domingo, 6 de abril de 2014

Domingo à noite

        Toda vez que bebo um pouco de café procuro na xícara respostas para as minhas dúvidas mais profundas, como se  o gosto amargo e forte do café requentado me desse energia aos pensamentos, o que eu bem sei não é verdade. Às vezes tenho medo que o café tenha esfriado demais e envelhecido mais do que eu mesmo, perdido as oportunidades de exalar os seus aromas direito.

       A cafeína enlatada corrói com a borra de café o fundo da xícara branca de porcelana, deixando um filete meio moreno de água na superfície. Eu sei que bebi café demais, às vezes fico noites sem dormir por causa disso, outras noites eu não durmo pensando nela. O que é muito estranho pois não a vejo senão nos meus sonhos, e fico feliz quando me encontro com ela ocasionalmente nos corredores da vida.

      Posso ter cometido alguns erros, mas nenhum foi pior do que ter dito nada naquela época. Me sinto culpado por isso de verdade, como poucos se sentem. Prefiro tomar um pouco mais de café para esquecer o que eu deixei de fazer.

      Às vezes as pessoas só precisam de um pouco de conversa, um copo de café e um guardanapo para projetarem coisas incríveis, eu projeto um amor irreal e inexpressivo em versos, não que não eu a tenha junto ao peito, mas que a realidade nunca favoreceu qualquer iniciativa de ambos os lados.E doce seria uma ponte que nos ligasse mais do hoje, muito mais doce que esse café meio requentado.

     Eu tenho trauma daquele dia que a encontrei triste na cafeteria com o fone de ouvido ligado e os olhos perdidos no esquecimento, não sei se era sobre mim que ela pensava, afinal de contas estava namorando com outra, ou se ela tinha acordado muito triste naquele dia; Eu quis abraçá-la e beijá-la na bochecha, mas fiquei calado e polidamente saí evitando olhar o que meu coração sentia.

    Afinal de contas aquele café era para ser tomado comigo, era para eu ter a convidado e dito que gostava dela, mesmo que sob o silêncio da noite escura e úmida, que desgrenha os meus cabelos no mínimo floco de vento. Mas tropeço no meio fio com meu cadarço e caio de rosto na estrada da vida.

    Tremo diante a pequena oportunidade em que tenho para convidá-la a beber um mero café comigo, eu acho que o nível desse sentimento é algo que não pode ser quantificado de forma matemática, mas apenas por meras sensações, como o calor molhado de um beijo, o leve toque de um dedo sobre a pele do rosto ou um olhar vibrante que adentra a alma. Café, mais café. Tenho que escrever, tenho que te descrever. Quero tentar te esquecer, mas não esqueço.

    A cafeína me deixa cada vez mais enérgico e penso que isso não é de fato coisa boa, afinal de contas, café me lembra você. De alguma forma, eu lembro de como você me conquistou com os seus belos e grandes olhos marrons, seus cabelos negros e seu doce jeito de moleca, de mocinha que sabe conquistar só com um olhar. Ainda lembro que te devo um café.

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