sexta-feira, 26 de julho de 2013

A você que parte

   Você que parte hoje
   de mãos dadas
   com esse crápula

   Você que hoje ri
   com essas ciladas
   que você manipula

   Esqueça que existo
   Saía de perto de mim
   Não quero você aqui

   Siga com o seu par
   para bem longe
   onde eu não possa olhar

    Perdi sem querer
    As rimas
    por culpa de você

    Vá beijar em outro lugar
    Não na minha frente
    Pare de me torturar

     A sua presença
     Dói a minha cabeça
     Deixe-me só

    Esqueça que eu existo
    Saía perto de mim
    Não quero você aqui

    A tinta se foi
    O tinto também
    Deixe-me só
    Deixe-me aqui

Nunca te perdoei

     Nunca te perdoei
     Por ter trocado
     meus sentimentos
     por uma casquinha de sorvete

     Nunca te perdoei
     Por ter brincado
     de amor
     com o cara errado

     Nunca te perdoei
     Por ter deixado
     tudo ficar
     assim de lado

     Nunca te perdoei
     Por eu ter chorado
     de tal jeito
     por esse amor levado
   

No torvelinho desse frio

      Nessa noite tão fria
      Minha voz se afina
      Meu corpo treme
      Minha alma geme

      No meio desse frio
      Nada é mais pueril
      Do que desejar
      O que não há

      Não existe amor
      Nesse quadradinho
      De Goiás

      Tudo é fechado
       Separado
       Dissociado

       Ninguém
       amigo
       ninguém
       Ninguém é amigo
       de ninguém

       Meu amor partiu
       No meio do frio
       Me deixou só
       Com essa dor

       Ninguém mais a viu
       Saiu sem se despedir
       E me deixou aqui

       Estou triste
       Esse negro licor
       De morte carregado
       Penetra nos meus olhos

      A escuridão é veneno
      O pranto perde cor
      Quando toca a face

      Nessa noite tão fria
      Minha voz se afina
      Meu corpo treme
      Minha alma geme

      No meio desse frio
      Nada é mais pueril
      Do que desejar
      O que não há

      Desisti de ti
      Desapareci
      No torvelinho
      desse frio


domingo, 21 de julho de 2013

Através das estrelas

Através das estrelas
Meu olhar tão distante
Desparece no amor

Ninguém dá muita trela
A coisas do coração
Nessa aquarela
de jasmim

Jardim de querelas
De canto exultante
Rimo com calor

Através das estrelas
Sopra-me o vento
Essa linda canção


Deixe-me ve-la
Ouvir-me cantar
Como a estrela
Procura o seu par

Através das estrelas
Vi a rima passar
Sob a luz do luar



Procura-se o meu amor

Procura-se o meu amor
Nesses versos de longe
Sem rima e métrica
E nenhuma sinfonia

Abro o catálogo
e busco vários nomes
Acho alguns, mas
não acho o dela

Ela era tão amável
Que nem me deu
o seu telefone
Mas que maldade!

Sem rancor
Procuro seu nome
Na prima vida
Acharei? Não sei

Meu amor
é doce
Tem olhos largos
E cabelos escuros

E bonita? Sim ela é
Ah quem diga que
mais bonita é
como ela é

Não estou rimando
Procuro seu nome
Não meros versos
Mas não me deixou telefone

Por quê? Eu não entendo
Você nunca mais apareceu
Agora estou só
E você está longe

Não achei seu nome
Te devo um café
Acharei? Não sei

Nem estou aqui
Nem estou ali
Estou à sua procura

Como é, como está?
Isso não sei dizer
Enfim, cadê você?

Sobrenatural

Sobrenatural ressupino
Das noites vazias
Cuja limpidez
Termina a palestra

Rigor molesta
com rapidez
Os  dias
Nesse frio alpino

Nora  dos ventos
Frio sobrenatural
Quebra os dentes
E o carnaval

Eis o vendaval
de grandes mentes
No rigor invernal
Tece olhares ciumentos

Na neve caminha
A criatura da noite
Emitindo a voz
da morte

Para minha sorte
O inimigo algoz
Não é de grande açoite
Mas sim uma gatinha

sábado, 20 de julho de 2013

Lembranças de Volgogrado



        Ninguém poderia dizer que havia um  céu tão límpido e azulado quanto naquela tarde. Preguiçosamente alguns flocos remanescentes dos feixes do gigante Sol batiam na fronte desse pequeno velho que agora anda calado; era um senhor amável, de aspecto meio bexiguento que caminhava um tanto encurvado, aparentando ser mais velho do que era. Era talvez como o seu avô, mas não tinha um único sorriso enquanto caminhava naquela praça  com o netinho.

          — Aqui, meu neto, ficava a fonte Barmaley, uma fonte de pedra esculpida em torno dessa praça para celebrar um conto infantil, escrito por um escritor russo, Korney Chukovsky.
          — Onde, vovô? Eu não vejo nada.
          — Ficava aqui, ela ficava exatamente aqui onde estou.  Era uma fonte linda, tinha no alto seis criancinhas dançando em volta de um poderoso jacaré. Veja, veja, tenho uma foto dela.

          O velho mostrou-lhe então uma fotografia meio envelhecida, já um pouco gasta, da dita fonte que agora não mais existia.
"Essa é a fonte Barmaley, meu neto"

            — Essa é a fonte Barmaley, meu neto; Foi aqui onde eu beijei a minha primeira namorada, eu tinha mais ou menos a sua idade quando tudo aconteceu; Eu lembro que quando dava domingo, as crianças pulavam na água para se refrescar ou mesmo se esconder no pique-esconde e os namorados compravam uma casquinha de sorvete bem ali naquele bosque.
            — O que aconteceu com ela, vovô? — Inquiriu o netinho curioso.
            — Algo terrível, meu neto. Ela se perdeu junto com a minha infância.

            Deixou um filete de água cair dos olhos, o idoso não teve a coragem de enxugar as lágrimas, tampouco esconder os seus olhos tão inchados. Com um aspecto meio sombrio começou a contar uma história para o netinho.

            — Eu tinha oito anos, eu ainda era uma criança quando vim para Stalingrado pela primeira vez. Estávamos saindo do campo para tentar uma vida melhor; Meu pai era violinista, o som de suas músicas dele continua a tocar na minha cabeça... Korsakov, Balakiev, os grandes sabe? — O neto não compreendeu o que o avô dissera, de certo não sabia essa parte da música — Ah! Que estou falando, você é muito novo para entender sobre música; talvez não  refletiu, afinal, que criança hoje em dia saberia quem foi Rimsky-Korskov ou Mily Balakiev? — Os grandes compositores nacionalistas, os nossos músicos tradicionais. Com a invasão nazista em Stalingrado, para o nosso povo, esse era um simbolo de esperança, para os nazistas, de resistência.
            — Do que está falando, vovô?
            — Um dia, um dia, a Gestapo bateu em nossa casa; uma patrulha qualquer, achavamos que só queriam um pouco de comida, mas não era isso. Um oficial entrou arrombou a nossa casa, eu estava brincando na sala quando eu vi ele, parado bem ali na porta. Sorriu para mim com um aspecto diabólico. Minha mãe correu em minha direção e me escondeu no armário da cozinha, antes que eles me encontrassem de novo.
            — E depois, vovô? E depois?
            Viktor  Gadzhiev, engoliu seco, tentou inutilmente lubrificar a sua garganta já muito gasta: a voz lhe falhava naquele ponto... Medo, cansaço? Talvez os dois, mas em todo caso Gadzhiev tomou um pouco de coragem e retomou sua história.

            — O oficial tinha olhos tão escuros que chegavam a torcer sua alma, e o aspecto vitríneo da cicatriz em seu rosto até hoje me apavora nos meus mais terríveis pesadelos. Eu lembro do modo como fitou a minha mãe, e gritou alguma coisa em alemão... Minha mãe não falava alemão então levou um golpe na cabeça, eu só pude ver o modo como eles a arrastaram como um animal para o divã da sala... Ela devia saber que estavam à procura do meu pai.
            O neto fitou-lhe com olhos arregalados, estava assustado com a naturalidade que seu avô contava aquela história... Gadzhiev não esboçava nenhuma emoção em seus lábios e tinha perdido toda a cor de seu rosto, estava mais pálido que um cadáver. Pergunto eu se depois dessa história ele não queria ser um cadáver.
           — Eles entraram no quarto dos meus pais,  procurando o meu pai, e quando eles o acharam, dormindo na cama, cortaram a sua garganta sem cerimônia; Eu pude ouvir da cozinha os gritos da minha mãe chorando — Um soluço tomou sua voz nesse momento   O nazista voltou com os seus encarregados para a sala e de um sinal para o SS que a segurava contra o sofá. Com uma tranquilidade absurda, disse em um russo muito ruim: "Agora, eu já eliminar o seu marido, vamos terminar tudo isso de uma vez, Russiche Schein!"
         Sua voz estava trêmula naquele ponto,  mal conseguia segurar a emoção que de tal magnitude fazia com que tremelicasse suas mãos :
          — Eles cortaram, rasgaram as roupas da minha mãe, na minha frente... E eles a violentaram; um a um, enquanto cuspiam,  xingavam e a humilhavam... Nenhum daqueles terríveis momentos sai da minha cabeça. O modo como o meu pai foi morto, como um animal, tomado pelo sangue de suas próprias cordas vocais, e a minha mãe, sendo violentada por aqueles sete malditos "fritzies" e depois estrangulada para que não contasse sobre tudo aquilo...
        

          —  ...Eles reviraram tudo, tudo que pudesse ter valor foi levado e logo em seguida atearam fogo em tudo  Gadzhiev soltou um tímida lágrima no canto do olho esquerdo, uma lágrima que passaria despercebida senão tivesse tomado o aspecto delgado de suas rugas — Eu era uma criança, uma simples criança, eu não sabia o que era vida até aquela hora. Eu podia ter feito algo, eu podia ter salvado meus pais, mas não eu fiquei lá, no armário, imóvel, enquanto aqueles malditos chucrutes faziam aquelas barbaridades com eles... Desde esse dia não consigo dormir sem me lembrar do que fizeram com os meus pais.

           O pequeno Anton abraçou o avô no tronco e com dificuldade ergueu seus olhos em direção ao choroso avô.

          — Não chore, vovô, não chore, o senhor não tinha culpa. O senhor não tinha culpa.

         O velho abaixou-se e abraçou o seu querido neto enquanto soluçava baixinho, Gazhiev num dado momento não conseguiu se controlar e já chorava à plena voz enquanto alguns transeuntes olhavam para a cena perplexos. Gazhiev soluçava de dor,  era a guerra. A guerra contra si mesmo, a guerra contra a culpa e o sofrimento.

        Com dificuldade as  lágrimas se secaram e em seguida levantou-se para caminhar junto ao neto pela Prospekt .

        — Eu corri  por essa mesma avenida há setenta anos atrás. Esperei os alemães saírem da casa dos meus pais; Fui sem rumo até encontrar aquela fonte abandonada, onde me sentia mais seguro. Entrei nela e me escondi e foi ali que eu passei a minha primeira noite na rua.

        Gazhiev estava estranhamente sério e sua voz estava mais clara do que nunca:

         — De manhã, quando acordei, encontrei  uma nuvem de fumaça no Céu; o ar estava meio difícil de respirar foi quando me levantei e ouvi passos pesados na Prospekt, e um rugido asqueroso de motor passando pela prospekt.. Eu achei que fossem dos nossos, mas quando tirei a minha cabeça da fonte, vi que não eram nossos irmãos... Eram alemães. 

        Gazhiev apontou para onde os nazistas passaram, num entroncamento de ruas bastante pacífico hoje no centro de Volgogrado. A cidade estava mudada, mas ele conseguiu localizar  por onde o regimento alemão tinha passado:

        — Voltei para a fonte, e fui me arrastando para não ser percebido, foi então que ouvi tiros por todo lado, me fingi de morto na hora. Morto de medo ou não. Bem isso não importa.
       — Eles te encontraram, vovô?

       — Eu também pensei nisso, mas não... Eram nossas tropas,  um grande ataque suicida contra os alemães, quando dei por mim já estava rolando sangue... Tentei me esconder, de todo o jeito que podia , tentei me esconder no que tinha na fonte... Então encontrei um soldado, um dos nossos com certeza. Estava ferido,  agonizando bem ao meu lado. Não sabia como agir, era um homem  forte, nunca julgaria que alguém como ele poderia  chorar que nem uma criancinha, mas ele estava.

— O que aconteceu com ele, vovô?

— Ele foi ferido na perna,  não ia sobreviver... Foi quando  percebi que aquela fonte não era só uma fonte, mas uma vala para os nossos soldados.
— Quer dizer que...
— Sim, eu estava no meio dos mortos... Eu conheci a morte muito cedo, meu neto.

"Sorte a minha que quando tudo acabou eu pude desaparecer dali entre os mortos. Nunca imaginei o que poderia ter acontecido comigo se não tivesse saído dali, talvez eu teria sido morto, talvez os nazistas teriam me pegado e eu estaria morto nos fornos de Auchwitz, o fato é que nada me fará esquecer daqueles dias, meu neto. Nada"

— Aqui foi onde o soldado Akaki Akakiev me encontrou vagando pelas ruas de Stalingrado. Ele me levou pro QG e eu fui evacuado para o outro lado do Volga junto com outras crianças. Descobri mais tarde que Akakiev morreu com estilhaços de bomba à caminho de Berlim, mas que sempre lembrava de como tinha salvado um garotinho em Stalingrado.

"Vês tudo isso? Vês, meu neto? Isso, esses prédios não escondem o que aconteceu aqui. O modo como vi os corpos se multiplicarem bem naquela fonte, ou o modo como os nazistas mataram os meus pais. Aqui, esta cidade, tudo isso aqui está repleto de histórias. Toda a vez que venho para essa essa cidade, tenho lembranças, boas ou ruins, da minha infância. Daquela fonte onde beijei minha primeira namorada, ou daquela mesma fonte onde vi o sargento Iagin morrer diante os meus olhos. A guerra é uma coisa asquerosa, toda vez me lembro disso quando venho aqui. Essas são minhas recordações, as quais não desejo para você".


sábado, 13 de julho de 2013

Como deixar de ser feliz em três das (Tratado sobre a infelicidade)

        Victor Hugo dizia que é possível privar o homem de todas as pobrezas, mas não de suas tristezas. Hoje em termos contemporâneos isso parece ser mais verdade do que imaginamos, de maneira que se é possível ser rico, bem sucedido, ter todas as glórias possíveis em uma vida, mas mesmo assim não ter a devida felicidade, enquanto se é possível ser feliz com poucas coisas. Esse estudo é justamente uma tentativa de se compreender a arte de ser triste.


       1. A arte de cometer erros


       Às mentes mais leigas é  conveniente pensar que o exercício da infelicidade é uma coisa fácil, de fato, sem muito esforço prático é possível desfrutar desse subproduto de amargura que acaba se amalgamando à alma após um longo e elaborado exercício de erros demonstrados pelos matizes da culpa, timidez e ostracismo.

       Convém então estudar os erros que nós cometemos para compreender melhor as virtudes de nossa infelicidade e observar os equívocos de outros, tendo em vista que a infelicidade é um fator social.

        Primeiramente, parece ser consenso que para todo o início de qualquer relação inter-pessoal (refiro-me a relacionamentos de cunho amoroso) é preciso que aja uma afinidade, de maneira que qualquer mostra de afeto é valiosa, se não houver nenhuma dessas coisas, eis aí um primeiro erro.

        Não é conveniente se envolver com uma pessoa pela qual não se tem amor ou qualquer estirpe de sentimento sincero, afinal de contas não é a lógica que rege tais assuntos (quão menos um exercício da "ética" darwinista de selecionar a melhor companhia). O Exercício dogmático do amor estrangula a própria essência desse sentimento, tal como um nó de gravata.

        O relacionamento motivado por funções financeiras sequer deve ser mencionado como um relacionamento, pois se tomarmos resquícios de Locke por exemplo, configura-se uma modalidade de contrato social, diferente é claro entre o indivíduo e o Estado, mas uma relação de superioridade de um indivíduo por outro. De maneira que tal interação é danosa e autodestrutiva, pois ambas as partes tenderam ao papel de exploração e desgaste.

       Não existe felicidade sincera em ambos os casos.

       O segundo erro possível de acontecer (e não menos danoso) é o erro de se apaixonar pela pessoa errada. Nesse tópico até eu tenho uma experiência deveras expressiva, de maneira que tal equívoco tende a ser dificilmente identificado, já que imbuídos de licor passionatis, tende-se ao ensaio sobre a cegueira do qual não temos muito controle.

       A única maneira que se revelou verdadeiramente eficaz ao combate dessa mazela é o total realismo nas relações amorosas, o pragmatismo é sempre desvencilhado das paixões, mas é conveniente que se tenha plena consciência de que existem motivos para que a pessoa escolhida possa não ser necessariamente a mais indicada. Se julgando as variáveis  e contabilizando bem as possibilidades de afinidade, ainda pode-se estar errado.

       O terceiro erro mais comum é não saber o que é amor. Amor não é uma simples afinidade química traduzida em termos biológicos, essa explicação cientificista das coisas, como eu disse, não explica a totalidade do que vem ser o amor. Amor sequer é um conceito que pode ser explicado em termos gramáticos, o amor é algo que foi feito para ser sentido, algo que acontece e que você não sabe o que falar. É quando você treme ao falar com a sua amada  (ou amado, pluralidade de ideias sempre), gagueja, quer vê-la todos os dias. "É quando o seu coração bate mais forte e você não se importa".

       Não é porque a pessoa é rica ou pobre, ou porque você acha ela bonita ou não que você se apaixona. É apenas aquilo que você sente que acha que nenhuma pessoa pode sentir, isso é amor.

       Um verdadeiro romântico sabe de todos esses parâmetros e ainda assim comete erros. Mesmo rejeitando para si a vulgaridade, o pensamento cientificista, ele está fadado a ser triste por idealizar demais a pessoa amada.


    2. Exercício da timidez


       Dizem que é terrivelmente sedutora a timidez, em alguns caso sim, mas para um romântico, constitui um dos erros mais carros na vida amorosa.

       Tenho para mim a teoria que todos nós, desde quando nascemos, não tendemos a timidez. Não temos vergonha em nos esgoelar quando sentimos fome, de chorar quando estamos tristes e de falarmos besteiras. O fator da timidez se constrói nos primeiros anos da escola para cá

       O convívio social molda-nos a tomar tais medidas, desde a depressão que sentimos quando alguns de nossos colegas maldosos trazem traumas a nossas vidas, até mesmo à falta de paciência com que alguns dos nossos educadores têm para conosco. Esses são fatores que nos levam a timidez.

       Mais e mais temos medo de estarmos errados, pois no convívio social "estar errado" é uma coisa disforme e suja, tal como o chorume que putrefa sobre o ar livre. Nessa altura adquirimos o medo de falar em público.

      Quando temos medo de falar, perdemos justamente uma das nossas melhores qualidades: a fala. Não obstante, a oratória e a retórica são as melhores artes e conhecimentos que a humanidade pôde construir, de maneira que não precisamos  ter amplo conhecimento se  queremos nos expressar. Podemos estar errados, mas ainda assim poderemos convencer os outros, e não há maior felicidade do que isso.

       O maior saber da Humanidade é a Fala, pois dela conseguimos repassar nossas ideias para outras pessoas. Quando temos problemas com a fala, acabamos por ceifar um leque de possibilidades, no amor, é um veneno nefasto não saber falar. Quando temos medo de falar tudo o que sentimos não nos apercebemos de quão constrangedor é cada minuto de silêncio. É por isso que avalio como danoso o exercício da timidez.



         3. O antro da Mentira

         Sim, escusado será dizer que existem várias definições e concepções de verdade; Mas mentira se construiu como a não-verdade. A não-verdade pode ser útil no início, um fertilizante para o terreno do relacionamento, mas cresce de tal forma que no fim acaba se tornando uma erva-daninha.

         Não digo que devemos ser castos e nunca mentirmos na vida, mas deve-se ter consciência que nenhuma não-verdade é promissora ao longo prazo ao amor, quando a pessoa amada descobre essa sua falha, dificilmente terás a oportunidade de remediá-la.

         O antro da Mentira é o mais nefasto antro da corrupção e por isso avalio-o como catalizador de todas as infelicidades.


         4. Cisterna da culpa

         A culpa é uma dor surda que nos ataca quando menos esperamos, é crônica e recorrente. É quando percebemos que agimos de forma equivocada e que não poderemos de maneira alguma recuperar-nos de nosso próprio erros. É pior nos homens que nas mulheres, acredito, pois dilacera para sempre a vida do indivíduo.

         Sob o aspecto amoroso, a culpa pode vir de dois meios: Pelo que foi feito ou pelo que não foi feito.

        A culpa pelo que foi feito é mais anunciável ao curto prazo; Nós temos vergonha do que dizemos à noite anterior, do que fizemos outro dia e essa vergonha tão implacável tira-nos a cor dos olhos e da alma.

        Pior que isso é lembrar-no-mos do que não não fizemos, seja uma palavra que poderia ter sido dita, um gesto amoroso que poderia ter sido feito, ou uma falta de coragem de ter agido como deveria. Essa culpa não é imediata, mas é crônica; Demora a aparecer, mas quando aparece é tão mais intensa  e tão constante que perturba-nos a cada passo.

       
          ....

          Esses pilares, acredito eu  fundamentam boa parte das infelicidades, afinal a maior parte delas é relacionada ao amor. Não creio ter sido claro em como se pode deixar se infeliz em três dias, mas sigam nessa trilha de erros que certamente se chegará lá.

         A vida proporciona vivências que não devem ser desconsideradas, mas acredito que boa parte dessas infelicidades é tratável se deixarmos de pensar em nosso antro de infelicidade e após dias matutando, sairmos das sombras para mais um dia. Esquecer dos erros que cometemos, tomar coragem para agir da forma que queremos e lembrar-nos de evitar equívocos de interpretação. Assim acredito que a infelicidade passará, ou eu posso estar errado também. (Já aceitei que a vida é uma merda mesmo, mas que não existe coisa melhor que ela não)

Vida das cerejeiras

     No jardim de crisântemos e palavras
     Durante a floração das cerejeiras
     As montanhas de rimas criadas
     Correm o rio das cachoeiras

     Uma jovem moça
     De vestido sedoso e fava de mel
     Desce vigorosa
    Na literatura de cordel

     Favas da vida
     Jovem donzela
     Durante instantes
     Cata flores

      Flores de cerejeira
      Tão roseadas e delicadas
     De aspecto tão açucarado
     Tal como devem ser

      Todo dia caem as folhas
      Lembrando de como
      Rejuvenesce o querubim

      Tenha certeza
      Que na calidade dessa vida
      Crescem as grandes cerejas
      Doces e adocicadas
   
      Cada cerejeira que cresce
      Um novo amor aparece
      Essa é a vida das cerejeiras

Noites

     Noites, terríveis noites
     que são tão frias
     que gelam a alma
   
      Estrelas límpidas e taciturnas
      Olham dengosas as elegias
      Com um pouco de orgulho
      E desprezo

      Cobiça-me com orgulho
      A distante Lua
      Tão calma
      debaixo das odes noturnas

      Sinto o vento que me atravessa
      A canção travessa
      O frio urde meu leito
      Sem grande acalento

      Tudo que passa é o seco e ardente
      Frio, somente frio
      Que eu durma de olhos rasos de lágrimas
      E que você me abrace misericordiosa noite

     

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Notas do dia 3/07

       Dizem que apenas os olhos podem ser lidos e que as flores podem ser sentidas. Novos matizes se desenrolam pela singularidades da própria situação que conto.

       Contam-me que o sabor dos versos não encontrará  o calor dos seus lábios, e o meu amor desaparece nessa chama tímida que se apaga nesse redomoinho de palavras.

        Hoje a pena da minha caneta chora vagarosos prantos de tinta por não sentir  mais o modo descuidado e totalmente desengonçado que você escrevia na ponta do papel. Deve ter achado engraçado o modo como  você escrevia ao contrário de maneira tão incerta  que parecia até um   pouco bonito.    Meu amor é tão frágil quanto essa ponta de irídio que no mais sofrido ilídio do palco principal dessa ciranda finge brincar com você. Por quê?

        Sinta-se acariciada pela delicadeza de minhas palavras  porque elas são mesmo para você.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...