domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Para a maioria, a filosofia não basta, exige-se a santidade" (conto)


Num bar, desses botecos “copo-sujo” da capital estavam dois homens sentados junto a um balcão, o primeiro, um trabalhador qualquer da indústria civil, suado com a roupa repleta de nódoas de cimento do trabalho. Degustava feliz o seu copo de chope enquanto o outro, um homem fino e pequenino comia os amendoins enquanto esperava o seu conhaque.

Vem então a desculpa: o "tremor da carne", que abalou muitos mártires[1], você gostaria de conhecer alguém, pergunta a essa pessoa tanto quanto puder[2], não canso de dar bons conselhos ao meu irmãozinho e à minha irmãzinha, e os repreendo, mas é o mesmo que pregar no deserto.[3] Foi assim que uma conversa entre os dois começou.

Papo vai, papo vem, o segundo homem tomou um gole de seu conhaque e espremeu um pouco de limão em cima e começou a retomar a história que contava:

“Trata-se dum reservatório preso às costas, no qual se armazena ar...[4] Por mais zangado que estivesse, o pai não conseguiu conter uma gargalhada.

— Você não é meu filho — é um esquilo![5]

Se me escamei? Enfureci-me! Pus-me aos coices. Dei por paus e por pedras. Quase que me peguei com dois ou três deles. E acabei por me vir embora. Isolei-me[6]

Eis aí, por exemplo, um homem culto sofrendo os remorsos de uma consciência requintada, torturado por um sofrimento moral, perante o qual todo outro sofrimento nada significa[7]

Direi apenas que o pintei com horror, mas pretendi, custasse o que custasse, superar minha repulsa e, sufocando todo sentimento, me manter fiel à natureza.[8] Os senhores podem ver que esta nossa carne continua sendo ardentemente caçada, meus amigos[9].”

— Decididamente é um homem de imenso espírito[10]

— Por quê?

— Por tratares de filosofia em semelhante conversa. Parece até um mestre de dialética.

— Jamais fui mestre de ninguém, embora nunca me opusesse a jovem ou velho que desejasse me ouvir na execução de minha tarefa[11]

— Verdadeiramente és um poeta.

— De maneira nenhuma! A alma humana e seus limites, a esfera de experiências percorrida até o presente pela alma humana, os cumes, as profundezas e a extensão dessas experiências, toda a história da alma até nossos dias, suas possibilidades não realizadas ainda, tudo isso é o distrito de caça reservado para o psicólogo nato. Para o amigo das grandes caçadas[12]

— Quer dizer que é psicólogo?

— De maneira nenhuma, sou apenas um caçador de histórias, e estou contando-lhe uma. E para tanto, deves tomar muitas precauções antes de chegar a esse ponto[13].

— Sabe, meu caro, você é um cara engraçado, brindo a isso — bebericou o seu copo de cerveja.

— Não é surpreendente que você pense assim, já que não tem da realidade nenhuma representação que não seja falsa[14] Veja, por exemplo, o desejo da conquista. O desejo da conquista é, com certeza o mais comum e natural entre os homens, e quando eles se entregam a ele e são bem sucedidos, são louvados. Entretanto, quando lhes faltam meios e eles tentam de qualquer maneira, cometem um erro que merece censura[15]

— Ora, nem sempre é assim, meu caro. Na construção civil nos pensamos diferente, gostamos de dizer algumas banalidades às que passam, mas nem por isso somos assim. Eu confio nesse principio.

— Todo o universo da cidade e tudo o que havia feito a confiança no presente em sua superioridade não passavam de ruínas.[16]

— Não acredito nisso, moço.

— Tudo é passageiro, meu caro. Até a chuva de verão é efêmera frente ao calor tropical.

— Realmente o senhor é bem pessimista. Vejamos o jogo.

— De maneira alguma sou um pessimista, apenas sou um caçador de histórias, e um dia até eu irei contar essa história para os meus conhecidos. Passar bem, e não se esqueça, a vida é um jogo.

Bebeu um último gole de conhaque e saiu, o pedreiro sorriu-se de tudo aquilo e do jeito ridículo como aquele homenzinho contava suas histórias, até que percebeu que tudo fazia sentido e fechou o seu sorriso, não quis mais beber o seu chope e foi para casa. O Flamengo tinha perdido outro jogo.




PS: É interessante notar que me vali do uso das afamadas notas de rodapé, principalmente porque no início eu não tinha uma ideia clara sobre o que seria esse conto, dessa forma, me entreti na maior parte do tempo em brincar com as palavras, como o caçador de histórias, assim tomei-me da licença de tomar emprestadas citações dos mais variados livros da minha estante justamente na página 61. Espero que gostem desse meu lampejo criativo, ou não. E antes que me acusem de elitismo o título foi retirado também de uma citação, da página 61, de Rumo à Estação Finlândia, de Edmond Wilson.



[1] Duby, Georges. Idade Média, Idade dos Homens. Pág 61.
[2] Miodunka, Wladyslaw. Cześć jak się masz?. Pág 61.
[3] Tchekhov, Anton. O Assassinato e outras histórias. Pág 61.
[4] Verne, Jules. 20 mil léguas submarinas, pág 61.
[5] Martin, George. A Guerra dos Tronos. Pág. 61.
[6] Pessoa, Fernando. O Banqueiro Anarquista, pág 61.
[7] Dostoievsky, Fiodor. Memórias da casa dos mortos, pág 61.
[8] Gogol, Nikolai. O retrato. Pág. 61.
[9] Shakespeare, William. Henrique V, pág 61.
[10] Dumas, Alexandre. Os três mosqueteiros, pág. 61.
[11] Sócrates.  Apologia de Socrates de Platão in Nova Cultural, Sócrates. Pág 61.
[12] Nietzsche, Friedrich, Além do Bem e do Mal. Pág 61.
[13]  Sun Tzu, A arte da guerra, pág. 61.
[14] Thomas Morus, A utopia. Pág. 61.
[15] Maquiavel, O Príncipe. Pág 61.
[16] Hartog, François. Os Antigos, o Passado, o Presente. Pág. 61.

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