domingo, 1 de abril de 2012

O Forte de Copacabana

      Copacabana, Rio de Janeiro

  
       O que os senhores conhecem sobre isso?
       Digo não só os estrangeiros, também os brasileiros.

       Copacabana é com certeza um dos mais famosos cartões-postais do Brasil, onde os estrangeiros (aka: gringos) se maravilham com o formato sinuoso das linhas azuladas do famoso calçadão de pedra portuguesa (isso mesmo, portuguesa).

Copacabana - Praia de Copacabana Beach - Calçadão de Copacabana - Rio de Janeiro - Brasil

       Copacana é praia, é o calçadão, é os farofeiros trazendo frango assado em isopor, é os tiozinhos gordos de sunguinha lilás, é os travecos que fazem ponto à noite, os moleques que roubam a sua carteira de dia... Mas antes de tudo, Copacabana é praia!







      Sim, é Praia. Mesmo estando em uma cidade a 1000 quilômetros de uma praia, e a dois mil de uma praia decente (vulgo, Floripa), eu sei valorizar o poder de uma praia. As criancinhas fazerem castelos de areia com baldezinhos, as mulheres desfilando os seus biquinís, o frescobol na praia, o banho de mar, et coetera.

       Mas imagino que os turistas alemães, americanos e afins não saibam e tampouco se interessem em saber é que Copacabana tem uma História.

       A começar pelo nome: Copacabana. Esse nem de perto é um nome brasileiro.


        Contam os livros e manuais sobre os incas a existência de um Deus remetente à água, Kopakawana, que era no mínimo inusitada, ao mesmo tempo em que era o Deus da Fertilidade e protetor de casamentos, era também um Deus ligado à pervesão de cunho mais sexual.

        O culto a Kopakawana foi largamente perseguido pelos espanhóis junto às populações andinas, nas quais, acabaram o resignificando de outra maneira.

         Copacabana, nome também de uma cidade às margens do Titicaca (Lago), era a cidade desse Deus onde ele era adorado por milhares de seguidores.
O Lago Titicaca


          Segundo a lenda, após a chegada dos espanhóis à região, Nossa Senhora teria aparecido no local para Francisco Tito Yupanqui, um jovem pescador, que, em sua homenagem, teria esculpido uma imagem da santa que ficou conhecida como Nossa Senhora de Copacabana.

Eis a imagem da santa


         Os espanhóis talvez não soubessem o real significado de Copacabana, mas acharam inicialmente que Copacabana (num quechua muito ruim como o dos invasores), significasse: "praia azul" ou "mirante do azul".

          Em todo caso, como a figura de Copacabana passou a ser sacra, em torno de Nossa Senhora, ela se tornou objeto de culto às populações andinas durante a ocupação hispânica.

          É desconhecido do grande público, que mesmo havendo em vingência o Tratado de Tordesilhas que separava a parte portuguesa da América (Brasil) da parte espanhola da América, houve sim um comércio entre essas duas regiões, especialmente porque a cidade de Potosi (hoje meio paradona), era um importante centro na América do Sul quanto ao quesito de cidade, por causa de sua significativa extração de prata.

O Tratado de Tordesilhas


        Eis que temos no século XVII, comerciantes bolivianos e peruanos de prata  que viajavam pelo Brasil adentro levando produtos até a cidade de Potosi ( "peruleiros") trouxeram uma réplica dessa imagem para a praia do Rio de Janeiro então chamada de Sacopenapã (nome tupi que significa "caminho de socós").


          Sobre um rochedo dessa praia, sob ordens de um poderoso, da família Sá, que cultuava a essa santidade e que tinha negócios tanto nos Andes como era governador no Brasil, construiu-se uma capela em homenagem à santa. Tal capela, com o tempo, passou a designar a praia e o bairro.

          Em meados de 1914, a capela foi destruída para ser erigido em seu lugar, o atual Forte de Copacabana.

         Essa é a história do nome Copacabana.

        Mas a História de Copacabana não para por aí, a praia de Copacabana, junto com a Avenida Atlântica pode parecer calma nos finais de semana quando os farofeiros e turistas vão fazer a festa lá, os velhinhos vão correr no calçadão e as novelas da Globo vão fazer suas filmagens, mas a própria praia remete a uma história de sangria e morte.

Mais uma filmagem da Globo


        O que o ano de 1922 remete aos senhores?  Semana de Arte Moderna? Não só isso.

        Em 5 de Julho de 1922, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, ocorreu uma levante contestatório ao poder das Oligarquias sobre os Estados Unidos do Brasil (então nome da época para designar o Brasil), tendo por aspiração c a queda da República Velha. O Revolta do Forte de Copacabana.

O Forte


         Para isso, devemos ter plena ciência que à época da República Velha, imperava sem mais delongas um poder oligárquico atreladas ao latifúndio e ao poderio dos fazendeiros, onde a figura do "coronel" era sempre de manipular o seu gado eleitoral ( o qual tinha certeza que votaria nos candidatos estipulados pelo coronel e que se tornava assim o chefe local de uma dada região, possuindo assim alguns privilégios).

          Os tenentes do Exército, oficiais subalternos, eram constantemente inundados por um ideal de progresso, comum ao positivismo, e por informes dos jornais da época em que se apelava pela legalidade e outras coisas da Constituição, assim, os "coronéis" (figuras corruptas por natureza)   se opunham ao ideal democrático vislumbrado por setores das forças armadas.

           Para piorar tudo, foi divulgada um falsa carta na qual o Presidente da República, Artur Bernardes, "insultava" publicamente o ex-presidente, Marechal Hermes da Fonseca, chefe do clube do Exército, e  insultava o próprio exército.

O presidente Artur Bernardes


          Artur Bernardes, um membro político nascido da Oligarquia São Paulo-Minas Gerais (estados influentes da Federação), não possuía um aval totalmente popular e com essa carta falsa a sua situação só piorou.

           Eis que em 5 de julho o Forte de Copacabana se levantou em armas, sob o comando do capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho de Hermes da Fonseca, e do tenente Siqueira Campos, começando a lutar contra as tropas do governo.


         Durante toda a manhã do dia 05, o forte sofreu bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz, mas os 301 "revolucionários" (oficiais e civis) mantiveram-se firmes até que Euclides Hermes  Siqueira Campos sugeriram que desistissem da luta aqueles que quisessem: apenas 29 decidiram continuar.


          O capitão Fonseca saiu do Forte para negociar uma trégua (já que o Forte em si estava cercado), mas acabou preso... Com sua prisão, os homens decidiram fazer o esperado, continuaram resistindo.

          Repartiram a bandeira em 28 pedaços e marcharam pela Avenida Atlântica em direção ao Leme. Dez oficiais abandonaram o grupo o meio do caminho, com medo do fim daquilo, e o grupo continuou a seguir descendo pela Avenida Copacabana.




          Mais um homem desistiu daquela empreitada e eis que o inesperado acontece, um civil, que nada tinha a ver com a História, tomou o lugar do fujão e seguiu junto com os outros 17 oficiais pela Avenida Atlântica rumo a uma marcha suicida.

O de terno e chapeuzinho é o civil que não tinha nada a ver com a História


          Os 18  mantiveram a marcha pela Avenida Atlântica, de peito aberto, (alguns acreditavam que os outros soldados não atirariam em irmãos de armas, visto que eles não estavam armaos) e foram fuzilados durante a marcha em frente à Rua Barroso (atual Siqueira Campos), na altura do Posto 3 de Copacabana.


         Apenas dois, o tenente Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram, isso porque se esconderam das rajadas dos tiros.


Escreveu-se então na Imprensa da época sobre esse evento:

"As forças que estão sitiando o forte de Copacabana, sob o comando do general Menna Barreto, tiveram ordem do governo para enviarem um 'ultimatum' à fortaleza, intimando-a a render-se dentro de uma hora. Em caso contrário será bombardeada por forças legais de terra e navios de guerra." O Combate, 5 de julho de 1922.
"Na Villa Militar só houve um pequeno movimento subversivo, imediatamente abafado. Um pelotão, às ordens de um tenente, atirou contra a sala onde estavam reunidos os oficiais. O capitão da companhia a que pertencia esse pelotão, de nome Barbosa Monteiro, oficial de extraordinário valor moral e intelectual, saiu ao encontro dos soldados sublevados e recebeu uma descarga que o fez tomar morto. O pelotão, imediatamente cercado pelo resto da companhia, que acudiu, foi, com seu comandante, feito prisioneiro e desarmado. (...)" A União, 9 de julho de 1922.
"- Nunca desejei e nunca pensei ter de assinar um ato como este, mas agora o faço gostosamente, certo de que estou prestando um serviço à República e às instituições." A Pátria, 6 de julho de 1922.


       A imprensa, muito efervecente na época, e o papel um tanto heróico e suicida dos tenentes acabou sendo um estopim para os Levantes Tenentistas, na qual os "tenentes" (isso é uma generalização mesmo) formaram uma força que galopou pelos recantos do Brasil para fazer frente ao poder do Governo e "moralizar" o povo do interior. Isso não deu muito certo, as populações do interior se perguntavam o que diabos os tenentes faziam.

         Foi do Levante Tenentista (mais especificamente o Levante do Forte) que nasceram a Coluna Prestes (da qual o futuro expoente comunista, Luís Carlos Prestes ia se destacar junto a Moscou) e a Coluna Costa (da qual Miguel da Costa se tornaria conhecido, e tomaria parte do Governo de Getúlio Vargas, de inspiração populista e fascista).

Prestes saiu desse Movimento para uma causa maior








        Essa é a História de Copacabana, ainda há muito a se contar, mas isso deixo para outros capítulos.

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