quinta-feira, 17 de abril de 2014

Fumaça do tempo

      Não creio que a chuva apague as pegadas na terra nua ou tampouco molhe meus cabelos tão rápido a ponto de ficar completamente encharcado, pois na tez mais sinistra  das noites em claro que vivencio tenho divagações tão introspectivas que assusto-me com a mínima ideia de me perder nos meus próprios pensamentos.

      As metas são inúmeras e não creio que sejam poucas a ponto de ser negligente com noites em claro, de fato nem desejaria momentos tais de insônia, mas é algo que os olhos meramente sintéticos abusam de meu cansaço e não me permitam dormir novamente; Queria saber tais motivos que rondam tamanha inquietação, mas sob o pêndulo de um relógio, a verdade é que a feiura com que a existência humana se preenche corrompendo as palavras, os mínimos vocábulos transilvanianos, melindrando apenas verbetes de natureza pouco ortodoxa.

       De fato, os encontros consonotais, os hiatos com que a vida nos prega deixa-nos cada vez mais impacientes a cada minuto, o dia encerra-se de maneira cada vez mais demorada, o pôr-do-sol, que antes era um companheiro de reflexão, hoje só é um engodo, pois me lembra das noites em claro que vivo me remexendo na cama, com a consciência um tanto pesada ou mesmo preocupações futuras. A insônia corrompe-me por dentro e a fumaça do tempo não se esvai rapidamente, muito pelo contrário, a sua lentidão cada vez mais trágica constitui um obstáculo ao meu subconsciente cada vez mais complexo e transtornado de tantos traumas e contratempos.

     A valsa corre em uma frequência de três para um, assim como a frequência de um batimento cardíaco pode variar de 80 batimentos por minuto a 120, nada comparado com a frequência por exemplo das microondas ou os raios gama. Raios gama, tão cancerígenos que chegam a queimar nossa pele, adentrando em nossa alma, todos os dias tenho a sensação de estar me expondo a um bombardeamento de neutrinos no interior de um reator de fissão nuclear, obliterando uma cisura junto ao meu peito cuja abrangência corta-me por inteiro, irresponsabilidade minha é claro comparar-me a tal iniciativa, mas sinto que é um desabafo deveras conveniente ao ritmo de estafa com o qual estou sendo submetido de forma arbitrária pela vida.

      E de quebra, eu não consigo dormir. Há maior maldição que isso? Duvido sinceramente.

      E com minha falta de sono, não produzo nem uma sombra de versos, nem uma centelha de palavras, e como bon vivant que sempre fui, tenho medo de perder minha habilidade em tocar o alaúde em honra de meus antigos e novos amores desafinando minha voz e minhas rimas. Entretanto o padrão ternário da música ocidental apresenta um aspecto bastante convicente sobretudo na dita música de orquestra, quando observamos músicas compostas por Lintz, Beethoven, ou mesmo Chopin, isso não é comparável às batidas do fox-trote ou do samba de raízes que são tocados em harmônia com  as batidas de um coração sofrido e apaixonado.

      Noel Rosa juntamente com Carlos Gardel, cada um a sua maneira, remontam uma construção nacional consolidada a partir da música, entretanto Noel Rosa se difere pela crítica social contundente em versos e palavras com um humor carioca carregado, típico de Vila Isabel, enquanto Carlos Gardel é romântico em demasia ao chorar suas dores de uma Argentina patriarcal, romântica e vitoriana. O samba é coisa de cabra trapaceiro, malandro da melhor esquife, enquanto tango é coisa de cavaleiro platino, gaucho das pradarias, choroso com um mate e um bom chimarrão.


       Isso não produz senão maiores divagações epistemológicas de um indivíduo cuja insônia transtorna sua capacidade intelectual, que sempre foi uma medida muito questionável. Mas esse cérebro cansado de muitas noites tenta abandonar o seu apego ao sono e se esforça cada vez mais ao trabalho, mesmo não produzindo nem uma centelha no papel armado, Curioso, até, pois o lapso criativo que corrói as vísceras desse escritor há meses não lhe tira a capacidade de divagar sobre o vento, de modo que um texto nasce de uma simples necessidade de dormir.

       Infértil no campo das ideias e no campo amoroso, estanque em sua concepção materialista sobre a aula, o velho marxista cansado continua a circunscrever ideias sobre a mente do corpo ainda jovem de duas décadas, e de maneira tão distante, há pelo menos noventa anos, estão as concepções lógicas desse rapaz.

        Ele não dorme, e continua transtornado, tentando inutilmente se esforçar a ler um livro, ou meros versinhos que gostaria de escrever a um amor platônico que nunca se esforçará a vê-lo, de modo que cada vez mais amargurado se inscreve na penumbra da noite que adentra sobre o cômodo fechado. As estrelas pintam aos poucos o céu pela janela de ferro branco, corrompendo a mente já cansada com ideias cada vez mais utópicas:

       " A Terra é o berço da Humanidade, mas não se pode viver no berço eternamente"

       E como seria belo lançar-se ao Espaço numa nave-estelar, mapeando o desconhecido como um Vasco da Gama ou um Cristovão Colombo, conhecer novos mundos, estudar novas formas de vida e novas civilizações, indo, audaciosamente indo, onde nenhum Homem jamais esteve. Esse homem moderno e ainda assim antigo, tendo o poder da física nas suas mãos, a internet nos seus dedos, mas ainda bastante selvagem para controlar seus impulsos.

       Os sonhos aparecem mesmo com os olhos abertos e escancarados, e eu desisto de perguntar a razão para tão pouco vontade de dormir, pois meus olhos sonham abertos e minha mente sonha com minha alma, de toda a forma a fumaça do tempo não me fará esquecer o quanto eu estou preso de corpo e alma a esse coração primaveril que não decide em parar de se apaixonar.

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