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domingo, 1 de março de 2015

Um ano de cautela

           Devemos ter cuidado. Bastante cuidado. Nunca estivemos num momento tão delicado quanto agora, se antes batíamos no peito para falar do mundo, hoje devemos pensar em nós mesmos. O Brasil é um país complicado, não só porque é dividido nitidamente em classes sociais, mas também em regiões tão diferentes umas das outras e em ideologias conflitantes. O Brasil não tem uma identidade única e num momento de fissura é que as diferenças aparecem;



       Hoje a violência parece ser plausível dentro da política, tanto à esquerda ou à direita o discurso deixou de ser apenas de oposição para passar a ser um discurso de violência e ódio. Ambos os lados se digladiaram dessa forma em 2014 e o resultado foi uma das eleições mais sujas e funestas da História. Digo suja porque não confio na Justiça Eleitoral, com o seu sistema informatizado sujeito a falhas que continua sendo o mesmo desde 1998. Não pode dar comprovação do resultado, nem conferir recontagens. É absurdo chamar de golpismo um questionamento do resultado do pleito.



       Todos tem direito a fazer isso, sobretudo numa eleição tão apertada. Mas eis que entra a ditadura dos bacharéis, pois de fato é isso que é o Brasil público, um sistema complicado de legislações e tribunais tão corrupto em sua forma quanto à política. Os juízes se sentem deuses por passarem numa seleção de concurso público e acreditam realmente estar fora da sociedade, na verdade eles se enganam. Os tribunais é que hoje mandam na vida pública de todos nós, infelizmente.

       O Poder Executivo e a Presidência vem sendo questionados constantemente. De fato o país entrou numa recessão, quem não reconhece isso é cego. O governo Dilma perdeu apoio, não só de 48 % da população, mas também de sua base aliada ao fazer justamente o que tinha atacado nas eleições. Ela realmente fez o que era esperando, um estelionato eleitoral. Digo estelionato eleitoral, porque ela mexeu sim nos direitos sociais, ela retirou  50% das pensões de pessoas viúvas na terceira idade, impôs uma legislação mais dura contra o seguro-desemprego, num país onde o desemprego irá aumentar. Tudo por credibilidade econômica.


         O fato que o governo perdeu credibilidade. Investir no Brasil é investir num sonho que pode virar pesadelo. A credibilidade internacional se perdeu com as atitudes impensadas de um ministério da Fazenda que não olhou direito o cenário internacional. O preço das commodites baixou, a inflação subiu, a política de incentivos ao consumo resultou em endividamento, o poder de compra ganho em 2011 caiu brutalmente em 2014. O varejo não vende, a indústria fechou e estamos apenas sendo salvos pelo campo.


         O governo gasta demais e não faz poupança. Quando precisou ajustar o cambio que estava em alta as reservas não conseguiram segurar. O dólar disparou, e acredito que foi de propósito para estimular o mito da indústria nacional. A Indústria Nacional não existe, o capital é mundial. A maior irresponsabilidade foi ter construído estádios e promovido um evento que custou no mínimo 20 bilhões de dólares num cenário de incertezas. agora esse dinheiro faz muita falta.


        A Petrobrás sofreu um ataque especulativo. Isso não dá pra negar, sim, especulativo, mas verdadeiro. Sempre houve corrupção na Petrobrás, assim como houve corrupção no Banco do Brasil, na Caixa e ainda será descoberta no BNDES e outras estatais chave do governo. O problema que essa corrupção retirou toda a credibilidade da maior empresa brasileira justamente num momento de dificuldades, quando o preço do barril de Petróleo baixou, a Petrobrás fez investimentos com pouco retorno no exterior, a exploração do Pré-sal está em cheque.

       As nomeações políticas nas Estatais tiraram totalmente a credibilidade do governo, a falta de transparência em divulgar os balanços foi mortal. A Gerentona Dilma Rousseff  passou a ser vista como uma incompetente, por um Cerveró o país entrou em recessão.

        O governo FHC tinha corrupção, o governo Lula também,mas os escândalos de agora são motivo sim de indignação. Depois das manifestações de 2013 é quase um insulto ouvir todos os dias mais um novo escândalo da Petrobrás. É um tapa na cara da sociedade, considerando que a Petróleo Brasileiro S.A. é nossa. Essa empresa financia a cultura, o desenvolvimento em pesquisa e em ciência.

       Agora o que temos é isso, uma gasolina a R$ 3,45. Óleo Diesel a R$ 2,83. Quando o barril de petróleo está nas suas menores cotações da História, US$ 40,00 em média. É um absurdo da própria econômica brasileira. Quando estourou a greve dos caminhoneiros foi inevitável, o sistema viário parou. E a mistura foi óbvia, os transporte ferroviário foi negligenciado por quase quarenta anos, as rodovias foram priorizadas como forma de locomoção mais viável e ficamos dependentes dos hidrocarbonetos e das condições da estradas.

     Ter automóvel se tornou caro. As montadoras estão dando férias coletivas ou demitindo no ABC. Muitos brasileiros são obrigados a andar de transporte público, ou seja ônibus. Ônibus depende do diesel, a tarifa por consequência aumentou. A qualidade não. O transporte público é uma merda. Falo com todas as letras, não presta e o que é mais indignante, é insuficiente e de péssima qualidade. Demora e sujeito a engarrafamentos, o trem metropolitano poderia ser a solução senão tivesse sido feito na maioria das capitais apenas como objeto de enfeite.

    De fato a indignação da população /vai estourar. Principalmente quando começar a faltar energia, as usinas termelétricas estão funcionando acima da capacidade, a falta de planejamento nas barragens associada à seca no Centro-Sul ameaça novamente a economia, refém do tempo. A oportunidade de construção de novas fontes de energia foi de novo negligenciada, Angra 3 poderia ter sido completada nesses 12 anos, os parques eólicos e solares no Nordeste poderiam ter sido conectados ao sistema nacional. De fato foi falta de investimentos que nos pôs como reféns.

   Sendo a luz brasileira baseada em hidroelétricas, então diretamente se falta energia é porque falta água. Seca. E a falta de água não é só dependente da estiagem, havia planos alternativos, como tratamento do esgoto (que não é feito na metade do Brasil), investimentos em transposição dos rios (alguém lembra que o Rio São Francisco ainda está sofrendo obras de transposição?) e dessalinização e combate a desperdícios. Isso é alçada tanto dos governos locais como do Governo Federal.


      Economia, emprego, transporte, energia e água. Tudo isso fracassou. Mas ainda há outros aspectos que não são necessariamente da alçada do governo federal, mas contribuem para a crise: Educação e Saúde.

      Digo Educação por educação de Ensino Fundamental e Médio. O investimento em educação no Ensino Médio e Fundamental é terrivelmente constrangedor, os alunos vivem em função de um currículo defasado há quase trinta anos. No qual não há incentivos à prática docente em aula, não há segurança jurídica ao professor e tampouco há a real hipótese de formar além de alunos, cidadãos. Criamos apenas no melhor dos casos analfabetos funcionais.

      Analfabetos funcionais, sim, o Brasil ainda é um país de analfabetos. Pessoas que não conseguem interpretar um jornal, ou aproveitar as oportunidades. Uma legião de cidadãos economicamente ativos que não tem condições  para arriscar-se na livre-iniciativa porque não tem capacitação. Isso se traduz no ensino universitário, que também caiu em qualidade, devido à deficiências de ensino da Educação Média e Fundamental.

      Os professores universitários têm pouca disposição à renovação ou à reciclagem de ideias, criando assim futuros professores presos a modelos teóricos dos anos 70. O que é brutal porque o desenvolvimento à ciência se limita apenas a verdades pressupostas.

     A saúde acompanha ao mesmo tempo que dissocia-se da educação, a falta de médicos no interior é associada à falta de capacitação do ensino. Mas não só isso, os médicos são ensinados nas condições universitárias de maneira desvencilhada do humanismo, apenas reproduzem um modelo americano de obtenção de riquezas com a mercantilização da saúde.

      Entra então também as condições materiais dos hospítais, de fato, são horríveis. Faltam coisas básicas, como aspirina, gaze, antibióticos. Alguns estão defasados que a limpeza e sanitarização são precárias e fazem acumular-se os casos de infecções. Crianças morrem sem amparo, excesso de pacientes para poucos hospitais. Quando tem hospitais. 


     A iniciativa do Governo Federal pelo Mais Médicos passou de dúvida à necessidade, mas é um tapa na cara da medicina brasileira. Teve-se que importar médicos do exterior para conter um problema de saúde pública no interior do Brasil quando bate-se recordes nas aprovações dos médicos.


      Outras características que são de esfera social, atrapalham o governo: A falta de investibilidade do brasileiro e seu vício pelo estatismo. O Brasil é a pátria dos concursos, mas alguém deve lembrar que quem sustenta a balança é o sistema produtivo.

       Pois bem, os impostos impedem a reprodução esperada do capital. A burocracia atravanca investimentos, e os comerciantes e empresários não têm muita segurança nos investimentos quando há alterações diretas nas regras impostas do governo. As regras mudaram tantas vezes nesses últimos dois anos, que grandes empresários ficam desconfiados em investir. 

       Como a inflação e o endividamento crescem, dissociados na proporção do aumento de renda, o consumo sofreu uma retração absurda. O setor produtivo que nunca produziu as mil maravilhas, começou a parar. Os empregos vão parando junto, e vira uma bola de neve.  Os empresários preferem se tornar rentistas a investidores, de fato está sendo mais viável viver de aposentadorias, ações ou fundos de aplicações do que esperar uma melhora da economia. Esse é o maior problema, vai faltar capital produtivo quando a inflação só cresce.

      Para piorar, o Banco Central emitiu muito papel-moeda entre 2008 e 2011, o que aumentou a oferta de dinheiro e agora está produzindo um encilhamento da economia. A inflação e a queda do valor do Real também estão associadas a isso. 


      Observando essas características, digo, a situação está quase impossível de ser solucionada. Aí entra a ideologia. O governo nomeou Levy como ministro da Fazenda, numa tentativa de acalmar o mercado depois de algumas lambanças do Ministro Mantega no final do seu mandato. O problema que a ideologia do governo o impede de fazer as mudanças necessárias, Levy não é cepalino como metade do PT admite ser, ele é Chicago Boy, a formação dele é um tanto liberal, embora também tenha alguns elementos keynesianos. A questão é que ele não tem autonomia que lhe é esperado, e agora, isso é evento trágico.


      Não teremos capacidade de fazer um New Deal nem se quisermos. E afirmo, não vamos sair felizes nem tão cedo dessa crise. Se eu pensava em três anos, hoje penso em cinco, a crise brasileira começou e 2012-13 e só vai acabar quando tivermos sorte de mudar as perspectivas do futuro.

      Num país dividido, com cabos eleitorais de ambos os partidos se digladiando, com um Congresso que atrapalha as ações do Executivo (um Congresso bastante conservador, corrupto e inepto, veja-se de passagem) a experiência que teremos será apenas o que o governo Obama teve, uma crise institucional quando foi fazer reformas atravancadas pelos Republicanos. E de fato, o caso do Brasil é ainda pior, porque o Brasil tem flerte com o autoritarismo, o setor militar possui insatisfações muito claras, os empresários e o setor produtivo também e agora uma boa parcela da população também.


     Eu tenho medo do que pode acontecer com a Democracia daqui adiante, mas tenho medo mais ainda do que pode acontecer ao povo brasileiro. E não vou mentir, fiquei surpreso com o fato de Dilma ter sido reeleita, mesmo eu sendo de esquerda, confesso que me surpreendeu, o primeiro mandato de Dilma foi bastante frustante se é que podemos dizer que foi um mandato presidencial.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Batuque

          A agulha da vitrola tocava solitária num canto da sala enquanto o vento entrava pela janela. Chovia;  As pequenas gotículas de água que batiam na telha produziam um ruído que parecia ser um arranhado do vinil. A água começou a entrar no vestíbulo à medida que o vento se tornava cada vez mais impaciente por não ter sido convidado.

        O piso de madeira estava todo molhado e os quadros na parede eram volta e meia iluminados pelo trovão, era assustador ver que o relógio de pêndulo continuava a girar as horas a despeito do clima fantasmagórico que se abria no velho casarão. A casa de cômodos finos e refinados era uma preciosidade, no alto de um morro bem desenhado pela chuva e pela ação da natureza tinha uma arquitetura meio alemã-meio suíça que seduzia a todos pelo o olhar. Era a casa de muitos sonhos e vários pesadelos.

      A escada de madeira tinha apenas um degrau para cada pé, e isso era meio inusitado, mas era logo esquecido por qualquer visitante ao vislumbrar o belo jardim recheado de tulipas, rosas e alguns vasos de violeta. À noite ficava cada vez mais bonito visitar aquele lote quando se iluminavam as flores com aqueles vagalumes elétricos desenhados a muito tempo pelo arquiteto. A vitrola continua tocando o batuque, solitária, num canto da sala.

       O relógio badalava as horas, 11 e meia da noite, os donos não estavam em casa. Ninguém saberia quando iam voltar, mas o mais estranho era que a despeito de a mobília estar coberta de panos e poeira; a vitrola continuava a tocar a sinfonia. Um esganido de um roedor, bem fraco, mas não menos apavorador surgiu na lareira, coberta de fuligem e cinzas. O chapéu panamá depositado no prego junto à porta se desprendeu com a ação do vento e num momento nostálgico voou para cima do piano, onde descansa uma partitura envelhecida pelo tempo; O piano começou a tocar outro batuque.

       De repente a casa virou uma grande sinfonia, a água das telhas tocava ao fundo enquanto o piano acompanhava o doce som do vinil sendo arranhado pela agulha da vitrola, os trovões tão triunfantes serviam de estampidos de percussão e a euforia dos livros adormecidos criou vida. A canção sem melodia tocava sem nenhuma hesitação com a ausência dos donos naquela noite chuvosa de sábado. E a música beijou sob as cortinas o vento forasteiro que adentrava na casa.

      O casaco do dono da casa agora balançava, embora fosse impermeável não impediu que o chão se empapasse de água pela a abertura escancarada da janela. No alto da escada uma vela pendia no quarto que fracamente iluminado escondia a modéstia do passado; Uma cama de ferro com um colchão de penas talhava a aparência espartana de um cômodo sem rádio ou televisão.  Não havia computadores ou internet e o telefone ainda era de fio, os donos eram humildes, mas se davam a um luxo de terem banho quente ao menos;

      A sinfonia dos galanteios da chuva continuava para a alegria de um desavisado, o piano passou a tomar conotações mais caóticas em suas teclas e quando por fim parou de tocar, um rato saiu de dentro de sua armadura, as gotas de chuva continuava a cair sobre o telhado de barro, mas mais fracas. Apenas a vitrola continuava a tocar, solitária, num canto da sala enquanto o vento adentrava pela janela sem ser convidado.

    Uma sinfonia tão leve e tão sublime era a coisa mais bela a se ouvir naquela avançada noite de sábado, quando a caneta tinteiro com a ponta descoberta sobre a escrivaninha apontava para um emaranhado de papéis, projetos esquecidos e já gastos pelo tempo. Sem se dar conta, numa certa altura, a vitrola deixou de tocar sem qualquer cerimônia deixando a noite cada vez mais fria e ignóbil. A casa ficou sozinha de novo e essa ausência se tornou tenebrosa enquanto os relâmpagos continuavam a cair, agora distantes do  casarão na Rua do Encanto.

     As cortinas pararam de se mover e a sinfonia parou de tocar, tudo o que ficou foi o silêncio da ausência. Um retrato triste feito em nanquim sobre o papel amarelado pelo tempo pendia tristemente no chão, ainda ensopado pela água. Esse soberbo gênio de formas atléticas, de grave perfil, que mantém abertas nas amarras dos braços as suas asas, rudemente empunhadas como dois escudos, simboliza nobremente a grande do pequeno grande homem simples, ágil e risonho, que era o dono da casa. Um presente de um amigo distante que o tempo não custou a separá-los.
      

      Na parede em um dos quadros estava o retrato mais filedigno do dono daquele casarão, vestido com um casaco e com uma calça muito curta sempre arregaçada, coberto com chapéu mole cujos bordos estão em contrapartida sempre rebatidos, ele nada tem de monumental. O que o distingue é o gosto pela simplificação, das formas geométricas, e tudo no seu aspecto denota este caráter. Tem paixão pelos instrumentos de precisão. 

      Sobre a sua mesa de trabalho estão instaladas pequenas máquinas de precisão, verdadeiras jóias da mecânica, que não lhe servem para nada e estão lá somente para o prazer de tê-las como bibelôs. Ali se vê, ao lado de um barômetro e de um microscópio do último modelo, um cronômetro de marinha, na sua caixa de mogno. Até mesmo no terraço de sua casa ergue-se um esplêndido telescópio, com o qual ele se dá à fantasia de inspecionar o céu. Tem horror a toda complicação, a toda a cerimônia, a todo fausto. Assim, que rude e deliciosa provação para a sua modéstia, esta inauguração! Esse homem era Santos Dumont.

      Ali estavam o seu piano, o seu barômetro e a sua amada vitrola que não cansava de ouvir nas noite solitárias no alto do altiplano celeste de Petrópolis. A música que ele mais gostava era difícil dizer, mas nesse dia tocava uma obra lindamente arranjada de Alberto Nepomuceno, o  magnífico compositor cearense, Batuque da série a Brasileira, com a assinatura do próprio Nepomuceno no verso. Aquela casa carregada de lembranças não escondia a insatisfação de não ter o retorno de seu ilustre dono, abandonado pelo esquecimento na morada de sua morte amargurada.


       Memórias de anos que já se perderam na memória do esquecimento.


                                                        Batuque, de Alberto Nepomuceno


Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...