segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fotografia

      Fotografia é a escrita feita diante da luz, é o traço compilado no feixe de uma câmara escuro que registra uma fração da realidade. A máquina de fotografia não é isenta de falhas ou de erros no obturador, assim como o seu ator não deixa de ser um artista. Todos representamos quando pousamos numa fotografia, seja tentando parecer mais belos ou mais imponentes. A fotografia é a marca de um artificialismo realista, que nos engana ao pensar ser concreto, mas quando na realidade é subjetivo.


    O registro de imagem é um elemento de sobreposição da realidade que passa do passado para a prosperidade como registro da própria história falada. Sem querer caímos no erro do realismo, e acreditamos que o que está registrado numa foto é realmente a comprovação da realidade. Aí que entra a montagem e enquadramento, dois elementos que podem ser feitos de maneira inocente ou não. Quando não é feito de maneira inocente é para reforçar ideologias ou ideias, na pseudocientificidade desta arte.

     Me admira o ofício do fotógrafo tanto quanto o do pintor ou do cineasta... Eles criam realidades a  partir do que observam empiricamente como o mundo. Uma alma delicada e uma percepção resoluta, concisa, torna a fotografia um ofício excepcional. Seja a fotografia que guardamos de nossos avós, seja a fotografia da timeline do Facebook ou de um antigo amor. O ofício da fotografia é também o ofício da recordação, recordar para viver. Por isso temos sempre que nos autoafirmar em fotografias.

    Em todo caso, somos infelizes os que amam a fotografia mas ela não nos aprecia na forma desejada. Ela é uma capa, um espelho e uma máscara. Ela nunca realmente compreende o ofício de nossas emoções, dos nossos pensamentos e dos nossos traços, ela apenas quer ressaltar uma forma sem conteúdo tornada hegemônica: Ver para crer, a episteme da autópsia.

      Como um médico ou um detetive procuram detalhes nos fatos, e nos indícios, quem analisa uma fotografia procura noções cognitivas de tentar compreender que aquilo é um fato concreto. Um paradigma do passado, seja uma fotografia de 1872 da Guerra do Paraguai, seja uma fotografia de criança na festa de 4 anos de idade, ou uma fotografia chamuscada e em preto e branco de uma pessoa desconhecida. Tentamos observar os fatos nos detalhes.

       Pessoalmente eu sou cético com a fotografia e apaixonado pela montagem, por isso que sinto o cinema como uma arte mais honesta que a fotografia.  O cinema tem proposta de entreter e divertir, mas também tem a proposta de ser uma arte, apesar de sua cientificidade e teoria (tão decomposta por Griffith  e Eisenstein), ela não se sujeita a tentar mostrar a realidade como ela é, mas como a realidade poderia ser.

       Apesar dessas considerações, o meio termo entre ciência e arte se encontra de forma ímpar na fotografia, assim como na arquitetura e na música:

      Essas três artes exploram de formas diferentes os campos das ciências aplicadas e da matemática, seja o ângulo de refração de uma lente que refrata uma luz, seja o cálculo de um seno utilizado para fazer uma abobada de Igreja ou uma equação matemática complicada sobre as ondas friccionadas da corda de um violão. 

     A ciência e a arte devem se unir sem se deformarem, a isso acredito que está a maior função do saber humano, congregar as forças do universo de forma pessoal e sutil para que as suas emoções não devam ser suprimidas pela realidade dos números. Por isso, fotografia deve ser respeitada como uma arte científica e uma ciência artística, na mesma proporção, feita com afeto e amor como tudo na vida deve ser feito.

    

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