sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Por que culpas os jogos?



         Nós últimos dias um crime de grande repercussão pintou as páginas de jornais e trouxe audiência às televisões. O caso Pesseghini.


            Nesse caso, supostamente (ainda está sob averiguação pela polícia) o filho de 12 anos teria matado a sangue frio o pai, enquanto estava dormindo, a mãe, a avó e a tia avó. Teria ido no mais cumulo ato de frieza para escola e quando voltou para casa, teria se matado perto da cama dos pais.

           Como não se bastasse o crime ser chocante pela própria natureza, a imprensa deu maior destaque porque o casal em questão (pai e mãe) faziam parte da Polícia Militar de São Paulo, de modo que para alguns aquilo era uma notícia que teria alto retorno. Verdade seja dita, quando foi divulgado o assassinato, a mídia metralhou a todos com notícias.

           A mim não confere o papel de julgar os métodos utilizados pela polícia para chegar as provas, a mim confere criticar o papel criminoso da imprensa frente a divulgação escandalosa do caso: Culpar os jogos como autores do crime.

  
          Pelo comentário logo a cima o jornalista Marcelo Rezende dá a entender que o jogo Assassin's Creed é o motivador do crime,  que o jogo era deveras violento e que teria dado por isso feito o menino cometer tal crime, esse não é o caso. Um simples videogame não faz uma criança disparar uma arma, se fosse assim estamos considerando todas as crianças débeis mentais e que os jogos acabariam pautando a vida das crianças.

             Mas fica a pergunta: 

           Até quando a mídia tentará colocar os jogos como responsáveis pela violência, como ocasionadores do ódio e da discórdia? Até quando continuar-se-á essa mentira insolente devido ao total desconhecimento sobre a importância dos jogos no processo cognitivo e de aprendizado das crianças, ou a total falta de honestidade das redes de televisão que veem sua audiência ser suplantada pelo domínio real dos jogos frente a sua programação infantil chata e obsoleta.

            Não são os jogos que causam a violência, na verdade, eles são um meio de extravasar a violência da nossa vida cotidiana, do estupro que a cada dia somos submetidos quando nossas liberdades individuais são violadas em nome da raison d'état; São os jogos que educam, e coisas mais interessantes que o sistema educacional ultrapassado.
  
              Culpar os jogos é igual fazer o que nossos avós diziam sobre o cinema, que incitava a violência, ou nossos pais que culpavam os desenhos por serem violentíssimos, nada disso é tão verdade assim. Esse pensamento de puro maniqueísmo não levará a nada a não ser uma hecatombe, um surto de aversão aos jogos, e o papel que a imprensa teria de informar, seria só de gerar a desinformação.

             Sim, é desinformação partir para um estilo de jornalismo agressivo onde tenta-se impor aspectos emocionais do ouvinte e pela falta de investigação dos próprios fatos, a associação do jogo com o crime mostra que existe um total desconhecimento dos veículos de imprensa com relação aos jogos. Afinal de contas, pela teoria apresentada pelo Marcelo Resende, todo mundo que joga Banco Imobiliário se tornará um milionário quando adulto. O Eike Batista deve ter traumas da infância então.

           As crianças podem aprender com os jogos, podem aprender novas línguas dependendo da linguagem do jogo, bem como dos processos cognitivos relacionados de conhecimento tangencial, como muito bem Vigotsky apresentava em seus estudos, as crianças podem aprender história (afinal eu sei até hoje o que significou a Batalha de St. Lô e Chambois no esforço de guerra aliado a partir do Call of Duty e a participação de soldados poloneses na guerra), matemática e geometria (Angry Birds tá aí pra isso, aqui ali é física aplicada). Os jogos ensinam bem mais do que podemos imaginar, mas não ensinam as crianças a serem assassinas, não ensinam como as crianças a atirar armas, adultos ensinam.

             
          O pai do garoto ensinou o filho de 12 anos a atirar uma arma[1]. Isso sim é mostra de responsabilidade, o que é mais perigoso, jogar um jogo ou ensinar o seu filho a atirar com uma pistola? Não tenho motivos para julgar o pai em questão, ele deve ter tido os seus motivos para ensinar o filho a utilizar-se de uma arma, agora dizer que em razão dos jogos o menino foi levado a matar os pais é ser bastante reducionista. Reducionismo até escolástico, porque no final das contas, não explica nada praticamente, só é doutrinatório.

           Os jogos ensinam a matar as pessoas?   Jogo numerosos jogos de guerra, mas não teria mesmo a coragem de matar uma pessoa a sangue frio, existem fatores conjugados que levaram a criança a cometer esse crime (se cometeu), desde falta de atenção, dificuldade de aprendizado, isolamento até o velho e clássico bullying na escola (parece que todo mundo esqueceu de Realengo).

        Agora vem-se psicólogos ou pseudo-psicólogos admitir que o menino talvez tivesse distúrbios mentais, alienação  e psicopatia. O problema dessas avaliações é que é muito fácil julgar alguém de louco quando se está morto, mas fazer o trabalho de observar, medicar e conversar é bem mais complicado e esse trabalho tais profissionais não fizeram.[2] 

            A história ainda está muito mal explicada, confere que se investigue mais antes que se inicie as acusações, mas uma coisa é certa:

       O convívio social, o ensino e até mesmo o seio da família burguesa falharam com esse menino, falharam por terem se direcionado demais e esquecido tudo o que poderia ser a essência da vida. O menino não é culpado simplesmente por ter matado, o menino é culpado por ter esquecido o que era a vida e o que representava o convívio social, esse é o crime que a sociedade e a opinião pública o imputam. Mas molesta-se também os direitos do indivíduo quando somos bombardeados com a crescente impessoalidade da nossa própria sociedade e com o caráter cada mais individual do nosso convívio humano, onde a figura do eu é destacada como o ponto elevado dessa cadeia produtiva.

       Assim fica a pergunta, antes de culpar os jogos por terem cometido o crime (na verdade eles são unicamente culpados de socializar as pessoas), qual foi a última vez que você conversou com o seu filho?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

rimas

        Sinto um gosto amargo
        Toda vez que vejo
         Com olhar vago
         O licor de percevejo

         Falta-me o abraço
         Quando o vento
          Muda meu cabelo
          E me joga de lado

          Esse sol levado
          Pinta o freixo
          De alaranjado
          Que fica sem jeito

           Nada é agrado
           maior que o beijo
           de amor sincero
           escondido seixo

            Tom azulado
             do cimento
            pintado
            escode o ciumento
             céu estrelado
             de onde o
             coração partiu
           

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Pensamentos ruins

      Senti hoje uma imensa vontade de me matar...

      De esquecer tudo que eu vi, tudo que eu presenciei. O modo como as pessoas mudaram, mudaram completamente, meus amigos ontem hoje agem como canalhas enquanto eu me sinto na berlinda entre o saber e o conhecer.

     Sinto vontade de esquecer tudo que eu senti e existir, as fragmentações que tão bem me mutilaram e me deixaram desse jeito, desconfiado e melancólico. Hoje agi mal com uma criatura, um pequeno cachorrinho que corria em minha direção, que num susto pensei que fosse me morder, gritei com ele, fui extremamente grosseiro e hoje me sinto mal por ter tratado tão mal o bichinho. Sentiu medo de mim, eu confesso que depois eu senti. Realmente senti, pobre cachorrinho.

      Estou com medo, realmente estou com muito medo do que eu posso estar me tornando. Incorruptível sempre serei, isso vem do meu avô para cá, mas mesmo assim tenho medo de me ver daqui alguns anos e perceber o quanto mudei. Os meus sonhos foram embora diluídos no dia-a-dia nessa repetição de casos e situações. Foram se fragmentando de tantas formas que hoje não vejo mais porquê sonhar, meus sonhos desapareceram, simplesmente.

      Ainda sinto essa vontade de me matar...

      Desaparecer desse mundo, esquecer de uma vez minhas dores de cabeça e algumas pessoas que sou obrigado a lidar. Sinceramente, não quero viver num mundo onde eu não possa mais sonhar, são os sonhos que me fazem acordar todos os dias para ir trabalhar, não é o dinheiro, não são os estímulos, eram os sonhos. Sonhos que se apagam ao final de uma peça, que se encerram no final desse ato onde não há aplausos nem mesmo espectadores que queiram ver.

        Eu vou sair um pouco da vida. Desejo isso do fundo do coração, quero desaparecer da vida. Sumir e deixar esses pensamentos pesados para trás, mas não posso, tenho responsabilidades que ainda me atam a esse plano. As responsabilidades crescem, o medo também, e não tenho mais um porto seguro onde me segurar. O porto seguro não existe quando você sabe que tudo que você acreditava antes eram apenas ilusões. Deuses não existem, amor também não e estou cada vez mais desconfiado que sentimentos fraternais que tanto o socialismo pregava sejam apenas fantasias. 

        O fim aproxima-se, eu sinto-no nesse palco de representações que é a vida. Não sinto ter tantas forças quanto antes e começo a invejar aqueles que partiram; Fugiram para longe, que nunca mais voltarão, aqueles que se foram e nunca serão vistos. Os últimos grãos da balança da vida tecem sobre meus  olhos escolhas que não desejo fazer;

        As desilusões crescem, os cabelos começam a cair e aquilo que eu era mais grato se foi, que era poder me apaixonar de vez em quando. Sempre soube que isso me trazia mal e que seria o meu fim. E foi o meu fim, hoje, sentado nesse quarto, sozinho escrevendo essas palavras, meu âmago de ser deseja partir. Mas para onde? Não existe outro lado onde eu possa ser feliz, a morte parece sedutora aos despreparados, mas não traz maior consolo do que a vida.


       Vi no espelho os anos passarem e as minhas realizações se forem. Nada mais importa senão esse desejo de acabar com tudo... Cortar meus pulsos, não, daria  muito sangue, dor e pouco retorno. Enforcamento? Não tenho a corda apropriada e para piorar iria me dar uma imagem ruim no velório. Um tiro na testa? Onde arranjaria um revolver? E o estampido seria tamanho que ninguém conseguiria dormir à noite. Envenenamento? Isso não chega a ser uma morte honrosa.

       Prefiro deixar a vida me conduzir vagarosamente ao meu fim, esse vagaroso fim que eu não sei onde irá chegar. O teatro começa a se esvaziar, as chances também, o ato se encerra e as cortinas começam a se fechar de novo. Não há uma orquestra que me acompanhe dessa vez e essa peça de improviso parece se encerrar de vez.

         Acredite  em mim quando digo, eu quero morrer, mas não quero me matar. E não espero que ninguém na minha condição leia isso sem souber que eu não desejo isso a ninguém, nem a mim mesmo. Sinto culpa de me sentir um substrato de pó de bosta que não se vê mais importante como antes.

         O aspecto impessoal dessa cidade acentua isso, deixa-nos cada vez mais depressivos, ao separar as pessoas e classificá-las em torno dos bairros. a arquitetura monumental nos faz parecer pequenos e embora digam ser o âmago da beleza contemporânea, ela esconde os mais tenebrosos sussurros nas suas plantas de concreto armado.

          Eu nunca me senti tão só quanto hoje, tão perdido e tão amargurado. A desolação é tamanha que julgo ser eu produto de uma mediocridade intelectualizada, um fio de incompetência organizado; Os resquícios do passado se vão, os resquícios dos tempos em que era bem feliz e sorria bem mais do que hoje, não tinha que me preocupar com essa solidão que me abate e perturba cada vez mais o seio da minha alma. A consciência traz um cenário de lutas, entre o passado e o presente. A racionalidade nos oprime, e sentimo-nos cada vez mais oprimidos quando sabemos que tudo vive sem nenhum propósito. Nada é mais frustrante do que saber que se é livre e não ter ideia de como agir.

          Estou tão deprimido que não quero mais sair de casa, quero me prender nesse mundo, nesse quarto escuro, nessa fortaleza cinzenta onde se esconde o meu coração, e tento esconder todos os dias esse sentimento. Não quero que me vejam assim e nem demonstrar a mais pura fraqueza, mas falando francamente, eu queria poder ter a chance de desistir da vida.  Abandonar essa caneta e essa tinta, por fim a esses graves sentimentos; Não posso, não vou. Isso me oprime e urtiga meu coração.

         Talvez digam que eu só estou cansado, tomara que eu só esteja mesmo, porque esse cansaço crônico não é de nada, sinceramente. O cansaço dessa existência é produto da soma das animosidades e barbaridades do ser humano com a  crescente decepção em observar a crescente materialidade funcional de nossas vidas. Isso traz um sentimento de deslocamento tão grande que atraí os mais sinceros sentimentos negativos, introjetam-se forças profundas cuja elasticidade se aproveita até que há o momento de ruptura, entre a própria função do indivíduo numa sociedade tão utilitarista quanto a nossa.

       O caráter utilitário da nossa sociedade corrompe nossa essência, na medida que pedimos cada vez mais por um pouco mais de dinheiro e menos por carinho e afeto, procuramos nosso consolo e contato com a vida através do apego do dinheiro, sem sequer compreendermos que nem passamos da primeira fase do desenvolvimento infantil de Freud. O condicionamento de nossas vidas traz a crescente dicotomia entre vencedores e perdedores, onde aos vencedores se prediz a glória e as mostras máximas de carinho e afeto, enquanto aos perdedores a humilhação. Esse utilitarismo todo é a essência do nosso próprio individualismo, de maneira que traz não apenas sentimentos de rejeição, mas a pura vontade de nos retirar dessa sociedade.

      Muitos não aguentam esse deslocamento, eu o suporto como um calvário todos os dias, mesmo sabendo que um dia posso terminar cedendo. Os pensamentos suicidas não são culpa do próprio suicida, mas da própria sociedade que não percebe o papel maléfico da sua crescente impessoalidade e utilitarismo, de maneira que muitos que não são amparados por uma alma caridosa, desistem da vida simplesmente porque não vêem mais lógica nesse exercício sado-masoquista que é viver.

         O suicídio não é só um crime do suicida contra si próprio, mas é um crime de toda a sociedade contra um indivíduo que é esquecido propositalmente do corpo social. Às vezes não é culpa dos pais ou amigos que hoje lamentam a dor de perder alguém querido, às vezes foi culpa de você mesmo que não teve coragem de conversar com ele no metrô, ou de você moça que o tratou mal quando ele só queria falar com você naquela balada, só porque achou ser melhor que ele. A culpa é das situações rotineiras e de como as pessoas reagem a elas.

       A opressão do Estado é o que acaba também saturando a bolha de problemas do cidadão comum, onde antigamente ele deveria ser o livre garantidor das liberdades individuais e da felicidade do cidadão, hoje ele muitas vezes viola esse papel em prol de sua própria segurança. O que se esquece é que apesar de querer torná-lo magnânimo, o Estado é feito de pessoas que se esquecem que governam para pessoas.

        O crime maior é culpar o suicida por ser um suicida, ele não tem culpa senão por ter cedido à coerção exaurível da impessoalidade da sociedade e da opressão do Estado, muito pelo contrário, ele é também vítima do processo, só não a maior, em virtude de os seus parentes e amigos conviverem diariamente com a dor de perdê-lo de tal forma tão trágica.

          Culpar a ciência também é outro equívoco, porque a ciência não é a causa dos problemas do indivíduo, tendo em vista que o suicídio não é uma questão dada geneticamente, mas socialmente. E a crescente recusa dos organismos da sociedade civil em debater esse tema é tão interessante que demonstra no final das contas o acobertamento da culpa existente da própria sociedade.

            O suicídio pode ser como a prova cabal da tentativa desesperada da noção libertária do indivíduo ou da maior fraqueza dele frente à opressão coercitiva da própria impessoalidade da sociedade individualizada. A vida não se insere em nenhum dos parâmetros, o suicídio  é uma manifestação do próprio desespero do indivíduo que é criminosamente ignorado pela irresponsabilidade da sociedade capitalista, onde ignora-se o indivíduo como ser e o eleva o capital como principal meta. É essa reificação do Homem que abre caminho a isso tudo.

           É por isso que tenho a vontade escondida de querer me matar, mas como sou bem consciente que pelo o meu ateísmo não há outro lugar para onde eu possa ir, prefiro viver sobre a crescente pressão da sociedade que ignora a minha existência e ainda assim me pressiona a tomar do aspecto utilitário de sua formação, à ceder aos meus mais desesperados impulsos. Até agora tenho tendo algum sucesso, tanto que eu consegui terminar esse texto sem dar um tiro na minha cabeça, resta saber se no futuro continuarei com a mesma força de vontade.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Na padaria

        Na terra das mangueiras a vida está melhor cada vez mais se assiste o surto do grande desenvolvimento econômico nunca antes visto na História desse país. Os jornais bombardeiam a todos com notícias boas da economia e de como o nível de vida do cidadão comum melhorou.

            “A vida hoje é melhor, com nossas medidas econômicas o trabalhador pode gastar mais na padaria comprando pão e leite. Sem essas medidas a economia irá se estagnar enquanto outras progredirão...”, ecoava estridentemente o áudio da televisão por cima do balcão da padaria. Aquela voz vinha se tornando cada vez mais conhecida naqueles dias, era do ministro da Fazenda, Margarina, nome muito conveniente de ser citado numa padaria.


            É verdade que ninguém presta muito atenção a essas coisas quando se está na fila para pagar o pão. Nessas horas a vida se resume na crescente dicotomia entre comer o café da manhã e não chegar atrasado ao trabalho; Algumas pessoas pensam em conversar qualquer coisa com o colega ao lado, mas dado ao nervosismo que consome a todos de manhã, nada disso é possível.


            A fila nunca anda e o pronunciamento do ministro Margarina também. Realmente a vida melhorou, agora as pessoas podem usar o cartão para pagar o pãozinho, é por isso que a fila nunca saí do lugar, deixando cada vez mais impaciente um daqueles engravatados que iriam trabalhar. A bem da verdade, a velhinha logo à sua frente não pagou no cartão de crédito, de fato nem mesmo sabia usá-lo, achou mais conveniente pagar com uma nota de cinquenta, para a fúria do jovem rapaz.



            “Agora vejamos o fiasco do empresário Eike Batista” — pronunciou uma voz feminina que apresentava o telejornal  — “Mais uma vez o grande investidor e dono da OGX  teve uma grande perda ontem; Desde quarta-feira as ações da grande petrolífera OGX despencaram devido à incerteza sobre a exploração dos campos de Petróleo em alto-mar, e nessa última segunda-feira apresentaram o pior patamar registrado na Bovespa...”


            A fila andou timidamente, mas dessa vez era o rapaz que seria atendido.

            — Bom dia, senhor. CPF na nota?

            — Não, creio que não será preciso — “Afinal só são dois pãezinhos e um frasco de leito, não creio que vale a pena pedir desconto no imposto”, pensou consigo.


            — Cartão de crédito? Aceitamos  Visa, Mastercard, American Express.
            — Não, obrigado, pagarei em dinheiro.
            — Tem certeza, senhor? Pagar com Visa é bem melhor.
            — Tenho, tenho certeza sim.

            Colocou os dois pães sobre o balcão e o litro leite, enquanto a atendente verificava os preços, o jovem rapaz voltou os olhos para a tela da diminuta televisão pregada na parede.

            “...As ações do empresário Eike Batista estão sendo vendidas na Bolsa há menos de dois reais, e especuladores e analistas técnicos acreditam ser esse o fim do Império do grande investidor brasileiro...”


            — Deu oito reais e noventa centavos, senhor.
            — Oito e noventa! Mas isso é um absurdo! Só são dois pãezinhos e uma caixa de leite!
            A atendente deu de ombros, parecia acostumada com aquele tipo de explosão, ou mesmo estava desinteressada com tudo aquilo, quem iria saber?
            — Sabe como é, senhor — desconversou — É a inflação, a gente tenta manter os preços, mas tudo acaba aumentando.
            — Mas isso é um absurdo — Vociferou ainda chocado.
            — Pois é, infelizmente não posso falar nada senão serei despedida.


            “É melhor calar a minha boca, senão vou arranjar uma cena aqui que não vai ser legal” — pensou consigo.


            — São oito e noventa.
            — Sim, sim, eu já entendi — Disse em um tom mais brando, sentia nos ombros o peso da humilhação. Retirou a carteira do bolso com bastante dificuldade, embora agora parecesse menor agora, a carteira não queria se soltar do bolso e quando a abriu sentiu cada vez mais o dinheiro pesado, que contou pela aspereza da lixa do papel-moeda — Aqui.


            Pegou o saco de papel onde estavam suas compras e saiu de cabeça-baixa da padaria, meio ultrajado com tudo aquilo, mas foi contido junto à porta pelo grito da atendente:

            — Senhor, o seu troco.

            “Troco, pelo menos há um troco”, pensou consigo. Viu-se obrigado a voltar e decidido a reaver o dinheiro retirado de maneira tão vil retornou ao balcão de atendimento com o pouco orgulho que ainda conservava em seu semblante.

            — Aqui, senhor, aqui o seu troco.

            Entregou-lhe um pedaço de papel timbrado que pela aspereza e tamanho reconhecia-se não ser dinheiro, mesmo assim ele forçou-se a perguntar.

            — O que é isso?
            — O seu troco, senhor — Disse em um tom ligeiramente dócil — São ações da OGX.
            — Ações da OGX!?
            — Sim, senhor, não está a par dos preços? Hoje elas valem menos de dois reais.
            — Mas isso é ridículo — Enfiou o papel no bolso e saiu da padaria nervosamente, puxou um cigarro e pensou consigo.




            “Realmente a vida está melhor, onde já se viu as pessoas  comprarem o pão com o cartão de crédito e receber de troco ações da Bolsa. Só aqui mesmo”, e sorriu-se no caminho para casa.

Notas de final de mês

Sinto sua falta toda vez que eu levanto pela manhã e vou me arrumar. Quando vou escovar meus dentes olho com amargura o rosto sem cor, magro e esquálido que percorre toda a minha tez, a tristeza me corrompe, termino de enxaguar a roupa e vou para o meu banho.

Deixo os pensamentos ruins caírem sobre o ombro e escorrerem pelo ralo, mas nem todos saem. Sinto sua falta enquanto enxugo meu corpo e tento enxugar minha alma.


Escolho minha melhor roupa pensando em você, pensando que talvez hoje eu te encontre de novo. Que tal essa camisa? Ela é bonita e não chama muita atenção. Será que devo ir de paletó? Sim talvez nunca mais eu te veja, mas sempre conservo essa vil esperança. Por quê? O porque eu não sei, mas espero um dia encontrá-la de novo.

Confúcio dizia que nada era mais danoso que uma dúvida no espírito, talvez ele estivesse certo, nada é mais danoso não saber se irei te encontrar de novo ou não. Devo-lhe um café e sinto falta das nossas conversas, de verdade, nunca mais a vi, nem acho que verei, por isso ando triste, bastante triste.



É verdade que tudo é efêmero e transitório, que a sociedade individualizada, que tanto Zygmunt Bauman fala, nada mais é uma sociedade de consumo onde tudo é passageiro e cultua uma beleza plástica. Mas você não constitui em nada esse modelo de beleza plástica, você é bela em essência, de maneira que toda a vez que eu te encontrava tinha desejo em abraçá-la, mas o tempo passou e a vida levou de novos essas esperanças.


Sim, talvez não devesse escrever sobre isso de novo, talvez fosse melhor guardar a minha tinta e andar um pouco, mas não consigo. Realmente é triste  tentar te procurar em todos os meus olhares, em todos os vagões de trem que eu pego, ônibus e todos esses corredores dessa melancólica universidade. Procuro você nos olhares de outras mulheres, mas não encontro, pois afinal de contas, acho que elas não são como você era; Você me surpreendeu de verdade, e de um jeito positivo, mas desapareceu tão rapidamente que nada mais sei de você. Não me deu o telefone, o email, ou qualquer referência.


Onde andarás eu não sei, e estou vagando a sua procura. Procuro-te todos os dias para pagar aquele café que eu te devo, e conversar mais com você, conhecê-la melhor, mas temo que isso seja impossível. É triste pensar em tudo isso, mas eu já me acostumei a tanta coisa!

A plasticidade dessa vida sufoca-me, acabou a vontade de escrever mais. Nessa ode de pedra e concreto armado no pequeno quadrilátero nesse imenso quadrado no Planalto Central tento inutilmente encontrá-la mais uma vez e dizer: “Olá, como vai você? Sabe que cada vez mais sinto a sua falta”.



É melhor eu pegar a minha capa e o meu  chapéu, não quero que vejam o que sinto por dentro.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sobre o ofício do poeta

         O ofício do poeta é um dos mais catastróficos que existem, pois nada é mais penoso que encontrar a rima perfeita e ainda ser estigmatizado por não ser relevante para a sociedade cada vez mais utilitária quanto a nossa.

O poeta é aquele indivíduo que come coxinha vencida na rodoviária, que compra pão amanhecido pra pagar menos e nunca tem um tostão furado. O poeta é o camarada que reutiliza os versos, remenda as rimas para nunca perder um só fio do texto.

Esse mesmo indivíduo é obrigado a encontrar a essência do mais belo da vida e escrever no papel. O poeta deve ser mudo da boca e tísico nos ouvidos. Sim, deve ouvir a todos, reparar no sapato que o engraxate lustrava até a fitinha do cabelo de um singela moça. Não há nada mais tão detalhista quanto o serviço do poeta.

Ainda dizem que o poeta é inútil. Inútil uma ova, somos nós que criamos hinos e canções que reverberam por cantos a fio, somos nós que consolamos corações partidos no final das noites cada vez mais frias, nós que mobilizamos as palavras em formas de versos para criar batalhões de ideias. E ainda dizem que o ofício do poeta é inútil.

O poeta pensa onde outros teriam passado despercebido, ele chora onde outros teriam rido e ele sente com o coração enquanto outros sentem com o bolso. O poeta é sofredor por natureza.


Sim é sofredor, mas alguns se mostram desonestos em nossa prática, aproveitam-se dos versos para brincar com as emoções das pessoas, para ter várias mulheres numa vida desvalida enquanto os verdadeiros sofredores sentem o que devem sentir. Fernando Pessoa disse que “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que  chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”[1]. Engana-se Pessoa, o poeta realmente sente e ele esconde a sua dor em sua vida cotidiana, mas não esconde quando escreve suas rimas.


Mas uma coisa tem razão ele ao declamar que: “E os que leem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, /Não as duas que ele teve, / Mas só as que eles não têm”. O leitor acha que pode se sentir bem com os sentimentos sofridos nos versos e consolo nas estrofes, a rima nunca é tão feliz quanto a intenção do escritor. Na verdade, é um esforço linguístico tentar por todas as ideias no papel.


Verdade seja dita, acho que os poetas não são de todos mentirosos. São até camaradas de valor, veja Lorde Byron morreu na Grécia lutando contra os otomanos pela a independência. E Maiakovsky que não nos deixa mentir, ficou do lado das linhas do Exército Vermelho lutando lado a lado com as palavras e vendo todo aquele horror da guerra que puxou para os seus versos depressivos.


Enfim, o que é o poeta? É um meramente um compilador de palavras? Ou um gênio da argumentação? É um filósofo ecumenicamente transformado em excêntrico ou um simples vagabundo que vive da boemia e de trocar as palavras. Talvez ambos, talvez nenhum dos dois. A verdade é que a escrita deve ser uma arte, ou melhor, é como um carvão, que se moldado a partir das pressões e das temperaturas corretas pode virar um belo diamante.


Os instrumentos que você tem, caro colega poeta, são o papel e a tinta. O papel pode ser qualquer um, até folha de papel velho, mas a tinta não. A caneta deve ser tão delicada quanto sua mente, elegante e leve, de preferência uma tinteiro, de pena tranquila e fluida que pinte de maneira elegante o papel. O problema é quando a tinta suja sua mesa, sua mão e a sua roupa; Bem, você terá que se acostumar com isso.


Para digitar? O computador e o bom teclado defronte a sua cadeira são boa pedida, mas se queres ser preciosista como eu, que tal reintegrar aquela velha máquina de escrever do seu pai que anda meio esquecida no porão. Talvez o refil nem mais funcione direito, ou as teclas digitem-se sozinhas, mas só a energia de se retirar um artefato desses na escuridão representa muito. As suas palavras também, elas são tão fortes que podem ressuscitar pessoas, tirá-las do esquecimento.




Sentes cansado de tanto escrever, é deveras cansativo passar horas a fio sentado numa poltrona redigindo um texto. E pior quando você não consegue escrevê-lo, que frustração! Vá, saia um pouco, vá andar um pouco. Leve um bloco com você, sempre tenha um bloco de anotações à mão, anote o que você vê, o que as pessoas falam ou o que você sente. Escreva, somente escreva.





Não consegue escrever de novo? Escreva o trecho umas três vezes e compare... Qual ficou melhor? Nenhuma? Escreva tudo de uma vez então. Rasgue o papel logo de uma vez, seja niilista, você é o seu próprio deus quando está escrevendo, você pode criar tudo na folha, desde a mais linda personagem até o mais macabro dos monstros.





Acabou? Não? Sente-se hostilizado pelos os outros? Por quê? Lembre-se sempre do que disse o grande poeta, Vladimir Maiakovsky:
Grita-se ao poeta:

"Queria te ver numa fábrica!
O que? Versos? Pura bobagem".
Talvez ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.

Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?

Certamente que a pesca é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.

Pescamos gente viva e não peixes.

Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.

Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?

Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:o poeta ou o técnico
que produz comodidades?

Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.

Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.

Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!

O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó![2]




Então, qual o papel do poeta? Antes de tudo escrever, escrever o que sente e o que pensa. Refletir sobre o que deve ser a vida e o que quer passar ao seu público. Acha árduo? Você não viu metade.




Não é só escrever que faz o poeta, o poeta tem que exprimir suas próprias emoções e nos seus leitores, tem que escrever fluidamente, tem que passar suas ideias, bem como suas paixões ou decepções. Tem que dar vazão, margem aos sentimentos sinceros, ou as vezes não, às vezes tem-se que mentir, mas não iludir o leitor, como Fernando Pessoa dizia de nós, mas mentir uma realidade bonita que às vezes não exista, não contar diretamente que não existe mais amor no mundo e que nem tudo são flores como a gente queria que fosse... A melancolia a gente esconde para nós mesmos.

Poeta também tem que informar, as vezes tem que ser até ativo, participar mesmo, se engajar nas próprias lutas e sair dos versos. Ir para a Guerra na Grécia (Byron) ou lutar junto ao exército de cavalaria (Isacc Babel) ou uma própria Revolução (Maiakovsky). O poeta tem que viver e  constantemente vivendo. Andar, seguir, perseguir novas histórias.


Tem que ser alerta, um mero detalhe pode fazer a diferença. Um anel no dedo de uma moça pode significar muita coisa, um sapato sujo também. A vida é feita de detalhes e imperfeições, cabe ao poeta imaginar tais singularidades e contá-las, ou as vezes não, as vezes esquecê-las e criá-las de outras formas. A poesia não é algo fácil e não é como a escrita normal, ela nos assola constantemente com a métrica, rimas e musicalidade, e nunca é 100% perfeita. Por isso prefiro mais escrever contos e romances a poesias, não que eu não goste dos últimos, mas penso mais em termos cartesianos que neobarrocos.





Esse é o árduo ofício do poeta. Queres escrever por extenso, prepare-se para escrever em verso. Essa é a essência da música, da arte e da oratória. Aqui, tudo aqui na poesia, essa falange da mente.


[1] PESSOA, Fernando. Autopsicografia. Disponível em: http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/143.php
[2] MAIAKOVSKY, Vladimir. O poeta proletário. In: Antologia Poética. São Paulo: Editora Max Limond LTDA, 1983.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Saiu de moda

     Saiu de moda
     Filosofar
     nesse frugal
     sonho
     de natal

     Saiu de moda
     Sonhar
     no trivial
     amor
     de Carnaval

     Saiu de moda
     Amar
     o vestal
     rigor
     gramatical

     Saiu de moda
     Rimar
     o animal
     vigor
     sexual

     Saiu de moda
     Vingar
     A lira
     com dor
     visceral

     Saiu de moda
     tudo isso
     Só não sai
     Essa dor cretina
     vinda de você
   
 

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...