Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Prosa do mundo da lua

Deixei de ser menino
Deixei de beijar o sol
Deixei de desejar abraçar o vento
E não há maior tormento
Do que virar adulto

Hoje sou um pedaço de adubo
Brincando de olhar as estrelas
E flertar com a lua
Não passeio mais pelos anéis de Saturno
Nem jogo críquete em Plutão
Sou como um militar de coturno
Sem brincar de marcha soldado

Amanhã estarei velho
E não poderei correr atrás do tempo
Mas apenas contra o tempo
Meus cabelos ficarão brancos
E as rugas serão minhas esposas
Pois no bosque da perdição
Vou ficar tão velho e sem noção

Hoje e amanhã
Ficarei longe de você
Depois e antes do depois
Pois minha vontade é olhar as estrelas
E ainda encontrar um pouco de você

Vivo no mundo da lua
E o espaço é o meu palco
Beijo um dia ou outro seu retrato
Me deixe de fora, me deixe de lado

Deixei de ser menino
Deixei de beijar o céu
Brincar de caleidoscópio no céu
Ou de escrever histórias no papel

Estou me modificando
Ficando mais velho e rabugento
Procurando no pó do Big Bang
Um pouco da fumaça do cordel

Sou apaixonado pela ciência
Apaixonado pela matemática
que me distância cada vez de você
E calcula o quadrado da hipotenusa
Como a soma dos quadrados dos catetos
Que somos nós dois

Não sou mais menino
E brinco de desenhar números
Faço contas imaginárias
Com variáveis reais

Nunca deixei de ser adubo
De pensar com pensamento caduco
Pois no ciclo de nitrogênio
Todos nós morremos
para no fim ressurgimos de novo

Estou ficando velho
E cada vez caduco
Penso no jogo
Como esporte dos inúteis

A lua crescente
pinta o arco da estrela de seis pontas
Que por sua vez tece um anel ao cruzeiro
O Grande Cruzeiro do Sul

Nós somos pequenos pigmeus encolhidos
No frio de uma noite gelada
Dessas de final de junho
Início do solstício caseiro

Nós somos pequenos pigmeus escolhidos
para sairmos longe um do outro
Pois não há maior tesouro
Que imaginar que tudo é passageiro

Deixei de ser menino
Para me tornar um homem
Deixei de abraçar o vento
Para cumprimentar o tormento
Pois não há nada mais triste
do que olhar as estrelas
e só encontrar selva de cimento

Nenhum comentário:

Postar um comentário