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domingo, 15 de junho de 2014

O cheirinho do café

O cheirinho do café
Com um toque de fragrância
De mel com um pouco de madeira
De livros envelhecidos na estante

Nessa livraria pouco iluminada
Onde os livros vão envelhecendo
Te encontro ciscando um Pablo Neruda
Enquanto eu leio versos do Edgar Poe

Decido-me entre Fustel de Coulanges
ou Ernest Hemingway
Mas você não se decide entre
Clarice Lispector ou Agatha Christie

Mais interessante você fica
Escondida em seu óculos de intelectual
Recolhendo-se numa mesa
Perto da folha musical

Uma distância de oito metros nos separa
Oito metros e meia literatura francesa
Meu café está delicioso
E ainda não cheguei ao meio do Velho e o Mar

Seus olhos escuros desdenham das letras
E com um olhar preguiçoso
Fitam sobre mim um gesto curioso
Um enigma se inicia entre nós

Finjo estar preocupado em ler o livro
E você finge estar preocupada em não me ver
É mais cínico da sua parte do que da minha

Não lembro de onde eu te conheço
Duvido que você se lembre de mim também
Quem é você, afinal?
De cabelos vermelhos e óculos de grau

Nessa mimésis perdida
Recolho-me a cantar
Mais uns dois versos
De o Velho e o Mar

Que quinta-coluna você...
Tentou me ignorar mais um pouco
Até me mandar um bilhetinho pelo o livreiro
"Quer tomar um café comigo?"

E saiu sem se despedir


(Livros, livros, e mais livros. Quanto mais velhos, melhor)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Guerra Civil Ucraniana

         Para a desgraça do povo ucraniano a relação de um país dividido em dois mundos trouxe reverberações cada vez mais dramáticas. A Ucrânia assim como boa parte do leste europeu é uma terra em que tudo o que não existe é unanimidade, sempre há discussões acaloradas, seja sobre os rumos do país, seja quais serão os papéis que os ucranianos devam desempenhar no mundo e o que esperar do futuro. A Ucrânia tem um longo passado, que remonta o século IX, um passado de relação tênue com a Rússia.

               Mas os eventos dramáticos conduzidos pela relação com a Rússia levaram ao crescimento de um pensamento russofóbico, fundamentalmente assentado com as medidas conservadoras e repressivas de um Império em decadência, seja os pogroms realizados no sul da Ucrânia na época dos Romanov, seja as coletivizações forçadas dos soviéticos.

              Os ucranianos são um povo normalmente conhecido por sua humildade, afinal boa parte da população ucraniana surgiu do campo, e o seu sofrimento é algo que sempre foi extravasado seja por sua cultura de danças, músicas e gopak, com o auxílio de uma religiosidade incrustada a valores campesinos. Os ucranianos sempre tiveram que lidar de alguma forma com as invasões de outros povos, seja poloneses, teutônicos, franceses ou alemães. Os russos sempre tiveram uma presença muito forte na região conforme seus valores culturais semelhantes e a língua.

                Para os ucranianos não é tão fácil viver numa situação tão submissa em relação à Rússia ou à Europa, as terras ucranianas sempre foram vistas como um campo de trigo cheio de riquezas para ambos os lados, e a Ucrânia sempre sofreu pela condição de ter as terras mais férteis do mundo. Por isso, há interesses imediatos da União Européia em tornar a Ucrânia em um celeiro da Europa.

                  Para a Ucrânia uma eventual entrada na União Européia resultaria numa melhoria do padrão de vida dos cidadãos ucranianos, que participariam dessa forma da comunidade europeia, mas isso resultaria também num aumento do desemprego que é relativamente alto. A indústria ucraniana não é competitiva frente às indústrias  da comunidade européia e com a revogação das taxas alfandegárias, boa parte acabaria fechando as portas frente a competição acirrada de outras empresas.

               Além disso a comunidade européia exige nesse dado momento um plano de contenção de gastos de cada um dos membros para a superação da crise de 2008, isso inclui redução dos gastos públicos e dos programas de seguridade social. O que para alguns setores acostumados com o legado da União Soviética é impensável, além disso, grupos ligados à corrupção, tráfico de drogas e de mulheres seriam tratados com maior rigor (trazendo assim problemas à Máfia ucraniana).

             A Ucrânia está na balança de pêndulo. A Rússia tinha oferecido uma proposta diferente, de manutenção da indústria ucraniana atrelada à também indústria obsoleta russa, uma abertura de mercado entre os dois países e um fornecimento mais barato do gás russo (do qual a Ucrânia é dependente), entretanto em fins práticos a Ucrânia só reafirmaria a sua dependência histórica da Rússia.

              O medo de alguns setores ucranianos e de boa parte da União Européia é que a União Euroasiática de Putin reverbere para uma aliança que ponha em cheque algum dia à União Europeia para a sua expansão para a Europa Oriental (e não a retomada da União Soviética como diriam alguns menos informados).

             Os ucranianos passaram por aquela crise institucional com a queda de Yakunovich e a intervenção russa em Sebastopol, assim a crise financeira resultante da inflação e dos efeitos de 2008 na economia ucraniana se agravou, o povo passou a lutar nas ruas de Kiev por uma liberdade do "jugo russo" e o "sonho europeu",  essas pessoas querem ser consideradas ocidentais, querem consumir do bom e do melhor, e não estão erradas.

               A despeito do paradigma de lutas, em que alguns ucranianos se veem mais temerosos com o que a União Europeia oferece e por isso se voltam para a esfera de influência russa, ainda tem um problema crucial, há um número alto de russos que permaneceram na Ucrânia em decorrência da queda da União Soviética, são cidadãos russos que forçosamente ou não ficaram em outros países e não são vistos com a mesma condição que os cidadãos locais.

         O caldeirão cultural da Europa Oriental sempre foi motivo de grande dor de cabeça, principalmente para as proposições generalizantes dos países ocidentais, e a rigor, os ucranianos são vítimas de um processo de esfacelamento identitário, não só porque estão perdendo seus  vínculos tradicionais, como estão sendo divididos em duas identidades: Ucranianos pró-Ocidente e Ucraniano pró-Rússia.

          Essa divisão traz resultados que só poderão ser observados a longo prazo, é uma "nova separação da Alemanha" só que sem um muro de Berlim, a retórica de ambos os lados não auxilia muito:

         A União Europeia acusa a Rússia de ferir a autodeterminação dos povos ao intervir militarmente na região da Crimeia (que não é tradicionalmente uma região ucraniana) e de incentivar o movimento separatista da Ucrânia Oriental, e a Rússia acusa a UE por incentivar um bloqueio econômico contra a sua economia, financiar grupos neonazistas e ter propiciado um golpe ao governo eleito de Yakunovich.

         Os dois lados estão certos e errados ao mesmo tempo. A situação insustentável que a Ucrânia foi levada não teve outro resultado senão uma nova guerra civil, e a ilusão falsa que tivemos de uma nova Belle Epoque dos anos 90 até 2008 se encerrou com a constatação máxima que acumulamos 20 guerras civis desde 2007.

          A capacidade que o ser humano tem em se autodestruir por ideias é impressionante, os massacres no aeroporto Sergei Prokofiev, em Donetsk, onde o exército ucraniano e rebeldes levaram a um morticínio sem fim nas veredas do asfalto da pista, com corpos se acumulando entre carros e ambulâncias de socorro paradas. Franco-atiradores, milicianos e ataques aéreos numa região que anteriormente estava carregada de turistas para assistir a Eurocopa de 2012 (a de reconciliação entre a Polônia e Ucrânia).

          Os desvios, o turismo sexual e os protestos que emanaram do Femen já mostravam que as coisas na Ucrânia já não estavam muito boas em 2012, mas chegaram ao cataclismo dramático de mortes e atmosfera balcânica que se respira nos bosques e nas ruas de Kiev, Kharkov e Donetsk.

          Os jornais ocidentais e os governo anglo-franceses elegeram a Rússia como a grande vilã ao status-quo europeu e exerceram um bloqueio à "tirania ultrajante de Putin", Obama se enfiou no meio da briga para a procura de status junto à sua queda de popularidade cada vez mais dramática desde sua eleição em 2008 e Putin desejoso em se manter como um líder inconteste da Rússia pós-Yeltsin articulou-se com a Igreja Ortodoxa e setores conservadores o édito contra os homossexuais na Rússia, bem como os incentivos aos grandes magnatas russos na economia de petrodólares após a queda da URSS.

           É terrível o que essa falta de comunicação entre a diplomacia europeia produz aos ucranianos, e depois dos massacres em massa, com verdadeiros pogroms promovidos em praça público pelos neonazistas ucranianos, ou mesmo pelo próprio Exército Ucraniano a seus cidadãos, Angela Merkel veio conversar em bom russo com Vladimir Putin na cerimônia para celebrar os 70 anos do Dia D, que ocorreu na França no dia 6 de junho, onde Putin também conversou com Obama.

             Provavelmente a crise ucraniana na parte diplomática pode estar se resolvendo, mas do ponto de vista humanitário não, a cultura política do país foi esfacelada, pessoas foram literalmente trucidadas em praça pública e os ódios e revanchismos demoraram para serem apagados, e tudo por um jogo de interesses hipócrita que controlou a mentalidade de enfrentamento tenaz comum aos povos eslavos.

            

A crise da Ucrânia não começou esse ano, começou em Yalta




            A eclosão da grande crise internacional se deu na Crimeia, mas não em 2014, mas em 1945. Hoje, sob os resquícios de quase setenta anos do grande plano de divisão mundial sob a égide da luta contra o fascismo internacional, a Crimeia novamente é o palco mundial.

            A Ucrânia tem a desgraça em viver sob dois mundos, sob a Europa e sob a Rússia e foi nessa coexistência que o antigo país soviético continuava existindo, a questão é que a situação da Ucrânia não é tão simples quanto a gente imagina: A Ucrânia é o berço natal da cultura russa, é a grande arca da Aliança entre o povo russo com a ortodoxia e a sua história remete desde  a formação do Principado de Rus' em Kiev, pelo grão-príncipe Oleg, filho de Rurik, o Grande. Ali se formulou as bases do primeiro reino sob as estepes russas, onde houve a codificação das leis e os costumes na Russkaya Pravda na época do grão-príncipe, Vladimir, o sábio.

            Após a imigração dos varegues (normandos) às estepes russas no século VIII, com a chegada a corte de Rurik, um nobre viking à Rússia à convite das tribos eslavas existentes naquela grossa faixa de terra repleta de florestas, pradarias e pântanos, formou-se a primeira agremiação de estado centralizado em torno da Grã-Cidade de Novgorod. (Novgorod literalmente quer dizer “Nova Cidade”) e após as investidas do incipiente principado  sob as tribos eslavas ao sul, e as tribos fino-úgricas ao norte, Oleg Rurikevich (“filho de Rurik” e descendente do trono de Novgorod) acompanhado de alguns cavaleiros normados e homens armados de Novgorod desceram sob o Dnieper e conquistaram a cidade de Kiev, a qual se tornou a capital do novo estado que se formava;

            “Askold e Dir desceram o Dnieper e viram uma cidade sobre a colina e perguntaram: “que cidade é aquela?” E os habitantes responderam: “Eram três irmãos, Kii, Chtchok e Khorik, que fundaram esta cidade (Kiev) e morreram. Nós pertencemos ao seu clã” Crônica de Nestor (1110-1113) .


            Kiev tinha sua importância por ser uma ponte de ligação entre Novgorod e o Império Bizantino e consequentemente Novgorod era a ponte de ligação de Rus’ com a Escandinávia, de modo que a construção dessa ponte de ligação germinou a formação do principado em questão, e posteriormente, após os sucessos comerciais dessa ponte de ligação, Novgorod, assim como Pskov e outras cidades do Báltico vieram a integrar a Liga hanseática.
            Kiev é mãe das três Rússias, a Rússia Pequena (Ucrânia, literalmente “a terra da fronteira”), a Rússia Branca (Bielorrússia) e a Rússia propriamente dita. Após lutas sucessórias e assassinatos de regentes, os descendentes de Oleg dividiram o Principado de Rus’ em vários pequenos principados fracos e francamente com uma tênue ligação entre si.
            Isso facilitou as invasões sazonais de kipchaks e pechenegs (tribos nômades e guerreiras de origem túrquica) ao território de Rus’ que teve que aprender a lidar com as invasões com as vias das armas, mas isso não obrigatoriamente deixou a Rússia imune a um invasor ardiloso e bem treinado. Os mongóis.


“Para nossa desgraça, tribos desconhecidas apareceram” Crônica de Novgorod, 1224.
           
        O general mongol Subodei iniciou uma cruzada de expansão do Império Mongol para o ocidente e rapidamente os soldados desse líder, arregimentados em regimentos de cavalaria altamente organizada em arco e flecha de extrema velocidade e poder de fogo puderam dominar sem muito sacrifício a região do Cáucaso tomando sem muito sacrifício a região da Ibéria e da Geórgia Medieval, esse pequeno país se tornou o primeiro estado-vassalo dos mongóis na Europa.



         O exército mongol continuou o seu avanço para o Ocidente, chegando à planície extensa na parte norte Mar Negro, essa porção de terra viria a se constituir a parte sul da Rússia e a Ucrânia. Contudo, os principados russos  conseguiram se unir contra o invasor, Smolensk, Galich, Chernigov, Kiev, Volinia, Kursk, Suzdal e tantos outros. Sob a liderança de três exércitos, liderados por três príncipes respectivamente chamados Mstislav, que representavam Galich, Chernigov e Kiev se digladiaram contra os mongóis.
            Mstislav Romanovich, de Kiev, trazia consigo o maior dos exércitos, incluindo dois genros e a medida que os mongóis chegavam, menos os russos estavam dispostos a negociar, chegou ao ponto de todos os dez embaixadores enviados pelos tártaros terem sido mortos pelas mãos dos russos.


Num tropel de cavalos que reverberava a terra negra dos bosques russos, os mongóis iniciaram uma escaramuça contra os principados russos, atraindo-os para uma armadilha junto ao rio Kalka e conforme as crônicas do período diziam, cerca de 40 a 80 mil soldados russos contra o dobro de mongóis foram derrotados pela ação bem arregimentada da cavalaria tártara, e os principados russos, onde a Crônica de Novgorod chegava a estabelecer que “um em cada 10 homens voltou para casa”,acabaram sendo derrotados e subjulgados de forma bastante tênue a partir  do pagamento de impostos.


Os russos sempre viram os tártaros como flagelos de Deus, embora fossem eles próprios que com sua experiência trouxeram a primeira forma de estado centralizado da Rússia. Os russos devem muito aos mongóis, não só pela formação de um estado arregimentado em uma hierarquia sólida, como organismos de vigilância bastante violentos e eficazes, além da construção de uma sociedade agrária e dissociada da Europa.


A Rússia se desenvolveu razoavelmente bem nesse período sem a Europa, mas após a unificação imposta por Ivan, o Terrível, a Rússia iniciou uma longa expansão para a Sibéria e para o Ocidente, enfrentando agora as potências europeias.


A subjugação dos principados russos ao Khan do Canato de Kazan trouxe um dilema, os principados rutenos passaram a ser incorporados um a um por meio de guerras e tratados de anexação com a República das Duas Nações, formada por Polônia e Lituânia, formando um bolsão agrícola dessas duas nações formadas a partir do reinado de Jagiello, na maior nação europeia no Centro-Leste, e a Polônia possuía enorme influência nos pântanos da Bielorrússia e nos campos de trigo da Ucrânia Ocidental e Oriental.


A despeito das tentativas de Ivan, o Terrível em trazer essas terras para o jugo moscovita as tentativas se demonstraram falhas principalmente depois de sua morte, quando a Rússia passou pela  Época das Adversidades que só terminou em 1616, quando os Romanov subiram ao trono para uma eleição.


Os poloneses à essa altura eram profundamente odiados pelos russos, os mesmos russos que tinham subjugado os tártaros com a conquista de Kazan nas campanhas de Ivan, o Terrível, tinham voltado os olhos ao ocidente. Os poloneses representavam um engodo, e mais do que isso fomentavam inúmeras intrigas palacianas no Kremlin, desde colocar dois monarcas falsos (Episódio dos Falsos Dimitris) até invadir Moscou e incendiar a cidade, os poloneses também foram acusados de crimes bárbaros contra a população civil, de forma descrita na história de Ivan Susanin.


A Polonia novamente tinha entrado em guerra contra a Rússia e os moscovitas se preparavam para o cerco das armas de guerra e da cavalaria polonesa, a defesa da cidade ficou ao encargo de um boiardo chamado Dmitri Pozharsky e um tártaro que tinha feito juramento à Moscou, Kusmá Minim, esses dois mobilizaram a população da cidade para um esquema de barricadas e defesas das torres que resultou numa vitória contra os poloneses.


Nesse ínterim, as eleições para um novo czar transcorriam entre as famílias nobres para a estabilização da Rússia frente às ameaças externas e os poloneses cientes disso viam com malgrado a ideia da ascensão de um Romanov, sobretudo pelo fato que os Romanov eram uma família proeminente na época de Ivan, o Terrível. A primeira esposa de Ivan IV era uma Romanov e os Romanov notabilizavam-se por uma aversão ferrenha aos poloneses.


Ivan Susanin era um camponês ao que tudo indica, os poloneses corriam em direção aos bosques de Alexandrovo para assassinar o herdeiro do trono, Aleksei Romanov, contudo encontraram esse velho camponês no caminho que disse saber onde se encontrava o futuro czar. Por alguma sorte, Ivan Susanin conseguiu enviar alguém para avisar os Romanov a tempo e conduziu os poloneses para um caminho errado, quando os polacos perceberam a artimanha, puseram a fio de espada o pobre camponês. 


“Uma vida por um czar”, esse era o título da ópera de Mikhail Glinka em sua homenagem, mas a realidade é que a mudança trazida pelo príncipe Aleksei foi trazida apenas com o nascimento de seu filho, Pedro, o grande. Responsável pela abertura da Rússia à Europa e a retomada do projeto de expansão ao ocidente, com isso, e a aliança entre a monarquia e os cossacos datada do século XVII, o ciclo de expansão russa se iniciou a partir de sucessivas guerras contra os tártaros da Criméia, vassalos dos turco-otomanos, e contras os suecos, livônios e poloneses, tendo a maior repercussão foi a participação russa na Guerra dos Trinta Anos.


Após a vitória dos russos sobre os suecos, que resultou na completa desmobilização do exercito sueco e a abertura de um regime de base parlamentar nesse país, a Rússia tomou seus aspirados domínios do Báltico e a Finlândia.


De toda a forma, a gérmen do pensamento eslavo mantinha-se de certa forma no circuito entre Novgorod, Vladimir, Moscou e Kiev, de modo que a grande potência que se formava tinha bases tradicionais ainda bem aguçadas com os Principados Russos.


A despeito do domínio russo sobre a Ucrânia, os ucranianos se conservaram sem grandes problemas ao Império, retirando os levantes camponeses de Stepan Razin, que ocorreram sazonalmente em decorrência da fome ou da administração ineficiente do Império.


A Ucrânia, tal como outras partes do Império, se traduz como um grande celeiro produtor de carne e trigo, com uma das terras mais férteis do mundo. De fato, a Ucrânia tinha uma industrialização incipiente quando estava na virada do século XIX para o XX, com industrias pontuais em Kiev, Kharkov, Donetsk e Odessa. Odessa se caracterizou como o grande porto de contato e de exportações com a Europa, enquanto Sebastopol se caracterizava por ser uma base militar bastante importante.


Os ucranianos embora povos irmãos dos russos se viam desconfortáveis com a sua condição de pobreza e abandono por parte dos governantes moscovitas, embora tenha outras razões culturais, a iminência de um antissemitismo por parte de algumas populações ucranianas, sobretudo em Odessa levou a massacres sucessivos de judeus nos guetos, e com a complacência dos próprios administradores czaristas, cada vez mais intolerantes à outras agremiações religiosas no processo de russificação das nações, os pogroms se proliferaram no reinado de Nicolau II.


Acredito que essas é uma das bases de alguns judeus, revoltados com sua pobreza e com a sucessiva violência a eles infligida, optaram por uma via mais revolucionária de resolução dos seus problemas, de modo que Odessa e outras localidades da Rússia se tornaram antros revolucionários, e até mesmo uma revolta naval, a do Encouraçado Potemkin foi feita.


Em termos leigos, a Primeira Guerra Mundial resultou num grande fiasco para a Rússia, além de ter levado à mortes sucessivas de soldados, ter mostrado o despreparo do exército russo, baseado num modelo francês de guerra, e ter acabado no fim com a autocracia, levou a um governo provisório fraco e sem representatividade definida.

Com o avanço dos alemães na fronteira russa e a assinatura do Tratado de Brest-Litowsky, porções da Rússia, como a Polônia, os países bálticos e a Ucrânia caíram  nas mãos dos alemães, levando à indignação dos ocidentais. O domínio alemão na Ucrânia nunca foi algo bem definido, e os alemães não tinham meios logísticos ou de força para obter os grãos que tanto esperavam. E no caldeirão revolucionário resultante de Outubro de 1917, os camponeses ucranianos iniciaram uma revolução antes da revolução das cidades, bem como formaram exércitos de luta tanto contra os alemães, contra os bolcheviques e guardas brancos, o exército negro de Makno, e  o exército verde de nacionalistas ucranianos.


A Ucrânia foi o maior palco de atuação na Guerra Civil Russa depois da Sibéria e do Don, pelo menos cinco exércitos se digladiaram em seu território, cada um com matiz ideológica diferente, e com a eminência de uma vitória bolchevique, que se mostraram mais fortes e organizados, os nacionalistas ucranianos solicitaram o apoio dos poloneses contra a Rússia. A Guerra Polaco-Soviética.

No esforço de guerra os soviéticos tomaram medidas completamente autoritárias como o confisco da produção agrícola dos camponeses, como produto do comunismo de guerra, e os camponeses não contentes com isso queimavam a sua produção e resistiam à guarnições do Exército Vermelho.


Quando finalmente a guerra acabou e o comunismo de guerra foi substituído pela NEP, o que se observou nada foi do que um país em frangalhos tentando se reconstruir. A reconstrução da Ucrânia foi particularmente mais difícil do que a da Rússia, primeiramente por sua economia estar mais atrelada ao campo, que havia sido destruído por quase quatro anos de guerra civil, e a indústria tinha sido deixada a um plano de pouca produção operacional.


A retomada do crescimento econômico da NEP produziu dividendos aos camponeses médios, os kulaks, que passaram a vender a sua produção ao governo. Contudo em 1929, o governo de Iosef Stálin decidiu que a NEP vinha cavalgando a passos lentos e  para financiar o Primeiro Plano Quinquenal, o governo passaria a exportar a produção de grãos no exterior para obter dinheiro para promover uma rápida industrialização. Nisso o governo tabelou os preços dos grãos e os camponeses, e com a recusa dos camponeses em vender os seus produtos sob os baixos preços tabelados pelo governo, levando o governo bolchevique a designar grupamentos do Exército Vermelho e do OGPU a confiscar a produção agrícola, além  de deportar famílias inteiras para a Sibéria;


A fome grassou de forma absurda na Ucrânia em decorrência da grande seca de 1931-32, levando a dez milhões de pessoas à inanição, e outras tantas a um fluxo migratório forçado às cidades em busca de comida, entretanto o regime instituiu novamente o regime de passaportes internos para conter o fluxo de pessoas, levando mais gente ao encontro da morte.

Não foi à toa que com a invasão nazista à URSS, em 22 de junho de 1941 alguns ucranianos saudaram com euforia as tropas alemãs, principalmente depois de anos de repressões, fome, e destruição de templos por causa dos bolcheviques (era comum serem levados os sinos das igrejas para serem fundidos e formarem posteriormente maquinário para a indústria soviética).

Contudo a dominação nazista na Ucrânia se revelou mais brutal que a soviética, com grupos de trabalhos realizando matanças generalizadas, sobretudo de judeus, com apoio de carrascos ucranianos (wigs) e muitas vezes levando à população civil à morte por fome, como foi no caso da ocupação de Kharkov. O movimento partisan ucraniano não chegou a ser tão famoso como o bielorrusso ou iugoslavo, mas não demonstrou ser menos importante.


A Ucrânia e a Crimeia foram retomadas no início de 1944 e a junção de forças concentradas na Ucrânia levaram a formação do 1 ° Exercito Ucraniano sob o comando de Ivan Koniev, o qual além de ter tomado Budapeste, foi responsável pela tomada de Praga e também em certa parte de Berlim.

Com a criação da ONU e de novos organismos internacionais, os soviéticos exigiram que a Ucrânia tivesse representatividade no conselho da ONU, o que foi aceitado com certa relutância pelo anglo-americanos, a Guerra Fria se consolidava e após a isso, nada seria o mesmo.

Yalta, 1945. Nesse balneário turístico, e casa de verão do czar na Criméia os líderes ocidentais, Roosevelt (bastante debilitado na época) e Churchill (bastante raivoso) reuniram-se com Stálin para decidir o destino do mundo a partir de então, a vitória dos Aliados era dada como certa, e era questão de  tempo para se tornar fato consolidado.


Conta-se que a despeito das brigas internas, Churchill se demonstrou preocupado com a situação da Polônia, de fato, a Polônia tinha sido uma das razões pela qual os ingleses entraram em Guerra. A questão que o 2° Exercito do Front Bielorrusso de Rokossovsky tinha tomado Varsóvia num espírito de rixa com seus próprios aliados, e após o desastre da insurreição do Armia Krajowa ficou claro que os soviéticos desejam ter um domínio claro na Polônia.

Com as propostas de Stalin para dividir a Alemanha em três (Inglaterra, Estados Unidos e URSS, a França não fazia parte da conta) para evitar um ressurgimento do militarismo alemão, a ideia de bipartição do mundo se tornou eminente, onde o Exército Vermelho tinha cruzado inevitavelmente seria uma região de controle soviético.


Churchill pensou em uma operação de invasão da própria União Soviética, a Operação Impensável, mas após os relatórios dos generais britânicos relatarem que era impossível uma operação vitoriosa sobre os soviéticos, o primeiro-ministro abandonou a ideia.


A Ucrânia consolidou seus domínios sobre a porção oriental da Polônia, de maioria ucraniana e bielorrussa, e com a bipartição do mundo se tornou automaticamente inimiga dos Estados Unidos.


A bipartição do mundo levou à doutrina de cercear ao máximo e conter o avanço do comunismo e da Rússia na Terra, de modo que os Estados Unidos incentivaram financeiramente medidas para reconstruir a Europa e sobretudo a Alemanha (Plano Marshall) e os movimentos de revolta no interior do bloco soviético, em Budapeste, Praga e posteriormente Varsóvia.


Há duas doutrinas em vigor com relação à Rússia, a primeira visa a sua separação em quatro ou cinco países, de modo que se possa ter um maior controle sobre os russos e que haja um equilíbrio de poder maior pendendo ao ocidente, outra doutrina que está em vigor (que ao contrário da primeira surgiu depois da Guerra Fria), é de que a manutenção da Rússia como está hoje conduz ao movimento harmônico da diplomacia mundial, pois a Rússia é um grande duto de contenção dos nacionalismos, fundamentalismo islâmico e também do terrorismo.


Em todos os casos, a Ucrânia e os países que fizeram parte do bloco soviético são uma questão não resolvida, são a porta de entrada para o mundo eslavo, e para o coração da Rússia, esses países ao mesmo tempo em que são porta de entrada, estão próximos demais de um vizinho poderoso.


O plano de expansão da União Europeia, que nasceu como meio de evitar uma guerra e impedir o avanço do comunismo, se estende aos domínios da Europa Oriental, orientada pela diplomacia alemã, que observa que o domínio agrícola de terras como a Ucrânia e Bielorrússia é algo interessante não só plano internacional de manter presença frente aos russos, mas também como meio de alimentação do próprio continente.

O azar da Ucrânia é que ela vive em dois mundos, entre a Rússia e a União Europeia, e o pensamento da Guerra Fria se mantém até hoje, a crise da Crimeia começou na própria Crimeia em 1945, é uma crise de antagonismos entre a Rússia (ou o ex-comunismo) e as potências ocidentais (o capitalismo ocidental) e quando a União Europeia lançou um ultimato à Ucrânia das condições (bastante duras) para o seu ingresso na União Europeia, a Rússia também lançou condições para manter os vínculos com a Ucrânia. A indecisão do país, de um lado ligado à União Europeia por causa de seus vínculos tradicionais com a Polônia, e com a Federação Russa, devido à raiz da cultura eslava que surgiu a partir de Kiev conduziu uma situação de esquizofrênia das relações internacionais ucranianas que levou aos protestos, a queda de Yanukovich e a intervenção da Rússia na Criméia.


Uma nova Guerra da Criméia? É meio difícil de acreditar, mas a lógica da Guerra Fria se mantém de certa forma, e pior do que isso ninguém sabe no que vai dar. A coisa mais sensata ainda é o fato do Ocidente aceitar a perda da Crimeia aos russos, que é um fato consolidado, de modo que isso impediria mais atrito com os russos, que são importantes na máquina diplomática mundial. A Ucrânia vai sofrer muito se não aceitar que realmente perdeu a Criméia, corre o risco até mesmo de perder outras porções territoriais que são russófilas.

Os dois mundos são a razão da desgraça da Ucrânia, e desde que o acordo de Yalta foi assinado, cada vez mais difícil é a compreensão das democracias ocidentais com a Rússia e da Rússia com as democracias ocidentais. A crise da Ucrânia começou em Yalta. 

domingo, 24 de novembro de 2013

O dia que comecei a assistir Star Trek







"O Espaço, a Fronteira Final... Essas são as viagens da nave estelar Enterprise em sua missão de cinco anos para a exploração de novos mundos, para pesquisar novas formas de vida e novas civilizações. Indo, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve" Abertura de Jornada nas Estrelas.

"A lógica é apenas o princípio da sabedoria, e não o seu fim" Spock sobre o papel da lógica


       Isso tem muito tempo, muito tempo mesmo. Nem lembro que ano foi, só lembro o modo como tudo começou... Era uma quinta-feira, lembro bem que era uma quinta-feira, eu tinha aula cedo no outro dia, mas não queria dormir. Tanto que não queria dormir que minha mãe cismava que não devia assistir televisão tarde, então, eu burlei o sistema, liguei o rádio então. Afinal, eu não estava assistindo televisão.




       Antigamente (não tanto hoje) o rádio operava em frequências muito próximas da televisão em alguns casos e causava interferências (com a TV digital tudo isso se perdeu) e eu peguei a transmissão de um canal de televisão sem querer... Era a voz do Senhor Spock no rádio, uma voz grave mas ao mesmo cativante em uma especulação sobre um fato qualquer. Foi aí que parei para ouvir pela primeira vez de Jornada nas Estrelas, Spock e Kirk estavam numa versão bizarra de uma Alemanha Nazista (quer coisa mais bizarra ainda) no século XXIII para tentar impedir um  genocídio. Comecei a ouvir o rádio até que as escondidas liguei a televisão, coloquei o cobertor sobre a televisão e vi o contorno cheio de cores que é comum dos seriados dos anos 60.


      A humanidade conviveu por tanto tempo em preto e branco que quando a TV a cores surgiu todo mundo quis exagerar. Mas eu lembro que eu estava compreendendo tudo, embora Spock falasse rápido demais. Mas essa era a mensagem, Jornada nas Estrelas sempre tratou temas complexos com palavras simples. Daí então passei a gostar de Jornada nas Estrelas.


     Todas quintas feiras eu assistia aquela reprise escondido da minha mãe que sempre achava uma porcaria pensar em viver no Espaço, imaginar um futuro melhor. De repente vi que todas as semanas eu esperava dar 20 horas pontualmente para ligar a televisão. Assistindo as aventuras de Kirk, Spock, McCoy, Scotty, Sulu, Uhura, Chekov e outros eu começava a imaginar que o futuro seria melhor realmente, com homens galopando pelo cosmos com naves mais rápidas que a luz, utilizando-se às vezes da dobra temporal para voltar ao passado. Guerras, diplomacia, ciência, medos, paixões, filosofia, antropologia. Jornada nas Estrelas era algo muito bem feito para época, embora seus cenários sempre fossem toscos e muitas vezes reutilizados, algumas histórias fossem incompletas, as brigas do Capitão Kirk fossem hilárias, eu gostava de ver o jeito como a Enterprise se organizava:



     Eu gostava do tom de comando de Kirk em dar ordens, mas ouvir também muitas vezes conselhos e retroceder, ser hábil ao negociar com outros comandantes (acho que peguei um pouco disso para mim), também gostava do método analítico, indutivo e lógico de Spock (que também é usado por mim em muitas ocasiões que merecem reflexão), seu senso meio esnobe da superioridade da lógica frente aos impulsos "bárbaros" dos humanos em seguir suas emoções e instintos, Spock sempre foi um filho de dois mundos, rejeitado pelos vulcanos por ser filho de uma humana e rejeitava ser humano por sempre se ver como vulcano. Sempre me senti como Spock, filho de dois mundos, só que no meu caso era a cristandade e o judaísmo, e sempre me vi rejeitado por aqueles que me identifico. São duas culturas diferentes, a humana e a vulcana, assim como a cultura judaica e a cristã.


                                               Mais uma das brigas do Capitão Kirk

     Scotty sempre tive uma certa simpatia por achar que ele era um falastrão mesmo, mas de bom coração. Viciado em seu trabalho (também sou viciado no meu), às vezes fica tão alienado em pensar nos seus motores de Dobra que não pensa outra coisa senão na segurança da nave. Kirk e Scotty dividiam um amor imaterial por algo que não poderia lhes corresponder, um amor platônico e triangular.  Os dois amavam a Enterprise, Scotty amava o modo como ela fora construída e como funcionava e Kirk amava o ambiente de convívio que a nave proporcionava, o modo como ele tinha seu comando atrelado a esse braço poderoso que era a Enterprise.

Scotty num momento etílico
      Kirk é a releitura do velho capitão de nau de madeira tão bem descrito na literatura de viagem do século XIX, Gene Roddenberry certa vez confessou que a figura de Kirk foi baseada numa série de livros que tinha lido quando criança que tratavam das viagens de Horatio Hornblower, criação do escritor britânico C.S. Forester.

     Kirk era um galã que tinha uma mulher à sua espera a cada planeta que chegava, e isso o seriado sempre enfatizou o modo bon vivant de Kirk, mas ainda assim responsável, tanto que certa vez Kirk no cumprimento do dever acabou perdendo o amor de sua vida no episódio "The City  on the Edge Forever" (Cidade à beira da Eternidade), Edith Keeller.  Kirk sempre teve um teor trágico na sua vida, foi o capitão mais jovem da Frota Estelar ao tomar o comando da Enterprise com 26 anos, mas teve que vivenciar um genocídio na colônia Tarsus IV promovido por Kodos, o Carrasco, durante suas viagens perdeu o seu irmão que foram vitimado junto com sua família por um praga que abateu um planeta no sistema de Rigel, sobrando-lhe apenas um sobrinho como parente. Não teve tempo para conviver com o filho e quando chegou a saber de sua existência, teve que enfrentar o assassinato do filho pelos Klingons.
     
Kirk e o amor de sua vida, Edith Keeler (que morreu de forma trágica)


     Não há vida mais triste que a de Kirk, de modo que o capitão sempre procurou o apoio de seus amigos mais próximos: Spock e McCoy. Formando um trio que dava amálgama ao comando da Enterprise. Enquanto Spock se prendia aos seus paradigmas, à sua irracional procura pela racionalidade extrema, McCoy não teimava em ser profundamente humano, emocional, às vezes rabujento demais, dava conselhos importantes a Kirk e frequentemente discutia com Spock sobre questões filosóficas, McCoy era a definição de um médico de interior que cuidava de seus pacientes como se fossem seus vizinhos, bem diferente da concepção dos médicos que temos hoje.

\Kirk, McCoy e Spock o trio imbatível da série


     Chekov é a juventude que se abre na Enterprise, impulsivo, emotivo e brigão, Chekov sorri e brinca com Sulu na Ponte de Comando, corteja as moças de vez em quando, mas não esconde seu nacionalismo russo quase explicito. Acredita nas virtudes do povo russo e está ali representando a Mãe Rússia com unhas e dentes na navegação e no controle de armas. Pouco se sabe sobre Chekov pela série, só que perdeu um amor quando entrou para a Academia da Frota Estelar.






Sulu e Chekov num momento de descontração

      Sulu é a paciência e a eficiência combinadas juntas. Sulu nem era meu favorito embora fosse um anexo para a agressividade de Kirk, envolvendo-se em brigas e distúrbios muitas vezes; Não tinha muita simpatia por Sulu quanto tinha por Chekov, talvez porque numa certa altura Sulu tenha sido negligenciado na série.








       Uhura é a musa da nave, uma excelente cantora, também era responsável pela parte das comunicações da nave. Uhura divertia-se aos flertes que lançava de vez em quando à população masculina da nave, mas na realidade se via profundamente sozinha na imensidão do Espaço.

       A enfermeira Chapel é a encarnação de um amor platônico que nunca dera certo, afinal de contas, Chapel tinha uma paixão impossível pelo senhor Spock, que por sua vez era casado (Time Amok explica isso) e tentava ser asceta dentro da nave. Auxiliar do Doutor McCoy , impossível não sentir pena da tristeza com que a enfermeira olhava o senhor Spock pelos corredores.


         Findo isso, é conveniente destacar o que eu aprendi com Jornada nas Estrelas:

Comandante Klinglon em um momento de profunda satisfação


         História, as viagens de volta ao tempo e as visitas a planetas que imitavam o passado terrestre figuravam como uma aula de História. Além disso, o seriado querendo ou não é bem influenciado por sua época de produção, a Guerra Fria, tanto que os klinglons são como uma metáfora para os soviéticos, e num episódio ficou explicita a referência à Crise dos Misseis ao tratar da ameaça de guerra entre a Federação e o Império Klinglon. De fato, se os klinglons são uma metáfora para os soviéticos, a Federação é uma metáfora camuflada de um norte-americanismo propagado por ideias como democracia, liberdade associadas ao crescente desenvolvimento tecnológico. A Federação é a visão de um futuro da transformação dos Estados Unidos.


         A ideia da Enterprise é uma ideia antropológica de convivência de vários povos dentro de um mecanismo de viagem para outros planetas. Nisso, convivem muito bem americanos (Kirk, McCoy), japoneses (Sulu), swalis (Uhura), irlandeses (Riley), escoceses (Scotty), russos (Chekov) e raças alienígenas (Spock). 

          O contato com outros povos também abre discussões antropológicas, como a própria demonização dos Klinglons, as raízes em comum entre vulcanos e romulanos, a diretriz de não-interferência que é um tema recorrente da série que impede dos homens da Federação exercerem seu etnocentrismo. A ideia de Star Trek além de glorificar a corrida espacial, mostrar os desenvolvimentos científicos da época, no campo da antropologia, história, física (Teoria das Cordas, Dobra Espacial, Buracos de Minhoca), biologia (Vida baseada em silício, como no caso do monstro que matava a todos num planeta mineiro; Vida com sangue de cobre, caso de Spock), filosofia e outras áreas.

        Há a propaganda de valores americanos também, como no episódio que há uma guerra civil num planeta e Kirk discursa para os habitantes com a constituição americana nas mãos e diz: "Esses valores não são só para vocês, mas também para os commies (comunistas)". Foi um episódio escrachado do espirito civilizatório da diplomacia americana.
Kirk lendo a Constituição Americana


          De fato, diplomacia é o que ronda no seriado. Klinglons, vulcanos, romulanos, rigelianos... São tantos nomes que acaba esquecendo. A conferência de Babel, o planeta Memory Alfa, todos essas reverências mostram que a diplomacia ainda o melhor caminho frente à guerra. Nisso eu vejo uma apologia ao Departamento de Estado norte-americano que estava em alta na época devido à solução da crise dos Misseis e a doutrina Kissinger na diplomacia norte-americana.


        Jornada nas Estrelas pode ser uma visão colorida de um futuro que gostariamos, mas essa visão colorida acabou influenciado o nosso presente atual: Como os celulares, que foram idealizados em Star Trek na figura dos comunicadores; Os tricorders  que hoje podem ser interpretados como os smartphones, devido ao fato de terem um acesso rápido à internet na palma da mão para o acesso de informações. Também a ideia de um computador pessoal que surgiu em Star Trek. A teleconferência e o Skype também surgiu a partir da ideia da tela central na ponte de comando.


         O teletransporte quântico ainda está em testes, o físico demorará, ainda mais que também se especula pela teoria da Relatividade ser impossível passar da velocidade da luz como Jornada nas Estrelas acredita. De fato, não há fronteiras para a capacidade criativa humana, isso Star Trek também mostra. Star Trek auxiliou-me a tornar parte do que do que sou hoje, pois trouxe-me à luz de alguns sonhos. E sonhos ainda são imortais.









"Live long and prosper"

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