quinta-feira, 8 de maio de 2014

Populismo latino-americano

Que faz o populismo ser tão latino-americano?

            Me pergunto com tamanha consideração, o movimento populista não nasceu em outro lugar senão na Rússia da época de Alexandre II, os narodnik, nobres interessados em valorizar o campo, os camponeses na construção de uma Rússia forte através de suas origens e tradições. Os narodnik inspirados nesse socialismo agrário  lutavam contra o autoritarismo estatal e a retomada da pequena propriedade rural dos mirs, antigos enxertos de terra que foram a base da Rússia antiga nos primeiros anos de sua conversão em principado de Rus, cuja a agricultura familiar era a base social.

         Contudo, a despeito do caráter revolucionário do populismo, com  intelectuais como Pushkin e Dostoievsky acabando por serem exilados por períodos de tempo por suas ligações com esse movimento, que passou a ser cada vez mais revolucionário na figura do Zembla i Volia que passou a ter ações de cunho mais terrorista, o populismo latino-americano é conservador.

             Sim, conservador porque não deseja agir nas estruturas sociais, mas seguir de amalgama entre elas. Em resolver os problemas e tensões sociais com engodos e falsas promessas. O populismo latino-americano é uma cópia do partido populista que se apresentava na época em que os bolcheviques tensionavam tomar o poder, esse populismo na verdade tinha no partido social-revolucionário o maior expoente, com suas ideias bastante simplistas e contrárias ao projeto bolchevique de uma revolução social imediata.

           O populismo latino-americano é um fenômeno gestado na figura do caudilhismo,  onde o Caudilho, uma figura político-militar com um poder local baseado na sua força se sobrepunha a seus comandados a partir do seu carisma e poder e comumente, o caudilhismo levava a guerras entre caudilhos e contra o poder central, "dificultando" o processo de formação dos estados nacionais latino-americanos.

           Caudilhos como Urquiza, Rosas, e outros se aproveitavam de sua mílicia, violenta em muitos casos, para impor suas vontades, mas com a solidificação de sistemas eleitorais nos países latino-americanos, cujo domínio oligárquico das primeiras repúblicas era evidente,  os caudilhos permaneceram  no poder à medida que mantinham um curral eleitoral que legitimava o seu domínio regional e nas capitais.

         O primeiro partido não-oligárquico da América Latina foi a União Cívica Radical Argentina, iniciando um ciclo de ascensão da classe média latino-americana no processo político, entretanto a medida que os números de eleitores aumentavam, os caudilhos conseguiam abarcar também maiores números de pessoas.

         A crise de 29 e uma sociedade fragilizada com os processos dispares socialmente definidos levaram a um campo fértil ao nascimento do populismo, de líderes carismáticos com uma capacidade de convencer as massas de maneira indelével, de negociar com os patrões e sindicatos ao mesmo tempo, de impor o seu projeto apenas pelo prestígio e de se aparecerem como salvadores da pátria. Os Estados Unidos de certa forma também tiveram o seu líder populista, mas que se tratou de outra forma, Franklin Delano Roosevelt.

        Houve um ganho nas seguridades laborais, ao mesmo tempo o Estado garantiria segurança política e jurídica aos grandes proprietários da terra para que pudessem ter maiores lucros, reorganizar a economia e criar uma sociedade de massas. Sociedade de massas sob o controle do caudilhismo. Ao contrário dos Estados Unidos, que tiveram um líder que realmente reorganizou a sociedade norte-americana, o atraso político e a dinâmica interna de redes clientelares na América Latina moldaram o populismo de modo que muitas de suas ideias foram inspiradas no fascismo italiano.

      A organização de uma sociedade única, sem classes sociais, com a manipulação de veículos de imprensa, com grandes comícios e líderes carismáticos e sorridentes,além de sindicatos controlados um espírito de unidade nacional frente ao liberalismo internacional pernicioso são gérmen de um populismo que se finge de democrático a todo momento para ser sacramentalizado pelo povo.

         O populismo nasce na crise de 29 e renasce novamente na década de 50/60, quando o mundo já era outro e o pensamento cepalino tentava moldar a América Latina, a ideia de protecionismo econômico defendido pela CEPAL acabou  sendo engolida pelo movimento populista latino-americana isolando-a das oportunidades internacionais e de sua possibilidade de desenvolvimento. A ótica da Guerra Fria acabou encerrando a ascensão populista devido à intervenção cada vez mais presente da democracia americana de qualquer tentativa possível do ponto de vista teórico do socialismo no poder, iniciando as ditaduras.

        O populismo ficou silenciado, olhando de perto os acontecimentos, enquanto pessoas eram torturadas mortas, estupradas por ditaduras ferozes e homicidas. Com a redemocratização, o populismo saiu de suas cinzas, e no sintagma de inflação descontrolada resolveu-se não ser o caminho mais adequado, mas a partir do grande fluxo de receitas promovido de 2002 a 2008 no setor agroexportador, o populismo apareceu com força no continente promovendo reformas sociais, combate a fome e a desigualdade.

      Num primeiro momento até cumpriu, mas assim que suas ideias começaram a falhar por sua falta de pragmatismo, seus deleites políticos, sua propensão à corrupção e ao próprio charlatanismo de seus líderes, os projetos populistas apresentaram falhas grossais. A inflação nascida desse processo apenas aguçou ainda mais as diferenças sociais entre ricos e pobres, acabando com o poder de compra do trabalhador comum.

        O que é tão latino-americano nisso tudo? A criação de homens santos para a solução de problemas. A ideia de que a liberdade pode ser negligenciada caso se haja melhoria na qualidade de vida, que é admissível a corrupção caso obras sejam feitas em prol do povo. O rigor religioso de suas palavras de ordem e a falta de ideias em seus discursos práticos.

       O fechamento das economias em ciclos de retração e a culpabilização dos outros é sempre um argumento tão sonoro nessas análises econômicas, observando isso, há algo mais latino-americano que isso? Terrivelmente não, o aspecto emocional, a cultura de enfrentamento, os discursos  acalorados, o vazio político introspectivo de uma sociedade onde o país surgiu antes da nação são aspectos de um caldeirão cultural que procede de anos e anos de domínio ibérico e autoritário imposto por trezentos anos de colonização.

           Poderíamos ter feito o rádio, desenvolvido o programa espacial, ou a fusão nuclear, mas criamos o populismo contemporâneo e adoramos usá-lo para nós ferrar... Os grandes pais não possuem grandes respostas, pois são pessoas como outras quaisquer, se damos ouvidos hoje, amanhã eles serão os fascistas que atacarão com tanques e balas de fuzil. O populismo é o câncer que dilacera as veias abertas da América Latina.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalhador

         Hoje resolvi caminhar um pouco pelo meu bairro, coisa que não fazia há um bom tempo. O calçamento das ruas foi mudado, os ladrilhos de pedra portuguesa foram removidos de forma violenta, desnudando a terra vermelha e ao lado desenvolvia o asfalto da ciclovia, pedestres e ciclistas dividiam o espaço estreito próximo aos carros.

         Embora isso fosse uma coisa pequena, fazia parte do que eu me lembrava do lugar onde eu pensava morar, o calçamento de ladrilhos que me remetia a ideia de uma pequena Copacabana sem praia no Planalto Central, com a sombra de mangueiras e amoreiras, mas isso não era nem parte do processo.

          Andando mais um pouco encontrei dois prédios novos, gigantescos, em meio às casas, coisa que não tinha antes, e esses prédios feriam o antigo planejamento da cidade, mas não se pode ser reacionário ao ponto de querer voltar ao passado.

           Continuei andando, encontrei carros importados nas pistas, BMWs, Mercedes, mas perto de uma marquise de uma padaria encontrei um velho pedindo esmolas sendo ignorado por todos. Em um momento estranho a mim mesmo, eu me compadeci com aquele senhor e queria ter dado algo que ele pudesse comer, mas ao invés disso dei uma moeda de um real.

             Sorridente, deixou os dentes apodrecidos se mostrarem de soslaio, e me agradeceu com tamanha veemência que fiquei constrangido, dei um curto sorriso e com um gesto mostrei que não era necessário me agradecer. Não sei se ele usou o dinheiro para comer ou para comprar uma pinga, e caso tenha sido, também não me importo, mas eu me identifiquem com ele em uma medida. Nós dois éramos dois deslocados num local que mudou num piscar de olhos.

               Talvez fôssemos duas vítimas de um processo cada vez mais presente de concentração de renda, ele com certeza era na medida que ele sofria diretamente já que tinha sido levado às ruas, seja por problemas econômicos, vícios ou mesmo de ordem psicológica, em todo caso ele era uma vítima. A outra vítima que se apresenta é mais indireta, que sou, porque eu estou inserido no sistema, mas não tenho um horizonte de expectativas definido, tal como muitos jovens como eu, e estou me sentindo cada vez mais deslocado no local em que escolhi para morar

            Não sei se estou muito sensível a certas coisas, talvez sim, mas não tinha costume de dar esmolas, mas encontrar uma pessoa em pleno dia do Trabalho implorando por alguns trocados me partiu o coração.

              Eu era jovem, branco e sadio, ele era velho, caboclo e doente. Duas faces diferentes, mas iguais num processo, ambos estávamos deslocados, e percebi que aquele era um possível futuro que irei ter se não for enquadrado no sistema. Sistema fraudento, amoral e ainda assim universal.

              Os jornais mentem mais do que tudo, o otimismo não está mais nas ruas, não está nos números tampouco está nos olhos de cada um, os sonhos de antes se foram. As ruas que antes eu passava mudaram, as casas antes planejadas, cheias de árvores, calçadas de pedestres e um bucolismo apaixonante passaram a ser tomadas cada vez mais por arranha-céus.

              Pessoas ricas transitam onde antes não havia ostentação, apenas uma vida pacata e tranquila, enquanto os pobres se somam nas marquises dos prédios, nas praças ou nas paradas de ônibus tentando conseguir algo para si. Viver num local assim anda cada vez mais difícil. Bem vindo a um país que se diz governado por trabalhadores, bem vindo a um país estranho no Dia do Trabalhador.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Gravata de seda

Eu tinha uma bela gravata
Uma gravata vermelha
Coisa de croata
De nó fino e bem cortado

Eu adorava aquela gravata
Principalmente por ser de seda
Gravata é algo que sempre achei diferente
Talvez pelo formato, ou pelo nó

Quando usava gravatas
O maior problema é dar o nó
Windsor, Italiano, Duplo nó
Às vezes um martírio

Deixei de usar gravatas
Deixei de usar um dia
Não por achá-las feias
Nada disso

Gravata é algo cultural
Sempre vi assim
Cultura cuja saliência
Virou mundial

Gravata é corruptela de croata
E servia de fecho para camisa
Mas quando soube disso
E pensei na camisa de botão
Deixei de usar gravatas

Gravatas são um nó
Uma coleira social
Não sei por que, mas prefiro paletó
Sem gravata alguma

Além disso não sei dar nó
Não sei amarrar cadarço
E muito menos falar de outra coisa
Senão de gravatas

As gravatas borboleta
Combinam com black-tie
Ou um belo smoking inglês
Mas não combinam com o terno slim

Terno tem que ter três botões
Conforme tradição
Gravata tem que combinar com camisa
E com a estampa da peça

Não sei, gravata me divide opiniões
É uma coisa inútil que prende seu pescoço
Engrossa sua voz e te deixa diferente
Mas acho ainda assim bonito
Impõe respeito

Mas gravata?
Qual o sentido disso?
Não sei, eu comecei a pensar em gravatas
Listradas, lisas de bolinhas
Gravatas

Gravatas combinam com lenços
Que combinam com meias
Que devem ser escondidas na barra da calça
A qual deve estar alinhada junto ao calcanhar

O corte de um terno é algo milimétrico
Assim como o fio trançado de algodão egipcio
Um paletó é a qualidade de um bon-vivant
E isso eu sei ser muito bem

Gravatas de seda
Me lembram folhas secas
E de amores perdidos
Por novos tempos
E novos sentidos

Gravatas são tão inúteis
Como as paixões que nos prendem
Cada vez mais ao passado
E as canetas escrevem histórias
Que devem ser apagadas com o tempo

Uma gravata vinho
Outra listrada
Ambas combinam
E ainda assim são inúteis

Para quê fechar a gola
Se está quente
E se tem um botão?

Mas que bordão
nada mais fino
do que uma gravata

Estou pensando nessa gravata
Como se não sinto nada
Mas perdi meu amor hoje
E tudo que tenho é esse sentimento croata
De balcânico acometimento

Ela foi embora levada pelo vento
Nesse longo discurso rabugento
Quero ficar sozinho
Analisando a gravata de seda

Papel, caneta, relógio
Gravata, cinto e sapato
Coisas tão pequenas
E tão definidoras

Ela também era pequena
E ainda assim dói mais que um elefante
Partindo em matilha levando meu coração

Seda...gravata de seda

terça-feira, 29 de abril de 2014

Medo

Estou com medo
Bastante medo
Minha menina
Minha querida

Sei que não levará a nada
Desejar ficar apenas mais um centímetro
Mais próximo de você
Pois me sinto distante
Não só de ti como de mim

Prefiro ficar calado
Prefiro sentir
Só não quero ficar parado

Não tenho olhos senão a você
De verdade, eu não costumo mentir
O tempo passou e estou cada vez mais
Preso ao passado
Mas quero ficar com você nesse futuro

Queria ter forças
Ou capacidade de mentir
Para esconder minha sinceridade
Mas não sinto isso

Eu tenho ócio como religião
Nesse grave momento
E você atua cautelosamente
Como femme fatale
Próxima a me dar um bote

Acho que estou de novo
Mais uma vez
Apaixonado
E nem lembro de ter me preparado

Você é indecisa
Como um gatinho
Você deve estar decidindo
Se quer me massacrar hoje
Ou amanhã
Tal como se brinca com um ratinho

Ou será que sou um novelo de lã?
Eu realmente não sei
Você é diferente
Eu não sei ao bem
Estou meio cego

Devia ter me calado
Do que abrir o jogo
Quero ir embora
Mas embora pro seu lado

Adeus
Realmente adeus
Você não quer nada comigo
E nesse triste destino
Um tom triste
Um soneto de violino
Parte-me o coração

Adeus
Eu acho que estou apaixonado
Com seus olhos
Com sua boa
Seu sorriso
Seu jeito
Estou apaixonado

Invariavelmente perdido
E com um olhar maldoso
Um olhar felino
Você adentra e destrói minhas certezas

Eu sou uma formiga
E você é uma rosa
Sou formiga de palavras
Você é uma rosa de sabores

Eu só tenho trabalho
De troçar com as letras
E você de troçar comigo
Por simples passatempo

Triste; Tenho que ficar só
Tenho que me calar
E me sucumbir até o pó

Tento me convencer de te esquecer
Não consigo
Como pode isso?
Por que não querer ficar comigo?

Nem eu
Nem você
Sabemos disso

Adeus
Eu sempre estou
Estarei
Contigo

domingo, 27 de abril de 2014

03:59

Não sei se
Eu perdi meu caderno
Ou perdi você

Não sei se isso foi um recado
Ou se tudo deve ficar no passado
O fato é que tenho medo
Bastante medo
De não ter  a chance de ter você junto comigo

Estou com muito medo
De não encontrar aquele bilhete
Que tinha deixado dentro do caderno
E acabar me esquecendo
O que é você

Acho que me perdi nesse processo
Acho que passei a ser mais tolo
E esquecido do que é importante
Nessa vida

A ditadura das palavras
Não sinto falta alguma
Tampouco sinto falta
Das maldades maternas
Ou das fragilidades juvenis
Que adentram em nosso peito

Inadvertidamente
Só tenho uma coisa na mente
Eu quero estar com você
Quero namorar com você
Viver
E se for o caso, até casar

Sim, eu teria filhos
Sim, eu largaria tudo
Tudo por um pequeno torrão de esperança
Que vejo todo dia que esboça um sorriso
E que belo sorriso!

Você me oferece o incerto
E o incerto me seduz tanto
Muito mais do que é o tédio
Da rotina suburbana repleta de brigas
E picuinhas pequenas

Basta-me a ideia dos outros
Apenas nós que importamos
E digo nós porque eu gosto de você
E eu acho que você gosta de mim

Afinal uma flor pode ficar sem sua luz
Ou um papel sem sua tinta
Você me tinge de sentimentos
Tão diversos que fico bastante colorido

Não sei se me faço sentido
Mas me sinto consolado
Quando sento-me e fico do seu lado
Quando te ouço
Sob seus enigmas e olhares silenciosos

Você é diferente das outras
Há algo que me seduz
Que não sei o que dizer
E isso me deixa perdido

Acho que gosto de me perder
Sempre que me perco
Eu procuro a luz no fim do túnel
E leio sua pequena receita de bolo de cenoura
Escrita com carinho delicado de menina

Nada soterra
Nesse momento
Nada me leva
A desistir
de querer ficar contigo

Eu estou farto dessa vida
Tanto quanto você
Percebi isso
Vamos viver juntos
Vamos viajar juntos

Nada importa agora
Nada
A não ser o que sinto por você
E sou tão jovem
Mas aqui envelheço tão rápido

Nunca ficamos juntos
Mas isso não é empecilho
Querido raio de sol
Quer ficar comigo?

quinta-feira, 24 de abril de 2014

23:51

Não quero te enganar
Sobe nenhum minuto
Que sou uma casaca
Vazia de papel fechado

Não quero mentir
Ao dizer que sou um pedaço
De rascunho no papel amassado

Não quero falar
Que sinto o que sinto
Sem te olhar escondido

Queria te abraçar
E beijar a cada segundo
Mas sou tão taciturno
Que prefiro ficar calado

Não quero que ouça
Não quero que veja
Ou leia muito menos
Tudo que sinto

Seus enigmas
Meu silêncio
Somente meu silêncio

Hoje quero ficar sozinho
Pensando em você comigo

23:39

Sua ausência
Bate porta
Na clareira
E sinto sua falta
Junto a mim
Nessa cadeira

Meu coração bate
Bem rápido
E acelerado
Esperando surgir
Num ritmo errado
Quando olho pra você

Quase nada falo
Mas desejo tudo
Pois no caso
A vida é um noturno

Soneto de palavras
Cujo sentido
Corta marcas
No coração perdido

Acho que te amo
Tanto meio sóbrio
Quanto bêbado
E te amo
Porque te amo
Olhando nos seus olhos
E me apaixonando dia a dia

00:41

Pois bem
Descobri que acho
Que você escondia
Certo enigma
Cuja verdade
Era uma caixinha de surpresas
Como outra qualquer

Não sei se digo
Se estou surpreso
Ou mesmo convencido
Mas acho que nisso
Devo ficar calado

Você naturalmente
Tinha algo comigo
Que não era amor
Nem sentido
Apenas amizade
E affair desmentido

Não fui surpreendido
De forma alguma
De forma lógica
Eu previa

Previa tão bem
Que hoje preciso
De um pouco de vinho
E ficar sozinho
Pois tenho medo
De ficar perdido

00:33

Não se pode ficar zangado
Com um lírio do campo
Cuja delicadeza
Tece pétalas tão delicadas
Na sombra do papel

Não há como ficar zangado
Sabendo o quanto que sinto
Um tanto apaixonado
De ficar bobo
Por alguém como você

Não posso dizer
Que não sinto um pouco de medo
Um tanto de agito
Quando pressinto o perigo
De nunca vir a ter
Outro amor e outro sentimento
Maior do que você

Amo pensar em você no silêncio
Silêncio das noites em claro
Cujo sentido não admiro
Por olhar de soslaio
A foto do seu perfil

Que coisa mais infantil!
Sentir algo em silêncio
Falar tudo que penso
E tremer na hora
Que mais que o seu beijo

Mas romântico como sou
Tenho medo que sinta
alguma espécie de raiva
Quando diga que o arrastar
dos meus pés faça
marcas no piso
de tanto me prostrar quando
estou com você

Você não imagina
O quanto é difícil
Resolver esse enigma
Que é descobrir um pouco
Um pouco mais de você
E continuar apaixonado
Cada vez mais sabendo
Que estarei perdido ao seu lado
Perdido com a minha mania de me perder

Não perdi só a chave de casa
Não perdi a chance de rimas
Perdi a oportunidade
De querer mais você
Te abraçar e te beijar
Mas mais do que isso
Aninhar seus cabelos
E dizer que te amo em silêncio

Dois lírios

Nossa vida se traduz num suspiro
Cujo pouco agito
Corta o vento em dois
E tinge o lírio de azuis

Minha vida é uma brincadeira
Cuja intensa saideira
Brinca de ginete
Em samba de falsete

Não quero que se ouça
De minha pequena boca
As risadas sonoras
Ou palavras sinceras
De um coração vazio

Pois sozinho
Nessa noite
Tudo que penso é em ti
Cujo olhar penetrante
Adentra sobre mim

Tenho medo de você
Mais do que isso
Tenho medo de ficar sem você

É algo que chega a ser forte
Tão forte de tal jeito
Que chega a doer o peito

Você me arranca suspiros
Com dois pequenos sorrisos
E eu fico vermelho no rosto
Pensando em ti junto ao meu corpo

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Fumaça do tempo

      Não creio que a chuva apague as pegadas na terra nua ou tampouco molhe meus cabelos tão rápido a ponto de ficar completamente encharcado, pois na tez mais sinistra  das noites em claro que vivencio tenho divagações tão introspectivas que assusto-me com a mínima ideia de me perder nos meus próprios pensamentos.

      As metas são inúmeras e não creio que sejam poucas a ponto de ser negligente com noites em claro, de fato nem desejaria momentos tais de insônia, mas é algo que os olhos meramente sintéticos abusam de meu cansaço e não me permitam dormir novamente; Queria saber tais motivos que rondam tamanha inquietação, mas sob o pêndulo de um relógio, a verdade é que a feiura com que a existência humana se preenche corrompendo as palavras, os mínimos vocábulos transilvanianos, melindrando apenas verbetes de natureza pouco ortodoxa.

       De fato, os encontros consonotais, os hiatos com que a vida nos prega deixa-nos cada vez mais impacientes a cada minuto, o dia encerra-se de maneira cada vez mais demorada, o pôr-do-sol, que antes era um companheiro de reflexão, hoje só é um engodo, pois me lembra das noites em claro que vivo me remexendo na cama, com a consciência um tanto pesada ou mesmo preocupações futuras. A insônia corrompe-me por dentro e a fumaça do tempo não se esvai rapidamente, muito pelo contrário, a sua lentidão cada vez mais trágica constitui um obstáculo ao meu subconsciente cada vez mais complexo e transtornado de tantos traumas e contratempos.

     A valsa corre em uma frequência de três para um, assim como a frequência de um batimento cardíaco pode variar de 80 batimentos por minuto a 120, nada comparado com a frequência por exemplo das microondas ou os raios gama. Raios gama, tão cancerígenos que chegam a queimar nossa pele, adentrando em nossa alma, todos os dias tenho a sensação de estar me expondo a um bombardeamento de neutrinos no interior de um reator de fissão nuclear, obliterando uma cisura junto ao meu peito cuja abrangência corta-me por inteiro, irresponsabilidade minha é claro comparar-me a tal iniciativa, mas sinto que é um desabafo deveras conveniente ao ritmo de estafa com o qual estou sendo submetido de forma arbitrária pela vida.

      E de quebra, eu não consigo dormir. Há maior maldição que isso? Duvido sinceramente.

      E com minha falta de sono, não produzo nem uma sombra de versos, nem uma centelha de palavras, e como bon vivant que sempre fui, tenho medo de perder minha habilidade em tocar o alaúde em honra de meus antigos e novos amores desafinando minha voz e minhas rimas. Entretanto o padrão ternário da música ocidental apresenta um aspecto bastante convicente sobretudo na dita música de orquestra, quando observamos músicas compostas por Lintz, Beethoven, ou mesmo Chopin, isso não é comparável às batidas do fox-trote ou do samba de raízes que são tocados em harmônia com  as batidas de um coração sofrido e apaixonado.

      Noel Rosa juntamente com Carlos Gardel, cada um a sua maneira, remontam uma construção nacional consolidada a partir da música, entretanto Noel Rosa se difere pela crítica social contundente em versos e palavras com um humor carioca carregado, típico de Vila Isabel, enquanto Carlos Gardel é romântico em demasia ao chorar suas dores de uma Argentina patriarcal, romântica e vitoriana. O samba é coisa de cabra trapaceiro, malandro da melhor esquife, enquanto tango é coisa de cavaleiro platino, gaucho das pradarias, choroso com um mate e um bom chimarrão.


       Isso não produz senão maiores divagações epistemológicas de um indivíduo cuja insônia transtorna sua capacidade intelectual, que sempre foi uma medida muito questionável. Mas esse cérebro cansado de muitas noites tenta abandonar o seu apego ao sono e se esforça cada vez mais ao trabalho, mesmo não produzindo nem uma centelha no papel armado, Curioso, até, pois o lapso criativo que corrói as vísceras desse escritor há meses não lhe tira a capacidade de divagar sobre o vento, de modo que um texto nasce de uma simples necessidade de dormir.

       Infértil no campo das ideias e no campo amoroso, estanque em sua concepção materialista sobre a aula, o velho marxista cansado continua a circunscrever ideias sobre a mente do corpo ainda jovem de duas décadas, e de maneira tão distante, há pelo menos noventa anos, estão as concepções lógicas desse rapaz.

        Ele não dorme, e continua transtornado, tentando inutilmente se esforçar a ler um livro, ou meros versinhos que gostaria de escrever a um amor platônico que nunca se esforçará a vê-lo, de modo que cada vez mais amargurado se inscreve na penumbra da noite que adentra sobre o cômodo fechado. As estrelas pintam aos poucos o céu pela janela de ferro branco, corrompendo a mente já cansada com ideias cada vez mais utópicas:

       " A Terra é o berço da Humanidade, mas não se pode viver no berço eternamente"

       E como seria belo lançar-se ao Espaço numa nave-estelar, mapeando o desconhecido como um Vasco da Gama ou um Cristovão Colombo, conhecer novos mundos, estudar novas formas de vida e novas civilizações, indo, audaciosamente indo, onde nenhum Homem jamais esteve. Esse homem moderno e ainda assim antigo, tendo o poder da física nas suas mãos, a internet nos seus dedos, mas ainda bastante selvagem para controlar seus impulsos.

       Os sonhos aparecem mesmo com os olhos abertos e escancarados, e eu desisto de perguntar a razão para tão pouco vontade de dormir, pois meus olhos sonham abertos e minha mente sonha com minha alma, de toda a forma a fumaça do tempo não me fará esquecer o quanto eu estou preso de corpo e alma a esse coração primaveril que não decide em parar de se apaixonar.

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A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...