segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Notas do caderninho preto

Poesia

Acho que perdi a esperança
De dias mais felizes
Acho que perdi a graça
E o bom humor

Perdi o seu carinho
Que se rompeu
Como corda de violino

Prefiro não pensar nisso
Não por o meu ouvido
E ouvir o meu coração
Bater por você

Dia a dia me sinto
Cada vez mais aflito
E em conflito
Devo amá-la ou esquecê-la?

Não posso esquecê-la
Não posso apagar tudo que passou
Na verdade nem quero

Não consigo pensar na ideia
De passar reto por você
Mas faço ainda assim de vergonha

Vergonha do que eu sinto
Vergonha do meu rosto
e do meu corpo

Naquele dia, naquela tarde
Eu disse que  te amava
Você sorriu
Seu sorriso é uma arte

Te amo em linhas tortas
E não crio falsa expectativas
sobre você. Eu te amo

Queria seguir nossos destinos
Que eles se interligassem
E eu pudesse ver os seus sorrisos

Seus sorrisos que alegram
os meus dias difíceis
E arrancam meus suspiros

Não mais

Ah, querida! Como gosto de você.



Prosa


      Não sei o que acontece comigo, minha querida, não há formula para conter tudo isso: Tristeza e desolação.

       Não sei se você me entende, se você sente. Na verdade espero que não, não quero que sofra, mesmo que sem querer você seja a minha femme fatale, a única criatura que consegue me desarmar sem qualquer remoço de minha envergadura.

        O que posso fazer?

         Os dias passam e eu sofro solitário, meio calado,  sem poder traduzir tudo isso em palavras. Tento me isolar e fico assim, difícil de entender. Não quero que me toquem, que me cumprimentem. Quero viver sozinho nessa ilha de agonia.  Acho que o meu destino é esse.

       Não, você não me entende.  Melhor assim, eu não sou fácil mesmo e você também não, por isso eu vejo graça nisso tudo, porque não somos fáceis de se compreender. Na verdade, eu não quero ser compreendido, não quero que me analisem e digam o que estou pensando e acho que talvez seja isso o que talvez você queria ter me dito também.

         Enfim, às vezes me pergunto se outras pessoas sentem tudo isso o que eu digo e sofram dessa maneira absurda, sem dor, mas ainda assim torturante. A resposta é quase automática: "Sim, as pessoas também sofrem". O ser humano é um ser naturalmente triste.

      Bem, meu pequeno caderninho, obrigado por sua atenção, eu precisava desabafar um pouco. Sei que falo as mesmas coisas e que estou começando a ficar chato, mas meu caro caderninho, você é o meu último companheiro nessa noite escura que ainda me ouve.

     Adeus, meu bom amigo e muito obrigado. Ela nunca lerá isso.

PS: Nem falei dos olhos dela, tão escuros e tão marcantes que entram na alma e me dão segurança, ou do modo que ela fala, de maneira descompromissada e divertida, que me seduziu a cada palavra com seu jeito  simples, mas digno de atenção. É definitivo, acho que não tem cura, meu caro caderninho.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Entre o passado e o futuro se esconde o presente

          Entre o passado e o futuro se esconde o presente, mas onde se espera encontrar no passado:

           É no passado que se remonta aos tempos de nossos entes queridos, ou uma nostalgia de outros tempos dos quais não podemos voltar mais; O passado era horrível, mas o idealizamos tanto que começa a ser doce, é dele que tiramos nossos heróis, homens de valor: Aleksandr Nevsky, Napoleão Bonaparte, Julio Cesar, Caxias, não importa, idealizamos todos eles.

           O passado fundamenta tendencias, ideologias, abre feixes e parâmetros, é do passado que tiramos todo o nosso conhecimento e todos os nossos exemplos; Foi dessa  construção temporal que aprendemos noções básicas do nosso cotidiano, religião, cultura, valores, política, etc. Nossas instituições humanas remetem ao passado.

          A família nuclear é a situação coesiva que insere um individuo em nossa sociedade, mas o que diriam os tradicionalistas, se eu dissesse que a sua própria forma organizacional remonta aos tempos do neolítico. Sim, a família só existe por causa da Revolução Neolítica, onde os homens acabaram deixando de serem meros caçadores, para produzirem o seu próprio alimento, e firmarem sua descendência num canto.

        Formamos cidades para proteger esses modelos, aldeias e agrupamentos humanos. A nossa sociedade, querendo ou não, é fundamentada pela família e nossas práticas culturais são neolíticas, como por exemplo: Por que mulher não pode ir à guerra, mas homem sim?

       Essa questão ainda é problemática, não pensem vocês que não, toda a vez que discutia com as feministas, elas se protegiam no arcabouço, "guerra é coisa para homens", o que não é verdade, basta lembrar de Catarina, a Grande, Cleopatra e muitas outras. Discutindo isso com um amigo tive a melhor resposta até então:

      "Mulher não vai para guerra pelo simples motivo, elas são as guardiãs de uma comunidade, e futuramente, caso tudo der errado, a comunidade pode ressurgir a partir das mulheres." Biologicamente a explicação faz sentido, mas só fui entender o porque dessa prática quando li sobre o Neolítico, onde estava estamentado o modelo tradicional familiar: Homem caça e faz guerra e as mulheres cuidam dos filhos e da casa. Isso faz sentido, numa guerra, a sociedade poderia ser varrida do mapa, mas se sobrasse um homem e várias mulheres, poderia ressurgir de novo, mas se não sobrasse nenhuma mulher, tudo seria mais difícil.

          Parece uma explicação estúpida, mas faz sentido quando observamos o caso da Sérvia, após a Primeira Guerra, onde um quarto da população masculina foi literalmente dizimada, deixando uma lacuna populacional considerável, contudo, em vinte anos, a população sérvia voltou a crescer, chegando aos patamares anteriores da guerra (para ser novamente arrasada pela Segunda Guerra), aconteceu o mesmo com a Alemanha e outros países.

         Enfim, esse fato já mostra o qual arcaica é a estrutura atual da família.

        O modelo da família nuclear é posterior, onde a monogamia se fez presente, e tem suas origens no Oriente Próximo, desde o Egito, Israel, até a Grécia. Na verdade, os escritos do Antigo Testamento fornecem de maneira bem direta uma mudança do estatuto social que o povo judeu quanto à família, anteriormente Adão só tinha uma mulher  Eva, e dela surgiu toda a sua descendência, mas já com o Abraão, vemos casos de bigamia, onde ele tem duas esposas. Eu tenho minhas ressalvas quanto a bigamia, mas ela perdurou nessa sociedade até a época de Davi e Salomão, quando ficou mais do que comprovado a falência desse sistema na figura dos atritos das esposas de Davi, Batshebah e Mical, e num dado momento esse modelo foi substituído.

        Por interações entre o mundo judaico-helenistico, isso acabou chegando à Grécia, como no caso da figura de Penélope e Odisseu, e se encaixou muito bem na Diáspora grega que chegou à Península Itálica, principalmente se lembrarmos o mito de Enéas e os seus homens que chegaram a Península e fundaram agrupamentos no Lácio que futuramente dariam na Roma de  Rômulo;

       A transformação legal do casamento foi inevitavelmente com Roma, mas em todo caso os alicerces são bem antigos.

     
       Outra coisa que é bem antiga, mas não tão bem neolítica, é a sociedade hierarquizada. Se formos ler os ensaios de Marx e sobretudo Engels, temos que anteriormente a um modelo escravista onde teve a hierarquização formal de uma sociedade em indivíduos produtores e exploradores, temos que a sociedade anterior, talvez a neolítica, pressupunha uma igualdade entre os caçadores e que eles repartiam os seus ganhos entre si (eu tenho minhas ressalvas, não acredito totalmente nessa ideia de igualdade entre caçadores piamente), mas com o passar do tempo, com as guerras e demonstrações de força, um indivíduo dessa tribo passou a ter maiores poderes do que os outros, essa é a figura do chefe.

       O chefe também tem uma questão militar embutida, mas na essência, por esse pensamento, essa é a formação da hierarquização da sociedade neolítica embutida, mas na essência, por esse pensamento, essa é a formação da hierarquização da sociedade neolítica. Adaptando essa teoria com outros saberes econômicos, nós temos que com o avanço econômico dessa sociedade, na forma de aumento de produção e armazenagem de excesso de produção, e entendendo economia como "gestae domu", gestão da casa, temos que num dado momento, alguns indivíduos deixam de fazer parte da cadeia produtiva tradicional e passam a se dedicar a outros ofícios, como a guerra, a religião, a arte dos minérios e ao saber científico, é a formação estamental de outros patamares, sendo que o último configura obviamente à classe que trouxe maiores desenvolvimentos à humanidade, a inteligentsia;


       E nesses termos sintéticos se explica por exemplo a elite intelectual ateniense ou de `Platão. Assim a República não é uma idealização da sociedade humana, é uma tratado de uma possível evolução da sociedade antiga, baseada no modelo ateniense de maneira mais plena: Uma sociedade de homens de ouro, de grande valor, seres pensantes que governavam a República através dos saberes puramente filosóficos, e por essa classificação superiores aos homens de prata, os guerreiros que lutam pela proteção da cidade, e os homens de bronze, que efetuaram trabalhos manuais, seja artesanato, cuidar da lavoura ou mesmo comerciantes.

      Essa situação estamental de razão filosófica é a base de todas as utopias já construídas. Na Idade Média, Santo Agostinho irá constituir a sua Cidade de Deus uma sociedade perfeita na esfera divina, que ao contrário de Platão e dos gregos, Agostinho só acredita que a perfeição seja possível no outro mundo, no espiritual e não no terreno, onde há a hierarquização de toda a sociedade de maneira convincente, tornando padrão referencial para a Idade Média (ao contrário de outras obras, Santo Agostinho era amplamente difundido).

      Essa vertente platônica vai servir de inspiração para a Utopia de Thomas Morus, onde é pontuada a existência realmente utópica de uma ilha onde não havia classes sociais, e que não havia homens de guerra ou a valorização de um corpo de mercadores ou de guerras, que mercenários eram usados para  a luta, e que o ouro era tão abundante que era renegado só às crianças e aos bandidos como algemas. Onde haveria reversamento entre a população entre o campo e da cidade há cada quatro anos. Não preciso nem dizer que a Utopia é realmente uma Utopia.

      Se Agostinho acredita que não seja possível ao homem alcançar a perfeição em vias do mundo ser naturalmente imperfeito, e o Morus recorre à esfera filosófica para construir a ilha de Utopus, o mesmo não pode ser dito de Hegel. Hegel com certeza retoma a ideia da perfeição de Platão, do idealismo alemão, de que é possível construir um novo mundo no presente a partir de nossas ideias. Na verdade, desde o Iluminismo isso já dava as caras, mas o idealismo alemão abraçou isso como uma persona grata.

      A construção de um ideal de belle époque e do progresso se embaseia nisso, e até o marxismo é meio hegeliano ao pensar na construção de uma sociedade sem classes sociais e propriedade. Tudo isso vai ser combatido por Nietzsche, quando ele retoma as origens da filosofia e começa a atacar Platão e toda a sua filosofia construída.

        Mas no fundo, mesmo com tudo o que foi dito. A nossa sociedade, na vertente, na origem, ainda tem vestígios da sociedade neolítica. É claro que com algumas modificações, mas a sua origem continua presente até hoje. É por isso que acredito que possamos estar próximos de um tempo de mudanças, mas qual, eu não sei.

       A nossa família é uma estrutura antiga, as relações familiares também. A filosofia é platônica, nossa moral foi construída no século XIX. Até os nossos jogos são meio medievais:

      Tomemos o xadrez, que jogo é esse onde encontramos relações de vassalagem, onde um peão é uma peça insignificante mas um bispo ou uma torre são cruciais para o andamento das jogadas. Na verdade, o xadrez é um jogo que esconde uma hierarquia, mas mais do que isso, ele é a base de todas as táticas de guerra na Europa medieval, desde a formação de tartaruga, o trabalho da cavalaria agir em flancos e da importância da família real para a manutenção do corpo.

      E quanto ao futebol? Esse jogo que é uma simulação quase que metafórica de um campo de batalha, onde onze homens de cada lado se dividem ao longo do campo, competindo e degladiando-se pela posse de uma bola (ou uma bandeira) com o objetivo de lançar a bola no gol (ou erguer a bandeira em um castelo). Até o futebol é meio medieval.

       Isso sem falar da luta livre, que é sem dúvida a releitura do circo de gladiadores romanos.

        Pois é, entre o passado e o futuro, se esconde o presente.

        Então o que podemos esperar do futuro? O futuro não influi diretamente no presente, mas o presente influi diretamente no futuro. Nós nunca temos certeza do que irá acontecer, e isso impossibilita termos certeza de que os nossos atos são corretos, o que esperar do futuro? Incerteza.

        Na verdade dizem que o futuro vai ser melhor que o presente, se espera sim. Materialmente será, mas filosoficamente? A História dá voltas e voltas, mas não em círculos, e sim em elipses. Podemos estar agora numa belle époque, mas amanhã podemos entrar numa guerra, ou não. Essa é uma elipse que sequer pode ser calculada, é uma elipse infinita. Pois apesar do trabalho absurdo de Fukuyama, a história não acabou. "Esse não é o fim, nem mesmo o início do fim, esse é o fim do começo".

       O presente é o arquiteto do futuro e a semente do passado. Ele se move para frente e nunca se apresenta de forma estática, assim como o passado não foi estático e nem o futuro será. O presente é a ideia consumada da teoria do caos, ou do castelo de cartas, em que tudo que é sólido se desmancha sobre a força do tempo.

       Mantivemos parâmetros neolíticos em nossa organização social, mas o que garante que eles próprios vão desaparecer. O presente é inconstante, é cigano, se move de um lado para o outro, por isso é tão sedutor, o passado pode parecer rígido e estático, mas foi tão inconstante quanto o seu irmão mais novo. A questão toda é, há futuro para nós, para tais discussões? Essa é uma das perguntas que movem o presente.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A partida

      Apagam-se as luzes, a noite caí preguiçosa. A lua cheia no céu é a única companheira daquela triste noite;

      Descem a ladeira os bêbados que tornam para casa depois de um dia de trabalho, tarde da noite, mas ele não sente mais vontade de ir para casa. Nem quer pensar na ideia.

      Visualiza o tabuleiro com maior atenção, a vodka o anestesia, mas não o faz esquecer que havia perdido o jogo. Como tinha sido a partida mesmo? Ele tinha perdido o bispo na E5 e levado o cavaleiro na D2. Foi aí então que se distraiu e perdeu, perdeu a peça mais importante do jogo, a Rainha.

      A Rainha muda o jogo, essa é a regra para o bem e para o mal, dessa vez veio do lado errado. Ela se sacrificou, deixou se conquistar para salvar o rei, para que ele não sofresse mais do que já sofria, mas só esse sacríficio fez desabar todo o jogo.


     Foi então que a partida se desarticulou, o rei começou a entregar peças, se desfazer de torres e cavaleiros, até que por fim a vida não lhe deu muitas escolhas e ele sentiu-se encurralado e perdeu o jogo.

    O rei perdeu, reinou bem nos primeiros minutos, mas morreu sozinho, como já se sabia que ia acontecer. A partida lhe pregou uma peça, o jogo foi como a vida, lhe enganou em mínimos detalhes. Ele estava tão alegre por estar levando vantagem, por estar junto com a rainha lado a lado governando o seu império de peões, que seguiam lado a lado em legiões para a frente de combate. Mas foi por um deslize, que a rainha se sacrificou, talvez por amor, talvez porque ela o amava, tanto quanto o rei também a ama. Mas ela se sacrificou, sacrificou sua felicidade, o seu amor, uma vida inteira que eles poderiam ter juntos. Tudo por amor talvez.

     O rei se mutilou, parte de seu jogo desapareceu. Não havia mais como, nem tinha jeito de pensar em algo, na verdade nem queria. O baque foi forte demais, ele não consegue mais jogar, não consegue mais mover peças e fica imóvel no tabuleiro de xadrez.

    Ele perdeu, mas não aceita até agora ter perdido, está desolado e não aceitou muito bem isso. Bebeu mais um gole e saiu, sem catar as últimas peças do jogo, de que adianta? Está tudo perdido.

     Desceu a ladeira, não viu mais ninguém nas ruas, não ouviu ninguém passar. Cansado e sem forças, sentou-se no meio-fio e olhou com tristeza o céu. As nuvens ameaçavam a noite, e a lua começava a ficar encoberta. Foi então que pensou, o erro do rei foi ter se levado para o lado emocional, enquanto xadrez é um jogo que prima pela racionalidade e cientificismo, mas ficou tão abalado por ter perdido sua rainha que sequer conseguiu se mover.

     Foi então que o rei não lhe pareceu uma figura estática, rígida com a coroa em cima, não era só uma peça do jogo, ele viu a encarnação de um rei na sua frente. Um homem, um homem bem triste de barba e cetro, desolado por ter perdido tudo à sua volta e que acabou desistindo de tudo e de todos.

     Sentiu um pouco de pena do rei, mas mais ainda da rainha que tinha se sacrificado e o rei nem sequer sabia porquê? Será que ela não o amava, será que não lhe agradava ter uma vida com ele? Será que ele era tão frio que ela decidiu desistir dele?

     A rainha como eu disse era a peça mais importante do jogo, ela está no mesmo patamar do rei, mas ela sim é a peça mais importante. Sem a rainha você perde o seu jogo, você pode perder as torres e os cavalos, mas sem a rainha tudo fica mais complicado, tudo mais difícil. A rainha é o seu porto seguro e por isso merece ser bem tratada.

      Talvez o rei tenha  perdido por ter pensado mais no jogo do que na felicidade da rainha, talvez ele não tivesse ajudado muito em seus sonhos ou a ouvido do jeito que ela queria, mas não foi porque ele quis, não foi porque ele não gostasse dela. Se tudo fosse diferente...

      O xadrez é um jogo perverso tal como a vida, porque nunca tem volta. Nunca podemos voltar no tempo e mudar nossos atos, e como é um jogo cronometrado você acaba cometendo erros, até mesmo de raciocínio, deslizes.

      O rei, estático e agora triste, não se vê mais como um herói desse jogo, desde que perdeu quem ele mais admirava, o jogo deixou de ser importante, e ele deixou peça por peça se fragilizar. Pobre rei, sabemos bem como deve se sentir.

       Foi então que percebeu que ele não estava analisando o xadrez, mas uma coisa ainda mais complexa, a Vida. E desceu triste a ladeira na calada da noite.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

As palavras não traduzem mais

      As palavras não mais traduzem mais o que o sinto; Os dias não são mais claros que as noites, o calor não aquece tanto quanto o frio, a fome vem, e eu ignoro. Não tenho vontade de mais nada, nem de ler, nem de ver um filme, nada.

     Os livros não me entrentem mais do que deveriam, as aulas se despiram de toda a graça que deveriam ter, não quero mais debater Marx, falar de Roma, ou brincar de contar besteiras. Não quero mais sorrir, não quero mais me alegrar.

     Também não quero chorar, não quero ficar parado. Quero ficar assim, sem demonstrar nada, frio, azul, calado. Nada mais, nada menos. O trabalho me salvou, salvou algo que precisava ser salvo, o meu espírito de trabalho, mas é só, ele não me diverte, nem deve me divertir.

     Eu não quero me divertir, eu não quero falar, eu quero  chorar. Eu não quero nada, nem mesmo morrer eu quero. Não preciso de nada, e mesmo que precisasse eu não iria querer.

     A Humanidade é podre por natureza, é suja, putrefata  ignóbil,  inútil e estúpida, mas mais do que isso é arrogante. Um dia pensei que podia fazer a diferença, um dia acreditei que ela podia melhorar, mas não ela é isso e nunca vai mudar. Não vejo mais porquê mudá-la, nem mesmo forças para isso.

     Não tenho mais prazer no que fazia, não tenho mais carinho pelas coisas que eu amava.

     Mas pior que tudo isso, eu não quero mais escrever, eu não quero mais martelar as teclas e dizer tudo o que eu penso. Acho que vou fechar essa coisa, parar de escrever, não vejo mais como palavras podem traduzir tudo aquilo que sinto ou o que eu acho. É o fim disso, não sou mais o que sou, nem sou a sombra do que já fui. Eu sou nada, uma desilusão desvairada em formas humanas, sem rosto e sem cara.

Crônica desses dias

Tropeço nos versos
Ando desengonçado
Sempre me atraso
Vivo sem viver

Não quero fugir
Não quero correr
Deixei de viver
Verso silenciado

Fecho o compasso
Ligo-me ao passado
Tudo que fiz foi sofrer
Não mais

Não quero ouvir
Não quero falar
Passo depressa
Passo pela vida

Sem conversa
Sem piadas
Sem cor
Sem risadas

Pálido de rosto
Sem voz, sem riso
Passo direto
Sequer irei olhar

Caminha depressa
Caminha mancando
Não olha para trás
O tempo passou
E nem vi passar

Já era tudo
Não acredito mais em nada
Não sou mais feliz
Não quero mais sorrir

Adeus, minha querida
Eu te amei, e ainda amo
Mas não sei disso de ti
Não fala mais comigo

Me deixou desolado
De coração destroçado
Sequer me avisou
Sequer me disse

A vida gira,
Eu perdi minha alegria
Acho que algo morreu em mim

Deixei o tempo passar
E não há como parar
A chuva que cai
Cai do meu olhar

Adeus...
Seja feliz
Esqueça o que eu disse
Adeus...

E não eu não vivo,
mas também não estou morto
Sou um vivo sem vida
E um morto sem morte

Adeus, minha querida

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A sombra de Bolívar


   



     


        


         

 
" Se apenas um homem fosse necessário para sustentar     o Estado, esse Estado não deveria existir; e ao fim não existiria" Simon Bolívar






         A figura de Simon Bolívar é uma das mais enigmáticas e controversas da América Latina, e em tempos como os nossos, com a expansão do "pensamento bolivariano" é conveniente tomar algumas conclusões sobre essa personalidade, e mais do uso de sua imagem.

            Bolívar  a despeito de todo o conhecimento dito "bolivariano" produzido de forma não acadêmica por alguns ideólogos latino-americanos, foi sim um grande libertador da América Latina, mas com ressalvas:

           A figura de Simon Bolívar é tida como um professor da verdade, que levou a palavra igualdade em todos os cantos que passou, mas trás um problema, pois a despeito do que se pensa, Bolívar não era um proto-Lênin, ou uma versão oitocentista de Che Guevara, muito pelo contrário, Bolívar era membro da elite venezuelana.


          Simon Bolívar sequer era um republicano que acreditasse na democracia bicameral, ele em seus escritos mostrava uma postura profundamente elitista, enumerando que a maioria da população era inculta e analfabeta, e que cabia à elite governar por meio da Ditadura, na qual por um Destino Manifesto, que ele sentiu após visitar Roma, ele deveria liderar, nem devo dizer a decepção de Simon ao perceber que ele não teria isso.

         Mas uma coisa era totalmente verdadeira, ele sim era a favor da unidade dos antigos territórios da América Hispânica, mas como? Com a liderança da Venezuela é claro.


       Então, por que eu estou falando isso? Por falar Bolívar e não de San Martin, Rosas, Urquiza, Mitre e outras personalidades latino-americanas? Por uma simples razão, nenhuma personalidade, tirando Rosas e Peron, sofreu uma falsificação tão grande da História na América Latina por um viés ideológico do que Simon Bolívar.

       E sim chavistas, estou atacando o seu deus.

E sim, eu continuo acreditando que ele é uma releitura de Benito Mussolini


       Mas tenho um bom motivo, a conjectura venezuelana atual nos faz pensar a que ponto chegamos na América Latina.

       Hugo Chavez, presidente da Venezuela, que a despeito de todos os rancores e fascínios sobre sua pessoa, trouxe um regime bem inusitado para o século XXI,  um governo de base popular populista que se diz socialista, e digo se diz porque um estado que se diz socialista, tenta promover reformas sociais, ataca o dito imperialismo yankee e tem como maior comprador de petróleo os Estados Unidos sequer merece ser levado à sério, parafraseando Charles De Gaulle.

De onde acha que boa parte da receita venezuelana é gerada?


    O que eu tenho a levar em consideração é o que o chavismo anda trazendo à América Latina, um discurso doutrinário de bolivarianismo, embora eu seja integralista até o último suspiro eu não vejo como benéfica a sensação de uma união de ditaduras na América do Sul, tal como Bolívia e Venezuela andam fazendo e o Equador fez parte. Na verdade, essa união bolivariana se pauta pela história de Simon Bolivar, que libertou a Venezuela, Colômbia, Equador, o Peru e a Bolívia (tanto que se chama Bolívia) do domínio colonial espanhol, a liga ideológica que faz com que esses povos se identifiquem é a história, assim como os fascistas e o nazistas se identificavam entre si por terem feito parte de um único império, o Sacro Império Romano-Germânico. Percebam o perigo.



    Nesse interim, a velha e boa conhecida Argentina, que no século passado já teve a quarta maior renda per capita do mundo, que já vem cambaleando das estribeiras, perto de cair, principalmente por causa da bancarrota dos bancos nos anos 90, vive amargamente um período de instabilidade em que o governo populista de Cristina Kirchner vem fazendo com que o governo perca ainda mais apoio popular, dessa forma acabe tentando tomar apoio de outras nações, aí entram as parcerias argentinas com a Venezuela e a Bolívia.

    E o Brasil? Brasil também é bem amigável com Chavez, fazendo de tudo para ter boas relações com esse vizinho rico em petróleo, principalmente porque o PT, Partido dos Trabalhadores, de Lula vê com afinidade as ideias populistas desse governante bastante controverso.

Os dois eram amigos, não nos esqueçamos disso

   A questão é, todos os países da América do Sul, com exceção do Chile e da Colômbia, por razões ideológica, e o Paraguai, que por sua vez perdeu voz, em maior ou menor grau dão amparo à política chavista e muitas vezes são simpáticos à ela. De fato, ela se expande de tal maneira quanto o fascismo ditatorial se expandiu de maneira avassaladora na Europa dos anos 30 (Portugal, Espanha, Alemanha, Itália, Polônia, todos esses países caminharam para regimes ditatoriais, e apesar que se diga o contrário a constituição polonesa da década de 30 era uma das mais rígidas da época).

Lembremos dos mapas da expansão do autoritarismo na Europa de 30
    Existe outro caminho na América Latina, que tenta não se espelhar no modelo chavista de governo, que acaba sendo um tanto retrogrado; Esse modelo diferente vem sendo adotado pelos seguintes países: Colômbia, por razões diplomáticas um importante aliado dos EUA, Brasil, por ser a potência regional e estar em uma boa fase se comparado a outros tempos, Uruguai, principalmente porque a figura carismática de Mujica não parecer se interessar em um modelo ditatorial, mas uma modelo democrático e de reformas, e o Chile, que mesmo assim anda passando maus bocados.


      Esses grupos de países se cristalinizaram no cenário regional da América Latina. E embora tenham alguns excessos, o grupo dos países II, com Colômbia, Brasil e Uruguai, se expressa por um grupo de países basicamente democráticos com supro respeito às instituições e leis, e embora no Brasil esteja nascendo uma espécie de lulismo, e tenha corrupção, ainda assim o culto à personalidade não é marcante, o mesmo não pode-se dizer dos países bolivarianos mais a Argentina.

      Ah, Argentina, por que és assim? Você com os seus tangos, seus cafés maravilhosos, por que se deixou levar a esse ponto? Justo você que era a rainha da América do Sul. Por que você se seduziu por esses que nada lhe oferecem senão mais e mais sofrimentos?

Argentina, Argentina, dourado é o  sol, prateados são seus rios

      Embora a história seja uma coisa muito viva na Argentina, ao contrário do Brasil, onde você não ouve senão dos militares os nomes Caxias e Tamandaré, mas ouve dos argentinos Mitre e Rosas. Você não ouve Getúlio, mas escuta Péron na Argentina, aqui se brinca com a política, lá se fazem discursos apaixonados. Como somos tão diferentes! E ainda bem que somos diferentes, porque juntos podemos ser maiores que a soma de ambos.

     Por que Chavez faz tanto sucesso? Serão seus discursos, os seus atos, ou simplesmente por ele dizer que se importa com o povo, coisa que os seus antecessores ignoravam? Tá mais para a última mesmo, mesmo assim, como pensadores trotskistas podem se ver vangloriados quando se lembram de Chavez, esse homem que tem um culto à personalidade à sua volta?

     Simples, os trotskistas nunca foram muito democráticos, sempre foram um pouco a favor da Ditadura do Proletariado, atacaram o culto à Stálin, unicamente porque não havia um a Trotsky. Eles se seduzem pela ideia do  bolivarianismo porque ela lhes parece com a ideia da Revolução Permanente, mas uma revolução sem o Brasil, logo a potência regional?

Isso é culto a personalidade tão semelhante ao de Stalin


     Mas o que Chavez trouxe? Ele trouxe políticas de amparo social, verdade, ele estatizou empresas estrangeiras, sim e... e nada, não mudou o quadro econômico, denunciou um golpe, na verdade ele sofreu mesmo, porque essa coisa latino-americana de dar golpes é tão triste quanto a hipocondria européia. Mas o que acontece com a Venezuela, um país que vive de petrodoláres e ainda assim não enriquece. Um país que podia ser a Arábia Saudita tropical, mas parece mais um cenário dos filmes do Rambo.

     Sabiam que a Venezuela importa ovos. Eu disse ovos. Um país que importa ovos é pura constatação de sua fragilidade produtiva, afinal, um país que não produz comida para o seu próprio consumo está fadado ao fracasso. Importar ovos, a União Soviética importava comida, e veja o desfecho dela, quando não conseguiu pagar tudo entrou em crise.

     Na verdade a situação da Venezuela é semelhante à da URSS. Embora a Venezuela tenha um clima mais propício à agricultura, ela não parece ter diversificado essa questão, muito pelo contrário, ela cada vez mais fica dependente do petróleo, a URSS também ficou dependente do petróleo  tanto que na Crise do Petróleo  ela vendia para o exterior e com dinheiro comprava comida. Mas quando o boom do petróleo acabar? A Venezuela estará fadada ao que aconteceu com a URSS, uma crise de desabastecimento.

É irônico, A Venezuela, rica em petróleo passa por um desabastecimento de comida, e nós ricos em comida, passamos por um desabastecimento de combustíveis.

     Na verdade ela já vive essa crise, e ainda vive com uma inflação galopante, mas pelo menos a gasolina é barata, mas é todo mundo que tem carros? Na verdade, quais são as indústrias automobilísticas na Venezuela? Muito poucas.

     Agora falemos em leis, qual é o respeito à constituição, há estabilidade jurídica, ou as regras mudam sempre? As regras do jogo mudam sempre, estatizações (eu sou inteiramente a favor das estatizações, mas também não pode ser uma coisa que pega todo mundo de surpresa), inadequações de gerência, crises fiscais, mas pior que isso a lei muda, a constituição é reinterpretada. A constituição!

      A constituição venezuelana previa que um governante devia no máximo ter dois mandatos consecutivos, Chavez e os seus apoiadores conseguiram mudar esse artigo, fazendo com que não aja limite para a eleições. É certo que os Estados Unidos tiveram FDR em quatro mandatos, mas é diferente, na época não havia uma legislação que restringia o número de mandatos, ela surgiu quando Roosevelt morreu, mas mudar a constituição para fins próprios é uma grave falha dos parâmetros jurídicos de uma sociedade.

      A oposição na Venezuela não possui apoio popular, igual ao Brasil, mas anda crescendo nos últimos anos. A questão dela estar crescendo é que Chávez anda perdendo popularidade em virtude da inflação e de o país estar amargando a crise econômica de 2008. Mas o respeito às leis também algo a ser levado em consideração, sem falar na saturação de sua figura mesmo.

     Em todo caso, Hugo Chavez está doente, ele está doente e a Venezuela é o "velho doente" da América. O fato de o tratamento de Chavez não ter sido feito na Venezuela nos explica muita coisa, a medicina venezuelana não é boa, e pior Chavez não confia nos seus próprios médicos, mas se vangloria de estar fazendo uma medicina pública a todos os venezuelanos.


     Ao que indica Chavez iria se tratar no Brasil, no Sírio-Libanês, mas como a política do hospital não ampara uma política total de sigilo de figuras públicas e nem estava disposta a isolar uma ala inteira para o tratamento de Chavez, ele foi à Cuba. E conforme os relatos dos médicos espanhóis que estiveram em Cuba, os médicos cubanos fizeram uma barbeiragem e Chavez acabou ficando mais debilitado ainda.

     A pergunta é: Como um homem que sabe que está doente pode concorrer às eleições? Roosevelt fez a mesma coisa, mas FDR estava no meio de uma guerra, para ele até quando Hitler morresse ele não descansaria, mas talvez o próprio Roosevelt tivesse tomado gosto pelo poder. Essa é a explicação que tenho quanto à Chavez.

     Então, Chavez está tão doente que não pode assumir a presidência, não pode tomar sequer posse. Na verdade, a constituição é clara, quando o governante não consegue fazer o juramento de posse, por incapacidade ou invalidez, deve assumir o presidente da Câmara, e convocar novas eleições para 10 dias. Está na constituição, mas é conveniente também à oposição.

     Chavez está em coma induzido, mas em seu país parece um fantasma que assombra a realidade. Seus apoiadores acreditam que tudo isso foi legal e que não precisam de novas eleições, mas na verdade, eles têm medo de não poderem se garantir no pleito sem Chavez, enquanto se Chavez for dado como presidente, e por ventura morrer (e isso não está difícil), o vice assumirá e o status quo será mantido.


       Vejam só o que o chavismo anda trazendo a Venezuela, cabelos brancos. A instabilidade é tanta que não duvido nada que vai agravar ainda mais a situação econômica e política desse país já tão sofrido além do Equador.

     E é por isso que volto à citação de Bolívar: "Se apenas um homem fosse necessário para sustentar o Estado, esse Estado não deveria existir; e ao fim não existiria". É o que anda acontecendo, o Estado anda desaparecendo, tal como suas leis e sua constituição, que prosopopeicamente é tão pequena quanto o respeito que os discípulos de Hugito parecem ter com as leis.

O valor da constituição no caso da Venezuela pode também ser medido por seu tamanho
     

         

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Uma ditadura camuflada

      Nós, filhos da Democracia fajuta dos anos 90, que crescemos com o culto ao consumo e ao hedonismo acreditamos que nossa vida é tão democrática quanto nossa maneira de pensar, mas esse narcisismo teórico de que a nossa vida é a melhor mascara uma ditadura camuflada, a da beleza.

    E remeto à beleza, não só à beleza física, mas a beleza teórica, beleza do saber científico, onde nós somos tentados a acreditar que nossas ideias são belas, assim como as ideias concordante também o são. A ditadura de valores enraiza em nosso peito e deixa uma marca nefasta em nosso corpo e em nossa mente.


     Digo isso de maneira categórica, a beleza anda fazendo um estrago no nosso saber.

     Após plantada a discussão, cabe agora levarmos alguns pontos em consideração:


        Vivemos numa sociedade de consumo, isso é fato, mas não é um consumo restrito ao papel de apenas consumir, mas um consumo pessoal, um consumo autopromovido, onde nós nos sentimos melhores por termos consumido tal produto, seja um tênis Nike ou um óculos Ray Ban, e desejamos tornar público tal consumo para adquirirmos status, porque achamos belo isso, fomos moldados no pensamento de que o que é de grife, ou marca, é bonito e consequentemente bom.


        Como não se bastasse o problema, a sociedade de consumo não apenas consume por prática hedonistica, mas mais do que isso, leva o individuo a uma fagocitose de si próprio, onde se nega por completo o papel da individualidade para publicizar sua própria personalidade, ou pior para adquirir uma nova identidade.

         Nesse caso, o homem se reifica, vira uma coisa que apenas consome e que se sente mal quando não consegue consumir, seja um terno ou um carro novo, e se martiriza por isso, se sente pior que os outros e a sua autoestima cai.

          Mas porque essa autodepreciação, bastante masoquista por sinal? Simples, fazemos isso para nos sentirmos melhores ou mais bonitos socialmente, para que sejamos reconhecidos e tenhamos um status. Quando não possuímos itens pretensamente arrojados, sentimo-nos excluídos, feios, e tomamo-nos por um vazio emocional.

           Queremos ser bonitos, não importa como: fazendo academia, malhando, recorrendo a plásticas, comprando roupas novas ou tendo outras aquisições. Queremos que tenham inveja de nós e fazemos de tudo para que isso aconteça, pois para nós quando sentem inveja, assume-se que somos superiores ou melhores, e consequentemente nos vemos melhor, mais bonitos aos nossos próprios olhos, seja financeiramente ou emocionalmente.


           É um ponto maluco? Nem tanto, quando por exemplo estamos em uma competição pelos holofotes e por maior atenção, pensamos que devemos ter maior destaque, e que o destaque só é possível quando tomamos atitudes bem vistas, mas mais que isso adotamos a moda como modelo. É aparentemente uma necessidade pessoal, passamos a nos vestir melhor, usarmos cosméticos e a tentarmos nos enquadrar num referencial, o padrão, a escutar certos tipos de música, ver alguns filmes, para que termos algo com o qual nos identificar, ou comentar. É a busca por algum reconhecimento.

             Eu queria poder dizer que eu sou contra isso, que não quero qualquer reconhecimento e contar outras lorotas, mas a verdade que até eu quero algo assim, um apelo de fragilidade pessoal, seja se expressando numa maneira de se portar ou vestir, até nos livros e nos filmes que consumo. Mas prefiro ter minha identidade pessoal ao tomar a coletiva.



      Mas por quê? Porque queremos ser reconhecidos, por que queremos ser bonitos?



      Nós queremos suprimir uma fragilidade existencial de nossa condição, a sobriedade da vida humana, o papel de solidão que sentimos desde que nascemos, queremos nos identificar com outras pessoas, queremos que nos ouçam, que nos olhem, e mais do que isso, que nos amem.



           O amor, eis aí outro conceito, dessa vez um conceito construído. Será que existe mesmo um amor, alguém que sinta algo fraterno, que faça por outros o que não faria em condições normais, que deseje alguém? Eu queria poder que sim, mas hoje estou convencido que é um conceito belo demais para ser realidade, é uma beleza filosófica, tal como acreditar numa justiça divina ou no bem, como conceito.


           Amor, o conjunto verbal amare, essa coisa que nos faz dizer coisas bobas e acreditar que o mundo pode ser melhor, que a beleza realmente existe e que é belo usufruir dela. Ah, que conceito ingênuo, o amor é difícil de ser definido, pois tenta-se diferenciá-lo talvez do afeto, mas na verdade ele próprio no sentido hegeliano seja até um tipo-ideal, talvez nunca tenha existido.


            Amor não é só amar, amor não é só sentir, é uma maneira de agir, mas é um sentimento que pressupõe ser recíproco, mas a pergunta é: Há reciprocidade nas relações humanas? Será que o amor como ideal não é unicamente o amor enumerado por Platão no Discurso do Banquete?


           Eu não sei, mas o amor é um conceito belo em todos os sentidos, movem os homens com sua moral a tomarem atos aceitáveis e aprováveis, e quem não ama ou não tem a capacidade de amar acaba sendo marginalizado como indivíduo incompleto ou infeliz.




           Outro conceito belo, Felicidade, Felicidade pressupõe um estado de alegria, que pode não ser real ou alcançável, uma alegria constante, mas a vida é tão recheada de altos e baixos que fica difícil dizer que alguém foi feliz. Felicidade é uma Fortuna, uma dádiva, um prêmio, um tesouro, se tomarmos a feição latina da expressão Fortuna. Existencialmente falando, acredito que o homem seja naturalmente um individuo fadado à infelicidade, pois não pode-se viver a felicidade em todos os momentos.

            Mas a Felicidade tomou uma feição política, de ideal, algo a ser batalhado, e não são poucos movimentos que dizem trabalhar pela felicidade do Homem, mas que felicidade? Há felicidade na vida humana? Será isso não um produto do Iluminismo que enraizou em nós?

            Sugiro que tomemos cuidado ao usar o conceito Felicidade, pois ele é um conceito belo, um conceito que tenta suprimir as nossas necessidades existenciais, que nos faz pensar que algo pode ser melhor e que deve ser melhor. Sentimos sim felicidade quando nasce um filho, quando estamos junto de alguém onde acreditamos ter amor reciproco por nós, mas não é A FELICIDADE, é a alegria, um sentimento bom, não um sentimento constante que consome de resto nossas vidas.



             A vida é cheia de ideais, e nos enraizamos por esses ideais belos, seja ideologias, o culto à beleza, à felicidade ou ao amor, mas todos esses conceitos parecem estar presentes para suprimir a crise existencial do Homem: Para onde vou? Que destino tomarei? Quero ser reconhecido. Sou fadado a ficar só? Porque ninguém presta atenção em mim?

             Esse é o ponto que queria destacar sobre tais assuntos, vivemos uma ditadura da beleza, mas não só física, mas também de ideais.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma discussão sobre o papel da Ideologia



 


            “Nós vos pedimos com insistência:
            Nunca digam — Isso é natural! [...]
            A fim de que nada passe por ser imutável”  
                       (Bertolt Brecht)


            Considerando que o senso comum pode ser entendido como uma entidade de pensamento e conhecimento construída a partir de uma realidade vivida num contexto social, já que o homem se traduz por ser ao mesmo tempo um individuo laboris, socialis et ludens, observasse que essa conjectura do saber normalmente acaba tendo enraizada uma ideologia disfarçada.


            Mas o que é uma ideologia?


            Para Marx, a ideologia é um produto construído de forma arbitrária por uma classe dominante a fim de literalmente “mascarar a verdade” e alienar o trabalhador, o homo laboris numa relação dicotômica entre exploradores e explorados, essa é a base do pensamento marxista, um dos francos pilares.

            Mas a ideologia, embora Marx tenha sido bem perspicaz nesse ponto ao interpretá-la como uma máscara, ela pode ser entendida como um produto de um conjunto de valores e ideias de toda uma sociedade e não obrigatoriamente é feita de maneira arbitrária ou apenas para mascarar a realidade, mas ela em si carrega um valor, uma ideia propriamente dita de tornar normal a sociedade, dar uma coesão ao corpo, e ao contrário do que Marx diz, a ideologia não apenas toma os olhos dos explorados, mas também dos ditos exploradores.


            Tal como na tragédia final de Édipo, o Rei, onde o tirano mascara a realidade para apagar a sua culpa do crime em Tebas, ele próprio se ilude, e se cega por completo frente à aletheia, traduzida de maneira porca como a verdade, “pravda”. Só que nessa tragédia de Sófocles, Édipo, vergonhoso de ter desposado a mãe e matado o pai, acaba ferindo os olhos e se lamentando por ter sido considerado o mais sábio dos sábios e no fim ter sido o mais cego dos cegos.

            A despeito do drama dessa peça, é o que acontece com todos nós que vivemos num corpo social, a Ideologia se enraíza completamente no nosso imaginário,  e se não tomarmos cuidado e seguirmos no dogmatismo estrito de nossas ideias, acabamos tão cegos quanto o Édipo, o decifrador da Esfinge, e podemos beirar ao fanatismo por acreditarmos que a nossa verdade é única e que as demais visões são falsas ou meras deturpações da realidade.


            A melhor maneira de sobrevivermos ao dogmatismo sem nos consumimos por completo em suas ideias e pensamentos é tomar uma postura geral de todos acontecimentos, duvidar dos nossos passos, tomarmos o ceticismo em nossos movimentos e adquirirmos o senso crítico das coisas, uma análise crítica da situação, fazendo questionamentos de práticas e ideias que se enraízam nos comportamentos sociais, o “bom” senso como Gramsci mesmo  disse é “o núcleo sadio do senso comum”.

            Se inter-relacionarmos  o senso crítico com Édipo, temos que o senso crítico é a visualização dos nossos equívocos, é uma autocrítica da própria sociedade, que de forma prematura acaba nos prevenindo de um trágico desastre.

           


            Voltando ao debate acerca da Ideologia; A nossa realidade deve ser encarada de maneira pragmática, mas nunca dogmática, tomando cuidado para que o ceticismo não seja tão grande ao ponto de duvidarmos de tudo que aprendemos e conhecemos.

            De maneira geral, o discurso ideológico de maneira inconsciente se enraíza no nosso imaginário, seja no caso de “A Democracia é um governo de iguais que governam por meios iguais e límpidos garantido a harmonia de todos os seus indivíduos no corpo”, ou “Quem espera, sempre alcança” e “Cada um por si, Deus por todos”.

            Se formos pensar de maneira categórica, essas frases são inteiramente carregadas de ideologia, uma, usada em discursos políticos, é a própria definição do modelo tradicional liberal, a segunda remete a uma ideia de quem é paciente sempre consegue o que quer, o que ideologicamente falando quer dizer, economicamente só os indivíduos pacientes mas que constantemente trabalha podem enriquecer, ou seja moral burguesa. A última é a moral burguesa escrachada, Deus cuidará de todos enquanto cada um cuidar de si.

            Essas frases são comuns, seja em discursos políticos, seja em ditados populares ou repetidos por nossos pais, mas enraízam uma ideologia.



            Entramos então em outro ponto da esfera dessa discussão, a ideologia pode aparecer de maneira consciente ou inconsciente em várias esferas, seja no convívio social, seja na escola, na igreja, e até mesmo na cultura.

            No convívio social, nossos pais nos educam conforme os seus desígnios que carregam seus valores e seus conhecimentos, consequentemente suas ideias; Na escola, o discurso de que o ensino é democratizador é tão enraizado até hoje que quando o desempenho de um aluno é aquém do esperado, ideologicamente falando, o aluno é tido como não empenhado, e o aluno com melhores notas, é consequentemente tido como melhor, a escola é um reflexo da própria sociedade.

            A Igreja ensina os mandamentos da Bíblia, ao respeito, mas mais do que isso que é preferível aos “olhos do Senhor” que se mantenha a coesão social e o respeito aos mais velhos, e abstraindo para algo maior, que a fortuna é uma mostra de bons olhos à Graça Divina.

            Quanto à cultura, isso é bem visível à cultura de massas, seja nos filmes de final de ano que mostram um pai norte-americano numa mesa, repleta de comida, rodeado pelos filhos e demais parentes, cortando o peru enquanto a mãe, que às vezes é mostrada como submissa, prepara a comida, e os filhos esperam respeitosamente para abrir os presentes enquanto são tocadas canções natalinas, neva e o pai faz a prece. Isso é a personificação do ideal de família protestante norte-americana, embutindo uma moral puritana de maneira escrachada.

            Mas não é só nisso que a ideologia se mescla à cultura, nas simples histórias em quadrinhos, essa coisa tão inocente e tão singela, a moral e a ideologia estão  lá escondidas. Seja o Capitão América ou o Superman, onde eles aparecem como guardiões de uma “ordem natural” estática e harmônica que é apenas quebrada pelo MAL, representado pelos vilões (Caveira Vermelha e Lex Luthor) que não têm escrúpulos e sempre querem destruir a ordem. Uma visão maniqueísta da realidade, tendo em vista que não existe bondade intrínseca sem a presença do mal.

A despeito de ser ideológico ou não, eu gosto do Capitão América, exatamente por ele ter alguns valores

            Esse é o caso mais visível, mas e o Batman? O Batman pode não parecer tão ideológico, mas paremos para pensar, um milionário rico faz a “filantropia” de prender os piores bandidos de Gotham City e de quebra ainda auxilia a cidade com a sua riqueza, há aí uma valorização camuflada da burguesia, mas mais do que isso há uma condenação moral também, em que as crianças nunca devem “matar seus pais”, não devem traficar armas (Pinguim), cometer roubos, etc.



            E Mafalda e Snoppy, essas coisas tão infantis e tão divertidas? Pois é, dizem que Mafalda não tem uma ideologia embutida, mas os comentários cáusticos e as reflexões daquela garotinha são bem mais vibrantes que de muitos filósofos na Universidade, a questão que a ideologia existente em Mafalda não é a ideologia tradicional que visa legitimar práticas sociais, mas sim contestá-las; Mafalda, em outros termos, quer nos fazer refletir sobre os rumos do mundo.



            Cinema, histórias em quadrinhos... Que tal falarmos em propaganda? A propaganda, a mídia como um todo, visa vender um produto, seja um óculos Ray-Bay, um Hyundai último tipo, ou um Ipod, mas ela vende mais do que isso, ela vende uma maneira de vida, um modo de se pensar. Quando compramos um Ipod, nós não compramos só porque ele é útil, na verdade é bem útil, dá para acessar a internet, ver os e-mails, ouvir música, jogar, ver filmes, ler textos, etc. Tudo na palma da mão, mas o que você compra é uma ideia de progresso, de que o mundo sempre está mudando e que é seu dever acompanhar as mudanças e usufruir delas, é o American Way of Life!

            Você quer ser como o cara que usa Ray-ban e pilota o Hyundai vermelho com os cabelos esvoaçando com o teto solar, falando ao viva-voz em seu Iphone, chegando em sua luxuosa casa na praia em Malibu. Esses produtos te doutrinam a pensar dessa maneira. E na verdade, é o que todo mundo normalmente quer, uma vida confortável.
Poucos resistiriam a um carro desses

            Isso foi a propaganda comercial, mas e a propaganda propriamente ideológica? Ela vende ideias com palavras, discursos, ações, e desfiles, essa propaganda te dá a ideia de pertencer a um corpo, o faz sentir ser membro de algo maior, de construir um novo mundo. Seja o mundo socialista, onde todos tem os mesmos direitos, são iguais e trabalham pelo bem da humanidade sem classes sociais (pode-se dizer que Marx foi um dos primeiros marqueteiros bem sucedidos da história) ou fazer com que o progresso continue, que a ciência evolua e que possamos dominar cada vez mais a natureza ( o que o pensamento progressista sempre vendeu), ou simplesmente fazer com que a sua nação seja forte, a melhor do mundo, e que todas as outras se curvem à sua grandeza (É a definição do Fascismo).


            Veja como as coisas andam, a ideologia saiu da família para chegar ao fascismo.

            Esses são usos comuns da mídia que conscientemente ou inconscientemente nos levam a pensar uma ideologia. Isso se aplica a outras esferas, seja o rock in roll, seja a Literatura, com Dickens vendendo antissemitismo em alguns de seus livros e Zola uma ideia de socialismo, assim vai.


            As notícias também acabam tomando um viés ideológico, não poucas são as situações em que algumas notícias são enfatizadas mais do que outras, ou trechos são destacados, às vezes isso é feito de maneira inconsciente, tal como na hora que contamos uma história e nos atemos aos fatos que nos impressionaram mais, mas às vezes não.



            Em todo caso partiremos a um último ponto que eu gostaria de discutir:



            Gramsci, esse pensador da década de 1920, italiano que acabou perecendo frente ao crescimento do fascismo na Itália, em um dos seus escritos, Concepção dialética da História, tipificou a ideologia em duas formas: Orgânica e Arbitrária.

Gramsci em foto


            A ideologia orgânica se traduz num conjunto de valores que foi implantado num contexto e que fazia sentido no meio social que acabava se solidificando em tradições e costumes, dessa maneira leituras weberianas e de Locke sobre contrato social poderiam mesclar-se com a ideia da assimilação desses valores que praticamente se autojustificavam em vias da força temporal.



            A ideologia arbitrária era imposta de maneira externa por meio da força, seja física ou do discurso, e naturalmente tinha problemas em se legitimar, por essa razão acabava precisando da propaganda para permanecer, no caso da Itália, o Fascismo.





            Essa  discussão toda foi produto de uma leitura que tive sobre a ideologia como papel presente em nossas vidas, e em todos os meus pontos, o que quero apresentar é que a sociedade humana como sociedade, corpo de indivíduos, não sobrevive de maneira coesa sem a ideologia para legitimá-la, seja no tempo de César, seja na feudalidade, seja na Revolução Francesa, seja na hoje, seja na União Soviética. A ideologia é a liga com que os indivíduos se inter-relacionam, e ela tem um papel duplo, de mascarar a realidade, mas também de dar razão à ela, e ela não é estática, ela se mescla com o corpo social, abrangendo todas as classes.



Exercício Mental




“O Estado é uma instituição ao serviço de todos os cidadãos”



            Esse parecer universalista é tão enraigado por todos nós que parece até uma verdade absoluta, confesso que para mim é, e mais do que isso uma vontade, tendo em vista que não imagino uma forma mais perfeita de estrutura social do que a que o Estado, afinal ele é o regulador social.
            Mas como regulador, ele serve aos interesses de uma classe, que como Marx dizia, é agora a burguesia e o Estado apenas serve para oprimir o proletariado, pela visão marxista.

Mesclando com o pensamento de Lênin no “ O Estado e a Revolução”, temos que o estado socialista deve ser pautado pela ditadura da maioria, o proletariado, sobre a burguesia, para garantir o triunfo da Revolução, e que esse proletariado deveria ser dirigido por uma classe pensante, a inteligentsia; Não fica difícil de entender o que isso representa, a inteligentsia, tomou o estado com o amparo ideológico de governar em prol do proletariado na construção da sociedade comunista.

            Assim, tanto para os marxistas-leninistas quanto para os defensores mais árduos do Estado como instituição, o Estado deve garantir por seus meios o seu papel de servir à maioria, a diferença é que no pensamento marxista-leninista o estado é transitório e não deve servir à burguesia, mas ao proletariado, uma verdadeira Ditadura do Proletariado, e a Inteligenstia deveria tomar o papel de Vanguarda Revolucionária e se apossar de uma Ditadura conforme os desígnios romanos.


            No pensamento burguês o Estado é totalmente democrático e ele não privilegia nenhum dos corpos da sociedade, ele deve salvaguardar todos os serviços aos cidadãos, mas acaba que nessa realidade alguns são “mais cidadãos do que os outros”.



            Não compactuo mais com nenhuma dessas visões, seja a leninista, da vanguarda e da Ditadura, porque a palavra Ditadura me toma calafrios e nem o pensamento burguês, pois embora a ideologia seja totalmente universalista, não se traduz na realidade.
            Esse exercício mental mostra bem o que uma citação delicada pode fazer quando a dissecamos ao fundo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

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Sustenido

        Na música o sustenido significa o semitom de uma nota, um levante de uma corda. Ao contrário do bemol, o sustenido tem um nome mais melódico e mais bonito.

      Sustenido me faz pensar em comprimido, suprimido, tal como penso quando fico deprimido. Nada é mais triste do que se sentir sozinho na noite e não ter nada, nem ninguém para te distrair. Você olha para a janela, para o horizonte cheio de arranha-céus e nenhuma estrela, nenhuma lua consegue ver no céu.

      A iluminação fraca da rua, as pessoas voltando bêbadas para casa, tudo tão melancólico. É então que você liga o seu rádio e tenta se distrair com algum som, alguma canção. Fá sustenido, bemol, mi em oitava. Nada é mais triste do que um amor perdido.

     Você deseja ouvir ao pé do ouvido uma doce canção, uma melodia piegas, mas tudo o que houve é o vazio da noite, o silêncio do asfalto e do concreto nas casas, um mortal coro taciturno que adentra a sua alma e comprime o seu peito, sufocando-lhe no travesseiro.

    A vida sem a música seria um erro, Nietzsche mesmo dizia, mas o próprio sustenido já não é um erro musical, um acidente desvairado, tal como o lampejo do coração?

    A música exala pelo ouvido adentra o corpo e faz bater mais forte o peito. Um amor suprimido levanta-se e faz com o coração bata no mesmo ritmo da canção, seja valsa ou bolero. Não há muito o que se entender, mas um coração apaixonado tem um pouco de musical.

Tempo

       Eu espero que perca a  noção do tempo, que passe a parar de contar os dias e de olhar para o relógio. Nada mais me fascina, nem mesmo o movimento metódico e calculado das engrenagens num pequeno relógio de bolso.

     O tempo passou tão lentamente e os dias se foram, e quando paramos para ver, passou-se um ano. Muda calendário, as pessoas começam a procurar feriados e planejar férias. Eu não planejo férias, eu não tenho planos de descanso, eu tenho metas de trabalho, metas sem tempo.

     Passou o Natal e o Ano Novo, começou outro mês, outro ano. A parte boa é que vou voltar a trabalhar, a parte ruim é que vou deixar de escrever. O tempo passou e o bonde levou as minhas últimas palavras nessa desvairada fortuna tropical.

    Tempo, tempum afflictorum, imemoriável em grandeza, constante da física quântica e a dimensão emocional que carregamos. O tempo passou e o meu pequeno relógio parou por falta de corda.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Versos de um novo ano

Verde vontade de vê-la
Azul anil na lua de janeiro
Cobiça o vermelho do coração
E me traz o branco da paz

Amarelo ensolarado jamais
Irá me fazer esquecer
O afeto e o carinho
Dessa noite escura

A aquarela emocional
O amor marginal
Cigano e cavalariano
Volúvel e inconstante

Nossa vida é uma tela
Pontilhada como Monet
Colorida como Van Gogh
Cubista como Picasso

Nossa vida é um livro
Um Pablo Neruda sem capa
Os Três Mosqueteiros em forma
E Tchekhov pincelando a situação

Nossa vida é uma historia
De como César passou o Rubicão
De como Napoleão amou Josefina
E você conquistou meu coração

Nossa vida é uma música
Um soneto de Tchaikovsky
Com o romantismo piegas de Clarice Falcão
Recheado com o indie de Franz Ferdinand

Nossa vida é uma coisa muito louca
Gogol escreveria algo sobre isso
Freud analisaria nós dois
Deitados num divã

Nem Solano, nem Caxias
entendem o que sinto por você
Uma guerra contra os meus sentimentos
Um brandir do meu coração

Esse cavalariano de capa
Esse Nevsky moderno
Um Romeu que ama Julieta
E que sofre como Otelo

Tão bela quanto Penélope
Tão sábia quanto Atena
E tão singela quanto uma flor

Uma revolução passa por mim
E não sei onde vou chegar
Rumo à Estação Finlândia
Para perto de você

Nem Shakespeare
Nem Camões
Ninguém pode escrever
O que sinto nesse dia

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...