A barba negra e espessa estava suja de neve. Seus olhos azuis não tinham qualquer tipo de expressão, estavam oblíquos, opacos, como se fossem feitos de porcelana. Sua jaqueta estava suja, com o odor característico do suor impregnado de vários dias sem lavar, mas ao mesmo tempo úmida por causa da neve que nunca secava. Seu semblante severo fitava o relento, ao fundo sentia o cheiro amargo de alho e beterrabas sendo cozidas no caldeirão de ferro.
Pegou sem entusiasmo uma garrafa de vodka e se escondeu do frio no buraco da trincheira. O rapaz carregava apenas uma pequena mochila de feltro e um velho fuzil enferrujado nas costas, ventava e aos poucos nevava de novo, sem cerimônia, encheu seu cachimbo de tabaco e caminhou sem entusiasmo pela vala da trincheira. Outrora ele ria com seus amigos, flertava com as mulheres e caçava confusão por esporte, mas naquele dia, ele era capaz de arranjar briga com qualquer um por mais um gole de vodka. Atirou a garrafa longe.
Ao chegar perto do refeitório improvisado junto à tenda de campanha, encontrou um piano incrivelmente intacto e metade de um balcão estilhaçado que servia de banco para a plateia de soldados que se sentavam esparramados pelo chão. Apesar disso, estava com um aspecto vazio, ele preferia desse jeito:
"Mais bebida pra mim", pensou consigo.
Ele que levava a vida por um fio não estava preocupado que só tivesse duas balas no cartucho, ele estava preocupado se alguém tivesse encontrado a garrafa com metade de licor de assis atrás do piano de parede. Ele estava feliz ao ter encontrado a bebida sem muita dificuldade.
Aos poucos, os soldados se serviam de borsch (aquela sopa rala de beterraba, rabanetes e um pouco de carne). Era o segundo ano de guerra, Mikhail estava cansado de andar sobre o campo minado e ouvir a distância os alemães ressabiarem as suas armas contra os desavisados.
O ano era 1916, o mundo estava prestes a se tornar completamente diferente;
domingo, 19 de maio de 2019
Mad Men
Mad Men foi provavelmente a série que mais me surpreendeu nos últimos tempos pelo teor ácido de sua história, o desenvolvimento elegante do seu roteiro e a atuação impecável dos seus atores. Recentemente assisti as sete temporadas na Netflix, e foi com um pouco de nostalgia que terminei o último episódio ano passado.
Mathew Weiner apresentou o projeto de Mad Men para HBO logo depois de terminar Os Sopranos, a famosa série da máfia que extrapolou as fronteiras e limites delimitados pela triologia de Francis Coppola, Godfather, e a série foi rejeitada. A despeito do sucesso de Sopranos, os executivos não queriam apostar em uma série sobre publicidade, eles realmente acreditavam que a audiência seria muito baixa; Erro deles.
Mad Men no primeiro episódio já mostra para o que vem, fala publicamente que vai se direcionar ao mundo da publicidade na era de Ouro, os anos 60. Centrada na figura de Don Draper, a série começa com o primeiro dia de Peggy, a nova secretária do diretor criativo da agência de publicidade Sterling Cooper.
Aí vemos a relação que se constrói de Don e sua secretária, que a despeito dos clichés, não tem nada de romântica, e sim de cumplicidade e complementariedade. Peggy torna-se muito mais do que uma secretária, ela se torna ao decorrer da série uma aprendiz, uma amiga e depois até uma potencial rival de seu chefe, demonstrando que embora a misoginia fosse tema recorrente nos anos 60, a sociedade estava mudando e os paradigmas sociais também.
Draper vive o sonho americano, tem uma excelente casa no subúrbio americano, troca constante de carro, tem uma família estável, mas insatisfeito consigo mesmo e com o seu presente, tem inquietações individuais graves; Por esse motivo ele toma atitudes questionáveis e essas ações acabam também se refletindo no seu trabalho.
Aos poucos criamos empatia pelos personagens do eixo principal da série, mesmo os mais questionáveis, e vemos a complexidade de cada um sendo exposta por seus dramas individuais; Mad Men não é uma série de mocinhos e vilões, pelo contrário, todo mundo tem um pouco dos dois. Desde o chefe que assedia a secretária, até a secretária que vence as fronteiras do machismo e se torna um contraponto ao papel que se esperava da mulher na sociedade da época.
Vemos uma evolução gigantesca de Peggy e de Don Draper no decorrer da série, vemos expostos de maneira (por vezes sutil, outras vezes explícita), temas como o racismo, a homofobia, a misoginia e a existência de realidades tóxicas no meio de trabalho.
Mad Men além disso nos premia com um cenário muito bem construído que é uma reprodução filedigna dos anos 60, seja nos figurinos, seja nos comportamentos (com os atores fumando cigarros de forma descontrolada e bebendo), seja nos eventos históricos que foram muito bem relacionados com a trama principal da série. Os anos 60 são a espinha dorsal da série, mas a série não depende de um recorte cronológico para se desenvolver, seus temas são atuais até hoje.
O mais interessante é a forma como coexistem discussões geracionais dentro da própria série, a geração que participou da Segunda Guerra dialoga com a geração baby boomer e a nascente geração dos anos 60 que está interessada na ruptura dos padrões e na contestação dos valores que as gerações anteriores construíram. Nisso temos o movimento hippie surgindo, o movimento feminista, o rock, a Guerra do Vietnã, a corrida espacial.
Prato cheio pra qualquer aficionado tanto em história quanto no mundo dos negócios, Mad Men (alusão aos Madison Men, os homens engravatados que perambulam pela Avenida Madison até hoje) é uma crua e fina alegoria de uma época tão distante de nós e ainda assim que está tão presente em nossas vidas;
De toda forma, é um prêmio visualmente falando que foi bem reconhecido pela academia, ganhando 15 Emmys ao todo (sendo que as 4 primeiras temporadas consecutivamente ganharam cada uma o prêmio de melhor série dramática) e 4 Globos de Ouro. As referências visuais remetem organicamente aos filmes de Hitchcock (a abertura é quase uma homenagem ao filme Vertigo) e ao estilo kirsch americano, com planos visuais abertos intercalados com closes e iluminações carregadas a depender da intensidade da cena a ser destacada.
O título em português da série é oportuno, Inventando Verdades, num mundo em que o conceito de Verdade é subvertido em nome de narrativas (Pierre Bordieu) e particularizado em favor de grupos específicos, Mad Men nos mostra que a manipulação de palavras, conceitos e imagens é um fenômeno antigo e muito bem pensado; Além disso nos mostra que a ausência de moral nos meios corporativos é tão disseminada que os próprios agentes participantes (tanto do processo criativo quanto financeiro) estão imersos e não percebem de fato que várias questões que eles próprios são submetidos cotidianamente são produtos do meio em que eles estão imersos.
Para quem teme ficar órfão com o término de Game of Thrones, fica aqui a minha sincera recomendação.
O medo
O medo é como um lago
Que se enche de água
E preenche todo o vazio
Com plena morosidade.
O vento que bagunça meus cabelos
Carrega a solidão passageira
Aquele que perdeu tudo por um amor
Agora está preso à própria liberdade.
Como um artista que inscreve
sua obra na folha, eu espero
Espero que o futuro seja melhor
Do que o próprio presente.
Sem o desespero inconsciente
Fecho meus olhos um momento,
O vento é violento.
As minhas ideias espalham-se no chão.
Sozinho e sem esperança,
Guardo pra mim o sentimento
E deixo os planos correrem
nesse ofício solitário que é viver.
Parcos momentos de felicidade
Agora são citações no banco da biblioteca.
O vício das grandes expectativas
Esbarra no quadrilátero das incertezas.
Viver é sozinho um ato revolucionário
E minhas ideias jogadas ao vento
São agora o escudo de quem hoje
Se dedica a vencer o próprio medo.
O medo irá fracassar,
assim como o sol apagará
o sorriso triste dos meus lábios.
Viva o medo, estude o medo
Beije o medo!Quando estiver forte
Chute e corra para longe,
Pois nada é mais belo
Do que enganar o próprio medo.
Que se enche de água
E preenche todo o vazio
Com plena morosidade.
O vento que bagunça meus cabelos
Carrega a solidão passageira
Aquele que perdeu tudo por um amor
Agora está preso à própria liberdade.
Como um artista que inscreve
sua obra na folha, eu espero
Espero que o futuro seja melhor
Do que o próprio presente.
Sem o desespero inconsciente
Fecho meus olhos um momento,
O vento é violento.
As minhas ideias espalham-se no chão.
Sozinho e sem esperança,
Guardo pra mim o sentimento
E deixo os planos correrem
nesse ofício solitário que é viver.
Parcos momentos de felicidade
Agora são citações no banco da biblioteca.
O vício das grandes expectativas
Esbarra no quadrilátero das incertezas.
Viver é sozinho um ato revolucionário
E minhas ideias jogadas ao vento
São agora o escudo de quem hoje
Se dedica a vencer o próprio medo.
O medo irá fracassar,
assim como o sol apagará
o sorriso triste dos meus lábios.
Viva o medo, estude o medo
Beije o medo!Quando estiver forte
Chute e corra para longe,
Pois nada é mais belo
Do que enganar o próprio medo.
Amor
Amor é um substantivo restritivo que às vezes tem função de advérbio, outras de adjetivo, mas estranhamente é visto como verbo. Verbo indica ação, amar é justamente ficar parado, repleto de dúvidas, com cenho fechado refletindo sobre a virtude de ser amado.
Amar não é um verbo intransitivo, na verdade depende de um objeto direto, quem ama, ama algo ou alguém. Os bancos amam o dinheiro, os políticos amam o poder, os sábios amam o conhecimento, os indecisos amam a incerteza. A incerteza é uma das coisas que por vezes me corrói, outras vezes me mantêm ativo, hoje esse verbo intransigente chamado amar organicamente toma reflexão e pede subordinação à minha própria consciência.
Fecho conscientemente meus olhos para os erros e encontros consonantais que tive por esses anos de juventude, repleto do hiato de vários anos, me permito sem explicações acadêmicas amar algo diferente, amar a mim mesmo.
O amor sempre foi uma oração restritiva para mim, eu amava uma única pessoa de forma intensa, mas aos poucos percebi que tudo isso era besteira. Eu não posso depositar um sentimento tão sólido em uma única pessoa, ciente dessa falha, tentei aos poucos repará-la: Amei à minha irmã como se fosse a minha filha, amei aos meus amigos como se fossem meus irmãos, amei os livros como se fossem meus amigos, amei meus pais como se fossem meus livros e amei meus dias como se fossem meus francos professores.
Mas amar uma só pessoa, nunca mais consegui fazer. Até porque meu coração teve momentos de grande sofrimento intercalados com momentos de degelo, e resisti à ideia de me permitir amar de forma romântica de novo. Foi quando desenvolvi o amor platônico pelo meu próprio passado, pelas minhas próprias recordações, sem embaraço, tomei gosto de explorar as memórias da minha juventude. Essa mesma juventude que enquanto jovem era insatisfeito e quando velho me sinto lisonjeiro de ter vivido.
Ter visto minha irmã nascer, ter vivido nove anos com ela antes dela falecer. Tudo isso me trouxe recordações intensas, da mesma forma que eu vi minha primeira namorada crescer comigo e sofri com a perda, da mesma forma que chorei quando a minha segunda namorada partiu desse mundo por suas próprias mãos, eu passei a amar meu próprio passado como pedaço de mim mesmo. Foi algo necessário de ser vivido.
Hoje ciente disso, tem dias que sou tomado pelo medo, medo não por mim ou pelas pessoas ao meu redor, mas medo do futuro. Futuro por sua inteira simplicidade. O que me reserva o futuro? Um monte de filhos e uma esposa? A solidão e fortuna? Ou a morte? Essa incerteza me incomoda, mas me sinto em paz porque tudo isso está nas mãos da pessoa mais preparada para lidar com essas incertezas, eu mesmo.
Ao mesmo tempo que amo o passado, rompo com ele, sigo em frente. Fecho meus olhos um momento e acordo desse sonho (que muitas vezes vira um pesadelo) e me torno diferente do que imagino que fui um dia. Hoje amo com leveza o pouco que tenho e à distância descubro que posso amar algo novo sem me desesperar a encontrar algo que seja meu;
Dizem que é assim que a gente encontra um novo amor, eu não sei, com medo de errar de novo, tenho receio de dizer o que sinto para uma pessoa que amo à distância, uma verdadeira coqueluche que surgiu agora que espero que passe tão rápido quanto ela apareceu. Amar é sempre mudar a alma de casa e por isso mesmo talvez amar seja um verbo irregular e irracional;
Amar não é um verbo intransitivo, na verdade depende de um objeto direto, quem ama, ama algo ou alguém. Os bancos amam o dinheiro, os políticos amam o poder, os sábios amam o conhecimento, os indecisos amam a incerteza. A incerteza é uma das coisas que por vezes me corrói, outras vezes me mantêm ativo, hoje esse verbo intransigente chamado amar organicamente toma reflexão e pede subordinação à minha própria consciência.
Fecho conscientemente meus olhos para os erros e encontros consonantais que tive por esses anos de juventude, repleto do hiato de vários anos, me permito sem explicações acadêmicas amar algo diferente, amar a mim mesmo.
O amor sempre foi uma oração restritiva para mim, eu amava uma única pessoa de forma intensa, mas aos poucos percebi que tudo isso era besteira. Eu não posso depositar um sentimento tão sólido em uma única pessoa, ciente dessa falha, tentei aos poucos repará-la: Amei à minha irmã como se fosse a minha filha, amei aos meus amigos como se fossem meus irmãos, amei os livros como se fossem meus amigos, amei meus pais como se fossem meus livros e amei meus dias como se fossem meus francos professores.
Mas amar uma só pessoa, nunca mais consegui fazer. Até porque meu coração teve momentos de grande sofrimento intercalados com momentos de degelo, e resisti à ideia de me permitir amar de forma romântica de novo. Foi quando desenvolvi o amor platônico pelo meu próprio passado, pelas minhas próprias recordações, sem embaraço, tomei gosto de explorar as memórias da minha juventude. Essa mesma juventude que enquanto jovem era insatisfeito e quando velho me sinto lisonjeiro de ter vivido.
Ter visto minha irmã nascer, ter vivido nove anos com ela antes dela falecer. Tudo isso me trouxe recordações intensas, da mesma forma que eu vi minha primeira namorada crescer comigo e sofri com a perda, da mesma forma que chorei quando a minha segunda namorada partiu desse mundo por suas próprias mãos, eu passei a amar meu próprio passado como pedaço de mim mesmo. Foi algo necessário de ser vivido.
Hoje ciente disso, tem dias que sou tomado pelo medo, medo não por mim ou pelas pessoas ao meu redor, mas medo do futuro. Futuro por sua inteira simplicidade. O que me reserva o futuro? Um monte de filhos e uma esposa? A solidão e fortuna? Ou a morte? Essa incerteza me incomoda, mas me sinto em paz porque tudo isso está nas mãos da pessoa mais preparada para lidar com essas incertezas, eu mesmo.
Ao mesmo tempo que amo o passado, rompo com ele, sigo em frente. Fecho meus olhos um momento e acordo desse sonho (que muitas vezes vira um pesadelo) e me torno diferente do que imagino que fui um dia. Hoje amo com leveza o pouco que tenho e à distância descubro que posso amar algo novo sem me desesperar a encontrar algo que seja meu;
Dizem que é assim que a gente encontra um novo amor, eu não sei, com medo de errar de novo, tenho receio de dizer o que sinto para uma pessoa que amo à distância, uma verdadeira coqueluche que surgiu agora que espero que passe tão rápido quanto ela apareceu. Amar é sempre mudar a alma de casa e por isso mesmo talvez amar seja um verbo irregular e irracional;
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
Assobio '18
A sombra escura paira sobre a cabeça
O sabor terroso invade o paladar
E sinistramente desce agridoce
O medo corrompe meus olhos
A frustração me atrapalha a pensar.
A separação cria um blend amargo
Entre a solidão e a saudade
Com notas de raiva no fundo da garrafa
Perder um amor tão vivo é sempre duro.
No despertar da noite a insônia aparece
A ansiedade ressurge e corta o coração
Como uma navalha corta a garganta
E abissal, meu desespero se torna largo
Cada vez mais delgado, como uma girafa.
Dou de cara com esse grande muro
Que é sofrer calado de vaidade
De amar sem ser compreendido
De viver sem ser correspondido.
A madrugada se arrasta em meio à chuva
E sem iniciativa bebo o sumo da uva
O vento bate nas arvores e assobia
E um assobio perverso do que é a vida.
O sabor terroso invade o paladar
E sinistramente desce agridoce
O medo corrompe meus olhos
A frustração me atrapalha a pensar.
A separação cria um blend amargo
Entre a solidão e a saudade
Com notas de raiva no fundo da garrafa
Perder um amor tão vivo é sempre duro.
No despertar da noite a insônia aparece
A ansiedade ressurge e corta o coração
Como uma navalha corta a garganta
E abissal, meu desespero se torna largo
Cada vez mais delgado, como uma girafa.
Dou de cara com esse grande muro
Que é sofrer calado de vaidade
De amar sem ser compreendido
De viver sem ser correspondido.
A madrugada se arrasta em meio à chuva
E sem iniciativa bebo o sumo da uva
O vento bate nas arvores e assobia
E um assobio perverso do que é a vida.
Hiato
Faz anos que eu não vejo
O silêncio como companheiro
Mas como hostil passageiro
Que me acompanha nas horas de dor
Como um gato que foge da chuva
Eu tento me proteger da tempestade
E vejo com tristeza o passar da vida
As pessoas partirem e só ter saudade
Em tempos tão difíceis, respiro devagar
Ergo meus olhos mais um dia e ando
Nesse grande deserto que se tornou a vida
Um grande marasmo que agride os olhos
Sozinho e trancado no quarto
Preso voluntariamente
Afastado do mundo, olho o horizonte
Sem expectativas, cheio de experiência
A dor de perder uma criança me corrói
Tão forte quanto soda caústica
Meus lábios ficam inertes, meus olhos se fecham
Tudo que quero é ficar mais um dia na cama.
Só mais um dia, mas a ansiedade não deixa
O vazio me incomoda, o desespero me toma
Só assim eu saio, mas nada faço, só vegeto
Em 24 anos, eu nunca esperei dizer isso
Mas eu sou apenas outro parasita inútil.
A solidão me carrega um peso assombroso
O fracasso me acompanha todos os dias
E sem entusiasmo eu sigo a vida
À busca de um oásis no meio do deserto.
Esse é o início do grande hiato
O silêncio como companheiro
Mas como hostil passageiro
Que me acompanha nas horas de dor
Como um gato que foge da chuva
Eu tento me proteger da tempestade
E vejo com tristeza o passar da vida
As pessoas partirem e só ter saudade
Em tempos tão difíceis, respiro devagar
Ergo meus olhos mais um dia e ando
Nesse grande deserto que se tornou a vida
Um grande marasmo que agride os olhos
Sozinho e trancado no quarto
Preso voluntariamente
Afastado do mundo, olho o horizonte
Sem expectativas, cheio de experiência
A dor de perder uma criança me corrói
Tão forte quanto soda caústica
Meus lábios ficam inertes, meus olhos se fecham
Tudo que quero é ficar mais um dia na cama.
Só mais um dia, mas a ansiedade não deixa
O vazio me incomoda, o desespero me toma
Só assim eu saio, mas nada faço, só vegeto
Em 24 anos, eu nunca esperei dizer isso
Mas eu sou apenas outro parasita inútil.
A solidão me carrega um peso assombroso
O fracasso me acompanha todos os dias
E sem entusiasmo eu sigo a vida
À busca de um oásis no meio do deserto.
Esse é o início do grande hiato
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Aline
Ela dorme num sono delicado de criança, ela fecha seus olhos pesados e abre a sua boca, a respiração fina toma o quarto inteiro com o abraço delicado de Morfeu numa noite de sábado. Aquela pequena criança que vi crescer diante dos meus olhos, cuja fragilidade e inocência saltavam aos olhos naquela maca daquele hospital, soube amaciar três corações duros de uma família rígida e sobretudo severa. Aqueles olhos grandes por cima das bochechas rechonchudas, o semblante ainda calvo da infância recém adquirida, ao tocar em suas mãos pequenas o irmão mais velho, quase quinze anos, toma para si a responsabilidade de ser tutor daquela criança que aparecia pela primeira vez ao mundo.
Aline, os pais sabiam que a infância daquela menina não seria fácil, mas todos de coração aberto adotaram aquela pequena criatura dentro daquela casa grande de três quartos. Aos poucos, aquele bebê chorão amanteigava a todos com seu sorriso sincero muitas vezes, sua disposição e sua iniciativa. Aline engatinhava pelo chão frio de madeira da sala quando pela primeira vez tentei com que erguesse seus olhos para o mundo, com passos frágeis e desengonçados, a criança que outrora foi um bebê, aprendia a andar insistentemente. Quando caía, não chorava, aprendia e tentava de novo. Quando soube que era a sua vez de andar e conquistar o mundo, ela desbravou a estante da sala, escalando nos móveis pesados e nas mesas do escritório do seu pai. Caminhava pelas escadas sob o olhar preocupado da mãe, muitas vezes se tropeçando no caminho.
Ao balbuciar, Aline aos poucos, com uma voz fraca começava a ter voz, depois a falar e depois a esperniar. Seus olhos eram antes a única coisa que espremiam suas emoções mais puras, agora palavras e apenas palavras a faziam conquistar o coração das pessoas com sua inteligência impar. Aline era uma criança madura, mas nunca se esqueceu que era uma criança, brincava de boneca, brincava de carrinho, a sua diversão era conviver com outras crianças. Mas infelizmente, na rua não havia outras crianças e em casa, apenas adultos. Sozinha e solitária, Aline cresceu.
Sem esperar nada dos outros, a pequena criatura mostrava a sua perseverança e voz. Aline repartia o dinheiro do seu lanche com as suas amigas, entrava nas brigas mais estúpidas para defender o que acreditava, se iludia com mentiras e nunca reclamava quando era enganada. Aline era um anjo que aos poucos crescia e aprendia a matemática, que antes tanto gostava e agora odiava. Aprendia a língua portuguesa com dificuldade, às vezes escrevendo errado, às vezes sendo corrigida pelo irmão educador.
Certa vez Aline disse que não gostava de História, foi como se tivesse partido meu coração, mas aos poucos, fui conseguindo trazer um pouco de seu coração para os livros, ela lia mitologia grega, assistia documentários comigo e gostava muito de jogar videogame. Foi com oito anos que ela me viu partir de casa, seu coração não aguentou, todos os dias Aline chorava. A dor da separação me tomou, mil quilômetros de distancia e a única comunicação que tinhamos era pelo computador. Aline ficou triste e deprimida, numa casa grande, sendo cobrada pelos pais. O irmão que sempre estava por ali, hoje não estava, não havia ninguém que a levasse para o cinema, que a ajudasse na lição de casa, ninguém com que pudesse conversar sobre o dia corrido na escola. Cada vez mais sozinha, Aline era uma rosa no meio do deserto.
As amigas se aproximavam e se afastavam conforme a conveniência, o pai duro, sempre cobrava o melhor desempenho da parte dela sem se importar se ela estava feliz ou não com a vida dura que lhe foi posta sob os ombros pequenos. A mãe, algumas vezes sobrecarregada, ficava incapacitada de vivenciar os momentos felizes com sua filha, e aos poucos sua saúde mental ficava dilacerada.
Aline às vezes não comia, ou quando almoçava era tarde. Aline quase nunca penteava os seus cabelos, e seus olhos grandes começavam a ficar cada vez mais fundos. Quando voltei a Brasília, Aline me recebeu de coração aberto e me abraçou, chorando com a saudade nos meus ombros. Nunca esqueci o seu amor puro, mesmo com as recriminações do meu pai, Aline sempre esteve do meu lado.
Quando continuei meu namoro às escondidas, Aline fez de tudo para que meus pais não desconfiassem que estava me encontrando com minha namorada e me dava conselhos mais sábios do que uma criança da sua idade poderia dar. Ela ficava sozinha nos finais de semana na frente de um computador, enquanto o pai sempre trabalhava e a mãe cuidava da casa. Era assim a vida de Aline, escola e casa.
Com nove anos, nove anos ela começou a ter sequelas do seu nascimento. Aline que tinha lutado pela vida numa encubadora, vivenciou a indecisão de estar com sua vida sob um fio, ela às pressas tinha feito uma cirurgia para descolar o estômago que tinha nascido com as paredes unidas, e por vinte dias não sabiamos o que seria feito de minha irmã. Em nove anos nada tinha acontecido, apenas a vaga lembrança da cirurgia ficava sob a forma da cicatriz no abdomen que tantas vezes ela quis esconder quando íamos para a praia, com vergonha.
Aline era feliz, era um anjo que queria o bem de todos nós. Aos poucos ela foi trazendo a humildade que tanto faltava aos meus próprios ombros, aos poucos foi trazendo alegria à vida sofrida do meu pai, e era o melhor recado do amor que minha mãe tanto tinha para com nós filhos. Aline era a alma de nossa casa.
Com nove anos, Aline partiu. Sob nossos próprios olhos, de maneira abrupta, sem qualquer sentido ou lógica. Das dores de estomago que achavamos que fossem gases ou mesmo intoxicação alimentar, a coisa evoluiu para algo mais sério, e os médicos não souberam tratar direito a despeito de todas as vezes meus pais a levarem para o hospital quando ela passava mal. Aline faleceu exatamente um mês antes do meu aniversário, vítima da incompetência humana, enquanto ela vomitava sangue e a hemorragia esvaziava seu corpo frágil de vida, eu presenciava meu pai chorar, minha mãe rezar e Aline, Aline, nosso grande anjo, manter a calma quando nós três não sabíamos o que fazer.
Aline sempre teve medo de médicos, sempre teve medo de hospitais e chorava quando lembrava das cirurgias. Ela aguentou a dor sem reclamar, sem falar, até que ela partiu. Num domingo à tarde, sob os olhos de todos, sem que nada pudessemos fazer para salvá-la. Ela só ficou nove anos conosco, nove anos maravilhosos e duvido que tenha existido criança mais inteligente e amável do que minha irmã, no leito de morte, Aline chorava, não pelo que ia acontecer consigo mesma, mas com nós que tanto dependiamos do seu amor para continuarmos vivos.
Hoje, quatro meses depois, tudo que vejo são suas coisas espalhadas pelo quarto intocado, que ela tinha tanto medo de dormir sozinha à noite, que tantas vezes eu aparecia para contar histórias. Seus brinquedos continuam nos mesmos lugares de antes, suas roupas dobradas antes ficavam espalhadas pela cama. Suas fotos são a única imagem do seu espírito bom e gentil que hoje traz um vazio incomensurável a olhos vistos.
Nunca mais irei encontrar com minha irmã no final do dia, nunca mais irei sair com ela para o cinema ou ensinarei que os romanos tinham destruído Cartago no final das Guerras Púnicas. Nunca mais terei a minha companheira de videogame, que sempre me convidava para jogar Minecraft com ela ou tampouco a amiga que por vezes só se importava que eu estivesse vivo ao seu lado e me abraçava sem qualquer motivo aparente. Aline foi a única pessoa que realmente me trouxe felicidade e ela partiu sem que eu pudesse me despedir.
Seus olhos grandes se fecharam para sempre, suas mãos pequenas agora estavam geladas e enquanto choravamos, ela se foi num caixão de mogno escuro, com um vestido branco e uma tiara. A terra encobriu os nossos sonhos e com um amargo sabor de derrota, enterramos minha irmã sem que ela pudesse ter aproveitado a vida. Nada mais de conquistas, Aline nunca iria ter namorados, nunca iria se formar, ter um emprego ou filhos. Tudo isso lhe foi tirado;
Sua paz de espírito e serenidade agora só serão recordações. Aline é a constatação que a vida nunca é completamente justa com as pessoas boas.
Aline, os pais sabiam que a infância daquela menina não seria fácil, mas todos de coração aberto adotaram aquela pequena criatura dentro daquela casa grande de três quartos. Aos poucos, aquele bebê chorão amanteigava a todos com seu sorriso sincero muitas vezes, sua disposição e sua iniciativa. Aline engatinhava pelo chão frio de madeira da sala quando pela primeira vez tentei com que erguesse seus olhos para o mundo, com passos frágeis e desengonçados, a criança que outrora foi um bebê, aprendia a andar insistentemente. Quando caía, não chorava, aprendia e tentava de novo. Quando soube que era a sua vez de andar e conquistar o mundo, ela desbravou a estante da sala, escalando nos móveis pesados e nas mesas do escritório do seu pai. Caminhava pelas escadas sob o olhar preocupado da mãe, muitas vezes se tropeçando no caminho.
Ao balbuciar, Aline aos poucos, com uma voz fraca começava a ter voz, depois a falar e depois a esperniar. Seus olhos eram antes a única coisa que espremiam suas emoções mais puras, agora palavras e apenas palavras a faziam conquistar o coração das pessoas com sua inteligência impar. Aline era uma criança madura, mas nunca se esqueceu que era uma criança, brincava de boneca, brincava de carrinho, a sua diversão era conviver com outras crianças. Mas infelizmente, na rua não havia outras crianças e em casa, apenas adultos. Sozinha e solitária, Aline cresceu.
Sem esperar nada dos outros, a pequena criatura mostrava a sua perseverança e voz. Aline repartia o dinheiro do seu lanche com as suas amigas, entrava nas brigas mais estúpidas para defender o que acreditava, se iludia com mentiras e nunca reclamava quando era enganada. Aline era um anjo que aos poucos crescia e aprendia a matemática, que antes tanto gostava e agora odiava. Aprendia a língua portuguesa com dificuldade, às vezes escrevendo errado, às vezes sendo corrigida pelo irmão educador.
Certa vez Aline disse que não gostava de História, foi como se tivesse partido meu coração, mas aos poucos, fui conseguindo trazer um pouco de seu coração para os livros, ela lia mitologia grega, assistia documentários comigo e gostava muito de jogar videogame. Foi com oito anos que ela me viu partir de casa, seu coração não aguentou, todos os dias Aline chorava. A dor da separação me tomou, mil quilômetros de distancia e a única comunicação que tinhamos era pelo computador. Aline ficou triste e deprimida, numa casa grande, sendo cobrada pelos pais. O irmão que sempre estava por ali, hoje não estava, não havia ninguém que a levasse para o cinema, que a ajudasse na lição de casa, ninguém com que pudesse conversar sobre o dia corrido na escola. Cada vez mais sozinha, Aline era uma rosa no meio do deserto.
As amigas se aproximavam e se afastavam conforme a conveniência, o pai duro, sempre cobrava o melhor desempenho da parte dela sem se importar se ela estava feliz ou não com a vida dura que lhe foi posta sob os ombros pequenos. A mãe, algumas vezes sobrecarregada, ficava incapacitada de vivenciar os momentos felizes com sua filha, e aos poucos sua saúde mental ficava dilacerada.
Aline às vezes não comia, ou quando almoçava era tarde. Aline quase nunca penteava os seus cabelos, e seus olhos grandes começavam a ficar cada vez mais fundos. Quando voltei a Brasília, Aline me recebeu de coração aberto e me abraçou, chorando com a saudade nos meus ombros. Nunca esqueci o seu amor puro, mesmo com as recriminações do meu pai, Aline sempre esteve do meu lado.
Quando continuei meu namoro às escondidas, Aline fez de tudo para que meus pais não desconfiassem que estava me encontrando com minha namorada e me dava conselhos mais sábios do que uma criança da sua idade poderia dar. Ela ficava sozinha nos finais de semana na frente de um computador, enquanto o pai sempre trabalhava e a mãe cuidava da casa. Era assim a vida de Aline, escola e casa.
Com nove anos, nove anos ela começou a ter sequelas do seu nascimento. Aline que tinha lutado pela vida numa encubadora, vivenciou a indecisão de estar com sua vida sob um fio, ela às pressas tinha feito uma cirurgia para descolar o estômago que tinha nascido com as paredes unidas, e por vinte dias não sabiamos o que seria feito de minha irmã. Em nove anos nada tinha acontecido, apenas a vaga lembrança da cirurgia ficava sob a forma da cicatriz no abdomen que tantas vezes ela quis esconder quando íamos para a praia, com vergonha.
Aline era feliz, era um anjo que queria o bem de todos nós. Aos poucos ela foi trazendo a humildade que tanto faltava aos meus próprios ombros, aos poucos foi trazendo alegria à vida sofrida do meu pai, e era o melhor recado do amor que minha mãe tanto tinha para com nós filhos. Aline era a alma de nossa casa.
Com nove anos, Aline partiu. Sob nossos próprios olhos, de maneira abrupta, sem qualquer sentido ou lógica. Das dores de estomago que achavamos que fossem gases ou mesmo intoxicação alimentar, a coisa evoluiu para algo mais sério, e os médicos não souberam tratar direito a despeito de todas as vezes meus pais a levarem para o hospital quando ela passava mal. Aline faleceu exatamente um mês antes do meu aniversário, vítima da incompetência humana, enquanto ela vomitava sangue e a hemorragia esvaziava seu corpo frágil de vida, eu presenciava meu pai chorar, minha mãe rezar e Aline, Aline, nosso grande anjo, manter a calma quando nós três não sabíamos o que fazer.
Aline sempre teve medo de médicos, sempre teve medo de hospitais e chorava quando lembrava das cirurgias. Ela aguentou a dor sem reclamar, sem falar, até que ela partiu. Num domingo à tarde, sob os olhos de todos, sem que nada pudessemos fazer para salvá-la. Ela só ficou nove anos conosco, nove anos maravilhosos e duvido que tenha existido criança mais inteligente e amável do que minha irmã, no leito de morte, Aline chorava, não pelo que ia acontecer consigo mesma, mas com nós que tanto dependiamos do seu amor para continuarmos vivos.
Hoje, quatro meses depois, tudo que vejo são suas coisas espalhadas pelo quarto intocado, que ela tinha tanto medo de dormir sozinha à noite, que tantas vezes eu aparecia para contar histórias. Seus brinquedos continuam nos mesmos lugares de antes, suas roupas dobradas antes ficavam espalhadas pela cama. Suas fotos são a única imagem do seu espírito bom e gentil que hoje traz um vazio incomensurável a olhos vistos.
Nunca mais irei encontrar com minha irmã no final do dia, nunca mais irei sair com ela para o cinema ou ensinarei que os romanos tinham destruído Cartago no final das Guerras Púnicas. Nunca mais terei a minha companheira de videogame, que sempre me convidava para jogar Minecraft com ela ou tampouco a amiga que por vezes só se importava que eu estivesse vivo ao seu lado e me abraçava sem qualquer motivo aparente. Aline foi a única pessoa que realmente me trouxe felicidade e ela partiu sem que eu pudesse me despedir.
Seus olhos grandes se fecharam para sempre, suas mãos pequenas agora estavam geladas e enquanto choravamos, ela se foi num caixão de mogno escuro, com um vestido branco e uma tiara. A terra encobriu os nossos sonhos e com um amargo sabor de derrota, enterramos minha irmã sem que ela pudesse ter aproveitado a vida. Nada mais de conquistas, Aline nunca iria ter namorados, nunca iria se formar, ter um emprego ou filhos. Tudo isso lhe foi tirado;
Sua paz de espírito e serenidade agora só serão recordações. Aline é a constatação que a vida nunca é completamente justa com as pessoas boas.
segunda-feira, 5 de março de 2018
Contra o neosalazarismo
Em 2016, o impeachment de Dilma Rousseff era dado como certo em todos os veículos de imprensa do Brasil. A despeito de 52% do eleitorado brasileiro ter optado em votar pela continuidade do governo da presidente Rousseff, o Congresso julgou a presidente por ter cometido crimes de responsabilidade fiscal numa artimanha engendrada pelo PMDB do Rio de Janeiro, tendo como cabeça, Eduardo Cunha. Pois é, na mesma época Romero Jucá, líder da bancada do PMDB disse em uma gravação as palavras que ficaram célebres no golpe jurídico-parlamentar de 2016:
Jucá - Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. (...) Tem que ser política, advogado não encontra (inaudível). Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
Machado - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel (Temer).
Jucá - Só o Renan (Calheiros) que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
Machado - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
Jucá - Com o Supremo, com tudo.
Machado - Com tudo, aí parava tudo.
Jucá - É. Delimitava onde está, pronto.
Pois é, ainda tem quem duvide que houve um golpe para colocar Michel Temer no poder, afinal de contas ele era apenas o vice da Dilma, ele foi eleito pelos 52%, etc, etc. Só que ninguém comenta que Michel Temer cometeu pedaladas fiscais esse ano, que ele tentou colocar uma Reforma da Previdência dizendo que o Brasil iria quebrar e fez uma renúncia fiscal de 40 bilhões de reais, conforme as fontes mais conservadoras: http://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/temer-abriu-mao-em-2017-de-r-40-bi-com-perdao-de-dividas-e-isencoes-fiscais-ccsoktsk4nczy4jr1oj5ytsd2
Sem falar no aumento absurdo concedido a deputados em emendas parlamentares para arquivarem os dois processos contra o "presidente"/ditador Michel Temer. Nisso, temos uma imprensa organizada no Eixo Rio-São Paulo, representada pela Globo, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo que constantemente mostra números e estatítiscas fabricadas pelo IPEA e o IBGE sobre a suposta recuperação da economia brasileira. O que é uma franca mentira, o Brasil teve uma queda de 3% no PIB de 2016, e em 2018 continua com uma queda acumulada de 2,3% em relação a 2016, o que um "economista" mentiroso chamou de crescimento de 4% tendo em vista que o crescimento de 2017 foi 1% superior ao negativo de 2016. Então, existe mal-caratismo de todas as partes.
Antes que incorra em um galopante petismo, Lula realmente não inocente, mas a acusação feita sobre o Triplex não tem bases legais convincentes para eventual prisão, assim como o julgamento do impeachment, de fato, hoje é mais claro ver o esforço hercúleo de José Antônio Cardoso em tentar utilizar o judiciário como meio de impedir o afastamento da presidente, só que ele era refém da camarilha institucionalizada representada sim pelo ministro Gilmar Mendes e com aval da atual presidente do STF, Carmen Lúcia.
Em ano de eleição, nós veremos a mesma repetição de sempre: Candidatos querendo se mostrar como inocentes, defensores da família e do crescimento da economia falando que merecem o voto do cidadão comum; Sendo bem franco, não é preciso falar que as delações da Odebrecht e da JBS pegaram todos os partidos políticos e políticos profissionais conhecidos, certo? O poder no Brasil é hereditário e patrimonialista, passa inclusive de pai para filho, não a toa que temos tantos Bolsonaros na política e tantos caudilhos crescendo como cachos nos rincões do Brasil.
A intervenção do Rio de Janeiro com as tropas do Primeiro Comando do Leste é uma mostra de como a democracia está na UTI, agora os militares têm o direito de governar e exercer o policiamento, o cadastro, prisões compulsórias e burlar os mandatos de segurança em nome da governabilidade, isso é uma farsa. O governo do Rio de Janeiro deveria ser retirado do Palácio das Laranjeiras depois que ficou mais do que provado que o PMDB carioca foi responsável por enormes desvios, pelo clima de insegurança pública e pela pauperização da economia carioca depois da venda dos campos de petroleo ao capital estrangeiro: Digo nomeadamente Chevron/ESSO.
Agora em 2018 teremos o Lula provavelmente na cadeia, o PT desaparecerá como partido e a eleição estará nas mãos de Ciro Gomes e talvez Bolsonaro. Bolsonaro tem uma legião de seguidores, irá continuar a defender o seu jingoísmo e militar contra os direitos das minorias, como gays, lésbicas, índios, além de quilombolas e defensores dos direitos humanos. A idolatria de Bolsonaro com figuras da Ditadura Militar como Ustra e a defesa apaixonada de seus eleitores, sobretudo jovens, mostra o quanto que nós historiadores falhamos em mostrar a memória de um país perverso, autoritário que chancelava a tortura e a insegurança juridica.
Mas Bolsonaro não irá ganhar as eleições. Digo isso porque essa eleição não será feita. Michel Temer não utilizou o caso do Rio à toa. É nítida a tentativa do PMDB em tornar o Rio como laboratório para a governabilidade de suas plataformas neoliberais, afinal, o caos da saúde pública e da previdência carioca foi um projeto gestado há muito tempo, e as medidas de austeridade levadas por Levy antes de se tornar Ministro da Fazenda foram justamente o que agravaram a situação. O PMDB é a maior ameaça ao Brasil contemporâneo.
Michel Temer se articula para criar esse novo pacto nacional, em que os empresários e os setores conservadores da sociedade, juntamente com os segmentos militares, os juízes e o alto escalão das oligarquias políticas irão limitar a voz do povo que continuamente é explorado em impostos abusivos e em retirada de direitos trabalhistas e direitos de aposentadoria. O governo retirou toda a plataforma de ensino básica existente para as disciplinas das ciências humanas, que incitam a reflexão e a crítica através da análise histórica e filosófica, nesse interim, eles alimentam uma propaganda falsa que incita o medo dentre a própria classe média.
Agora é inevitável também que nesse ano, o Michel Temer, um governante que não foi eleito, completamente impopular, tente usar dos mecanismos da máquina pública, a imprensa e o ódio disseminado nas redes sociais para implantar um mandato de segurança até o final desse ano.
Estamos a beira de um Estado Novo e Michel Temer está próximo a Antônio Salazar nesse processo. Uma modalidade elitista de autoritarismo, cristão, conservador e agrário. O Brasil está condenado para sempre a viver o lado mais perverso de sua história. Sem esperanças para o futuro, eu recomendo veementemente a imigração.
Eu, outrora, falaria para a juventude lutar e reivindicar os seus direitos, mas diante da inércia de nosso povo quanto às arbitrariedades cometidas pelo nosso próprio governo, assim como nossas instituições, além das violações dos direitos humanos, eu insisto, brasileiros, abandonem o Brasil. O Brasil foi usurpado pelas forças do capital internacional e os próximos anos serão horríveis principalmente para os mais pobres, a vanguarda progressista, bem como os movimentos sociais serão perseguidos, presos e silenciados. Estamos prestes a uma ditadura. E caso duvidem, observem os próximos três meses quando ficará mais evidente que a manobra do governo no Rio de Janeiro é justamente para fazer holofotes para a segurança pública.
Estamos condenados a sempre viver na expectativa do futuro, mas sermos tragados ao passado. Abandonem o barco, o navio está naufragando e não há mais remédio. Esse não é um fim romântico como o do Titanic, é o afogamento sistemático de um país inteiro. O Brasil sempre será refém da elite do atraso e do colarinho branco que remonta aos tempos da escravidão.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
Uma história do Capitalismo
O capitalismo como sistema econômico de multiplicação de riquezas é com certeza o mais revolucionário da sua história, desde a época de Marx até os dias atuais, as empresas e as corporações enriqueceram de forma estratosférica na multiplicação de riquezas sobre a exploração do trabalho de homens e máquinas, mas também pelo capital especulativo das bolsas de valores.
Embora o capitalismo mereça todas as críticas, devemos analisá-lo como um fenômeno histórico e nesse pequeno vídeo eu tento esboçar uma conjuntura histórica do capitalismo desde a Crise das Tulipas, passando pelo liberalismo, a Crise de 29 e o New Deal, as criptomoedas impõem desafios e por isso devemos analisar essa nova estruturação capitalista com calma.
Embora o capitalismo mereça todas as críticas, devemos analisá-lo como um fenômeno histórico e nesse pequeno vídeo eu tento esboçar uma conjuntura histórica do capitalismo desde a Crise das Tulipas, passando pelo liberalismo, a Crise de 29 e o New Deal, as criptomoedas impõem desafios e por isso devemos analisar essa nova estruturação capitalista com calma.
Bitcoin: Considerações
A Bitcoin é tida como a moeda do futuro, com o lucro estimado de 800% do ano passado para agora, a criptomoeda está sendo usada para pagamentos, contas e até mesmo pessoas estão recebendo salários em Bitcoins, mas essa nova moeda que parece ameaçar o sistema financeiro e os estados nacionais esconde negócios escusos desde sua interligação com a DeepWeb até a criação de uma bolha financeira.
Meu receio quanto às criptomoedas não esconde também o interesse de um novo sistema monetário que virtualmente está além da inflação e dos choques cambiais, acompanhem o meu vídeo abaixo e façam considerações nos comentários. Esse é um tema delicado porque envolve dinheiro e muitas pessoas são sensíveis à essa parte do corpo humano, mas precisamos ser francos, a criptomoeda é uma tentativa de modernização do sistema capitalista.
sábado, 2 de dezembro de 2017
Novo canal
Há muito tempo eu estava cogitando iniciar minha plataforma de youtuber, o blog não será descontinuado, mas essa é uma extensão do Troikamental e uma forma para trazer novos seguidores. Acompanhem o canal, embora esteja em nascimento, pretendo discutir uma enormidade de novos assuntos pelo Youtube.
O nome do canal é Relógio Histórico, e o primeiro vídeo é sobre a Grande Depressão e a Crise de 1929. É um experimento, mas espero que vocês gostem e gostaria de agradecer pelos acessos do blog, ter leitores fieis sempre é uma mostra que vale a pena continuando com esse projeto de seis anos. O blog pode não ser muito divulgado, mas é enriquecedor saber que pude fazer uma certa diferença na vida das pessoas, mesmo que pequena.
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