sexta-feira, 13 de junho de 2014

A crise da Ucrânia não começou esse ano, começou em Yalta




            A eclosão da grande crise internacional se deu na Crimeia, mas não em 2014, mas em 1945. Hoje, sob os resquícios de quase setenta anos do grande plano de divisão mundial sob a égide da luta contra o fascismo internacional, a Crimeia novamente é o palco mundial.

            A Ucrânia tem a desgraça em viver sob dois mundos, sob a Europa e sob a Rússia e foi nessa coexistência que o antigo país soviético continuava existindo, a questão é que a situação da Ucrânia não é tão simples quanto a gente imagina: A Ucrânia é o berço natal da cultura russa, é a grande arca da Aliança entre o povo russo com a ortodoxia e a sua história remete desde  a formação do Principado de Rus' em Kiev, pelo grão-príncipe Oleg, filho de Rurik, o Grande. Ali se formulou as bases do primeiro reino sob as estepes russas, onde houve a codificação das leis e os costumes na Russkaya Pravda na época do grão-príncipe, Vladimir, o sábio.

            Após a imigração dos varegues (normandos) às estepes russas no século VIII, com a chegada a corte de Rurik, um nobre viking à Rússia à convite das tribos eslavas existentes naquela grossa faixa de terra repleta de florestas, pradarias e pântanos, formou-se a primeira agremiação de estado centralizado em torno da Grã-Cidade de Novgorod. (Novgorod literalmente quer dizer “Nova Cidade”) e após as investidas do incipiente principado  sob as tribos eslavas ao sul, e as tribos fino-úgricas ao norte, Oleg Rurikevich (“filho de Rurik” e descendente do trono de Novgorod) acompanhado de alguns cavaleiros normados e homens armados de Novgorod desceram sob o Dnieper e conquistaram a cidade de Kiev, a qual se tornou a capital do novo estado que se formava;

            “Askold e Dir desceram o Dnieper e viram uma cidade sobre a colina e perguntaram: “que cidade é aquela?” E os habitantes responderam: “Eram três irmãos, Kii, Chtchok e Khorik, que fundaram esta cidade (Kiev) e morreram. Nós pertencemos ao seu clã” Crônica de Nestor (1110-1113) .


            Kiev tinha sua importância por ser uma ponte de ligação entre Novgorod e o Império Bizantino e consequentemente Novgorod era a ponte de ligação de Rus’ com a Escandinávia, de modo que a construção dessa ponte de ligação germinou a formação do principado em questão, e posteriormente, após os sucessos comerciais dessa ponte de ligação, Novgorod, assim como Pskov e outras cidades do Báltico vieram a integrar a Liga hanseática.
            Kiev é mãe das três Rússias, a Rússia Pequena (Ucrânia, literalmente “a terra da fronteira”), a Rússia Branca (Bielorrússia) e a Rússia propriamente dita. Após lutas sucessórias e assassinatos de regentes, os descendentes de Oleg dividiram o Principado de Rus’ em vários pequenos principados fracos e francamente com uma tênue ligação entre si.
            Isso facilitou as invasões sazonais de kipchaks e pechenegs (tribos nômades e guerreiras de origem túrquica) ao território de Rus’ que teve que aprender a lidar com as invasões com as vias das armas, mas isso não obrigatoriamente deixou a Rússia imune a um invasor ardiloso e bem treinado. Os mongóis.


“Para nossa desgraça, tribos desconhecidas apareceram” Crônica de Novgorod, 1224.
           
        O general mongol Subodei iniciou uma cruzada de expansão do Império Mongol para o ocidente e rapidamente os soldados desse líder, arregimentados em regimentos de cavalaria altamente organizada em arco e flecha de extrema velocidade e poder de fogo puderam dominar sem muito sacrifício a região do Cáucaso tomando sem muito sacrifício a região da Ibéria e da Geórgia Medieval, esse pequeno país se tornou o primeiro estado-vassalo dos mongóis na Europa.



         O exército mongol continuou o seu avanço para o Ocidente, chegando à planície extensa na parte norte Mar Negro, essa porção de terra viria a se constituir a parte sul da Rússia e a Ucrânia. Contudo, os principados russos  conseguiram se unir contra o invasor, Smolensk, Galich, Chernigov, Kiev, Volinia, Kursk, Suzdal e tantos outros. Sob a liderança de três exércitos, liderados por três príncipes respectivamente chamados Mstislav, que representavam Galich, Chernigov e Kiev se digladiaram contra os mongóis.
            Mstislav Romanovich, de Kiev, trazia consigo o maior dos exércitos, incluindo dois genros e a medida que os mongóis chegavam, menos os russos estavam dispostos a negociar, chegou ao ponto de todos os dez embaixadores enviados pelos tártaros terem sido mortos pelas mãos dos russos.


Num tropel de cavalos que reverberava a terra negra dos bosques russos, os mongóis iniciaram uma escaramuça contra os principados russos, atraindo-os para uma armadilha junto ao rio Kalka e conforme as crônicas do período diziam, cerca de 40 a 80 mil soldados russos contra o dobro de mongóis foram derrotados pela ação bem arregimentada da cavalaria tártara, e os principados russos, onde a Crônica de Novgorod chegava a estabelecer que “um em cada 10 homens voltou para casa”,acabaram sendo derrotados e subjulgados de forma bastante tênue a partir  do pagamento de impostos.


Os russos sempre viram os tártaros como flagelos de Deus, embora fossem eles próprios que com sua experiência trouxeram a primeira forma de estado centralizado da Rússia. Os russos devem muito aos mongóis, não só pela formação de um estado arregimentado em uma hierarquia sólida, como organismos de vigilância bastante violentos e eficazes, além da construção de uma sociedade agrária e dissociada da Europa.


A Rússia se desenvolveu razoavelmente bem nesse período sem a Europa, mas após a unificação imposta por Ivan, o Terrível, a Rússia iniciou uma longa expansão para a Sibéria e para o Ocidente, enfrentando agora as potências europeias.


A subjugação dos principados russos ao Khan do Canato de Kazan trouxe um dilema, os principados rutenos passaram a ser incorporados um a um por meio de guerras e tratados de anexação com a República das Duas Nações, formada por Polônia e Lituânia, formando um bolsão agrícola dessas duas nações formadas a partir do reinado de Jagiello, na maior nação europeia no Centro-Leste, e a Polônia possuía enorme influência nos pântanos da Bielorrússia e nos campos de trigo da Ucrânia Ocidental e Oriental.


A despeito das tentativas de Ivan, o Terrível em trazer essas terras para o jugo moscovita as tentativas se demonstraram falhas principalmente depois de sua morte, quando a Rússia passou pela  Época das Adversidades que só terminou em 1616, quando os Romanov subiram ao trono para uma eleição.


Os poloneses à essa altura eram profundamente odiados pelos russos, os mesmos russos que tinham subjugado os tártaros com a conquista de Kazan nas campanhas de Ivan, o Terrível, tinham voltado os olhos ao ocidente. Os poloneses representavam um engodo, e mais do que isso fomentavam inúmeras intrigas palacianas no Kremlin, desde colocar dois monarcas falsos (Episódio dos Falsos Dimitris) até invadir Moscou e incendiar a cidade, os poloneses também foram acusados de crimes bárbaros contra a população civil, de forma descrita na história de Ivan Susanin.


A Polonia novamente tinha entrado em guerra contra a Rússia e os moscovitas se preparavam para o cerco das armas de guerra e da cavalaria polonesa, a defesa da cidade ficou ao encargo de um boiardo chamado Dmitri Pozharsky e um tártaro que tinha feito juramento à Moscou, Kusmá Minim, esses dois mobilizaram a população da cidade para um esquema de barricadas e defesas das torres que resultou numa vitória contra os poloneses.


Nesse ínterim, as eleições para um novo czar transcorriam entre as famílias nobres para a estabilização da Rússia frente às ameaças externas e os poloneses cientes disso viam com malgrado a ideia da ascensão de um Romanov, sobretudo pelo fato que os Romanov eram uma família proeminente na época de Ivan, o Terrível. A primeira esposa de Ivan IV era uma Romanov e os Romanov notabilizavam-se por uma aversão ferrenha aos poloneses.


Ivan Susanin era um camponês ao que tudo indica, os poloneses corriam em direção aos bosques de Alexandrovo para assassinar o herdeiro do trono, Aleksei Romanov, contudo encontraram esse velho camponês no caminho que disse saber onde se encontrava o futuro czar. Por alguma sorte, Ivan Susanin conseguiu enviar alguém para avisar os Romanov a tempo e conduziu os poloneses para um caminho errado, quando os polacos perceberam a artimanha, puseram a fio de espada o pobre camponês. 


“Uma vida por um czar”, esse era o título da ópera de Mikhail Glinka em sua homenagem, mas a realidade é que a mudança trazida pelo príncipe Aleksei foi trazida apenas com o nascimento de seu filho, Pedro, o grande. Responsável pela abertura da Rússia à Europa e a retomada do projeto de expansão ao ocidente, com isso, e a aliança entre a monarquia e os cossacos datada do século XVII, o ciclo de expansão russa se iniciou a partir de sucessivas guerras contra os tártaros da Criméia, vassalos dos turco-otomanos, e contras os suecos, livônios e poloneses, tendo a maior repercussão foi a participação russa na Guerra dos Trinta Anos.


Após a vitória dos russos sobre os suecos, que resultou na completa desmobilização do exercito sueco e a abertura de um regime de base parlamentar nesse país, a Rússia tomou seus aspirados domínios do Báltico e a Finlândia.


De toda a forma, a gérmen do pensamento eslavo mantinha-se de certa forma no circuito entre Novgorod, Vladimir, Moscou e Kiev, de modo que a grande potência que se formava tinha bases tradicionais ainda bem aguçadas com os Principados Russos.


A despeito do domínio russo sobre a Ucrânia, os ucranianos se conservaram sem grandes problemas ao Império, retirando os levantes camponeses de Stepan Razin, que ocorreram sazonalmente em decorrência da fome ou da administração ineficiente do Império.


A Ucrânia, tal como outras partes do Império, se traduz como um grande celeiro produtor de carne e trigo, com uma das terras mais férteis do mundo. De fato, a Ucrânia tinha uma industrialização incipiente quando estava na virada do século XIX para o XX, com industrias pontuais em Kiev, Kharkov, Donetsk e Odessa. Odessa se caracterizou como o grande porto de contato e de exportações com a Europa, enquanto Sebastopol se caracterizava por ser uma base militar bastante importante.


Os ucranianos embora povos irmãos dos russos se viam desconfortáveis com a sua condição de pobreza e abandono por parte dos governantes moscovitas, embora tenha outras razões culturais, a iminência de um antissemitismo por parte de algumas populações ucranianas, sobretudo em Odessa levou a massacres sucessivos de judeus nos guetos, e com a complacência dos próprios administradores czaristas, cada vez mais intolerantes à outras agremiações religiosas no processo de russificação das nações, os pogroms se proliferaram no reinado de Nicolau II.


Acredito que essas é uma das bases de alguns judeus, revoltados com sua pobreza e com a sucessiva violência a eles infligida, optaram por uma via mais revolucionária de resolução dos seus problemas, de modo que Odessa e outras localidades da Rússia se tornaram antros revolucionários, e até mesmo uma revolta naval, a do Encouraçado Potemkin foi feita.


Em termos leigos, a Primeira Guerra Mundial resultou num grande fiasco para a Rússia, além de ter levado à mortes sucessivas de soldados, ter mostrado o despreparo do exército russo, baseado num modelo francês de guerra, e ter acabado no fim com a autocracia, levou a um governo provisório fraco e sem representatividade definida.

Com o avanço dos alemães na fronteira russa e a assinatura do Tratado de Brest-Litowsky, porções da Rússia, como a Polônia, os países bálticos e a Ucrânia caíram  nas mãos dos alemães, levando à indignação dos ocidentais. O domínio alemão na Ucrânia nunca foi algo bem definido, e os alemães não tinham meios logísticos ou de força para obter os grãos que tanto esperavam. E no caldeirão revolucionário resultante de Outubro de 1917, os camponeses ucranianos iniciaram uma revolução antes da revolução das cidades, bem como formaram exércitos de luta tanto contra os alemães, contra os bolcheviques e guardas brancos, o exército negro de Makno, e  o exército verde de nacionalistas ucranianos.


A Ucrânia foi o maior palco de atuação na Guerra Civil Russa depois da Sibéria e do Don, pelo menos cinco exércitos se digladiaram em seu território, cada um com matiz ideológica diferente, e com a eminência de uma vitória bolchevique, que se mostraram mais fortes e organizados, os nacionalistas ucranianos solicitaram o apoio dos poloneses contra a Rússia. A Guerra Polaco-Soviética.

No esforço de guerra os soviéticos tomaram medidas completamente autoritárias como o confisco da produção agrícola dos camponeses, como produto do comunismo de guerra, e os camponeses não contentes com isso queimavam a sua produção e resistiam à guarnições do Exército Vermelho.


Quando finalmente a guerra acabou e o comunismo de guerra foi substituído pela NEP, o que se observou nada foi do que um país em frangalhos tentando se reconstruir. A reconstrução da Ucrânia foi particularmente mais difícil do que a da Rússia, primeiramente por sua economia estar mais atrelada ao campo, que havia sido destruído por quase quatro anos de guerra civil, e a indústria tinha sido deixada a um plano de pouca produção operacional.


A retomada do crescimento econômico da NEP produziu dividendos aos camponeses médios, os kulaks, que passaram a vender a sua produção ao governo. Contudo em 1929, o governo de Iosef Stálin decidiu que a NEP vinha cavalgando a passos lentos e  para financiar o Primeiro Plano Quinquenal, o governo passaria a exportar a produção de grãos no exterior para obter dinheiro para promover uma rápida industrialização. Nisso o governo tabelou os preços dos grãos e os camponeses, e com a recusa dos camponeses em vender os seus produtos sob os baixos preços tabelados pelo governo, levando o governo bolchevique a designar grupamentos do Exército Vermelho e do OGPU a confiscar a produção agrícola, além  de deportar famílias inteiras para a Sibéria;


A fome grassou de forma absurda na Ucrânia em decorrência da grande seca de 1931-32, levando a dez milhões de pessoas à inanição, e outras tantas a um fluxo migratório forçado às cidades em busca de comida, entretanto o regime instituiu novamente o regime de passaportes internos para conter o fluxo de pessoas, levando mais gente ao encontro da morte.

Não foi à toa que com a invasão nazista à URSS, em 22 de junho de 1941 alguns ucranianos saudaram com euforia as tropas alemãs, principalmente depois de anos de repressões, fome, e destruição de templos por causa dos bolcheviques (era comum serem levados os sinos das igrejas para serem fundidos e formarem posteriormente maquinário para a indústria soviética).

Contudo a dominação nazista na Ucrânia se revelou mais brutal que a soviética, com grupos de trabalhos realizando matanças generalizadas, sobretudo de judeus, com apoio de carrascos ucranianos (wigs) e muitas vezes levando à população civil à morte por fome, como foi no caso da ocupação de Kharkov. O movimento partisan ucraniano não chegou a ser tão famoso como o bielorrusso ou iugoslavo, mas não demonstrou ser menos importante.


A Ucrânia e a Crimeia foram retomadas no início de 1944 e a junção de forças concentradas na Ucrânia levaram a formação do 1 ° Exercito Ucraniano sob o comando de Ivan Koniev, o qual além de ter tomado Budapeste, foi responsável pela tomada de Praga e também em certa parte de Berlim.

Com a criação da ONU e de novos organismos internacionais, os soviéticos exigiram que a Ucrânia tivesse representatividade no conselho da ONU, o que foi aceitado com certa relutância pelo anglo-americanos, a Guerra Fria se consolidava e após a isso, nada seria o mesmo.

Yalta, 1945. Nesse balneário turístico, e casa de verão do czar na Criméia os líderes ocidentais, Roosevelt (bastante debilitado na época) e Churchill (bastante raivoso) reuniram-se com Stálin para decidir o destino do mundo a partir de então, a vitória dos Aliados era dada como certa, e era questão de  tempo para se tornar fato consolidado.


Conta-se que a despeito das brigas internas, Churchill se demonstrou preocupado com a situação da Polônia, de fato, a Polônia tinha sido uma das razões pela qual os ingleses entraram em Guerra. A questão que o 2° Exercito do Front Bielorrusso de Rokossovsky tinha tomado Varsóvia num espírito de rixa com seus próprios aliados, e após o desastre da insurreição do Armia Krajowa ficou claro que os soviéticos desejam ter um domínio claro na Polônia.

Com as propostas de Stalin para dividir a Alemanha em três (Inglaterra, Estados Unidos e URSS, a França não fazia parte da conta) para evitar um ressurgimento do militarismo alemão, a ideia de bipartição do mundo se tornou eminente, onde o Exército Vermelho tinha cruzado inevitavelmente seria uma região de controle soviético.


Churchill pensou em uma operação de invasão da própria União Soviética, a Operação Impensável, mas após os relatórios dos generais britânicos relatarem que era impossível uma operação vitoriosa sobre os soviéticos, o primeiro-ministro abandonou a ideia.


A Ucrânia consolidou seus domínios sobre a porção oriental da Polônia, de maioria ucraniana e bielorrussa, e com a bipartição do mundo se tornou automaticamente inimiga dos Estados Unidos.


A bipartição do mundo levou à doutrina de cercear ao máximo e conter o avanço do comunismo e da Rússia na Terra, de modo que os Estados Unidos incentivaram financeiramente medidas para reconstruir a Europa e sobretudo a Alemanha (Plano Marshall) e os movimentos de revolta no interior do bloco soviético, em Budapeste, Praga e posteriormente Varsóvia.


Há duas doutrinas em vigor com relação à Rússia, a primeira visa a sua separação em quatro ou cinco países, de modo que se possa ter um maior controle sobre os russos e que haja um equilíbrio de poder maior pendendo ao ocidente, outra doutrina que está em vigor (que ao contrário da primeira surgiu depois da Guerra Fria), é de que a manutenção da Rússia como está hoje conduz ao movimento harmônico da diplomacia mundial, pois a Rússia é um grande duto de contenção dos nacionalismos, fundamentalismo islâmico e também do terrorismo.


Em todos os casos, a Ucrânia e os países que fizeram parte do bloco soviético são uma questão não resolvida, são a porta de entrada para o mundo eslavo, e para o coração da Rússia, esses países ao mesmo tempo em que são porta de entrada, estão próximos demais de um vizinho poderoso.


O plano de expansão da União Europeia, que nasceu como meio de evitar uma guerra e impedir o avanço do comunismo, se estende aos domínios da Europa Oriental, orientada pela diplomacia alemã, que observa que o domínio agrícola de terras como a Ucrânia e Bielorrússia é algo interessante não só plano internacional de manter presença frente aos russos, mas também como meio de alimentação do próprio continente.

O azar da Ucrânia é que ela vive em dois mundos, entre a Rússia e a União Europeia, e o pensamento da Guerra Fria se mantém até hoje, a crise da Crimeia começou na própria Crimeia em 1945, é uma crise de antagonismos entre a Rússia (ou o ex-comunismo) e as potências ocidentais (o capitalismo ocidental) e quando a União Europeia lançou um ultimato à Ucrânia das condições (bastante duras) para o seu ingresso na União Europeia, a Rússia também lançou condições para manter os vínculos com a Ucrânia. A indecisão do país, de um lado ligado à União Europeia por causa de seus vínculos tradicionais com a Polônia, e com a Federação Russa, devido à raiz da cultura eslava que surgiu a partir de Kiev conduziu uma situação de esquizofrênia das relações internacionais ucranianas que levou aos protestos, a queda de Yanukovich e a intervenção da Rússia na Criméia.


Uma nova Guerra da Criméia? É meio difícil de acreditar, mas a lógica da Guerra Fria se mantém de certa forma, e pior do que isso ninguém sabe no que vai dar. A coisa mais sensata ainda é o fato do Ocidente aceitar a perda da Crimeia aos russos, que é um fato consolidado, de modo que isso impediria mais atrito com os russos, que são importantes na máquina diplomática mundial. A Ucrânia vai sofrer muito se não aceitar que realmente perdeu a Criméia, corre o risco até mesmo de perder outras porções territoriais que são russófilas.

Os dois mundos são a razão da desgraça da Ucrânia, e desde que o acordo de Yalta foi assinado, cada vez mais difícil é a compreensão das democracias ocidentais com a Rússia e da Rússia com as democracias ocidentais. A crise da Ucrânia começou em Yalta. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Réquiem ao dias dos namorados

             Talvez em toda a minha vida eu tenha amado de verdade uma única pessoas, uma única pessoa que tenha me prendido toda a minha atenção. Eu sempre fui meio inconsequente, devia ter pensado que era mais fácil ser sozinho no mundo do que procurar uma cara metade. Mas eu mesmo assim procurei.

            Me perdi muito nesse mundo, fui muito maltratado. Procurei em algumas pessoas um amor que eu não tinha por mim mesmo, nunca dei o devido valor que eu devia ter. Minha paixão era o conhecimento pelo conhecimento, não que não tivesse outras coisas para buscar, mas o que eu queria era ser inteligente. Bonito também queria, mas não me foi dada essa sorte. E ser rico ainda não é um objetivo perdido.

           Em todo caso eu lembro com amargura as coisas que eu presenciei, o amor não correspondido que eu tive, o amor sociopata que me deram, o desleixado amor sem emoções, a enganação de um amor à minha carteira e agora o simples uso do meu corpo para um autossatisfação pessoal. Eu tive que conviver com tudo isso, eu não pude confiar muito nas pessoas desde as respostas que me foram dadas aos dramas emocionais. Talvez a única pessoa que tenha me amado tenha sido minha mãe, ou talvez minha irmã.

          Poderia talvez me dar por satisfeito? Não sei se posso dizer. É meio trágico pensar em como as pessoas podem ser tão mesquinhas e infantis para procurarem o amor e quando o encontram terem medo. Eu hoje tenho um medo absurdo de me apaixonar, eu tenho medo de acabar me deixando ser usado de novo pelo sadismo tautológico das pessoas e por isso é mais fácil me fechar para esse mundo cada vez mais sombrio.

          Não que eu não tenha desejos, não que as vezes não me dê vontade de dormir abraçado a alguém ou aninhar um cabelo, mas é tecnicamente mais fácil não tornar público nada e se fechar por completo do que dividir a vida com outra pessoa. As pessoas são difíceis e não são nem um pouco confiáveis, elas nos traem na primeira oportunidade por uma ninharia, seja por dinheiro, seja por prestígio.

         Eu queria dizer que eu achei minha cara metade, mas não, até hoje não achei. Eu amo de verdade uma pessoa a ponto de querê-la longe de mim, bem longe, eu não me sinto capaz de fazer alguém feliz depois de tantas coisas que eu vi e fiz. Prefiro ficar cada vez mais só e os meus objetivos de vida serão restritos a meu foro íntimo.

         Não que eu não confie nos meus amigos, em alguns eu confio como se fossem meus irmãos, mas não há nada mais filedigno do que esperar confiar apenas em si mesmo. Saber se virar é uma virtude que eu sempre tive desde criança, então eu olho para as pessoas sem um olhar passional. Às vezes sou bem cínico, outras vezes eu me importo de verdade, acho mais fácil assim.

         Eu escrevi muitos rascunhos que secretamente guardo junto ao peito, alguns romances de bloco de viagem, que escrevo só para mim sobre um destino perdido que é o procurar um pouco de carinho no amor de uma mulher. Não que me sinta bem nessa condição, mas eu estou bem nessa fase de adaptação em pensar em ninguém quando escrevo essas palavras.

         O dia dos namorados é uma pressão social em parecer ser feliz num mundo cada vez menos amistoso. A infelicidade é uma companheira cada vez mais constante na vida de várias pessoas, não só porque felicidade é um exercício diário do qual nem todos estão aptos a praticar, como também é um custo primoroso para quem não pode pagar. Por isso para muitos o dia dos namorados é um funeral, era pra mim a dois anos atrás, hoje eu nem me importo.

       E que maneira esse enterro se desenrola é de cada um, alguns bebem até seus rins começarem a reclamar, outros escrevem novelas no papel velho carregado de tinta, alguns choram no Facebook enquanto outros correm para o primeiro prostíbulo para retirar sua necessidade emocional. Todos esses falham, o dia dos namorados é só uma data, como outra qualquer, uma data sem um significado prático: quem mudança haveria se o dia dos namorados fosse hoje ou no domingo? O mundo deixaria de girar?

          Eu me arrependo amargamente de ter perdido tempo procurando alguém quando na verdade a única pessoa que devia procurar era a mim mesmo. Sei que isso é muita arrogância de minha parte, mas é completamente válido quando observamos a realidade;

           Sanar suas necessidades em outras pessoas é doentio, nenhuma forma de amor é completamente espontânea. Eu acreditava que amor era algo espontâneo, mas amor está nas pequenas coisas que fazemos no dia a dia. Perguntei a minha mãe se ela amava meu pai e ela não soube me dizer. Não, as pessoas realmente estão cada vez menos aptas para amar as pessoas como elas deveriam.

             Cada vez menos propenso, cada vez mais complexo, a única coisa que as pessoas realmente amam e respeito cada vez mais é o capital. Eu antes achava isso um absurdo, julgava o capital um negócio traiçoeiro, mas só depois de muito tempo compreendi que esse fetichismo tinha um sentido embutido. É mais fácil ver o material do que o abstrato, é mais fácil querer o dinheiro do que querer o amor, pois sem dinheiro você não sobrevive, você não pode comprar comida, ou sobreviver, enquanto sem amor é possível viver.

            E esse é o motivo desse réquiem pois boa parte dos que namoram realmente não amam, apenas são comodistas e querem sanar suas necessidades com outras pessoas, compram presentes para demonstrar que amam, mas na realidade, nas pequenas coisas da vida pouco amor existe entre si.

          Dia dos namorados é um festival doentio do qual espero nunca mais fazer parte, os que verdadeiramente amam fazem todos os dias o dia dos namorados.

A Copa de 2014: Considerações

       Denúncias de corrupção, superfaturamento de obras, mais e mais  provas da incompetência do Estado em gerir suas próprias promessas. Qual o legado da Copa?

       O Brasil nunca foi de fato o país do futebol, sua capacidade identitária sempre foi um tanto fragmentada. Não porque aja grandes rivalidades territoriais dentro do país, um paulista não necessariamente odeia um carioca, ou um gaúcho odeia um goiano. Não, mas o regionalismo de cada região faz com que cada um se veja antes um paulista, um mineiro, um gaúcho ou carioca do que brasileiro.

            Isso não é algo errado, na França ocorre isso, nos Estados Unidos também e nem por isso se ameaça a estrutura do estado-nacional. A questão é que esse regionalismo faz com que os brasileiros só pensem que são brasileiros no contexto macro, como quando vão se contrapor aos argentinos, quando observam que o governo federal anda cometendo erros crassos, ou mesmo quando olham a seleção na Copa do Mundo.

               O Brasil é agraciado com a sorte de participar de todas as Copas do Mundo desde 1930, mesmo perdendo, mesmo ganhando; A seleção brasileira participou de todas as copas. Isso não quer dizer que o futebol brasileiro seja imbatível, mas a forma como a seleção brasileira se organizou através dos anos é bem peculiar.

               O futebol nasceu nas ilhas britânicas no século XIX, o ato de chutar uma pelota já existia na Grécia, na América Pré-Colombiana e até mesmo na Ásia. Entretanto o cientificismo inglês associado ao positivismo científico que circulava pela Europa levaram a uma padronização do próprio ato de chutar a bola:

                Apoiando-se em técnicas militares de organização espacial a estratégia de jogo se consolidou com a ideia do ataque (a vanguarda militar sempre à frente), o meio-de-campo (que seria a linha de frente do grosso das tropas) e a defesa (que seria a vanguarda responsável pela proteção do contato com os mantimentos, suprimentos e o apoio logístico ao ataque)

                   No futebol, pensando em termos militares as funções mais importantes são encabeçadas pelo atacantes e pelos goleiros. Esses dois campos são cruciais, embora o todo também faça parte da conta. O ataque define as jogadas que atacarão a defesa adversária e conforme suas ações podem conseguir não só estafar a equipe adversária, desmoralizá-la e constrangê-la, como eventualmente poderá fazer gols. Enquanto o goleiro é como se fosse o oficial intendente, ele é responsável por observar a defesa e agir conforme a situação para impedir que o adversário acabe sendo vitorioso com os chutes ao gol.

                  Existe uma estrutura hierárquica dentro do futebol para a organização e disciplina de jogo:

                  O técnico corresponde ao general de um time no campo, assim como o capitão do time é responsável pelo comando de capitão, de observar na prática o jogo, de coordenar jogadas e de gerir o comportamento dos jogadores. No ataque e na defesa existem duas divisões, onde o ataque se preocupa justamente com o ataque e a defesa com a defesa. Nisso o responsável por observar a defesa normalmente é o goleiro (raramente um zagueiro faz esse papel), coordenar com os zagueiros a defesa do gol e a organização do time nas faltas. Enquanto o ataque é mais fluído, o time pode ser coordenado por um volante, um meio-campista ou um atacante de vias de fato e isso muda a configuração do jogo drasticamente.

                O futebol é um esporte coletivo por excelência pois exige o melhor das capacidades de todos os jogadores para levar o time à vitória. Entretanto, o futebol brasileiro tem uma diferença histórica, porque ele próprio também dá muita importância ao fator individual. Nisso temos a figura do craque, um jogador de destaque, normalmente veloz ou com uma boa pontaria que lidera a armação do jogo e o técnico sempre baseia o time em função do raio de ação desse craque. Em termos militares, o craque funciona como as forças especiais.

                A organização tradicional de um time funciona como a de um mini-exército: Cavalaria na frente (com ampla liberdade de ação, movida teoricamente por blindados velozes), infantaria (logo atrás defendendo a linha de frente) e a artilharia que é responsável por defender e atacar a distância.

                Mas o Brasil realmente não tem essa característica militarista, as participações brasileiras em guerras foram poucas e não mobilizaram tanto a sociedade civil para que ela assumisse uma característica militarista. O povo brasileiro se notabilizou por levar questões sérias com um pouco mais de paciência misturada a um descaso  negligente, que na última hora era resolvida com uma solução completamente diferente da tradicional, alguns chamam de jeitinho brasileiro, mas eu realmente odeio usar esse termo porque me remete a ideia de que todo brasileiro é de fato um malandro.

                  O futebol brasileiro é um futebol de várzea tradicionalmente, e não no sentido perjorativo, mas é um futebol de rua, aprendido no asfalto quente da tarde ou nos campos de terra batida no interior das periferias, não é um esporte de ginásio nem tampouco de gramados bem cuidados. Os moleques são crianças bastante elétricas que jogavam futebol depois da escola, bebendo um guaraná ou coca-cola depois de atirar pedras em pássaros ou empinar pipas ao vento. Crianças cujos pais trabalhavam o dia inteiro e por isso tinham que aprender a ser autônomas.

                Por isso no futebol não se pode ser "filhinho-de-mamãe", porque você se machuca, você soa, você briga e você joga. Você só joga futebol por prazer, nada mais do que isso. É uma atividade lúdica que todo o garoto em sua mocidade é intencionalmente impulsionado por seu próprio pai a jogar. Um garoto para a sociedade não é um garoto senão joga futebol.

               E quais incentivos do governo ao esporte e ao futebol? Tirando estádios superfaturados? Nenhum. O governo é negligente em saúde, educação e segurança, isso todo mundo sabe, mas ele também não está interessado em promover o esporte, financiar as escolinhas de futebol, as competições estaduais e tampouco o esporte juvenil. Por isso a carreira de futebolista não é nada fácil.

                   E o jovem que quiser ser jogador tem que depositar todas as suas esperanças numa escolinha de futebol, tem que pegar chuva, vento, sol de rachar os beiços, tem que correr atrás de ônibus para conseguir jogar. No futebol é que vemos o impacto das desigualdades sociais cada vez mais gritante, com jogadores ganhando milhões, dirigindo importados de último tipo namorando supermodelos enquanto os jovens aspirantes a jogador se desgastam com todos os problemas de transporte, de renda e de segurança para seguir o sonho de ser jogador de futebol.

                O futebol vende sonhos, mas custa a pagá-los. Muitos acabam não conseguindo o sonho e ficam decepcionados conforme cresce a mercantilização do futebol.

                 O jogo coletivo não é a marca, o craque é a estrela do time e tem a responsabilidade absurda de fazer gols. Gols e mais gols, de fazer um futebol bonito, ainda moleque, de contornar o zagueiro, de enganá-lo como se tenta enganar a vida, de humilhá-lo se for necessário, de vencê-lo pelo próprio cansaço e emplacar o gol para o seu time.

                 O futebol brasileiro sempre foi uma válvula de escape aos problemas sociais de uma sociedade desigual, viver no Brasil nunca foi fácil, sobretudo para o pobre. Desde a destruição dos barracões no centro do Rio para as obras do Pereira Passos, na virada da Belle Epoque, passando pela inflação endêmica que sempre grassou de alguma forma a econômica irresponsável dos governos brasileiros, as ondas de desemprego, as crises, a política cada vez mais corrupta, a violência. O futebol sempre foi uma válvula de escape, pois mesmo com todos os problemas, o pobre ainda conseguia guardar algum dinheiro para assistir uma partida de futebol no Maracanã ou no Pacaembu  e ali ele se sentia incluído com o calor da multidão, com os gritos eufóricos, as bandeirolas e o futebol arte do Corinthians ou do Flamengo, Santos, Botafogo ou outros times.

                 O futebol nasceu elitista, nasceu dos fraques e das cartolas, até que terminou nas ceroulas. O futebol inglês era dos gentleman que ocasionalmente faziam um exercício depois das partidas de uíste, críquete e  os chás sociais da cinco no Parlamento. Os pobres inicialmente eram deixados de lado, mas observavam de longe o esporte, e cada vez mais começaram a ter interesse em praticar esse hábito inicialmente de corte.

               Sujos de graxa e óleo, muitos começaram a formar times de rua com pelotas de couro  rasgado e iam jogar contra os times de Chelsea ou de Aston Villa, fazendo surgir times operários na capital inglesa, embora o mais notável desses times populares seja o Manchester United, formado por operários do setor metalúrgico.

              No Brasil a história se repetiu, o futebol surgiu com um inglês e propagou-se pela a elite que era sócia dos grandes clubes de remo: Fluminense, Santos e São Paulo. A partir de uma dissidência que surgiu no seio  do Fluminense, que ainda é um time bem elitista, surgiu o Flamengo. O Botafogo surgiu dos jovens da elite da praia de Botafogo, assim como o Grêmio dos colegiais de Porto Alegre.

               Os times de massa surgiram no contexto de expansão de um incipiente proletariado que surgia nesse período e dos imigrantes que apareceram no início da Primeira República. 

              Nisso, no Rio de Janeiro, um grupo de comerciantes portugueses (donos de empórios, bares e padarias) começou a financiar a formação de um time da colônia portuguesa no Rio, o Vasco da Gama, e conforme esse time ia crescendo e os jogadores vinham aparecendo, o time passou um dos primeiros a aceitar negros, que eram funcionários desses empórios e padarias para jogar futebol. Muitos desses negros vinham das rodas de capoeira ou de samba, que eram duramente perseguidas pela polícia nos morros e trouxeram uma nova forma de jogar futebol diferente da tradicional.

               Em São Paulo dois times de imigrantes surgiram em épocas análogas, e embora tenham suas rivalidades hoje, têm histórias muito interligadas: O Corinthians e o Palestra Itália (que viria a ser o Palmeiras). O Corinthians surgiu dos operários do Bom Retiro, boa parte deles judeus, após a exposição em 1910 do time inglês Corinthians (Coríntios) numa turnê pelo Brasil que passou por São Paulo, cujos ingressos eram bastante acessíveis, os operários do Bom Retiro que já era um bairro da indústria têxtil, de empórios e pequenos comércios acabaram formando um time de várzea em homenagem ao inglês: O Sport Club Corinthians Paulista.

                O Palestra Itália era um time dos italianos da Mocca e do Bexiga, boa parte deles ainda falavam com o jeito carcamano e tinham trazido as raízes do futebol da Itália, esses trabalhadores da comunidade italiana montaram um time de várzeas que eventualmente competia com o Corinthians, embora em termos mais amigáveis que hoje. Na década de 30 por decreto do governo, nenhum time poderia ter um time ou vinculação com o estrangeiro e por isso a mudança de nome para Palmeiras. Entretanto, muitos torcedores e jogadores palmeirenses se atrelaram ao fascismo e ao integralismo por influência que as ideias de Mussolini tinham sobre os italianos dessa época.

                 O Internacional surgiu com os operários italianos que apareceram na grande imigração para o Rio Grande do Sul, e como o nome denuncia, esses operários eram socialistas e anarquistas e formaram um time em honra à Internacional Socialista. Não à toa o time possui tons de vermelho em sua bandeira (que não é só barrismo sul-riograndense), mas também a origem dos embates com o Grêmio (que era um time de mocinhos da elite sul-riograndense).

                  Pouco a pouco o futebol se tornou um esporte de massas e o amor ao esporte foi observado pela ditadura de Vargas, que observando a importância do futebol sobre o o povo tentou assimilar o Brasil ao futebol. 1930 é a primeira copa do Mundo e a primeira do Brasil, foi no Uruguai e o time local venceu.

                   1934 foi na Itália de Mussolini e os fascistas italianos para mostrar sua superioridade nacional e técnica fizeram um mega evento para impressionar o mundo e reafirmar a legitimidade do regime fascista. No final a Itália venceu a Copa mostrando que o seu culto ao esporte não era só retórica política.

                   O Estado Novo compreendeu muito bem a mensagem que os fascistas italianos deixaram em 1934 e grandes eventos cívicos passaram a circular junto com o futebol, como a execução do hino nacional antes dos jogos (que ainda se mantêm em São Paulo), as grandes paradas públicas em São Januário e Pacaembu com os discursos de Vargas para o povo (uma cópia dos discursos de Hitler em Nuremberg).

                     A Segunda Guerra enclodiu logo depois da Copa da França e a copa de 1942 que seria realizada na Alemanha foi cancelada, e o imediato pós-guerra tornou a copa de 1946 um evento impraticável. Mas nesse período o futebol brasileiro viu sua profissionalização, o antigo futebol de rua e de várzeas foi passando a ser cada vez mais profissional. Os jogadores passaram a ter um salário definido a partir do salário mínimo e a ter uma segurança trabalhista, muitos dos antigos operários,  atendentes e balconistas passaram a se dedicar inteiramente ao esporte e a isso vemos um novo esporte se formar. Os jornais escreviam crônicas diárias sobre as partidas e os jogadores, com destaque ao Jornal do Brasil e a Folha da Manhã.

                  O ofício de cronista esportivo e a narração de rádio passaram a ser coisas cada vez mais comuns e com a ascensão desse novo esporte brasileiro em associação a um Brasil que queria se tornar grande a partir de um apoio incondicional ao governo Truman, a Copa do Mundo de 1950 seria realizada no Brasil;

                  O Morumbi foi construído em tempo recorde, mas o evento mais dramático foi o Maracanã. 

                  Maracanã é um rio que corta a região norte da cidade do Rio de Janeiro, esse rio tem essa denominação em virtude da presença de papagaios nas suas margens (A palavra papagaio em tupi era justamente Maracanã). A Construção do Estádio foi criticada pela presença logo ao lado da Favela do Esqueleto (onde hoje fica a UERJ) e por ser muito distante do centro, Carlos Lacerda (à época já um  deputado bastante nervoso) vociferava contra a ideia de um estádio ali e não em Jacarepaguá, mas nada adiantou, alguns lotes foram derrubados, assim como toda a Favela do Esqueleto e em 1948 a pedra fundamental foi erguida.
   
                Em 1950 o estádio ainda não estava pronto e ainda assim foi levado a uso, e ainda assim era tido como o maior estádio do mundo, com 155 250 lugares (fazendo inveja até ao Coliseu), mas ao custo social e econômico exorbitantemente altos.

              A Copa parecia ser algo que o Brasil se orgulharia, a seleção era um time exemplar que acumulava vitórias atrás de vitórias e o povo que se juntava ás massas para assistir os jogos parecia acreditar cada vez mais naquele esporte, gritava, sorria, brincava. O Brasileiro se descobriu brasileiro com a Copa de 50, até que veio a final da Copa.

             O Brasil começou ganhando do Uruguai por um a zero e o Maracanã vibrava como uma panela de pressão de 199. 854 torcedores espremidos para ver a seleção dar um show sobre o país platino, até que Gigghia começa a dar o seu troco, o capitão uruguaio fustiga todos os planos dos brasileiros e se aproveitando do nervosismo dos adversários acaba  não fazendo só um, mas dois gols contra a seleção brasileira, acabando assim o sonho de cinquenta.

            O Maracanã que antes vibrava, gritava e fazia festa, se calou... 200 mil pessoas caladas sem saber o que tinha acontecido. O choro foi coletivo, a catarse de toda uma seleção. O próprio Gigghia, que antes não gostava dos brasileiros por um preconceito de que eles ameaçavam o Uruguai, ao ver o sofrimento dos brasileiros, nos bares e cafés, sentou-se com eles para beber e compartilhar a tristeza dos brasileiros.

           O legado da Copa de 50 foi o trauma de perder uma Copa dentro de casa. Nelson Rodrigues diria que o brasileiro tinha adquirido o "complexo de vira-lata". Mas a Copa de 58 refez todo o ânimo brasileiro com a atuação da seleção de Pelé.

           Poderia ficar falando das histórias do Brasil nas copas de 62, 70, 82, 94 e 2002, mas esse não é o meu intuito. O Brasil teve um desempenho exemplar em todas (e devia ter vencido a de 82), a questão é que o futebol após o seu caráter de massas foi sendo apropriado pela política.

           Juscelino Kubitschek talvez tenha sido o primeiro presidente a perceber a importância de parecer ser bem  amigo da seleção brasileiro. JK foi o primeiro presidente a receber a taça Jules Rimet no Brasil com a seleção campeã, chegou a apertar a mão de Pelé e receber a seleção brasileira com abraços e vigorosos apertos de mão (JK era torcedor do América mineiro). 

          Um dos motivos de porque JK tenha sido o presidente bossa-nova (os críticos chamavam de "bosta-nova") foi não só a construção de Brasília, a vinda das fábricas de automóveis (Volkswagen e Ford), as estradas, a bossa-nova etc, mas também a vitória do Brasil em 58.

         A Copa de 62 foi a vitória de um futebol brasileiro num período instável que já prenunciava a antessala do golpe de 1964 e após um refluxo futebolístico, com a vitória da Inglaterra em 1966, João Havelange (que até hoje sofre denúncias por seu comportamento à frente da CBF), convocou um jornalista, João Saldanha para a composição da seleção (segundo ele para cessarem as críticas).

             Saldanha era membro ativo do Partido Comunista e constantemente era obrigado a lidar com as interferências diretas do general Medici na seleção (Médici além de ser um exímio assassino e torturador era um fanático por futebol e torcia pro Fluminense), após muitos atritos e a recusa de Saldanha em escalar Dário Maravilha, Médici ordenou a retirada de Saldanha da seleção.

               Zagallo entrou no lugar de Saldanha com o time praticamente pronto, escalado anteriormente por Saldanha, e o Brasil venceu a Copa de 70 e mais nenhuma na época da Ditadura. Isso pode se atribuir talvez a interferência direta dos militares no futebol, como foi o caso do Médici na seleção de 70, e ao esquema monista de um futebol regrado a estatutos militares, sem grande liberdade de ação como o futebol brasileiro se notabilizou.

               O Futebol foi usado pelos militares como meio de propaganda, não poucas vezes Médici era fotografado com o seu rádio de pilha japonês assistindo o jogo do Fluminense no Maracanã, e não foi a toa que o hino da Copa de 70 foi uma marcha militar quase.

                   Mas o futebol também foi usado para contestar o regime, a atribuição do futebol corintiano na figura do Sócrates na Democracia Corintiana no final da década de 70 pedindo pela volta da democracia, ou mesmo a própria composição política de grupos de esquerda de usar os estádios para efetuar a troca de reféns, como foi o caso do embaixador americano que foi deixado no meio do jogo do Flamengo no Maracanã.  O futebol brasileiro como meio de contestação emanou tanto que a composição do time da Copa de 82 era baseada na bases do Corinthians da Democracia Corinthiana, do Flamengo da época do Zico, com os comentários contundentes de Toninho Cerezo e a direção bem feita do Telé Santana.

                  Em todo caso, com a retomada da Democracia o futebol brasileiro se notabilizou também pelo resfriamento de seu esquema tático e pela ampla liberdade de ação de jogo. O futebol brasileiro sempre teve a figura dos grandes craques, a seleção vislumbra um espelho do que é esperado de todos os jogadores brasileiros.

                   O problema que se apresenta hoje é uma futebol mercantilizado, a partir da Copa de 82 a figura do patrocinador se viu cada vez mais forte; Anteriormente o patrocínio existia como um mecenato do esporte, mas conforme se passavam os anos e a influência do markenting nas empresas do esporte, como Nike e Adidas na década de 80 (que assistiram um boom de venda com a expansão do mercado consumidor de tênis, bolas e camisas de fitness) as camisas das seleções tiveram que passar a exibir o logo do patrocinador, e a dos times comuns parecem outdoors ambulantes de tão coloridas de anúncios.

                     Nisso também entram empresas de suprimentos e bebidas, com a associação feita de que o esporte precisa  de algo para ser bebido, seja suprimento vitamínico, é o caso do Gatorade, refrigerante, Coca-Cola e Guaraná Antártica, ou cerveja, como Heinekken e Budweiser.

                 Nenhuma dessas empresas está realmente preocupada com o futebol ou com a qualidade da seleção, está preocupada apenas em ganhar dinheiro, em vender mais. Por isso, não importa se o jogador x joga melhor que y, o que importa é que x é mais famoso que y e por isso ele tem que ser escalado pra dar mais dinheiro.

                  Não só isso, o futebol também virou uma máfia. Sobretudo no Brasil, afinal de contas ele atualmente serve como meio de lavagem de dinheiro, na década de 70 ele já era meio de lavagem de dinheiro jogo do bicho, hoje é lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, de pessoas e até de armas. A corrupção gira em torno do futebol, não só o Estado que joga rios de dinheiro para construir estádios, mas também de dirigentes que desviam dinheiro dos próprios sócios do time para usar para fins próprios.

                      O futebol dos dirigentes e cartolas é um futebol de mafiosos.

                      Além disso, temos um novo regime de escravidão não pronunciado. Não estou falando só dos trabalhadores voluntários da Fifa que irão trabalhar de graça para um evento que move milhões de reais (trabalhar de graça para uma coisa que move apenas dinheiro é pra mim uma estupidez monumental), mas eu falo também da venda dos jogadores como se fossem mercadoria, por milhares, milhões de dólares atrelados a regimes de trabalho por contrato que são análogos ao que se fazia tempos atrás com os escravos africanos e os trabalhadores compulsórios indianos.

                O futebol arte e o futebol técnico inexistem cada vez mais, existe agora apenas o futebol comercial. O futebol da Laranja Mecânica é repetido talvez apenas pelo futebol alemão de hoje que não tem essa figura de craques, mas também não tem essa questão de patrocinadores, por isso eu acho que o maior exemplo hoje é o futebol alemão.

                Eu não gosto do futebol espanhol, não porque eu o ache feio, ele é bonito, mas pela composição e a ideia de um time de grandes nomes e de grandes craques formado quase que exclusivamente de cartolas para ganhar dinheiro em patrocínio. Isso não é futebol, isso é a venda do esporte.

                O futebol brasileiro caminha para o futebol espanhol, e pra mim é tão evidente que o Brasil não tenha ganhado a Copa de 2006 e 2010 que parece até racional. O Brasil perdeu por ter tentado vender seu futebol em figuras de grandes craques e não ter pensado em reconstruir o seu time com o esquema tático que levasse a renovação constante de seus jogadores.

                 Eu não sei se o Brasil vai vencer essa copa, eu até acho que sim,  o time parece ter sido refeito (embora ainda assim seja tão mercantilizado o papel do Neymar, que poderia esboçar um pouco mais de humildade de vez em quando) e o Felipão sabe cuidar de um time. A questão que essa Copa é diferente da Copa de 50 em muito;

                 O mundo do futebol de 50 era um mundo de paixão ao esporte, não de venda. O futebol era um fenômeno de massa, que desconhecidos se abraçavam no calor de um gol e choravam no peso de uma derrota, eles não se sentavam para assistir um jogo calados bebendo uma cerveja absurdamente cara ou assistiam no conforto do ar condicionado o jogo pela televisão HD.

                 O futebol de 50 era a única demonstração coletiva de amor por um time, e de catarse pela a ideia de uma seleção, era um espírito de pertencimento de massa que nenhum marxista se esboçaria a definir. Não era um mundo dos anúncios de propaganda de shampoo ou papel higiênico dos jogadores da seleção, futebol era algo sério;

                 Futebol era um grito de contestação nos anos de chumbo, era a única oportunidade que tínhamos de ser livres da botina dos militares, pois em campo quem manda era o juiz.

                 O futebol era um esporte em que as crianças poderiam ir sozinhas para assistir um jogo, onde mesmo no calor da paixão, pessoas não se agrediam, apenas se insultavam, discutiam. Hoje as pessoas se matam por um jogo, levam armas, para expor o espírito coletivo de violência de toda a sociedade brasileira. O futebol vem sendo apropriado por bandidos, bandidos de correntes e máscaras, bandidos de cacetete e farda, bandidos de fraque e gravata.

                  Qual o legado da Copa? Eu não sei, mas eu não vou deixar de assisti-la. Eu gosto de futebol, gosto de ver o estouro da torcida, gosto de abraçar uma mulher eufórica desconhecida, de gritar o hino com os meus amigos, de reclamar do juiz. Eu gosto do aspecto do coletivo do futebol, até mais do que o futebol propriamente dito. Eu gosto de ver o futebol como o trabalho em equipe que tem que dar certo, mais do que o esforço meramente individual de um craque.

                    Se deixarei de ver a Copa? Não. Eu assistirei. Só me sinto mal que pessoas tenham se usado do sonho de uma maioria para desviar vultuosas somas de dinheiro, para atrapalhar o sonho de um futebol bem feito, de tornar criminoso o ato de protesto que é comum ao futebol, para se enriquecerem cada vez mais de um povo sofrido como o povo brasileiro.


                  Eu assisto o futebol por amor ao esporte, não por amor à Fifa, ou tampouco por amor à seleção da CBF. Por esses e outros motivos torço para o sucesso da seleção alemã, que a despeito do mercantilização do mercado, ainda tem a ideia de trabalho coletivo na sua configuração e na própria montagem do seu esquema tático. 

                  E cuidado, o Uruguai pode ganhar essa copa de novo...


terça-feira, 10 de junho de 2014

A natureza dessa força

          Ser forte é parecer fraco quando é conveniente
          Mas parecer forte e ser convincente
          É ter medo de não agir quando deveria
          E ter raiva por também ter agido

          Ser forte não é ter só músculo
          Mas também ideias
          Pois é muito fácil ser um Hulk
          Mas é muito difícil ser um Einstein

           Quem é forte não tem medo de chorar
            Mas também não teme sorrir
            Forte é ser humano
            Esquecer de vez em quando
            A máxima tristeza
            E amar a ótica do esquecimento

           
            Eu queria ser tão forte
            para poder te esquecer hoje
            E para que você me esqueça amanhã
            Mas não é essa minha natureza

            Você talvez se lembrará do meu olhar
            E eu lembrarei de seu sorriso
            Você lembrará de minha voz triste
            E eu lembrarei que você ainda existe

            Não espero muita coisa disso
            Queria largar a lembrança
             De meu fadigado esquecimento
             Mas tudo que consigo é mais tormento

             Não choro ou sinto o que sentiria
             Não imploro ou escuto
             Aquele grito sustenido

             É um pensamento hipócrita
             É um sentimento idiota
             Pensar no acontecido
             E chorar o perdido

             Eu não quero que me ouça
             Não quero que me veja
             Só quero que me esqueça

             Estou cada vez mais só
             No mundo cada vez mais duro
             E vou ficando cada dia mais maduro

             Essa noite está cada vez mais gelada
             Tenho apenas um cobertor para me esquentar
             E um coração frio para me contentar

             Sou um mero robô de carne
             Fechado na pouca razão
             E no fim da emoção

             Não me ouça
             Não me veja
             Me esqueça

             Quero estar só
              Imaginando você
              Junto comigo
              Nesse amor perdido
              De espírito doentio

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Diálogos de um marxista

           A imagem de um campo descoberto de tamanha consternação traz um medo da própria figura da tranquilidade cínica de um céu mais límpido que a água e o ar que adentra em nossos pulmões, a falta de nuvens nesse límpido céu de meio de ano conversa com o vazio minimalista de um gorro japonês.

         O limoeiro acaricia de forma negligente minhas próprias vistas, meus olhos castanhos tornam-se um tanto esverdeados quando tomo no peito alguns poucos versos românticos de Casimiro de Abreu.

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!"


               O meu coração de estudante lateja com esse romantismo que toma nossas mentes ainda em formação, a paixão indolente, o verso inconsequente e mais do que isso a forma com que as letras agradecem a forma sedutora de mulher de ângulos fabuloso desenhados na pena do arquiteto. 

                 Penso que nada é mais perfeito do que ser desenhista, do que acreditar em ser um beijoqueiro da obra da vida e aceitar a mera ideia de um isolamento desdenhoso em se apaixonar pela natureza. Quando eu era político eu tinha dificuldade de aceitar a posição de isolamento que o cargo impunha, um isolamento autoimposto por você não poder confiar em ninguém:

               Devemos ouvir a todos, devemos falar com muitos, esperar demais de nós mesmos e ter a sombra da esperança de não esperar nada. Ser político é ser um mero desgraçado que está propenso a ser deixado de lado a qualquer momento, e eu me senti feliz por não acariciar algo assim. Poder é perigoso.

              Lênin nos disse certa vez através de sua voz de martelo, seu semblante nervoso e sua calva tez que se desfazia no suor dos discursos apilhados de gente humilde na pátria dos sovietes que deveriamos acreditar em nossos sonhos, desde que tenhamos a capacidade e a vontade de realizá-los. Eu não tinha muitos sonhos e saí com menos sonhos ainda.

             Eu tinha sempre essa imagem na cabeça de racionalizar meus  sonhos para torná-los realidade e como comunista que fui eu vivia com esse sopro de esperança junto ao peito, seja quando se tocavam os rincões da Marselhesa, seja o baluarte vibrante da Internacional. Hoje me sinto enriquecido por ainda ser bem marxista na minha maneira de pensar, não objetando ter deuses e ter apenas essa ideologia como guia. O sonho de Marx e Lenin e o velho partido comunista.

                 O problema que sou um marxista de botina que não acredita nessa apropriação fajuta do marxismo tradicional, sou quase um marxista histórico, já que a bandeira ilustre da causa bolchevique, a estrela vermelha, o estandarte dos trabalhadores e camponeses foi comprometido pelo discurso demagógico de alguns  facínoras que se passam por comunistas.

                  Felicidade? Eu não sou feliz e nunca virei a ser, o mísero sopro do meu peito é muito byroniano para acreditar nessas coisas, a corrosão de meus pensamentos é uma corrosão que acompanha a esquerda desde o final da União Soviética, e embora os ecos da Marselhesa ainda retubem em alguns cantos do globo, é um vazio ideológico que a gente assiste.

                Os traidores da bandeira comunista são muitas que acabam rasgando os firmes alicerces que foram pendurados sob à esfinge da águia negra do Reichstag na Berlim de 1945, o neonazismo, o fascismo e a onda de conservadorismo que se alastra pela a Europa, as guerras civis e os morticínios em massa só tornam mais imperativos os ideais comunistas. Eu tinha minhas dúvidas com a evolução do socialismo, mas cada vez o vejo como necessário. E é por isso que admiro a simplicidade do tão pouco, é possível ser feliz, sendo pobre? sim, mas sua vida será tão difícil, pois felicidade é um exercício diário de todos os dias.

               A felicidade do homem era a maior ideia dos pensadores liberais, desde Locke, Adam Smith e os revolucionários franceses, que se traduziu erroneamente felicidade com a satisfação pessoal por meio da apropriação de objetos e não a capacidade em conviver e interpretar seus sentimentos.

                De sentimentos não vive o homem, de pão  sim; eu até entendo os motivos para levarem a uma visão tão material do mundo na ideia de acumulação,  mas acumulação ´só por acumulação não leva a nada, só talvez mais sofrimento, como diriam as leis do budismo, e se for pra  sofrer prefiro ler Werther.

                É por isso que o Mujica parece uma figura interessante de ser estudada, o seu modelo quase tolstoiano de construir uma humanidade cada vez mais desvencilhada do seu aspecto de mera acumulação. Uma pessoa simples de um país pequeno e pobre ensinou a um segmento da esquerda mundial que a revolução não se faz só com o sangue (na verdade hoje nem com sangue se faz), mas com ações cada vez mais cotidianas, pensamentos e ideias. 

                  O problema são os aproveitadores que surgiram com a queda da URSS e do Muro de Berlim, que se escondiam entre os rejuntes e argamassas dos tijolos do muro e despertaram com sua queda. Esses com a firmeza de seus discursos vazios carregados de falsa liberdade, cada vez menos pensados formam falsos governos trabalhistas imbuídos de um populismo disfarçado para sustentar o seu ridículo cinismo.

                   Devo caminhar cada vez mais devagar nessa crise do marxismo onde os discursos e palavras cheias de floreiros podem esconder um toque de reacionarismo ou mesmo de estupidez. 


                Eu posso ser um bêbado, camarada, um fumante incessante que esconde seus vícios  e fraquezas na ponta de uma caneta, mas acredito que você me ouvirá dizer que essa construção marxista é falha em sua própria natureza, pois nunca achei que o socialismo fosse ciência, mas fosse algo movido pelo coração.

                E o medo à liberdade é o maior empencilho para a escolha de novos projetos, não temos mais a União Soviética, Cuba ou China, não temos mais o mundo bipartido, ditaduras ou o império do medo, mas mesmo assim não agimos conforme o esperado, agimos conforme os padrões antiquados de uma sociedade carregado de um puritanismo vitoriano e um caráter cada vez mais solidário de sua composição social.

                Os filtros dementes de ações impensadas trazem pequenas ilusões de falsa liberdade e essa é o maior sintoma da Crise do Marxismo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Liberdade de minha própria consciência

       Estou livre de pensamentos tão vazios numa noite tão triste e melancólica  como essa, só de pensar no peso asqueroso que dilacerava aos poucos meus ombros com uma tonalidade cada vez mais espartana tenho uma imensa vontade de fagocitar todos os meus problemas num único casulo. A casualística desse pensamento se abrandou e tudo que penso é tomar forças para seguir o meu caminho, o único caminho que eu espero daqui pra frente, ser eu mesmo.

      Minha liberdade enfim chegou e estou de acordo com ela bem mais do que estaria antes, estou mais preparado para não tomar as dores dos outros ou para cuidar de pessoas cada vez mais complicadas com o mesmo carinho de antes, estou tranquilo por ter tomado as últimas decisões que tomei e um alívio categórico arrebatou-me por inteiro.


        Eu vi a sombra das ações demagógicas de alguns tornarem minha existência e resistência insuportáveis, vi com a amargura a degradação moral que alguns objetavam em conseguir e mais do que isso enxerguei que meu futuro não poderia se traduzir a meras intrigas palacianas e meu ninho de despotismo que crescia dentro do meu cérebro. Minha consciência tomou conta do meu corpo, minhas mãos tremeram, as pernas pararam e o meu corpo reclamou. Um acesso de tristeza corrompeu-me e desfez meus pensamentos.

         Eu queria estabelecer a pouca ideia de um regime novo, desvencilhado de velhos paradigmas, mas penso cada vez mais que a incapacidade de tais coisas é cada vez mais imperativa; Me julgaram um fraco, ou mais do que isso, um covarde, não penso que tenha sido nenhum dos dois e se fui, não peço desculpas eu estava agindo de uma forma cada vez mais irresponsável que não deveria existir, minha arrogância deixou-se evidente e acredito que não tenha mais remorsos do que eu cometi.

         Intelectual com uma vida definida, não sinto medo desse temporal que eu vim, eu o ignorei por completo e ignoro as pessoas, só estou disposto a me fechar a um mundo cada vez mais corrompido e corriqueiramente absurdo, eu acredito que nada foi tão trágico a esse ponto. Mas devo descrever o medo que tenho de perder os poucos amigos que obtive nessa correnteza de isolamento, entretanto é algo que é inevitável em alguns casos. Quanto a pessoas que por ventura se aproveitaram de minhas fraquezas, me atacaram na surdina ou me humilharam diretamente, essas eu nem tenciono de pensar ou perdoar, estou tranquilo porque ainda sou mais do que essa ridícula representação ideológica que levam a cabo.

           Estou convencido que qualquer renúncia que tenha tomado foi positiva para um espírito abalado como o meu e só estou certo a seguir um futuro cada vez mais sedutor; Não espero de nada que mude o meu fomento, ou um acalanto estrondoso de momentos depressivos e depreciativos. A minha vida será melhor quando o sol da liberdade iluminar o meu caminho e essa liberdade está fora da ligadura desdenhosa de ser apenas um político irresponsável tomado pela minha megalomania e paranoia.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...