quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um conto de sábado a noite

     Trim! Trim! O tintilar do sino sacolejava como um vento preguiçoso aquela escura estepe de asfalto que varria toda aquela cidade. Trim! Trim! Não havia carros ou pedestres, tudo estava vazio e apenas um pedaço de papelão, de uma caixa qualquer, voava com o vento nervoso que sacolejava a cidade.

     Trim!Trim! Relógio irritante! De uma estação qualquer de trem, se acha especial só por marcar as horas com precisão, quem pensa que ele é? Um relógio atômico?

     Não, não era, era um simples relógio mecânico, daqueles bem antigos do início do outro século abismados com o tempo e tão pontualistas que chegava a irritar. Nem sequer era suíço, uma porcaria inglesa de uns cinquenta centímetros de raio que tinha um sino tão estridente que rompia os tímpanos.

     Trim! Trim! 20h00. E sequer um trem para passar... Pensava consigo se fosse em outra época, tipo a Itália fascista,  Mussolini era tão obcecado com o tempo que com certeza o trem não se atrasaria, mas é claro que ele não queria que os fascistas voltassem a andar por ai com as suas camisas negras gritando "Ave Duce! Ave Duce! Mussolini ha sempre ragione!". Não, realmente não queria.

      Eram outros tempos, outro mundo. Um mundo que não tinha mais espaço para ditaduras, a não ser da beleza: Pessoas usando óculos ray-ban, tênis da Nike e camisas da Adidas perambulando por todo o canto. Ele odiava tudo aquilo e odiava mais ainda os tipos esquisitos que se vestiam como malandros do subúrbio dos Estados Unidos que achavam engraçado bater em mulheres e falar besteiras como roubar pessoas e matar policiais.

     Não que ele fosse melhor, na verdade, ele se achava mesmo melhor; Usava terno risca de giz, uma gravata bordeaux de seda e uma camisa de colarinho branco virtuosa; tinha se esquecido como ficava bonito de terno.

      Fitou mais uma vez o mapa da estação e ajeitou o colarinho da camisa e o nó da gravata; que bela gravata.

      Queria que ela estivesse ali, a menina de quem ele gostava, mas não estava e ele aceitava isso; na verdade acho que ele sabia que ela não gostava muito de engravatados, o que era uma pena, porque ele ficava muito bonito de terno.

       Aquela estação de metrô era um esteio para o silêncio e solidão, ninguém falava entre si e ninguém sorria, tudo que só ouvia era o estridente som dos trilhos latrilhando com o peso e som cada vez mais sonoro do trem se aproximando da estação.

      "Estação Centro Metropolitano, desembarque à direita"

       Esperou o amigo que desembarcava no próximo trem e quando os dois se encontraram, começaram a bater papo no meio daquela estação. Estavam ali os dois como dois papa-defuntos debatendo sobre futebol ou qualquer outra coisa sem importância. Era um casamento que eles deviam ir.

      Um casamento... Tal palavra dava calafrios na espinha do rapaz, na verdade ele nunca gostou muito da ideia, mas tinha sido convidado pelo noivo em pessoa, então tinha que ir, não é mesmo? Fazia tanto tempo que não entrava em uma Igreja Católica, na verdade nem se lembrava, mas tinha a repulsa de pensar nos padres e nos ritos, mas quando entrou, sentiu pena das imagens do Antigo Testamento retratadas. Não, ele não era cristão, ele era ateu, mas tinha alguma educação religiosa e respeito pelo Antigo Testamento pelos anos que tinha sido judeu.

       Um casamento é uma coisa enfadonha, mas ele estava feliz por seu amigo ter encontrado alguém bom, e ainda por cima bonita. Também ficou com um pouco de inveja, quando seria a vez dele de tremer de nervosismo na frente do altar enquanto a esposa se atrasava?

       "Não tão cedo, eu espero", pensou consigo. Na verdade, até cogitou uma vez a hipótese de se ver casado com a menina de quem ele gostava, mas era tolice pensar nessas coisas, casamento não era necessariamente uma coisa boa.

       Ele já tremia de nervosismo pelo noivo, e suspirou aliviado quando a noiva entrou na Igreja e o seu amigo deu um largo sorriso. "Então é mais ou menos assim que um noivo se sente. É, é tensão para toda uma vida!"

       E assim coroando o amor dos dois, a noiva, vislumbrante, entrou na Igreja com a calda do seu vestido arrastando pelo piso de chenile vermelho, a Marcha Nupcial tocava a pleno ressoar dos trompetes. Nunca tinha visto uma execução tão bonita daquela música quanto naquele dia.

      O padre, embora ele não fosse com a cara da maioria dos clérigos, era uma figura simpática, amigável, que tinha uma voz de dar sono. Foi esse padre, baixinho e meio rechonchudo, que conduziu a cerimonia, dando voz a uma penca de preces litúrgicas que o nosso referido em questão não acompanhou.

      Quando ouviu  a prece do amor, descobriu sozinho que não era mera paixão que guiava os homens era mais do que isso, percebeu que era bonito sentir amor por alguém, embora fosse estranho. Ele sorria do jeito meio bobo que o seu amigo olhava para a sua esposa, mas aí se lembrava que fazia a mesma coisa com  a menina que ele gostava, que ele tinha o mesmo olhar e falava as mesmas besteiras.

      Quando o padre falou que amar era mais do que sentir atração física, mas ter uma conexão mental e filosófica com alguém, desejar o bem para a outra pessoa e se predispor a compartilhar, foi aí que o nosso personagem entendeu que ele estava amando, não de maneira romântica, mas sintética.

      Ele aplaudiu quando os dois noivos se abraçaram e se beijaram na frente do altar, mas sentiu um pouco de pena de si por saber que aquilo não era para ele, que ele nunca iria encontrar alguém que o fizesse tão feliz ao ponto de fazer aquela besteira que era se casar. Ou será que ele encontrou?

     Ele se sentiu meio confuso com tudo aquilo: Ele sorrindo e aplaudindo um casamento dentro de uma Igreja e não se importando com isso.

     Desejou em hebraico a felicidade dos dois e saiu despercebido na multidão sem aparecer no banquete em honra aos noivos, tinha ido ao casamento, era mais do que suficiente.

     Pegou o trem de volta, o último por sinal, e teve que lidar com alguns arruaceiros no vagão, mas felizmente nada aconteceu. Nada que o pudesse separar de sua querida e amada moça.

     Foi num comboio da integração e chegou meia noite em casa; Trocou de roupa e foi dormir, mas antes de dormir, rezou:

     "Baruch Adonai,

      Sei que não ando sendo um bom fiel do trato do povo de Israel com o Senhor. Mas Elohin, peço humildemente que leve em consideração uma coisa: acho que estou amando uma pessoa, faça com que ela seja feliz, por favor. Eu acredito no seu julgamento, só permita que ela seja feliz. Baruch ata Adonai, notên hatora"

     Ele tinha se esquecido muita coisa que tinha aprendido de hebraico, mas fez até uma singela prece; Contudo logo depois se resignou, ele tinha se esquecido que era ateu? Por que estava rezando? E estava rezando por outra pessoa e não por si?

      Ele fechou os olhos e se deitou: "O que anda acontecendo comigo?"

      E adormeceu na sombra da noite.

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