sábado, 23 de abril de 2016

Vertigem

         No dia 17 de abril de 2016, o país parou. A Esplanada dos Ministérios estava lotada, colocaram um muro no meio da avenida dividindo dois protesto. A cidade estava um caos. Nesse caos, estava eu, perdido, procurando respostas.

        Faz dois anos que eu abandonei completamente a política. Dois anos que desisti de mudar o país pelo poder democrático e ajudar a construir um mundo novo. Fui em tantos protestos, fiz tanto piquete, ajudei tanto na militância que hoje me dói saber que o esforço foi em vão. Vi meus amigos subirem a rampa do Congresso Nacional, enquanto o povo enlouquecido se fartava nas águas sujas do espelho d'água em frente a esse edifício. Eu estava ali naquele espelho d'água. 

        A polícia militar tinha feito um cordão de contenção para que não chegássemos ao Palácio do Planalto, mas alguns dos manifestantes tinham quebrados os vidros do lindo e suntuoso Palácio do Itamaraty; Eram anos difíceis e rebeldes, todos estávamos zangados com um monte de promessas e baboseiras que nos prometeram por oito anos. Que teríamos um futuro e oportunidades.

        Nós jovens, saímos as ruas, pedir por um mundo diferente do mundo dos velhos, queríamos que tivesse maior sensibilidade com os problemas diários que enfrentamos. A passagem de ônibus era realmente cara, a educação continua sendo uma merda e a saúde, só falta morrer no hospital. Queríamos reformas sérias para um novo país que se construía, seja na política, seja na economia, seja no campo social. Nos enganaram.

        Em 2014, ano eleitoral prometeram muito e não fizeram nada.


       2015 foi o pior ano que eu vivi. Foi nesse ano que vi que todos os nossos sonhos foram jogados na lata do lixo. Ali que eu percebi que havia perdido as esperanças. Estourou um escândalo de corrupção, o governo mentiu e impôs um arrocho amargo contra o país, e ficamos ainda mais acuados quando vimos que tudo o que lutamos só serviu para uma camarilha se manter no poder.

       Nesse contexto, os velhos políticos começaram a fazer o que fizeram nesse mês. Passaram a não reconhecer o resultado das eleições e acusar esse governo mentiroso de corrupção. Correto, mas eles também não são flor que se cheirem. Em fato, são mais sujos que pau de galinheiro e agora ameaçam o futuro de novo do nosso país.

       Eles roubaram a nossa voz de quando nos levantamos e fomos às ruas e começaram a organizar os seus próprios protestos contra a presidente. Eu não apoio mesmo o PT, mas foi uma falsidade ideológica invocar o que sonhamos em torno desse país carcomido que vão construir agora. A presidente vai ser deposta sem ter cometido crime algum, mas pelo crime dos outros. Percebem isso?

      Eu fui nos dois protestos, a favor e contra o impeachment. No protesto a favor, vi famílias com Iphones, chapéus panamá, crianças e bandeiras verde-amarela. Todo mundo usava camisa da CBF e contei três carros de som tocando Olodum. Faziam marchinhas em favor do Moro, xingavam o Lula e ficavam eufóricos com cada voto de deputado no telão nos Ministérios. 

    Vi religiosos rezarem um terço, abençoarem a água e abençoar o impeachment. Mas o momento mais triste foi ver um helicóptero voar baixo, com um polícia munido com uma escopeta, ser saudado de pé e sob aplausos por aquela multidão e retribuir o gesto com uma saudação. Fiquei com medo daquilo  ser um nascimento do partido fascista. Tive uma vertigem e comecei a passar mal, saí dali, estava sufocado, não sei se porque estava muito quente, se estava com muita gente ou se fiquei com náuseas. Mas perdi o amor por aquilo.

     Fui embora. Mas tinha que ver o protesto contra o impeachment.



    Minha glicose baixou, precisava de açúcar. Um vendedor de churros sorria enquanto faturava com a fila de gente faminta naquele momento de manifestação. Mas o vendedor era lento, e a válvula que injetava doce de leite entupiu. Esperei por dez minutos o homem reparar aquilo para que ele atendesse pessoas que literalmente furaram a fila. Brasileiro tem disso, ser contra a corrupção e furar fila. Desisti de comer.

      O protesto a favor da presidente parecia mais vazio, mas ainda mais engajado, com discursos em carros de som, membros entusiastas do PT, CUT e MST, todos reunidos em torno da apuração dos votos. Encontrei funcionários públicos, professores, donas de casa, estudantes, domésticas, trabalhadores braçais e camponeses. Todos juntos com camisas vermelhas e ansiosos pela votação.

      Ali eu encontrei o que esperava que fosse o povo brasileiro, mesmo que uma fatia muito pequena. Mas encontrei pessoas de diferentes classes sociais, nervosas e apreensivas, gritando em favor de alguém. Parecia uma torcida em favor de um time de futebol, mas era bem mais sério que isso. Fiquei com eles até anoitecer, acompanhando os votos, xingando os deputados hipócritas e me solidarizando com o sofrimento deles. Eles podiam ser petistas, mas eles realmente acreditavam naquilo. Eles sofriam a cada derrota e sabiam o que estava em jogo. 

      Todas as falhas de um governo não podem ser atribuídas aos seus eleitores, mas aos seus próprios equívocos.

      Ali que eu percebi que mesmo tendo sido a favor do impeachment, o que estava ali em jogo era o retrocesso. De um lado havia quem defendia o regresso dos militares, do outro havia quem chorava por perder toda a esperança que foi depositada num governo prolongado. E os mesmos canalhas que apareciam no telão dizendo que votam em nome de Deus, do pai, da mulher e dos corretores de seguros. 

     Saí triste, fraco e abalado. Sem energia e com fome. Estava abalado, mas o Brasil tinha perdido. Não porque a presidente foi praticamente afastada (e traída), mas tinha perdido porque roubaram todos os nossos sonhos para um leilão de meia dúzia de corruptos no banquete de corvos no meio da casa legislativa. Foi então que percebi, é meu dever voltar a falar de política.

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