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sábado, 8 de junho de 2013

Uma queda (conto)

      Saiu pois de casa, não antes de lustrar a maçaneta com um pouco de álcool em gel que desastrosamente  tinha deixado cair na mão e desapareceu na garoa fina que caía na rua a essa hora da tarde. Achou estranho que algo assim ocorresse no Planalto Central em pleno mês de junho, mas desapareceu em meio às sombras que se projetavam na penumbra das nuvens carregadas do céu.

     Seguia pelas ruas sem olhar para os lados, sempre para o chão, esboçando tamanha humildade que poucas pessoas teriam se admirado que estivesse saído tão combalido de casa. Quase foi atropelado por um desaviso, e doía-lhe até agora os tímpanos o modo como o motorista daquele pequeno hatch azul martelara a buzina.

     Sujou seus sapatos num gramado ensopado e correu para pegar o comboio para outra parte do Cerrado, foi aí que escorregou e...

                                                           ....

      — Eu te amo. Eu sei que você me odeia, mas eu te amo. Quero construir uma vida com você...
      — Se você me ama, pare com essas coisas.
      — Mas eu te amo.
      — Isso é típico de você, isso só mostra o quanto você consegue ser infantil.

      "Isso só mostra o quanto você consegue ser infantil. Infantil. Infantil... infantil. Infantil?"

      "Foi naquela festa, fazia um frio asqueroso naquela noite; acho que tinha bebido um ou dois copos de uma vodka bem vagabunda, talvez mais. Sim, foi naquela noite que tudo começou. Infantil.

      Eu estava só, sem amigos, apenas com colegas que sequer conhecia naquela altura, me sentia só como nunca me senti. Sim, você era bem infantil. Foi quando ela apareceu: Não era a mais bela das moças, tinha um queixo um pouco deformado, mas algo nela me seduziu. Será o cabelo escuro? O modo como falava com pleno domínio de algumas coisas que eu gostava? Ou será simplesmente inocência minha?

     Peguei-me um dia pensando nela, não em mim, não no meu amor mais recente ou na menina que tentava me seduzir. Mas eu pensei nela, justamente nela, por quê? Isso faz tanto tempo, nem parece que estava vivo quando lembro de tudo o que aconteceu.

    Eu cresci, acho que cresci com o passar dos anos, mesmo assim cometemos nossos erros. Esse foi um deles, tinha me apaixonado por quem de mim não gostava. Acontece, não é mesmo? Chorei por ela, senti solidão em suas palavras, solidão. Talvez tenha sido isso, eu me identifico com pessoas solitárias, eu as entendo melhor, não sei porquê.

   Mas não tinha calculado as variáveis, sempre cogitei que a solidão fosse uma característica involuntária, mas a bem da verdade, percebo que tudo isso é volátil. Afinal de contas, a solidão pode ser autoimposta. Não acreditava nisso. Infantil.

   Correto, fui infantil. Devia ter dito isso tête a tête e não ter escrito isso de maneira vulgar numa dessas mídias sociais, me escondi covardemente nas palavras, meu único porto seguro que são as letras. Eu mereci aquele fora por ter sido tão burro, mas o padrão se repetiu mais uma vez.

   Não sei porque estou pensando nela, não sei porque penso nela agora. Nunca ligou para mim, por que haveria de pensar nela? Afinal, por que está tudo tão escuro, não enxergo nada. Eu estava indo... AH!"

                                                                ...

       — Levem-no para o helicóptero, ele teve uma concussão cerebral, vai morrer com certeza se não chegarmos logo.

      — Diabos, um rapaz tão jovem!

     — Basta estar vivo para essas coisa acontecerem, Souza. Vamos, vamos levar a maca para cima.

     As agulhas retroativas corriam de forma circular no céu enquanto o cabelo dos paramédicos tremulava com o redomoinho produzido pelas lâminas do helicóptero, os dois se afastaram e deram um sinal de ok, enquanto o guarda de trânsito tentava organizar o trânsito.

    — Circulando, circulando. Não há nada para ser visto.

    — O que aconteceu? O que aconteceu?

    —  Desculpe, senhora,você tem que ficar calma, os médicos farão tudo o que é necessário — conteve amigavelmente outro guarda.

                                                               ...

    "Mãe, por que eu a vejo aqui do alto?"

    "Sim, minha mãe é aquela ali que está desesperada enquanto o guarda tenta acalmá-la. Ela era bem mais bonita do que hoje, tinha feições de uma bela modelo quando o meu pai a conheceu, mas o tempo sempre foi um filho ingrato.

     Sobre o que discutimos hoje, por falar em filhos? Foi sobre o carro não foi mesmo?"

                                                                       ===

     — Nossa, tô atrasado pra c@&*#%! Preciso da chave do carro.

     — Não, eu preciso levar a sua irmã pro médico. Vou precisar do carro.

     — Mas o carro é meu. Por que não posso usá-lo?

    — Correção, o carro é do seu pai.

    — Mas o meu pai se foi, ele deixou o carro pra mim em testamento.

    Com lágrimas nos olhos, me encarou horrorizada; Eu também ficaria, como eu falei algo assim, não tinha nem duas semanas quando tinha acontecido... Como pude entrar nesse assunto. Ela só teve força para me responder com um tapa numa das bochechas.

     Fiquei sem reação, mas a encarei com o ódio nos olhos, eu estava segurando o frasco de álcool em gel que deixei cair no chão e furioso saí de casa batendo a porta.

     — Me desculpe... — Foi tudo que pude ouvir.

                                                               ===

      "Me desculpe. É como eu já usei essa palavrinha, depois de fazer piadas infelizes, elogios que não devia ter feito. E... Sim, eu também pedi desculpas.

      Pedi desculpas por ter dito que a amava, não sei se as obtive, mas nunca me perdoei por ter agido daquela forma, me fiz parecer tão servil, tão ignóbil... Engraçado, me sinto meio fraco, a cabeça está meio tonta, o que me aconteceu?

      Não sei dizer, mas não me sentia tão fraco desde o enterro de meu pai. Meu pai era um homem honesto e trabalhador, sim, uma figura muito decente, embora quando eu era criança, fosse dado à bebida, esse seria no fim das contas a sua derrocada. 

      Meu pai dizia que eu precisava pensar grande, que eu devia ser um grande juiz e propagar a lei sobre todos. Deus sabe o quanto ele ficou decepcionado quando viu que o filho foi ser historiador. É, eu não o culpo, ter gasto uma fortuna em bons colégios para ver o filho jogar tudo para o ralo e ainda se envolver com política? Meu pai estava certo.

     Ficou um bom tempo sem falar comigo. Seis meses. Lembro até hoje. Desde então nunca mais fomos os mesmos, nunca mais nós nos falamos como pai e filho, o que para alguns é triste, mas eu prefiro não pensar nisso. Quando eu pensei em me matar, meu pai não estava ali, não em sua forma física. Eu vi que ele estava acabado ali.

     Acabou que os anos tinham-no pegado e doente como estava, foi morrendo aos poucos até que o coração não quis mais bater como antes, e pela primeira vez em sua vida ele pode descansar. Sim, eu não era um bom filho e minha mãe estava certa em me bater, mas considerando o quanto o meu pai me bateu quando era criança, sem qualquer motivo, não posso dizer que tudo só foi culpa minha.

     Deixou-nos razoavelmente bem de vida, meu pai, e conseguimos lidar com as nossas vidas conforme a normalidade. Às vezes a minha mãe não dormia à noite de tanto chorar, e deitava-se no chão pensando nos dias que tinha passado com o meu pai. Eu tentava não ouvir isso à noite, mas era mais ensurdecedor que um suspiro no espírito.

     Me sinto mal por não ter chorado no enterro do meu pai, eu realmente me sinto mal hoje; Mas nada vai fazer com que ele volte nesse momento. Sinto falta mesmo é do meu avô, que me ensinou o que eu precisava saber, como caçar e pescar, até como se portar e agir. Meu avô era bem mais amigável que o meu pai... Ele morreu não tem menos de cinco anos num desses canceres que nos destroem aos poucos, quando o vi pela última vez, ele não era nem a sombra do homem forte que eu conheci na minha infância.

...

    — Pressão caindo... Nós estamos perdendo.

   — Não pode ser. Tragam o neurologista, precisamos saber o que é.

   — Pobre guri, na flor da idade — Suspirou a enfermeira — E ele era tão bonitinho. Parece com o meu filho quando era da idade dele.

  — Menos, Maria, eu preciso do eletro... Nós vamos perdê-lo.

  — Diabos, afastem.

...

   O que é essa luz que se projeta na minha frente, serão minhas lembranças? Esse carrinho aqui laranja eu  ganhei quando tinha cinco anos, eu costumava andar muito nele pela rua onde eu morava. As crianças me achavam um bebezão por não querer emprestá-los, mas a minha mãe disse que não me deixaria brincar de novo se me roubassem o carrinho.

    Aquele ali é o rádio do meu pai, eu costumava brincar com o vinil que ele tinha; Não tinha bons discos como os do meu avô, mas dava para brincar legal. Esse é o escritório do meu pai?

    Meu pai sempre deixava a papelada exposta e bagunçada em sua escrivaninha e colocava o rádio para tocar enquanto ia contar a despensa dos produtos pra ver se faltava alguma coisa. Tinha duas mesas ali, uma de minha mãe, onde ficava a máquina de escrever e outra do meu pai, onde ficava o fax.

   Ali me criei em meio ao papel-carbono e as vias de pedido, cresci desde cedo para o comércio. Meu pai também tinha seus segredos, parando pra pensar, foi ali também que descobri (eu era um pré-adolescente à flor da idade) a minha primeira revista de mulher pelada. Luiza Ambiel para a Sexy, era a edição de 1996? Eu lembro que ela estava brincando com uma cobra, foi a primeira vez que eu vi algo do gênero. Devia ter quantos anos? Dez, onze anos?

    Sim, a revista desapareceu, certamente a minha mãe deve ter jogado fora na mudança. Mas essa coisa ficou na minha memória. Assim como eu lembro do dia que cheguei em casa depois de ter levado uma surra do meu colégio, meu pai saiu furioso de casa como nunca antes eu vi. Foi a primeira vez que eu em lembro de ter visto o meu pai me defendendo.

   Rayara? Sim. Também lembro dela. Minha primeira "namorada", se posso chamá-la assim. Eu tinha 7 anos e estava usando um belo terno. Eu era um garotão loiro de covinhas e estava apaixonado por ela sem nem mesmo saber o que era amor. Ainda bem que eu cresci, ela não não era tão bonita para valer a pena ( e me odiava também)

    Me odiava... Será isso um padrão? Eu não sei dizer, mas isso é até um pouco engraçado. Não tinha pensado nisso.

  Mas continuo caminhando nesse caleidoscópio de emoções e recordações. Sinto-me tão fraco o que anda acontecendo?"

...

   — Não, nós não vamos te perder, guri. Aguenta firme.

  Uma carga fez vibrar o corpo inerte enquanto um ensurdecedor ruído  agudo martelava o ouvido de todos na sala, na sala contígua ouvia-se um lamúrio abafado pelo choro. Todos ficaram tensos ao perceber que não havia resposta.

   — Aumente para duzentos! — Gritou o médico para o enfermeiro — Vamos lá, companheiro, resista! Não tem nada a perder ficando aqui.

    Tentou mais uma vez, pareceu inútil.

...

       "Tudo ficou escuro de novo? Onde eu estou?

       — Alan... Onde está você? Sua avó fez o almoço

       "Vovô? Não pode ser. Como posso ter voltado?

       Ei, espere. Eu lembro disso, eu estava brincando de pique esconde quando me escondi dentro dessa caixa d'água vazia. Eu tinha oito anos, eu acho.

      — Anda, meu neto, sai daí de dentro. A sua avó tá te chamando — pela abertura da caixa entrou um pouco de luz, uma mão se estendeu para me puxar para fora.

...
       — Não vá, companheiro, não vá;

       ...

       "Vovô?"

       — Venha, meu neto, o seu pai veio te buscar. A sua mãe anda ocupada com algumas coisa, ela não vai poder vir.

       — Sim, vô. Eu estou indo...

...

      — É inútil, doutor Roberto. O senhor fez tudo o que poderia, ele se foi.

      — Não, eu não fiz tudo o que poderia, esse menino não tem nem vinte anos. Ele podia ser o meu filho!

      — Não adianta, doutor. Pode ser que ele esteja num lugar melhor que esse aqui.

      — Hora da morte... — Disse entre lágrimas o rosto enrugado por de trás da máscara — Dez e cinquenta e cinco. Paciente n° 253 resistiu por apenas sete horas. Vou avisar à mãe do garoto.

...

       "Isso, Alan. Para você dar um nó que não seja frouxo, você tem que pegar a corda desse jeito.

       Certo, vovô.

      Ah, como é bom tê-lo de volta, meu neto.

      Eu digo, a mesma coisa, vô. Eu digo a mesma coisa."
  

sábado, 4 de maio de 2013

Jardim das palavras

       Jardim dissociado da grama espera o pequeno joão-de-barro descer do alto da árvore no mesmo dia em que espero que um bom espírito ilumine o meu caminho, mas aí me lembro de que sou ateu e não acredito em espiritismo.

       Volta e meia alguém passa pelo corredor, da última vez foi uma menina de vermelho que roubou meus olhares com sua beleza mediterrânea. As pessoas acham estranho eu estar parado, em pé, do lado dessa pilastra que se prolonga junto ao corredor das rimas, escrevinhando no meu pequeno caderninho tudo o que sinto e penso.
 
           Decido então procurar um banco onde eu possa me sentar quando sou arrebatado por outra moça que fala ao telefone, ela veste uma roupa comportada e um tanto simples, ao contrário da minha costume que chama muita atenção (modéstia à parte, eu estava muito bonito naquele dia). Ela parecia meio perdida assim como eu ainda estou para a vida.
 
         — Eu já tô indo aí — Disse de maneira meio vulgar a plena voz.

          Para aí onde? Para tão longe que não chega a ser distante, para perto do horizonte e longe do pôr do sol. Tão longe que chega a ser perto de mim. Claro que não, tais ideias são terradoras e não trazem nada nenhum lucro para quem tenta ser científico. Obviamente ela estava conversando com o namorado ou com a mãe sobre algum assunto trivial. Deveras, também não era muito importante para a narrativa.

        Outra vez ouço um pássaro cantando próximo às trepadeiras que se prolongam em torno do edifício, será um sabiá? Seu grito é frio e meio melancólico, como se temesse o fio de sua própria extinção, era tão assuntador ouvi-lo que sua voz ecoou um teor tenebroso no meu ouvido. Censurou-me de certo: "Vês isso aqui, nada terá para ti".

         É divertido pensar que logo a isso, olho para o céu e observo que a despeito de não haver muitas nuvens, ele é tomado por um tom angustiado de cinza de tal forma que é tão sóbrio quanto o meu paletó. Isso é sombrio, na verdade.

          As palmeiras, dez ao todo, se prolongam em formas diferentes ao céu, demonstrando assim a sua envergadura frente ao olhar agressivo do céu.
 
         Não creio que me entenda, caro caderninho, mas eu sonho de olhos abertos, porque já não consigo dormir à noite de tanta angustia. Sinto meu coração bater devagar outra vez e tenho meus olhos bem alertas. Fiz meu exame de vista de novo e descobri que fiquei míope de amor, mas voltei a ser crítico de novo.

        Agora que deixei de ser cego, queria ser surdo, para não ouvir as besteiras que as pessoas contam, mas se o fosse, estaria me privado do maior de todos os meus prazeres que ouvir música nas tardes de luar.

        Pelo menos os meus olhos estão aberto de novo e posso me apaixonar outra vez pelas belas formas da natureza, obtusas e delicadas que se desenham nas curvas de belas mulheres. Posso apreciar essa beleza sem me sentir muito culpado e me divertir um pouco esquecendo o passado.

        Queria terminar tudo isso com um relato melhor do que essa simples nota de rodapé nesse meu caderninho pessoal, mas hoje eu desejo sonhar de olhos bem abertos, acostumar os meus olhos para escreverem de outra forma. A delicadeza com que tentei tecer esse manto de palavras, esse cobertor azul-púrpura não chega nem perto daquilo que tanto senti e tanto me faltou: saudade e amor. Tudo é tão triste quando acabou e finalmente acabou.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Fabricante de Ataúdes* (conto de Pushkin)

"Não vemos talvez cada dia ataúdes, cabelos grisalhos do universo que está envelhecendo."
(Derjávin)


         Uma vez carregados sobre o carro fúnebre os últimos trens do fabricante de ataúdes Adrian Prochorov. os dois magros cavalos se arrastaram, pela quarta vez, de Basmannaia para Nikitskaia, onde Adrian se tinha transferido com toda a sua casa.

       Ele próprio, depois de fechada a loja, pregou na porta o anúncio que a casa se alugava ou se vendia e encaminhou-se a pé para a sua nova moradia.

      Aproximando-se da pequena casa amarela, que por tanto tempo havia povoado a sua imaginação e que ele, finalmente, havia comprado por uma regular importânciazinha, o velho fabricante de ataúdes verificou, com espanto, que seu coração não estava alegre.

       Passando a soleira da porta desconhecida e encontrando a nova casa em grande confusão, sentiu saudade do velho tugúrio onde, por dezoito anos seguidos, cada coisa fora feita seguindo-se a mais rigorosa ordem. Começou a encolerizar-se com suas duas filhas e com a empregada pela sua lentidão e se pôs ele mesmo a ajudá-las.

           Logo a ordem foi estabelecida; a vitrina com as imagens, o armário com o vasilhame, a mesa, o sofá e a cama foram ocupar os lugares por êle determinados no quarto de trás; na cozinha e na saleta foram situados os produtos do dono da casa: ataúdes de todas as cores e medidas, assim como armários com chapéus de luto, mantilhas e tochas.

          Na porta foi afixada uma tabuleta apresentando um rechonchudo cupido com uma pequena tocha, na mão, virada para baixo e mais os seguintes dizeres: "vendem-se e guarnecem-se ataúdes simples e de luxo; alugam-se também e consertam-se ataúdes velhos". As moças foram para seu quarto. Adrian deu uma volta pela casa, sentou-se depois perto da janela e deu ordem para que preparassem o samovar.


         O culto leitor sabe que Shakespeare e Walter Scott apresentaram seus coveiros como gente alegre e brincalhona, com o fim de impressionar mais fortemente a imaginação, com tal contraste. Mas, a bem da verdade, nós não podemos seguir o seu exemplo e nos vemos obrigados a confessar que o caráter do nosso fabricante de ataúdes correspondia perfeitamente ao seu melancólico ofício.

        Quase sempre Adrian Proborov estava triste e pensativo. Interrompia, pode-se dizer, seu silêncio somente para repreender as filhas, quando as via sem fazer nada, à janela, olhando os transeuntes; ou para pedir preços hiperbólicos pelos seus produtos a quem tinha a infelicidade (mas também, às vezes, a sorte) de precisar deles.

        Portanto, Adrian, sentado perto da janela e bebendo sua sétima chávena de chá, estava, como de costume, mergulhado em melancólicas cogitações. Pensava na forte chuva que, cerca de uma semana atrás, havia surpreendido justamente quase às portas da cidade, o funeral de um cabo de polícia aposentado. Tal chuva havia feito encolher muitas mantilhas e deformar muitos chapéus.

         Adrian previa despesas inevitáveis, já que o seu antigo equipamento de paramentos fúnebres estava já reduzido a um estado de fazer piedade. Ele esperava, sem dúvida, pôr tudo na conta da velha comerciante Triubina que há quase um, ano estava nas últimas. Mas ela estava morrendo em Rasguliai e Proborov temia que os herdeiros, contrariando a promessa feita, não se dessem ao trabalho de procurá-lo naquela distância e tratassem com a empresa mais próxima.


           Estas reflexões foram interrompidas por três pancadas maçônicas repentinamente dadas na porta.

         — Quem é? — perguntou o fabricante de ataúdes.

         A porta abriu-se e um homem, em quem se podia reconhecer, à primeira vista, um artesão alemão, entrou e com ar festivo se aproximou do fabricante de ataúdes.

         —Desculpe, gentil vizinho — disse naquela espécie de idioma russo que nós até hoje não podemos ouvir sem rir — desculpe se o incomodo. . . queria conhecê-lo logo. Sou sapateiro, meu nome é Gotlieb Schultz, e estou do outro lado da rua, nesta pequena casa que está em frente às suas janelas. Amanhã, festejo as minhas bodas de prata, e rogo ao Senhor e a suas filhas que venham almoçar comigo, como amigos.

       O convite foi aceito de bom grado. O fabricante de ataúdes, por sua vez, pediu ao sapateiro que se sentasse e tomasse uma xícara de chá e, graças ao caráter expansivo de Gotlieb Schultz, a conversa tomou logo um aspecto cordial.

        — E como vão os seus negócios? — indagou Adrian.

         — Oh-oh-oh! — respondeu Schultz — nada mal, não me posso queixar. Embora, se compreenda, a minha mercadoria não é a sua: um vivo pode dispensar os sapatos, mas um morto sem ataúde não pode viver.

       — Santa verdade — observou Adrian : "Só que se um vivo não tem com que comprar seus sapatos, o mal não é grande, anda eventualmente descalço; ao passo que um morto pobre tem o seu ataúde mesmo de graça".

        A conversação continuou neste ritmo ainda por um pouco. No fim o sapateiro levantou-se e se despediu do fabricante de ataúdes renovando o seu convite.


        No dia seguinte, ao meio-dia em ponto, o fabricante de ataúdes e suas filhas saíram da portinhola da nova casa e se encaminharam para a casa do vizinho.

       Não descreverei aqui nem o traje russo de Adrian Proborov, nem os vestuários europeus de Akulina e de Dar’ia, afastando-me, neste caso, do costume introduzido entre os romancistas de hoje. Considero, todavia, não supérfluo relevar que ambas as moças tinham posto chapéus amarelos e sapatos escarlates, o que faziam somente nas grandes ocasiões.


        O estreito quarto do sapateiro estava cheio de convidados, na maioria operários alemães com suas esposas e seus empregados. Entre os funcionários russos havia um guarda, o finlandês Jurko, que soubera, apesar da sua humilde profissão, angariar a benevolência particular do dono da casa.

      Vinte e cinco anos havia ele servido, consciente e fielmente, como vigia em PogorePskij. O incêndio de doze, destruindo a primitiva capital, destruíra também a sua guarita amarela. Mas, logo após a expulsão do inimigo, no lugar daquela, surgiu outra nova, pardazinha, com colunazinhas brancas de estilo dórico, e Jurko recomeçara a passear em torno dela com a sua alabarda e a sua couraça.

        Ele conhecia quase todos os alemães que moravam lá pela Porta Nikita: a algum deles, antes, acontecia passar a noite, entre o domingo e a segunda-feira, junto de Jurko.

         Adrian apressou-se a travar conhecimento com ele, como com um homem de quem, cedo ou tarde, pode acontecer que se tenha necessidade, quando os hóspedes foram à mesa, os dois sentaram-se perto.

         O senhor e a senhora Schultz, com a sua filha Lotchen de dezessete anos, mesmo comendo junto com os convidados, faziam as honras da casa e ajudavam a cozinheira a servir.

      A cerveja jorrava. Jurko comia por quatro. Adrian não ficava atrás, suas filhas ao invés, faziam cerimônia. A conversação em alemão se tornava cada vez mais numerosa.

     De repente, o dono da casa pediu atenção e, destampando uma garrafa fechada com alcatrão, pronunciou, em alta voz e emrusso: "à saúde da minha boa Luísa!" O meio champanha espumou.

        O dono da casa beijou carinhosamente o jovem rosto da sua quarentona companheira e os convivas beberam, ruidosamente, à saúde da boa Luísa.

      — À saúde dos meus gentis convivas!— proclamou o dono da casa, destapando uma segunda garrafa e os convivas lhe agradeceram, esgotando de novo seus copos.

    Neste ponto os brindes começaram a suceder-se uns após outros; bebeu-se à saúde de cada conviva em particular; à saúde de Moscou e de toda uma dúzia de cidades alemãs; à saúde de todas as corporações artesanais em geral e, separadamente, de cada uma; à saúde dos mestres e contramestres.

     Adrian bebia conscienciosamente e ficou tão alegre que êle mesmo propôs não sei que brinde jocoso. Num dado momento, um dos convidados, um gordo vigia, ergueu o copo exclamando: "à saúde dos nossos fregueses, unserer Kundleuttel!" a proposta, como todas as demais, foi aceita com júbilo e unanimidade.

        Os convivas começaram a fazer reverências um ao outro, o alfaiate ao sapateiro, o sapateiro ao alfaiate, o vigia a ambos, ambos ao vigia e assim por diante. Em meio a estes mútuos cumprimentos, Jurko gritou, virando-se para seu vizinho:

       — Então? Beba, "bátiuchka"¹, à saúde dos seus mortos.

         Todos começaram a rir, mas o fabricante de caixões sentiu-se ofendido e tornou-se sombrio. Mas ninguém se apercebeu disso, os convivas continuaram a beber e quando saíram da mesa já estavam tocando as vésperas.

        Os convivas separaram-se tarde e, na maioria, em estado de euforia. O gordo vigia e o encadernador, cujo rosto parecia encadernado em marroquim vermelho, conduziram, de braço dado, Jurko até a sua guarita, justificando neste caso o provérbio: quem faz paga.

      O fabricante de caixões chegou em casa embriagado e irritado:

        — Mas que. na verdade!— ia falando em voz alta —em que ponto o meu trabalho não é honrado quanto os outros? Será irmão carnal do carrasco  o fabricante de caixões? Do que se riem aqueles hereges ? Será um palhaço de Natal, o fabricante de caixões? No entanto eu queria convidá-los para a nova casa, dar uma festa e tanto; pois bem, nada disso! Convidarei, ao invés, os meus clientes, os meus mortos cristãos.

        — O que diz você, "bátiuchka"?— indagou a empregada que o estava descalçando — que bobagens está dizendo? Benza-se! Convidar os mortos para a nova casa: o que se deve ouvir!"

       — Tão certo como Deus, eu os convido— reatou Adrian — e para amanhã. Por favor, oh meus benfeitores, venham à noite fazer penitência comigo.

        E com tais palavras o fabricante de ataúdes deitou-se e logo principiou a roncar.


        Fora estava ainda escuro quando o acordaram. A comerciante Triubina tinha morrido naquela noite e um seu empregado viera de lá a cavalo até a casa de Adrian com a notícia. Este deu-lhe de gorjeta uns cobres pelo incômodo, vestiu-se às pressas, tomou um carro de aluguel e foi a Razguliai.

         Diante da porta da defunta estava já a polícia e rondavam os traficantes que sentem cheiro de morto como os corvos.

       A defunta estava estendida sobre a mesa, amarela como cera, mas ainda não desfigurada pela decomposição.

        Em torno dela se acotovelavam os parentes, os vizinhos e as pessoas da casa. Todas as janelas estavam abertas; ardiam as velas; os padres liam as preces.

         Adrian se aproximou do neto da Triubina, um jovem comerciante trajado com uma redin gote na moda e o informou que o ataúde, os círios, o pano preto e todos os demais acessórios fúnebres lhe seriam logo remetidos com todo o cuidado.

        O herdeiro agradeceu distraidamente, dizendo que não iria discutir o preço e que se fiava em tudo à consciência dele. O fabricante de caixões, como de costume, jurou por todos os santos que não iria cobrar mais do que era justo; trocou, em seguida, um olhar significativo com o empregado e foi tomar suas providências.

      Por todo o dia esteve num vaivém entre Razguliai e Porta Nikita; à noite tinha ajustado todas as coisas e, dispensando o carro, dirigiu-se a pé para casa. Havia luar.

       O fabricante de ataúdes chegou sem empecilhos à Porta Nikita, Na Ascensão deu-lhe o "alto" o já conhecido Jurko que, reconhecendo o fabricante de ataúdes, lhe desejou uma boa noite.

           Era já tarde. O fabricante de ataúdes, estava já chegando em casa quando, de repente, lhe pareceu que alguém se avizinhava ao seu portão e, abrindo a portinhola, por ali desaparecia.

      "Que significa isso?" pensou Adrian. "Quem é que precisa ainda de mim? Não será talvez algum ladrão? Não serão os namorados de minhas filhas? Não faltava mais nada!"

         O fabricante já pensava em chamar o amigo Jurko para lhe prestar ajuda. Naquele instante mais alguém se avizinhou da portinhola e fêz por entrar, mas vendo chegar correndo o dono da casa, parou e tirou o chapéu de três pontas. A Adrian não pareceram desconhecidas as suas feições; todavia, na pressa, não pôde vê-lo bem.

       —Vinhera em minha casa? — disse ele arfando — entre então por favor.

       —Não façamos cerimônia, "bátiuchka", respondeu o outro surdamente.
      — Vá adiante, abra caminho aos convidados!"

        O momento não era, de fato, para cerimônias. Aberta a portinhola, Adrian encaminhou-se escadas acima seguido pelo outro. Pareceu ao fabricante de ataúdes que, na casa, se movia gente.
       — Que diabrura é essa:! — disse consigo mesmo e apressou-se a entrar … e, então, sentiu-se desfalecer. O quarto estava cheio de mortos.

          A lua, através das janelas, iluminava seus rostos amarelos e violáceos, as bocas cavernosas, os olhos foscos e semicerrados, os narizes salientes ...

       Adrian, com terror, reconheceu neles toda a gente por ele sepultada e no convidado com quem entrara, o cabo de polícia sepultado naquele dia de chuva forte. Todos, damas e senhores, cercaram o fabricante de ataúdes com cumprimentos e saudações, menos um pobre diabo que fora inumado recentemente a expensas do governo e que, envergonhando-se dos seus trapos, não se avizinhou e ficou humildemente em um canto.

        Os outros estavam todos vestidos convenientemente: as mortas com toucas e adornos, os mortos machos, se funcionários, de uniforme, mas com a barba por fazer e se comerciante, com o traje da festa.

         —Como vê, Proborov — disse o cabo de polícia, em nome de toda a respeitável assembléia — levantamo-nos todos ao seu convite; ficaram em casa somente aqueles que propriamente já não podiam, que não têm mais composição, aqueles a quem só restam os ossos, sem a pele. Mas também dentre estes um não resistiu, tanta vontade tinha de vir em sua casa!

          Nesta altura, um pequeno esqueleto abriu passagem entre a multidão, aproximando-se de Adrian. A sua caveira sorria carinhosamente para o fabricante de ataúdes. Farrapos de pano verde claro, vermelho e de um velho tecido lhe pendiam aqui e ali e os ossos das pernas se entrechocavam nas grandes botas de escudeiro, como pilões em dois almofarizes.

           —Você não me reconhece Proborov?— disse o esqueleto. — Não se lembra do sargento da guarda, aposentado, Petrovitch Kurilkin, aquele mesmo para quem, em 1799, você vendeu o seu primeiro ataúde, fazendo passar abeto por carvalho?

        Assim falando o morto lhe atirou os braços de osso ao pescoço mas, Adrian, juntando suas forças, deu um grito e o repeliu. Petrovitch cambaleou, caiu e se desfez todo.

        Entre os mortos ergueu-se um rumor de indignação; todos quiseram defender a honra de seu companheiro, avançaram contra Adrian com invectivas e ameaças. O pobre dono da casa, ensurdecido com os seus gritos e quase esmagado, atordoou-se, caiu sobre os ossos do sargento da guarda aposentado e perdeu os sentidos.


        O sol já, desde há muito, iluminava a cama onde estava deitado o fabricante de ataúdes. Afinal, este abriu os olhos e viu que a empregada soprava sob o samovar. Com terror se lembrou de tudo quanto havia acontecido na noite anterior. A Triubina, o cabo e o sargento Kurilkin lhe voltaram confusamente à memória. Pile esperou em silêncio que a empregada começasse a falar e.o informasse sobre o resultado dos acontecimentos noturnos.


         — Quando você dormiu, "bátiuchka" Adrian Probovetch — disse Aksinia dando-lhe o robe, — esteve aqui o vizinho alfaiate e o vigia veio dizer que hoje é a festa de comissário, mas você repousava e não quisemos acordá-lo.

        — E da casa da falecida Triubina veio alguém ?

         — Falecida? Mas que, talvez ela morreu?
        — Que tola! Não foi você ontem que me ajudou a preparar o seu funeral?

       — O que você está dizendo, "bátiuchka! Você não perdeu o juízo ou então a bebedeira de ontem não passou ainda? Que funeral houve ontem? O dia todo você fêz farra em casa do alemão, depois voltou embriagado, caiu na cama e ddhniu até agora que o sino para a missa já tocou

        — Mas não!—  disse o fabricante de ataúdes, regozijando-se.
        — Claro que é assim— replicou a empregada.
        — Bem, já que é assim, dê-me logo o chá e chame as moças.


[1] Bátiuchka = paizinho. Tratamento respeitoso que se dá aos mais velhos e aos padres.
*Ataúde:  Esquife, caixão.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...