quinta-feira, 10 de abril de 2014

Reflexão no meio do papel

      Sou tão arrogante que acredito ter no poder das minhas mãos a capacidade de personificar pessoas, de escrever suas histórias e descrever seus fatos, seus ditos e suas ações. Eu acredito que possa falar de qualquer um e de todos, em todos os sentidos e matizes.

      Consigo falar de economia, esporte, política, História, amor e sentimentos, mas no fim não consigo falar sinceramente sobre mim mesmo, e essa é uma capacidade que eu tenho em esquecer quem eu sou: um escritor sem a menor importância no centro da periferia do Mundo.

      Cada vez que eu olho  6 meses para atrás eu percebo como eu era estúpido, e há 6 meses eu devia ser ainda mais estúpido e daqui 6 eu provavelmente direi que "Caramba, como eu era realmente estúpido 6 meses atrás ".

            O ponto é que no fim eu sou invariavelmente estúpido e arrogante em achar que tenho controle sobre a vida de personagens do cotidiano cuja intensidade não consigo descrever, nem sequer a de uma fatia de pão.


É uma coisa estranha a ser preso por essa possibilidade, de modo que sentirei saudades da época em que me achava inteligente e capaz de  moldar a realidade


Cansado dessas discussões metafóricas e de tentar descrever uma parcela da realidade, eu desejo no fundo do coração não ser alguém que precise de tanto, mas uma pequena criatura livre que consiga viver sozinho no profundo deserto virtual que é a vida sem preocupações, pois o meu ego é a maior prisão que consegui me submeter.


Tenho que ser cauteloso com meus desejos, pois os meus prazeres tautológicos podem me subverter na essência. E eu tenho um forte desejo de me livrar de tudo que  esvazia  a minha vida, mas o domínio pleno dos desejos, me faz ser tão medroso que tudo o que quero é apenas ficar aqui.



Quero recuar do meu instinto natural de querer ser diferente, mas a verdade é que sou indiferente à vida, e indiferente na arte de escrevê-la, por isso não me convenço que estou agindo da melhor forma possível, senão por lembrar a dor dos calos na mão de tanto martelar as teclas já tão desgastadas de minha máquina de escrever

Tudo o que me resta é uma sombra, na mente mesmo que lacera meus pensamentos e me traz dor de cabeça, me ajuda a manter a insônia, cuja dor marca o mais profundo sentimento cego de vista  do meu coração. Pois continuo a atravessar a estrada de como eu sou estúpido e não quero uma razão para não enxergar o pleno senão pelo olho direito.

Pois no fim das contas acho que sou meio esquizofrênico em achar que possa ter sorte numa vida cuja existência desconsidero todos os dias e que traduzo de forma cada vez mais leve e batida em meras palavras, pois as histórias narradas não podem ser descritas apenas com uma imagem mental, mas com um contexto como um todo.



E no controle sistemático dos fonemas e vocálicos monolíticos tive medo de me manter sinceramente calado, mas no fim nada mais sou do que uma sombra do passado. Quero pensar que a escrita é escrita e o defeito sou eu, tal como fui eu todas as vezes por ser tão idiota e arrogante em me achar especial por ser nada a não ser um escritor fracassado sem aptidão para ser contador de histórias.


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