sábado, 10 de junho de 2017

Dois amantes

       Ela, uma travesti, que muitas vezes se olhava no espelho procurando se encontrar, escovava seus cabelos com preguiça. Eu a olhava esperando ter respostas. Havia uma sacola de papel rasgada no chão, nela uma garrafa de vinho quebrada, o secador que tinha se espatifado e um buquê de rosas mortas.


       O secador emprestado fazia muito barulho, a luz comprimia meus olhos. Ela estava nua, tentava apenas cobrir-se com uma toalha branca. Seus pequenos seios estavam à mostra. Tínhamos tido uma briga, como todos namorados costumam ter. Mas namoro a dois é um trilho que sempre acaba  em estações diferentes. Nossa sintonia era aquela, eu depressivo, olhando para seus olhos tentando ter respostas, ela se olhando no espelho tentando se encontrar.

        Ela por vezes tinha vergonha de seu corpo, de ter nascido com algo que ela não queria... Eu nunca tive vergonha dela. Sabe porquê? Quem ama não se envergonha de nada. Podia falar o que fosse. Afinal num país que se mata tantas transsexuais, ouvir insultos gratuitos e olhares desconfiados parece ser costume.

        Quando andávamos sozinhos na Pamplona, eu via os homens a encarando com luxúria. Esses mesmos homens que se orgulham de sua masculinidade, eles no fundo me invejavam. Distribuíam olhares carregados tanto de preconceito quanto de desejo. Ela era uma mulher bonita, mas no fundo eles não queriam reconhecê-la como mulher.

        Eu sei que muitos amigos meus não aceitaram quando falei que estava namorando uma mulher trans, alguns acharam isso exótico, outros simplesmente sexualizaram nossa relação. Alguns falaram coisas horríveis, outros viraram as costas. Está tudo bem, não foi muito diferente dentro de casa.

        Afinal, porque eu estava em São Paulo? Por que eu amava. Num mundo tão cruel, às vezes precisamos ficar com alguém que nos dê segurança.

       Nós brigávamos, sim, nós éramos como outro casal qualquer. Tínhamos ciúmes um do outro, tínhamos cumplicidade, às vezes escondíamos coisas um  do outro. Parece exótico? Mas é assim que as coisas funcionam, não há nada de especial.

      Tomávamos banho juntos, cada um limpava o corpo do outro com uma esponja. Por vezes não queríamos nos ver, outras nos machucávamos apenas porque queríamos ser ouvidos. Teve vezes que andei sozinho de madrugada na Paulista procurando respostas, outras, eu a encontrava na portaria do nosso prédio fazendo perguntas. Sempre nós dois juntos.

       Éramos felizes quando estávamos sós, mas nem sempre tínhamos essa oportunidade. Por vezes nossa privacidade era violada, sem querer, sentíamos presos. Seja por um vizinho fazendo perguntas, seja por algo que ocorria na rua. Sofremos muitas vezes, mas tínhamos um ao outro,

        Os hormônios sempre a deixavam mais irritada, eu sempre ficava de cabeça quente. Ambos estávamos sem dinheiro. Por vezes, apenas nos deitávamos e dormíamos. Sem nos preocupar com nossos corpos, sem nos preocupar com o amanhã.

        Fazíamos amor quando convinha, mas sempre dormíamos juntos, pelados para lembrar que cada um pertencia ao outro e vice versa. Eu a amei, sempre soube que seríamos algo mais que amigos. E hoje fico triste de estarmos afastados contra nossa vontade. Justo nós, que nos nossos momentos, assistíamos tudo juntos, como todo casal.

        O mundo é perverso e cheio de preconceitos, mas por um momento que seja eu queria compartilhar com vocês o que é amor.

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