Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Memórias da América



As representações latino-americanas acerca de datas importância nacional como o quincentenário da América, ocorrido em 1992, mostram um continente rico, ainda com uma história muito sangrenta e cheia de rupturas. Mémoires em Devenir (de GUERRA, François-Xavier (org.) Mémoires en Devenir. Amérique latine XVIe-XXe siècle. Bordeaux, Maison des Pays Ibériques, 1994) é um texto elegante que não se atém ao compromisso de analisar a América Latina sob uma análise monocausal do que vem a ser a memória construída em todo continente, pelo contrário, ele pincela porções de narrativa sob um prisma singular e porque não sensível sobre como se constrói essa identidade em formação dos latino-americanos.

Observando por exemplo os mais diferentes casos nas representações latino-americanas em datas comemorativas, ficamos obviamente intrigado com as necessidades históricas de determinados estados em consolidar o poder central como poder de fato, que para Guerra não é uma coisa fácil de se lidar, porque desde o período colonial o poder político real não corresponde ao poder imediatamente pensado.

Para Guerra a memória é invariavelmente seletiva e parcial, mas “falar de escolha e significação implica que a memória pessoal, a mais pessoal das memórias, já é uma reconstrução individual e social do passado”[1] e não podemos nos incair apenas no reducionismo de que a memória é uma porção restrita ao indíviduo ou a um segmento social, pois ela invariavelmente passa a ser transmitida nem que seja pela oralidade. A questão é o discurso que foi posto no plano da hegemonia.
Quando pensamos nas grandes construções memoriais temos que estar cientes de que as construções não são dissociadas de seus atores, que no caso dos cinquentenários da independência são os estados-nacionais em construção, e que invariavelmente constroem identidades que são ditas como verdades indiscutíveis e universais, às vezes atuando como referências culturais e de comportamento.
No caso venezuelano isso parece ser evidente como uma maneira de diferenciar-se identitariamente e culturalmente da Colômbia e da memória da Grã-Colômbia,  o resgate de Símon Bolivar no cinquentenário com a vinda dos restos mortais dessa figura respondia aos anseios políticos diretos daquele país em conflito. Entretanto a despeito do volume das comemorações do cinquentário tanto na Colômbia como na Venezuela serem dignas de nota, a presença do elemento indígena é completamente esquecida em prol de uma ideia de civilidade europeia, católica e progressista, conforme os anseios liberais da época. Por vezes a memória hispânica é tomada como uma bandeira identitária da própria elite acostumada com o seu papel de topo dos segmentos sociais.

Ao Peru e Chile fenômenos dissociados da ideia de hispanidade ocorrem, em virtude da guerra de ambos os países contra a antiga metrópole. Mas em virtude dos acirramentos no contexto regional e subconsequentes conflitos entre os dois países pela posse das minas mineradoras de salitre, as comemorações de ambos os países são um indício de consolidação da identidade nacional frente à outra nação beligerante ou potencialmente beligerante, os dois países tomam partido na criação de mitos nacionais, e o caso peruano é mais emblemático pelo garbo de suas comemorações com a realização de uma exposição aos moldes europeus em Lima no ano de 1871. 

Os fenômenos europeus são implantados pelas elites locais de tradição liberal em diferentes países do continente, seja o translado do corpo de Simon Bolivar um ano após do retorno das cinzas de Napoleão à Paris, ou a exposição do centenário de independência de Lima que estava em diálogo com a Feira Mundial de  Paris realizada no mesmo intervalo temporal. A suntuosidade das comemorações, com o uso de arte efêmera é de tal detalhismo que demonstra a riqueza peruana no período da exploração do salitre.


Na Argentina, a despeito do caráter mais modesto das comemorações quando comparadas ao Peru, ela se tornou um marco político portenho sobre as outras províncias do interior, um símbolo da nova consolidação política de Buenos Aires sob a coação dos territórios interioranos (com a eliminação dos caudilhos) e a expansão argentina ao território patagão. A celebração na Praça de Maio com a construção do obelisco é um símbolo de um novo país nascente e economicamente galopante após Mitre e a Guerra do Paraguai. A memória argentina estava atrelada à ideia de progresso e desenvolvimento econômico numa identidade francamente emprestada dos europeus (sobretudo dos ingleses e franceses) de um novo estado que despovoaria as terras platinas dos gaúchos para colonizá-la com imigrantes europeus.

Ao Brasil, o que podemos dissertar é que a modéstia das comemorações está atrelada não à existência a  problemas políticos, afinal o Brasil monarquista de Pedro II vinha vitorioso do conflito da Tríplice Aliança. A inflação e as contas públicas do conflito eram elementos econômicos para dissociar a ideia de comemorações suntuosas do Império, ademais, Pedro II possui uma preocupação mais evidente na questão do ensino, financiando pessoalmente o Colégio homônimo com suas finanças pessoais.

Entretanto, não podemos incorrer em dada injustiça ao menosprezar as comemorações brasileiras, afinal de contas o culto aos irmãos Andrada respondia aos anseios da Monarquia como forma estável de governo, de maneira que o Partido Liberal se beneficiaria do culto a José Bonifácio.

Verificamos então o caso norte-americano, se nas comemorações do cinquentenário observamos uma dissociação da identidade inglesa, sobretudo em virtude da tensão ocasionada com a guerra contra a Inglaterra em 1810, e uma extensão dos ideais revolucionários a outros países do continente.
Em 1872, as comemorações do centenário respondem a outro circunspecto político, afinal é a data em que as últimas fronteiras americanas são consolidadas no Oeste, após uma sucessão de conflitos com os mexicanos e anexações de territórios mediante negociações, a mais recente é o caso do Alasca em 1869 com o secretário de Estado Seward. Mas também é a época da expansão do capital do Norte mediante à ferrovias e industrialização acelerada após o recente conflito com os estados confederados na Guerra de Secessão.

A fratura norte-americana e, sobretudo, na identidade americana mantém-se nas comemorações do centenário de maneira que os estados sulistas não acompanham as celebrações da mesma maneira que o Norte, os ressentimentos  e a humilhação da guerra tornam a reconciliação cada vez mais difícil. A administração de Ulisses Grant é marcada por sucessivos escândalos, assim como o governo anterior, de Andrew Johnson sofreu com mais instabilidades após o hiperendividamento da União, a inflação resultante da Guerra e o rombo aos cofres públicos na Compra do Alasca.
A morte de Lincoln é um marco do desarranjo norte-americano que se estabilizará apenas quando a grande crise de 1870 for superada no mandato de Rutherford Hayes. Grant, entretanto, em 1872,  promoveu a maior exposição das Américas, na cidade de Philadelphia.
No ano dessas comemorações consolida-se a ideia da consolidação da Corrida para Oeste, na qual o próprio presidente inaugura a ferrovia para o Pacifico. A visita de chefes de Estado, incluindo Pedro II, é uma das cartas triunfais dos americanos como  uma nação respeitada internacionalmente que anseia ser reconhecida. Os republicanos passam a ser atores na reconstrução americana e incentivam cada vez mais a ideia de Progresso e da consolidação econômica do Norte.

Na Feira de Philadelphia, evidenciam-se as novidades da indústria norte-americana, seja o culto  às ferrovias (com a existência de linhas de ferro no interior do parque de exposições), mas também inventos primorosos e recentes: Como o telefone de Graham Bell e a máquina de escrever Remington. O espelho norte-americano mirava a ideia progressistas de desenvolvimento tecnológico e de prosperidade, a despeito dos evidentes problemas internos; Dez anos depois, os Estados Unidos consolidam-se como nação imperialista ao iniciar uma rápida guerra com os espanhóis, resultando na vitória dos anglo-americanos.

Nesses cinco casos evidenciam-se as finalidades e aspirações de diferentes governos e países na sua consolidação identitária e superação de dilemas internos. A construção de imaginário nacional é festejada com a criação de mitos pátrios, resgates identitários e a franca esperança na fé e no Progresso. Não podemos nos imiscuir que na variedade entre a permanência e a variedade, os duros embates em torno da memória saem com segmentos perdedores. No caso dos países platinos, a identidade indígena, que é trucidada com as sucessivas guerras contra os mapuches, no caso brasileiro, as identidade negra (assolada pelo fantasma da escravidão) e indígena, no caso setentrional da América do Sul está o resgate à hispanidade como um elemento de identificação nacional. No caso americano é ainda mais complexo, é sobretudo o sufocamento da identidade sulista (perdedora do conflito recente), dos indígenas (trucidados nas corridas para o Oeste), dos hispânicos (remanescentes dos conflitos com o México) e dos negros (marginalizados na nova União consolidada após a morte de Lincoln).
O elemento da imigração é um dos fatores a serem considerados em diferentes casos, sobretudo no caso argentino, chileno e americano, mas não é conveniente esquecer um dilema da identidade construída e reforçada pelas comemorações da independência: A construção identitária nas Américas respondem a inquietação colonial da ruptura da identidade com a metrópole  e ela está construída através do alicerce da discórdia mútua contra os seus vizinhos.
Há casos não abordados que merecem citação, como o cinquentenário de independência do México dado no período conturbado de sua história, onde o próprio país, fraturado com as sucessivas guerras contra os americanos, e tomado por intrigas internas é invadido por uma potência europeia (a França) com a implantação de uma monarquia estrangeira Habsburgo.O México sofre um duro revés em sua própria memória e identidade, embora não tenha se negligenciado totalmente a sua própria memória da independência.
O outro caso não abordado é o Paraguai. Desolado e destruído pela Guerra da Tríplice Aliança, o estado em construção sofre a fratura da humilhação e da dissociação do poder com a queda de Solano Lopez, os paraguaios não tem condições políticas nem sociais para manter as comemorações, embora consolidem o seu revanchismo contra os portenhos e  brasileiros durante os governos colorados até 1904.
Sem mais delongas, no avançar do texto de Guerra encontramos paradigmas indiciários que respondem algumas indagações imediatas sobre os cenários permeados pela memória e a representação. A segmentação identitária acompanha a criação de uma história nacional, com criação de mitos pátrios, e de anseios das elites detentoras do poder.  A isso compreendemos a valorização de Bolívar, o trabalho de Mitre em escrever uma história da Argentina ou a realização de uma grande exposição feita no Norte dos Estados Unidos.
Submetidos a essas condições podemos analisar de forma mais adequada aos dilemas da questão das comemorações nas Américas.




[1] Pág. 1.

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