sábado, 8 de março de 2014

Um ensaio sobre a antropologia


            A construção da Antropologia como ciência passou pelo seguinte problema do encontro com outros povos e outras culturas gerado a partir das navegações americanas, a tomada do antigo “império” asteca por Cortez passou, segundo Tzvetan Todorov, em “A conquista da América”, pela compreensão do outro, no caso dos astecas, para a sua própria dominação.
            O estranhamento trata-se de uma temática que ocorre no estudo de outras culturas, onde o pesquisador observa práticas do “outro” e recebe um choque que o faz tomar por ideia uma comparação de sua própria cultura com a cultura em questão, tal como Heródoto fazia ao comparar os citas com os gregos, na Antiguidade.
            Michel de Montaigne critica que o estranhamento do europeu em relação aos povos nativos tenha tomado feições funestas, e ele próprio valorizava a figura do nativo, o qual segundo ele tinha uma honra e um código, além de elementos bons em sua constituição, embora tenha se encontrado com apenas dois índios tupinambá e os seus ensaios foram levados a cabo a partir do relato de viajantes.[1]
            Entretanto a defesa dos nativos do antigo Tawantisyu feita por Bartolomé de las Casas mostra a necessidade de se observar com maior atenção à questão do outro, a isso se observa que para se entender o outro nasce uma nova ciência chamada Antropologia, como destaca  Roberto da Matta em seu “Relativizando: uma Introdução à Antropologia Social”[2].
            Observando o filme “Os Mestres Loucos” de Jean Rouch, a questão do choque cultural bem como do estranhamento torna-se evidente, na temática sobre os rituais de uma tribo no interior da África subsaariana. Influenciado pelo próprio cinema de Vertog, Rouch mostra uma comunidade que a despeito de viver na vida urbana, mantém um ritual incomum de possessão no meio da selva.
            O estranhamento é clarividente quando se observa o modo como alguns membros dessa tribo agem no ritual, “interpretando”, se é que podemos usar esse termo, figuras  da própria administração colonial que estariam mortas à época, o “General”, o “Governador”, a “Madame”. E esse ritual demonstra também o quanto nossa própria cultura pode ser estranha, ou até ridícula frente a outros olhos, como por exemplo, na cena onde um dos “Soldados”, marcha a passo de ganso no meio das gramíneas representando uma Parada Militar.
            Isso vai de encontro aos comentários que Tuiávii, chefe de uma tribo do Pacífico Sul, trata a figura do próprio Papalagui,  os homens que vivem em baús de pedra[3] envolvem-se num fardo sobre “ uma delgada pele branca, feita de fibras de certa planta, a chamada pele superior”[4] que vangloria mais “o metal redondo e o papel pesado” do que o Grande Espírito[5].
            É na análise do filme que se percebe que apesar de alguns acharem o ritual ridículo, o próprio ritual colonial de formalidades e paradas militares para demonstrar a força também poderia ser visto dessa forma.
            É deveras conveniente frisar o modo como o documentário foi executado, a pedido de um sacerdote dessa seita existente no Niger, que tenta mostrar o dilema dos jovens em continuar a preservar suas tradições frente à própria inserção do dito “desenvolvimento” ocidental em sua própria realidade, algo que ocorre com várias culturas no mundo, não necessariamente isoladas, como o caso da própria cultura judaica frente ao dilema da “globalização”.
            O choque cultural é gritante, principalmente na conjectura que alguns observadores ficaram terminantemente chocados, beirando aos trejeitos de repulsa na cena em que o cachorro foi sacrificado e serviu de alimento para os membros da tribo em questão.
            Chocado também ficou Montezuma ao descobrir que os cristãos comiam o seu próprio Deus e bebiam o seu sangue (hóstia e vinho sacro) e o mandaram limpar o templo de sacrifícios por acharem repulsivo o sacrifício humano.[6]
            Os mongóis também acharam estranho o modo  como os ocidentais expunham relíquias de pessoas mortas nas igrejas, bem como restos mortais, que para eles era quase um insulto a exposição de membros humanos de tal forma, não à toa que eles acharam o ritual pervertido e repugnante e incendiaram as igrejas de Pest (cidadezinha húngara a formar Budapeste posteriormente) para se purificarem da conspurcação.[7]
            O pensamento antropológico não é alheio ao próprio estranhamento, segundo Roberto da Matta, e também não pode passar a análises simplistas sobre o tema, como aponta François Laplatine em “A pré-história da Antropologia: a descoberta das diferenças pelos viajantes dos século XVI e a dupla resposta ideológica dada daquela época até os nossos dias”, não se pode cair em falso em conceituações fechadas como Bom ou Mau, deve-se ir para além disso, Para Além do Bem e do Mal, como Friedrich Nietzsche escreve no seu livro homônimo e deve-se problematizar a questão de tal forma que seja possível fazer uma análise acadêmica do tema.
            O único perigo que deve ser enfrentado é o etnocentrismo, erro crasso mais comum em alguns trabalhos sobre os estudos de outras sociedades, tais como Heródoto cometeu ao pontuar que os egípcios eram valorosos, mas não mais que os gregos que conheciam a democracia.
            O problema é que o etnocentrismo não é só um problema das sociedades ditas “ocidentais”, afinal de contas Tuiávii também dizia que sua tribo era mais valorosa por não viver segundo o mandato “do metal redondo e o papel pesado”.
            Olhando com maior atenção, o ritual de “possessão” dessa tribo do Níger, observa-se que há uma semelhança com o ritual das bacantes na dita Antiguidade Helênica, mas isso não quer dizer que eles estariam num grau de evolução menor do que o nosso, tais ideias de evolucionismo são perigosas quando aplicadas à ciências sociais.
            Dessa forma observa-se que apesar de Roberto da Matta falar que o dilema do cientista social “as condições de percepção de classificação e interpretação são complexos, mas os resultados em geral não têm consequência na mesma proporção da “ciência natural”[8], não se pode menosprezar o perigo que alguns lugares vertiginosos podem ser conseguidos a partir de uma observação descuidada das ciências sociais.
            Pondo fim à discussão a questão do estranhamento é necessária à análise antropológica, mas não pode evoluir a outras vias próximas ao etnocentrismo e ao evolucionismo, de tal forma que o próprio conhecimento antropológico pode ser até mais complicado do que o conhecimento produzido pelas ciências naturais.



[1] MONTAIGNE, Michel de. Dos Canibais. Capítulo XXXI do Livro 1 dos Ensaios. Trad. J. Brito Broca e Wilson Lousada. In: http://www.consciencia.org/dos_canibais_montaigne.shtml
[2] DA MATTA, Roberto. Relativizando: uma Introdução à Antropologia Social. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
[3] SCHEURMANN, Erich. O Papalagui: discursos do chefe Tuiavii, chefe da tribo de Tiavéa dos mares do sul. Trad. Luiza Neto Jorge. Lisboa: Edições Antígona, 1998. Pág. 23
[4] Idem, Pág. 16.
[5] Ibidem, pág. 31.
[6] Não que eu esteja sendo favorável à antropofagia.
[7] WEATHERFORD, Jack. Gengis Khan e a formação do Mundo Moderno.  Trad. Jorge Ritter— Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2011. Pág. 253
[8] MATTA, Roberto da. Op. cit. pág. 20.

O que será do mundo daqui em diante?

       Não sei.

       Estranha resposta, não é mesmo? Incômoda, eu diria. Mas a incerteza sempre foi uma lacuna incomoda na história da humanidade. Afinal de contas, o progresso científico se deu por uma inquietação, um incômodo. Incômodo?

      Alguns olham com lentes do passado ao futuro, outros olham para o futuro sem os olhos no presente. A verdade é que ninguém sabe o que será o futuro. Prova disso? Quem esperava à quatro anos atrás a "Primavera Árabe" degringolar em uma nova onda de ditaduras  e uma sangrenta guerra civil na Síria?

       Quem esperava que o Brasil seria esquecido de país-promessa a país-laboratório?

       Mais do que isso, quem esperava a situação na Ucrânia chegar a tamanho ponto que a Rússia e a OTAN pensarem em intervir militarmente (e a Rússia levar a vias de fato).

       As pessoas acham que estamos entrando numa nova guerra fria, mas erram porque não estamos mais num mundo bipolarizado, tampouco num mundo multipolarizado, afinal essa besteira que germinou nos anos 2000 com  o neoliberalismo se demonstrou falha na crise de 2008.

      Estamos no limbo.

      Por isso o que será do mundo daqui em diante? Não sei.

      Diga sem medo, você não sabe se a desgraça de hoje poderá ser a moeda do amanhã ou mesmo que a fortuna de hoje será a pobreza do outro dia. A gente não sabe de nada, na verdade, a gente tem respostas no passado recente, mas sempre seremos surpreendidos por variáveis enormes na equação complicada da vida. Não há cálculos matemáticos que digam quando a China parará de crescer, ou quando os Estados Unidos reagirão mais violentamente às crises internacionais, ou quando a Argentina deixará o seu fiasco inflacionário. Essas são equações muito mais importantes do que saber se a taxa de juros elevou ou se a bolsa despencou. Sabem por quê? Porque estão no domínio do imprevisível.

      Imprevisibilidade. Os homens são presos à realidade imediata, aparente e cotidiana. No preço do pão, do litro da gasolina, da escola ou do imposto de renda. São presos ao tempo, ao atraso do serviço, aos prazos e aos aniversários. Sim, os anos que se passam.

        O mundo não está ao seu serviço como ele quer, é uma luta constante todos os dias para ter um pouco mais de conforto na casualidade da vida, pois ser livre é ter liberdade não só de escolha mas de vivência na vida, nas solicitações que apresentamos às coisas quando queremos interagir com esse novo mundo. Admirável mundo novo. Que mundo é esse? Um mundo despregado de grande ideologias, religiões monoteístas, confortos psicológicos ou aneurismas metodológicos, é um mundo impessoal, escrito por anos cheios de muitas cicatrizes, pelas mãos do homem que hoje não lavra mais o pó da terra com as mãos, mas tecla o seu tablet com a ponta dos dedos.

      Os homens deixaram de usar chapéus, depois as gravatas, os ternos; mas não se esquecem que ainda vivem sobre os sentimentos e os mais intensos dentre eles são os relacionados ao medo, e os mais cegantes são realizados em torno da esperança. O último dos males que não saiu da arca de Pandora, a esperança.

      "Oh! Maravilha! Como muitas criaturas encantadoras que estão aqui!  Quão bela a humanidade é! Oh, admirável mundo novo. Que tem tais pessoas que não são" Tempestade, v.1 William Shakespeare.
       Não vivemos mais sob o jugo meramente do fordismo, de forma alguma, vivemos no domínio conjugado da produção em massa dos produtos em alta capacidade com a propaganda indiscriminadamente aguçada, com a transformação da realidade virtual em um  domínio cada vez mais  real e presente, com a subvalorização do presente em torno de um futuro incerto logo à frente. Estamos regidos não pela necessidade de produzir, muito menos que isso, estamos na ilusória imagem da necessidade de consumir e consumir cada vez mais, até só restar o nosso vício indiscriminado por mais tecnologia e maiores avanços.

       Os mercadores venezianos e florentinos tomavam medidas concentradas para impedir o florescimento do excesso de moeda em suas cidades, o que geraria inflação, lançando o seu capital excedente em capital morto: Arte. Assim germinou um dos períodos mais prodigiosos da mentalidade humana, o Renascimento.Renascimento que tivemos novamente a partir de 1750 e não paramos mais, mas ao invés de se investir só em arte, os grandes industriais perceberam um modo de transformar esse capital morto em um capital crescente e acumulante, tecnologia e tecnologia que gerasse demanda e crescesse exponencialmente. Vivemos num mundo assim. Um mundo cheio e ao mesmo tempo vazio, pois a plenitude de uma boa safra não só encontra em seus frutos o melhor dos adjetivos senão à quantidade, mais nunca a qualidade.

        Está uma era vazia em idéias, tanto minhas quanto suas, pois não temos certeza do que há por vir. Uma guerra nuclear? Uma paz negociada? Fim da crise econômica? Uma nova crise sanitária? O que é a humanidade senão uma profunda solicitação de presença num local onde não podemos provar nada além do licor amargo  do medo e desespero. O homem é espacial e temporal, até que percebe que não está no espaço e o temporiza, gera apenas ansiedade com perguntas que não podem ser respondidas.

      Exige-se mesmo respostas, memórias, verdades, mas não às encontra. Exige ser compreendido, mas ele próprio não se compreende às vezes, pois sua linguagem de como interargir com o mundo o torna histórico. E tão histórico se apresenta que ele se perde no próprio tempo e na traiçoeira memória, até por fim esquece o que diz, e seus nervos somam-se às rugas e ao sangue fino de suas veias, envelhecendo assim sem ter certeza. Ele não tem certeza de nada.

      O que será o mundo daqui em diante? Admirável mundo novo.


     

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma mágoa sem precedentes

          É uma mágoa sem precedentes, uma lacuna sem respostas, uma insatisfação insatisfatória, um profundo apodrecimento das emoções dísticas de uma mente em processo de esclerosamento, afinal de contas há coisa mais cancerosa do que perceber que tudo à sua volta declina ao profundo estágio de decomposição.

            É meio turvo esse sentimento, meio tomado pelas sombras e pelo hostil esmalte negro sobre a mobília silenciosa de um escritório hermeneuticamente fechado, a não ser por um filete de luz que surge sobre a tela. O burburinho do teclado sendo martelado com a ponta dos dedos esconde um silencioso método de não se falar nada. De ouvir os maiores absurdos no dia a dia, de observar as maiores corrupções morais de favorecimentos sonoros e reclamações que não são ouvidas.

            É triste pensar que há cinco anos atrás todos nós éramos otimistas, otimistas com o quê? Com o futuro. Mas o futuro é negro, o futuro é um semblante mórbido de um passado que já passou.  Acha que eu não o temo? Eu o temo em silêncio, calado e encolhido junto ao meu cobertor durante as noites frias e úmidas de março. Já é março, não é mesmo?

            Queria poder saber qual o futuro que nos espera, queria poder ler bolas de cristal. Mas o único cristal que realmente pode ser lido é o brilho opaco de um diamante lapidado. Coração das trevas, o diamante esconde um espírito deformado.

            Não há personagens tampouco heróis. Os vilões são muitos num pedestal de sofrimento e calor inebriante que se forma nos dias quentes de sol, mesmo sendo convicto no meu dicionário de ateísmo, nada me faz esquecer que o inferno forma-se nos dias quentes sem chuva, sobretudo numa paisagem seca, sem muitas nuvens ou árvores. Tem pessoas que ainda desejam isso, mas eu não.

            Acredito que apesar disso tudo não é uma consequência da geografia, mas da má companhia das trevas e do calor que acompanham essa planície. Ou será um planalto delgado. Quisera eu saber porque razão nesse antro carente de um pouco de chuva ainda há disposição para infligir profundos maus aos outros. Se aqui fosse um país subsaariano, seria uma luta difícil por sobrevivência, mas isso não é nem de pouco fácil do que esperar o sucesso calamitoso de uma expansão.

            Se haveria motivos para estar triste, eles se apresentam agora. Num local sem muitas diversões, as pessoas tomam partido do gosto acre do álcool barato e da sensação ainda mais barata de cigarrilhas com entorpecentes sob os arcos dos monumentos de concreto armado. Não há muita esperança num local sem muita expectativa, não há empregos para todos, e os que há estão reservados. O pessoal realmente qualificado deprimentemente está fora de ação.

            Os blocos escondem a devassidão de muitos anos perdidos, da poeira vermelha que às vezes rasteja sob as colinas de mata rasteira e dos filetes de água que por vezes secam no meio de agosto. A noite é ainda mais deprimente que o dia, pois numa localidade onde nada há para se fazer, nas ruas de comércio baixo a decadência escondida nas cinta-ligas e meias de rendas, traz a recordação que o amor é apenas mais um produto comercializável. Se é que um dia existiu.

            Vagando como um espírito em meio ao lixo, observando os cães de rua ladrando em bando, os mendigos nas marquises e as prostitutas nos automóveis você não espera muita coisa em troca de uma cidade como essas. Mas aí você se surpreende com os cafés e restaurantes vazios, com os garçons à porta catando clientes e um ou outro senhorio caminhando pelas calçadas rachadas.

            A copa das árvores que não protege do sol, faz sombra na lua. O céu não é tão estrelado por causa das luzes de neon dos edifícios, arranha-céus que ferem a paisagem e corrompem o céu. Novas torres de babel de trinta ou quarenta andares.



            Os viadutos e as tesourinhas estão vazios, vez em quando aparece um carro em alta velocidade, seja por causa da bebida ou por alguma corrida perigosa nas seis pistas da avenida principal. Os trens não passam mais depois das onze e aquela cidade que um dia podia se orgulhar de ser bucólica não passa de uma cidade de interior em profunda decadência.
            Perto do lago, os hotéis cinco estrelas realizam grandes amostras de vinho e   demais conferências que escondem o vício de uma elite abastada que se alimenta da exploração da especulação imobiliária, drogas e corrupção. Ninguém ousa falar e os jornais que ainda circulam não passam de um papel higiênico barato.


            Nas poucas lojas ainda abertas do centro de compras, as pessoas se amontoam em torno de monstruosidades tecnológicas que estarão obsoletas daqui seis meses e uma classe média arrogante e mal-educada grita e corrompe os corredores de marfim com sua presença cada vez ignóbil de uma classe demente e preguiçosa. Não conseguem sequer pagar as contas, mas ainda pagam tudo no cartão.


            Não se pode dizer que há um mérito nessa sociedade de castas suburbanas, onde quanto mais longe da periferia, mais proeminente se é. É um estamento surdo e bastante claro, não legitimado por crença, credo, cor ou qualquer coisa, mas poder aquisitivo e somente poder aquisitivo. Pensam alguns que o preconceito nasceu com o racismo, mas numa cidade onde todos são mestiços que racismo mais ignóbil há de nascer. Aquele que não possui um único tostão furado é insultado, essa é a verdade da natureza das coisas.

            Favorecimento, sim favorecimento. Quem pode viver bem numa cidade de favorecimento? Os favorecidos é claro. Aqueles que moram em verdadeiros castelos em condomínios fechados, apartados dos crimes das ruas e vivendo nas ilhas de felicidade plástica. É raro ser de alguma forma convencido de estar seguro hoje em dia.

            Culpa-se muitos os jovens, atribuindo-lhes a responsabilidade por crimes hediondos e violentos. Os ímpetos da mocidade são agravados pela irresponsabilidade de uma sociedade estamentada no orgulho e preconceito, de modo que os juízes e promotores, encolhidos no alto de seus tribunais não percebem a real situação que se figura nas ruas dos diferentes bairros da cidade.

            De fato nenhum dos estamentos do serviço público, corrupto e ineficiente, consegue entender a sociedade em que convive. A situação de profunda inércia de um governo arregimentado numa autocracia do papel leva a uma situação de profundo abandono associada a um contrato social de que a sociedade só pode ser regida por relações pessoais de corrupção e aparelhamento.

         Alguns demagogos reclamam contra a natureza dessa sociedade corrupta, clientelista e inevitavelmente, mas não tão somente classe-mediana, feita e felicitada por uma classe média nascente, decorrente e incoerente. Babaca pela excelência de ser babaca. Afinal é um ninho, um quintal, uma porta e uma porteira de uma grande fazenda de Carnaval.


            Reclamar não é nada, reclamar é ser engolido pelos fatos. É ser silenciado por vinte e quatro anos de ditadura explicita e dura. Violenta e muito mais do que assassina, torturante e amputadora de qualquer felicidade em ser cidadão. Cidadão para quê, apenas um título e um direito de voto é que o define. Apenas um número numa estatística, também não se espera muito, afinal, inerte como é, corrupto como sempre foi é mais do que esperado que seja reduzido apenas um número. Ele não tem ação, ele não esboça reação, é apenas um cidadão de papel.




            Cidadão de papel nascido num antro sem ética, num vestígio de anarquia e violência. Numa sociedade sem estado cujo Estado surgiu sem ela. Que a legisla sem consultar a população e que procrastina sem trabalhar.  Nesse caminho de veredas de terceiro-mundismo, no sentido pejorativo do termo, sem muita imagem de nação orgulhosa de si se desenvolve um estado sem nação.


            Democracia frágil com muitos atores, dilacerada em várias partes em que a igualdade inexiste seja pelos programas sociais incidentes apenas à uma parcela da população, seja pelas facilidades que outro segmento possui, é mais preferível tomar um regime como esse de oligarquia do que uma democracia propriamente dita.



            Nos pilotis que se encerram á tarde, nos arcos concretos de arquitetura moderna, nos monumentos de cimento e aço arregimentado, nas montanhas de pedra que desnudam o cerrado selvagem. Nada, nada mesmo, absolutamente nada é esperado num país onde há uma coerência de uma situação econômica que chegará à estagflação com um crescente acirramento das tensões entre as três castas econômicas existentes: 

         A classe média cada vez mais coberta de conservadorismo, tencionando maiores direitos que foram ceifados, com um poder de compra reduzido com uma inflação que sai do controle. 

        A classe alta que se beneficia com os lucros, mas é absolutamente convencida que as medidas do governo são prejudiciais à economia e vive numa ilha de conforto sem precedentes. 

          A classe baixa que vive num espírito irresponsável de gratidão aos programas sociais e que vem sendo favorecida por um governo dispendisiomente caro e corrupto, que não se apercebe na situação fragilizada que se consume. 

          Assim, as três classes irão digladiar-se entre si por uma campanha promovida por uma sociedade deformada com um governo governando de cima.

            Mais anos virão, e mais difíceis ficarão. Nada se encerra daqui para frente do que um novo ciclo de confusões e assombros. Estamos num limbo intelectual acompanhado por uma mediocridade organizacional, estamos no pior dos mundos. Não existem heróis ou salvadores, apenas o desejo de novos tempos futuros.




                                                              Admirável mundo novo...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Animações soviéticas: uma evolução e revolução artística

              Não há nada mais divertido do que numa madrugada esquecida você rever as animações que os departamentos da Soyuzmultfilm ( Союзмультфильм) produziam em plena Guerra Fria. As animações na União Soviética tem um papel importante na propaganda partidária desde meados da década de 20 quando o famoso cineasta Dziga Vertov começou a produzir roteiros de animações como Kinopravda, retratando como caricatura a burguesia, a republica dos trabalhadores, etc.

"Brinquedos Soviéticos, por Dziga Vertov, 1924"

          No auge do estalinismo a propaganda através dos desenhos toma outras proporções à medida que impulsiona a propaganda do regime a partir das crianças, os Pioneiros, uma espécie de agremiação próxima ao escotismo criada na União Soviética para repassar os valores de classe e os ideais das crianças desde o início da alfabetização, o ensino da doutrina marxista-leninista vê-se conjugado com o abcedário e as contas de matemática.

                            "Kinopravda de Lenin, também de Vertov, 1924" retratando a vida e morte de Lenin


         A propaganda soviética pelos cartoons também tinha uma tentativa de levar reflexões e estimular a leitura dos indivíduos mais idosos da sociedade, os pequenos cinematógrafos eram levados às atalaias de aldeia no interior da Ucrânia ou da Sibéria Ocidental através das carrocerias dos recém construídos caminhões da GAZ, através do consórcio da Ford Motor Company com o regime soviético, onde reproduziam nas escolas ou nos clubes de trabalhadores os filmes mais populares desse período, como Volga, Volga,  Alexander Nevsky e os filetes de desenhos animados de produção nacional. Os soviéticos se tornaram produtores de material de animação de excelente qualidade, embora inicialmente bastante caricatural.
"Imperialista Americano: Branco e Negro,por  I. Ivanov-Vano and L. Amalrik. Mezrabpomfilm, 1933'
                            
        O trabalho que a Soyuzmiltfilm nos anos negros da Yejovchina (1936-1938) era de informação, propaganda contra os "inimigos do Povo" e de tentar levar ao esquecimento os acontecimentos nefastos das deportações e julgamentos-espetaculos. Os julgamentos-espetáculo tinham uma conotação metologicamente falando de levar a catarse a população civil e de externar os problemas cotidianos, como a fome, as péssimas condições de vida, o isolamento da sociedade soviética e o medo de uma invasão ou simplesmente do governo, os desenhos eram maneiras de mostrar que apesar de houver muita coisa desagradável no "comunismo em construção", ainda havia motivos para rir.

        Na iminência da invasão da União Soviética deflagrada no dia 22 de junho de 1941, com a Operação Barbarossa a propaganda produzida pela Soyuzmultfilm tinha a função de informar a população do interior a como lidar com os invasores, a como organizar uma resistência e a identificar eventuais traidores, mostrando os alemães como corvos nefastos que destruiriam os grãos das fazendas coletivas, sabotando as fábricas e descarrilhando os trilhos, assassinando as mulheres e crianças e escravizando os camponeses em sua orgia de sangue. Mas também os desenhos explicavam os acordos que a  União Soviética assinara com os britânicos, tentava mostrar que havia uma mobilização geral do Exército Vermelho que sempre era retratado como o mais forte, embora tenha sido atraiçoado pelos nazistas.


                                   "Noticiário animado 1-4 - O que Hitler quer.
                                                                            - Pegando os piratas fascistas
                                                                            -Atacar o inimigo nas linhas do Front e em casa
                                                                           - Um poderoso aperto de mão
                                        Dirigido por V. and Z. Brumberg, A. Ivanov, O. Khodataeva, e I. Ivanov-Vano
                                                                                 estúdio Soyuzmultfilm, 1941 


        A propaganda soviética desse período em questão é basicamente uma  propaganda de guerra, não muito diferente da propaganda de seus pares ocidentais, entretanto o refinamento com que os estúdios de animação da União Soviética tomaram tantas proporções que em vias de propaganda explícita os estúdios soviéticos chegavam a superar em qualidade de desenho e roteiro, os estúdios de Walt Disney. Entretanto, em apelo com o público juvenil, que é a faixa etária proeminente do público-alvo, o apelo da propaganda soviética era quase um grão de arroz perto do Mickey Mouse e o Pato Donald.

Os invasores fascistas sendo retratados como javalis selvagens
       A iminência de um novo jogo das sombras e de uma guerra silenciosa a partir dos reclames de Potsdam trouxe uma nova situação na sociedade soviética, os antigos aliados da guerra passaram a ser inimigos e novos parceiros surgiram na construção de uma rede de estados conjugados à economia soviética. A propaganda não poderia fugir muito disso, a propaganda por animação manteve o mesmo padrão até a morte de Stálin, com um refinamento ideológico questionável e um apelo junto ao público infantil mais questionável ainda.


                                             "Mr. Wolf, 1949, por V. Gromov. Soyuzmultfilm."

        Contudo, isso se altera na época de Kruschiov quando há uma mudança nos meios intelectuais soviéticos, as perseguições e a ditadura da opressão sobre a intelligenstsia desaparecem e o regime percebe que a produção cinematográfica é algo que está bem à frente das animações, que parecem nesse momento fracas distorções diante ao que os estúdios norte-americanos Walt Disney e Warner Bros produziam.

         O apelo psicológico passou a vigorar de certo modo nas animações devido ao impacto profundo que a Grande Guerra Parte Patriótica estabeleceu na sociedade soviética do pós-guerra, além de relembrar constantemente o choque da guerra, os estúdios de animação passaram a se dedicar a dois públicos alvo: As crianças, em primeiro lugar. Depois aos adolescentes e jovens adultos em segundo.


          As animações para crianças passaram a ter um elemento subjetivo em suas representações, com cores muito vivas e desenhos muito ilustrados, contando a partir de parábolas, como um cachorro que vira congressista ou uma reunião de pássaros numa floresta, os desenhos passavam os valores da sociedade soviética e tomavam a ocasião para alfinetar sempre o "inimigo número um" da sociedade, o capitalismo e os Estados Unidos.

                                           "No coração da floresta, Albert Ivanov, 1954"

         As animações para o segundo público mantiveram o estilo ideológico embutido de forma clara que marcou os desenhos animados da época de Stalin, mas o refinamento da composição narrativa e da forma do desenho trouxe um novo patamar aos desenhos animados soviéticos que passaram a se mesclarem com conceitos como humor, ironia, ou mesmo pessimismo. As animações não necessariamente precisavam ser faladas para expressar suas ideias, na verdade, uma marca desse período é que a fala nem sequer era um elemento importante nos desenhos.
            "Imperialista Americano: O  Milionário. Escrito pelo famoso cineasta russo Serguei Mikhalkov,  Soyuzmultfilm,                                                    1963 mostrando a saga de um cachorrinho que se torna um milionário e congressista"

        Talvez um bom motivo para isso seja o fato que as animações também eram exportadas para países aliados do regime soviético, como os países do Leste Europeu, da África, Indochina e do Oriente Próximo e para a compreensão de seu conteúdo o estudo de russo não deveria ser obrigatoriamente necessário.

        Com a queda de Nikita Sergueievich e a ascensão de Leonid Brejnev a URSS manteve elementos que destacaram o período de Kruschiov, como a política de paz e guerra surda, bem como a tentativa de retirar o isolamento patológico do sistema soviético ao mundo, entretanto com o ressurgimento de um neoestalinimo nesse período houve também uma certa pauperização da produção de animações, embora ainda carregada do refinamento da produção de charges animadas da época de Kruschiov.

                                           "Uma lição não aprendida", Vladimir Karavaev, Soyuzmultfilm, 1971

       É nisso que se apresentam desenhos que falam sobre a fraternidade, valores ligados à ideologia do Partido, programa espacial e de temática psicoanalítica, a produção de desenhos soviética inspirou num futuro médio (agora), a produção de animações bastante refinada em países antes desconhecidos, como Azerbaidjão, Cazaquistão, Bielorrússia e outros, além de ter sido exportada a aliados, vide o caso da Coréia do Norte, que é um país profundamente isolado, marcado pela monarquia vermelha do Junche e que ainda assim é um grande exportador de animações no seu próprio território.





               Umas das melhores animações soviéticas já produzidas (e a minha favorita) é "O Violino do Pioneiro" de 1971 que tem um toque emocional e psicológico muito aguçado, com uma trilha sonora instigante e um enredo narrativo essencialmente triste e melancólico, tanto na apresentação do desenho, cuja utilização de cores sóbrias e sombras traz uma sensação de escuridão e de desalento, como o fato do desenho não ser narrado, dando uma sensação de falta de conforto.

                                          "O Violino do Pioneiro, por B. Stepantsev, Soyuzmultfilm, 1971"

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Calmaria insuspeita

       Nos acontecimentos difíceis da Guerra Civil, o Exército Vermelho teve grande dificuldade em derrotar as forças de Denikin no flanco esquerdo do Volga, nas colinas do vilarejo de Tsaritsyn. A cidade foi reconstruída e se tornou uma cidade-modelo da modernidade de um novo país que surgia das cinzas da pólvora e do liquor escarlate do sangue. Stalingrado.

      Para além da guerra e das dificuldades dos primeiros anos, Stalingrado era uma cidade em pleno crescimento. Vinha se tornando a terceira cidade mais importante da Rússia e um orgulho para o Partido Comunista; A calma bucólica de cidade de interior, projetada para ser a grande via de ligação do Cáucaso com  a cadeia de canais e rios que chegavam até Moscou tornaram a cidade um seio imponente da indústria soviética. Com uma siderurgia própria, uma fábrica de tratores e dezenas de escolas e teatros. Era uma cidade arborizada por excelência que assistiu o mais profundo retrato de barbarismo quando a guerra pegou a todos de surpresa.

      Em junho de 1941 a Alemanha invadiu a União Soviética. Em setembro/outubro, o berço da Revolução, Leningrado foi posta sob cerco. No final de outubro e início de novembro, era Moscou que estava em risco. A recuperação foi difícil e ainda assim a ofensiva de verão no Sul comandada pelo 6° Exército na Operação Azul pôs fim ao desejo de uma guerra rápida e que não fosse tão letal ao país. Essas são figuras de como a destruição impacta todo o seio de uma cidade e das pessoas que viviam em seu território, trabalhavam em suas fábricas, brincavam na rua e conversavam nas praças;

      

     O trabalho pulsante da Fábrica de Tratores de Volgogrado, em sua jornada de oito horas, de manhã até a noite em pleno vapor com os operários montando a carroceria dos veículos na esteira da linha de produção. O fordismo estava em prática desde 1929 na União Soviética quando o governo iniciou os acordos com a Ford Motor Company para a construção de uma fábrica de automóveis e tratores na União Soviética.
     
      Os tratores seguiam num delicado e não menos pulsante processo de constituição dos mecanismos do motor e da carroceria que era feita a partir da fundição de ferro em aço. Os trabalhadores inspecionavam e montavam os componentes, apertando porcas e parafusos enquanto a esteira rolante movia o equipamento numa linha linear até a fazenda coletiva mais próxima. O ambiente escuro e abafado, com o odor característico de suor e óleo era um dos centros nervosos do bairro industrial da cidade, no flanco esquerdo do rio Volga.

       Após a jornada estafante das oito até as seis, os operários saíam da indústria com a firme convicção de descansar um pouco depois de um longo dia de trabalho, alguns seguiam imediatamente para o Clube dos Trabalhadores de Stalingrado.

      


         O Clube não era muito longe do bairro operário e ficava a frente de uma das muitas praças de Stalingrado. O retrato imponente de Stalin numa das muitas reuniões na Casa dos Sindicatos abria a entrada do imponente edifício neoclássico de dois andares e os retratos dos altos funcionários do partido ilustravam as janelas do edifício. Ali, os operários tinham acesso aos jornais do país, o Pravda e o Izvestia. Podiam jogar um pouco de futebol, praticar tiro ao alvo ou simplesmente descansar.

         A organização desses clubes cabia ao Soviete local e sempre que era conveniente havia aulas de teoria marxista e "consciência de classe".


         A guerra parecia ser uma coisa do passado, que nunca mais tocaria aquela cidade no centro da Velha Rússia, a não ser pela inconveniente recordação que ali abrira-se uma grande disputa na Guerra Civil e isso o museu da Batalha de Tsaritsyn fazia questão de relembrar e lembrar o "feito heróico do camarada Stalin" na guerra Civil.


          O museu era como muitos outros construídos no auge do stalinismo, a magnificência da arquitetura era algo aplaudido pelo regime na sua construção do culto ao Grande Timoneiro, embora sua aparência fosse mais de uma biblioteca ou de uma prefeitura, o edifício era dedicado unicamente a "grande dirigência do Vojd que derrotou os inimigos magistralmente nas colinas de Tsaritsyn e pôs Denikin para correr".


         No caminho da fábrica ao Museu da Defesa de |Tsaritsyn poderia-se assistir a um filme ou espetáculo nos quatro teatros da cidade, onde as pessoas se reuniam para assistir as comédias pardas de como são repulsivos os "burgueses e toda a sorte de inimigos do Povo" ou mesmo assistir uma das inúmeras peças de Gorky.

         

        Casas de espetáculo era o que não faltavam em Stalingrado, infelizmente boa parte foi destruída com a guerra.


         Entretanto o centro movimentado da cidade numa segunda-feira trazia inúmeros pedestres às ruas procurando seus afazeres. Operários seguiam ao trabalho, as mulheres iam às compras, as crianças à escola. E assim seguia a vida em Stalingrado.

        
        As esquinas da cidade, as lojas de departamento como essa no centro de um dos suntuosos boulevares da cidade abriam as portas para um tipo de sociedade diferente. Uma sociedade baseada no socialismo;

      Na praça central as crianças brincavam em torno da fonte na rua da Estação de trem, onde uma bela praça com abetos e acácias se desenvolvia de forma circular no centro da cidade.



A praça Vermelha de Stalingrado continuava com o mesmo ritmo de sempre, preguiçoso e lento.



           De todos os olhares, as crianças corriam atrás do sorveteiro no parque. Um velho num acordeón tocava uma linda canção enquanto famílias pousavam para um retrato. Havia uma festa naquele dia, o chafariz indicava. Um casamento talvez.


          Tudo isso a guerra arruinou.
         

Tenente Filipov

        A valsa corria lentamente como o ponteiro do relógio atrasado no salão da  chefatura de Irkutsk, a estrada de ferro mandava um recado bem em meio à neve que caía no inverno preguiçoso da Sibéria. A Maria-Fumaça brincava de assustar os animais da floresta e a valsa... corria delicadamente na balada. Um, dois, três, um, dois, três.

        "Vês hoje sua última dança
         Caro soldado
         Hoje é sua última balada
         Amanhã cairá numa cilada

         Beije sua querida e amada
         Leve seu rosto na memória
         Nas montanhas da Manchúria
         Seu rosto há de congelar

         Fique calmo, meu filho
         Dance um pouco essa balada"


         O salão estava meio embriagado com as notas estridentes do piano de madeira desafinado... Nada na Rússia parecia se mover mais rápido que aquela balada, um passo para frente, um para o lado, um último para trás. A guarnição partiria amanhã de manhã para os confins da Ásia, a barba de Filipov sempre bem aparada e com um pouco de cera sorria para Marina naquela última balada. Ele iria pedi-la em casamento aquele dia.

         Nada impediria a Sibéria de cantar com seus ventos uivante de cortar o coração a fazer melodia daquela novela. Nas colinas da vida, aqui estão os maiores corações melosos que amam só por um momento e choram por dois. A vida é tão simples quando se ama;

          Filipov dançava galantemente com Marina, em seu uniforme de gala com as dragonas douradas, as esporas das botas arranhando o chão encerado e o sabre atrapalhando a perna de se mover. O quepe tinha sido posto meio de lado, seus olhos azuis se aproximavam docilmente dos olhos de Marina. Ele era um tenente do Exército do Czar. Um cossaco das estepes na Sibéria interminável. Seu sabre retorcido atrapalha a dançar, seu coldre está meio gasto, mas ele sorri para Marina. É um menino em uniforme de marechal;

           Sorria naquele ultimo dia, corre, corre, luta, ponha-se de pé. Não caia, você é russo. Corra, traga glória a sua terra natal. Lembre-se de Marina, lembre-se tenente. Não desista, a Rússia é grande, seu amor maior ainda. Maior que todos os romancistas, tire sua baioneta. Arme a sua carabina. Cuidado.

           Lembre-se de como é bom ser oficial;

          O chá que teve com senhor Danilov.

           "— Como vão as coisas, Gravilo Oleksevich?"

           "— Não tão adoráveis quando gostaria que fossem — puxou um pouco de chá preto do samovar — Nunca estarei feliz aqui no meio de selva congelada"
           "— Paciência, Gravilo. A Sibéria é grande, mas a Rússia é maior. Eu sei que você é cossaco, mas logo logo estará nas estepes da Ásia. Lutando contra os japoneses na Manchúria."
          "— Sei..."

          "— Não me parece contente — o velho bebericou um pouco da bebida escaldante. Suas barbas brancas por um momento escureceram com as gotinhas que saiam do canto de sua boca. Dmitri Danilov era um importante mercador de peles de Irkutsk, simpático, mas completamente analfabeto, não entendia nada de poesia ou de amor. Era iletrado como uma porca no cio.


         Filipov via com bons olhos o velho septuagenário, algo nele trazia um respeito de "desdushka". Ouvia o velho com condescendência nos bailes realizados pelo chefe da guarnição, mas era bobo em pensar que Marina era tão bonita para ser filha de seu pai. Mas aqueles olhos infantis tinham uma dívida aos olhos fracos de Dmitri Trofimsevich. Filipov iria pedir a mão de Marina naquela noite.

      O piano corria com as teclas, a orquestra militar acompanhava o acordeón com pouca paciência. Os soldados brincavam com as notas e tocavam uma pequena sinfonia doce no fundo.


       — Quero me casar com sua filha.

       O velho deu um sorriso doce com seus dentes escurecidos de tanto chá e tártaro. Ele estava alegre por Gravilo Oleksevich.

        — A flecha do Cupido acertou nosso tenente de jeito, hein. Soldado ou não, você é um homem. Um bom homem. Marina já me falava de você, como você era dedicado e decidido. Bom, você realmente é decidido. Por que vai para a Manchúria?

        — Eu me alistei.

        — Você é louco. Aquilo é fim de mundo — deu de ombros e bebeu seu chá. Filipov estava visivelmente descontente, mas foi quando Dmitri Danilov falou: — Você tem minha benção. Dará um bom genro.

        Corre, soldado. Corre, tenente. Cuidado, cuidado. Saque sua espada. Aqui não é Moscou, aqui é mais longe, aqui é Manchúria. Levanta. O czar está chamando. Grande Pai, abra as portas do céu e da Manchúria. Nós não vamos abandonar essa colina.

       Cuidado, cuidado, granada.

       Granada...

        — Marina...
        — Sim — disse a menina sorridente.

        Os dois dançavam no canto do salão, o eco dos trombones da orquestra era tão estridente que os cristais do lustre tremulavam docilmente sob as cabeças de todos na gafieira. O prefeito era um bom dançarino e observava a todos com um vigor nada senil. Marina e Gravilo apertavam o passo da valsa, nunca faziam feio quando estavam juntos, mesmo Marina ainda sendo uma menina sardenta de quinze anos e Gravilo um manequim em dragonas e numa túnica militar. Os dois pareciam felizes naquela canção monolítica.

        — Faz dois meses que ando pensando nisso, desde que vim para cá. Sabe é meio difícil dizer isso, mas...
       — Ah, Gravilo Oleksevitch, estão tocando nossa canção...
       — Eu estou pensando que talvez nós...
       — "Em torno de nós tudo é calmo..."
       Nada mais tinha a dizer, a canção entoava em seu coração e pela primeira vez na vida Filipov entendia que estava apaixonado. Fingiu estar machucado na perna, tentou mover a bainha de sua espada e no espaço entre a lâmina e o couro retirou um artefato. 

       No meio do salão, sob o olhar desaprovador dos outros casais que desviavam dos dois que haviam parado naquela celebração. Oleksevich ajoelhou-se diante da jovem menina de cabelos escuros e rosto macio e branco como a neve e prostrado nessa posição meio servil, o tenente abriu a palma da mão com seus olhos claros de tanta certeza. Seus hábitos antes tão rígidos amaciaram-se depois de alguns goles de vinho e uma boa sinfonia;
     
      
       — Marina Dmitrevna, você me daria a honra de ser minha esposa?

       E Marina saiu correndo do salão para surpresa de todos.

        

        Corra, corra tenente. Cuidado! BUM!ZABUM! Rakalash cabum! ARRRRHHHHHHH!!!!! Corra, corram todos... Para as trincheiras, para as malditas trincheiras, corram das granadas, corram cossacos. Cuidado com os cavalos. Os cavalos! Meu Deus, cuidado, cossacos! Para o chão! Para o chão! Zzzzzzz BUM! 

       Corram para aquele buraco. AQUELE BURACO! Quê buraco? 



       Corram... corram... corram...

       Metralhadora. Ratatatatátatátáta´ta´ta´ta´ta. Morram seus diabos malditos. Pelo Czar! URRRRRRAAAAA!!!!!!  Cuidado. Zzzzzaaaabuuummmmmmm!!!!!!! BUM! BUM! Ratatatatáta´ta´ta´tatátátáta´ta´ta´ta´ta. ZzzsBOOOWM!"

       Tenente!

   
        Tenente....


         Tenente?


         "É claro que quero me casar com o senhor, tenente Filipov", sorriu-se Filipov no chão.

         " Tenente?"

         " Ele está sorrindo; Por que ele está sorrindo?"

          Os olhos não se mexiam a cabeça também não. 
           "Ele está bem? Ele sabe que temos que voltar?"

           " Ele nem sabe que perdeu as duas pernas agora... Ajude-me a tirá-lo daqui!"

            "Marina Dmitrevna... Marina.... " regojizou um pouco de sangue e fechou os olhos

            "TENENTE!"



A mãe querida está derramando lágrimas, 
Sua jovem esposa está chorando,
Todos estão chorando, 
Insultando o acontecido, amaldiçoando o destino! 




         


                                                                    1905

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

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