sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sentimento inerte

        Incapaz, somente incapaz.

       É assim que eu me sinto e me descrevo. Não estou conseguindo conversar com você do jeito que eu queria. Nessa incapacidade fico cada vez mais complicado em mim mesmo de modo que volto a ser um imbecil e frígido que sempre fui ao não demonstrar as emoções que sinto bem no meu consciente;

       Estou te perdendo por ser eu mesmo, estou te perdendo. Esta é minha impressão. Na imbecilidade da minha longa solidão eu me bloqueio de tal maneira que começo a sentir novas vibrações tomarem a boca do meu estômago, será medo? Fragilidade? Ignorância?

       Às vezes tudo o que eu preciso é de um abraço apertado, um beijo molhado. Quando eu estou nervoso esse é o melhor remédio, mas sem ele fico pensando em fumar um novo cigarro. Ainda bem que parei, isso me fazia mal.

      Essa indecisão corrompe minha mente e desfaz as minhas virtude que acabam se esfarelando com o imenso vendaval que carrega a areia desse deserto emocional. Amar é arar o mar, pintar sobre o relento, gritar para um surdo.

     O silêncio descreve a aridez torpe que corrói toda a minha vida que de certa forma é vazia e asquerosa. Uma vida que é difícil de ser escrita e abandonada; crescente é o medo é verdade. Medo de perdê-la é algo presente, mas ando tendo medo é de ser dominado por esse estranho sentimento que é estar apaixonado de novo. Desvencilho-me de velhos sonhos que ainda possuo, mas os quais não tenho coragem de contar - Isso é errado; Afinal queria lhe contar mil coisas da minha vida, mas o silêncio é algo que parece tão imperativo que nenhum som saí da minha boca.

       Hoje algo me permite falar. Falar tudo que eu penso e faço, estou me sentindo bastante inseguro como se o terreno estivesse sido mudado e me sinto bastante estúpido por ficar desnorteado. Levado por minha inexperiência (ou melhor, minha experiência adversa) tenho às vezes medo de falar tudo o que eu sinto. Senti falta de mim mesmo quando não tomei a iniciativa de falar com você naquela hora, quando não te beijei como eu queria; Fico pensando se ainda continuo tão solteiro quanto antes, na realidade essa indecisão me faz sentir assim.

         Sim, estou só. Sempre fui meio sozinho no mundo; Você deve ter percebido isso quando me encontrou sozinho meditando sobre a vida naquele banco qualquer. Sou tão solitário que precisava de alguém para dividir os meus medos, um porto seguro, que você tão pacientemente anda sendo. Mas às vezes fico pensando que não consigo fugir da minha cortina de solidão quando estou perto de você.

         Fico me perguntando o que você viu em mi? Já que não sou tão belo quanto penso, nem tão inteligente e às vezes meio fadado à melancolia. Um incapaz sem ideias ou sentimentos; Um surdo-mudo que se esforça pra brincar com as palavras, mas não consegue dizer nada.

        Eu não estou sabendo agir, dizem que talvez eu me sinta tão machucado que não tenha total segurança para dividir a minha vida com outra pessoa. Não penso assim, afinal eu vivo sentindo sua falta e falo feito um colegial o quanto gosto de você; O problema que você convive de vez em quando com pessoas que me parecem repulsivas à primeira e também à segunda vista.

       Ando refletindo muito sobre isso, paro para pensar que você deve ter achado que o meu encanto deve ter desaparecido nessa semana que eu estive fora. É bem capaz, na realidade. Agora talvez você reconsidere o fato de ficar comigo, talvez perceba que eu não seja o melhor para você que existem pessoas mais interessantes, e muito menos inseguras, pois pareço estar cada vez mais carregado com a minha fragilidade por dentro do casaco pesado de tristezas e amarguras que costurei para mim mesmo.

        Também você pode reclamar o quanto sou reclamão, afinal conheci uma das mais belas e inteligentes moças que eu tive a oportunidade de conhecer e mesmo assim fico divagando um ensaio sobre a insegurança. Eu me sinto um chaveirosinho largado na gaveta do seu quarto ou me sinto dentro de um conto do Tchekhov no seu armário empoeirado, onde você seria a dama do cachorrinho e eu seria aquele infeliz que se apaixona terrivelmente por ela. Será que sou o cachorrinho dessa história?

         Estou me sentindo cada vez mais desconfortável com esse lugar. Estou partindo desse antro cada vez mais sórdido com uma fatia de esperança no peito, de voltar a te encontrar no Facebook, ou nesses corredores sem interferências dos seus amigos que deixam tudo mais complicado. Tenho a esperança que você também venha me beijar e que venha me abraçar quando achar que estou meio triste. Às vezes é tudo o que eu preciso e eu quero;

           No meu medo, eu estou ficando cada vez mais inerte. O suor frio seduz as linhas angulosas e esquálidas de meu corpo, afunda minha paciência e leva o pouco de humor que ainda tenho acumulado após tantos anos. Não quero nada além dos seus doces beijos e dos abraços, além de esquecer o estresse que se torna cada vez mais constante cada dia que eu não te vejo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sobre os protestos de 7/09

        É pernicioso acreditar que um movimento tão caro tenha mudado  tanto; As marchas hoje tomaram um caminho tão diverso que diferentemente de Julho, estão voltadas mais para um apelo cívico do que um senso de reformas ou mesmo uma Revolução. Em Julho parecia inevitável o fato que o governo iria cair, embora o povo ainda não tivesse pautas definidas. Povo? Desculpem, a classe média, ou melhor, voltemos aos conceitos marxistas que nesse caso devem ser empregados: a pequena-burguesia.

       Sim, realmente não foi o povo na sua definição mais proletária de conotação, mas sim um povo que se caracterizava por conceitos nacionais. Como brasileiros, pessoas que beijavam a bandeira dos Bragança modificada,  que gritava a plenos pulmões o hino nacional e marchava inutilmente no espelho d'água no Congresso Nacional. Esses indíviduos acreditam ser os grandes revolucionários que postam no Facebook imagens de si por cima do domo do Congresso projetado por Niemeyer sem compreender que nada disso trouxe tantas transformações quanto se deveria;

       É verdade que a pequena-burguesia está se vendo cada vez menos representada, embora esteja crescendo em  número, ela não se vê representada pelas medidas assistencialistas do governo, tampouco representada pelos grandes grupos detentores do capital, embora ela possua inveja de milionários como Eike Batista e Abílio Diniz. Essa classe de pessoas é a mesa que viaja sazonalmente aos Estados Unidos fazer compras, possuí uma calça da Levi Strauss (sem sequer pensar que Lévi Strauss também é o nome de um grande antropólogo estruturalista) e óculos Warfare Rayban.

      Não os estou julgando, seria hipocrisia, em julho era eu que gritava lado a lado com eles contra o governo, embora não tenha ouvido um único trecho da Internacional no meio daquela massa que gritava o Hino Nacional. É engraçado, porque num protesto dessa natureza é o sistema inteiro que deve ser criticado, desde os seus mais perniciosos pecados, como a repressão dura policial, até o seu caráter simbólico: A bandeira e o Hino Nacional, mas o que vimos ali não foi algo diferente de uma partida de futebol, onde todo mundo está zangado por causa do modo como o juiz o conduz, com as faltas mal empregadas e os cartões injustos, enquanto o outro time está se valendo de carrinhos e outras coisas, enquanto a gente canta o Hino Nacional com a mão no peito. É algo estranho.

       Marx diria nesse momento que é a pequeno-burguesia percebe o acirramento das contradições internas do sistema e o seu processo de proletarização, mas Marx equivoca-se, a pequeno-burguesia não possui tal consciência e pelo contrário, as contradições internas estão sendo aplanadas pelo neopopulismo petista. A pequeno-burguesia na realidade está crescendo, mas os velhos grupos pequeno-burgueses apercebem-se  que não possuem o mesmo poder político e de compra como antes, de modo que não se veem representados por nenhum partido político, assim vão para as ruas.

      Contudo vão às ruas sem um projeto. É verdade, boa parte constitui uma juventude pós-Muro de Berlim que não possui a profundidade de uma leitura socialista que poderia ser interessante nessas horas; De fato o apartidarismo é tão crescente que qualquer grupo político que deseje se manifestar é profundamente rechaçado, de fato, no período de ascensão do fascismo, qualquer movimento que carregasse um estandarte de um partido político era para ser rechaçado à força.

      Sim, o movimento de agora realmente tem características meio fascistas, como a valorização da Nação antes de tudo, combate sistemático da corrupção (como se alguém fosse a favor dela) e o antipartidarismo. Não possui uma ideologia própria, mas possui um antiesquerdismo exacerbado pela parte de alguns. O problema que a pequeno-burguesia é facilmente manipulada e alienável, pois ela própria, segundo Marx, não possui uma consciência de classe e possuí aversão à classe trabalhadora. O caráter alienatório com o qual a pequena-burguesia possui cria distorções tão absurdas como o culto à personalidade de uma personalidade notoriamente anarquista (V de vingança) com ideias nacionalista e beirando ao autoritarismo.

      Em verdade, o fascismo caracteriza-se por uma tentativa de romper com a ordem democrática fragilizada e impor uma nova ordem de massas, onde as contradições sociais virtualmente desapareceriam, contudo era um movimento de massas; Um movimento de massas em favor da pequeno-burguesia, esse é o grande xis da questão. Até onde nos guiará esse levante da classe média sem um princípio norteador, qual seria o rumo dessa manifestação toda. 


     Logicamente não serão novas ditaduras, a época para ditaduras já passou, mas pode ser um estado de viés um pouco mais autoritário e centralista, e isso ameaça as liberdades individuais do homem e do individuo, sem levar em consideração que atrapalha o projeto de construção de uma sociedade sem classes sociais. Os movimentos de setembro agora apagam o fogo revolucionário de Julho,  retira o papel revolucionário do movimento e tomam um caráter cada vez mais diversificado. Resta saber se a continuidade representará uma mudança no movimento ou ele se extinguirá de uma vez por todas como fogo que se esgota após um vendaval.

       A Revolução é a única solução que se apresenta hoje, entretanto como todos nós sabemos, Revolução pressupõe sangue o que nenhum dos manifestantes está disposto a desperdiçar, de maneira que não há grandes projeções para tal movimento no futuro próximo. A Revolução é o meio pelo qual as massas são ouvidas, ou como Karl Marx dizia, é o festival dos descamisados, dos que não têm nada.

Versos espalhados 2

         Somente hoje quero dizer
         Impetuosamente falar
         Nada menos que um canto
         Trovado no esquecimento
         Os dias doces que vivi

         Somente hoje cantarei
         Uma valsinha de criança
         Anedota do saber

         Frustrante pensar que eu sei
         Alguma coisa desse recanto
         Ludibriei o cupido ciumento
         Todas as vezes que eu disse
        "Amor, eu sei cantarolar"

Versos espalhados 1

           A aurora desse novo dia
           Manhã de grande alvorecer
           A centelha que brilha
           Nada pode fazer
           De nada resolver
           Amar sem você

           Elegante é esquecer
           Uma vez só

            Teoria dessa vida
            Existência do ser

             Amar é sentir
             Muitas vezes
             O modo como me confundo todos os dias

domingo, 8 de setembro de 2013

Esforços

         Tento em vão gastar meus esforços a aprender um pouco de polonês, mas minha mente anda tão carregada que nada anda mais tão fácil como antes. Então vejo que seria bom escrever um pouco, mas minha inspiração anda indo embora tal como a tinta da caneta. Eu estou virando acadêmico e estou percebendo isso.

        Isso ao mesmo tempo me deixa feliz como temeroso, feliz porque finalmente estou virando um historiador, e triste porque estou perdendo a minha veia poética e minha sensibilidade para o amor. Contudo, não acredito que esteja me tornando algo tão diferente de mim, esteja me tornando cada vez mais bronco nas palavras e nos versos, cada vez mais vazio e sem inspiração, como se estivesse esgotando toda a água de um deserto. Sem as palavras, sem os versos, eu não sou nada, nem mesmo um poeta-proletário como brincava Maiakovsky.

            Em verdade, ainda tento escrever um pouco, embora não tenha mais tempo. Não tenho tempo mais para nada, é, acho que enfim se foi a minha mocidade. E foi cedo, por sinal, não vi nem o tempo passar. Meus cabelos estão começando a ficar brancos sem ter nem mesmo completado vinte anos! Hoje nasceu o terceiro fio grisalho, logicamente o arranquei. Arranquei o fio de cabelo com tamanha veemência do modo como o tempo arranca minha vida. Queria ter tanto tempo, queria ter tempo de escrever, ouvir e olhar. Queria ter tempo para refletir e para filosofar. Mas sobretudo, eu queria ter tempo para namorar. Bem, não é bem namoro, e sim algo um pouco mas complexo. Mas como ela é bonita e inteligente. Meu Santo Maquiavel, como ela é inteligente, uma das mais doces criaturas que eu já conheci e eu estou sendo um imbecil em não acompanhá-la do jeito que eu queria.

         Nem poderia, tenho tantas responsabilidades agora. Deveria dar um tempo de tudo, mas não posso; Dizem que sou um tanto importante, duvido que seja; Dizem que eu sou trabalhador, se sou, poderia trabalhar mais um pouco. Dizem tantas coisas que nem chego a acreditar. Eu sinto falta dela, das risadas dela, dos abraços e dos beijos. Sim, dos beijos, mas como eu disse, sou um idiota em não passar o tempo que eu queria com ela. E também acho que ela está saturada de mim. Bem seja verdade, eu também estaria no lugar dela, afinal sou tão complexo que até um matemático não conseguiria desvendar a equação da minha vida.

         Estou me tornando cada vez mais difuso e com particularidades. Não sei se vocês me ouvem, ou leem essas narrativas sem muita graça (confesso eu, já foram bem melhores antes), mas meus versos proféticos e desesperados andam tropeçando na ponta do ponto e vírgula, esbarram no travessão e se retem no meio das aspas. São palavras que não escrevem nada, não pontuam nada e não sentem nada. Palavras que levam apenas letras na sua composição sentencial da ordem gramatical. Esqueço-me que não se pode fazer rima no interior de prosa dominical.

          Bom, ando meio ansioso ultimamente. Nervoso para terminar com as minhas obrigações, me sentar de fronte à mesa, ligar o som com uma boa música do Rachmaninoff, e retirar o pó da minha máquina de escrever, que pelo que eu lembro anda com problemas com o teclado. Se fosse só ela. Minha mão anda pesando quando começo a escrever com a caneta tinteiro,  de tal forma que estou perdendo a prática, minha letra anda cada dia mais feia e o papel vem envelhecendo cada vez mais no meu caderno.

          Ando cada vez mais irritadiço, comigo e com os outros. Não posso entrar num lugar sem brigar com os meus conhecidos, aparentemente todo mundo está cansado e eu estou percebendo isso. Estou tão irritadiço que nem ando falando direito com quem eu deveria falar.

          Não encontro mais o meu porto seguro tanto quanto deveria, não a encontro mais pelos corredores, não sei se ela anda me evitando ou se nossos horários não andam se encontrando. Tenho medo de acabar perdendo-a por ser tão assim, tão redondamente eu, às vezes frio, vazio e sem sentimentos, às vezes melancólico, calado, e carente. Ela deve ter descobrido que eu sorrio mais por decoro do que por sentimento, na realidade não duvido. Eu gosto dela realmente, como pessoa e mais como isso como possível companheira, às vezes nos compreendemos tão bem que me sinto como se fossemos um, às vezes discutimos tanto que fico me perguntando o que ela viu em mim. Realmente o que ela deve ter visto? Não sou tão belo assim quanto eu imagino ser, nem tão inteligente, sou solitário e terrivelmente sozinho. Brigão às vezes, chego a ser até chato que vive reclamando da vida mesmo sabendo que  existem pessoas que sofrem muito mais. O que ela viu em mim? Eu não sei.

           Talvez minha franqueza, eu sempre fui bastante franco, isso é verdade.

           Agora nela eu vejo tantas coisas, ela é sim bastante inteligente, é amigável e divertida. Embora às vezes fique até mais taciturna que eu, ela consegue levar as situações a seu favor. E sim, como ela é sorridente. Bonita também. Eu não sei, eu tentei me pautar por critérios de personalidade, mas não posso esquecer que ela é muito bonita. Queria escrever palavras mais bonitas para ela, dizer que ela foi esculpida no mais divino trabalho divino, que seu jeito meio de moleca me diverte cada vez mais, que de vez em quando, quando ela põe o cabelo para trás, ela parece a Pocahontas, e que ela tem os mais doces lábios que tive a oportunidade de beijar. 

       É verdade, que duvido que ela venha a ler tais palavras; Eu tenho a impressão que qualquer encanto que eu tenha produzido já tenha sido dinamitado pelo tempo; Que ela não irá mais querer das minhas histórias, dos meus medos ou dos meus carinhos. Que ela não saberá mais a hora de me abraçar quando eu estiver me sentindo sozinho ou eu também não saberei como agir quando ela estiver me contando uma história triste. O fato é que eu gosto dela, mesmo não mais me encontrando do jeito que eu deveria e morrendo de vontade de beijá-la a qualquer momento que a vejo, abraçá-la e como um colegial dizer aquelas três palavrinhas infelizes: "Ja lubię ty". 

        Parece que eu ainda lembro alguma coisa de Polonês, menos mal. Faz tanto tempo. Isso é secundário quando eu fico com a mente cheia. Cheia das besteiras que me contam, as intrigas e os assuntos do trabalho, que tornam a vida cada vez mais enfadonha. Terrível. Eu só queria ter um tempinho pra mim, isso não é pedir muito, por causa dessas intrigas quase não vi meu pai, quase não encontro com a minha querida companheira. E quase não tenho tempo para sentir novamente. Aí eu fico à beira do colapso.

        Eu quero sonhar novamente, não do jeito que eu sonhava antes. Não posso mais mudar o mundo do jeito que eu queria, não posso ter como desejar uma família como eu desejei na infância, não posso desejar uma parceira para toda a vida, tenho que ser realista. Nada é eterno, nada. E isso às vezes é bem frustrante, pois acabo perdendo parte de mim no caminho. O tempo é o que mais se perdeu nesses anos, a felicidade também, a tal ponto que fico me perguntando se é possível tornar-me feliz de novo. Eu estou cheio de dúvidas.

         Não tenho dúvidas quanto ao que eu quero agora. Deixar meu passado morrer atrás de mim, largar algumas responsabilidades e passar o tempo com o que realmente importa, ficar ao lado de quem eu gosto, e beijá-la o quanto antes.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sete dias

           Sete dias fora; sete dias pensando em você.

           Sete longas noites passando frio, escrevinhando algumas coisas enquanto não sentia grande conforto nessa vil solidão. Dormi sozinho abraçado à minha mala com a vil esperança de voltar para casa. O frio corroeu minha mente nessa longa semana que se arrastou, não tive a menor vontade de sair da minha fria barraca e nem cumprimentei o meu vizinho de frente.

          Estava escuro e frio. Senti medo algumas horas é verdade, tivemos momentos de tensão, mas eu continuava a escrevinhar sobre você, tentando desenhar na minha mente os contornos áureos do seu rosto risonho, ao contrário do meu que só envelheceu. Não acredito que fui para tão longe.

         Senti saudades suas, de meu pai também, o qual mal pude ver quando cheguei, que estava de partida tanto quanto eu, e da minha irmã também. Minha mãe estava aflita quando entrei pela porta, achando que nunca mais iria voltar, eu sempre a achei meio dramática, mas eu penso hoje que talvez pudesse realmente não mais voltar.

       Eu tenho espírito de cigano, minha vida é uma longa viagem, embora sinta por vezes saudade; Isso corrói é verdade, não era pedir muito querer ficar perto de você por mais algum tempo, mas esses sete dias mudaram muita coisa não foi mesmo? Não estamos mais tão sorridentes quanto antes, nem sei mais porquê. Eu fico pensando nisso, não tivemos mostras de carinho nem nada parecido, eu fiquei calado e você também ficou muda.  Estranho, tinha tanto a dizer.

       Injusto isso, realmente injusto;.

       Derivado disso tudo, esses sete dias poderiam ser mais felizes, mas a felicidade está em algum canto da minha mala, espalhada no meio das roupas sujas ou dos cosméticos que derramaram. De quebra tenho de brinde a mais chata das gripes, estou tão enfermo que a tosse dói até o pâncreas.

        Mas isso me lembra a música do Carlos Gardel, onde nada mais se deseja senão voltar ao próprio aconchego. Eu vejo às luzes à distância, o brilho do seu sorriso discreto, na estrada de onde ecoa o látex do pneumático procuro a sua voz. As estrelas zombam de mim nessa vil esperança de chegar mais cedo e a noite se arrasta.

        Volver... uma semana não é nada, com o rosto murcho de tanto sofrimento. Mas voltar finalmente, os olhos febris olham de novo pra Brasília  com a vontade de te encontrar mais uma vez, enquanto o meu coração continua a gemer a canção de Gardel bem silenciosamente.





quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sem palavras

       Joguei uma flor hoje em reverência ao menino que morreu ontem.

       Vi com amargura jogarem pelas minhas costas a flor fora por tê-la deixado no corredor que ele morreu. Falta de tato. Ele morreu bem na minha frente.

         Não que eu seja sensível, não sou. A sensibilidade deixou-me em maus lençóis cada vez mais nesses dias. Mas foi a primeira vez que eu vi uma pessoa sucumbir diante dos meus olhos, chorar, implorar pela mãe e perdão. Ele chorou, pediu ajuda e uma ambulância; Não pude fazer nada, ninguém pode.

         Nós não sabíamos o que fazer e eu vi ele definhar sobre o mar de sangue que se formava no piso daquele corredor, pelo menos cem pessoas viram o que eu vi. Mas foi a primeira vez que eu vi alguém morrer, isso foi algo que até hoje me choca quando paro pra pensar; Meus problemas pareceram pequenos perto dos dele, os gritos de dor e de amargura. O choro da mãe inconsolável, e tudo porque não sabíamos o que fazer, ninguém sabia.

       Disseram que ele caiu do mezanino, mas não foi verdade, ele deu ataque epilético e bateu com a cabeça no chão; Esperamos que alguém soubesse o que fazer, só um homem soube na hora. A ambulância demorou, os paramédicos não sabiam fazer nada. Nem mesmo eles; Ficou com dificuldade de respirar e morreu ali, ataque cardíaco. Eu estou tremendo até hoje quando lembro disso.

       Estou insensível talvez com a minha amada, ela não entende tudo o que eu vi. Talvez ela esteja preocupada, talvez ela ache que eu faça algo errado; Não farei, não é minha natureza. Ele morreu diante dos meus olhos e não houve nada de lindo nessa sensação... Estou calado, fechado no mar.

       Quis prestar meus tributos para quem morreu naquela manhã infatigável, um menino, um pouco mais velho que eu. Calouro ainda nessa universidade melancólica e impessoal, que ainda tinha sonhos pela frente que se apagaram quando o seu sangue escorria pelas laterais do seu corpo. Sinto medo quando lembro do modo como suas forças se definhavam, e sua alma se esvaía diante dos meus olhos.

       Ontem eu vi a dor e o desespero, minha boca ainda mantém o gosto ferruginoso do odor mórbido daquele corpo que definhou na minha frente. A sorte dessa vida pregou-me mais uma peça, e principalmente sobre ele, eu o vi definhar justamente quando eu estava feliz. Quando cheguei em casa, tomei um banho e me preparei para um novo dia.

       Eu queria não ter ido para a aula e ter ajudado aquele menino. Queria poder pedir desculpas pela minha imbecilidade de ter sido grosseiro com menina que eu gostava, queria reparar tantas coisas, mas não posso. Assim como ele definhou, o tempo passou e não posso fazer nada.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Prosa namorada

       Ela está do meu lado;
       Ela respira tão devagar
       E brinca de se aninhar
     
      Meu braço
      a cerca com respeito
      e carinho

     Sinto
     meu peito
     bater de levinho
   
      Estou apaixonado
      Sou levado
   

      Ela cochila junto
      de mim
      E não há assunto
      Aqui

      A música toca
      Qual a banda?
       Nem sei dizer

      Penso que roca
      A voz enamorada
   
      Ela me beijou
      Tocou-me os lábios
      E minha alma

      Pena que eu
      Beije mal
      Banal

      Eu amo ela
      E a desejo
      Isso é como uma flor no Tejo
      Lágrimas de Portugal

Aurea cinza

         Hoje te encontrei a distância, sozinha e abandonada. Triste e solitária, queria te dizer algo, mas estava ocupado. Hoje você chorava sem sentir e isso me entristeceu, me entristeceu saber que você estava triste e amargurada. Logo você que me ajudou naquela época!

        Estava pois com um fone de ouvido e me acompanhou a andar de mãos dadas com ela, eu senti a tristeza de seus olhos escuros; Será que você me amava? Eu nem sei dizer, não tivemos tempo para isso; Tudo correu tão depressa e eu senti um receio em te perguntar.

       Você estava com fones de ouvido a plena voz, com o rosto pálido e sem nenhum sorriso. Me assistiu estar apaixonado por outra, e eu senti a sua solidão reverberar pelos seus olhos. Senti uma pena que me corroeu de alguma forma, mas eu estava tão feliz naquela hora que nada pude dizer. Triste, justo você que parecia uma boneca de pano de tão meiga agora está sozinha e se sente meio largada.

       Eu não pude pagar o café, nem pude te fazer o bolo de cenoura como você queria; Me apaixonei por outra pessoa que também é meiga e bastante legal, que me faz sentir completo e realizado; Sim, eu sei que tudo isso não é engraçado, mas o que posso fazer se esse mundo é levado?

sábado, 17 de agosto de 2013

Prosa amada

        Há palavras a serem ditas? Há versos a serem pronunciados? O que dizer quando se está apaixonado? Não há o que dizer essa é a verdade, tudo parece ser pequeno frente a força desse sentimento  que prevalece no nosso peito e modifica nossos olhos; O monolítico traçado da vida de repente ganha cor e as palavras fogem de sua língua e você fica confortável com isso.

      Por vezes você esquece o que dizer por causa de um sorriso, mesmo que seja só amigável, afinal a piada não foi tão boa. Às vezes a gente esquece o que diz, mas nunca o que pensa, o que realmente sente. Isso fica nos olhares, nas mostras de carinho e afeto. E você percebe que isso é poema por si só.

      É um poema você ficar parado num banco depois de uma noite mal dormida refletindo sobre a vida e de repente aparece aquela pessoa que você gosta para conversar com você; Não há como ficar triste com isso, havia algo mais a se desejar? Creio que não. Os dias são mais incomuns e inconstantes quando você não ouve a voz dela e fica na exasperação e na procura monolitica em achá-la. E  você a acha quando olha para si mesmo, porque ela está no seu peito.

      Eu queria na verdade escrever um poema, não um ensaio, mas eu não consigo encontrar as palavras certas para esse fino sentimento; Engraçado, um poeta que esquece as palavras, no fim vou ficar desempregado.

       Pushkin dizia que a palavra de um poeta é a essência do seu ser. Engana-se, por que não encontro uma rima que seja boa para descrever esse sentimento

       Nas colinas da vida
       No longo alvoroço
       Capadócio
       Não há quem me diga

       Que o verso
        Se perde no amor
         E se ganha na rinha

         Porque quem foi amado 
          Sabe que a lira vende
          Apenas uma parte
           da razão

            A emoção dessa voz
             Tremula alto
             no verso

            Que tudo que  
            quero dizer é
            Eu amo você

            Amar e ser amada
            Nessa prosa levada
            Sem métrica e rima

            Dialética e prima
            Da própria paixão

            Acalanto para mente
            Nada e somente
            Eu amo você
  
           Um anjo acolheu meus braços
           E disse que queria conversar
           Disse que estava triste
           Mas foi ela que veio me salvar

            Tinha um sorriso inocente
             Uma risada de lente
             E um brilho de estrela

             Foi se a rima e isso me deixa contente, porque tudo que eu tenho na mente é dizer que eu te amo, porque  como eu disse no início da prosa as palavras não abarcam tudo o que eu disse, tudo o que faço, quando estou perto de você. Hoje, amanhã e sempre. O passado fica para trás, porque tudo que me importa é construir um novo futuro, um futuro com você do meu lado.
       

domingo, 11 de agosto de 2013

Grito de socorro



            Tem dias que não nos sentimos bem, que não desejamos sorrir, nem mesmo levantar da cama; Tem dias que tudo que queríamos fazer é ficar calados, observando a triste vastidão sem fim que abre sobre nossos olhos, onde a desolação e o medo criam-se traiçoeiramente sobre as sombras da noite.

           A escrita é indomavelmente difícil quando você percebe que está sendo envenenado por ideias tão perniciosas que nem sente mais vontade de levantar da cama, e tudo o que você quer fazer é ficar calado; Calado sim, pois bem calado. Não quer mais ouvir os outros falarem de sua vida, nem escutar as baboseiras que eles têm a dizer; A vida se torna bem sombria, tão acinzentada que tudo ao seu redor parece perder cor.

        As flores não cheiram mais como antes, as frutas não têm mais o mesmo gosto, as músicas não têm mais o mesmo tom; Tudo é tão sombrio que chega a uma hora que você pensa em desistir de tudo e abandonar. O fardo é alto, e o custo também.

       Os livros não mais divertem, as piadas tornam-se lições da vida, e tudo termina com um triste comentário de Natal; O cômodo fica bagunçado, seu coração fica sujo, sua mente vazia e os olhos úmidos. Sim isso é depressão.

      A depressão é aquele fardo que você tenta se livrar, mas não se livra; É aquele seu tio chato que te molesta com pensamentos ruins. A depressão é um câncer que consome sua alma, noite e dia, devagar, devagarinho. Cada vez, cada vez mais. O frio se enevoa, a lágrima se embaça, o amor  se tritura e tudo que sobra é apenas um peso na alma.

     A praia parece mais turva agora, o sol molesta e agride nosso corpo. Bem a vida quem sabe viver, queria não ter acordado hoje, não com essa sensação de insegurança e medo, com esse pesar de inutilidade que incaí sobre os meus ombros. A dor da culpa de um amor passado, o sofrimento de um peito amargurado, nada disso é mais frustrante que um cérebro consciente de que as ilusões não trazem nada.

     Agora saí da frente, sinta o que tem que sentir, porque no meio do meu peito tenho uma sangria que não estanca, um medo, e uma forte vontade de chorar. Mas a lágrima não caí, porque já se secou a muito tempo, e percebo que perdi minhas emoções, as expressões e os carinhos. Tenho vontade de chorar, de fugir dessa sensação de medo e solidão, mas não há quem possa me ouvir... O vento repudia do meu corpo, agride meus cabelos e me dá lição de moral, puxa minhas roupas tão violentamente que tudo o que sinto é medo.

     As costas pesam-me cada vez mais, sinto minha perna falhar de novo, o ouvido fica tampado com a fúria do torrão de ar que me agride cada vez mais. Penso em me jogar na água, esquecer dos meus problemas e simplesmente afundar. Afundar para sempre até que todos os meus problemas desapareçam, mas não desapareceriam, só estariam alocados em outro caminho. O ar me agride, mas me dá vida, engraçado isso. A correnteza da vida é que me traí.

       Sinto vontade de voltar a acreditar na vida, mas isso é uma grave mentira, um grande desvio. A vida não é doce, nem é para ser admirada, só ser vivida. Não há paixões, não há amores que mudem isso, eu os perdi bem lá trás quando deixei minha maleta emocional com a pessoa errada; Para variar, de novo, deixei me enganar pelas arapucas da vida.

      Tenho vontade de escrever tudo isso no papel, mas falta-me estímulo e inspiração; Por isso estou tão deprimido, pois não acredito na música, na poesia e no amor tanto quanto queria. Acredito na matemática insensível e na função dialética de total negação para com isso. É conflituoso de fato sentir que não se pode amar e no fim acabar se apaixonando de novo, mas sempre com o crescente medo que abate o semblante.

      Os vícios não escondem o medo, o silêncio sim. Estou dopado de silêncio, minha vida sempre foi um grande silêncio taciturno pensativo, talvez seja por isso que sou tão melancólico e às vezes depressivo. Talvez seja por isso que eu seja tão sensível às palavras e aos sentimentos e não demonstre nada quando tudo vier à minha língua.  Eu sou uma tragédia anunciada, por isso que tenho medo de pedir socorro.

      Mas hoje eu peço, peço às palavras e aos versos que me deem mais uma chance de viver, que me deem ideias e novos amores que hoje não mais tenho, que me expurguem dos sentimentos ruins  e da triste melancólica que me abate há meses, senão anos por essa vida. Sofri e sofro, mas garanto que o meu sofrimento não é maior do que o dos outros: Das crianças que morrem de fome no braço das mães desesperadas, dos pais que enterram seus filhos que vão para o moedor de carne que é a guerra, dos jovens como eu que estão desempregados e também deprimidos com esse futuro sem perspectivas.

      Tudo que eu vejo é dor e sofrimento, tudo que eu vejo é incrivelmente cinza e monocromático; A felicidade das cores não me atinge, mas apenas o desespero do grito dos desafortunados. É tão duro ser escritor e poeta quando se sabe que se tem tudo a perder. É esse o real martírio do poeta ou intelectual em formação (ou talvez intelectualóide, afinal é muita presunção minha me chamar de intelectual) viver para sempre solitário e excluído da sociedade. Por isso peço socorro, porque eu acho que estou deprimido.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...