segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Que futuro?

A bandeira vermelha tremula a meio mastro
Tenha certeza que o sangue jorrou
Jorrou nessa terra fria e ácida
Não tenha medo, camarada
Só é um enterro, um funeral
Funeral de heróis de um futuro esquecido

Os nossos camaradas que sorriam
Brindavam e corriam sob os silvanos
Hoje caíram sob o cadafalso da tirania
Sem direito de resposta
Caíram ensanguentados
Até fenecer sobre a morte

O estudo em vermelho
A câmera em preto e branco registra
A desolação de uma mãe
que não pode enterrar seu filho
Ele era meu camarada;

Meu amigo de infância
Meu colega de juventude
Que corria dos cachorros
Mas não fugiu das balas

O frio tece-me a lembrança
De como o chumbo é sacana
Pois queima-o por um instante
Mas o deixa gelado de agonia

Meus camaradas morreram
Nessa praça onde você anda
Eles feneceram em silêncio
E se dobraram ao tempo
Mas eu, eu não esqueço

Não esqueço de quando era jovem
De quando era idealista
E um único sonho
era ser marxista

Vi o tempo passar,
vi uma guerra se formar
Lutei e vivi
Vi meus filhos crescerem
Casei e morri

Hoje tudo que me resta
É descrever o que minha juventude disse
E eu não ousei ouvir
Que meus sonhos são hoje
O passado de alguém distante

Que futuro eu terei?
Que futuro você terá?
Nada é mais triste
Do que esquecer seu passado
E desdizer o futuro

Viva o presente, meu jovem
Viva o presente.
Tempo, a toda velocidade,tempo!
Não se esqueça de nós, minhas crianças
Assim como nunca esquecemos de vocês

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O chão

            O chão é o plano perpendicular aos nossos pés e a nossas cabeças; às vezes é tão duro como um diamante, um oponente sagaz às nossas quedas quando somos crianças e implacável gigante de terra que sustenta alicerces das nossas casas, das árvores e da vida.

             O ar é livre e solto, ameaçador e sedutor. O homem ama à liberdade dos pássaros desde os desenhos primitivos do Renascimento Italiano quando Da Vinci desenvolvia uma arte ao estudar o movimento dos pássaros ou Santos Dumont se arriscava à sombra da Torre Eiffel à decolar em seu primeiro voo à eternidade. O tempo ainda nublado é um grande desafio à essas cotovias de metal que cortam os ares a despeito de meras adversidades.

                 Um fio de esperança percorre nossos corações quando num deleito de juventude olhamos para o céu querendo construir um futuro melhor, um idealismo jovem e acurado. Eduardo Campos era uma cotovia, um rouxinol do campo. Calmo e tranquilo, tinha uma fala mansa e uma evidente simpatia, socialista bem intencionado, pai de família e trabalhador incansável, não quis se manter pela imagem de seu avô. Pelo contrário quis tecer um ninho de esperança como é próprio das cotovias após uma atmosfera de desilusões e esquecimento.

                 O futuro prometia ser novo, repaginado e melhor. Os abutres de hoje se somam para se utilizar do cadáver de nossos sonhos sob a égide da perda de um sonhador. Antes o atacavam ou manchavam sua memória relatando falsas amizades políticas;

                A serpente incendiou o seu voo ao tecer um vil veneno fazendo com que a cotovia decaísse de maneira decrescente de  seu voo pela pátria que jurara entender e ouvir. Os falcões midiáticos o atacavam, riam de sua franca iniciativa e hoje matutam como gralhas falantes sobre o seu legado para a história. Os bandidos de terno e colarinho branco assaltam sua memória e a cotovia desaparece sob o nicho de aves de rapina de fraque.

                   Pai, marido, jovem, político. Pragmático e sonhador; amado por muitos, preterido por outros. Virou pessoa non grata de alguns por optar por um caminho diferente da ortodoxia, e num soneto político digno de uma valsa teceu passos importantes para o desenvolvimento do exercício democrático brasileiro. Desvencilhado do caudilhismo dos rincões do Brasil, tentou conter alianças intrapartidárias que descaracterizariam a cerne partidária, mas teve que ceder às tentações quando o grupo de Marina Silva não veio a formular um partido. Negociou nesse caso, mas de maneira concreta e pragmática.

                   Campos olhava a economia com olhar crítico, não era preso à cegueira do Ministério da Fazenda carregado de pensamento cepalino ou a inocência de neoliberais em impor a desregulamentação do mercado. Tentou fugir dos políticos carcomidos do circuito de São Paulo, que tentavam usar o seu nome para obter uma falsa popularidade. Campos nunca foi amigo desses políticos demagogos que hoje enaltecem seu nome.

                   Cotovia incansável que semeou esperança em alguns corações desiludidos por fugir da função dialética da política nacional e optar por uma terceira via, que tecia inconscientemente as bases para uma nova democracia.

                     Não é só porque ele fosse meu candidato e eu fosse apoiador de suas reformas no campo da economia e das reformas sociais, mas também posso dizer que sua humanidade é algo que não deve ser toda desconsiderada.

                  Sua morte provavelmente será esquecida pelo cotidiano banal e comum das pessoas que desistem facilmente de política  e a tornam filha ingrata da economia e dos acontecimentos cotidianos; Mas uma coisa é certa, Campos não será esquecido por uma legião de apoiadores e por mim mesmo, ainda que seja jovem e um tanto idealista.

                     A cotovia desce o seu último voo e inflamada pelo calor do fogo transforma-se em uma pomba branca que impele aos mais jovens ao espírito da esperança; O espírito de Campos continuará em quem realmente está disposto a tornar novo o que já estava carcomido, e quem estava disposto a retirar múmias políticas da nossa democracia em construção.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A importância do Stakhanovismo

Stakhanov em foto

          Aleksei Stakhanov, herói do Trabalho Socialista e um "socialista-modelo" da década de 1930 na União Soviética. Um trabalhador por excelência, era isso que a propaganda soviética destacava a figura de Stakhanov. Stakhanov é conhecido pelos estudiosos de União Soviética e stalinismo sobretudo pelo feito arrebatador de conseguir extrair sozinho nada menos que 102 toneladas de carvão guza em meras cinco horas e quarenta e cinco minutos de serviço, superando em catorze vezes a cota estimada para si.


          Aleksei Stakhanov provavelmente pode nunca ter chegado a esse número estrondoso (é um número que é quase humanamente impossível), mas é provável que tenha batido muito a sua cota de trabalho. E por quê? Não, Stakhanov inicialmente não era um só um entusiasta comunista, mas sim um homem simples que vivia com as roupas sujas de terra  e simplesmente queria algo a mais do que ter o suficiente, ele desejava conseguir um salário maior para sobreviver melhor; Talvez por isso que tenha ultrapassado a cota de trabalho estipulada por sua mineradora em Donbass.
Aleksei Stakhanov em um momento laboral
          Stakhanov é lembrado pelo feito absurdo propagado pelo Pravda e Izvestia que assombrou até mesmo os técnicos de planejamento da União Soviética, nem o mais otimista dos planejadores econômicos imaginaria que um trabalhador poderia sozinho conseguir extrair 102 toneladas de carvão guza (como eu disse, é provável que o número seja uma invenção propagandística,  mas toda a lenda tem um fundo de verdade, e não escolheriam a esmo alguém para glorificar). Stakhanov era um homem dos Planos Quinquenais.

           Os Planos Quinquenais estavam em vigor de fato em 1929 na União Soviética depois das disputas internas dentro do Partido Comunista da União Soviética, entre os planejadores da União Soviética, o grupo de "direita", formado por Bukharin e Rykov que desejava a manutenção de uma economia mista (e mais autossustentável) na forma da NEP que não garantia um desenvolvimento industrial extraordinário mas também não resultaria em graves sacrifícios ao trabalhador (como um salário que em tese teria o seu poder aquisitivo reduzido, devido aos problemas inflacionários de uma economia que está em crescimento imediato sem observar a capacidade de consumo da população) e um grupo formado por defensores do estalinismo, que sustentavam que era necessário o rápido desenvolvimento tecnológico e industrial soviético não só por questões ideológicas (por a União Soviética ser o bastião do socialismo no mundo) como também a constante ameaça de uma guerra mundial entre o capitalismo e o socialismo (que se encaixava muito bem na lógica do próprio Stalin).

          A derrota de Bukharin pôs fim à NEP e resultou consequentemente na sua submissão e retratação à Stálin (Bukharin desde 1924 até 29 foi com certeza o personagem mais importante e respeitado da União Soviética depois da morte de Lenin, nem mesmo Stalin desfrutava tanta popularidade quanto o "teórico do Partido"), a economia do campo ficou submissa aos interesses do governo central levando à Coletivização do campo, a eliminação dos kulaks, deportações e crises agrárias (agravadas pela seca de 1932-33 causada pela La Niña).

        A economia soviética vivia graves desafios e de fato, a despeito da brutalidade dos eventos que ocorreram relacionados ao plano de desenvolvimento stalinista, a União Soviética foi o único país da Europa a crescer durante a Crise de 29. Em dez anos a economia soviética cresceria 33 %, em número reais aproximados com relação à indústria pesada.

          Stakhanov é um dos propagadores desse espírito. Embora o stalinismo tenha coexistido com o terror, o terror meramente por si mesmo não levaria ninguém de livre espontânea vontade a trabalhar da forma como os soviéticos passaram a trabalhar. O Arquipélago Gulag é um elemento importante da economia soviética no seguinte sentido que representava algo em torno de 10 a 15 % do esforço laboral em alguns setores estratégicos da economia soviética, contudo, o trabalho nos campos além de ser degradante no sentido humano (pois se tratava sim de um serviço que beirava ao trabalho escravo em locais inóspitos e com altas cargas de trabalho) era contraproducente no sentido econômico do termo, pois além de não se autossustentar, levava à morte dos trabalhadores.

          Os canais do Mar Branco, do Moskva-Volga e de outras hidrovias soviéticas (que eram mais importantes certas épocas do que o trem para o transporte da produção alimentícia e industrial soviética do que as ferrovias, que nem sempre chegavam a certas regiões da Rússia) foram construídas à base do trabalho compulsório. Mas o Metrô de Moscou, a coisa mais emblemática dessa década, não. Foi construído com trabalho voluntário.

              E Magnitogorsk também não foi construída com base no Arquipelago Gulag (embora tenha tido trabalho de alguns prisioneiros em suas plantas industriais). Magnitogorsk é a coisa mais impressionante desse período, uma cidade construída a partir do nada, no meio da taiga siberiana, em questão de poucos anos representava o grosso da indústria siderúrgica soviética. 

Magnitogorsk, a cidade industrial que surgiu no meio do nada
           Stakhanov era o modelo de como um homem soviético deveria agir, trabalhar e pensar. Afinal de contas, antes de mais nada o entusiasmo da juventude que fez esses feitos insuperáveis. Esses anos, mais do que outros, o cidadão soviético se sentia importante ao ponto de acreditar estar revolucionando o Mundo com o seu trabalho, o seu exemplo para os trabalhadores do mundo que a pátria dos trabalhadores era uma alternativa viável à crise que se prolongava há anos no Mundo Atlântico.

           Stakhanov, a locomotiva, o trator da fazenda coletiva. Esses anos eram de movimento, a Rússia crescia a ritmo chinês e não parava de crescer, se fortificando através da construção de tijolos em seus pés de barro  até que se tornou um gigante industrial, um colosso soviético.
                 Foto de uma associação de trabalhadores felicitando a "Teoria de Marx, Engels, Lenin e Stalin"


           O stalinismo era tomado pela corrupção ideológica de seus magnatas, da paranoia egocêntrica do próprio Stalin, das batidas policiais noturnas, os interrogamentos, o império da delação e torturas aos prisioneiros políticos (que desafiavam a linha ideológica stalinista). Isso surgiu num contexto em que o próprio Stalin acreditava que para a União Soviética qualquer dissidência, qualquer discussão contrária poderia desvirtuar o foco num problema central, um país forte que pudesse enfrentar não só todos os inimigos externos (seja os fascistas europeus, seja as democracias liberais que interviram anteriormente na Rússia). O império do coturno de cano alto e do cachimbo entre os bigodes surgiu inicialmente de uma inquietação justificada da liderança bolchevique e cada vez que os anos passavam o quadro ficava cada vez mais autoritário.

          O trabalho de Stakhanov e daí sua importância é mostrar um espírito imaginativo ao  trabalhador soviético da época, mostrar que a introdução de métodos de eficiência laboral, taylorismo e aumento de produtividade não só poderiam ser bons para a indústria, mas também para o trabalhador comum (e isso a propaganda soviética enfatizava). Quem trabalhava mais, ganhava mais. Tinha mais benefícios e era reconhecido, nisso nasceu o desejo pelo trabalho.
                                            Propaganda soviética sobre Stakhanovismo

         Mais gente sujava as mãos de graxa e óleo, conduzia tratores e trens, costurava roupas ou plantava vibraquins em motores. Stakhanov sem querer incentivou uma geração inteira ao vício saudável pelo trabalho, o trabalho por uma sociedade melhor e uma vida melhor, talvez nem ele imaginasse o impacto que ele teve ao extrair quantidades maiores de carvão em sua pequena mina no nordeste da Ucrânia.

        A União Soviética só se tornou o colosso (e a Rússia sua herdeira num BRIC) graças ao entusiasmo dos anos 30 (que o Brasil só foi conhecer por exemplo no final dos anos 50 até 1970). O legado do Stakhanovismo é mostrar ao trabalhador que o ganho de produtividade, uma maior eficiência do trabalho empregado produz inerentemente mais produtos e resulta num aumento salarial consequente, isso numa economia socialista; numa economia capitalista tradicional prevalece a mais-valia.

         Alguns analisam a União Soviética como um capitalismo de Estado; Não é de fato errado no plano externo, mas no plano interno, a União Soviética não pode ser encarada como capitalismo de Estado (talvez só no período da NEP e olhe lá), mas sim como uma economia planificada (que apesar dos defeitos e das falhas sobretudo com relação à política agrária chegava a ter uma eficiência às vezes superior ao afamado e famigerado Reich nazista, que apesar de tudo, se destacava por ter um caos administrativo). A União Soviética foi a primeira economia planificada da História, a primeira economia de guerra que se sustentou por oitenta e quatro anos e que ainda assim se manteve razoavelmente bem durante um século complicado como o século XX.

           Quando olhamos hoje o noticiário e vemos com surpresa a China promulgando o seu novo Plano quinquenal, temos a tirada irônica inconsciente, "novo Plano Quinquenal. Que paradoxo! Não há nada mais obsoleto do que isso". Mas um Plano Quinquenal é algo novo porque surgiu só na Revolução Francesa essa ideia de controlar tudo a partir de um Estado (nem o "absolutismo" acreditava poder ter controle total da economia, na verdade, isso nunca existiu até 1929). O experimentalismo soviético dos Planos Quinquenais sem querer acabou servindo de modelo para muitas coisas hoje: O New Deal, que nasceu de uma interpretação da heterodoxia capitalista sobre a Carta dil Lavore do Mussolini, uma "profilaxia contra crises econômicas" e de uma planificação econômica moderada a partir da intervenção parcial do Estado, copiando trejeitos da economia soviética. A CEPAL com o seu modelo econômico de desenvolvimento pseudokeynesiano, e obviamente, a China.

           Uma economia de mercado é tecnicamente menos complicada que uma planificação, por isso chega a ser impressionante como a União Soviética tenha resistido por tanto tempo. 
Os desafios no campo e na cidade

          Voltando a Stakhanov, o exemplo individual sobre o coletivo mostra que a despeito da impessoalidade de um estado totalitário (em certos aspectos a União Soviética tinha um elemento autoritário em sua essência) era possível obter reconhecimento pessoal através de sua diligência laboral, e num método de competição assemelhado ao capitalista (embora não fosse bem por lucro, mas sim por fama e prestígio) os trabalhadores soviéticos passaram a trabalhar mais na esperança de serem lembrados nos confins da Sibéria, na imundície das minas de carvão da Ucrânia, nas fábricas de Leningrado ou mesmo nos campos de trigo do Volga. Stalin se aproveitou disso para se mostrar como o "grande timoneiro" que conduziria a União Soviética para o caminho do "verdadeiro comunismo" e surgiu o seu culto à personalidade, bem como incrivelmente, sua popularidade a partir dos esforços dos trabalhadores.


Outra propaganda soviética sobre a vida de Stakhanov

             Stakhanov ficou famoso a ponto de ir aos Estados Unidos dar entrevistas à revista Time e fazer conferências sobre o seu feito laboral. Posteriormente se tornou estudante da Academia Industrial de Moscou, se tornou diretor de uma fábrica e ficou subordinado ao Comissariado de Indústria Pesada. Em 1974, depois de receber vários louros e recompensas do governo Brejnev, retirou-se do serviço aos 68 anos de idade, vindo a falecer quatro anos depois, em decorrência de acidente vascular cerebral ocasionado pelo seu grave problema com o alcoolismo (conta-se que ele apresentava um quadro de esclerose múltipla com perdas de memória parciais e delirium tremoris, próprios do alcoolismo).

              Stakhanov foi duramente criticado, sobretudo por trotskistas, por ter alicerçado ideologicamente o estalinismo com sua  propensão laboral ao trabalho absurda e ser um "burro de carga que segurava nas costas a falência moral do stalinismo" por em outras palavras "desistir de sua própria humanidade em torno de uma ilusão propagandística". O stakhanovismo foi encarado no socialismo ocidental como um desvio surgido dentre os vários desvios stalinistas, e os stakhanovistas como indivíduos alienados ao próprio trabalho que esqueciam o ideal marxista ao se preocuparem inteiramente ao serviço e a bater metas. A questão é que a crítica é falha num ponto, a alienação é existente se a ideia de bater metas existe numa fábrica industrial capitalista, onde o lucro vai para o empregador, mas numa realidade econômica socialista de fato, o ganho de produtividade também é obtido ao próprio trabalhador, já que há um ganho no seu próprio salário.

            Além disso, Marx era enfático ao destacar que o socialismo só seria vitorioso caso se mostrasse mais eficiente que o capitalismo no meio de arrecadar riquezas; Hoje sabemos que o socialismo real não foi vitorioso porque se tornou ineficiente na sua hipertrofia hierárquica partidária e na oligarquia da nomenklatura que se aproveitou dos esforços laborais da população, mas o stakhanovismo surgiu também (até no plano propagandístico) para tentar construir um modelo econômico mais eficiente que o capitalismo, e no campo da indústria pesada, por dez anos isso foi completamente correto.

          Mas a crítica também tem certo fundamento no seguinte aspecto: a perda de qualidade dos produtos. Com o aumentado absurdo da quantidade do trabalho empregado, os números passaram a ser mais importantes que a qualidade. Assim o produto soviético passou a ter uma qualidade inferior ao produto ocidental, isso é um dos motivos posteriores que levaram a derrocada da URSS, a falta de qualidade dos bens consumo soviéticos, coo roupas, eletrodomésticos e carros. Isso é produto do Stakhanovismo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Carpintaria

          Carpintaria é a arte
          de polir na árvore
          o que o papel
          pode polir da arte

          Lixar a madeira
          É como extrair
          da ode o poema

          Mas a sorte
          é brincar de pintar
          o ladrilho do novelo
          de trigo vermelho

           Madeira é celulose
           tanto quanto o papel
           É dura como a pena
           De escrita sarracena


           Curtir árvore
           E brincar de cheirar um livro
           Que por mais antigo que pareça
           Mais cheiroso deveras seja

           Carpintaria é o produto
           do mais engendrado ócio
           bem aproveitado

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Escuridão (conto)

         Nada é mais denso que o suor das estrelas, mas no passar de um cometa, o acalanto de um céu vazio e coberto de nuvens escuras era um tremor para uma mente desalmada; pois nada era mais agressivo do que o silêncio de um mujique ou o suspiro de uma corrente de ar; nessas horas cada um que se encontrava pelos bosques e arvoredos olhava para o calçamento com olhos fracos e quando se encontrava tarde da noite com uma pessoa, tecia um grave silêncio que era perturbador para o mais sonoro dos inexperientes.

        Nessas horas cada passo pode ser o último, cada ofegar pode ser um grito e um mero suspiro ou uma palavra mal empregada pode acarretar graves consequências; de fato, quem mais argumenta durante a noite é o mais triste dos feitores; O silêncio é parceiro não declarado das noites frias de inverno.

        É arrebatador pensar que a despeito do circuito egocêntrico de queremos apenas nos encontra confortáveis em nossas camas, algumas pessoa acreditam que a noite é uma companhia maior do que as outras. Pessoas essas que trabalham, escrevem, passeiam ou mesmo só carregam a lacuna de mais uma viagem pela escuridão. Onde ontem havia estrelas, hoje havia nebulosas considerações;

           Nunca espere mais do que isso em noites de final de julho.


            E foi no final de julho que esse fato aconteceu. Não que seja mais insuportável que os outros, muito pelo contrário, era normal e corriqueiro; Num dos quadrantes industriais de nossas metrópoles polidas planejadas em formas matemática, em torno de uma rara  concepção de que o urbanismo é uma ciência tão cara quanto a física ou mesmo a biologia, num desse quinhões de desenvolvimento em meio à selva de árvores e riachos que ainda intocados adentravam no corredor vegetal de bioma do planalto brasileiro.

          Nessa ilha de desenvolvimento que isso aconteceu. Numa dessas noites de final de julho, Felipe Gouveia, uma pessoa ignóbil, franzina  e muito escassa em expressões idiomáticas caminhava para fugir de mais um dia de trabalho; extenuado em sua busca caminhava pelos ladrilhos quebrados da calçada de um dos bairros do subúrbio e relutante objetou tomar um ônibus. Mais relutante ainda estava o coletivo que ao avistar o rapaz sozinho naquela ocasião passou reto contraindo uma torrente de obscenidades que o idioma lusitano não me permite descrever em palavras miúdas.

            Os mujiques das estrias  industriais olhavam para o rapaz dos bares apilhados de cerveja vagabunda e fumaça de cigarro paraguaio. Nesse deleite de adversidades o rapaz estranhamente sorria e matutava consigo como tinha sido o dia: O terno estava nas suas costas lhe dando conselhos.


             Impessoalmente dizia consigo: "O trabalho liberta e divinifica o homem. Meu pai dizia, queria poder dizer que ele está errado. E está errado mesmo, velho imprestável!"

             E lembrou do dia no banco, de como fora cansativo o caso da velhinha que queria trocar o seu cartão e nem sabia o número de sua senha. Ou da gritaria que foi renegociar o consórcio com uma família inteira, mãe, pai, filhos e filhas, bebê, cachorro, papagaio e sogra. Num deleite do choro do bebê ele acabou cedendo nos termos e chamando o gerente que decidiu não tomar a "maloca".

              Perdeu consigo tempo na parcela de lucros, pois não abriu mais contas do que deveria e de modo que sua instantânea preguiça o conduziu para um raciocínio direto: Nada é mais estafante do que trabalhar num banco. Quando saiu da agência, seu carro tinha sido guinchado por ter estacionado em fila dupla e a noite se pronunciava de maneira absurda. Foi ao ponto de ônibus, esperou, esperou e esperou... Passou-se uma hora e meia, sozinho, agora sentado no banco de concreto tentou encontrar explicações até que percebeu que nenhum ônibus passara desde então. Era uma greve geral.

           Zangado com o rumo do dia, partiu à pé e de um modo arrebatador olhou para o céu que não exibia nenhuma forma de conforto direto. Caminhando pelos ladrilhos quebrados, lembrou que não havia chuva e que um cano de esgoto escorria na pista sujando seus sapatos engraxados. Amaldiçoou até encontrar o ônibus, que conforme disse, havia se despedido sem cerimônias.

          Caminhou mais um pouco, pensou em pegar o trem; mas eis que eram já dez e meia, e o metrô fechava às onze. Argumentou que era ridículo algo desse jeito fechasse tão cedo, mas só conseguiu convencer a si mesmo. 

               Num desses cantos escuros, cobertos de mangueiras e sabugais, não muito longe das casas e dos comércios, caminhou com passos aguerridos. Estava com a impressão de estar sendo seguido e azar o dele: estava de terno. Correu com suas pernas curtas das sombras que se pronunciava sob a luz fraca dos postes e num dos becos escondidos nas reentranças suburbanas encontrou uma voz assombrosa e fina em sua frente: era um ser de olhos esbugalhados, orelhas pontiagudas e poucos pelos faciais, assustado tanto quanto ele, o gatinho correu sob seus miados, fugindo da sombra que irrompia atrás de Pedro;

                 Um homem mascarado vestido de preto da cabeça aos pés irrompia numa das sombras das onze da noite e sacou a lâmina prateada das mãos, Pedro não teve tempo de reagir. E arrogantemente o bandido encerrou o dia da pior forma possível. O terno caiu no chão, Pedro logo depois. Roubaram sua carteira e logo estava sozinho olhando para o céu, o céu continuava fechado:

               Escuridão, apenas escuridão...

domingo, 20 de julho de 2014

O suspiro da esquerda

        Ser de esquerda é ter um espírito próprio de se indagar sobre as injustiças do mundo, questionar os motivos para ter uma divisão absurda dos recursos materiais e humanos maior para alguns e quase nula para outros; É se compadecer com o sofrimento de muitos (e quando não for muitos mais, é ainda se compadecer com o sofrimento humano, mesmo que seja minoria).

        Não admitir ser comodista é ser logicamente um progressista, e quem é de esquerda de verdade acredita inerentemente no progresso: O progresso material e social; Seja pela revolução, seja por uma economia de transição, quem é de esquerda crê construir algo de melhor; e no fim das contas, é uma pessoa bem intencionada por esses motivos.

       Um verdadeiro partidário de esquerda é disposto a fazer sacrifícios em torno de um pouco mais de igualdade, justiça; sabe que a vida será um martírio, mas aceita de bom grado o desafio. Espera com uma moral arrebatadora o melhor de seus companheiros e o melhor de si, cobra todos os dias por eficiência em suas ações, e humanidade em seus atos. Ser de esquerda é pensar em quesitos humanísticos;

        Mas o que fazer quando mesmo com o melhor dos espíritos nossos ideais são usurpados pela demagogia? Quando tiranos se aproveitam de nossos sonhos para impor um centralismo democrático tradicionalmente autoritário? Eles se corromperam ao acreditar que a mera violência por si mesma é solucionadora inerente dos problemas sociais; ao contrário, a violência pode ser a parteira da História, mas não é a única, e não podemos aceitar que ela se mantenha mesmo quando mantemos firme o nosso ideal.

      A violência inerente com que a Revolução Russa levou uma sociedade que buscava seguir um caminho é algo que entristece de fato um segmento da social-democracia, é como se fosse uma mácula do pensamento socialista. "Não existem revoluções que não tenham tido Terror", Lenin teria dito. Em verdade, a justificativa que ele apresentou foi a partir da análise da Ditadura de Oliver Crowell e do Terro Jacobino de Robespierre, mas os próprios ocasionadores do Terror são fagocitados por sua própria criação, numa variação da novela de Robert Stevenson, Doctor Jekyll and Mister Hyde. O terror expõe as piores características humanas, a sua propensão pela violência.

       E a despeito de o Iluminismo ter declarado que toda a violência é válida quando há um motivo justo, nenhuma violência é tecnicamente racional, nem quando houve o Termidor ou a caça aos kulaks na URSS, muito menos na Revolução Cultural. Nenhuma violência é válida pela simples razão de que ela não só viola os direitos do homem à vida e á liberdade, como também ceifa  a sociedade de um espaço de discussão para o predomínio da loucura e da violência, inicia-se um caos social em que vizinho denuncia vizinho, amigo trai amigo e mulher se vinga do marido. As coisas mais mesquinhas aparecem por baixo do barranco.

        Ser de esquerda é um exercício diário de humildade. Um exercício que muitas pessoas não conseguem manter quando chegam ao poder, e acabam impondo com violência a sua verdade a outras pessoas, seja opositores ou entusiastas; O maior delito que o pensamento radical construiu foi tentar impor valores sociais universais sem observar a realidade cultural de uma sociedade, tampouco, muitas vezes destruíam a realidade política a partir de assassinatos políticos e prisões.

         O seio do ideal revolucionário é a destruição criativa. Destruir o sistema capitalista para construir algo inteiramente novo, um niilismo com propósitos nobres, mas nem sempre reais; Tal como hoje as velhas marias-fumaças enferrujam em seu ostracismo para dar lugar aos trens-bala, ou mesmo os automóveis darão lugar para o futuro teletransporte no futuro médio-distante, os revolucionários acreditavam que o capitalismo estava fadado à sua destruição.

        A questão é que o capitalismo continua firme e forte (apesar que tenha seus momentos de fraqueza, conforme os ciclos de Kondratiev), e nesses momentos de crise, onde o povo sofre os mais profundos efeitos enquanto a concentração de renda aumenta, o capitalismo se renova e se refaz para continuar seu caminho: Às vezes ele cede às pressões sociais e toma "medidas profiláticas" de evitar novas revoluções, como foi o caso do New Deal, outras vezes, acaba retirando todas as seguridades sociais em torno da ilusão da eficiência das grandes empresas, neoliberalismo tharcheriano.

        O fato que o atual sistema continua sendo assustadoramente eficiente para produzir riquezas, e crescendo cada vez mais, não só por mexer com os vícios e aspirações psicológicas das pessoas (que a psicologia econômica e a microeconomia hoje estudam com afinco), como também levou a uma proporção metafilosófica a vida cambial. 

           Não que o dinheiro já não fosse um conjunto filosófico de conferir valor a um bem que na verdade é só um pedaço de papel pintado (tal como o ouro ainda é um mineral dourado com propriedades reconhecidas apenas na eletrônica), mas o dinheiro passou a ter uma proporção cada vez menos palpável e concreta, até chegar ao nível filosófico intrísseco e ser atrelado ao conceito de número imaginário: um número existente na teoria, mas inexistente no mundo prático, exceto na computação. E esse é  o valor do dinheiro hoje, o dinheiro hoje é um número imaginário que se elevado ao quadrado pode dar negativo, porque no fim, não há nada mais virtual e tecnológico do que o mercado de ações.

            E o mercado de ações é um vício como outro qualquer, é uma evolução do Pôquer ou do Black Jack, onde você aposta todas as suas fichas em determinadas frações de uma empresa (sem necessariamente ter poder de administração desse negócio) para no fim esperar ter um ganho financeiro em cima de outra pessoa: No Black Jack, você nunca ganha nada em cima da casa, você sempre ganha em cima do fracasso de outro jogador. Psicologicamente falando, especulação é um vício tal como o vício em jogo de cartas e talvez tenha sido assim que surgiu a especulação, com o jogo.

          O caráter lúdico do ganho de dinheiro não pode ser quantificado, assim como o caráter de colocarmos valores irreais num bem ou produto. Tal como foi com a Crise das Tulipas, na Holanda, que foi a primeira crise financeira que se teve notícia no mercado de valores.

            Em todo caso, o papel da esquerda é fazer valer as regras sociais do jogo; defender os perdedores desse processo que não são levados em conta nesse vício lúdico que é o mercado de ações: os empregados, os proletários que vendem a sua mão de obra em troca de sua própria sobrevivência;

           Marx dizia que a medida que os anos passariam, as tensões entre a burguesia e o proletariado aumentariam de modo que as fileiras do proletariado aumentariam cada vez mais juntamente com a exploração da burguesia sobre essa classe; Entretanto, Marx estava errado, no momento chave da expansão do capitalismo, o trabalhador inglês teve um aumento no seu poder aquisitivo em por volta de 15%, é claro que o lucro do burguês foi ainda maior, mas isso mostra que apesar do aumento da exploração, houve também um aumento dos direitos do trabalhador.

              Isso incrivelmente se deu graças aos liberais e não aos socialistas, embora os socialistas estejam ligados a esse processo; os liberais foram responsáveis pela expansão do sistema educacional para as classes mais baixas devido à necessidade cada vez maior de técnicos para trabalharem nas fábricas, isso levou a um aumento do salário devido à lei da oferta e da procura, e quem não se especializou ficou para o exército de reserva. Foi uma janela de oportunidades que se abriu nas fileiras do proletariado.

              Os movimentos trabalhistas eram duramente combatidos pelos conservadores, mas o liberalismo inglês foi perspicaz ao compreender que algumas mudanças pontuais no sistema, "medidas profiláticas", esse é o termo da literatura da época, eram interessantes para o seu projeto político de criar uma sociedade nova a partir de seus referenciais pressupostos: A felicidade geral do homem a partir do ganho material e das riquezas. E só numa sociedade estável, sem indícios de lutas internas violentas isso poderia se desenvolver, assim para acalantar as reivindicações sociais os liberais começaram a fazer concessões aos trabalhadores, lentas obviamente.

               O papel da esquerda e dos trabalhistas é ser a vanguarda das mudanças sociais, é estimular cada vez mais que a exploração sobre o trabalhador comum seja menor e que ele passe a ter mais direitos; o papel dos conservadores é impedir que essas mudanças sejam nocivas ao corpo social como inteiro, para que não aja rupturas e derramamento de sangue, eles defenderam os pontos de vista dos "exploradores", mas eles também são responsáveis por uma parcela da identidade cultural da sociedade. E o papel dos liberais é mediar esses dois grupos, e por isso que o papel do liberal é o mais difícil, pois além dele ser criticado pelos dois lados, ele é vulnerável em certas épocas a desaparecer, como foi o caso do período entre a crise de 1929 até o final da Segunda Guerra Mundial;

          O problema de mudanças bruscas na sociedade é acabar deixando a sociedade instável politicamente e sem um norte jurídico, nesse tipo de situação os impulsos psicológicos mais mesquinhos aparecem em atitudes francamente impensadas. Uma sociedade civil deve sempre buscar o equilíbrio entre o radicalismo e conservadorismo para a sua segurança institucional, caso isso não ocorra corre-se o risco de todas as antigas normas sociais serem desconsideradas.

      A classe média (petit-bourgeosie, nos conceitos marxistas) é a vanguarda do pensamento conservador, não à toa que o fascismo, bem como o nazismo nasceram (e foram apoiados) em massa pela classe média italiana e alemã frustrada com suas perdas na crise de 29 e com o "perigo vermelho" que representava a União Soviética e o bolchevismo.

         A classe média é instável consigo mesma, ela deseja se tornar uma burguesia com o poder aquisitivo e seguridade social desejados, mas tem um trauma de sempre estar em perigo constante de acabar se empobrecendo e entrando no proletariado. De modo que ela tem medo da pobreza, e esse medo faz com que ela aceite as coisas mais absurdas possíveis em prol de sua "falsa sensação de segurança". Tal reacionária quanto a classe média talvez só o camponês, como diria o Lênin em "Como iludir o povo", e Marx em vários escritos.


        Entretanto a classe média também é uma das mais beneficiadas pelas lutas históricas da esquerda, ela conseguiu a previdência social, direitos trabalhistas, sistema de saúde, férias, e outras coisas que só foram obtidas a partir de lutas do proletariado. Ela é esquizofrênica em sua constituição e digo sem mais delongas, nunca será homogênea em seus interesses.

        O radicalismo assusta a pequena-burguesia, e o radicalismo demais leva ao proletariado a tomar atitudes que externar a catarse de sua exploração por meio da violência a outros indivíduos, e esse é o perigo. O perigo de as lutas desconfigurarem por inteiro o convívio social, além do fato da reação descabida do conservadorismo.

            Pior que o conservadorismo é o reacionarismo; O reacionarismo é um morto-vivo, um zumbi histórico, que aparece só em sociedades que não são tecnicamente desenvolvidas economicamente ou politicamente, pois não há coisa mais anacrônica que invocar o passado como modelo. O reacionarismo é possível em contextos repressivos de estados "atrasados", como a Rússia, Áustria e Prússia na Santa Aliança pós-Congresso de Viena, a  Espanha de Franco depois da derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola, Portugal (sempre sendo Portugal) de Salazar, a Argentina no golpe de 1930 pela aliança dos agropecuários com o exército para derrubar Yrigoyen, e o Brasil em 1964 com a sua Marcha da Família com Deus para Liberdade, e os TFP, onde a classe média apoiou o golpe civil-militar para acabar "com o perigo vermelho".


              O papel da esquerda é difícil, ser a vanguarda das mudanças e demandas sociais nem sempre é fácil; Ela tem que lutar não só com os liberais e conservadores, como também tem que tentar dar uma homogeneidade aos anseios sociais existentes para que a vontade da maioria prevaleça; Na política, quando se está fora do poder, deve-se ser oposição, denunciar os erros e defender os desejos sociais. No poder deve tomar cuidado com a arrogância e passar a ouvir bem a sua base, compreender a identidade política existente e ter cuidado para não ser autoritário.

              A União Soviética é sem dúvida nosso melhor legado; e sabem porquê, ela nos ensinou o que devemos fazer e, o principal, o que não fazer. O experimentalismo soviético deve ser louvado, então devemos dar fim ao nosso constrangimento quando lembramos que o muro de Berlim deu presságio ao agouro de Hitler: "Basta chutar a porta que o resto desmoronará". Tudo desmoronou porque deixamos, e esse foi o nosso erro.

                 Hoje temos que saber que uma economia estritamente planificada é uma forma completamente difícil e complicada de gerir recursos, que não é muito eficiente frente a uma economia de mercado e que não podemos aplicá-la do jeito radical na forma de Planos Quinquenais tal com a URSS aplicou desde Stálin e a China aplica até hoje. Devemos dar espaço às discussões, não exercendo pressão imediata nos grupos sociais existentes, para não cair no mito da inflabilidade de um Grande Líder ou de um modelo, devemos ser humildes para reconhecer nossos erros. Nós somos socialistas, não somos clérigos da Igreja.

          O suspiro da Esquerda é de alívio, na medida que abandonamos o Zero e o infinito e o Arquipélago Gulag, hoje não há espaço para ditaduras; e o que aprendemos com isso tudo é ter sempre ciência no nosso papel como transformadores sociais; a social-democracia nórdica não teria tido forças sem o radicalismo bolchevique, tampouco o Welfare state francês ou alemão teria nascido senão tivesse a sombra de um bolchevismo forte, ou mesmo as pressões sindicais cotidianas.

               Temos que identificar nossos erros sem nos basear em fidelidades pessoais, e esse é o nosso perigo hoje. Ficamos tão calados, tão presos a um modelo que estamos aceitando o esvaziamento de nossos ideais tão rápido em torno de um populismo e um assalto do Estado por usurpadores autoritários, seja na América Latina, seja na Europa. Temos que aprender com a União Soviética e o Zero e o infinito a nunca nos calarmos, a criticar até mesmo quem se diz ser dos nossos, pois um socialista na verdade nunca se deixaria levar pela corrupção e pelo populismo desorganizado.

               A União Soviética nos mostra que começar tudo do zero é perigoso, sempre teremos que ter um autocontrole imenso para impedir nossos erros e ainda assim não fugiremos ao nosso passado. A ruptura inteira com nosso passado inexiste, é um sonho que não poderemos manter, de modo que criar um novo com a destruição do que já existiu é impossível, mas é possível modelar nosso tempo conforme as necessidades existentes.

                A esquerda deveria estudar a União Soviética, estudar de verdade. Olhar seus erros, olhar o que deu errado e que não deve ser repetido. Deveria olhar para os que erram ainda hoje, Coreia do Norte, Cuba; e os que tentam se renovar e ainda não se encontraram direito, seja os ex-comunistas da Europa Oriental ou a China. Isso mostraria bem o que devemos fazer no futuro.

                E não podemos nos esquecer as realizações do soviéticos. O combate ao analfabetismo (que só teve força com o poder bolchevique), as liberdades e direitos da mulher, o nascimento do feminismo como campo teórico, o experimentalismo soviético nas artes de vanguarda, seja cinema, seja artes plástica e teatro. As novas concepções de música e arquitetura, a transformação rápida para uma sociedade industrial de indústria pesada; As realizações científicas no campo da cosmonáutica e da medicina.

                  Mais do que isso, há um período muito bom para ser estudado que desgraçadamente foi deixado para trás, o laboratório de experiências: A década de 20 na União Soviética, onde se chegou mais perto de uma sociedade democrática na Rússia, com suas experiências "mais ou menos" bem sucedidas no campo de planejamento econômico na agricultura e na economia: a NEP.

                  Sim, parece desenterrar um cadáver, mas a NEP pode ser a resposta para os nossos problemas econômicos hoje, a teoria esbouçada por Bukharin e Rykov responde aos anseios de construir uma sociedade que haja ao mesmo tempo desenvolvimento econômico com a manutenção da seguridade social, com  o firme controle do Estado em empreendimentos de significância estratégica, e a manutenção do livre mercado num aspecto de pequena e média propriedade. Os soviéticos têm muito a nos ensinar ainda.

              O espírito de Lenin pode ter desaparecido, mas os ensinamentos dos soviéticos nem tanto. Eles têm muito a ensinar na sua sombra do passado e hoje, quase vinte e três anos desde a irresponsabilidade de Gorbachiov e Yeltsin, o mundo e sobretudo os intelectuais de esquerda podem olhar tudo com outros olhos.

               O suspiro da esquerda é poder olhar seu passado agora criticamente e poder reconstruir seu futuro de maneira tecnicamente autossustentável. Esse é o legado da União Soviética que não podemos deixar desaparecer: aprender com nossos erros e seguir em frente.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sensações

O suspiro de uma mão
O acalanto de um conforto aparente
O beijo num pano
O tocar de duas mentes

Sensações que não podem ser escritas
Às vezes é errado descrever os sentidos
Pois como diz o neologismo
São para serem sentidos

O pulsar de uma mão
O abraçar de um irmão
A expectativa da desilusão
O fato de se apaixonar com mísero olhar

O tremor quando está frio
O alívio por ler um livro
O estupor por um elogio
Sensações que não são descritas

Palavras conscritas,
amores de uma vida
Plurais dentro do singular
Singularidade do plural

São sensações
São tentações
De toda uma vida

Lacunas

Em todo o espaço vazio
resiste um infinito
pois se escondem
centenas de coisas
numa lacuna que martela
uma consciência destreinada

Lacunas são espaços dentre palavras
versos, ou mesmo no ponto-e-vírgula
Mas nesses vazios existenciais
sempre há espaço para renovação

Lacunas são espaços entre ladrilhos
São o cimento e argamassa
Do papel e do concreto
pois são amálgama do subconsciente

Lacunas é como encontrar um livro perdido
Um verso que foi comprimido
Ou um suspiro que foi contido
Pois o vazio é um todo
E o zero é o infinito.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Minerva

Minerva
deusa da sabedoria
E da sensualidade
Que fenestra sua adaga
Nos desavisados prosaicos
e nos sofistas de verso
metafilosófico

Sua serpente age
com o veneno de muitas
E o sínodo de suas formas
No ferro fundido
Escondem a pilhéria contrastante
De uma deusa de formas humanas

De muitas aparências
tece o novelo do conhecimento
Espero que ouçam as ideias de um sintagma
Perpassado de vários significados
Pois no fim, minerva é conhecimento
Um conhecimento campestre do pensador

Seu teorema de Tales
Sua filosofia matemática
Há algo de inustidado
Sensual que não sei dizer

Tome dois tempos
Toque uma sinfonia na tíbia
E escreva em grego o que sente
Alethéia, bardo do esquecimento

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Saída

Por aquela porta
Sob o semblante taciturno
Minerva esconde a serpente
E segura o feixe do esquecimento

O relógio na parede
Martela o ponteiro
As cadeiras vazias
Escrevem amarga poesia

As nuvens do ócio
Encolerizam nos ventiladores
E beijam os sabugos
dos degraus da escadaria

As cercas do conhecimento
O cunho aristocrático dos livros
Os computadores impessoais
Tomam meu livre saber
Toda a memória do esquecimento

Meu amigo destino
Meu sentido clandestino
Papel vermelho
Amargo pentelho

Referências,
Exposições
meras distrações

As luzes do positivismo
ofuscam o meu caminho
E sem as ilhas de livros
Não poderia apagar o sentido

Por aquela porta
não se pode falar
beber ou fumar

Minerva é sensual
e bastante matriarcal
Conhecimento
é cimento da solidão

Aquela porta de vidro
Aquela saída
está para mim fechada

Acabei de sorrir,
e em mim já estava arrependido
com tamanha velocidade

Ostracismo

Hoje compreendo
o tamanha pesaroso
De ficar tecendo
o fio sinuoso
do verso solitário

Meu cinismo de ontem
é o a rima de hoje
e na retórica quebrada
Erijo um totem para mim mesmo

Faríngeo e fariseu
Bravo e grande coliseu
é o meu ego centralizado
Meu egocentrismo acuado

Hoje compreendo
o que é ostracismo
ser deixado de lado
E tomar as areias da história

Tem tudo um licor salgado
E um vazio narcisístico
Que nem pinto prosa
Nem  sublinho dístico

A nostalgia
O passado místico
O perdão encolerizado
Ergui para mim mesmo
O ataúde de madeira
do nobre esquecimento

Minha autopiedade
é mais honrosa
do que pensar em solidariedade

E fazendo-me de cego
Fazendo-me de surdo
Ouço e vejo mais do que a maioria
Condenável ostracismo

Condenável destino
Espero que me ouça
Sou uma múmia de vinte anos
Com um cinismo e rabugice
De uma coroa de espinhos


Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...