domingo, 22 de abril de 2012

Ensaio de uma proto-crônica

        Certa vez eu andava pelas suntuosas ruas da cidade, quando parei junto ao semáforo para atravessar.... Era uma daquelas mais belas avenidas que você pode imaginar, caro leitor, uma das poucas com o gramado em cor de esmeralda e árvores retorcidas totalmente secas pelo outono que se anunciava.

        Poderia descrever o lirismo dos beija-flores ao baterem suas asas para trás, mas isso iria quebrar a graça do que vem por vir.

        De certo, observava que o  semáforo se fechava com dificuldade, e quanto menos eu me continha de pressa, mais tempo demorava... O sol parecia fechar-se mais cedo do que aquela sinaleira.

         Eis que me fita um mendigo maltrapilho e diz:

       — Hey! Hey! Cara senhorzinho que boas praças anda aqui — Decerto não disse isso, mas também não escutei o que ele havia dito.
  
        O silêncio é mais revelador que muitas palavras, mantive-me calado.
  
       — Quero que você se deite aí no chão pra eu ver como fica — Disse o maltrapilho.

       O odor transpassado de um bafo sólido tornou-se repulsivas tais palavras... Ao que parece o odor condensado em palavras tortas era apenas comparável ao escuro chorume em decomposição. Pois eis o que prestei atenção:

       — O quê?

       — Isso que você ouviu.

       — Tolice! Tenho mais que fazer.

       — Faz aí! — Disse em tom coercitivo.

       — Não! — Rebati de maneira enfatica.

        Eis que a sinaleira se fecha e o andarilho se afasta de mim, passados alguns metros, vejo um daqueles tipos "fodões" sairem daquelas caminhonetas no meio do trânsito...

         — Hey, meu irmão — Abordou-lhe o mendigo junto à pista.
         — O quê? — Disse o bombadão com voz de fuinha, todo estupefado.

           — Quero que você se deite aí no chão pra eu ver como fica — Repitiu o maltrapilho novamente a lorota.

           Não sei o que deu naquele bombadão, não sei o que diabo deu nele, mas ele fez tudo que o mendigo quis... Talvez estivesse com medo, talvez achasse que ele estava com uma arma,  a resposta é que ele caiu no chão feito um paquiderme.

          — Mas que merda é isso? — Olhei do outro lado da travessia.

          O mendigo simplesmente passou por cima do bombadão e fugiu com sua carteira, em meio a protestos de: "Pega ladrão!" "Pega ladrão".

          Definitivamente não precisa ser mágico para fazer com que as pessoas as maiores asneiras possíveis, basta intimidá-las com o medo, ou ter um bafo do cão. Vai entender...

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