sexta-feira, 12 de abril de 2013

Pois é...

        Longe de mim se conserva meu amor de maneira fluida na sofrasia das palavras, se apaixona pelas palavras de pedagogos de ensaio e pensa na vida de forma tão inconstante que é deveras estranho pensar nessa sua característica mais angelical.

          Não, não era angelical. Mas mesmo assim conservo-lhe algumas emoções, confesso, embora eu fique hoje calado. Melhor assim, nesse maldito jogo emocional não é conveniente expressar tudo o que se pensa, tal como o pôquer é um jogo bastante irritadiço.

      Perto de mim, conservam-se as lembranças. Lembranças felizes e tristes, penso que nem tudo foi tristeza, baixo a cabeça quando lembro das besteiras que cometi, mas continuo caminhando. Meus pés hoje são livres e não mais dançam por ela.

       Se às vezes sinto culpa? Claro que sim, mas deixo-a bem para trás. A culpa é um fardo muito grande frente aos livros que tenho que carregar dali para cá todos os dias. Prefiro me dedicar  a escrever algumas páginas sozinho enquanto observo a vida passar de maneira melancólica sentado na cadeira do meu escritório.

       Deixo a tristeza e a depressão um pouco de lado. Puxei o meu colarinho de lado quando percebi que quase estava apaixonado de novo, felizmente, como tudo nesse mundo, tudo se cura quando se previne. Sim, essa é uma tiragem pessoal, mas não há nada de anormal, logo depois escreverei uma postagem bem racional para compensar essa tomada filosófica enquanto penso em seu sorriso angelical. Bem, ao passado deixo as teias das aranhas.

domingo, 7 de abril de 2013

A forma da escrita




       A forma da escrita


      Bem vejamos, como deve ser a forma da escrita senão a escrita pelo prazer da própria escrita. A escrita  de um texto deve ser uma coisa alheia ao rigor técnico de palavras impronunciáveis sem que suas ideias sejam totalmente expressas. A tecnicidade do texto transformada no rigor formalista destrói a magia da própria matéria da escrita. O autor deve ser claro e conciso.

      Em todo caso, nem por isso a escrita do texto deve ser relaxada, dando amparo a litigiosas anomalias escritas, aberrações linguísticas e assassinatos ortográficos. O rigor total deve ser evitado na grafia do texto, mas o total desleixo  deve ser abolido da criação do texto. Um bom redator é aquele que escreve pelo simples prazer de calejar as mãos e de passar horas a fio sentado defronte a um pedaço de papel, a escrita nunca deve se tornar ultrapassada, e um escritor que se preze deve se atualizar sempre.

      A montagem do texto não necessariamente precisa ser feita de forma linear, mas se desejas inovar na montagem, é conveniente ter a habilidade para tal. Deve-se esquecer a influência de alguns pós-modernos na escrita dos textos, afinal de contas, a total negação da lógica redacional arrasa  por completo a  estima do leitor pelo texto.

       A escrita de um texto requer o pleno domínio sobre o assunto, não se deve arriscar a escrever algo que você tenha total desconhecimento, dessa forma, se desconheces o tema, limita-te à ideia. O estudo deve ser a matriz que irá trazer a base da própria prática de um escritor diligente. Agora, se conheces o tema, estude-o cada vez mais até ficar totalmente farto do conteúdo.

      Não estou dizendo que a prática da escrita é fácil porque, afinal de contas, não é, entretanto a prática da escrita nos ensina magistralmente os nossos próprios erros e com eles aprendemos a totalidade dos nossos ritmos de escrita. Um escritor de boa capacidade escreve desde o passarinho que gorjeia no alto de uma árvore distante até os deleites mais particulares da existência humana.

      O movimento do texto deve ser constante e presente, o texto não pode ser tornar algo estático e sem movimento, de forma que represente sempre um ritmo narrativo que imponha um movimento ao próprio leitor. Se as palavras não indicarem um movimento na narração o tédio consumirá por completo o seu texto.

       O conceito de humor deve ser moderado, um texto de boa formação, pode conter humor, mas um humor inteligente e sutil, nada muito escrachado ou mesmo pesado. Quando o humor se torna rude, o resultado inevitável é a pauperização do próprio texto.

        Comparações devem ser ministradas com cautela em virtude do próprio modo com o qual o texto está sendo redigido, nunca escreva  que "os seus olhos eram tão amarelos como a música do Camaro amarelo",   isso é remover toda a narração prodigiosa que foi ou poderia ter sido feita.

        A escolha das palavras deve ser pensada  de forma consciente, não só por considerar que uma obra escrita deve ser comparada a uma sonata bem articulada, mas para trazer até mesmo um suporte ao leitor, a musicalidade das palavras ou das ideias deve emanar na mente do leitor e enraizar suas próprias palavras, dessa forma ele poderá até mesmo cantarolando suas palavras.

        Ao repassar ideias não force o leitor a ter leituras iguais às suas, explique bem a própria forma do seu pensamento, mas não force também nesse aspecto, afinal de contas, o leitor também não é burro. A tomada de ideias no texto deve ser trabalhada de forma refinada e totalmente bem pensada, assim como o uso de conceitos e argumentos. O ativismo político deve ser utilizado com cautela bem como enxertos pessoais do autor.

        O olhar do leitor nem sempre deve ser desfocado, mas vários pontos de vista sobre o fato podem ser colocados em questão, desde que se saiba ministrar bem tal coisa. Personagens secundários nunca devem ter seu  ponto de vista ministrado à frente dos personagens principais, afinal de contas, os personagens principais são o foco do próprio livro.

        A forma da escrita, seguindo tais parâmetros, pode levar a uma escrita boa e concisa  e até mesmo o aprofundamento da própria noção da passagem de ideias por meio das palavras, em todo caso, é conveniente que aquele que deseja dedicar-se a tal ofício compreender a total complexidade do próprio ato em si de escrever, bem como sempre ler sobre o papel da escrita quanto forma de arte. A escrita é uma arte antes de ciência, lembre-se bem disso que muitos problemas podem ser minimizados.

        Seguindo tais conselhos, é possível que alguém que ame escrever possa se tornar um bom escritor de textos.

Conselhos de um mero caçador de palavras

       Pode-ser que o tempo tenha marcado melodias risonhas sobre as  epopeias do grande caçador de palavras, que tenta entender os mistérios dos sorrisos meio encabulados e as rimas solenes das lágrimas mais desesperadas e suprimidas junto ao peito. Em todo caso é tão estranho pensar na narração dessas palavras sobre um fato tão recente quanto é  o passado presente.

       Passado presente, o  passado não definido, algo mais do que o pretérito imperfeito, que de imperfeito não tem nada, já que não está acabado. Tudo pode ser modificado é claro, penso nisso como uma lei existencial da própria ciência contemporânea. 

       Perdido nesse teor físico-filosófico tento entender os motivos da ilusão, da falsa felicidade, seguidas do desespero e da tristeza, em doses tão cavalares que trazem ao peito axiomas impensáveis a momentos atrás.   Logicamente falando, a existência de emoções representa um dos paradoxos da própria vida contemporânea onde, parando para pensar, a logicidade de nossa própria cultura, bem como de nossa sociedade não dá amparo a sentimentos tênues ou propriamente bem emocionais.

     Não creio que a lógica desse pensamento ressoe aos brados retumbantes de corações em pleno processo de desalento como o meu, em todo caso, o silêncio é tão taciturno que me leva a dedilhar por sobre tais teclas, afinal de contas, que mal há em filosofar?

      Não é maior que o mal de se amar, logicamente, pois as injeções de endorfina nos conferem um prazer tão incomum e tão viciante que é como se essa droga produzida pelo nosso próprio corpo consumisse o nosso raciocínio e reduzisse nossos pensamentos, deixamos de pensar em termos lógicos quando estamos apaixonados e isso cria metade dos problemas relacionados a isso.

       A lógica é o caminho pelo qual, acredita-se, levar o bem de alguma forma. Pelo tratamento lógico, não há motivos para a existência de guerras tampouco de diferenciações, mas quando as emoções afloram, tais ignomínias estão em aberto. 

       Não deve-se deixar levar exclusivamente por emoções, mas no meu caso, não se deve ter emoções por si só, as emoções trazem inúmeros infortúnios desconfortáveis os quais nem merecem ser mencionados. A apatia nem sempre é uma coisa que deva ser repudiada, ela pode fazer parte de uma corrente filosófica, onde a própria recusa em se importar com os outros demonstra a seriedade com que tal individuo encara a vida.

     A empatia traz sentimentos perigosos, como a pena e a culpa. A clemência é algo honroso, mas esses dois sentimentos não. Em todo caso, não estou dizendo que a ciência deva guiar o homem  para o futuro, não sou um louco tecnocrata, mas eu digo que a lógica tenta controlar meus atos frente a outros puramente emocionais.

      Um caçador de palavras deve se desculpar por tais deleites filosóficos, mas se acompanhou até aqui tais palavras, deve ter havido algo de interessante nessas linhas que não lhe fez rejeitar tal postagem. Lógica, emoção, ou empatia. Isso não importa muito. Há coisas inacabadas nessas linhas que não se resolvem com o passar dos dias, mas não devo frustrá-los com conversas pessoais de tolos como eu que possuem problemas em expressar a totalidade de suas  ideias.

      Verbetes condensados, digo que as emoções devem ser escusadas em virtude das próprias manias pessoais do redator despreocupado com a forma do texto que sou eu. Penso que se tivesse agido de  forma menos emotiva, menores seriam as tristes lembranças que me assolam todos os dias: Baixo a cabeça quando lembro disso, mas sigo em frente. Conselhos se fossem bons seriam vendidos que nem água, mas penso, caro leitor, que a despeito dessas divagações, você compreenda a personalidade que escreve tais textos da forma como eu tento entender aqueles que se dedicam à leitura de tais textos.

        Esse estilo tão pessoal de escrita está tomando vertentes tão vertiginosas que até Saramago teria problemas para se fazer entender aqui, em todo caso, creio que é conveniente me despedir de uma forma diferente de "Caro leitor, muito obrigado por sua leitura", mas sim como: "Caro amigo, boa sorte nos dias que estão por vir".

         Pareço meio depressivo? Não da maneira que enxergo minhas palavras, mas saiba você que eu agradeço ter desabafado, mesmo que não de maneira lógica, tais palavras. Até mais, caro amigo. Boa sorte nos dias que estão por vir.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Asilo de quadrinhos

       Sempre fui fã de histórias em quadrinhos, de tal forma que não mais me  contenho em simplesmente chamá-las de Histórias em Quadrinhos e sim HQs.  A minha primeira revista em quadrinhos, pasmem, foi de ninguém menos que o Capitão América: o mascarado em cores vibrantes que usava um escudo e lutava por "democracia, liberdade e pelo mundo livre". O Capitão América, sem dúvida, era o meu herói, bem antes de minhas paixões ideológicas e pensamentos avulsos.

       O número daquela pequena revistinha mal impressa, de folhas amareladas, datava de meados da década de 1970, no meio da Guerra Fria, não que eu fosse dessa época, eu, filho do Plano Real, nunca soube como pensar um mundo totalmente dividido, mas aquela não era só uma revistinha: Era um número especial, embora não entendesse por quê: Era quando o Steve Rogers deixava de ser Capitão América e passava a ser o solitário Nômade, "o herói sem pátria".


       Era tudo em consequência do Escândalo Watergate, mesmo assim, eu achei um pouco estranho uma revistinha daquele jeito, mas foi daí que nasceu me vínculo com o Capitão América. Em verdade, eu não sei se os senhores sabem que além de um grande símbolo do norte-americanismo, o próprio Cap. América possui uma parábola de um modelo de americano ideal: de família irlandesa que conviveu com os dilemas da Grande Depressão, que era fraco e ignorado pelas mulheres e apanhava dos mais "velhos", mas que no cumprimento do dever se torna um personagem sobrehumano, tal como os Estados Unidos, que de um pequeno país isolado e ignorado no início agora tomava para si o papel de superpotência.

     O próprio uso do escudo é simbólico, representa o papel "defensivo" dos Estados Unidos, onde o inquebrável escudo de vibranium seria tão inquebrável quanto o "escudo da democracia". O Capitão América é sem dúvida um herói ideológico, mas também um personagem de valores: Ele luta por um ideal, trabalha de modo justo e tenta não se prender a governos posteriormente.

    Como antigo membro de setores de esquerda latino-americano, eu sempre era inquerido por essa questão, mesmo assim, eu não via dicotomia em ser de esquerda e gostar do Capitão América, em todo caso, não me prendo só a isso.

      O Batman era outra revista que eu gostava muito quando criança, afinal de contas, o Batman era um personagem que se via deslocado na própria sociedade, mesmo sendo bilionário com uma penca de negócios, Bruce Wayne continuava a ser uma das figuras mais solitárias nas histórias em quadrinhos, talvez seja por isso que tenha me identificado com ele. Os comentários espirituosos do Alfred, as travessuras do Coringa, isso prendia minha atenção.

      Com o tempo passei a olhar o Batman com maior atenção, Bruce Wayne era uma paráfrase para que um milionário poderia também ser um herói, o que na época em que o Batman foi criado (década de 30) era importante, tendo em vista que a situação social decorrente da Crise de 29 aumentou os ânimos contra os grandes investidores americanos.

        Sociologicamente falando, a questão fica ainda mais difícil. Bruce Wayne centraliza a renda de Gotham em torno da sua mansão durante o dia, e à noite ele saí à caçada aos delinquentes que "supostamente" eram levados "ao crime" por causa dessa concentração de renda.

        Entretanto, deve-se comensurar que essa análise sociológica causa também distorções à análise sobre a figura de Bruce Wayne, afinal, ele era famoso no mundo dos quadrinhos por ser justamente um grande filantropo.

       Em todo o caso, eu continuo gostando do Batman, e sempre quando posso, eu leio suas Hqs.
      
       Dizer que Hqs não são o símbolo máximo de doutrinação e propaganda é reduzir bem as coisas, mas nem por isso elas deixam de servir ao entretenimento do público infanto-juvenil, e mais, elas também são manuais educativos para as crianças.

       Mesmo assim, as mães malvadas, quando veem que os filhos começaram a crescer (ou fizeram uma travessura muito grande) não hesitam em jogar as famosas revistinhas em quadrinhos fora. Um crime contra a infância de muitas crianças, e mais ainda contra a arte, tendo em vista que as  revistas em quadrinhos possuem em seus quadradinhos expressões diferentes de várias situações igualmente diferente, com narração e enredo.

         Não, mas não lembram desses detalhes. Não às culpo, as revistas concorrentes que plantam essas ideias, a Fuxico podia estar com a inveja da tiragem 900 do Batman e fez uma matéria mirabolante "dos malefícios da leitura das histórias em quadrinhos". Uma ação de inveja contra os próprios gibis.

           Gibi, esse termo tão coloquial e ao mesmo tão bonito que designa todas as histórias em quadrinhos. É deveras antigo, é verdade, data da década de 40, e designava nada menos do que "moleque, garoto", nada mais apropriado para época, afinal, nos anos 40 as revistas em quadrinhos eram realmente voltadas para o público infantil masculino, só na revolução dos quadrinhos na década de 70 que começaram a aparecer com força personagens femininas nas histórias, mesmo assim, ficou a um público muito restrito.

         Eu acho deveras triste quando num acesso de raiva os pais se desfazem das lembranças dos filhos, isso só alimenta a ideia de Freud, de que os maiores traumas decorrentes na vida adulta, são produto das ações descabidas dos pais na infância. Os quadrinhos contam uma história, uma trajetória de uma vida, e mais do que isso, uma trajetória e um pensamento de uma sociedade, por esse motivo eu milito em favor dos quadrinhos. 

        Se são ideológicos. Claramente que são, afinal de contas, são produto da cultura de massas, tal como os filmes de Hollywood e as músicas estridentes de cantores de segunda que desaparecem com o passar do tempo.

      Por isso que eu milito pela ideia de um asilo de quadrinhos, não um sebo, mas um asilo. Onde as crianças que cresceram, ou as mães em pleno acesso de raiva depositem os gibis para doação, para que as outras gerações conheçam o que se passava na época, e o que se pensava também. Essa falta de tato que até agora tivemos só serviu para apagar histórias das infâncias de várias pessoas, incluindo eu, não à toa, corro a sebos, para tentar garimpar as minhas revistinhas antigas, que foram também num acesso de raiva, jogadas fora.

         O asilo de quadrinhos seria o local onde as crianças poderiam visitar os "velhinhos", tal como em tese seria nos asilos de verdade, e se divertir com as revistinhas com o passar da noite. É uma ideia, mas que se fosse praticada, provavelmente daria muito certo.

As crônicas do Imperador Kim Jong Un (III)



Ele é um pássaro? ele é um avião? Ele é um míssil em processo de emagrecimento? Não, ele é Super Kim, o Pancho Vila sem o pancho nem a vila, o Superman depois de um dia no Mc Donalds. O Batman das frias e escuras madrugadas da Coreia do Norte.

As crônicas do imperador Kim Jong Un (II)


         O imperador Kim Jong Un tentando explicar o fato de ser imperador e ainda comunista

Enquanto isso na Coreia do Norte



PS: Esse pequeno quadrinho é de minha própria autoria: "As crônicas do Imperador Kim Jong Un".

terça-feira, 2 de abril de 2013

Tiras do Malgradado pensador

          Na longa epopeia de espírito lusitano tece o pequeno e delicado tecido de pano trabalhado. Vigor tomado de licor acabado, na longa conjectura da Hemingway Street quem toma Pessoa por nome rima como condenado, e na lira sem nexo procura trazer lógica ao desleixo musical da sinfonia gramatical.


        Gigante Adamastor é o malgradado dicionário que de maneira tão tristonha foi abandonado num imenso rochedo de desolação e de falta de conhecimento, cego de um olho, Camões, enquanto deixava a amada se ensopar nas águas salgadas, esqueceu-se de olhar para o deleite de covil ardil no panaceia tropical chamada Brasil, sabe-se que Portugal tem olhos para o Mar e mesmo assim não é de admirar que Camões se fez cegar ao enxergar a onerosa lógica de se ignorar as letras e as ciências.

       Do Tejo a Alegrete, escusado será dizer que na vinha coral afaga-se o âmago cultural e científico de uma simples questão vertical: quem me entende, entende; quem não me entende, que se entenda.

      Bruta prática filósofica de ignorar tudo à sua volta e o niilismo pontual tomaria de arrepios os longos e amaranhados fios das longas barbas retrançadas do velho Friedrich, que só tinha no nome um vernáculo imortal: Nietzsche.

      Niilista puro, era tão niilista que chegava a odiar o próprio niilismo. Anarquismo teórico de vigor errático é pensar que a despeito disso tudo o fosso mediático do âmago das letra toma tais formas que a total negação do estudo é uma forma de protesto.

      De total forma termino na lontra portenha o trio do pensamento: ler, ouvir, sentir. Nas profundas águas do mar salgado se esconde os mais fracassados navegadores e contornam o Cabo das Tormentas aqueles que enfrentarem corajosamente o gigante Adamastor, para enfim chegarem às Ilhas dos Prazeres portugueses.

Espírito de cromo

      Tão forte é o metal que faz tinir os nossos pensamentos depois do imenso carnaval, vem e vão com um grande vendaval, nessa lúdica memória dos tempos passados a grande história de longo traçado desenha-se em singelas palavras: Deverá ser escusar o lirismo prosopopeico dos vernáculos diletantes  na velha sincronia a rima que se prolonga em quadrilhas e sextetos quando digo o que tenho a dizer.

       Devo dizer que hoje é um dia como um outro qualquer, e tal como um dia qualquer espero que compreendam a natureza incomum dessa longa história sem muita harmônia musical, era mais uma Pathétique de Tchaikovsky do que uma serenata de Beethoven, mesmo assim nas curvas retílinas das músicas mais eruditas prolonga-se o tinir das letras nessa tristonha versão da findada máquina de escrever.

       Peço desculpas pela prosa meio poética e do fado circunstancial que veio do meu sangue lá de Portugal.

       Muito bem, hoje, como eu disse não é um dia a se levar em consideração, já que de excepcional não há de nada a não ser o nome de "hoje", nesse futuro passado o pretérito se alonga nas boas prosopopeias tempranas que surgem como persianas nas cortinas do conhecimento.

       O amor retira a graça de se brincar com as palavras, retira-nos o escudo do ponto e desentorta a interrogação para a mera e simples exclamação filosófica; EU TE AMO, nada mais expressa que um sentimento qualquer sem muita graça. Amar é apenas uma chama que se inventa como particípio de verbo incondicionalmente intransitivo. Os gramáticos não posssuem tão propriedade em escrever tais coisas, afinal tudo o que amam são as palavras.

      Eu também as amo, mas amo mais brincar com elas de vez em quando, quando não estou com nada para fazer, fico divagando sozinho o peso que cada palavra exprime a cada um de nós: Felicidade, tristeza, cobiça. Um sussurro no ouvido esconde um grande segredo ou se entrega à lascívia. Um gemido pode ser ao mesmo tempo de dor ou de prazer. O grito é o arquétipo da pura alegria ou da fúria.

       As palavras conectam mais do que simples sentimentos inexpressos na razão de nossa sociedade diferenciada, um beijo não pode ser mais do que um beijo, não pode ser mais do que uma forma de carinho, um choro é uma lágrima que circunscreve a face e explode o peito, e assim prossegue.

        Sorrio em pensar que antigamente a mais linda das expressões: A epistemologia da lógica, tenha sido deixado em desuso por deleites tolos de um jovem ainda apaixonado por ideais ou valores, ou carente de amor e reconhecimento, seja o que for, a verdade é que a epistemologia voltou e com ela se dilapida um longo ciclo passado.

        O espírito de cromo se insere mais uma vez, sobre os homens de ouro, prata e bronze e filósofos desvairados que nada mais fazem do que especular, tem agora uma faixa rígida e laminada, tem uma face espelhada e nessa família de metais de transição o passado se deixa levar, o que antes era permeável à falta de ar de alguns suspiros, hoje é resistente até mesmo à ferrugem das novas ideias.

        O espírito cromado é duro, mas muito maleável, de tão maleável pode ser sensível, e no curtimento filosófico cai por terra a ideia de que a fusão em liga metálica com pessoas de ouro e prata trará maior valor ao pobre cromo prateado que se prolonga na mente aborrecida pela hecatombe amorosa de tempos passados.

         O cromo se prolonga é o revestimento da grande armadura do homem de aço, que não se ilude com besteiras e está a par da própria dinâmica das coisa, e, por isso, é um pária para si e para os outros. Filosoficamente falando o cromo deveria ser um metal tão nobre quanto o ouro é hoje, laminado por fora, frágil por dentro. Até que entendo o porque  da lírica tornar veredas tão sinuosas que abstraiam o real sentido das palavras e reflitam nada mais do que liras ao invés dos focos de luz que a cobertura metálica arrasta consigo.

          Na proselitista filosofia do amor, não há fiéis que não façam autoflagelação, cobrem de ouro as amantes, mas esquecem a importância de ter um espírito de cromo, e no fim de todas as coisas, nada mais lhes caem do que os louros corrosivos da ferrugem do amor ultrapassado. Moldado a esse tempo, digo que agora penso da forma como desejo ao pequeno fio de cromo que escoa pela dialética da própria vida.

        Não sei se me fiz entender, textos filosóficos são tão longos e tão cheios da falta de sentido que atraem o leitor de tamanha forma que chega a causar até uma grande repulsa, devo dizer que antes que me digam algo, falo em nome de mim e de minha escrita, que eu gosto de brincar com as palavras tanto quanto gostava de brincar com dialética indecorosa do amor, e talvez seja por isso que eu pense ser mais do que um simples gramático, afinal de conta a ferrugem das palavras não afetam xistosos espíritos cobertos com a face espelhada do clarividente cromo do passado.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

"Olá, eu me chamo fulano. E essa batata não me representa"

"Olá, eu me chamo fulano. E essa batata não me representa

      Não fui eu que a elegi como minha representante de calorias e ácidos graxos e ela não me representa. Ela faz mal a saúde e entope as artérias, ela não me representa".

     
      É claro que isso não é verdade, quem afinal não gosta de batata? Seja frita, purê ou na vodka. Todo mundo gosta de batata, mas não é de batata que eu estou trabalhando aqui, estou falando do jeito como os movimentos antis estão surgindo aparentemente do nada.


      A UNE nunca me representou assim como boa parte das lideranças estudantis, eu não os elegi, assim eles não me representam, mas ainda sim eles acham que me representam e promovem panelaços em nome dos estudantes e greves estudantis. Mesmo sem eu reconhecer a legitimidade que eles têm sobre mim. 

       Qual é a legitimidade que os nossos pais têm sobre nós? Parando para pensar, eu sou humano e eles também. Então porque eles mandam e nós temos que obedecer. Simplesmente por serem nossos pais, mas não escolhemos nossos pais.

       A representatividade não é uma questão tão simples assim. Respeitamos os nossos pais, pois culturalmente é desejável respeitá-los, mesmo que não tenham mais do que a autoridade de nos ensinar (eles não têm legitimidade nenhuma para nos matar, afinal, não somos posse deles), assim, como os políticos não têm maior autoridade do que legislar.

         Assim como os nossos pais nos ensinam errado de vez em quando (para Freud, tudo é culpa dos pais), os legisladores também legislam errado. Mas a questão é que diferentemente dos nossos pais, eles não podem legislar errado, porque eles são eleitos por nós, eles têm que prestar contas ao que pensamos e fazer tudo pelo bem comum.

          O problema é que são poucos que pensam na coletividade e apenas legislam por alguns grupos que lhe são caros, como os ruralistas que agem em prol dos latifundiários e produtores agrícolas, os líderes sindicais que agem em prol das suas bases nas fábricas, alguns líderes agem em prol da intelectualidade, de movimentos sociais, ou mesmo do Exército e assim vai. É um erro pensar que os políticos agem em prol do bem comum, pois não agem, eles agem no mínimo em favor dos seus grupos de base.

        Mas a questão fica cada vez pior quando as lideranças políticas param de agir conforme os interesses dos seus eleitores e agem em favor dos seus próprios interesses, a isso se dá o nome de corrupção. Mas não seria já corrupção, agir conforme os interesses de alguns poucos de um grupo frente ao interesse coletivo?

        Essa é a dialética da própria política como um todo, tão complicada como a questão do ovo e da galinha, mas a questão é que na democracia os mecanismos dessa engrenagem operam dessa forma e acaba que a democracia não é um governo de todos, mas o governo de alguns grupos que entre si legislam sobre todos.

           A despeito de todo esse papel de legitimidade, um problema incorre, a separação entre o Estado e a Religião. E essa questão não vem sendo muito respeitada, por sinal. É vedado ao Estado ter uma religião, legislar a partir de uma religião e propagá-la entre os seus cidadãos, contudo, é visível que algumas leis operam conforme os princípios religiosos de alguns legisladores.

          Não estou falando da questão do aborto, pois antes de ser uma questão religiosa, é uma questão teórica e filosófica. O que é vida? A questão é sobre os interesses de alguns grupos religiosos impõe sobre as leis do coletivo:
   
       Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje é proibido. Porque é proibido? Até agora por conceitos morais, é claro. A própria sociedade se recusava a tomar iniciativa sobre tais questões, era vedado até mesmo que alguns se apresentassem como partidários de tais opções. Mas tudo como na História muda, e hoje, a própria sociedade civil vê com um pouco mais de liberalidade essa questão, por essa razão ela está em discussão em muitos países, como na França e nos Estados Unidos.

            Entretanto, mesmo que essa discussão esteja sendo posto em aberto, isso não quer dizer que esteja sendo discutida de maneira séria. Oradores e argumentadores expressam sua desaprovação a essa matéria (do casamento homossexual) devido a isso "ferir as leis de Deus" e a Bíblia  o problema que na esfera de um Estado Laico, a própria Bíblia não pode ser interpretada como uma lei, é alheia ao organismo jurídico do próprio estado e deve continuar a sê-lo.

          A Bíblia não deveria ser levada à discussão por esse motivo, pelo menos em minha visão. Questões culturais sim, mas só se aplicarem aos próprios cidadãos em questão: Um judeu não deve ter ferido o seu shabat por ele próprio fazer parte de sua própria identidade, os islâmicos não devem ser obrigados a abrir mão de suas preces em árabe e assim vai. Mas os gays não necessariamente fazem parte de uma comunidade religiosa, dessa forma, não pode-se aplicar os estatutos das religiões a todos os indivíduos na sociedade.

         A discussão tem que ser coerente: Por que não ou sim à união de casais homoafetivos?  Quais são os motivos lógicos para a aversão aos homossexuais? Não estou falando em empíricos, estou falando em lógicos. Atentam contra a moral? Mas a moral muda com o tempo, assim como mudou no passado, em Esparta, bem como em Roma era aceito o infanticídio, hoje é moralmente inaceitável a agressão à crianças sobre qualquer forma.

     Motivos biológicos? Assim acaba com o surgimento de outras gerações? Não creio se essa argumentação teria tanta força assim, afinal de contas, a própria questão da explosão populacional anda ameaçando a própria dinâmica humana em relação ao mundo, seria até preferível advogar a favor dessa modalidade de casamento.

        Eu sou contra o casamento homoafetivo, assim como sou contra o casamento heterossexual, pelo simples motivo de ser contra o casamento como instituição social, julgo-a como uma modalidade de controle social demasiado repressiva, principalmente por prender os indivíduos a realidades artificiais e rígidas, deve ser o desejo dos dois indivíduos em mantê-los juntos que deve pautar a relação e não um pedaço de papel.  

          Entretanto não estou advogando para que todo mundo se separe e largue suas responsabilidades a pessoas que se constituíram na realidade do casamento. Quero dizer: os filhos. Não é porque não se está casado que você poderá negá-los, nesse caso os laços de sangue, bem como a ética como ser humano, levam ao compromisso do sustento e da educação dos filhos, mas não a sua propriedade, tendo em vista que é um erro bastante grosseiro considerar outra pessoa como propriedade sua: A escravidão acabou legalmente já tem muito tempo.

          Esse é o perigo do casamento de fazer pensar que o seu parceiro (ou parceira) é propriedade sua e você pode fazer o que bem entender. Isso não é verdade, a construção de nossa sociedade atual se baseia que todos os seres humanos nascem originalmente livres e devem assim se manter até o último dos seus dias, se não cometerem algum delito aos seus iguais.

          Considerando que homens e mulheres possuem direitos e deveres iguais, porque não estender tais direitos à outras modalidades de relacionamento e organização sociais? Se os gays (ou as lésbicas) querem contrair matrimônio, constituir famílias, é melhor deixar que façam, embora eu questione qual deva ser o lucro em se estar casado.

       Deve-se permitir que adotem filhos, desde que se demonstrem bons (ou boas) educadores(as), e saibam ser responsáveis por outras vidas. É inútil impor restrições a isso, é como varrer um vendaval. Entretanto é conveniente que tenham direitos iguais, e não privilégios acima dos outros, ou seja, cotas, pensões ou outras parafernálias jurídicas que rompem com a dialética da igualdade.

         E também não deve se exceder muito na questão, legalmente os homossexuais devem ter direitos de matrimônio assegurados, mas na esfera religiosa, isso não pode ser garantido, pois para algumas culturas isso seria dado como uma afronta e uma violação de seus próprios valores. Não pode também haver excessos na questão, ela tem que ser pensada de maneira lógica.

           
           Se existem argumentos lógicos para se opor ao casamento homoafetivo, que se expressem, mas que não se espelhem em paradigmas e preconceitos marginais, afinal de contas isso apenas tange ao discurso principal como um todo.

          É por isso que julgo perigoso que entidades religiosas se envolvam de maneira ativa na política, como o lobby existente das bancadas religiosas em várias democracias e sistemas pseudo-democráticos ao redor do mundo: Isso se torna visível nas bancadas protestantes nos Estados Unidos, na bancada evangélica do Brasil e a bancada da Igreja Ortodoxa na Rússia, e assim vai.

         O Estado deve ser alheio à religião para não se corromper como um Estado. Ele próprio deve ser ateu, tendo em vista até mesmo que ele não é um organismo vivo, ele é uma figura estática e por isso não deve ter crenças alheias além do seu papel de governar as pessoas, essa é a única legitimidade do Estado como Estado, legislar sobre os seus cidadãos enquanto deve assegurar-lhes direitos em contrapartida.

         Entretanto a própria racionalidade de alguns cidadãos é alheia a esse papel, ministra que um bom governante deve ser um "bom cristão", "bom judeu", ou "bom servo de Alá", isso é equivocado, nesse caso não é um governo de todos, mas um governo que uma maioria deseja sobre todos. Enquanto tais cidadãos não tiverem a mentalidade enraizada que o Estado não pode ser porta de entrada da Religião, surgiram mais Felicianos, Macedos e etc.

         A História se move e nem uma vassoura é capaz de varrer um temporal. Querendo ou não enquanto forem eleitos políticos representando grupos particulares, tais questões irão ressurgir com recorrência cada vez maior, isso poe em xeque se o Estado deve continuar como organismo controlador da sociedade, considerando a forma como ele é manipulado.

           Enquanto não paramos de fazer o discurso: "Olá, eu me chamo fulano. E essa batata não me representa", a mudança não haverá de vir. A lógica do nosso discurso se pauta pela lógica de nossas ideias, dessa forma, é conveniente fazer mais do que o discurso passivo da "não-representatividade" e lutar pela total representação dos  direitos dos homens como cidadãos.

Aprilis Primus

       1° de abril é reconhecidamente conhecido como o dia da Mentira. A origem do dia da Mentira supostamente tem a ver com Loki, o deus da Trapaça e da Zombaria, onde os nórdicos celebravam um dia em honra a esse deus. Verdade ou mentira, o dia 1° de abril  manteve-se na gama das superstições medievais  que  perduram até os dias de hoje.

         A mudança de calendário imposta por Carlos IX da França, rei da França, consagrada em 1564 estabeleceu que o ano legal do governo francês iria se iniciar no dia 1° de janeiro (no calendário gregoriano), enquanto o ano se iniciava em 25 de março normalmente. Para fazerem troça da medida do rei, alguns franceses propagaram a notícia que o ano começava no dia 1° de abril e começaram a boicotar o dia, inventando festas inexistentes e bailes mentirosos e a partir daí o dia 1° de abril se propagou como Dia da Mentira.

         Por que estou falando da história do dia 1° de abril? A história em si não é nada interessante, na verdade, é só para manter a introdução de um fato que aconteceu nesse dia: O Golpe/Revolução de 1964. Aos desconhecedores ou mesmo esquecidos, em 1° de abril de 1964 um golpe cívico/militar apoiado pelos veículos de imprensa e por setores da sociedade civil, desde a classe média, aos industriais de São Paulo, ruralistas do interior e os velhos politiqueiros de cena (como Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek) apoiaram a ação mobilizada do Exército em acabar com o governo de João Goulart.

É JANGO, J-A-N-G-O, sem o D mudo
       Então, qual é a novidade disso tudo? A novidade são justamente as mentiras que rondam a dinâmica do Golpe de 1964. Primeiro, a questão do nome "Revolução"", o nome revolução tem a ver com a dinâmica da astronomia, onde objetos cósmicos realizavam um movimento em torno de outro objeto, realizando revoluções em torno de um objeto. Assim, a Terra realiza revoluções em torno do Sol, mas nem por isso a Terra quer levantar uma bandeira e tomar o lugar do Sol como centro do Universo.

A Revolução dos Planetas em torno do Sol
       A apropriação do termo revolução tomou outra especificação, uma ressignificação do próprio termo. Revolução quer dizer a mudança completa da dinâmica social e política em contraposição à anterior, então, porque o Golpe de 64 não pode ser chamado de Revolução? Simplesmente porque não houve mudanças sociais significativas na sociedade brasileira, o campesinato continuou no campo (embora nesse caso o fluxo migratório já estava crescendo), o operariado continuou trabalhando na indústria, os industriais com as fábricas a produzir, os velhos políticos trabalhando na mesma dinâmica política, etc. 

        O caráter do Exército Brasileiro não é de nenhuma forma revolucionário, embora a Proclamação da República, em 1889, que também é encarada como um golpe, pode até mesmo ser encarada como uma revolução política (e não social), afinal mudou as estruturas políticas brasileiras de alguma forma.

         Enfim, esse é um dos equívocos sobre o golpe. Outro, tão grande quanto o primeiro, é dizer que o Golpe não teve apoio. Todo o Golpe de Estado bem sucedido necessariamente precisa de apoio para se legitimar, desde Hitler, Mussolini, Vargas ou Perón. Se não houver apoio popular, o apoio é fadado ao fracasso, Maquiavel mesmo dizia que o governo não pode ser feito apenas com as armas, mas também com a política, embora seja conveniente usar as armas de vez em quando. Napoleão ficou célebre com a frase "Pode-se fazer qualquer coisa sobre a baioneta, menos se sentar nela".


         Os militares sabiam bem disso, não à toa que Marcha da Família com Deus pela Liberdade reuniu milhares de donas de casa desocupadas, com vassouras e aspiradores de pó nas mãos para protestar contra o fraco governo de João Goulart. Antigos membros da oligarquias políticas remanescentes, como Adhemar de Barros, de São Paulo, e até mesmo o mineiro JK, apoiaram o levante dos militares (embora JK quisesse se tornar presidente de novo em 1965 até que foi cassado no meio do caminho).

Marcha da Família com Deus pela Liberdade

          Dizer que os comunistas ou os militares lutavam por democracia é uma puta sacanagem. Nenhum dos lados estava interessado nisso, a ótica da época era totalmente diferente da atual, a época era mesmo de um cenário político vazio e instável, promovido desde a trágico-cômica gestão de Getúlio Vargas que arrasou de certa forma o cenário político com a sua política clientelista de governo (não que anteriormente fosse muito diferente), assim a rigori com a destituição do cenário intelectual na política nacional, o caminho foi o radicalismo político de alguns setores, seja de esquerda ou de direita, associando isso à Guerra Fria, tudo isso virou uma receita de um banho de sangue.

        O PCdoB em um discurso atual que passa umas cinco vezes seguidas na TV demonstra total demagogia ao falar que tinha lutado pela Democracia. Isso é uma total mentira! No Araguaia, os guerrilheiros do mesmo Partido em questão estavam querendo instaurar uma Ditadura do Proletariado, todos estudantes canela-fina que nem eu, dizer que a Democracia era a meta de alguém que matava para instaurar uma modalidade de ditadura chega a ser criminoso, mas o discurso político é isso mesmo. (E ademais, o que um certo Genuíno fez para o seus companheiros no meio do Araguaia é uma tremenda mostra do que viria a seguir, mas não vou aprofundar esse assunto, que é por demais polêmico).
Olha as ideias molecada
       Mas o PCdoB não se interessa em tomar conta da própria análise factual dos fatos, afinal de contas, o que esperar de um discurso que coloca o Prestes como um ídolo, sendo que na verdade ele era odiado pelo próprio PCdoB (não à toa que boa parte do tempo ele permaneceu no PCB original), colocar o velho Niemeyer que era fervoroso stalinista (ao contrário de novo com a proposta do PCdoB) como um representante das ideias do seu Partido, e assim vai.

      Não era por Democracia que Esquerda Revolucionária queria, era derrubar sim a Ditadura, mas para estabelecer outra Ditadura, a do Proletariado.

       Assim como a direita também não queria democracia, o golpe foi um meio para que ela própria conservasse o quadro social em prol dos seus próprios interesses, e também alguns estrangeiros. Por falar nos interesses estrangeiros, os Estados Unidos não poderiam ficar de fora, não é mesmo?

"How many children did you kill today, LJ?"
        Ultimamente, um documentário tem ressoado nos campos da intelectualidade brasileira, para bem ou para mal, não estou julgando, é o documentário  "O dia que durou 21 anos", que fala sobre a participação da diplomacia americana bem como o governo como um todo no apoio ao Golpe de 64. Até aí é como descobrir a roda, todo mundo sabia disso, Lyndon Johnson sempre foi conhecido pelo o estilo de "delicadeza" (sarcasmo) diplomática que ele herdou do seu antecessor, Kennedy (o mesmo que estava disposto a destruir meio mundo por causa de uma pequena ilha no meio do Caribe). O mesmo Lyndon Johnson que todos os dias era assolado com a pergunta: "How many children did you kill today, LJ?".


        Não é novidade, a novidade é a declaração expressa que os americanos estavam prontos para agir em uma solução armada, mandando destroyers inclusive, para o Brasil, para apoiar os golpistas, não a toa que alguns brasileiros têm sentimentos esquizofrênicos quanto aos americanos (os admiram, mas os culpam por suas desgraças). Felizmente não se partir para tal opção, não que o velho Brizola não quisesse (o mesmo Brizola que fugiu na fronteira do Rio Grande vestido de mulher), ele estava disposto a mobilizar os batalhões no Rio Grande do Sul para lutar pelo governo de Jango.

        Estava disposto, até Jango... Jango, ainda no Rio Grande, disse que não e foi cuidar das suas cabeças de boi no Uruguai. Isso mesmo, suas cabeças de boi no Uruguai, quem disse que Jango não era rico? João Goulart era tão latifundiário quanto alguns golpistas, tinha uma parcela considerável de terras no Uruguai e no Rio Grande, mas de mil cabeças de gado (no mínimo). Como um latifundiário pode ser enquadrado de comunista?


         Isso tem a ver com o que Fidel fez logo depois de tomar o poder em Cuba. O pai dele, um ex-comerciante galego, tinha conseguido com muito esforço uma fazenda produtora de açucar em Cuba e quando ele morreu, deixou para os filhos. Fidel, simplesmente, quando declarou que a Revolução Cubana era comunista, nacionalizou a sua própria fazenda, que ele dividia com os irmãos. Os motivos ainda não são claros, talvez idealismo político, pragmatismo, ou ele não sabia gerir as receitas, ou mesmo não gostava dos irmãos, o fato que isso fez com que Fidel fosse tão popular, não só em Cuba, mas na América Latina como um todo.
"O velho MacDonald tinha uma fazenda, ia, ia ou"
          A esperança de alguns setores de esquerda era de que Jango fizesse o mesmo, mas claro que ele não faria isso. Sobrinho-político de Getúlio Vargas, filho do velho caudilhismo gaucho nascido com Borges Medeiros, João Goulart sabia o quanto era importante a ideia de ser um líder populista e ser amado pelo povo, enquanto não se desfazia de suas próprias coisas.

Getúlio e toda a sua quadrilha, ops, seus correlegionários. Jango tá no meio de terno preto
        João Goulart era popular sim, principalmente por ter sido na época de Vargas o Ministro do Trabalho e ter dado um aumento de 100% no salário mínimo e direitos trabalhistas aos trabalhadores agrícolas, coisa que as elites agro-industriais não gostaram nem um pouco, não à toa que ele perdeu a pasta logo em seguida.

        Jango era tão popular que foi eleito vice-presidente duas vezes, uma com JK e outra com o maluco do Jânio Quadros, e na renúncia do "professor hipster", assumiu o poder sob protestos da elite, e aplausos dos sindicatos.



        Isso era na época que os sindicatos tinham força, mobilizavam greves gerais e tal, não é como hoje, onde os sindicatos se submetem ao governo.

          Enfim, a conversa chegou ao ponto que eu queria que tivesse chegado. Quem plantou a semente do Golpe foi Jânio Quadros! Isso mesmo, a renúncia dele se traduziu numa tentativa de chantagem às elites para ter maior poder, onde ele ameaçava que se não tivesse poder, o odiado João Goulart iria assumir e fazer o que bem entendesse. "As forças ocultas" de Jânio não se convenceram e ele apostou alto, aposto no povo, pensou que ele iria correr em massa em prol dele... O povo não veio. 
"Ser presidente é muito mainstream, vou renunciar essa porra e ser hipster"




          Foi assim que Jango assumiu o poder, enquanto fazia uma visita à China Comunista, sob ordens do próprio Jânio Quadros, que maliciosamente iria usar esse argumento para legitimar o discurso que Jango era comunista e que precisava de apoio. A culpa do golpe não pode escapar de Jânio Quadros, o político mais medíocre da história brasileira.





          Enfim, Jango era um líder populista um tanto incomum, era popular (não tanto quanto Getúlio), mas não tinha força, cedia a ambos os lados e permitia que os seus detratores se comprazessem com a sua inépcia, não tinha o know-how político de JK e se cercara de políticos mais toscos que a encomenda (tal como Brizola, que era sofrível no jogo político e por demais demagógico).

         Assim, não chega a ser estranho o fato de Jango ter perdido a faixa de presidente, até mesmo porque o presidente, causava horror nas "recalcadas" (utilizando termo que normalmente as mulheres usam às que são invejosas), donas de casa que o viam correr de lá para cá com sua esposa, a ex-debutante dona Maria Teresa, que assumiu o cargo de primeira-dama com apenas 21 anos! e se vestia à la Audrey Hepburn (Atriz do filme Bonequinha de Luxo).



Andrey Hepburn, bela como sempre, e a primeira dama Maria Teresa, as duas realmente eram parecidas

       A primeira-dama era realmente bonita e isso causava a fúria das mulheres brasileiras, talvez a inveja de ter uma primeira-dama tão jovem e bonita tenha as movido a levantar as suas vassouras e partir para a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
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                                                                 ....
     O fato de Jango não ter aceitado o levante do Rio Grande do Sul é costumeiramente creditado pelo fato dele próprio não querer um banho de sangue. É plausível essa interpretação, mas é conveniente lembrar que o próprio João Goulart não era um chefe de guerra, não tinha formação militar e não teria capacidade em lidar com os militares, considerando ainda o fator que historicamente o Rio Grande do Sul sempre foi visto como pária por outros estados (afinal, foi ali que surgiu a Farropilha), a solução não seria boa.

     Sem contar que os Estados Unidos estavam dispostos a entrar na luta se preciso, a própria medida de João Goulart salvou o Brasil de uma fragmentação nacional, mas abriu chance para a perpetuação da Ditadura Militar. 

      A situação poderia ter ficado pior, tão próxima ao Vietnã, talvez, mas não devemos por isso encher de louros Goulart por ter renunciado, a crise que levou ao Golpe, também foi culpa dele que não conseguiu observar a situação política e nem mesmo contorná-la. A sua cegueira o levou à sua queda.

        Muito bem, sobre a dinâmica do golpe, era isso que eu queria dizer.

        Mas eu ainda pretendo continuar a discussão sobre a mentira:

       Como eu disse, alguns grupos políticos dizem que os militares fizeram um grande dever ao país em ter salvaguardado a democracia, isso não é verdade, a Democracia Brasileira já estava se esfacelando, eles só deram o golpe fatal. O golpe de 64 impediu, isso é verdade, que o Brasil seguisse talvez um modelo cubano, impediu que a esquerda stalinista tomasse maior vigor, mas instaurou uma ditadura do mesmo jeito.

       Enfim, 21 anos se passaram e uma democracia surgiu... Mas sem revolução. Isso mesmo, sem revolução. Os mesmos quadros políticos que permaneceram junto ao Golpe perduraram na política brasileira atual, desde ACM ao Sarney, algumas caras novas surgiram, pensadores outrora perseguidos hoje podem expressar suas opiniões sem o risco de perseguição (desde o FHC, que um dia foi marxista econômico, até mesmo Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL).

        Contudo, a dinâmica política de clientelismo continuou e até se intensificou. Quase cinquenta anos depois do golpe, há vinte e cinco anos da Constituição de 88, e a retomada da democracia, o prospecto político de 2013 caminha para algo próximo à fragilidade política de 1963-64: O clientelismo perdura, bem, como a desmoralização das próprias instituições democráticas, que veem com uma imagem muito abalada depois dos sucessivos escândalos de corrupção, bem como o paternalismo do governo e a crescente radicalização política de alguns grupos políticos.

Promessas vazias






        Para o futuro próximo a expectativa de golpe ainda não acontecerá, mas dentro de dez ou quinze anos, pode ser possível, principalmente se o Brasil manter a mediocridade histórica dos seus quadros institucionais, não resolver os seus dilemas da maneira esperada e perder a grande chance de uma janela oportunidades que vem se arrastando desde 2003.










        A esquerda radical hoje beija as cinzas de Chavez, amanhã quererá um Chavez para si. Enquanto do outro lado, os ruralistas e a bancada religiosa, que atacam criminosamente o estado laico de direito, colocam uma personalidade racista e homofóbica no cargo de Presidente da Comissão de Ética e Direitos Humanos.
Nada mais conveniente, eu sempre soube que a bancada evangélica sempre teve uma força política no Congresso, principalmente por ter um verdadeiro curral eleitoral nas igrejinhas medíocres nas favelas e no alto dos morros.



         A questão é que a situação do Deputado Marco Feliciano mexeu com minorias significativas no cenário nacional e por isso o desgaste, mas o desgaste dele nada mais serve do que válvula de escape para o desgaste ainda maior de outro personagem, Renan Calheiros, presidente do Senado e do Congresso Nacional, notoriamente acusado de corrupção e caixa-dois num escândalo envolvendo empreiteiras que pagavam a pensão da ex-esposa, Monica Veloso (aquela que foi capa de Playboy e tinha um programa medíocre no SBT) e que aparentemente todo mundo esqueceu.

           Nada mais do que comum, saí Sarney, Voivoda do Maranhão e duque do Amapá, que saiu por velhice  depois de tanto roubar, para entrar sangue novo e roubar mais uma vez. Enquanto isso, tem gente que fala que a democracia está desmoralizada, justamente por causa disso meus caros, o Brasil não aprendeu a lição do Golpe de 64, a não ser que dia 1° de abril é dia da Mentira, tal como todos os outros.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...