sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Uma tarde numa praia



         Olho para o mar, numa praia qualquer em Santa Catarina; encontro as águas revoltas e o céu cinzento, nublado.
         Encontro um banquinho, um banquinho qualquer, e nesse banquinho de concreto está sentado um velhinho. Estranho, o velhinho está de casaco e boina, nunca imaginaria encontrar alguém vestido assim de frente pro mar.

        Tenho vontade de entrar no mar, mas tenho medo da água me levar, tudo o que faço é pisar com os pés descalços na areia fina da praia. Percebo o velhinho, meio corcunda, me fitar com uma amargura no rosto, certamente devia estar pensando em como eu era jovem ou algo parecido; Eu senti pena quando pensei nisso.

         Nas pedras próximas à praia, um casal se aninhava numa toalha de praia, não faziam nada demais, mas mesmo assim me senti mal com aquilo, me senti tão mal que fui andar pela orla da praia. Florianópolis é a ilha da magia, desde que você não esteja triste.

       Caminhei ao lado das ondas revoltas daquele dia e encontrei um turista argentino correndo sem camisa na praia, eu nem sequer dei bola e continuei a andar pela orla da praia... As águas não eram mais tão verdes quanto costumavam ser, agora tinham uma coloração azul tão escura, tão desprovida de vida, que chegava a dar medo.

         O céu não estava melhor, acinzentado, sombrio, cheio de nuvens carregadas,  não ia demorar para chover... e não demorou. Caiu um temporal digno das narrações de Lusíadas e eu fiquei parado na praia. O casal saiu correndo, tentando se proteger debaixo da toalha de praia, o velhinho também desapareceu. Só fiquei eu e as águas revoltas de Santa Catarina.

         Eu gosto de chuva, sempre gostei de chuva. Lava a alma e libera minha mente, nada melhor do que numa praia isolado de todo mundo. É na chuva que posso sentir me libertar, é que posso ver que alguém ao menos "sente pena de mim", mesmo que figurativamente o mundo chorasse da minha infelicidade.

        Infelicidade? Infelicidade maior devia ter o velho com todos os seus anos de vida, ou o casal quando tinha suas brigas, eu infeliz? Sim, eu sou infeliz.

        Fui para perto do banco, me sentei no concreto úmido pela água da chuva... Comecei a pensar, pensar, refletir. Era aquilo o que eu queria? Viver sozinho para sempre, passar o resto dos meus dias como aquele velho, fitando com tristeza a juventude que se foi e que não se regenera.

        Eu queria ser mais do que isso, eu queria ser feliz, encontrar alguém com que eu pudesse repartir meus sentimentos, abraçar numa tarde como aquela, alguém que sorrisse de minhas besteiras e não se importasse com o que eu dissesse. Ah, essa pessoa não existe.

       Sozinho, nesse pedaço de paraíso ainda conseguia me sentir triste... Me sentia tal como o velho, sentado num banco olhando para a vida sem agir, deixando a chuva passar.

        — Senhor, não é seguro. Queira se abrigar! — Gritou um salvavidas de longe.

        Não, não a vida não era mesmo segura, sempre tinha os seus altos e baixos, e esse era um dos baixos. Mesmo assim quando eu vi os relâmpagos no céu, senti vontade de ir para o hotel, antes que o deus do trovão martelasse contra a terra a sua fúria. Como alguém consegue ser infeliz no paraíso?

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