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sábado, 14 de junho de 2014

A história como exercício narrativo

          

          A História é uma construção literária bem antes de ser sacramentada como ciência, é um esforço narrativo no qual se tem a maior meta "fazer com os feitos dos homens não sejam esquecidos", cada sociedade humana constrói sua história conforme sua cultura. Algumas sociedades privilegiaram a memória como marca indelével de sua transição através dos tempos, a partir da história oral, outras priorizaram a codificação escrita como forma de que nada pudesse ser esquecido.

         A codificação da História parte com a formulação do código escrito, efetuada primeiramente pelos babilônicos com sua escrita cuneiforme, e a redação de textos sobre a origem da sociedade humana e sua filosofia tautológica (na figura das duas perguntas mestres: De onde eu vim? Para onde eu vou?) partiu do campo da religião. Não à toa que os hieróglifos ou sânscrito antigo se basearam numa tentativa narrativa de construir uma história de uma sociedade a partir de uma temática religiosa.

         De todas as religiões que estabeleceram sua fé num códex normativo, o judaísmo foi talvez a que teve maior sucesso na figura do Livro, a Torá, baseada na formulação de Moisés (após a descida do Monte Sinai).

        Os gregos faziam história? As investigações de Heródoto, bem como as elucubrações de Tucídides  são esforços de construir uma moral cívica a partir do exemplo, notificando os cidadãos a agirem conforme seus antepassados agiram no interesse da pólis. Nisso temos a influência da Era dos Heróis, iniciada por Homero, cuja existência é hoje tema de intenso debate, ao pontuar Aquiles e Odisseu como os exemplos de heróis a serem seguidos por uma sociedade em processo de amadurecimento.

       Os exemplos dos grandes feitos e dos grandes homens são uma marca de uma vertente historiográfica desde esse período até pouco tempo atrás, a figura da biografia como esforço historiográfico. Eu acredito na importância da Biografia como uma interpretação científica de uma vida no passado e apesar de questionamentos principalmente impulsionados pelos materialistas e pela grande história, a biografia ainda tem muito o que oferecer.

       O que saberíamos do período Júlio-Claudiano sem as sátiras de Suetônio, as redações de Plutarco e os escritos de Tito Lívio. Como conheceríamos Cícero, César, Marco Antônio ou Crasso? Os romanos foram peritos em escrever biografias, até mesmo como forma de enobrecer as origens das casas mais importantes de Roma e construir uma história do Império, desde a fundação de Roma por Rômulo e Remo até o seu apogeu na época de Otávio Augusto.

        Para Johan Huizinga a história é antes de mais nada um "fenômeno cultural" onde cada povo cria sua própria história como lhe é conveniente. Embora não se possa esperar mais da história de uma certa visão de um certo passado que é imutável, a História é um campo baseado pela tradição, tradição essa escrita e aceita pela própria sociedade que a compõe.

        A História torna-se a ciência e mola propulsora do pensamento humano a partir da noção de Cícero: "Historia, magistra vitae" e conforme o movimento iniciado no século XVIII de refletir a sociedade humana e construir uma antropologia geral do homem em que se estudaria a origem do Homem, a história passa a ser um grande objeto de estudo dos pensadores modernos, nesses insere-se por exemplo Voltaire.

          O estranhamento com outras culturas gerado pelo choque de costumes e culturas recíprocas levou ao distanciamento reflexivo feito pelos intelectuais de como se desenrolou a história européia e porque aparentemente os europeus eram "superiores aos índios americanos e aos africanos".

           A despeito do aspecto etnocêntrico desses estudos, o entendimento antropológico dessa época não era possível sem a própria classificação, e por isso a produção antropológica desse período é muito criticada por não se esforçar em retirar os juízos de valor de uma sociedade europeia.

        A História passa a ser influenciada pelo esforço iluminista de pensar o homem como foco a ser estudado, como uma extensão da natureza e da filosofia da natureza e esse esforço antropológico generalista produziu também uma história geral, uma história dos povos como meio de autoafirmação nacional.

            A Revolução Francesa foi um choque de consciência para toda a sociedade européia existente, com efeitos dramáticos no Terror Jacobino e na ascensão de Napoleão. A isso observou-se um esforço em explicar os motivos que levaram a esse choque total com a antiga ordem.

           Assim surge a narrativa generalista e bem trabalhada de Jules Michelet, nos tomos: História da Revolução Francesa.

                A produção do conhecimento é apenas possível com a obtenção de um objeto de estudo, pelo método científico e o historiador é o sujeito que produz o estudo através do discurso que é a História. 

                 A História como ciência surgiu com maior força no século XIX:

                 A criação de um método próprio e geral para a história parte das escritas de um Iluminismo alemão preocupado com a filosofia do homem, nisso estabelecem-se estudos sobre como a sociedade humana se desenrolou a partir de fontes oficiais, documentos dos estados nacionais e de nobres. A tendência dos historiadores metódicos em conferir grande importância a fontes oficiais parte do financiamento (em parte pelo Estado, outras pelos próprios nobres), pelo acervo (o acervo da Igreja e do Estado costumava ser mais amplo e conservado) e a da ideologia de formulação de estados-nacionais.

                A escola metódica é revolucionária na sua abordagem da história como ciência e na sua tendência de fazer uma análise minuciosa é "imparcial" dos documentos. A compilação dos documentos em grandes volumes de história geral (seja da jurisprudência seja da história nacional), bem como a catalogação dos documentos facilitou em muito o trabalho do historiador das outras gerações.

                A história metódica analisava a estrutura textual das fontes com o objetivo claro de procurar o fato histórico como um dado objetivo, pronto e verificável. 

                O historicismo alemão renovou-se frente á escola metódica ao tentar observar que no método historiográfico não poderia ter o predomínio apenas de uma fonte oficial mas também deveria se inserir o método através da reunião de documentos e de uma análise crítica desse material, através de um método indutivo através da hermenêutica. Ao contrário do pensamento metódico, o historicismo abre um questionamento sobre a ideia de se chegar a História realmente a partir dos documentos.

                 A filosofia da História através do pensamento entre ambas tendências historiográficas é uma característica que marca o pensamento tautológico iniciado pelo o Iluminismo e não pode ser negligenciado a despeito das tentativas atuais em desconstruir a história como esforço científico.

              A importância social que a História assume é dada pela a sua aceitação como ciência e questionamentos que retiram seu caráter legítimo de produção do conhecimento dilapidam o trabalho do historiador.

                      Em todo caso, o questionamento de Marx a Feuerbach e a sua  própria concepção de que a economia e as relações econômicas são o que ditam as relações econômicas ( o que é uma concepção interessante para a maioria dos casos, mas que empobrece o estudo do historiador em outras situações) leva a ideia da Economia como a ciência máxima e que a História seria eliminada conforme as lutas sociais fossem eliminadas, se iniciando a sociedade comunista, pois a História sempre foi construto dos vencedores e  a "A violência seria a parteira da História".

                    Sem anexações à filosofia da História, Marx acredita na mesma filosofia da História de Hegel, de que a História é um movimento progressivo da Humanidade para o seu desenvolvimento até a maturidade social, só que ao contrário de que a Ideia e o Espírito conduziriam ao movimento do Homem e da Humanidade, Marx é mais rígido e estabelece que as relações sociais, bem como a luta de classes conduzem ao movimento da sociedade e levarão à Humanidade ao comunismo.

                   O pensamento de Marx é interessante ao analisar a dinâmica social que se desenrola dentro da política e da sociedade e da importância que a economia possui no desenvolvimento das lutas de classe que realmente movem a dinâmica das sociedades até hoje, mas seu pensamento é simplista em campos mais subjetivos, como as emoções, psicologia social, fé e organização nas instituições matrimoniais e de parentesco (Freud explica isso com maior embasamento prático).

                   A História dos Grande Homens é substituída pela a história das relações sociais de produção, mas a História continua sendo geral. Até a formulação da escola dos Annales em que há o questionamento do porquê de se estudar apenas o contexto macro e não o Micro, surgem debates de como encarar as fontes, de como se reinterpretar a história política que tinha sido negligenciada, a microhistória, os debates multiculturalistas (a partir do intercâmbio promovido nos anos 60-70 de ideias budistas e do Oriente sobre a filosofia de vida) e questionamentos da sociedade humana principalmente pela falência de um modelo de se produzir história dogmático e científico.

                   O cientificismo soviético em produzir histórias da Revolução Russa, Histórias das Relações Humanas, História do Capitalismo, eram aceitos abertamente pela intelectualidade socialista européia, a cartilha de Moscou era seguida a risca e mais do que isso o  pensamento intelectual de esquerda era ligeiramente pró-URSS;

                  O impacto que o XX Congresso do Partido Comunista que promoveu um repúdio a Stalin, levou a um questionamento a ideia de que se o comunismo era realmente o melhor caminho e o futuro para a Humanidade, as ações soviéticas na Hungria (1956) e sobretudo na Tchecoslováquia em 1968 enterraram por terra o sonho de muitos jovens entusiastas do comunismo;

                 Alguns partiram para a construção de novos sonhos, seja a Revolução Cubana, seja a Revolução Cultural (que Sartre foi tenaz apoiador, até que se descobriu que Mao Tsé-Tung estava realizando um genocídio sem precedentes). Outros, decepcionados com o mundo bipartido onde nenhum dos lados era realmente mocinho, partiram para o niilismo ideológico, se voltando para as ideias de Nietzsche, ou mesmo para a afirmação de valores sociais fora da sociedade, como o mundo underground, que ficou evidente nos Estados Unidos no imediato pós-Woodstock.

                 É nesse contexto que surge o que viria a ser sacramentado de pós-modernismo, a negação de todos os modelos, ideias já construídas em favor de uma falta de construções filosóficas na História. É um niilismo histórico no sentido pejorativo, ao não observar a história como um esforço científico, mas apenas um discurso construído sobre várias verdades que no fim não existem por completo pois a Verdade não existe. 


                A Academia é um esforço político de luta entre vários grupos de pensamento para sobrepor sua vertente e suas ideias, é uma ditadura da egocracia, mais do que isso um aristocracia dos doutorados e nesse sentido os embates nas universidades são bastante acalorados entre os defensores do pós-modernismo e os representantes de outras escolas historiográficas.

                Nesse ínterim, o que é História?

                Acredito na história como exercício narrativa com enfoque científico, que observe a história como um esforço de interpretação de uma realidade que existiu e que nunca poderá ser retomada. A História é uma fusão de arte com ciência, pois não se produz história sem escrita e narrativa, mas também não é História um estudo sem um método.

                Quanto a um método a História não tem só um método, mas sim vários que variam conforme a abordagem de trabalho e isso a torna uma ciência diferente da Matemática, da Química ou da Biologia.

                 A História não possui grandes verdades, mas possui  uma lógica interna dentro de si, dentro de sua narrativa, dentro de sua filosofia e dentro de sua própria antropologia de interpretar o homem como ator ativo da dinâmica social, erra quem diz que História não tem um sentido próprio ou que não há uma certeza nas ações de cada um. A História é uma análise da vida cotidiana  escrita de várias formas diferentes, seja na economia, na política, na cultura ou na biografia. 

                A História é um esforço narrativo, mas mais do que isso nunca se esgota em si mesma. E a ciência inexiste se não tiver questionamentos dentro de si e apenas verdades, e de questionamentos a História é cheia. Por isso história não é só ciência, mas é a ciência mais completa de todas as ciências porque nunca se esgota em seus questionamentos.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Rokossovsky

“Na Rússia, eles dizem que eu sou um Polaco, na Polônia, eles me chamam de russo" [1] 
(Rokossovsky sobre si mesmo)
“Eu não tenho nenhum Suvorov, mas Rokossovsky é o meu Bagration “(Stálin)
“Rokossovsky era uma figura imponente, alto, muito bonito e bem vestido, eu entendia que ele era solteiro e era muito admirado por senhoras.” (General Bernard Montgomery)


           Um dos mais emblemáticos generais da União Soviética, tido como um excelente cavalariano de aspecto afável e bastante diplomático, Konstantin Konstantinovich Rokossovsky talvez tenha sido uma das maiores personalidades da Grande Guerra Patriótica (Segunda Guerra Mundial). Nascido no subúrbio de Varsóvia em 21 de dezembro de 1894, Rokossovky descendia de um tronco da baixa nobreza polonesa que desapareceu através dos anos, com a tradição profundamente enraizada num espírito cavalariano, chega ser surpreendente que Ksawery Wojciech Rokossowski, seu pai, tenha se tornado um oficial de ferrovia enquanto sua mãe era professora.

Rokossovsky em foto
        Contudo, Rokossovsky fica órfão aos 14 anos, e se vê obrigado a procurar emprego na Varsóvia que se desenvolvia na época. Primeiramente ele é um estivador numa fábrica, depois a isso trabalha na construção civil como pedreiro aprendiz, cuja atribuição, especula-se tenha sido responsável pela construção de uma ponte em Varsóvia, a ponte Poniatowski.

       Mas é fato que a vida de Rokossovsky não se traduzia pela facilidade, mas pelo seu poder de adaptação. Rokossovsky também traduziu sua capacidade de adaptação ao integrar o Exército Imperial durante a Primeira Guerra Mundial, embora especula-se que ele tenha se envolvido voluntariamente no Regimento de Dragões Kargopol por um deleite nacionalista para ver a Polônia como nação independente  ou no mínimo mais autônoma.


      O fato é que embora Rokossovsky tenha tido uma ficha impecável, recebendo até uma premiação da Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, ele observou de perto o movimento que se iniciava no Front de Guerra, e em 1917, ele acaba integrando  as fileiras do Exército Vermelho;
          De novembro de 1917 a  fevereiro 1918, integrou a unidade de cavalaria Kargopolsky da Guarda Vermelha como Assistente de Chefe de destacamento, participando na repressão de revoltas contra-revolucionárias na região de Vologda, Bóia, Galich e Soligalich. De fevereiro a julho 1918 tomou parte na supressão aos anarquistas de Makno na região de Kharkov, Ucrânia. 

          Em julho de 1918, como membro integrante da mesma unidade partiu para Ecaterimburgo onde participou nas batalhas contra os guardas brancos e os tchecos, ficando lá assentado até agosto de 1918, quando ele é feito comandante do 1° Esquadrão do regimento de cavalaria Volodarski nos Urais.
          Em 07 de março de 1919 juntou-se ao Partido Comunista, possuindo o cartão número  239.

      Rokossovsky integrou a força de Tukhachevsky na guerra contra a Polônia em 1921-22, e observou sua carreira crescer cada vez mais. Em 1923 casou-se com Julia Petrovna Barmina, com quem teve uma filha.
       Em setembro de 1924 a agosto de 1925, toma contato com personalidades como Iemerenko e Zhukov, de quem se tornou amigo, embora constantemente tivessem seus atritos. Participou como instrutor de cavalaria na Mongólia, em Ulaan Bator, sendo instrutor na Academia Frünze, onde ele leu os trabalhos de Tukhachevsky.
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Rokossovsky é o quinto da esquerda para direita na segunda fileira. Nessa foto ele está acompanhado de outros oficiais do Exército Vermelho, incluindo Georgy Zhukov, o primeiro em pé, à direita

        

        Em 1935 foi promovido a coronel, comandando o Quinto Corpo de Cavalaria em Pskov. Mas não conseguiu escapar dos expurgos, foi preso em 1938 acusado de ser agente de espionagem polonês, e sendo torturado e mandado para o Gulag. Voltaria à ativa apenas em 1940 quando Stálin ao perceber o modo que se aproximava a guerra decidiu reabilitar alguns oficiais que foram pegos nos Expurgos.

       Stálin ao encontrar Konstantin Rokossovsky numa reunião, talvez percebendo que Rokossovsky estava sem suas unhas, chegou a perguntar se ele havia sido torturado:

   
  "Sim, camarada Stálin"
 "Há sabujos demais nesse país", suspirou Stálin.
             Com o advento da guerra, Rokossovsky se tornou um dos mais importantes generais da União Soviética. Responsável pela brigada de blindados durante a Batalha de Moscou, bem como as árduas operações em Stalingrado, Kursk e na Bielorrússia
Rokossovsky liderando o 16° Exército de Blindados na Batalha de Moscou
Rokossovsky no Front de Moscou


     Rokossovsky também foi responsável pelo polêmico papel dos soviéticos durante a Batalha de Varsóvia, quando os polacos dos Armia Krajowa  se levantaram contra o domínio nazista na cidade e foram praticamente massacrados pelo Wermarcht e a SS, mesmo tendo um apoio desesperado de aviões ingleses e americanos em recursos e armamentos.







                                          Atuação de Rokossovsky na Defesa de Moscou

         Mas isso não é uma biografia esquemática, de Rokossovsky; Em verdade, Rokossovsky foi mais do que um general, ele era uma pessoa afável que sabia tratar os seus subordinados, entendia bem os fundamentos das técnicas de blindados como Blitzkrieg, valorizava os soldados bem mais que Zhukov, tentando minimizar as perdas em guerra; A questão que se abateu em Varsóvia foi que o levante do Armia Krajowa surgiu antes da chegada dos soviéticos para se contrapor à chegada dos soviéticos, era um grito desesperado de alguns setores da sociedade polonesa que via a chegada dos russos como algo ruim; Rokossovsky não podia cruzar o Vístula com seus homens cansados pela marcha com o alto custo de vidas humanas para o Exército Vermelho, isso ele próprio escrevera nos relatórios oficiais, quando questionado posteriormente;


Konstantin Rokossovsky and other officers inspected captured German equipment, Russia, 10 Dec 1941
Rokossovsky, segundo à esquerda, junto com demais oficiais soviéticos inspecionando o equipamento alemão capturado em 10 de dezembro de 1941, na Batalha de Moscou

       Entretanto, Rokossovsky soube bem se manter humilde diante as galhardias da vitória. Enquanto Zhukov tomava os louros como o "Conquistador de Berlim" o que foi visto de forma desagradável pelo Vojd, que interpretou isso como algo que ofuscava a sua fama e como um bonapartismo; Rokossovsky, apesar da honra em ter presidido a Parada da Vitória de 1945, manteve-se cauteloso com a vitória. Aceitou o pedido de Molotov e outros líderes do Partido para que voltasse à Polônia, como um novo organizador do Estado Polonês, comunista agora. E isso ele fez e foi muito mal visto na historiografia por isso, visto pelos poloneses como um capacho dos russos, Rokossovsky podia ser Ministro da Defesa Polonês (tal como Zhukov posteriormente foi com Krushiov, pela URSS), mas mesmo o seu alto escalão não podia esconder os ódios nutridos por alguns poloneses sobre sua figura.

       Especula-se que Rokossovsky foi insensível ao Levante de Varsóvia de 1944, que foi conivente com a matança de compatriotas pelos nazistas; mas isso chega a ser até um pouco criminosos, o Exército Vermelho não tinha condições de avançar sem grandes baixas. Em todo caso, devido a pressões internas, principalmente depois do ano de 1956, quando Gomulka assumiu o PC Polonês e destituiu o stalinista Bierut do cargo de Secretário Geral do Partido Comunista Polonês; Rokossovsky se opôs a isso e caiu em desgraça, e acabou voltando para a União Soviética onde veio a morrer no ano de 1968.
Rokossovky planejando as operações do Front, circa 1943


Rokossovsky atendendo uma ligação sobre o Front, próximo a ele está o General Koniev








         
Rokossovsky discutindo estratégias na Batalha de Stalingrado, circa 1942-3
Image
Entrevista ao general Von Paulus, após a rendição alemã em Stalingrado, Rokossovsky é o primeiro da esquerda




Raro momento de descanso durante os anos de guerra, Rokossovsky dormindo no carro




Rokossovsky coordenando a Parada da Vitória




Rokossovsky chegando a Varsóvia em 1949 para auxiliar a construção do novo estado comunista polonês
Rokossovsky no final da vida refletindo sobre suas operações na guerra





Marcha Militar "Rokossovsky" escrita por Semion Tchernetsky em homenagem a Rokossovsky




[1]  BIAŁKOWSKI, Wiesław."Rokossowski - How Much of a Pole? .

sábado, 17 de março de 2012

O que não é Idade Média (crítica a um amigo)




       Certa vez um amigo meu, um erudito com feições religiosas declarou:
"A Idade Média é um período de superação dos valores clássicos. A sociedade antropocêntrica, politeísta e com bases urbanas é subistituída (erro dele) por um mundo teocêntrico, monoteísta e com estrutura fortemente agrária. As imagens abaixos são documentos históricos que comprovam essa realidade. O feudalismo é o sistema em que encaixa-se com essas novas propriedades e que foi fomentado (outro erro dele) pelos ataques bárbaros, que forçaram o abandono das cidades e o êxodo ao campo e assim sua devida proteção (Castelo-nobres), seu devido sustento material (servos) e sua identidade na fé (Igreja)."

             


       Isso é uma discussão téorica, mas pode ser relevante para superar o senso comum de  algumas pessoas que se interessem ou não por História.


      Primeiramente, a expressão: "A Idade Média é um período de superação dos valores clássicos" é problemática, afinal de contas não é isso que observamos se enxergamos com atenção o período, a Idade Média representa em si uma transformação da sociedade romana (carregada de helenismo) em uma sociedade mista com elementos ditos "bárbaros" germânicos (isso na Europa Ocidental, obviamente), na qual alguns conceitos clássicos perduraram, tanto na Filosofia como as ideias de Platão que passaram invitavelmente para Santo Agostinho, como por valores, no qual a sociedade feudal ficou embasada na Família, tal como na sociedade romana.


       Sim, a família, a linhagem é um  elemento importante que configura o medievo, mas ela remonta desde o período Imperial, na qual o conjunto de valores (que recebeu algumas modificações, mas perduraram muitos valores e conceitos clássicos) realizava a liga social nessa sociedade. O que assistiu na Idade Média não foi uma mudança radical da sociedade e de seus valores, mas um adequamento para serem associados aos preceitos religiosos vigorantes na época. A Idade Média representou em larga medida, embora com exceções, uma continuação da sociedade romana, tomando para si também elementos "bárbaros".

"A sociedade antropocêntrica, politeísta e com bases urbanas é subistituída (erro dele) por um mundo teocêntrico, monoteísta e com estrutura fortemente agrária" 


        Primeiramente, eu não vejo problema em ver a sociedade dita clássica como politeísta, mas tenho problema em ver a Medieval exclusivamente como monoteísta, pois querendo ou não, houveram em todos os cantos da Europa, principalmente na Europa Central, Oriental e mesmo na Escandinávia, cultos a vários deuses conciliando com uma religião monoteísta como o cristianismo (na Rússia isso era palpável do século VIII ao X, onde elementos ditos "pagãos" conviviam com elementos cristãos). 


        Quanto a visão filosófica teocêntrica no período do Medievo, eu não vejo grandes problemas, nem mesmo quanto a visão antropocêntrica na sociedade dita clássica, vejo problema nesse conceito, pois ele não engloba por exemplo Constantinopla, que diferentemente de outras feições religiosas, tinha ainda em efervecencia ideias helênicas, como a valorização também do homem, no mesmo período.


         Vejo ainda problema em se acreditar que a sociedade por exemplo romana, era basicamente urbana, não é esse o caso, Roma também era uma sociedade agrária que dependia em larga medida da produção agrícola do trigo africano, do azeite e do vinho. As ideias quanto a produção agrária, servidão, coisas afins, surgiram na parte final do Império, não foi basicamente uma mudança tão significativa assim, até mesmo porque se observarmos atentamente, por volta do século III assiste-se já um movimento migratório dos cidadãos para fora das cidades. 


       Houve sim uma mudança, acabou-se com o poder das pólis e agora assiste-se uma sociedade baseada nas terras, mas isso não é exclusivo da Idade Média.
      

 
       "O feudalismo é o sistema em que encaixa-se com essas novas propriedades e que foi formentado pelos ataques bárbaros, que forçaram o abandono das cidades e o êxodo ao campo e assim sua devida proteção (Castelo-nobres), seu devido sustento material (servos) e sua identidade na fé (Igreja).", não há grandes problemas quanto a essa frase, a não ser o fato de que isso não seja exclusivamente por causa dos ataques bárbaros... Houve também uma pressão por parte dos escravos, e mais ainda pela religião e pelos povos germânicos no Império para que a escravidão fosse deixada de lado, além do fato de que escravos estavam ficando cada vez mais escassos e caros, generalizar que o feudalismo foi formentado exclusivamente pelos ataques bárbaros é muito forte.

        Eu pessoalmente acredito que a Idade Média, antes de mais nada, uma abstração dos historiadores da Escola Francesa em separar a História por Eras, deve ser encarada como o período de adequação da antiga sociedade romana (já em decadência), com elementos bárbaros combinando em seu poder agora não mais só um rei, mas a Religião, representada pela a Igreja (seja católica ou ortodoxa), e pela nobreza e pelo Governo (não podemos usar a palavra rei, porque surgiram Repúblicas Cristãs nessa época, como a de Veneza e a de Novgorod).

        Isso não se aplica à interpretação de meu amigo, mas a outros historiadores e pseudohistoriadores... Onde ocorre a Idade Média?

        Excusado será dizer que deve ser na Europa? Mas e o Oriente Médio? Ele não assistiu a si uma Idade Média, embora tenha sido um pouco menos acentuada?

       Pois então, alguns dirão então que a Idade Média engloba toda a Humanidade. Mas aí estão errados, os indíos brasileiros não passaram por isso, e para contrastar mais ainda, no Oriente, a China vivenciava o auge de sua civilização.

       Agora outra pergunta: Quando começa a Idade Média?

       Costumeiramente pela escola francesa, foi em 476 quando Roma caiu... Mas pera aí, pois então agora, a Rússia, que não tem muito a ver com Roma não teve uma Idade Média? Primeiramente porque não havia in facto povos que tenham estabelecido reinos na Rússia dentre os eslavos nessa época, segundo, porque essa abstração descarta por exemplo que reinos já formados, como por exemplo dos saxões, suevos e afins, formem a Idade Média.

      Segundo, Idade Média significa uma descentralização política? Se for esse o caso, então o nascimento de Rus', estado embrião do que um dia viraria  a Rússia não enquadraria nisso, quão menos o Império Khazar, e Carlos Magno?

      Não, não é isso, mas o inverso também não é verdade, também se assiste na Idade Média a fragilidade de alguns estados ante ao poder dos chefes locais, tal como na França, ou mesmo Inglaterra.

      Idade Média acaba quando se forma as primeiras nações unificadas? Se for o caso, Portugal deixou de ser medieval em 1184 quando se formou como nação com Henrique de Borgonha, e Afonso Henriques.


      Idade Média é o fim das relações comerciais? Mas e a Rota da Seda que nesse período estava em plena atividade, o enriquecimento de Bizâncio e a capacidade comercial das Repúblicas Italianas e da Dalmácia. 


      Idade Média é Cruzadas? Ora, então países como a Escandinávia e da Europa Central não vivenciaram isso, além do mais, é esquecido que na verdade houveram dois locais para as Cruzadas: 
  •       No Oriente Médio, obviamente, na luta contra os Muçulmanos por Jerusalém. 
  •       No Nordeste da Europa, nas estepes da Rússia, quando os Teutônicos desejaram acabar com a fé ortodoxa na Rússia e ainda expandir os seus territórios. 
  •       Ainda teve a Reconquista, embora não seja muito bem vista como Cruzadas.
       Idade Média é o período anterior ao nascimento da burguesia? Mas o comércio e os comerciantes são de antes desse período e permaneceram por toda a sua duração.


       Idade Média é servidão? Se for assim, ela só vai acabar em algumas partes do mundo, como na França, com a Revolução Francesa, e na Rússia só no século XIX!


       Quando acaba a Idade Média?
       Responda: Sob que critério?
  
       Se for pelo tradicional, da escola francesa tradicional, com a Queda de Constantinopla.
       

        Se for pela formação dos Estados Nacionais, então no século XII, com Portugal.
  
       Se for com a mudança do pensamento exclusivamente religioso, então no século XIII com as primeiras propostas do Renascimento Italiano.

       Se for pelo fim da Servidão, então século XIX com a Rússia.

       Se for pelo fim da concorrência dos poderes entre a Igreja, Nobres e o Rei, isso só irá acabar na Modernidade (Quem leu os Três Mosqueteiros sabe do que estou falando).



       Se for o fim do poder da Igreja, da família ante ao Estado, então a Idade Média não acabou.

       Se for pelo fim do isolamento das populações locais, então a Idade Média acabou no século XIII quando os Mongóis começaram a invadir a Europa.

       Viu como é complicado generalizar Idade Média para tudo que é canto! Idade Média até pode ser usada como pârametro para cada local, mas não para o conjunto, e a pessoa deve estar certa de que pârametro define o que é Medieval.

       Vejamos o Caso da Rússia:

        1) Se for por início de centralização política: a Rússia assiste uma centralização política no século VIII que acabou desagregando com rixas internas, que dividiu todos os territórios do que seria a Rússia Ocidental, em pequenos principados, o que facilitou a invasão mongol no século XIII, mas assistiu um processo de unificação com Ivan, o Terrível, no século XVI, que se concretizou de forma mais harmônica com os Romanov, por volta de 1600 e alguma coisa.

        2) Se for separação de nobres, Igreja e Estado, isso nunca sequer ocorreu senão quando a enclodiu as duas Revoluções Russas.

        3) Se for pelo fim da competição de poderes entre o Estado, Igreja e Nobreza, isso tentou ser adquirido por Ivan, o Terrível, que terrrivelmente falhou, mas que começou a ser mostrado de forma mais palpável, quando Pedro, o Grande, começou a negociar com esses setores, na virada do século XVII.

         4) Se foi o fim da servidão, então isso acaba no século XIX com o decreto de Alexandre II que revoga a servidão na Rússia.

         5) Se é o aparecimento da Burguesia, os Strogonov, uma  das famílias boiardas mais influentes da Rússia, ensaiaram o comércio no tempo de Ivan, o Terrível.

         6) Se é uma burguesia verdadeiramente ascendente, isso surge no final do século XIX.



           Viram como é preciso ter parâmetros específicos! Não à toa que os Historiadores russos hoje se debatem tentado lutar tanto contra a escola soviética sobre Idade Média, como também a escola francesa, do tempo czarista, que acredita que na Rússia teve uma Idade Média como no Ocidente.  Alguns até consideram que na Rússia não houve Idade Média, mas outra coisa (como também a Rússia não vivenciou o período da Antiguidade).

          Aplicar os conceitos franceses das Eras (Antiga, Medieval, Moderna, Contemporânea), é complicado por causa disso, porque eles não são aplicáveis a outras partes do Mundo se não a Europa (até na Europa apresenta problemas), e os conceitos que definem o que é Idade Média não são universais nas mesmas épocas nos mais diferentes locais do Mundo.

          Idade Média no final é só um tipo-ideal que usamos há bastante tempo para resumir um período totalmente eurocêntrico da História e da Historiografia , que no final das contas causa mais problemas do que soluções.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Boudica, rainha dos celtas

Boudica foi a rainha celta que se tornou líder de uma famosa rebelião contra o domínio romano na região das ilhas britânicas.

Prasutagus, marido de Boudica, e chefe da tribo Iceni, era um aliado nominalmente independente de Roma, que deixou em seu testamento o seu reino para suas filhas e ao imperador romano. No entanto, quando ele morreu, sua vontade foi ignorada. O reino foi anexado como se tivesse sido conquistado, e Boudica foi açoitada enquanto  suas filhas estupradas.

Em virtude de um descumprimento de uma série de acordos firmados entre os celtas e os romanos, a rainha dos celtas lidera uma rebelião em toda a Britânia que imerge uma destruição de uma série de vilarejos romanos no que hoje seria a Inglaterra.

Por volta de 60 dC, quando o governador romano, Gaius Suetônio Paulino, estava liderando uma campanha na ilha de Anglesey, no norte do País de Gales, Boudica conduziu o povo Iceni, juntamente com os Trinovantes e outros, à revolta.  Eles destruíram Camulodunum (atual Colchester), ex-capital dos Trinovantes (um dos aliados de Boudica), mas agora uma colônia (um local para descarga de tropas romanas) e um templo para o ex-imperador Claudius, que foi construído e mantido à custa local.

Ao ouvir a notícia da revolta, Suetônio ( um proeminente senhor romano) correu para Londinium (Londres), na tentativa de protegê-la da revolta, mas como não tinha números para defendê-la, Suetônio a evacuou e a abandonou. Londinium foi incendiada, como foi Verulamium (St Albans).
Boudica brincando de War no meio da Britania


Estima-se que de 70.000-80.000 pessoas foram mortas nas três cidades (mas são números suspeitos por terem base em argumentos de historiadores romanos).

Suetônio, por sua vez, reagrupou suas forças em West Midlands, e apesar de ser muito menor número, derrotaram os bretões na batalha de Watling Street . A crise fez com que o imperador Nero considerar retirar todas as forças romanas da ilha, mas a vitória eventual Suetônio sobre Boudica garantiu o controle romano da província. Boudica, em seguida, se matou para que ela não fosse capturada, ou adoeceu e morreu, as fontes existentes de Tácito e Cassius Dio, dois historiadores da época, são diferentes.




Ela foi uma das primeiras mulheres a ameaçar o poderio quase que magnânimo do Império Romano, e a líder das mais sangrentas revoltas na época de Nero. Mas não foi por isso que resolvi tratar sobre ela...




O historiador romano, Dião Cássio diz, sobre Boadiceia:
"Boadiceia era alta [...] e abençoada com uma voz poderosa. Uma cascata de cabelos vermelhos alcançava seus joelhos; usava um colar dourado composto de ornamentos, uma veste multicolorida e sobre esta um casaco grosso preso por um broche. Carregava uma lança comprida para assustar todos os que lhe deitassem os olhos."

Se essa era a verdadeira Boudica, eu não sei, só sei que se fosse seria uma gata!


Ela era a Xena, muito antes dessa porcaria esteriotipizada aparecer nas telas da TV e do Cinema. Ela, além disso, era um sinônimo de beleza na Antiguidade dita Clássica.



Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...