico também levou recursos prioritários para a sua manutenção econômica que deveria ser imposta com a injeção de doláres e renegociação da dívida externa a partir do Banco Central autônomo a interesses políticos. Não foi feito, e a Venezuela virou alvo de ataque internacional e especulativo devido sua própria irresponsabilidade em não honrar compromissos. Capitalismo não é uma profissão honrada, mas valoriza a honra como maior virtude.

         /Quanto à Rússia, o plano geopolítico em estrangular economicamente esse país euroasiano e submetê-lo à vontade ocidental vem sendo aplicado desde a queda da URSS em 1991, quando o país passou por duas recessões graves e uma perda grave de seu padrão de vida e sofreu com uma forte desindustrialização devido à sua falta de renovação durante a época de Brejnev. A industria russa ainda é obsoleta quando comparada à da Europa Ocidental e uma plutocracia tomou o país durante o regime de Yeltsin onde magnatas se empossaram das mais importantes companhias petrolíferas, de exploração de minérios, transportes e gás. Esses magnatas ganharam milhões.

         Aliados com os interesses do governo construíram uma Nova Rússia capitalista e associada com a geopolítica de combate ao terror da Era Bush e a dependência energética do Eurocontinente e sobretudo da Alemanha. Mas conforme os anos passam e a diplomacia americana muda conforme seus designios, os democratas começaram a incentivar a intervenção americana em locais diferentes do globo, sobretudo no Oriente Médio, onde houve um choque de interesses entre russos e americanos na Síria. Os americanos levaram muito a sério essa quebra na aliança tácita desenvolvida entre Washington e Moscou.

          O acordo feito entre Reagan e Gorbachiov para que a OTAN não se aproveitasse da fragilidade do regime soviético e intervisse sobre sua "esfera de influência" acabou erodindo quando houve a crise ucraniana; O povo ucraniano decidiu que o governo instalado constitucionalmente pró-Rússia estava tomando decisões erradas ao impor um atrelamento da economia ucraniana a uma "nova URSS" que de fato não apareceu.

         Os russos apareceram com uma proposta de linha de crédito e de parcelamento da dívida ucraniana mais tentadora do que a da União Europeia, que anunciava um programa de austeridade grave que afetaria os próprios ucranianos. Entretanto, o desejo do povo ucraniano se dividiu, alguns optaram por ter um padrão de vida da União Europeia fossem quaisquer consequências, enquanto outros viam como uma traição se submeter aos desígnios europeus sabendo o choque de realidade. A questão que o país entrou em guerra civil e a Rússia interviu por razões estratégicas na Crimeia.

       Essa intervenção deixou os ocidentais furiosos, e como aprenderam na velha doutrina Thatcher-Reagan, uma guerra com a Rússia é impossível e contraproducente, mas é possível estrangulá-la economicamente conforme sanções econômicas em áreas prioritárias. O ataque internacional contra a Rússia, a ação do capital especulativo e a desvalorização do barril do petróleo levaram à crise do rublo que indiretamente afetou também  outros países em desenvolvimento dependentes de commodites. Caso do Brasil.

      O Brasil sofre hoje de várias coisas, de políticas econômicas equivocadas, da fragilidade econômica do Mercosul e sobretudo da Argentina que está prestes a quebrar em virtude de outras crises fiscais e de irresponsabilidade do governo e do capital externo; Da economia venezuelana enfraquecida que impacta a economia brasileira e da desvalorização do barril de petróleo em virtude das ações contra a Rússia. Sem falar do fim  do milagre econômico através do atrelamento da economia brasileira ao modelo de desenvolvimento chinês e a nossa dependência da economia do Eurocontinente enquanto os Estados Unidos ressurgem de forma milagrosa depois da maior crise desde 1929.

domingo, 31 de agosto de 2014

O triste fim da tênue esperança

         É um mito pensar que à sombra da morte de Eduardo Campos nosso sistema político será renovado, Eduardo era uma esperança de um futuro melhor que morreu naquele infeliz acidente aéreo. A despeito do que tentou se associar a escândalos de caixa 2, não acredito realmente que Campos fosse dessa esquife, e sim alguns de seus apoiadores e também apoiadores de Marina Silva.


         No Brasil carece a política índole e aparentemente Campos traria uma nova refrigeração de ideias no cenário nacional, e o PSB estava na vanguarda do pensamento progressista brasileiro, sobretudo com relação à esquerda, por estar mais inclinado ao aspecto ideológico do socialismo europeu gramsciniano. Campos tinha antigas ligações com o lula-petismo, mas isso se encerrou quando ele começou a aspirar voos mais largos.

        A proposta econômica de Campos não está clara para muitos, mas resultava na mudança da política econômica atual de incentivos à setores definidos e passar a um arrocho ministerial, uma terapia para uma economia em estagnação (estamos agora em estagnação técnica). Redução de gastos, redução de taxas, e uma maior abertura da economia brasileira ao exterior sem retirar os avanços sociais do governo Lula. Campos fugiria do pensamento cepalino de Guido Mantega e o Brasil poderia retomar o seu crescimento. Por isso ele era o candidato mais adequado.

        Ele era jovem e tinha iniciativa.


         Mas o maior engodo da campanha de Eduardo foi a aliança com Marina Silva; Inicialmente parecia ser um trunfo cooptar a ala dissidente do Partido Verde, o Rede, que não conseguiu se inscrever a tempo, mas com o passar do tempo o apoio político que parecia ser vantajoso para o PSB passou a ser um problema. O Rede passou a desejar reformulações do programa eleitoral do PSB e Campos foi um dos militantes do PSB a segurar o que o pessoal da Marina Silva desejava fazer, pois isso iria descaracterizar a proposta partidária do PSB.

           No quesito ecológico e sustentabilidade, o primeiro partido a ter essa preocupação não foi o Partido Verde, foi o PSB. Os herdeiros de Miguel Arraes sempre estiveram numa vanguarda política , embora o modelo político brasileiro tenha dado distorções aos quadros partidários do Partido Socialista Brasileiro.

           Não que eu acredite que o sistema político seja mudado de cabo a rabo nesse caso, mas é notável o medo existente de que Marina Silva esvazie o progressismo do PSB, com suas posturas bastante conservadoras com relação aos direitos dos homossexuais em por exemplo estabelecerem matrimônio (Campos era católico fervoroso, mas o seu catolicismo era desvencilhado de suas ações políticas. E no Brasil todo político é cristão em tese, até o mais ateu dos políticos como Getúlio Vargas, era cristão de  soturna).

           E engraçado que Marina é a primeira a romper o círculo católico na presidência (FHC era agnóstico ao que tudo indica, mas todo mundo fingia que ele fosse católico). Ela se for eleita vai ser a primeira presidente (e não presidenta, porque a gramática é sempre mais relevante do que atos diretos da Presidência para mudar a filologia das palavras) evangélica, e isso mostra o ciclo de expansão protestantismo americano no maior recanto católico do Mundo.

           Pra mim é claro que a proposta de Campos está sendo levada a outras matizes quando Marina Silva veio conversar com os usineiros de cana-de-açucar essa semana. A proposta dela de aparecer no evento foi de conseguir apoio político de um grupo que foi massacrado pelas escolhas erradas de um governo que negligenciou a indústria do etanol ao retirar toda a competitividade do mercado do álcool, não dar incentivos e ajuda na estiagem no Oeste Paulista e dar incentivos a reduzir o preço da gasolina por conta da política que não estava errada de combate a inflação. Só que o preço artificial da gasolina onerou demais a Petrobrás e defasou a indústria do etanol.

            A ideia de Marina Silva foi de conseguir apoio do agronegócio "sustentável" que nós sabemos não é tão sustentável assim. Isso mostra o programa bipolar da sustentabilidade ambiental da Rede, pois desenvolvimento sustentável até hoje se pautou por uma proposta econômica de economizar recursos naturais e ter maiores lucros com isso. É uma proposta de cabo a rabo capitalista. E no mais, movimenta um mercado milionário de "produtos verdes" e OnGs que incrivelmente explora o ativismo político dos verdadeiros militantes verdes do mundo. É um aproveitamento do pensamento ecologista para ganhar grandes fortunas;

            O maior perigo é que a Marina Silva com as contradições nos discursos faça um governo que esqueça que temos ao mesmo tempo crescer e manter as conquistas sociais existentes, e mais do que isso, ainda tem que desinchar o Leviatã tupininquim.

              Marina Silva resulta de um vazio ideológico muito claro, ela não tem ideias muito enraizadas de como desenvolver o Brasil e de como resolver o dilema econômico atual, ao contrário de Eduardo Campos que além de ser um economista, tinha apoiadores de primeira linha, e se traduziu como um bom gestor no Ministério da Ciência e Tecnologia. E para piorar, as ligações que Marina Silva mantém com grandes empresários de Sampa-Rio, de uma elite financeira e cosmética torna um tanto duvidosas as reais intenções do que será feito. A classe trabalhadora será negligenciada nessas reformas?


             Marina Silva nasceu do povo, veio do Acre, estado longínquo e sem nenhuma projeção política no cenário nacional. Houveram apenas dois fatos de grande expressão em sua história: O conflito com a Bolívia , que resultou num fiasco do Exército Brasileiro que nem conseguiu chegar às veredas da Amazônia para resolver os conflitos entre seringueiros e soldados bolivianos, e o Itamaraty só pôde resolver com Rio Branco a questão mediante o pagamento de 22 milhões de libras que não chegou a ser nem um bom negócio frente à compra do Alasca. E a luta de Chico Mendes, que um dia desses foi classificado como "elitista", mas era um homem simples que defendia bem os direitos dos seringueiros.

            Marina Silva se esqueceu que ela nasceu na sombra de Chico Mendes nas questões ambientais e de demarcação de terras, e a política no Ministério do Meio Ambiente. Os avanços na área ambiental no primeiro governo Lula foram pífios. E sua saída na época do Mensalão por "discordâncias ideológicas" levou à sua mudança pro Partido Verde do Gabeira (que hoje é um partido de expressão infelizmente secundária, mas que tinha muita possibilidade de expansão na época).

          O que há de semelhante em Collor e Marina? Nada, a mídia está errada em compará-la ao experimento errado de eleger um aventureiro. Collor era filho de Lindolfo Collor, um homem de temperamento bastante enérgico que trabalhou com Getúlio Vargas e ficou eternizado por ter sacado uma pistola contra um colega de Senado e matado um outro companheiro de tribuna (e não ter sido julgado).

         Collor nasceu de uma elite política de Sampa-Rio que acabou emigrando para o longíquo estado do Alagoas, mas que passava boas temporadas em Brasília. Foi eleito por ser carismático, simpático e ter um toque de novo ao falar ser contra "os marajás" e os privilégios dos ricos. Mas ele próprio era um marajá de Rolex e cabelo carregado de Gel, terno Armani, numa época em que a pobreza era latente devido à hiperinflação. Seus planos econômicos foram desastrosos e sua corrupção foi revelado pelo próprio irmão (e volta e meia a ex-mulher conta umas baixarias da vida conjugal com Collor).

            Marina Silva é diferente, ela não é da elite, ela veio do cinturão de pobreza de Rio Branco. Até a mocidade ela mal sabia escrever e com muito custo conseguiu ter uma graduação em História, militou junto ao grupo de José Genoíno (hoje preso) e fez parte do Partido dos Trabalhadores. Ela não é carismática, não tem uma simpatia natural, e sua oratória é algo que é astronomicamente difícil, mas ela cativou o coração dos mais pobres e de alguns intelectuais por ser de origem humilde (tal como Lula). Na verdade, Marina Silva e Lula têm trajetórias semelhantes, embora o Lula cative milhões só dizendo um "companheiros e companheiras".

           Marina Silva ganhará essas eleições provavelmente mas questiono a capacidade com que isso vai se dar, as opções eleitorais ficaram horríveis com a morte de Campos. E incrivelmente o último discurso eleitoral do Aêcio Neves (embora eu não seja tucano) me deixou balançado, ele falou com uma estranha sinceridade, de que ele não odiava a Marina, mas não sabia se ela faria um bom governo mesmo bem intencionada. Eu também duvido se ele teria essa capacidade, pois nenhum dos três candidatos tem.

          E nem falo da Dilma porque sabemos que o modelo que ela construiu nesses quatro anos desestabilizou boa parte das medidas econômicas que vinham sendo construídas há um bom tempo; Pobre do Brasil se algum dos três for eleito.


           A política atual acabou sua conexão com o plano da realidade, ela não representa mais o cidadão comum brasileiro, e pior não representa e faz com que o brasileiro tenha ódio da política. A democracia brasileira caminha para um período de completas contradições e para um florescimento de uma oligarquia decidida de forma eleitoral (sem contar o fator partidário, que é uma coisa ridícula em qualquer sentido estrito do termo). A fé na democracia se esvai, e cada vez é mais convincentes as alegações dos partidos da esquerda radical (PCB, PSTU e em menor grau PSOL, que como sabemos, tem muito trotskista no meio) de que o sistema eleitoral está falido.

           A fé deles na Revolução passa a ser plausível, mas eles se esquecem que o povo brasileiro é conservador e bastante temeroso com revoluções, a despeito da atual violência institucionalizada de cima a baixo todos os dias. Dos problemas diários com relação ao transporte, de um trabalhador demorar de duas a três horas todos os dias para ir trabalhar, gastar sua energia em jornadas desgastantes, ver seu salário corroído pela inflação e não ter acesso a serviços públicos de qualidade. Nenhum desses governantes hipócritas se dedicou a ter a displicência em realmente ouvir a voz das ruas de quem marchou nas Jornadas de Julho, e as propostas são puramente vazias.

           Pelo contrário, criminalizaram o protesto. O ato cívico mais importante de uma democracia e instituíram um Marco Regulatório da Internet para controlar o acesso de pessoas dissidentes que se manifestam pela internet. Estamos caindo num período bem negro da ordem democrática justamente por uma inércia de anos do engajamento político da nossa cidadania, e vamos pagar bem caro por isso. O mito verde, o mito democrático, o mito de ser brasileiro. Vivemos sobre mitos e mitologias republicanas, e agora? Cegos estamos nós em não "desistir do futuro do Brasil", parafraseando meu finado candidato.

           Não votarei na Marina, ela tem tudo para acabar com a memória do Eduardo Campos. Não votarei no Aécio porque ele não tem expressividade nenhuma com o povo, representa uma política já carcomida e tem questões bem graves que não podem ser ditas na internet (Marco Regulatório e mais do que isso, meu desejo de não levar um processo). Não votarei na Dilma porque ela teve a oportunidade de fazer uma gestão boa e falhou redondamente, se traduziu apenas como uma típica burocrata sem qualquer noção ou empatia por um povo que ela passou a governar, pelo contrário, ela serviu mais aos interesses de um pão e circo da Fédération Internacionale de Football Association, do que realmente incluir o pobre dentro do futebol (essa Copa foi da elite, e o povo inteiro pagou por ela um dinheiro que não tinha).

         Então quem votar? Pois é não tem ninguém;


sábado, 23 de agosto de 2014

E a água?

         Como pensariam nossos avós nos anos 70 se soubessem que viria a faltar a água no país com as maiores reservas d'agua no mundo? Eles falariam que só foi uma seca no Nordeste, como sempre teve. Afinal o agreste é quente e isso é normal. Mas qual reação seria a deles ao saber que foi  justamente no Planalto Paulista de Borba Gato e Anhanguera?


         Ridículo? Ridículo era pensar isso naquela época; Ninguém se importava com ecologia. Se gastava água de maneira irresponsável, porque a água era "ad eternum". Hoje não é. E pior pela primeira vez se pensava em racionar petróleo, até aquele momento todo mundo fazia questão de poluir.

        A crise do petróleo tem impacto semelhante ao que a crise da água tem em São Paulo. Ter dinheiro mas não poder consumir, pois é para fins estratégicos. Só que naquele caso faltou petróleo por uma guerra e se podia encher o tanque com outra coisa, agora a água faltou pela seca.

        O governo do PSDB não tem culpa por não chover, tem culpa por não pensar na eventualidade de faltar água. E pior esquecer de racionar a água quando era crítica a situação. Isso foi visivelmente olhando para as eleições. Agora não adianta, a água vai faltar mesmo (já tá faltando). E o mais engraçado disso é que era mais fácil de acreditar que faltaria água em Brasília do que em São Paulo. São Paulo chove o ano inteiro.

        Mas o tempo criou troças aos desavisados;


        E São Paulo aprendeu da maneira mais amarga o que vem a ser uma lição de ecologia. O Tietê poderia ser usado pra beber água se não fosse poluído. Assim como poderia se usar menos água por exemplo para lavar a casa, ou nem se deveria usar piscinas. Lavar a casa com mangueira nem pensar. Coisas simples que hoje são aprendidas a dedos.

         Faltar água. Aquecimento Global? O aquecimento não é global, pelo menos acredito nisso. Há regiões no mundo que houve um resfriamento da média de temperatura, outras um aumento, mas é uma consequência de desarranjos climáticos? Com certeza. O mundo mudou sua antiga forma climática e se modificou de tal forma que não é possível mais pensar como antes.

       São Paulo falta água. Os gritos do Ipiranga são por lampejos de água. Desafio político, logístico e humano. E agora São Paulo? Nem Manuel da Nobrega e o seu pátio do Colégio passaram por isso, e eles lutaram contra os índios no início. O recreio dos Bandeirantes estará seco ou as aguardente de Anhanguera pegará fogo novamente sem que os nativos tenham água para apagar? Paulicéia de muitas faces, e você Masc? Viverá sem sua garoa fina?

       Claro que não. Ano que vem voltará a chover, mas a que preço? E pior, e se faltar água de novo? Todo mundo sabia que podia acontecer, mas ninguém levou a sério. E se levou, achava que era para daqui quarenta anos. O futuro chegou e o país do futuro tem que lidar com ele. Como será viver faltando água? Não sei, mas será uma merda.

A tragédia da pólis


           Sofócles poderia escrever muito bem uma tragédia bastante conturbada de um povo com a sua própria democracia. De como os valores morais se corrompem de maneira tão incestuosa com a corrupção numa relação tão cega quanto o próprio complexo de Jocasta.

          Sim, é claro que muito do discurso pode ser levado como complexo de vira-lata. Mas vira-lata somos nós mesmos que não  conseguimos sequer sermos matutos para saber o que está em jogo. O que está em jogo é muito mais que mera política, é o nosso próprio futuro.

          O Brasil está passando por um período de inflexão de sua ordem político-institucional. E mais do que isso há uma crescente dúvida do eleitor com relação aos partidos políticos. Também, deveras, nós somos a Itália da América em muitas ocasiões no que se trata de política (ou a Itália é o Brasil europeu?)

          Nossa política é organizada de forma meramente institucional de fato a partir de acordos generalizados com vários setores da sociedade civil, nisso ficou clara a promulgação da Constituição de 1988. O problema é que a crescente articulação de blocos em torno do apoderamento da máquina estatal para promover uma dominação da sociedade é algo que acompanhou os períodos democráticos brasileiros nesses anos conturbados de República.

         Os coroneis estão interessados em se manter coronéis, assim como os tolos estão interessados em serem tolos. O sistema político atual é uma franca caricatura do que deveria ser uma democracia, não só porque há a profunda cara de pau de alguns políticos em se apresentar como salvadores da pátria, mesmo sendo reconhecidamente ineptos ou corruptos, como também a falta de sagacidade de eleitores em avaliar o cenário próximo.

        Iremos entrar em estagnação logo, digo logo mesmo, em questão de menos de um ano. A economia vem apresentando ritmo lento já tem dois anos, por opções erradas do governo e apostas equivocadas com relação à segurança e estabilidade de nossa economia. É fato que a inflação somada a estagnação pode levar uma estagflação que é o pior dos mundos. Mas nenhum governo agora vai estar em condições de resolver sem gerar arrocho na população, ninguém admite isso, mas é verdade.

        As grandes obras públicas prometidas geraram isso, seja o canal do Panamá que há pelo menos dez anos ninguém fala mais nada, ou a ferrovia Norte-Sul que nunca foi concluída, tampouco os estádios construídos do nada para uma World Cup Fifa Soccer. A economia brasileira assistiu seu melhor momento de expansão de 2002 a 2008, os seis anos de ouro do século XXI, isso qualquer economista tem que reconhecer, foi sapiência econômica do governo na época com movimento positivo do mercado para nós. Mas o declínio não demorou a acontecer a partir que o modelo se mostrou fraco a certas preocupações nacionais e internacionais.

          A Bolha estourou nos EUA e levou meia Europa pro chão. O Brasil resistiu por ser um gerador de commodites que não são dispensáveis pela regra da inelasticidade que todos os recém ingressados a economia aprendem. Mas não sustentamos a benguela por tanto tempo, em 2012 a fraqueza se traduziu pela desindustralização do Brasil e por pressões sólidas do lobby industrial de São Paulo por maiores incentivos, seja a manutenção do IPI ou redução dos impostos. A questão que o custo-brasil é algo que se formos ver ao pé da letra é uma balela, as montadoras estão certas em dizer que produzir é caro aqui, mas não quer dizer que não tenham lucros altos. Por que elas têm.

          As políticas sociais não são um advento tão recente, elas nasceram no seio do reformismo pesedebista no governo FHC. Sim, no início era algo muito restrito e particular, o que houve foi um alargamento dessas medidas. Não sou favorável a longo prazo ao assistencialismo social existente, mas em curto prazo ele fez injetar a roda econômica que andava frouxa. O problema que dez anos não é curto prazo em termos econômicos e os gastos do governo aumentam a uma proporção geométrica. 

         O Estado Brasileiro é um alcoólatra dentro de uma destilaria. E não se pode retirar o papel dele de interventor das regras sociais do trabalho, ou mesmo regulamentador das riquezas, mas os gastos excessivos e o mal uso das verbas acabam sendo as maiores causas de nosso momento delicado na Economia. 

       Deviamos pensar em abrir o mercado, sim, para enfrentar a inflação. Não podemos cair também no mito aristocrático de uma indústria nacional, sim, em parte ela existe, mas não toda ela. E o histórico inflacionário do Brasil nos diz muito: Nós não conseguiremos fugir da inflação se ela perdurar por mais algum tempo. Nossa economia é naturalmente inflacionária;

         O que é trágico é que não se percebe o seguinte problema. Nenhum dos partidos políticos que almeja chegar ao poder deseja construir algo novo. Nenhum. A esperança morreu com o Campos. O homem que realmente poderia fazer um país decolar morreu de formas duvidosas no voo de seu avião;

        A repetição é notável. Dilma quer manter o legado do PT, mesmo que seja inevitável sua queda de popularidade (afinal a economia anda em lençóis mal-vestidos e ela nunca foi realmente carismática). O PSDB é um bloco carcomido, o Aécio pode querer se parecer um espírito novo, mas todo mundo sabe que não é. E o PSB acabou no discurso vazio de Marina Silva, porque realmente é difícil ter esperanças de mudanças da sua plataforma política de 2010 para cá.

       Na verdade, tirando o Aécio, todos os candidatos de 2010 para cá se mantém. Ah, sim, tivemos uma perda grande nesse processo também. Plínio de Arruda Sampaio, que era incisivo em seus comentários carregados de sarcasmo e ironia. Os debates vão ser mais do mesmo.

       O Campos será apropriado por alguns, seja pelos pessedebistas, que o chamarão de "amigo" (sendo que ele não era), e os petistas que o usarão como manobra política também.  Essa é uma guerra de tronos onde dificilmente terão vencedores imediatos.

       Primeira coisa dispare é a construção do imaginário do "time do bem", como se o adversário fosse o "mal a ser vencido". Como se outros projetos não fossem relevantes, principalmente agora. Tá certo, eu não votaria no PSDB, não só pela motivação ideológica, mas porque não há tanta representatividade assim depois de tanto tempo nas cinzas, o PSDB não é uma fênix e tampouco santo-milagreiro.

      Mas não podemos esquecer que o "time do bem" não anda tão bem assim. Ele é questionado por seus paradoxos ideológicos (por construir uma ideia de defesa dos pobres, mas auxiliar o acumulo estratosférico das grandes fortunas. Seja os bancos de São Paulo, seja as montadoras, sejam os empreendimentos agroexportadores como a Friboi, ou as grandes empreiteiras como Oderbrecht. Sem falar no fiasco do Eike. Tudo isso com auxílio do BNDES que empresta dinheiro abaixo da inflação com verba do tesouro nacional). O governo trabalhista é acusado de ser corrupto, que se revelou verdade em alguma escala no esquema do mensalão, mas eis que se descobre que não  só houve um Mensalão, mas três e todos conjugados entre si.

         A tragédia disso tudo é que ninguém está realmente sendo representado de verdade nesse misto de caudilhismo com neopopulismo, esse esquema oligárquico que deforma as bases de uma democracia. O eleitor está preocupado com o imediatismo autoritário dos números, seja os números dos empregos, o valor da inflação, o valor do salário mínimo. O preço da gasolina. O número de bolsas pro Exterior, o número de financiados pelo FIES, PROUNI, e cotas. O número é mais importante que a qualidade do serviço.

         O número dos gastos não importa. Uma nota de cem perdida é uma tragédia, cem milhões é estatística (ou melhor, licitação). É como o dinheiro não importasse, mas o pessoal sim. O governo tem que me dar isso e aquilo, não importa o coletivo. E sim, é corrupto, mas se me dá uma bolsa, eu aceito, se dá uma casa, eu voto. Por que reclamar? É errado tirar a lógica disso, é a lógica do particularismo. Eu se passasse fome e não tivesse emprego votaria no cara que me oferecesse isso, por mais que fosse um advogado do Diabo.

         O problema que numa escala macro isso se gera um nicho eleitoral. O maior inimigo do nosso sistema democrático é nossa latente desigualdade social. E a desigualdade social é a base de apoio de todos os partidos políticos atuais, pois dela se beneficiam os votos. O clientelismo e a nova política dos governadores leva aos escalões de Brasília procurar apoio nas favelas e nos rincões do Brasil de corruptos, caudilhos, traficantes, milicianos e contrabandistas. Os políticos locais correm pra Brasília solicitando verbas ao governo eleitoral em troca de apoio político, que por sua vez correm desvios de verba para financiar os partidos... e assim cria-se uma roda da fortuna da corrupção.

          Caixa-dois é regra nesse jogo de cabeças. 

          A tragédia da pólis é que o povo não é ouvido, é massacrado. Massacrado pela política irresponsável de políticos que esqueceram que um dia foram gente comum, que andava de ônibus ou cuidava dos filhos. Que eles não eram diferentes de nós, nem nós eramos diferentes deles. E um fosso criou-se nesse caminho.

          E o pior que não posso dizer que só eles são corruptos, nós também somos. Ao nos vender por promessas fracassadas , ou por simples questões pessoais; Ao perdoar corruptos pela lenda do "rouba mas faz". Ou mesmo desconhecer a eventualidade com que a política pode moldar nosso dia-a-dia.

         Segurança pública, saúde, educação? Isso importa e importa muito, mas não só isso. Importa conhecer os candidatos, escolher ser representado e ter direito de protesto. O que ultimamente vem sendo meio suprimido (na Copa das Confederações isso foi claro). Lei de segurança Nacional, cavalaria metendo o cacete em manifestante, campanha midiática contra black blocks e pseudo-black-blocks. Brasil Grande, maior espetáculo da Terra. Nunca antes na história desse país... 


            Dá para escrever um caderninho de aforismos que marcaram 2014, e o pior é o vocábulo da desilusão. Porque nem eu, nem você caro eleitor, acreditamos no fundo do coração que apenas essa eleição vá salvar o Brasil. Por quê? Porque o sistema atual está tão deformado que há um fosso entre o cidadão e a política. E esse fosso é difícil de ser rompido. O fosso nasceu do nosso descaso e da profunda falta de respeito com que os políticos encaram seus eleitores.

          Dizer que só eles são culpados é fácil, mas o que observo na sociedade coxinha é também uma hipocrisia corrupta. Seja o suborno ao guarda para fugir do bafômetro, seja o uso de vaga de deficiente, a sonegação de impostos, esconder o Ipod da Alfandega. A vexatória tentativa de ganhar dinheiro no troco, ou mesmo furar a fila de banco. Se nós somos corruptos, o que esperaremos dos nossos políticos? Eles são uma reprodução da sociedade brasileira.

        Eles criaram um fosso entre eles e nós, porque nós temos um fosso entre nós mesmos. Entre pobres e ricos, brancos e negros. Cristãos e não-cristãos. Nossa sociedade é pautada por rótulos lugares-sociais e elitismo. Não só por parte da sociedade rica, branca, ultramontana do high society, mas também dos movimentos sociais que não fogem de lugares comuns e só enxergam branco e preto quando tudo são tons de cinza. 

        A maior tragédia da pólis brasileira é que o povo mesmo estando nas causas de sua não-representatividade (por não estar afiliado à política de gabinete) é que ele reproduz suas mazelas sociais, sua segregação e sua corrupção no modo como vota. E as vezes sua fraqueza de condição social é usada como soerguedor de políticos sujos que estraçalham as bases da República.

       A tragédia brasileira é sua desigualdade social que deforma sua democracia num sistema oligárquico e mais do que isso isola a sociedade da política. Apenas a construção de um modelo representativo direto e uma construção de sociedade sem classes pode por fim a esses problemas, pena que nem eu esteja preparado para ver isso acontecer, nem meus futuros netos no longínquo ano de 2064.

        Não há democracia sem sociedade. Não há democracia sem um pouco de socialismo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O chão

            O chão é o plano perpendicular aos nossos pés e a nossas cabeças; às vezes é tão duro como um diamante, um oponente sagaz às nossas quedas quando somos crianças e implacável gigante de terra que sustenta alicerces das nossas casas, das árvores e da vida.

             O ar é livre e solto, ameaçador e sedutor. O homem ama à liberdade dos pássaros desde os desenhos primitivos do Renascimento Italiano quando Da Vinci desenvolvia uma arte ao estudar o movimento dos pássaros ou Santos Dumont se arriscava à sombra da Torre Eiffel à decolar em seu primeiro voo à eternidade. O tempo ainda nublado é um grande desafio à essas cotovias de metal que cortam os ares a despeito de meras adversidades.

                 Um fio de esperança percorre nossos corações quando num deleito de juventude olhamos para o céu querendo construir um futuro melhor, um idealismo jovem e acurado. Eduardo Campos era uma cotovia, um rouxinol do campo. Calmo e tranquilo, tinha uma fala mansa e uma evidente simpatia, socialista bem intencionado, pai de família e trabalhador incansável, não quis se manter pela imagem de seu avô. Pelo contrário quis tecer um ninho de esperança como é próprio das cotovias após uma atmosfera de desilusões e esquecimento.

                 O futuro prometia ser novo, repaginado e melhor. Os abutres de hoje se somam para se utilizar do cadáver de nossos sonhos sob a égide da perda de um sonhador. Antes o atacavam ou manchavam sua memória relatando falsas amizades políticas;

                A serpente incendiou o seu voo ao tecer um vil veneno fazendo com que a cotovia decaísse de maneira decrescente de  seu voo pela pátria que jurara entender e ouvir. Os falcões midiáticos o atacavam, riam de sua franca iniciativa e hoje matutam como gralhas falantes sobre o seu legado para a história. Os bandidos de terno e colarinho branco assaltam sua memória e a cotovia desaparece sob o nicho de aves de rapina de fraque.

                   Pai, marido, jovem, político. Pragmático e sonhador; amado por muitos, preterido por outros. Virou pessoa non grata de alguns por optar por um caminho diferente da ortodoxia, e num soneto político digno de uma valsa teceu passos importantes para o desenvolvimento do exercício democrático brasileiro. Desvencilhado do caudilhismo dos rincões do Brasil, tentou conter alianças intrapartidárias que descaracterizariam a cerne partidária, mas teve que ceder às tentações quando o grupo de Marina Silva não veio a formular um partido. Negociou nesse caso, mas de maneira concreta e pragmática.

                   Campos olhava a economia com olhar crítico, não era preso à cegueira do Ministério da Fazenda carregado de pensamento cepalino ou a inocência de neoliberais em impor a desregulamentação do mercado. Tentou fugir dos políticos carcomidos do circuito de São Paulo, que tentavam usar o seu nome para obter uma falsa popularidade. Campos nunca foi amigo desses políticos demagogos que hoje enaltecem seu nome.

                   Cotovia incansável que semeou esperança em alguns corações desiludidos por fugir da função dialética da política nacional e optar por uma terceira via, que tecia inconscientemente as bases para uma nova democracia.

                     Não é só porque ele fosse meu candidato e eu fosse apoiador de suas reformas no campo da economia e das reformas sociais, mas também posso dizer que sua humanidade é algo que não deve ser toda desconsiderada.

                  Sua morte provavelmente será esquecida pelo cotidiano banal e comum das pessoas que desistem facilmente de política  e a tornam filha ingrata da economia e dos acontecimentos cotidianos; Mas uma coisa é certa, Campos não será esquecido por uma legião de apoiadores e por mim mesmo, ainda que seja jovem e um tanto idealista.

                     A cotovia desce o seu último voo e inflamada pelo calor do fogo transforma-se em uma pomba branca que impele aos mais jovens ao espírito da esperança; O espírito de Campos continuará em quem realmente está disposto a tornar novo o que já estava carcomido, e quem estava disposto a retirar múmias políticas da nossa democracia em construção.

sábado, 12 de julho de 2014

O medo da ausência

       Fico me perguntando cada vez mais com o passar do tempo qual é o papel imediato do Estado na sociedade contemporânea; observando as sociedades dinâmicas atuais do mundo anglo-saxão e bem do Norte da Europa observamos que a sociedade civil se movimenta cada vez mais rápido apesar do Estado, e cada vez mais rápido se movimenta menos o Estado pode intervir na vida comum do cidadão; A tendência ao respeito das liberdades individuais, bem como da livre iniciativa e do próprio movimento por si mesmo dos cidadãos para o seu próprio desenvolvimento é mais claro evidente.

       O Estado nesse  caso tem um papel secundário quando está frente ao que é a sociedade civil, ao contrário do que ele tenta parecer e age, cada vez mais contra as liberdades individuais ele atua, e atua de maneira surda e velada frente aos interesses do bem comum; Utiliza-se de uma máquina de imprensa que nem sempre move ao seu próprio favor.

       Mas as sociedades que não estão na vanguarda do desenvolvimento político humano se pautam cada vez mais pela a inseguridade social,  uma incerteza e uma franca falta de iniciativa que molda de certa forma uma dependência de um estado completamente inchado e muitas vezes ineficiente; Há um medo completo à liberdade, pois a organização social não surgiu antes do Estado e tampouco de uma tradição social pré-existente. Foi implantada à força por um Estado, uma imposição da superestrutura para criar uma infraestrutura social artificial; Isso é visível nas sociedades da Europa do Sul e do Leste, bem como a América Latina, onde a sociedade não consegue se mover independentemente do Estado.

       Nesses locais a presença do Estado é cotidiana e os atores existentes na sociedade civil desejam ou possuir uma parcela do poder ou um aumento e ampliamento das obrigações do Estado para consigo; é perigoso no seguinte sentido que essa lacuna que o governo preenche na sociedade civil o deixa vulnerável aos moldes de uma oligarquia ou mesmo ao assalto de um golpe de Estado, levando à ditadura.

        Queria poder dizer que caminhamos numa luta contra isso, mas não, procuramos incentivos em tudo do grande Leviatã, do colosso monumental e parasitário que age com violência para manter a ordem social. Queremos bolsas de pesquisa, aposentadorias, pensões, ou mesmo regulamentações sobre o esporte, as regras de convívio social e muitas outras coisas; E é ainda mais complicado porque inexiste nessa estrutura política a fiel dedicação política dos cidadãos à política local em prol de uma formação de uma política marco, a política nacional; Como se o cotidiano não fosse importante o suficiente e que as leis maiores de domínio federal teriam maior ação do que as nacionais. O pacto federativo é uma infeliz piada, os prefeitos dependem de recursos do poder central que por sua vez depende de alianças políticas para se manter; nisso nasce redes de apadrinhamento nascem e crescem, dilacerando a democracia, se é que essa maravilha realmente existiu fora do mundo anglo-saxão.

        Nessas sociedades o Estado não está fadado a seu inevitável desaparecimento tão cedo, de modo, que acredito que o seu papel primário continuará enquanto a sociedade se pautar pelo seu tecido canceroso do estatismo. O inchaço do estado leva a uma submissão surda não só da elite de mentalidade ainda mercantil, que se escora nesse aparato para manter-se dominadora, e de uma população que precisa do Estado para não ser massacrada pela ganância dessa classe social;

       A sociedade não pode viver sem o Estado nesses casos, e o medo da ausência é o medo total de um regulador da própria anarquia que é viver num mundo implantado a pessoas sem segurança pessoal e psicológica garantidas. Por isso que a regulamentação da internet, do futebol e de outros campos sociais é bem vinda, não como ataque à democracia, mas por incrível que pareça, uma "consolidação da base democrática".

        O medo da ausência é que alimenta o Leviatã, que o faz crescer e se expandir, até que ele esteja inevitavelmente obeso demais para se mover e se torne ineficiente e deficitário., a partir disso ele começa a consumir demais e a sociedade latino-americana, historicamente inflacionária passa a ser mais inflacionária ainda quando tem o parasitismo da sociedade no parasita maior que é o Estado.

domingo, 29 de junho de 2014

O medalhão de ouro

"Unter einem gewissen Gesichtspunkt scheint der Unterschied zwischen absolutem und relativem Mehrwert berhaupt hinfällig." Das Kapital, p. 477.

         Nada mais assustador do que encontrar uma frase em fluente alemão acadêmico na sua frente, talvez pelos encontros consonantais, talvez pelas palavras longas ou pelo simples preconceito que nós temos ao admirarmos mais a língua alemã do que a nossa. A barreira linguística é a maior barreira cognitiva que possuímos como seres virtuosamente humanos, visto que temos uma capacidade de ter medo de errar, e um ódio claro ao erro.

        Por isso é meio complicado quando você se depara com uma frase de Marx bem na sua frente, justo do Capital; Mas isso não quer dizer que eu desmereça a língua de Goethe, que por sinal não é a coisa mais simples do mundo, mas estou desmerecendo a nossa falta de capacidade em tentar entendê-la; já temos uma preguiça metodológica em tentar nos esforçar.

       Eu queria dizer que essa preguiça é uma característica inerente ao ser humano, mas essa é uma antropologia geral do Homem que eu não desejo nem aprovo tentar utilizar; o nosso espírito em não tentar buscar a verdade pelo esforço, mas pelo simples caráter diletante mostra o Complexo do Medalhão:

         A Teoria do Medalhão a primeira vez que foi vinculada não foi por ninguém menos que Machado de Assis, numa crítica aos falsos intelectuais que primavam por um conhecimento vago de um determinado assunto, um rebuscamento linguístico e um completo desconhecimento sobre qualquer assunto específico. 

         Nesse escrito, Machado ironiza o esforço do pai em ensinar ao filho em como ser um picareta intelectual. Teorizando o máximo juízo do dever ser acima do ser completamente, o filho deveria parecer inteligente e culto ao invés de ser na realidade. De modo que nesse conto, Machado escreve algumas máximas de que para ter um medalhão (um posto de importância), seja na política, no serviço público, no comércio ou na imprensa, é preciso falar bonito, usar termos rebuscados, adotar hábitos de corte, como jogar uíste, bilhar e saber se utilizar  de artimanhas para se sobressair aos outros.

        A artimanha é  de se parecer intelectual, utilizar expressões estrangeiras, mencionar aforismos de clássicos, ou mesmo inventar frases atribuindo a tais atores para exercer uma relevância intelectual. Tem-se que se ignorar os debates modernos e se manter a margem das discussões contemporâneas, prendendo-se a velhos paradigmas, "porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular ideias novas, e é radicalmente falso". De modo que se deve "assenhorar do espírito daquelas leis e fórmulas" pois só assim se conseguiria o medalhão.

       O medalhão é por natureza um teorema que vai contra a ciência, e justamente Machado que denuncia isso, pois a ciência se move por inquietações e dúvidas e não pela capacidade de comodismo, um comodismo intelectual de se aceitar verdades absolutas, ou simplesmente se aceitar a negação, para se passar por intelectual.

        Para isso o Medalhão não pode apenas parecer intelectual ele tem que deixar publica a sua própria capacidade intelectual, e " a publicidade é uma dona loureira e senhorial, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimam a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que Dom Quixote solicite os favores dela mediante ações heróicas ou custosas pois é a mania deste ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos."

         Assim, o Medalhão além de ser contra o desenvolvimento científico, pois a ele não interessam os debates sobre assuntos determinados, ou mesmo prolongações acadêmicas, ele não vê a necessidade de ações heróicas para si, não quer tomar para si um papel ativo de ações pois isso seria coisa para um lunático e que o Medalhão, novamente voltando a discussão acadêmica, não escreve tratados científicos, utiliza-se de uma coisa concreta, o carneiro para promover sua própria publicidade. Assim do campo filosófico, o Medalhão não vive do campo filosófico, ele se baseia no campo concreto para conseguir um objetivo imaterial que é prestígio.

        E o cunho publicitário do Medalhão deve ser  barato e constante. Mas por que cheguei ao Machado? Na verdade a questão é que o medalhão no início do conto do Machado (Teoria do Medalhão) entre o um pai e um filho quando o rapaz chega aos 21 anos de idade é evidenciar um comportamento social que existe numa parte da elite social. O pai mostra ao filho que o caminho para ascensão social não é de forma alguma o conhecimento, diferente disso, é a capacidade que ele tem em parecer ser profundo conhecedor e se utilizar dessa capacidade para se mostrar à sociedade. É uma ótica de corte.

        Contudo o Medalhão é o cargo mais influente que alguém com "vinte e um anos, algumas apólices (ações), um diploma" pode chegar, mesmo podendo "entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes", pois um medalhão em tese é indivíduo nulo que ainda assim é importante por exercer o papel social de figurão, de modo que ele por si mesmo não tem um papel real, mas as suas boas amizades o conduzem para um estamento social relevante.

       O Medalhão é uma pessoa que se escora no estado, que se vê confortável em não exercer um esforço totalmente perigoso, afinal é mero amigo do Rei, um parasita que se apoia de outro parasita que é o Estado, que realmente não está disposto a produzir, mas viver de renda: seja pensões, seja títulos do governo, ou mesmo de contratos com o Estado. Ele não trabalha, mas não tem vergonha por não trabalhar porque para o resto da vida ele viverá dessa forma.

        O Medalhão é o ser que finge ser apto para uma função, mas não tem papel ativo nas discussões, finge saber ler, mas não consegue interpretar um texto; é um ser que ambiciona em ser mais esperto que os outros para manter um posto estável e importante para o resto da vida, e bem, é aí que entendemos que o Medalhão hoje é o funcionário público.

         Sim, não é a toa que os pais recomendam hoje aos filhos com 21 anos a procurarem um concurso, não importando o que querem na vida, que eles sejam concursados pois assim terão uma profissão estável para o resto da vida.

         Para ser Medalhão antes você tem que fazer uma prova concorrida, pois muitas pessoas hoje querem ser o Medalhão da história, andar de Camaro Amarelo, ter uma casa, viajar para o exterior quando quiser, ganhar quinze mil reais ao mês e não trabalhar mais do que quarenta horas por semana. O conteúdo do concurso não é fácil, mas não é preciso ser um Nikola Tesla para passar numa avaliação dessas, afinal a fórmula do Medalhão ainda serve (não precisa ser necessariamente inteligente, mas parecer inteligente), ou seja recorre-se à "decoreba", posteriormente ninguém lembra do que estudou. E não importa também, o que importa é que passou.

         O Medalhão é um intelectual medíocre com o bolso cheio de dinheiro, e quem não quer ser um? Melhor do que isso é nascer milionário. Não estou dizendo que todo funcionário público é um medalhão, pelo contrário estou dizendo que todo medalhão costuma ser funcionário público.

        Mas retomando ao Medalhão, que coisa há de se fazer num país tão rico onde se coletam medalhões? Ser um. E esse é o problema o Estado conserva tantos medalhões que o seu pescoço começa a ficar pesado, e por esse motivo as contas públicas esse ano estão demorando pra ser fechadas. A responsabilidade fiscal de um estado esbarra na segurança social justamente de um estamento que o usa pra explorar: Os medalhões;

       Então estamos nessa conjuntura de ouro dos trouxas, onde não há diferença absoluta no que vem a ser absoluta do excedente, pois afinal de contas tenho que retornar a citação do Marx: ""Sob um certo ponto, a diferença entre o mais-valia absoluta e relativa  aparece em tudo obsoleta"", sob um certo ponto o valor da a mais-valia é produto da exploração direta de um estamento social sobre outro, e nesse caso, analisamos o Estado, de modo que a mais valia que o Estado impõe ao trabalhador na forma de impostos é o que financia a continuidade dos medalhões.

A mais-valia é o meio da exploração de um pelo outro, e de modo que o Medalhão ao explorar do próprio Estado, explora o trabalhador, não só o trabalhador das fábricas e oficinas, mas o trabalhador dos consultórios, das escolas, dos comércios; então de um ponto de vista macrossocial o Medalhão é nocivo socialmente e é antissocial; Contudo a predisposição de tantos em alimentar o escalão dos medalhões mostra que isso inevitavelmente comporá um regime cíclico do inchaço do Estado que não só acabará com a economia, mas trará problemas futuros dentro de alguns anos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

"A maior Copa de todos os tempos"

             "O Brasil é um país tão estranho que até o passado chega a ser imprevisível."

             O maior problema dessa Copa não é a cegueira que tivemos por quase sete anos quanto às obras públicas, os desvios, a construção de estádios e a falta de preparação de todo o país para receber o Mundial; O maior problema dessa Copa também não é a impressão que temos de que  passaremos vergonha na organização desse evento mundial.

            O maior problema dessa Copa não é o eventual prejuízo moral que alguns terão ao se verem num país diferente do que estão acostumados, maquiado porcamente para a realização de cerimônias de futebol em "arenas" (eu me recuso a nomear estádio de futebol de Arena).

           O maior problema dessa Copa é se usar de um evento excepcional para impedir a capacidade de protesto da população, violando assim diretrizes máximas da Constituição Federativa de '88, a liberdade de expressão e protesto. O governo, não digo o governo federal, eu digo governo na esfera dos estados e municípios é o maior ator de violação aos direitos das liberdades individuais hoje no Brasil;

          Não só porque lança mão de prisões arbitrárias, convoca a guarda pretoriana da cavalaria de uma polícia militar (sim, a polícia é um braço de auxílio às forças armadas), como também ignora boa parte das demandas sociais em torno da proposta eleitoreira e populista de realizar a "maior Copa de todos os tempos".

         A "maior Copa de todos os tempos", nós somos tão humildes quanto os argentinos, de fato essa não é a maior Copa de todos os tempos, é uma copa do Mundo como outra normal, com estádios, jogadores, jornalistas, uma bola e um juiz. O que há de especial nessa Copa? Ela ser no Brasil?

       O Brasil não é berço do futebol, para início de conversa, a gente adotou o futebol é coisa diferente. O brasileiro se preocupa com futebol sim, primeiro o futebol de seu time, Corinthians, Vasco, Flamengo, Internacional, Palmeiras, e de quatro em quatro anos com a seleção brasileira. Essa seleção que é controlada pela CBF envolvida com escândalos de corrupção e com os porões turvos da Ditadura.

        Estranho é que a mesma classe média que gritou lado a lado sob o sol pesado, nuvens de gás de pimenta e lacrimogênio, com cavalos correndo em flancos, snipers posicionados em helicópteros, com crianças e idosos em meio à confusão de pessoas correndo do braço forte do Estado (e uma mão nada amiga), estava nos estádios assistindo um jogo promovido por uma Fifa cada vez menos interessada no futebol.

         A seleção brasileira sofreu com  a Croácia, teve um lance que foi polêmico, mas ganhou a partida como eu já imaginava. As vaias à Dilma no início do jogo parecem ter dado sorte à seleção de Felipão, por falar nessas vaias, elas não surgiram da arquibancada, surgiram dos camarotes seletos da elite carioca-paulistana que se beneficiou justamente desse governo para ganhar dinheiro.

           Exatamente, os mesmo industriais da Fiesp, os artistas da Globo, os agropecuários do interior de Goiás, que receberam empréstimos subsidiados do BNDES, que receberam incentivos de IPI há não muito tempo atrás vaiaram o governo do "Partido dos Trabalhadores" que auxiliou em muito os patrões. Essa elite que vaiou depende em muito desse estado fajuto alicerçado por uma oligarquia corrupta e incompetente.

             E não é que eu goste desse governo, de fato, a inépcia do governo federal na política econômica é monumental; Em todo caso eu penso, porque essas pessoas têm o direito de protestar dentro de um estádio seguras de que não serão agredidas enquanto as pessoas que protestam na rua apanham e levam balas de borracha? Qual democracia que vivemos?

           Na verdade cada vez menos estou convencido da existência de um regime inteiramente democrático no Brasil, e mais estou convencido na existência de um regime cada vez mais atrelado à oligarquia que controla as grandes redes de poder em Brasília, como nas veredas do sertão brasileiro. E esse é o motivo de grande desânimo quando observamos o modo como a política brasileira é conduzida.

           O Supremo Tribunal Federal viola os próprios estatutos prescritos na lei para agir na corrida contra os acusados de corrupção (não importa se foi bem intencionado ou não, o que importa que violaram a lei e deixaram uma lacuna na jurisprudência), como também o legislativo cada vez mais delibera leis absurdas e o Executivo manda de cima. O país foge da esfera de sua própria realidade.

          A maneira como a Copa foi feita no Brasil não é só uma mostra da falência moral que a política brasileira cada vez mais marcada pelo neopopulismo traz à sociedade civil e a cultura política nacional, mas é uma consequência do processo de cegueira e de acobertamento das grandes falhas e faltas que o povo apresentou nesses sete anos de aparente bonança econômica até 2012-2013.

            A História do Brasil sempre circulou numa ótica mirabilesca cujas atribuições chegavam próximas ao riso, mas é cada vez mais preocupante que frente ao paradigma  de cegueira das massas e da cegueira ideológica dos intelectuais em uma polarização cada vez mais inconsequente o Brasil caminhe cada vez mais para a ótica do absurdo.

          A Copa não é a grande responsável pelos nossos males, nem a Fifa é inteiramente culpada pelos desvios e corrupção. Isso não quer dizer que a Fifa deva ser inocentada da corrupção que ela trouxe, mas a grande responsabilidade do que veio acontecer (não só hoje como no passado) é praticamente nossa.; Nosso imediatismo, nossa cegueira, nossa pouca prática ao trabalho braçal e nossa completa falta de moralismo intrínseco à prática.

          Por isso eu volto a dizer:

                      "O Brasil é um país tão estranho que até o passado chega a ser imprevisível."

        Imprevisíveis somos nós que procuramos cada vez mais o futuro, e cada vez mais repetimos os erros do passado.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...